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Loki

A última vez que vi Tatá Aeroplano apresentar-se com sua banda foi no primeiro show que ele fez após a volta da pandemia, em 2022, quando lançou o disco Não Dá Pra Agarrar no Sesc Pinheiros. De lá pra cá, ele lançou mais um disco (o ótimo Boate Invisível, do ano passado), que só consegui ver ao vivo nessa sexta-feira e talvez no melhor lugar para essa experiência dionisíaca, que é o Picles. Impressionante a distância entre os dois shows. No de dois anos atrás, a banda ainda estava tateando aquele mundo pós-covid, inseguros daquele primeiro show mesmo tendo mais de uma década de intimidade. No Picles, a história era completamente diferente, e Tatá – o melhor guia para uma trip psicodélico – conduziu o público e seus músicos (uma trupe tresloucada formada por Dustan Gallas, Bruno Buarque, Malu Maria, Kika e Junior Boca, um combo de loucos) a um processo de derretimento psíquico à base de muita música, afinal aquela banda estava em seu ambiente natural. Completamente entrosada, a banda praticamente não trocava olhares para mudar de uma música à outra – e o quando o fazia, era uma cumplicidade latente que escorria em direção ao público, que berrava a letra de todas as músicas. O foco óbvio da apresentação era o repertório do disco do ano passado, mas à medida em que o show avançava, percorreu faixas do disco de 2022, do Delírios Líricos (quando puxaram uma versão alucinada para “Ressurreições” de Jorge Mautner) e do Step Psicodélico, cuja marchinha de carnaval que batiza o disco encerrou a viagem. Bom demais!

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Bahia na tomada

Jadsa e João Milet Meirelles começaram a revelar a próxima fase do duo Taxidermia nessa sexta-feira, no auditório do Museu da Imagem e do Som, mas ainda com os dois pés em sua primeira fase, ainda trazendo o clima de apocalipse industrial – que parece começará a dissipar-se a partir do disco de estreia, Vera Cruz Island, anunciado essa semana. Com imagens feitas por Gabriel Rolim, luz da Cris Souto e som da Alejandra Luciani, a dupla baiana encarou-se de frente para mostrar uma música de rua que soa tanto periférica quanto central, cutucando feridas e atordoando expectativas com bordoadas eletrônicas, samples acelerados, beats implacáveis, sussurros, versos e berros inquisidores, colocando uma sensação baiana na tomada e eletrificando sentimentos e sensações na marra. Além de tocar “Clarão Azul”, o primeiro single do novo álbum, que é uma uma boa amostra do que vem por aí.

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Varanda suspensa


Foto: Ágatha Flora (Divulgação)

Queridinhos da casa, a banda de Juiz de Fora Varanda lança seu último trabalho antes de começar a produzir seu primeiro álbum ao fundir duas músicas num mesmo single. “Leva e Vem” ainda é da primeira fase da banda e é uma das músicas mais densas de seu repertório e ganhou uma faixa irmã que mantém a mesma atmosfera – e junto com “Vá e Não Volte” as duas músicas registram essa nova cara musical do grupo no mundo fonográfico. A vocalista Amélia do Carmo explica que as duas faixas apresentam esse “lado mais soturno do nosso som em contraponto com os últimos singles, estamos animados para explorar esse e outros novos caminhos de sonoridade no nosso álbum”. O baixista Augusto Vargas concorda, inclusive sobre a qualidade do som: “Acho que essas duas canções são as mais porradas, até agora, muita guitarra, muitas camadas de som. Bê e Mario conseguiram chegar em uma mix excelente, que foi muito bem finalizada com a master do Paulo, que vai produzir nosso disco!”, explica, se referindo aos outros dois integrantes da banda, o guitarrista Mario Lorenzi e o baterista Bernardo Merhy, que mixaram a faixa no estúdio da banda, o Estúdio LaDoBê, agora no mês passado, entregando que o baixista Paulo Emmery, que masterizou as duas faixas, é o produtor do primeiro disco da banda. O single duplo chega às plataformas à meia-noite desta quinta-feira, mas os mineiros fizeram mais uma preza aqui pro Trabalho Sujo e dá pra assistir ao clipe gravado na estrada em primeira mão.

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É sobre

Ao propor um jogo musical, literário e cênico cujas regras não estavam definidas, Juliana Perdigão conduziu com seu clarinete e palavras um grupo formado pelos teclados de Chicão, pelo contrabaixo acústico de Ivan “Boi” Gomes e os eletrônicos do produtor Barulhista a um universo em que som e palavra fundiam-se numa mesma coisa. O espetáculo-experimento Fraga?, que aconteceu nesta terça-feiro no Centro da Terra, abriu com Perdigão lendo o início do poema-livro Odisséia Vácuo de Renato Negrão, cheio de pausas e lacunas, como se fosse música, para depois passear por seu próprio texto Dúvidas (base de seu disco de 2020) e depois por versões deste mesmo texto feitas pela autora através do Chatgpt. E enquanto ela lia os textos, os instrumentos musicais trabalhavam como se estivessem construindo uma base que ficava entre o ambient e o jazz de improviso ao mesmo tempo em que soavam como se estivessem falando – fossem sozinhos ou conversando entre si -, criando uma atmosfera de sonho surrealista que seduzia, hipnotizava e ninava o público para algum lugar entre o consciente e o inconsciente, algo que era reforçado pelas projeções sutis e sombrias de Filipe Franco. Foi mágico.

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E como não dá pra parar de ouvir o disco novo da Kim Gordon, pincei essa vez que ela tocou com os três sobreviventes do Nirvana quando a banda entrou para o Rock and Roll Hall of Fame, há dez anos. Ao lado de Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear, a ex-baixista do Sonic Youth arranca uma versão de “Aneurysm” do útero, algo que certamente faria o velho Kurt chorar de emoção – olha isso! Continue

E antes da quinta acabar ainda pude ver a segunda noite dos shows que o Queremos fez em São Paulo, antecipando o festival que farão no sábado no Rio de Janeiro. Mais uma vez na Áudio, a produtora carioca reuniu duas atrações internacionais relativamente desconhecidas que trouxeram um bom público para a casa entrando na onda dos dois artistas, nomes em ascensão na cena soul jazz londrina. Quem começou a noite foi a impressionante Adi Oasis, que empunhando seu baixo com uma desenvoltura invejável, como seu carisma igualmente intenso, conquistou facilmente o público – e citar “Onda” do Cassiano ou chamar Luedji Luna para dividir o palco foram só as cerejas de uma apresentação de peso. Depois foi a vez do produtor e tecladista Alfa Mist, que levou o público para uma viagem mais jazz cabeçuda, que rapídamente hipnotizou os presentes. Mas acho que se a ordem das atrações fosse invertidas – deixando Adi Oasis para encerrar o dia -, a noite terminaria num clima ainda mais pra cima e alto astral do que terminou.

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O gaúcho Pedro Pastoriz está chegando ao final do processo de seu terceiro disco solo, Pingue Pongue com o Abismo, lançado no fatídico ano de 2020, e para isso volta para as origens deste trabalho, ao lançar, nessa sexta-feira, as demos deste mesmo disco – ou, como preferir, as Replay Demos. “Elas foram gravadas entre abril de 2018 e março de 2019 e são registro de ideias pré-estúdio”, explica o ex-vocalista do Mustache e os Apaches, que gravou essas canções ao lado dos músicos e produtores Arhtur Decloedt e Charles Tixier. “São as primeiras versões que gravei pra mim mesmo, e que agora – depois que tudo já foi escolhido e lançado – complementam de um jeito interessante o disco”, continua o cantor, que antecipa suas demos em primeira mão para o Trabalho Sujo. Apesar de inédito para a maior parte de seu público, não é a primeira vez que ele as mostra para alguém. “Mostrei esse material caseiro pra uma primeira audição de quem participou do financiamento coletivo na época de pandemia, que viabilizou o lançamento do Pingue-Pongue com o Abismo e as variações do álbum, como produtos da loja e essas coisas do dia a dia da música”. A conclusão do processo desse disco antece no próximo dia 23, quando apresenta-se no Centro da Terra.

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O primeiro show do ano dos Pelados, minha banda indie brasileira favorita, aconteceu nesta quinta-feira no Fffront e a sensação de ver um grupo de amigos afiados tanto musicalmente quanto em termos de empatia num ambiente minúsculo repleto de fãs é dessas energias que me ajudam a seguir a longa estrada da vida. Focando todo seu repertório nas músicas de seu segundo disco, o excelente Foi Mal, o quinteto paulistano fez a laje do clube da Vila Madalena sacudir em músicas tortas e retas, entre baladas e faixas pra dançar, todas cantadas pelo público em êxtase por estar compartilhando da sensação que descrevi no início. O show, como sempre, chega ao auge quando eles cantam o hino composto para essa situação, a épica “Yo La Tengo na Casa do Mancha” que fez todo mundo gritar o refrão, que pede justamente pra gritar e ser gritado. Showzão!

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Morreu nesta terça-feira o poeta e ativista John Sinclair, que além de promover o antirracismo e a legalização da maconha no auge dos anos 60, também foi empresário do grupo MC5 e homenageado por John Lennon numa música batizada com seu nome.

Que barra essa notícia, ainda difusa, sobre a passagem de Liana Padilha. Mais conhecida como a metade do duo eletrônico No Porn, era uma artista com A maiúsculo, transitando entre diferentes disciplinas (artes plásticas, música, audiovisual, poesia) e questionando os limites impostos pela hipocrisia da sociedade em projetos que eram protestos, transformando cada pequeno gesto seu em um minimanifesto, vivendo plenamente o artivismo. A conheci dos tempos que a internet (outra seara que ajudou a desbravar, ainda nos anos 90) era mato e pude realizar uma apresentação de seu Tintapreta na mítica sala Adoniran Barbosa, quando fui curador de música do Centro Cultural São Paulo. Ainda não há notícias sobre a causa de sua passagem, mas sua ausência é sentida desde já. Muito triste, muito nova.