Um dos guitar heros mais polivalentes da história do rock – tocou com King Crimson, David Bowie, Talking Heads, Frank Zappa e Nine Inch Nails -, Adrian Belew apresenta-se em São Paulo neste domingo, no Carioca Club (mais informações aqui), com seu Adrian Belew Power Trio, em que toca ao lado dos irmãos Eric (bateria) e Julie (baixo) Slick. Virtuosismo torto, instrumental cabeça – prepare-se para uma pedrada.
Escrevi sobre o clássico power pop do Teenage Fanclub, que está completando um quarto de século lá no meu blog no UOL.
Já faz tempo que 1991 vem sendo celebrado como um ano mágico para a música pop, ao enfileirar discos que não apenas estabeleceram novas carreiras como mudaram o cenário musical da última década do século passado. Uma sequência de obras que tornam aquele ano tão emblemático quanto outros clássicos, como 1967, 1969, 1972 ou 1977. Eu mesmo já escrevi aqui sobre os 25 anos de BloodSugarSexMagik, Screamadelica, Nevermind e Loveless – sem contar outros discos cruciais como o Blue Lines do Massive Attack, o Adventures Beyond the Ultraworld do Orb, Out of Time do R.E.M., The Low End Theory do A Tribe Called Quest e a tríade de transição dos três maiores grupos do rock brasileiro dos anos 80 (V do Legião Urbana, Os Grãos do Paralamas do Sucesso e Tudo Ao Mesmo Tempo Agora dos Titãs), além dos sucessos comerciais do Metallica (o disco preto), Guns N’Roses (os dois volumes de Use Your Illusion) e Pearl Jam (Ten) e dos discos de estreia dos Smashing Pumpkins (Gish) e Blur (Leisure). O conjunto destes álbuns mostra um cenário pop fragmentado, multifacetado e completamente díspare comparado ao de anos anteriores, mas um disco lançado naquele mesmo ano lembrava que a base de tudo aquilo, a fundação daquele universo que agora expandia-se para o thrash, o indie, o grunge, a ambient house, o trip hop, o rock alternativo, era a canção. Este disco chama-se Bandwagonesque e é o terceiro disco da banda escocesa Teenage Fanclub, que há exatos 25 anos ganhava o mundo ao ser lançado pela gravadora norte-americana Geffen.
É muito comum acharmos que invenções que nos precederam sempre estiveram ali. Como para a minha geração parece estranho pensar em um mundo sem televisão e para uma geração mais nova parece estranho imaginar como seria o mundo sem internet, muitos sequer cogitam a possibilidade de um mundo sem canções. Pois aconteceu – e não faz muito tempo. Apesar da música ser uma das primeiras expressões culturais do ser humano – ainda na idade da pedra -, a canção – esta estrutura musical que compreende introdução, estrofe, refrão, estrofe, refrão, eventual solo instrumental, estrofe, refrão e conclusão – é uma invenção da virada do século dezenove para o vinte, como a fotografia, o disco, o cinema, o carro e o avião.
Sempre entoamos melodias, cantarolamos frases e repetimos refrões, mas foi a noção de linha de montagem do século passado que forjou esse formato que hoje tomamos como eterno. Antes da possibilidade de gravar-se música, não havia uma limitação de tempo que determinasse os poucos minutos que resumem uma canção. Bardos medievais puxavam épicos que não pareciam não ter fim, saraus domésticos atravessavam a noite emendando letras e músicas umas às outras, concertos e óperas podiam durar horas, o canto de pergunta e resposta das plantações agrícolas duravam o tempo da jornada de trabalho. Foi preciso uma inovação tecnológica – o fonógrafo – para que se estabelecesse que a breve duração delimitada por uma restrição técnica poderia ser o início de um novo formato. A canção surgiu como uma necessidade mercadológica para alavancar um novo mercado: se a música erudita não cabia nos primeiros suportes para a música, era preciso inventar um novo padrão. A canção é fruto do encontro do teatro de revista com a música popular e surge no início do século vinte como uma versão musical do conto ou da crônica.
À medida em que o século passava vimos a ascensão de verdadeiros ourives do formato. É uma lista imensa e traduz o espírito de época de todo o século: de Irving Berlin à dupla Morrissey e Marr, passando por Bob Dylan, Noel Rosa, Buddy Holly, Bob Marley, Luiz Gonzaga, Lou Reed, Carole King, Caetano Veloso, Lennon e McCartney, David Bowie, Burt Bacharach, Chico Buarque, Serge Gainsbourg, Gilberto Gil, Nick Drake, Page e Plant, Chuck Berry, Brian Wilson, Rita Lee, os irmãos Gershwin – e a lista continua. A maioria da produção musical do século passado foi construída firme sobre o formato canção, mesmo que gêneros mais instrumentais (como jazz e a música eletrônica) ou mais agressivos (como o heavy metal, o punk e o hip hop) tenham abertos novas possibilidades para além deste formato, criando a base para a música deste século.
Embora conhecido como uma banda essencialmente cancioneira, o Teenage Fanclub não começou como tal. Seu primeiro disco, A Catholic Education, de 1990, era um disco mais pesado, improvisado e ruidoso do que qualquer outro trabalho da banda, mais próximo à sonoridade caótica do início dos anos 90, à exceção da faixa de abertura, o hino “Everything Flows”. O segundo disco, The King, foi lançado às pressas para cumprir o contrato com a gravadora norte-americana Matador e liberá-los para assinar com a Geffen, que à época queria estabelecer-se como o lar do rock daquela nova década, assinando com o Nirvana, o Sonic Youth, os Stone Roses e os Guns N’Roses. Seu terceiro disco, Bandwagonesque, virava o jogo e mostrava uma nova cara para a banda, em que a canção era o vernáculo principal.
As grandes influências neste sentido são a base do pop britânico (os Beatles) e seus pares californianos (Beach Boys e Byrds), mas principalmente o influente e obscuro grupo norte-americano Big Star, fundado por Alex Chilton e Chris Bell no início dos anos 70, e pelos solos de guitarra lacrimosos do canadense Neil Young. O quarteto formado por Norman Blake e Raymond McGinley (vocais e guitarras), Gerard Love (vocais e baixo) e Brendan O’Hare (bateria) dedicava as dozes músicas à lapidação de canções pop perfeitas, envoltas em doses homeopáticas de microfonia e ironia (como a que levava batizar a própria banda de Fã Clube Adolescente ou a colocar um saco de dinheiro na capa de um disco cheio de canções de amor).
A incrível sequência de canções começa com a descrição de uma garota que “usa jeans onde quer que vá” e que disse “que vai comprar uns discos do Status Quo” numa música cujo refrão canta apaixonadamente que “não quis te machucar” – em uma música chamada “The Concept” que parece resumir o que aquele disco pretendia. Pelo resto de Bandwagonesque, somos apresentados à canções compostas principalmente – e em separado – por Norman e Gerard – a radiante “What You Do to Me”, a fugaz “Star Sign”, a apaixonada “Metal Baby”, a setentista “Pet Rock”, a acústica “Guiding Star”. Mas há também momentos melancólicos do disco, alguns deles assinados pelos outros músicos da banda, como “I Don’t Know” é de Raymond e “Sidewinder” (que Brendan compôs com Gerard), além de, claro, da chorosa “Alcoholiday”, de Norman, outro grande momento do disco. Bandwagonesque termina com a instrumental quase irônica “Is This Music?”, em que solos e riffs de guitarra soam como se estivessem tocando num rádio-despertador que interrompe o sono no fim da madrugada.
Coberto de riffs memoráveis e refrões pegajosos, Bandwagonesque levou a banda a um patamar de sucesso nunca imaginado por eles, chegando a ganhar o título de “disco do ano” de acordo com a revista norte-americana Spin, uma das principais vozes do pop da época (deixando Nevermind, Screamadelica e Out of Time fora do páreo). Mas aquele sucesso não era para o Teenage Fanclub. O disco seguinte, o azarão Thirteen, mudou o tom de sua abordagem em relações a canções e matou a possibilidade de continuar fazendo sucesso nos EUA. De volta ao Reino Unido, lançaram dois outros discos perfeitos (Grand Prix e Songs from Nothern England) no auge do britpop, atingindo a estatura que gostariam que a banda tivesse.
Sem pretensões mercadológicas, planos de negócios, shows em estádios ou discos de diamante, o Teenage Fanclub conseguiu sintetizar a essência da canção pop em um disco ousado por sua despretensão e marcante por sua simplicidade. Doce e direto, Bandwagonesque sobrevive não apenas como um registro do início do fim da era da canção ou como souvenir nostálgico daquele período, mas como um disco de música pop deveria soar, por definição. Essencialmente humano.
O produtor canadense Coins juntou instrumentais do Daft Punk com vocais dos Beastie Boys num disco de mashup daqueles… Saca só:
Não tenho como não lembrar daquele Tim Festival que trouxe as duas bandas para o Brasil pela última vez… há dez anos!
O músico inglês de origem sudanesa Ahmed Gallab, mais conhecido por Sinkane, anuncia seu próximo disco para fevereiro do ano que vem decidido a espalhar boas vibrações apesar do 2017 pesado que se avizinha. Seu disco Life & Livin’ It é apresentado com a irresistível “U’Huh”, que canta tanto que tudo vai ficar bem (em inglês “We’re all gonna be alright”) quanto que tudo é ótimo (em árabe, “Kulu shi tamaam”). E apesar do clima alto astral do clipe, uma TV ligada nos protestos a favor dos direitos civis nos anos 60 nos lembra que a mensagem não é escapista – e sim
Dica do Fernando Neumayer (valeu!).
O influente grupo inglês Jesus & Mary Chain voltou a ativa em 2007 mas apenas para shows, embora seu líder Jim Reid sempre tenha dito em entrevistas que estão compondo músicas novas. Mas não havia nenhuma notícia sobre material inédito desde o ótimo Munki, de 1998 – até agora. O próprio empresário da banda Alan McGee que antecipou a notícia em entrevista à rádio pública canadense CBC Music, dando inclusive fatos confirmados em seguida na página da gravadora de McGee, a Creation, que o disco será lançado em março e terá distribuição da Warner. Além de Jim, a banda conta, óbvio, com seu irmão William também nas guitarras e vocais e o trio de músicos formado pelo guitarrista australiano Scott Von Ryper, o baterista Brian Young (que era do Fountains of Wayne) e o baixista Mark Crozer. Grande notícia!
Depois de mais uma década sem lançar nenhuma música nova e com foco concentrado em sua encarnação discotecária 2ManyDJs, a dupla de irmãos belgas David e Stephen Dewaele reativa seu outro projeto, o Soulwax, em que compõem música eletrônica para dançar mais autoral. E a volta do Soulwax vem com a longa faixa “Transient Programs for Drums and Machinery”, que também marca o anúncio de uma nova turnê europeia entre março e abril de 2017, quando tocarão com três bateristas simultaneamente. “‘Transient Programs for Drums and Machinery’ é uma instalação ambulante pilotada por sete músicos, em que três deles usam baquetas e os outros quatro usam circuitos analógicos”, descreve o site do grupo e entre estes copilotos está o casal brasileiro Igor Cavalera e Laima Leyton, que também atendem pela alcunha de Mixhell.
https://soundcloud.com/deewee-2/transient-program-for-drums-and-machinery-1
O projeto é fruto direto do trabalho que a dupla desenvolveu ao lado de James Murphy na tentativa de criar o soundsystem perfeito para uma pista perfeita no projeto Despacio. O plano para 2017 parece explorar as fronteiras entre a música ao vivo dos instrumentos tradicionais e de instrumentos eletrônicos. Saca só essas imagens que eles já colocaram em seu site:
Isso deve ser bem foda…
O tecladista Irmin Schmidt (abaixo), um dos fundadores da clássica banda krautrock Can, anunciou um único show em celebração à história da banda alemã com a participação de outros integrantes originais, como o baterista Jaki Liebezeit e o vocalista Malcolm Mooney e os dois guitarristas do Sonic Youth, Thurston Moore e Lee Ranaldo. A apresentação acontece no teatro Barbican, em Londres, no dia 8 de abril do ano que vem e infelizmente já está com ingressos esgotados. O show começa com uma apresentação da obra An Homage to Can, que Schmidt escreveu usando referências de várias faixas clássicas da banda e que deve ser tocada ao lado da London Symphony Orchestra. Depois desta apresentação será exibido um filme da banda original tocando no Sporthalle de Colônia, na Alemanha, em 1972, para aí sim começar outra homenagem, incluindo Liebezeit, Mooney, Moore e Shelley. Tomara que eles se animem para fazer outras apresentações. Não há informações sobre porque o show não terá as participações do baixista Holger Czukay e do vocalista Damo Suzuki, dois remanescentes vivos da formação clássica, que ainda contava com o guitarrista Michael Karoli, morto em 2001.
Dissecado lá no meu blog do UOL, o novo filme da Marvel, Doutor Estranho, mostra os rumos para o futuro do personagem, da saga principal contada desde o primeiro filme do Homem de Ferro e dos planos de dominação mundial do estúdio.
O grande trunfo de Doutor Estranho, a mais recente produção da Marvel, não é simplesmente o fato de ser o primeiro filme do estúdio de tom menos juvenil (como o segundo Capitão América já tinha sido) nem seus deslumbrantes visuais psicodélicos. Essas duas qualidades ajudam o estúdio a se situar num contexto que parte em busca um novo público, que não assiste filmes de super-herói. Sua principal qualidade reside no fato do diretor Scott Derrickson contar uma história de origem simples e de forma objetiva, concluindo a jornada do protagonista com grandes truques cinematográficos, sem se preocupar em expor as referências e conexões com o contexto original do herói nos quadrinhos ou do cada vez mais complexo universo cinematográfico da Marvel. Estes, no entanto, não são deixados de lado, mas colocados em uma perspectiva que fica em evidência para o público já cativo da editora e do estúdio, respectivamente. Estas referências ajudam inclusive a sacar o rumo que a Marvel está apontando para seus próximos filmes, quando conclui, em três anos e dez filmes (!), sua chamada fase 3.
Preciso dizer que a partir daqui vou entupir o texto de spoilers? Ok, então está dito: seguem umas imagens de fronteiras interdimensionais para você não correr o risco de ler algo que não queira – se você quiser ler uma resenha sem spoilers, escrevi este texto antes da estreia do filme.
As referências mais evidentes são feitas não ao público iniciado, mas justamente para aquele que a Marvel quer ganhar com Doutor Estranho: o fã de cultura pop adulta. Não confunda com o fã adulto de cultura pop – este já forma grande parte da audiência da Marvel no cinema. Ela está em busca de um público que não gosta ou não se identifica com super-heróis – e por mais que Doutor Estranho seja um deles, ele não se encaixa no parâmetro tradicional do herói mascarado com roupa justa e colorida. Seus ícones são heróis que vão de encontro à cultura nerd vigente, seja do lado da ficção científica ou da fantasia. Por isso Doutor Estranho firma-se visualmente sobre pilares modernos do pop adulto.
A principal referência é, claro, a presença de Benedict Cumberbatch. O já eternizado Sherlock Holmes do século 21 fez a Marvel adequar-se à sua agenda para conseguir viver o personagem título e ele o faz de forma primorosa. O momento em que ele veste a capa que lhe caracteriza definitivamente como o personagem dos quadrinhos é a coroação de uma atuação perfeita, a melhor do universo cinematográfico Marvel. O sotaque norte-americano falado pelo ator inglês é só uma das joias de seu trabalho, que equilibra seriedade e humor a ponto de nunca parecer ridículo ao conjurar feitiços ou ao encarar o principal vilão do filme. O resto do elenco mantém o nível embora seja muito pouco exigido. Rachel McAdams, Mads Mikkelsen, Chiwetel Ejiofor e Michael Stuhlbarg são atores de alto calibre que não são tão exigidos quanto poderiam. A própria Tilda Swinton se contenta em uma atuação protocolar, que não constrange mas não brilha. O que não garante que eles não sejam utilzados em filmes futuros.
Outro elemento pop e adulto óbvio é a psicodelia. Ela vem sutilmente escancarada na ponta feita por Stan Lee, que aparece gargalhando ao ler uma edição dos anos 50 do clássico As Portas da Percepção do escritor Aldous Huxley. No livro, o visionário autor de Admirável Mundo Novo conta sua experiência com a mescalina, droga que teria uma enorme influência na renascença lisérgica da década seguinte. O título foi tirado de um verso de William Blake que fala que “quando as portas da percepção estiverem abertas, tudo parecerá como realmente é: infinito” e foi inspiração para Jim Morrison batizar sua clássica banda.
Não é a única referência à psicodelia tradicional. A cena do acidente que tira o movimento das mãos de Strange começa com “Interstellar Overdrive”, primeira música do lado B do primeiro disco do Pink Floyd, The Piper at the Gates of Down, de 1967. Ao contrário de grande parte da discografia do Pink Floyd, este primeiro disco foi batizado em ácido lisérgico, quando a banda ainda contava com seu fundador, o visionário Syd Barrett. A faixa instrumental era conhecida como uma longa jam session nas intermináveis noites psicodélicas da Londres do final dos anos 60 e o disco foi gravado em um dos estúdios de Abbey Road no exato momento em que os Beatles gravavam seu clássico Sgt. Pepper’s.
A música não foi colocada apenas por esta referência. Na montagem da capa do segundo disco da banda (o último com Barrett, que saiu do grupo por ter se tornado uma vítima do LSD), Saucerful of Secrets, podemos ver uma sequência de planetas vista por um rosto isolado no canto esquerdo superior. Repare:
Esta imagem é parte de um quadrinho de página inteira da edição 158 da revista Strange Tales, publicada em julho de 1967 (um mês antes do lançamento do disco anterior), em que o Doutor Estranho é apresentado à onipotente entidade cósmica Tribunal Vivo, que é justamente o rosto na parte de cima da capa do disco. O próprio Doutor Estranho aparece no quadrinho, mas foi retirado da colagem da capa.
Outra referência óbvia é a progressão geométrica que o diretor e seu diretor de fotografia Ben Davis dá aos devaneios urbano-surreais de Christopher Nolan em Inception – A Origem. As dimensões paralelas são um dos muitos truques de cinema que ele e Derrickson exploram durante todo o filme – sem dúvida, o de maior impacto. Pisos em mosaicos, correores que se aprofundam, catedrais que se transformam em engrenagens e a arrebatadora visão de Nova York ao cubo – tudo isso é parente direto das cidades distorcidas por Nolan em seu filme de 2010 e os realizadores de Doutor Estranho não negam. Davis também cita o psicodélico Fantasia, de Walt Disney, como outra referência para os visuais do filme, além, claro, do túnel interdimensional do ato final de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick.
Outro filme que está na base de Doutor Estranho é Matrix. Desde o papel meio Morpheus da Anciã vivida por Tilda Switon (que começa várias frases como “e se eu te dissesse…?”) à jornada do escolhido feita por Stephen Strange, o filme de 1999 dos irmãos Wachowski está espalhado por todo o filme da Marvel. O treinamento de Strange no Tibet alude de forma descarada ao primeiro filme da trilogia: a tonalidade esverdeada do salão em que Strange conhece a Anciã, o momento de revelação sobre o mundo místico ao simples toque na testa de Strange, a relação mestre e pupilo entre os dois, a forma como as artes marciais são apresentadas.
Outras referências pop não são propriamente adultas, mas trazem o filme para uma realidade diferente da dos nerds de lojas de quadrinho, ao mencionar diferentes artistas pop atuais (Beyoncé, Eminem, Adele) em uma cena hilária entre Strange e Wong (vivido por Benedict Wong). A menção à Beyoncé foi, inclusive, sugerida por Cumberbatch, fã da cantora:
Já as alusões ao universo dos quadrinhos do Doutor Estranho são bem mais sutis. Com a exceção das vestimentas de Strange e da dimensão paralela criada por um dos desenhistas mais clássicos da história da Marvel, Steve Ditko. A Dimensão Negra nos quadrinhos é assim:
A forma como Derrickson e Davis colocam essa terra surrealista em movimento é outro desses truques de cinema que aumentam a moral do filme.
Além disso, são citados vários outros personagens do universo de Strange no papel. O vilão Kaecilius (vivido por Mads Mikkelsen) é um personagem secundário nos quadrinhos e no filme assume um papel que normalmente é do Barão Mordo (personagem ainda em construção, vivido no filme por Chiwetel Ejiofor) e é acompanhado de capangas que contam, entre eles, com Tina Minoru (vivida pela atriz Linda Louise Duan), personagem que faz parte do grupo Fugitivos nos quadrinhos. Outro personagem que vemos brevemente é o guardião do Sanctum de Nova York, que é nos apresentado como Daniel Drumm (vivido por Mark Anthony Brighton), que na prequel em quadrinhos é identificado como irmao de Jericho Drumm, o Irmão Vodu. Outros personagens coadjuvantes são levemente distorcidos para marcar presença, como a hora em que somos apresentados ao Mestre Hamir (um dos primeiros gurus de Strange nos quadrinhos, cujo aparição é apenas mencionada no início do filme) ou o nome do par romântico de Strange (vivido por Rachel McAdams), que é Christine Palmer, uma das Enfermeiras da Noite, entidade que já tem uma de suas encarnações, Claire Temple (vivida por Rosario Dawson) em ação no universo Netflix (as séries Demolidor, Jessica Jones e Luke Cage, até agora). Alguns dos personagens principais são bem modificados: além da polêmica ocidentalização da Anciã (mais polêmica que sua mudança de gênero), Wong passa a usar magia (nos quadrinhos ele apenas luta) e Modor ainda não é o vilão.
Ainda há os inúmeros artefatos místicos, alguns mostrados sorrateiramente (como o bastão do Tribunal Vivo e o Livro de Vishanti), outros protagonistas da ação (como o Manto da Levitação, que ganha vida na versão cinematográfica). Um bom meio-termo disso é a Vara de Watoomb, que é apresentada rapidamente para logo depois virar a arma de Wong na luta final.
Livros também são protagonistas das histórias de Doutor Estranho e se seu constante Livro de Vishanti aparece apenas rapidamente, o Livro de Cagliostro tem um papel central na história. Tudo isso é reforçado para mostrar a natureza do universo místico de Strange. Ao mesmo tempo em que os novatos vão conhecendo estes novos nomes e referências, os veteranos vão reconhecendo as homenagens e a atenção ao detalhe.
E há também referências a histórias específicas de Strange, especificamente “Into Shamballa”, que Dan Green e J. M. DeMatteis fizeram em 1986, e a recente “The Oath”, que Brian K. Vaughan e Marcos Martin escreveram em 2007. “Shamballa” entra na piada da senha do Wi-Fi:
“The Oath”, por sua vez, é o roteiro básico do filme e conta com uma cena especificamente tirada dos quadrinhos, quando a projeção astral de Strange ajuda Christina Palmer operá-lo:
A referência a The Oath foi anunciada antes mesmo do filme ser feito, quando Cumberbatch entrou em uma loja de quadrinhos em Nova York a caráter e pediu para o atendente tirar uma foto em que ele mostrava a capa da revista, que publicou em seguida na internet:
A cena foi filmada pelas câmeras de segurança da loja e tem um quê surreal:
Outra referência de “The Oath” é o médico que opera Strange após o acidente, que é referido apenas como “Nick” (vivido por Michael Stuhlbarg), que é ninguém menos que Nicodemus West, o médico que opera o neurocirurgião naquela em quadrinhos.
E, claro, o grande vilão Dormammu, representado de forma diferente dos quadrinhos (sem corpo, onipotente), mas mantendo o mesmo rosto listrado da versão clássica:
A forma como Strange derrota Dormammu – com um truque de lógica, não com magia – é mais um aceno para o fã de cultura pop adulta, enquanto a cena da destruição final apresentada apenas de trás pra frente é outro grande trunfo da direção de Derrickson.
E, finalmente, temos as referências ao resto do universo Marvel no cinema. São citações mencionadas quase de passagem e se você não conhece a história completa que inclui os outros filmes nem conhece nada de super-heróis não interfere em nada ao assistir apenas a este filme. A primeira delas é a presença da Torre dos Vingadores na paisagem de Nova York. Serve para nos lembrar que estamos no universo Marvel e que os eventos ocorrem após o primeiro filme dos Vingadores.
Outra citação, ainda mais no início do filme, nos ajuda a situar Doutor Estranho na linha do tempo da Marvel. Não, sua origem não acontece após os incidentes de Guerra Civil, o filme anterior do estúdio. É uma trama paralela que vem se desenvolvendo há mais tempo e quando Strange declina alguns casos pouco antes de sofrer o acidente que imobiliza suas mãos, ele deixa passar um acidente envolvendo um soldado que teve a parte inferior de sua espinha dorsal destruída por um equipamento bélico experimental. Muitos acharam que era uma referência ao personagem vivido por Don Cheadle, James Rhodes, o Máquina de Combate, que é abatido em combate em Capitão América: Guerra Civil e quase perde os movimentos das pernas. Mas a idade mencionada (35 anos) e o fato da armadura de Rhodes não ser mais experimental tira a possibilidade de Stephen Strange não ter começado sua transformação em mago depois dos acontecimentos deste filme.
Na verdade, a cena parece mais pertencer ao segundo filme do Homem de Ferro, no julgamento de Tony Stark (Robert Downey Jr.) no início do filme, em que ele mostra vídeos que provam que o fabricante de armas Justin Hammer vem fabricando versões fracassadas de sua armadura, inclusive uma cena bem parecida com a descrita na ligação para Strange (veja quando o relógio do vídeo abaixo chega aos dois minutos):
Então é possível que o acidente que dá início à história do Doutor Estranho aconteça ainda na primeira fase do universo cinematográfico Marvel, antes do segundo filme do Thor, antes do primeiro do Capitão América e do primeiro filme dos Vingadores. Como seu treinamento levou mais do que meses, como mencionado no próprio filme, é possível ele tenha durado justamente o período de tempo entre os dois filmes dos Vingadores para o próprio Estranho pudesse enfrentar uma grande ameaça, ao final de seu filme. Uma ameaça que, por ter sido desfeita quando Strange consegue retroceder o tempo, não foi percebida por ninguém no planeta. Mas a conversa com Wong sobre o papel dos feiticeiros em relação a forças místicas que agem contra a Terra, em que os Vingadores são mencionados nominalmente, deixa claro que o final do filme acontece mais próximo da época atual.
É curioso pensar que Strange dispensou outros dois casos, além deste que pode ser o do segundo filme do Homem de Ferro. Ele ouve falar de “uma mulher com um implante elétrico no cérebro para tratar de esquizofrenia que havia acabado de ser atingida por um raio” e “uma senhora com um dano no tronco encefálico”. Será que são personagens que nem conhecemos cujas histórias ocorrem neste mesmo período? Por que a primeira descrição me faz lembrar da Capitã Marvel? Hmmm…
Outra referência óbvia ao universo Marvel já havia sido cogitada antes do lançamento do filme que era a possibilidade de o Olho de Agamotto, o artefato místico fundamental para Strange, ser uma das Jóias do Infinito, pedras preciosas que vêm sendo reunidas desde os primeiros filmes do estúdio. Vamos recapitular: a primeira delas foi o Tesseract (a Joia do Espaço, de cor azul) no primeiro filme do Thor, a segunda foi o Éter (a Joia da Realidade, de cor vermelha) no segundo filme de Thor, depois veio o Orbe (Joia do Poder, de cor roxa) no primeiro filme dos Guardiões das Galáxias, seguida pela Gema (a Joia da Mente, de cor amarela) que apareceu no segundo filme dos Vingadores e agora temos o Olho de Agamotto (a Joia do Tempo, de cor verde) neste novo filme. A única joia que falta ter seu paradeiro revelado é a da Alma (de cor laranja), que deve surgir em um dos filmes da Marvel no ano que vem (acho que em Guardiões da Galáxias 2, mas é só uma aposta).
Três referências sorrateiras que localizam Strange no universo Marvel, sua origem em relação ao resto dos personagens, e sua conexão com o fio da meada que estamos acompanhando até aqui. As duas cenas no fim dos créditos apontam para os próximos passos tanto do Doutor Estranho neste universo quanto para onde este começa a apontar uma vez que entramos de vez em seu terceiro capítulo.
A primeira delas mostra Strange conversando com um certo deus nórdico, que dispensa o chá em troca de sua bebida preferida numa curta sequência engraçadinha. Thor (vivido por Chris Hemsworth), depois de constatar que “a Terra agora tem feiticeiros” explica que tem uma “questão familiar” para resolver, referindo-se ao desaparecimento de seu pai Odin (Anthony Hopkins) e ao que tem aprontado seu meio-irmão Loki (Tom Hiddleston) e Strange oferece-se para ajudá-lo. A cena confirma uma especulação que já estava quente quando o ator Daley Pearson (que interpretou o colega de quarto de Thor no hilário curta que explicou onde estava o deus do trovão durante os acontecimentos de Capitão América: Guerra Civil) twittou a seguinte foto nos bastidores do terceiro filme de Thor, Ragnarok, que estreia no ano que vem:
Na foto, Thor mostra um cartão com o endereço “177A Bleecker St”, que todo fã da Marvel sabe que é o endereço da base de Strange, o Sanctum Sanctorum de Nova York, o que abriu a especulação que Doutor Estranho estaria no terceiro filme de Thor. A primeira cena após os créditos de Doutor Estranho vem confirmar isso, transformando Thor: Ragnarok no filme da Marvel que talvez tenha o melhor elenco até agora: além de Hemsworth, Hiddleston, Hopkins e agora Cumberbatch, o filme ainda terá o Hulk de Mark Ruffalo, Tessa Thompson como Valkyrie, Cate Blanchett como Hela, Karl Urban como Skurge, Jeff Goldblum com o Grão-Mestre e a volta de Idris Elba como Heimdall. Nada mal.
A segunda cena escondida confirma a transformação do personagem de Mordo em Barão Mordo, que começa ao final do próprio Doutor Estranho quando o personagem de Chiwetel Ejiofor frustra-se com o uso que a Anciã faz de magia negra. A cena final define a reviravolta em sua personalidade quando ele encontra-se com o personagem vivido por Benjamin Bratt, o ex-paralítico Jonathan Pangborn, que deu o caminho das pedras para Strange descobrir a magia. Pangborn, aprendiz místico, desistiu do mundo da feitiçaria e contenta-se em usar o que aprendeu apenas para conseguir andar novamente. No encontro com Mordo, este retira os superpoderes do mago novato e diz que “há muitos feiticeiros” na Terra, o que reforça seu papel de antagonista no próximo encontro que terá com Strange. Quando ele ressurgirá na telona é a dúvida desta cena: será no terceiro filme de Thor, no terceiro filme dos Vingadores, que deverá ter mais Doutor Estranho, ou numa óbvia continuação (ainda não anunciada) do filme de Strange?
As duas cenas finais, no entanto, concordam que a chegada de Doutor Estranho ao universo cinematográfico Marvel confirma a entrada do elemento místico na história. Até então superpoderes e super-heróis eram explicados pela ciência e pela tecnologia, à exceção de Thor, um elemento isolado justamente por não ser terráqueo. Com a chegada do Doutor Estranho, a Marvel inclina-se mais para este lado, que deve dar a tônica desta terceira fase e, possivelmente, dos próximos dois filmes dos Vingadores. As primeiras produções do estúdio em 2017 – a série Punhos de Ferro feita com o Netflix e o segundo Guardiões da Galáxia (que já tem uma conexão aberta com Strange através de um brinquedo Lego e desenhos de pré-produção do filme) – também devem ir para este lado, o que abre a possibilidade para novas adaptações de sagas em quadrinhos, novos personagens e novos vilões – estes que ainda são o calcanhar de Aquiles da Marvel.
Betty Davis é uma dessas forças da natureza personificadas numa deusa funky, infelizmente ofuscada por ter adotado o nome do marido famoso, mestre Miles. Mas mesmo antes de conhecer Miles Davis, Betty já gravava seu nome na história, ainda como Betty Mabry ao conhecer músicos como Sly Stone e Jimi Hendrix após ter se mudado para Nova York, atuando como cantora (lançou os singles “Get Ready For Betty” e “I’ll Be There” no início dos anos 60), compositora (é a autora de “Uptown (to Harlem)” dos Chambers Brothers) e modelo. Mas foi após conhecer Miles Davis que soltou todo seu potencial criativo. O mesmo pode ser dito sobre a evolução mais radical do trompetista que, sob sua influência, começou a experimentar com a psicodelia e a eletricidade. Encantado por Betty, Davis batizou uma música do disco Filles de Kilimanjaro com seu nome além de ter colocado-a na capa do mesmo.
Durante os anos 70, ela gravou discos que a tornaram uma espécie de segredo bem guardado entre os apreciadores do funk e do groove. Betty Davis (1973), They Say I’m Different (1974) e Nasty Gal (1975) são destas obras-primas desconhecidas do grande público que eletrizam qualquer pista de dança e cabeça-feita. Os três discos foram relançados pela excelente gravadora Light in the Attic, que, além de desenterrar seu quarto e inédito disco Is It Love or Desire? (de 1976) em 2009 e relançar seus três primeiros álbuns em vinil, agora surge com o disco que prova a influência de Betty no trabalho de dois dos maiores ícones de seu tempo: Jimi Hendrix e Miles Davis. Embora não estejam tocando no disco The Columbia Years (1968-1969), os dois pairam em música e alma sobre a gravação, até então considerada uma espécie de lenda urbana.
Gravado em duas sessões nos dias 14 e 20 de maio de 1969 no estúdio da Columbia na rua 52, em Nova York, o disco foi produzido pelo próprio Miles Davis e seu braço-direito Teo Macero, mago da pós-produção responsável por nada menos que Bitches’ Brew (título que teria sido inspirado por Betty e suas amigas e que chamaria-se apenas Witches’ Brew caso a própria Betty não interferisse, exigindo o título gangsta), e conta com um time de músicos de cair o queixo. Além de Betty, The Columbia Years conta com o baterista do Jimi Hendrix Experience Mitch Mitchell, o baixista da Band of Gyspsys (o outro grupo de Hendrix) Billy Cox, o guitarrista John McLaughlin, o saxofonista Wayne Shorter, os tecladistas Herbie Hancock e Larry Young e o baixista Harvey Brooks (que tocou com Miles Davis e Bob Dylan) – e mostra como tanto Miles quanto Hendrix foram inspirados pela presença magnética de Betty e como ela própria veio criando a base para seus discos clássicos. Saca só algumas músicas:
O disco pode ser comprado direto no site da gravadora.
Eis o clipe do single relâmpago que os Chemical Brothers soltaram na semana passada… O que será que vem por ai?



































