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Trance quem puder

Outra materinha pra Bizz, que saiu na edição do mês passado, sobre trance…

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Comunidade planetária

O trance é um dos gêneros mais populares do mundo e do Brasil, mesmo que você não saiba o que seja, não conheça seus principais nomes e finja que não está cercado por ele

Se você, como eu e um número cada vez maior de pessoas (discotecar é o passo mais recente do DIY, não sei se você já se ligou), já se arriscou a botar som em uma festa que não seja exclusivamente freqüentada por amigos e conhecidos, provavelmente já se foi interpelado pela versão DJ do pedido “Toca Raul” que até hoje assola – mesmo que ironicamente – shows de bandas de rock Brasil afora.

“Toca psy!”, pede, cada vez mais, uma multidão formada por dezenas de milhares de brasileiros siderados por um dos gêneros mais populares do país. Caracterizado pela repetição de ciclos sintetizados derivada de uma fusão improvável entre um ambient mais experimental e uma house menos afetada e mais acelerada, o trance e sua versão mais populista, o psy-trance, movimentam cada vez mais gente não só no Brasil, mas no mundo todo.

O trance talvez seja um dos primeiros gêneros de música eletrônica pós-acid house a pisar em solo nacional. “As primeiras festas rolaram na Bahia e eram feitas por gringos que vinham passar o verão aqui em 93, 94”, conta Rafael Dahan, DJ residente e um dos organizadores de uma das maiores raves do Brasil, a Tribe. “Eu ainda destaco as atividades da Daime Tribe, como o festival Celebra Brasil no ano 2000, os festivais Trancendance em Alto Paraíso (Goiás) e os festivais Solaris de 2003 e 2005. Eles foram divisores de águas na cena e marcaram momentos de profissionalização e de desenvolvimento do gênero no Brasil”.

Além da Tribe, que recebe mais de 60 mil pessoas por ano em suas festas (em São Paulo, os eventos chegam até a 12 mil pagantes), outra festa tradicional é a XXXperience, liderada por um dos pioneiros do gênero no Brasil, o DJ Rica Amaral, que a fundou há dez anos, e que deve fechar 2006 com um público geral de 150 mil pessoas, que pagam entre 30 e 70 reais para passar horas e horas dançando sem parar. Isso sem que seja preciso trazer nomes conhecidos do público leigo ou fazer publicidade nos meios tradicionais, como guias de programação noturna, revistas ou cartazes pela cidade. Suas principais ferramentas de promoção são flyers, a internet e o boca-a-boca.

Mas ao contrário do que pode parecer, o trance não é um gênero esnobe e cultista onde termos em inglês como “cool”, “hype” e “fashion” pululam como onomatopéias do velho seriado do Batman. Aliás, o estilo musical está distante das colunas sociais dos (de)formadores de opinião noturna do país, onde é visto como um universo completamente à parte, às vezes cafona, às vezes ripongo. Altamente populista, o trance musical não é elitista e prega a tolerância e o espírito gregário, o que fez os cenários de suas festas aos poucos abandonarem galpões e clubinhos para ganhar parques, praias e serras Brasil afora – e seu público ser rotulado, rasteiramente, em uma personalidade eqüidistante entre as caricaturas do hippie e do playboy. O “trancêro” é visto de forma generalizada como um filhinho-de-papai que gosta de se embrenhar no mato, um maconheiro elite branca. Mas isso é tão correto quanto relativizar que quem gosta de rap é maloqueiro, que só dá pra ouvir música eletrônica tomando ecstasy ou quem gosta de Smiths é, no fundo, gay. Em uma palavra: burrice.

O trance está tão presente na sua vida quanto a axé music ou o hip hop – você pode até não gostar e fingir que isso não faz parte da sua rotina, mas com certeza conhece alguns bons amigos, parentes ou colegas de trabalho adeptos desta tribo enorme, que, além de migrar em massa para a Chapada dos Veadeiros (onde acontece a megarave Trancendance) ou para o sul da Bahia (onde Trancoso, há anos, já ganhou o apelido de “Trançoso” e raves como a Universo Paralello, que acontece na praia de Pratigi, em Ituberá, dão a tônica da região), ainda atrai estrangeiros da cena mundial para o Brasil.

Outro motivo para o trance parecer ausente do dia-a-dia dos que estão fora da comunidade é a inexistência de nomes de apelo popular e a dificuldade em se trabalhar comercialmente, para o grande público, um gênero musical que quase não tem vocais e cuja sonoridade é agressiva e repetitiva. Mas o gênero, que é musicalmente tão complexo, rudimentar e ruidoso quanto vertentes extremas do hardcore ou do heavy metal, aos poucos começa a ganhar os holofotes e DJs diretamente ligados ao gênero, como Tiesto, Infected Mushroom e Skazi freqüentam a lista de melhores do mundo da revista DJ Mag, a mais respeitada e celebrada votação eletrônica entre as publicações impressas.

“As pessoas geralmente nao entendem a construção da música, dizem que é muito barulhenta”, explica o DJ Feio, parceiro de Rica na XXXperience, “eu concordo, mas elas não sabem que dá um trabalho pra fazer um bom barulho”. “Pra mim, quem fala mal de trance é porque não conhece a fundo”, emenda Du Serena, também da Tribe, concluindo no espírito tolerante da nova tribo, “porém, gosto é gosto”.

Do Pink Floyd ao new trance

Embora seja possível traçar a origem do gênero em algum lugar entre “On the Run” do disco Dark Side of the Moon do Pink Floyd e o experimentalista alemão Klaus Schulze (trilheiro de filmes como “Síndrome de Andrômeda” e “Duna”, que, nos anos 80, lançou discos chamados Trancefer, de 1981, e En=Trance, de 1988), o trance começa como uma variante da acid house que, após um período de popularidade no final dos anos 80 (graças a hits da dupla de gênios-picaretas KLF, que juntou os elementos básicos do gênero), migrou para Frankfurt, na Alemanha, onde realmente nasceu como o conhecemos hoje.

O trance utiliza da repetição de oscilações musicais na mesma levada do techno ou da house, só que com uma velocidade de batidas por minuto muito mais alta. Aos poucos, e com a entrada do psy como sua vertente ainda mais popular, o gênero assume o posto que um dia foi do breakcore, do grime, do gabba e do jungle – música eletrônica para dançar extremamente barulhenta, usando os ruídos sintéticos no limite da tolerância auditiva repetidamente, criando o tal estado de transe que o batiza. A diferença básica entre os gêneros anteriores e o trance vem do fato deste não ser fruto de uma cultura de rua com referências de música negra, como os rótulos citados anteriormente. Sem batidas quebradas e com suíngue marcial, o trance é fruto específico do senso rítmico germânico. E a Love Parade em Berlim, evento que reúne um milhão de pessoas, cuja trilha sonora regula principalmente ao redor do trance, é o mais próximo de um carnaval brasileiro que pode acontecer em terras alemãs.

Mas o trance ainda é um gênero em formação e seus pioneiros estão atingindo a maturidade musical agora, justamente no momento em que os adeptos se reproduzem aos milhares. Junto com esta boa maré, surge mais uma “renovação” genérica do estilo que, diferente de suas vertentes populares, desperta o interesse cult que movimenta parte da música eletrônica para dançar. O new trance usa características e timbres do trance, mas sua cadência é mais lenta e sua estética, minimal, sem os excessos da cena mais roots. “É o antigo eurotrance repaginado e mais popularizado”, explica o DJ Feio, citando nomes do novo braço da comunidade planetária: Air Hustlers, Perry O’Neil, Cosmix One, Super 8 & DJ Tab e Hiver & Hammer.

Conhece? Nem eu. Ainda.

Rage fake

Outra resenha pruma Bizz do ano passado…

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Revelations – Audioslave

Lembro quando voltei de Cuba no começo deste ano, uma das notícias que se transmitia no circuito interno de TV do avião era sobre o show do Audioslave em Havana, na Plaza de La Revolución, que eu acabara de deixar para trás. Automaticamente me senti como se estivesse visitado o castelo medieval que pertencera a Jimmy Page e, antes dele, ao mago Alleister Crowley, imaginando quem poderia ser o substituto de Robert Plant caso Bonham tivesse sobrevivido às quarenta vódegas e o power trio quisesse continuar mais uma década, de novo vocalista.

Porque o Rage Against the Machine foi o Led Zeppelin de parte da minha adolescência (o da parte anterior foi, er, o próprio Led Zeppelin) – uma usina de força e de sonoridade angulosa, riffs que soavam como machadadas de ritmo no córtex, evocando os tribalismos primitivo, metaleiro, rapper e punk ao mesmo tempo. O fato de o vocalista ser um rapper em vez de um vocal “olímpico” (como o Tomate lembra de vozes à Dio, por exemplo) funcionava perfeitamente para aquele começo dos anos 90, pós-Beastie Boys e Public Enemy.

Mas com Chris Cornell nos vocais, algo derrapa – e feio. O som potente e agressivo da banda é jogado a um pântano grunge de soluções pop fáceis e toda modernidade irresistível do instrumental fica presa a uma espécie de tentativa de Dave Grohl via metal, um evil Peter Frampton que mal convence adoradores de bandas de casal (Jota Quest, Dave Matthews Band, Gram, Coldplay, Pearl Jam, Ludov e afins).

Revelations repete os mesmos erros (ou “acertos”, dependendo da sua definição de “bom gosto”) dos discos anteriores e mantêm-se na mesmice achatada dos vocais de Cornell – pretensamente ousados. A cada frase elétrica explicada pelo instrumental da banda espera-se a aparição gritalhona e funk metal de Zack de La Rocha. Mas em vez disso, vem o cantor da propaganda de cigarro, com aquele vocal emocionado e rasgado, aquele tipo de metaleiro poseur que pensávamos que Seattle havia ridicularizado de vez. Imagina o que o espírito do Crowley pensaria de um Led com, sei lá, Jon Bon Jovi nos vocais. Não é à toa que o Fidel até bambeou esse ano…

Mashup power

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Coluneta na Trip deste mês

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1 + 1 = 1!

Mais justaposições que habitavam apenas nosso subconsciente

“Don’t Fight It, Feel It” (Gameover’s Don’t Fight It Steal It Mix) – Primal Scream
Disco dominado por mashupeiros – tá lá o Team9, Fakeid, Go Home –, este Primalscreamremixed.com não existem nem mais no site que o batiza, mas anda flanando pelas redes de P2P do planeta. Consiste um retrabalho (por vezes noisy, outras cyberpunk) faixa-a-faixa no disco mais célebre do Primal Scream e, pra mim, o melhor disco dos anos 90, o Screamadelica. E nessa, Gameover funde uma das melhores faixas do disco com “Deeper Underground”, do Jamiroquai, e não só fica legal, como faz sentido! Neguinho sempre olha pros Warp e big beatters da vida e esquece de ver que até o pop mais tradicional foi diretamente influenciado pelo Primal Scream fase reive.

“Velvet Sugar” – Go Home Productions
Mark Vidler pega o piano martelado com batera e guitarra na introdução de “Waiting for My Man” do Velvet, deixa a voz de John Cale em “The Gift” narrar o comecinho da faixa, antes de deixar os Archies assumirem o vocal com “Sugar, Sugar” (“Aaahnn, honey-honey”, é, aquela da abertura daquela novela das seis que tinha um sujeito apelidado de Papagaio), o assovio de “Where’s Your Head At?” do Basement Jaxx e uns “yeah” tirado de algum disco de soul (ou de hard rock farofa?). Heresia? Total. Mas parece Jesus & Mary Chain, hahahaha…

“Hurts Like Teen Spirit” – DJ Dangerous Orange
A parte lenta do hit maior do Nirvana repetido ad eternum, enquanto entra Johnny Cash, grave, fúnebre, para abrir espaço, no refrão, para os vocais centrais de “Don’t Fear the Reaper”, do Blue Oÿster Cult, e algum beat de “Blue Monday”, do New Order. Uma salada daquelas improváveis, mas que aguçam o paladar auditivo ao colidir universos distintos – e ao mesmo tempo criando uma ambientação que faça sentido para os três grupos, country, hard rock, rock alternativo. Uma pérola.

Damn, Girl

Resenhinha do disco novo do Justin que saiu na Bizz de novembro

FutureSex/LoveSounds – Justin Timberlake
Ele vem sem muita conversa, sem muito explicar: “Faço o ‘sexy’ voltar/ Esses putos vêem como ataco/ Se a mina é a sua, melhor se cuidar/ Porque ela me quer e isso é fato”. O andar é robótico, o vocal assexuado, a letra ambígua – passiva e ativa, agressiva e submissa. Entra o produtor Timbaland na rima “Vem aqui/ Aqui atrás/ VIP” e Justin repete apenas “Go ahead, be gone with it”, ao acelerar a intensidade do encontro furtivo sobre um entrançado sintético de vozes, beats e timbres oitentistas que despe toda vulgaridade do R&B pós-Britney e veste-se impecável, na medida. “SexyBack” peita “Crazy” e “Steady as She Goes” pelo posto de single do ano com a marra conjunta do star-system dos anos 80: ombros de George Michael, falsete de Prince, língua de Madonna, pés de Michael Jackson. FutureSex/LoveSounds segue exatamente a mesma medida e separa a sensualidade da nudez, o sexo da cópula. Como os grandes registros sonoros deste 2006, o segundo de Justin não é pertence ao hip hop, à eletrônica ou ao R&B, e sim ao Pop com pê maiúsculo. Como a produção da dupla Neptunes do disco anterior antevia, o ex-N Sync é um artista do quilate de Eminem, só que troca a ironia e o humor cáustico pela classe e observações “maduras” e a putaria e a escrotidão pelo estilo e a finesse. Sem medo de dar certo, Justin reinventa-se melhor que Robbie Williams, Beyoncé, Ron Howard, Victoria Beckham, Ricky Martin, Macaulay Culkin ou qualquer outro astro juvenil que quis ser levado a sério depois da adolescência – seu único rival, ainda imbatível, é ninguém menos do Michael Jackson fase Quincy Jones. Sério candidato a disco do ano.

Vida Fodona #066: O primeiro de dois mil e sete

Pra começar o ano com os DOIS pés certos.

– “Magnificent Seven” – Clash
– “Pebble Beach” – Vince Guaraldi Trio
– “Verão Carioca” – Tim Maia
– “A Linha QUe Cerca o Mar” – Wado
– “It’s Summertime” – Flaming Lips
– “Higher than the Sun (7″ Mix)” – Primal Scream
– “Cool it Down” – Velvet Underground
– “Vitrine Viva” – Ira!
– “Near Wild Heaven” – R.E.M.
– “Middle of the Road” – Pretenders
– “Get Down Only” – Totom
– “ToxicSong” – Embriaguez de Sucesso
– “Hey Mr. Bichos” – João Brasil
– “Steppin’ Out” – Joe Jackson

Boraê.

Futuro preto

Essa entrou na Tesouros Perdidos daquela Bizz com o Lennon na capa.

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Eu Sou o Rio – Black Future
Entre a “Copacabana” de Dick Farney e a “L.A.P.A.” de Marcelo D2 há um imenso abismo. Afinal, o Rio de Janeiro mutou-se formidavelmente em pouco mais de 40 anos: de Acapulco do Sul à Favelópole pró-Garotinho, há mais do que um amadurecimento cultural ou uma decadência de estilo, como visões rasas poderiam supor. Quando o governo federal fez as malas para o cerrado prometido de JK, deixou a antiga maior cidade do país perdida, em busca de uma Ipanema que existiu mais no saudosismo de atuais sexagenários do que de verdade.

Mas, enquanto a bossa nova e o turismo procuravam novas opções, o Rio foi reinventado pela necessidade da juventude local – é preciso se divertir, afinal. Na década de 80, Zé Carioca reencarnou em Evandro Mesquita, Fausto Fawcett documentava tudo e Hermano Vianna ajudava o DJ Marlboro a inventar o funk carioca. Quando os 90 começaram, o mapa da cidade já havia sido redesenhado – cabia a bandas como Planet Hemp, Funk Fuckers, Second Come, Piu-Piu e Sua Banda, Soutien Xiita, Gangrena Gasosa, Dash, Acabou La Tequila e PELVs divulgá-lo, ainda que via underground, para o resto do Brasil.

Mas antes disso, apareceu um pequeno caroço no pop rock carioca. O rock dos anos 80 começava a se paulistanizar (roupas pretas, penteados pra cima, teclados soturnos, baixo slap, vocal falado) e a sombra desta nuvem negra veio parar do outro lado da Dutra: era o Black Future.

O grupo teve vários formações mas era reduzido à dupla Satanésio e Tantão que, como seus pares paulistas, tentavam entender – em alguns casos, imitar – o que estava acontecendo na Inglaterra depois do punk. Diferente de seus pares paulistas, no entanto, tinham o suingue do samba e o sotaque carioca.

O que não facilitava as coisas – pelo contrário. O som é quase sempre ruidoso, hermético, quadrado, kraut. Doses cavalares de pós-punk (Joy Division e Pere Ubu na veia) com eletrônica naïf, funk torto e baixo pronunciado, berros de pânico e desespero (Artaud no talo), guitarras que grunhem, gemem, guincham. “Não existe mais magia”, urra Satanésio, “os deuses acabaram”. Acompanhando a banda, músicos que ajudam a compor um cânone do experimentalismo pop brasileiro naquela década: o guitarrista Edgard Scandurra, Edu K e Biba do De Falla, o jornalista Alex Antunes, o poeta Chacal, o titã Paulo Miklos e a produção de Thomas Pappon, do Fellini.

Seu único disco lançado – Eu Sou o Rio, de 88 – é um ET na discografia brasileira lançada pelas multinacionais no Brasil. Figuraria mais nobre e plausível no catálogo da Wop Bop, por exemplo, entre o Harry e o Vzyadoq Moe. É quase incrível que uma gravadora que não tivesse apenas interesse estético no disco pudesse ter lançado isso por aqui. Um feito heróico – que só existe em vinil.

No meio do caminho

Resenha do Gossip que eu fiz pra Void, que o Cardoso tá editando em Poa…

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Standing in the Way of Control – The Gossip (Kill Rock Stars)
Entra no YouTube, digita “Standing” “Way” “Control” e “Gossip” e aperta o search. Um dos primeiros resultados é o clipe da música “Standing in the Way of Control”, cheque a descrição pra saber se é o clipe ou um show da banda Gossip, autora desta pérola. Escolha o clipe. Na hora em que o player embutido aparecer, clique pro pause virar play e espere a barra de carregamento completar, antes de começar a assistir – você não quer ser interrompido num momento desses. Solte e comece a ver um desenho animado toscaço e oitentista, que acompanha a surra de guitarras que abre a música (33 porradas, eu contei). Até que entra um baixo cavalgando o bicho disco music e aparece um baixista magrelo com uma máscara de ninja cobrindo o rosto, sobre um cromaqui igualmente tosco ao fundo. As imagens são péssimas (dentes escovados, um Yellow Submarine com a cara do Popeye, listras, a jarra do Ki-Suco), não há glamour nenhum. É quando entra o resto da banda: um baterista – que suspeito ser o mesmo cara que é o baixista –, um guitarrista metido a dândi (franja, bandana no pescoço, bleiser) e a vocalista, uma gordinha branquela com cara daquelas meninas que, tadinhas, foram muito zoadas do pré até a sétima série, quando elas começaram a andar com as meninas que ficaram gatas como escudo. Mas ela já entra cantando e com um vozeirão de fazer neguinho cair o queixo. Estamos em território punk-funk sim, mas invadindo a discoteca pela porta da frente e com um esquadrão antifake. É, os desenhos são feios, os caras são nerds, a mina é gorda – tudo apresentado sem pós-produção, After Effects ou botox. “Isso é a realidade”, parecem cantar, e completam, em uma única música, a lacuna entre a obra do Franz Ferdinand e “House of Jealous Lovers”, do Rapture. O refrão (essa frase de efeito emblemática – “Vivemos nossas vidas atrapalhando o controle”, mal-traduzindo) é cantado quando a surra de guitarras do início volta, atordoando a pista como um estrobo bate-estaca que deixa o colorido anterior preto e branco. Beth Ditto, a vocalista, se joga com tanta vontade que não nos faz desgrudar os olhos dela – sua voz flutua com a graça de uma diva soul e a fisgada de uma riot grrl. O disco segue o tom, mas a música, acima de tudo, causa sozinha. Uma das melhores do ano (em algum lugar entre “Crazy”, “Take Me Back to Your House”, “I Don’t Feel Like Dancing”, “Get Myself Into It” e “Steady as She Goes”), fácil.

Cult pop

Essa saiu na Simples do mês passado

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Complexidade pop

Superproduções hollywoodianas provam que dar nó na cabeça do espectador com roteiros sofisticados e edições não-lineares não é privilégio do cinema alternativo e/ou independente. Pop também é feito para pensar.

Imagine um filme com uma edição não-linear em que o protagonista uma hora é uma pessoa e mais tarde é outra, que convive com personagens que passam o tempo todo se drogando e falando sobre teorias da conspiração. Este protagonista é um policial e um fora-da-lei ao mesmo tempo (suas personalidades divididas como um dilema moral), que usa um traje que permite que ele se disfarce usando pedaços de outras pessoas, que mudam constantemente. Não bastasse isso, imagine que a estética deste filme é um desenho animado concebido após cenas reais com atores de verdade e que seja baseado em um livro hermético de um papa da ficção científica.

Este filme existe e chama-se “A Scanner Darkly”, lançado no meio deste ano nos Estados Unidos e dirigido por Richard Linklater, um diretor versátil a ponto de filmar um dos filmes centrais no gênero DR (a dobradinha “Antes do Amanhecer/ Antes do Pôr do Sol” com Julie Delpy e Ethan Hawke, vista como um filme só, compete com “Maridos e Esposas” de Woody Allen e “Closer” de Mike Nichols neste quesito) e alguns dos melhores filmes de rock da história (“Jovens Loucos e Rebeldes”, “Escola do Rock” e “Suburbia”). Baseado no livro de mesmo nome do escritor Philip K. Dick, a descrição de “Scanner” no primeiro parágrafo, por mais densa e confusa que possa parecer, faz sentido, mesmo parecendo impossível ou “infilmável” ao primeiro contato.

Isso porque vivemos uma época em que os filmes tornaram-se mais densos e complexos à medida em que os anos foram passando – sem detrimento para o público. Muito pelo contrário: num mundo bombardeado por informação por todos os lados e cuja complexidade de relacionamento entre essas informações torna cada dia em nossa rotina uma busca sem fim num labirinto de sentido, o cinema que se apresenta desta forma torna-se uma espécie de jogo mental para o espectador, que se submete a tais desafios como uma forma de se divertir.

A lista começa no meio dos anos 80, com filmes independentes americanos repletos de personagens que, quando juntos, parecem revelar um único protagonista – o grupo. De “Faça a Coisa Certa” de Spike Lee a “sexo, mentiras e videotape” de Steven Soderbergh; passando por “Veludo Azul” (e, mais tarde, a série “Twin Peaks”) de David Lynch e “Repo Man” de Alex Cox, os filmes aos poucos vão perdendo seu centro de palco e dividindo a atenção entre coadjuvantes que entram mais no holofote. O diretor Robert Altman se reinventou nesta época, enfileirando filmes populosos como “Short Cuts”, “O Jogador” e “Pret-A-Porter”, estabelecendo um novo padrão para filmes que se tornariam clichês na década seguinte.

“Penso nisso como se fosse um novo tipo de microgênero: um filme que dá nó na nossa cabeça, idealizado especificamente para nos desorientar, para mexer com a gente”, escreve o jornalista norte-americano Steven Johnson em seu livro “Surpreendente!” (Ed. Campus), antes de começar a enumerar. “A lista inclui ‘Quero Ser John Malkovich’, ‘Pulp Fiction’, ‘Los Angeles – Cidade Proibida’, ‘Os Suspeitos’, ‘Amnésia’, ‘Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças’, ‘Corra Lola Corra’, ‘Os 12 Macacos’, ‘Adaptação’, ‘Magnólia’ e ‘Peixe Grande’”, continua, “talvez você deseje acrescentar ‘Matrix’ a esta lista, já que sua genialidade encontra-se astutamente em implantar a estrutura de dar nó na cabeça dentro de um filme de ação excessivamente caro”.

Johnson, autor de livros como “Emergência” (detalhando a semelhança da auto-organização de formigueiros, programas de computador, cidades e o cérebro humano) e “A Cultura da Interface” (sobre como a invenção do mouse criou um ambiente inteiramente novo para a criação), dedica ao cinema um capítulo inteiro de seu livro, que começou como uma pesquisa sobre a facilidade com que as crianças lidavam com situações complexas propostas pelos videogames. “Eu originalmente vendi ‘Surpreendente’ para o meu editor como um ensaio sobre como os jogos eletrônicos estão nos tornando mais espertos. Mas quando eu comecei a escrevê-lo, os EUA estavam no meio de uma polêmica sobre a queda dos níveis da televisão devido à transmissão do mamilo da Janet Jackson durante o Superbowl e eu tinha acabado de assistir com a minha mulher os DVDs de ‘24 Horas’, ‘Alias’ e ‘Six Feet Under’. Alguma coisa entre esses dois fatos me fez parar para pensar que a televisão nunca foi melhor do que hoje! E isso se tornou um argumento para a cultura pop como um todo, não apenas os videogames”.

No livro, ele vai além dos filmes alternativos e/ou independentes citados e pede para que comparemos filmes como “Procurando Nemo” ou “Senhor dos Anéis” com “Bambi” ou “Guerra nas Estrelas”, para percebermos que a complexidade não pertence apenas aos queridinhos da crítica – e também invade o terreno dos arrasa-quarteirões hollywoodianos. Mas Johnson centra o foco na primeira categoria. “Alguns destes filmes desafiam nossas mentes ao criar uma rede espessa de linhas de enredo que se cruzam; alguns são provocantes porque ocultam informações críticas do público; outros desafiam inventando novos esquemas temporais que invertem os relacionamentos tradicionais de causa e efeito; alguns filmes ainda desafiam quando deliberadamente camuflam a linha entre fato e ficção”, continua no livro, antes de ressaltar que, “a propósito, tudo isso faz parte das técnicas clássicas da velha cinematografia de vanguarda”.

“A maior parte destes filmes rendeu mais de 50 milhões de dólares apenas em ingressos de bilheteria e todos eles geraram dinheiros para seus criadores – apesar de sua dependência nos dispositivos de narração, que poderiam tê-los classificados como cinema de arte trinta anos atrás”, finaliza Johnson, mostrando na prática a velha máxima em que o que era novidade no passado torna-se regra no presente.

“Depois que eu parei para prestar atenção neste aspecto da cultura, ele parecia estar onde eu olhava”, continua na entrevista. “E isso tem continuado desde que o livro foi lançado, particularmente com o enorme sucesso de um programa como ‘Lost’, que realmente encarna tudo aquilo que eu escrevi”.

Passar o passado

E essa é a coluninha da Simples que tá na banca…

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A verdade é que temos medo de assumir a responsabilidade. A maioria das pessoas prefere se refugiar em seu bunker online do que meter a mão na massa e fazer um mínimo. E isso dentro de um contexto coletivo em que o simples ato de criar solitariamente e comunicar esta criação para outros já é motivo para conexões improváveis e infinitas e novas possibilidades.

Mas não. Preferimos nos sentar em frente à tela e fingir que não é com a gente, e esperar que alguma solução venha em voz alta, cores agradáveis, slogan que nos impressione e preço, misturada com tanta notícia fabricada e entretenimento vazio que não conseguimos distinguir uma coisa da outra. Acostumados a pedir comida por telefone ou a apertar os botões do microondas, sequer nos levantamos para atender o interfone ou apagar a luz. Não importa se queimamos calorias em academias de ginástica, em LAN houses ou com uma vida sexual de fôlego atlético – somos cada vez mais preguiçosos e nos acostumamos a isso.

Veja o que está acontecendo com a indústria fonográfica, exemplo favorito. Virada do avesso pelo simples fato de uma série de inovações tecnológicas mexer com suas fundações básicas (que a música não pertence mais ao suporte – o disco), ela não está enfrentando sua principal ameaça de igual para igual. Todos aqueles que poderiam estar virando a mesa deste mercado estão apenas baixando música na internet ou comprando discos piratas, em vez de perceber a principal mudança e ir direto ao centro desta: hoje você não precisa de mais ninguém que te diga o que gostar ou não.

Mais do que isso, cada vez qualquer um pode fazer música. Se o “fazer música” já tinha sido nivelado por baixo pelo encadeamento rítmico entre a criação do rock’n’roll e a invenção do punk rock, o “qualquer um” vai ainda além ao pular da cultura do DJ para a geração laptop, que faz música com o mesmo prazer e afinco que qualquer jogador de videogame – mais do que “fazer sucesso” ou “estourar”, fazer música tem se tornado um desafio pessoal.

No entanto, baixamos gigas de MP3s como se soubéssemos, no fundo, que a farra da música grátis vai acabar e que logo tudo vai voltar a ser como era antes. Não vai. Mesmo que não façamos nada para mudar este cenário além de simplesmente não fazer nada, o mundo em que crescemos, de lojas de discos, astros do rock e pôsteres na parede simplesmente acabou. Consumimos artistas como meras grifes de atitude ou de sofisticação, rótulos que pregamos em nossas personalidades para agraciar nossos egos e exibir para amigos e desconhecidos.

Até quando? Até quando iremos apenas abaixar a cabeça e engolir o que estão nos mandando? Até quando iremos fazer apenas aquilo que esperam que façamos? As ferramentas estão à mão, o público é cada vez maior e mais ansioso (porque o público, na verdade, somos nós) e a insatisfação domina. Até quando vamos fingir que não é com a gente e que um dia, alguma coisa acontecerá e mudará tudo de uma vez – por bem ou por mal? Foi mal gente, mas o apocalipse redentor me parece a desculpa definitiva para não se fazer nada – religiões bem sabem disso, há milênios.

E se a indústria do disco já foi, Hollywood tá indo, a fábrica de celebridades rui em câmera lenta, o mercado de livros e as telecomunicações vem a seguir, seguidos de perto pelos jornais, a mídia como um todo, nossas noções de pedagogia e educação, a função do sexo, da religião, dos exércitos e dos esportes, a segregação entre Arte e Cultura, a execução do processo político e, finalmente, nossos valores econômicos. Um a um, iremos assistir a quedas de pilares que imaginávamos imbatíveis. E você prefere mudar de canal ou clicar num link do lado, para fingir que não irá participar disso tudo.

Porque você vai, querendo ou não. Resta saber se vai levar ou ser levado.

Depois eu falo mais disso.