
E se estamos falando do futuro da música ao vivo a partir dos fenômenos recentes que vimos este ano (como o Sphere inaugurado em Las Vegas pelo U2 neste fim de semana ou as turnês gigantescas de Taylor Swift e Beyoncé), que tal essa proposta do LCD Soundsystem? O grupo estava sem apresentar-se ao vivo desde 2018 e, com a volta dos shows depois da vacina do covid-19, fez turnês pelos EUA e pelo mundo, mas cada vez mais restringem sua atuação à sua própria vizinhança. E acabaram de anunciar justamente uma residência de 12 datas no final deste ano fazendo uma turnê por três bairros de Nova York, sua cidade-natal: nos dias 16, 17, 18 e 19 de novembro eles tocam no Brooklyn Steel, no bairro do Brooklyn; nos dias 28, 29 e 30 de novembro e 1° de dezembro no Terminal 5, em Manhattan, e nos dias 7, 8, 9 e 10 de dezembro no Knockdown Center, no bairro do Queens. Tal residência, batizada de Tri Boro Tour (em referência às três vizinhanças que visitam), faz parte das comemorações do aniversário de vinte anos do grupo liderado por James Murphy e especula-se que pode se tornar seu modus operandi a partir de agora, fazendo shows apenas em sua cidade, sem ter que viajar para tocar ao vivo. Mas em se tratando de uma banda que anunciou seu fim para voltar anos depois, vai saber, né…? Os ingressos já estão em pré-venda.

Lê Almeida antecipou seu próximo disco, I Feel in the Sky, em uma apresentação hipnótica abrindo os trabalhos de outubro no Centro da Terra. Em sua versão solo, ele manteve os compadres de Oruã na formação – como Bigú Medine (agora disparando efeitos), João Casaes (nos teclados) e Phill Fernandes (na bateria) – mas convidou a baixista Melanie Radford e o baterista Cacá Amaral para fazer o público decolar em câmera lenta a partir de células musicais repetidas circularmente pela banda, enquanto ele cantarolava suas canções sobre uma base que conversava tanto com o krautrock quanto com o afrobeat – e tudo num ritmo vagaroso e hipnótico, barulhento e doce na mesma medida. Em dado momento do show, ele ainda chamou mais gente pra sua gira, convocando Ana Zumpano para a percussão e Otto Dardenne e Alejandra Luciani como vocais de apoio e fez um bis com uma música que havia sido composta no dia anterior. Só delírio.
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“Elvis definitivamente não saiu deste edifício. É uma capela Elvis. É uma catedral Elvis. É isso. E hoje à noite entrada para essa catedral é uma senha: flerte. E mais tarde nós vamos casar, ok?”, Bono não se aguentava ao inaugurar a temporada de shows que seu U2 irá fazer em Las Vegas até dezembro deste ano. Não era sem motivo. A residência U2:UV Achtung Baby inaugura também a nababesca casa de shows Sphere, que cobre o público com um gigantesco telão esférico que leva os antigos cinemas 189 graus (quem lembra?) a um patamar hiperbólico que tira o fôlego só de ver os vídeos. O grupo se apresentou pela primeira vez sem o baterista Larry Mullen Jr., que acaba de passar por uma cirurgia na coluna, e preferiu conter seu show a um pequeno palco quadrado que lembrava uma vitrola na base do telão absurdo, deixando todo o espetáculo para os telões conectados de uma forma que não havia como sair do campo de visão do público, não importava onde se estivesse, alternando imagens geradas por computador que explicitavam a artificialidade do evento ou recriando paisagens naturais como se pudesse ter um sol em miniatura apenas para eles. O sucesso dessa primeira noite, que aconteceu neste sábado, eleva a experiência ao vivo a outro patamar e megaturnês como as de artistas como Beyoncé e Taylor Swift encontram um rival gigantesco que nem precisa sair do lugar – é uma casa de shows. E mirando em artistas do porte do U2 (enquanto eles ainda existem, especula-se que Harry Styles seja o próximo residente), a casa, que teve um custo maior do que dois bilhões de dólares, pode parecer um modelo de negócios viável para bilionários do mundo do entretenimento experimentar em todos os lugares do mundo (e torrar dinheiro, como gostam) – e não é difícil pensar que podemos ter um monstrengo desses por aqui. Abaixo dá pra ver alguns trechos do show histórico – o futuro que tá vindo aí é muito louco… Continue

Sentindo falta do Inferninho Trabalho Sujo, né? Pois não dá pra terminar esse intenso setembro sem aquecer corações e mentes mais uma vez lá no Picles, reunindo outras duas bandas que, quem conhece sabe: a primeira delas é o Fernê, que reúne Chico Bernardes, Manu Julian e Theo Cecato em uma avalanche de noise e doçura, enquanto a segunda, Madrugada, reúne os irmãos Dardenne, capos do Seloki, à Paula Rebelatto do Porta, em um transe kraut da pesada. E como de praxe, depois dessas duas surras de som alto é a vez de queimar a pista até se acabar de felicidade comigo e a Fran misturando R&B, pop brasileiro, música eletrônica, indie rock, K-pop e o que mais der na nossa telha! Lembrando que quem chegar antes das 21h não paga para entrar e que o Picles fica no número 1838 da Cardeal Arcoverde, no coração de Pinheiros. Vamos que vai ser épico!

Se na penúltima apresentação de sua temporada Águas Turvas no Centro da Terra Dinho Almeida reuniu sua família de escolha, juntando amigos/vizinhos para uma jam onírica em torno de seu novo repertório, nesta última segunda-feira de setembro ele embarcou em uma viagem ainda mais cossangüínea ao convidar sua irmã Flávia Carolina para entoar suas canções. E não só as de Dinho, mas também as dela e inclusive uma do pai dos dois, finalizando a temporada no mesmo tom terapêutico esteve presente nessas noites. A entrega superou as expectativas: as vozes dos irmãos têm um encaixe perfeito, mesmo com timbres parecidos, e o ritmo de Flávia, que por vezes alternava instrumentos de percussão, explicava a mão direita de Dinho na guitarra, tornando riffs e acordes quase sempre pulsantes. Uma noite linda de uma temporada transformadora. Voa, Dinho!
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Mais um tijolo na reconstrução que Roger Waters está fazendo do disco mais clássico do Pink Floyd, que será lançado no próximo dia 6 de outubro. Em The Dark Side of the Moon Redux ele parte da premissa que o texto do disco do prisma é responsável por seu status histórico e recria as canções como se fossem poemas com bases sonoras. Nos dois maiores hits do disco (“Time” e “Money“, que ele escolheu para serem seus primeiros singles), Waters despiu quase por completo as canções de suas melodias, deixando apenas sua voz recitando as letras sobre bases sonoras etéreas que ecoam as músicas originais. Nesta sexta-feira, o ex-baixista do grupo lançou mais uma versão, recriando como um single duplo as faixas que abrem o disco original, “Speak to Me” e “Breathe”. No disco original, a primeira é uma colagem sonora de vários trechos que são tocados no decorrer do álbum, funcionando como uma rapsódia de introdução ao disco. Sem referir-se à sonoridade do disco de 1973, Waters prefere recitar uma faixa de outro disco que a banda gravou no ano anterior, “Free Four” do Obscured by Clouds. Trilha sonora composta às pressas enquanto o grupo viajava pelos Estados Unidos e Europa tocando Dark Side of the Moon antes de este ter sido lançado, Obscured by Clouds também carrega o tema do disco clássico em várias canções em que Waters filosofa sobre a existência. Assim, na nova versão de seu Redux, “Speak to Me” é uma versão falada de “Free Four”, que canta sobre “as lembranças do homem em sua idade avançada são os feitos de sua vida em seu auge” e que “a vida é um curto e quente momento e a morte é um longo e frio descanso”, para depois cair em “Breathe”, a primeira canção de fato do disco e também a primeira canção cantada por Waters – e não recitada – de seu novo projeto. Apesar da ótima lembrança à faixa do sempre esquecido Obscured… (um dos melhores discos do Floyd), é o single mais fraco até agora.
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(Foto: Alexandre Barcelos/Divulgação)
Gabriela Terra sai da toca. A mente por trás do My Magical Glowing Lens finalmente dá notícias após um longo período distante da música, quando teve que voltar ao seu Espírito Santo e trabalhar em outras áreas para sobreviver durante o período pandêmico. Depois de passar um tempo no Recife e começar a colher os frutos de seu primeiro álbum Cosmos (2017), ela, como todo o planeta, entrou em um longo período de reclusão que inevitavelmente impactou em seu som. Deixou a guitarra de lado e abraçou o sintetizador, além de ter colaborado com a cena capixaba de rap e trap (por considerá-los muito além na discussão sobre música do que a cena de rock de seu estado, que considera conservadora), e passou a investigar suas próprias perturbações. E se no trabalho anterior ela olhava para o espaço exterior, sua nova fase busca o cosmos que cada um contém em si. “Sobrevoar”, primeiro fruto desta nova obra, será lançado nessa sexta-feira em todas as plataformas digitais, mas ela preferiu antecipar aqui no Trabalho Sujo, mostrando inclusive o clipe que fez para esta nova fase de sua carreira. O single é produzido por Pupillo, que ela conheceu como produtor a partir dos trabalhos do ex-baterista da Nação Zumbi com a cantora Céu, e conta com o baixista de Céu, Lucas Martins, entre os instrumentistas, além do tecladista Bruno Saraiva, da banda Kalouv, que também tocava com Gabriela quando ela morava no Recife. “Sobrevoar” foi mixada por Benke Ferraz, dos Boogarins, e masterizada por Alexandre Barcelos, que também dirigiu o clipe, e traz uma psicodelia mais introspectiva, que deve ser a tônica do próximo álbum, que sua autora ainda está em fase de amadurecimento.
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“Cá estou, mais perto da sarjeta do que nunca. A passarela da fama de Hollywood, o primeiro lugar que eu vim quando cheguei em Los Angeles, depois dirigir através do país com David Lockery. Eu saí do meu carro em 1970, na esquina das ruas Hollywood e Vine e saí atravessando a rua até ganhar uma multa por atravessar na rua fora da faixa de pedestres, minha primeira, e nunca mais olhei para trás”. comemorou John Waters nesta segunda-feira, quando foi entronizado à eternidade do cinema norte-americano ao ter sua estrela da famigerada calçada da fama de Hollywood.
Ele dedicou a condecoração aos seus falecidos pais: “Pat e John Waters, que, apesar de ficarem horrorizados com meus primeiros filmes, e alguns dos mais recentes também, me encorajaram a continuar porque acho que eles devem ter pensado o que mais que eu poderia fazer além de estar no showbusiness?”
E depois de agradecer nominalmente diversos amigos – não apenas do cinema -, ele concluiu celebrando a atração turística da qual faz parte. “Passarela da fama de Hollywood, você é demais e espero que os rejeitados do showbusiness mais desesperados passem por aqui por cima de mim e sintam alguma espécie de respeito e força. Os esgotos deste boulevard mágico nunca secarão a sarjeta da minha gratidão, os detritos da minha carreira ou o desperdício da apreciação de Waters. Obrigado Hollywood, desta vez eu finalmente fui para além do vale das bonecas”, citando o clássico trash de Russ Meyer, com roteiro do crítico Roger Ebert, um dos pilares de sua formação. E ainda deu a deixa que, de repente, ano que vem, teremos a estrela de Divine, musa e estrela de sua maior obra, o infame Pink Flamingos.
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Pesado esse show que a Bike fez com o Tagore nessa terça-feira no Centro da Terra, enfileirando hits da lisergia brasileira que colocava os dois artistas num cânone viajandão que enfileirava Arnaldo Baptista solo (LSD), Pedro Santos (“Um Só”), Cérebro Eletrônico (“Pareço Moderno”), Júpiter Maçã (“Um Lugar do Caralho”), Fábio (“Lindo Sonho Delirante”), Tom Zé (“Parque Industrial”) e Violeta de Outono (“Declínio de Maio”), entre outros clássicos da música psicodélica brasileira, todos rearranjados com muito peso, microfonia e ritmo, cortesia da química entre os integrantes da banda paulista. O ápice da apresentação foi quando o grupo soltou Tagore em cima de dois hinos do udigrudi nordestino, quando emendou “Vou Danado pra Catende” de Alceu Valença com “Nas Paredes da Pedra Encantada Os Segredos Talhados por Sumé” do mitológico Paebirú, de Zé Ramalho e Lula Côrtes, que contou com uma interpretação possessa do vocalista pernambucano.
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Artistas contemporâneos e da mesma árvore genealógica, embora cada um nascido num canto do país, Bike e Tagore já estiveram juntos outras vezes, mas pela primeira vez criam um espetáculo em parceria, quando se reuniram para apresentar MPB ou LSD?, uma apresentação que funciona como uma jornada à alma psicodélica da música brasileira, cruzando os mares lisérgicos desde os tempos dos Mutantes, passando pelo udigrudi pernambucano dos anos 70, os experimentos paulistanos dos anos 80, o ácido rock gaúcho dos anos 90 e a cena retropsicodélica da qual fazem parte neste século. Essa viagem começa pontualmente às 20h desta terça-feira e os ingressos podem ser comprados neste link.