
Maria Beraldo encerrou sua temporada no Centro da Terra nesta segunda-feira convidando seus compadres Lello Bezerra e Marcelo Cabral para tocar músicas que ela compôs depois do lançamento de seu primeiro disco solo, Cavala, e entre canções feitas por encomenda para outros artistas e estudos de músicas que ainda estão tomando forma, ela burilou seus rascunhos e mostrou o rumo que seu próximo trabalho pode tomar. Algumas canções estão completas (como “Baleia” que escreveu para o Delta Estácio Blues de Juçara Marçal, completamente desconstruída, logo na abertura do show, e “Truco”, composta para o filme Regra 34, de Julia Murat, e a inédita “Ninfomaníaca”), outras estão sem letra (como uma que fez para uma série que pediram uma música “meio Clube da Esquina”), outras têm apenas um trecho e algumas são exercícios instrumentais. Entre as músicas, Maria foi explicando seus contextos e traçando um possível rumo em que elas podem se encontrar num futuro – álbum – próximo. Foi lindo.
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Como sempre, um disco de Ava Rocha ganha novas camadas quando vai para o palco e, mais uma vez, ela foi além. Se seu Nektar gravado ao lado de Thiago Nassif e Jonas Sá já é um dos grandes acontecimentos musicais do ano, sua versão ao vivo abre novas janelas sensoriais a partir simplesmente da presença da cantora e compositora. A banda que ela reuniu (Chicão e Vini Furquim nos teclados, Gabriel “Bubu” Mayall no baixo, Charles Tixier na bateria e efeitos e Yandara Pimentel na percussão – uma banda sem guitarra) recriou o disco à risca, deixando-a à vontade para que ela o transcendesse. Ava é uma artista única e tem a capacidade de imantar o público com gestos e movimentos que, feitos por qualquer outro artista, não funcionariam. Ela consegue reunir qualidades do teatro, do cinema, do circo e da performance, colocando tudo a serviço de sua música, transformando gestos mundanos – como jogar papel picado pro alto, brindar cachaça, deixar a saia cair, equilibrar um copo na cabeça, enroscar-se num plástico – em sublimes. Completamente entregue, ela transforma seu corpo em veículo para a oração que é sua música e o néctar de purificação que extraiu de seu disco invadiu o público do Sesc Pinheiros neste domingo, grande parte dele formado por outros tantos artistas contemporâneos de Ava, todos bestificados com sua presença. Ela passeou por todo novo repertório e costurou com seus próprios hits (“Transeunte Coração”, “Você Não Vai Passar” e “Joana Dark”) com outros sucessos gigantescos (a trágica “Todo Mundo Vai Sofrer” de Marília Mendonça e o clássico samba “Conselho” de Almir Guineto, com a qual fechou o show), numa apresentação transcendental.
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Retomamos nossa sessão de jornalismo-fumaça na bifurcação entre Barbie e Oppenheimer e, depois de descobrir que nenhum de nós três havíamos visto nenhum dos dois filmes, descemos o desfiladeiro do The Doors guiado por Oliver Stone para chegar no vale do Conan que faz Tomate lembrar que voltou à academia, Vlad traçar um paralelo com o maconheirismo e eu misturar isso tudo com kardecismo e surrealismo. Daí partimos para o fim da contracultura, o antônimo de FOMO, as mudanças no Twitter, uma dieta de filmes de super-herói, o Hot Wheels do Lars Von Trier, cinetistas monstruosos, novos causos roleiros, o dia do Batman, bombas em bancas de jornal, os contemporâneos do Mussolini, Bloody Hell in America, a ansiedade provocada pelas redes sociais, grandes polêmicas que não duram 24 horas e como as grandes fortunas brasileiras começaram na escravidão ou na ditadura militar dos anos 60.
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Para encerrar as comemorações do seu primeiro aniversário, o Cineclube Cortina exibiu o Bacurau de Kleber Mendonça Filho sob o efeito de um poderoso psicodélico: um show dos Boogarins, que toparam o desafio de fazer a trilha sonora ao vivo para o filme de 2019. E qual foi a minha surpresa quando em vez de simplesmente criar uma trilha nova ou de improvisar em cima das cenas, o grupo goiano preferiu costurar suas próprias canções com momentos de viagens instrumentais, realçando algumas falas do filme enquanto elas aconteciam (função que ficou a cargo do guitarrista Benke Ferraz, que aumentava o volume dos diálogos em alguns momentos-chave da apresentação). Não sei se vão repetir esse evento, mas deveriam, pois o grupo conseguiu misturar seus próprios temas com os do filme de maneira muito sagaz – o filme foi pontuado pelas variações de “Lá Vem a Morte”, o herói Lunga é apresentado ao som de “João 3 Filhos” e o “Bichos da Noite”, de Sérgio Ricardo, foi revisitada em outras passagens, com mais de duas horas de transe goiano no pleno sertão verde nordestino. Uma noite histórica, que ainda viu o público do Cortina sentar-se no chão voluntariamente para que todos assistissem bem o filme.
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Davi Moraes celebrou o legado de próprio pai nesta quarta-feira, dentro do projeto Releituras proposto pelo Centro Cultural São Paulo, com a participação de velhos compadres. A começar pela própria banda, que entre músicos que trabalham há tempos com o filho de Moraes Moreira, ainda contava com o mestre Jorge Gomes, irmão de Pepeu, ele mesmo um dos Novos Baianos originais. Davi até passeou pela banda que colocou seu pai no mapa ao entoar “Preta Pretinha”, mas preferiu focar na carreira solo do saudoso baiano, em clássicos imortalizados por si mesmo (“Pombo Correio”, “Coisa Acesa”, “Sintonia”) ou por outros intérpretes (como “Eu Também Quero Beijar”, mais conhecida com Pepeu Gomes, “Bloco do Prazer” e “Festa do Interior”, eternizadas por Gal Costa) e hinos do carnaval como “Chama Gente” e “Vassourinhas” (que cantou ao lado da comadre Marcia Castro) e “Dodô no Céu” (que contou com Beto Barreto, do BaianaSystem, na guitarra baiana), além de tocar uma música do próprio Baiana, “Systema Fobica”, quando Russo Passapusso subiu ao palco para atiçar o público da Sala Adoniran Barbosa, emendando “Colégio de Aplicação”. Foi bonito.
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Casa cheia para assistir à mutação que o Glue Trip está se impondo a partir deste seu décimo aniversário. O grupo liderado pelo paraibano Lucas Moura contou com a direção musical de Zé Nigro (produtor do disco mais recente do quarteto, Nada Tropical) para amarrar canções de seus quatro discos (três álbuns e um EP) de forma linear e coesa no espetáculo 10 Anos de Psicodelia, que o grupo apresentou nesta terça-feira, no Centro da Terra. A apresentação faz o Glue Trip pensar em sua própria sonoridade a partir desta primeira década. O resultado foi um mergulho lisérgico em canções que bebem tanto da música eletrônica quanto da MPB dos anos 70 ao mesmo tempo em que o tempo todo convulsionam uma transformação musical que parte do envolvimento dos quatro músicos com seus instrumentos, fazendo as canções funcionarem como territórios musicais passíveis de exploração improvisada em conjunto. É o pleno processo psicodélico, quando os horizontes se expandem e deixam os instrumentistas libertos nestes novas camadas atmosféricas em formação. É aquele momento em que a música brasileira funde-se com o jazz, que o rock psicodélico aos poucos se metamorfoseia no rock progressivo e que os limites e gêneros musicais parecem desaparecer. Lucas (guitarra), Pedro Lacerda (bateria), João Boaventura (teclados) e e Thiago Leal (baixo) estão debulhando seus instrumentos e o entrosamento conjunto contagia o público. Resta saber o que a banda pode fazer a partir daí…
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Satisfação enorme de trazer a banda paraibana para o palco do Centro da Terra, quando comemoram uma década de atividade numa apresentação inédita em que repassam estes primeiros anos de carreira. Glue Trip: Dez Anos de Psicodelia revê os três álbuns que o grupo lançou desde 2023, misturando as referências musicais de sempre com outras disciplinas artísticas, como artes visuais e cênicas, numa apresentação inédita. O espetáculo acontece nesta terça-feira e começa pontualmente às 20h, mas os ingressos já estão esgotados.

Em mais uma edição do meu programa sobre música brasileira Tudo Tanto, chamo a maravilhosa Ava Rocha para falar sobre seu disco mais recente, Nektar, que acaba de ser lançado depois de ter sido gestado desde antes dos anos pandêmicos. Álbum sensível e multifacetado, o quarto disco da cantora carioca (que será lançado ao vivo no próximo dia 30 de julho, no Sesc Pinheiros) é o motivo para conversar com Ava sobre criação, inspiração e racionalização de processos sensíveis, que conta como o disco foi concebido entre viagens, pandemia e profundas reflexões individuais sobre ser artista.
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O MNTH de Luciano Valério abriu camadas e camadas de texturas sonoras em sua apresentação Partículas do Agora, que o produtor conduziu nesta terça-feira no Centro da Terra. Ele puxou o espetáculo sampleando sua voz enquanto a distorcia e disparava beats, abrindo espaço primeiro para a percussão de Sarine, para depois os synths e efeitos de Paula Rebellato e Aline Vieira, que também usaram suas vozes distorcidas para criar outras tantas camadas de áudio que iam se entrelaçando e se dissolvendo, bem com as projeções que Nathalia Carvalho fazia sobre os quatro. Quase uma hora de transe entre o sussurro e o barulho.
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Que prazer receber o trabalho autoral do produtor Luciano Valério, o homem por trás do selo Desmonta, no Centro da Terra, quando, nesta terça, ele antecipa o terceiro disco que lança como MNTH, Lume Púrpuro. O álbum que será lançado no mês que vem é resultado de uma pesquisa do autor a partir de timbres e texturas que levam o público a um ambiente de meditação e introspecção para contemplar o silêncio e o ruído como partes de uma mesma frequência sonora. O disco foi gravado ao lado de músicos como Mauricio Takara, Carla Boregas, Lello Bezerra, entre outros, mas para esta prévia, ele convida Paula Rebellato (sintetizador e eletrônicos), Sarine (percussão e eletrônicos), Aline Vieira (eletrônicos e efeitos) e Nathalia Carvalho (visuais) para criar uma apresentação batizada de Partículas do Agora. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados através deste link.