O nome da banda originalmente era Folk Project e reunia amigos de diferentes escolas da Zona Oeste de São Paulo que se reuniram, como o nome entrega, para tocar folk. “Mas o projeto foi tomando outras formas na medida em que nossas personalidades ultrapassaram as referências, assim, o som foi ficando menos acústico, mais intenso e catártico”, me explica a vocalista do Fernê, Manuela Julian, em entrevista por email. Aos poucos as guitarras foram entrando nas composições, rugindo microfonias que deixavam a vocalista mais à vontade para soltar-se e liberar a banda para entrar num estágio entre o indie e o noise, mas sem nunca deixar a melodia e a melancolia sair do primeiro plano. O quinteto agora prepara-se para lançar o primeiro EP e antecipa o primeiro single, “Consolação”, em primeira mão para o Trabalho Sujo.
Além de Manu, que também canta na banda Pelados, o Fernê ainda conta com outros nomes em ascensão da cena paulistana em sua formação, como o cantor e compositor Chico Bernardes, irmão do Tim d’O Terno, que deixa o violão de lado para assumir a guitarra e vocais, e o baterista Theo Cecato, que toca com a Sophia Chablau e Laura Lavieri. Completam a formação o baixista Tom Caffe e o guitarrista Max Huszar, sendo que este último entrou após a gravação do EP, que aconteceu no ano passado. “Gravamos o EP no Estúdio Canoa, com o querido Thales Castanheira como produtor e técnico”, lembra a vocalista, “foram tardes muito gostosas onde gravamos todo o som ao vivo, direto na fita cassete. Muita música, papo e baião de dois.”
Entre as referências musicais, citam desde bandas contemporâneas como Fleet Foxes, Beach House e Grizzly Bear quanto clássicos como Nick Drake, Tortoise, Neil Young e claro, Clube da Esquina e Mutantes. “Caetano Veloso e Björk são exemplos de artistas que unanimemente ocupam um lugar especial para todos nós, chegamos a fazer covers deles por isso”, explica Manu, mencionando “Terra” e “Hunter” como versões escolhidas.
O disco, que leva apenas o nome da banda, será lançado no início de setembro, pelo selo Seloki, e devido à quarentena, o grupo obviamente não fará shows. “Já que estamos entocados e separados, infelizmente não temos previsão para um show: estamos esperando um momento mais apropriado pra nosso reencontro”, continua a vocalista, que promete que uma audição em primeira mão do EP através da conta da banda no Instagram (@ferne.insta).
“Olha, passar pelo processo de lançamento sem poder tocar ao vivo é uma tristeza, porém, estamos aproveitando esse momento para elaborar nossa linguagem visual e ideias para o projeto de maneira profunda, o que achamos que querendo ou não é um processo importante”, continua a vocalista, reforçando que eram essencialmente uma banda de shows, “estamos morrendo de saudade do palco…”.
Preparando o terreno para o lançamento da caixa do clássico Sign O’ the Times de Prince, que virá com mais que seis dezenas de faixas inéditas, eis que outra destas versões alternativa aparece antes da hora – e é uma versão para “Forever in My Life”, que perde o tom robótico e frio da versão original para ganhar mais groove e sinuosidade graças a um vocal mais quente e um violãozinho praiano.
Que vibe boa…
O espetacular show American Utopia, que David Byrne trouxe para a Broadway no final do ano passado depois de ter circulado pelo mundo (passando inclusive pelo Brasil), vai se transformar num filme assinado por Spike Lee – e pelo trailer que acaba de ser revelado, o resultado pode ser épico, com a câmera de Lee movendo-se tão animadamente quanto os 11 músicos, cantores e dançarinos que dividem o palco com o eterno talking head.
O filme estreará em setembro no Festival Internacional de Cinema de Toronto, no Canadá, e depois chega para o público em geral através da HBO, no dia 17 de outubro.
O grupo australiano Tame Impala finalmente mostra ao vivo seu quarto disco, The Slow Rush, que iria começar a ter seus primeiros shows ao vivo um pouco antes de começarmos essa quarentena. E o grupo de Kevin Parker se apresentou no formato trio, batizando-se de Tame Impala Soundsystem, e trazendo versões mais pista para três faixas de sua safra mais recente de canções – duas de seu disco mais oitentista, “Breathe Deeper” e “Is It True”, e uma que foi lançada no começo dos trabalhos do novo disco, “Patience”. O show aconteceu dentro da programação remota do Tiny Desk Concert da emissora pública norte-americana NPR.
O penúltimo disco dos Doors com Jim Morrison, Morrison Hotel está sendo revisitado em uma reedição de aniversário de 50 anos, trazendo uma versão remasterizada do disco em vinil e CD e um segundo CD cheio sobras de estúdio, incluindo uma versão para “Money (That’s What I Want)”, além de um encarte com textos sobre o disco. A nova versão será lançada em outubro e já está em pré-venda no site da banda, que também liberou uma das versões alternativas de “Peace Frog” com “Blue Sunday”, que pode ser ouvida como aperitivo.
Eis a cara do disco e, abaixo, a ordem das músicas:
Disco 1: The Original Album
“Roadhouse Blues”
“Waiting For The Sun”
“You Make Me Real”
“Peace Frog”
“Blue Sunday”
“Ship Of Fools”
“Land Ho!”
“The Spy”
“Queen Of The Highway”
“Indian Summer”
“Maggie M’Gill”
Disco 2: Mysterious Union
“Queen Of The Highway” (Take 1, She Was A Princess)
“Queen Of The Highway” (Various Takes)
“Queen Of The Highway” (Take 44, He Was A Monster)
“Queen Of The Highway” (Take 12, No One Could Save Her)
“Queen Of The Highway” (Take 14, Save The Blind Tiger)
“Queen Of The Highway” (Take 1, American Boy – American Girl)
“Queen Of The Highway” (Takes 5, 6 & 9, Dancing Through The Midnight Whirlpool)
“Queen Of The Highway” (Take 14, Start It All Over)
“I Will Never Be Untrue”
“Queen Of The Highway” (Take Unknown)
“Roadhouse Blues” (Take 14, Keep Your Eyes On The Road)
“Money (That’s What I Want)”
“Rock Me Baby”
“Roadhouse Blues” (Takes 6 & 7, Your Hands Upon The Wheel)
“Roadhouse Blues” (Take 8, We’re Goin’ To The Roadhouse)
“Roadhouse Blues” (Takes 1 & 2, We’re Gonna Have A Real Good Time)
“Roadhouse Blues” (Takes 5, 6 & 14, Let It Roll Baby Roll)
“Peace Frog/Blue Sunday” (Take 4)
“Peace Frog” (Take 12)
Íamos falar de Juntatribo, mas Lovecraft Country, a nova série de horror da HBO, nos fisgou logo após seu primeiro episódio, por isso pulamos o festival indie campineiro para dedicar a edição desta semana do DM à investigação da obra e do personagem que inspiraram a série, o incel chamado H.P. Lovecraft, bem como a história de seu legado e sua mitologia, que foi parar inclusive nas mãos de Alan Moore. Também celebramos as cabeças por trás da série – nominalmente JJ Abrams, Jordan Peele e Misha Green – e descobrimos que o futuro da era de Aquário é o Grande Lebowski.
Um Sonic Youth aqui, um Belchior ali, um Plato Dvorak com Frank Jorge acolá, um Alceu Valença mais adiante… A disparidade de autores reunidos no primeiro disco de versões lançado por Pedro Bonifrate nesta quinta-feira dissipa-se quando enfileirados na ótima surpresa que é este Diversionismo: versões & fantasias (2004-2020). “Volta e meia pensava em juntar essas versões que fiz por aí e que achei que ficaram legais, inventivas em relação às gravações originais, num álbum só pra elas”, me explica por email, falando de um disco que inevitavelmente soa folk e psicodélico, derretido e solar como a maioria de seus trabalhos, seja em carreira solo, seja à frente do falecido grupo Supercordas.
“Engraçado é que a maioria dessas versões foram encomendadas pra tributos de artistas que certamente não seriam meus primeiros escolhidos se eu fosse pensar em que versões fazer por mim mesmo”, continua quando pergunto sobre as músicas escolhidas para o disco. “Por exemplo, eu acho que se ouvi um disco inteiro do The Fall foi uma ou duas vezes no máximo”, Bonifrate lembra da versão que fez para o tributo ao grupo inglês de Mark E. Smith, proposto pelo dono do selo Midsummer Madness, Rodrigo Lariú. “Ele me passou algumas sugestões e “Psykick Dancehall” me chamou atenção pela letra que achei muito bonita, então foi quase como musicar uma poesia”. Bonifrate também lembra desta maravilhosa versão, que soa como um encontro de Neil Young com George Harrison, como marco para definir o rumo deste disco. “Eu realmente gostei muito de como ficou, o Lariú também, mas ainda ficaria pequeno pra ter um álbum cheio”, relembra.
Diversionismo só começou a ganhar uma cara a partir da quarentena de 2020. “Durante o isolamento tive vontade de fazer com ‘Home of the Brave’, do Spiritualized, o que eu já tinha feito ao vivo uma vez ou outra e isso já inteiraria uns 30 minutos e achei que estava de bom tamanho. Já estava organizando o material pro disco quando o Pedro Montenegro pediu um cover de qualquer música brasileira pro programa dele na Soho Radio de Londres, o BarKino. Então fiz ‘Íris’ do Alceu pra ele e a coisa ficou ainda mais redonda”.
E entre um Sonic Youth quase indígena (“100%” como se fosse “My Wild Love” dos Doors), um Belchior renascido no Magical Mystery Tour (com uma lisérgica “Hora do Almoço”, gravada no disco-tributo organizado pelo Scream & Yell) e uma “Happiness is a Warm Gun” tocada num saloon, ainda há espaço para um afrossamba! “O tributo aos Afro-Sambas d’A Escotilha me pegou totalmente de surpresa, eu podia escolher quase qualquer faixa e não me via fazendo nenhuma, é tão tipo não-a-minha-onda que não visualizei”, lembra Pedro. “Mas no final ouvi o ‘Lamento de Exu’ e pensei ‘ah isso é bem abstrato, consigo fazer algo com isso’. Depois ouvi a versão de 1990 do Baden Powell sozinho e ela sim me encheu de ideias, e acabei fazendo uma das gravações minhas de que mais gosto.”
“Acho que essa aleatoriedade dos convites ditou a onda dessa compilação, as leituras me parecem improváveis em tantos aspectos, e acho isso ótimo”, prossegue. “Só a do Spiritualized, a do Alceu Valença e a dos Beatles partiram de uma vontade própria de fazer aquelas canções especificamente.” Quando pergunto se alguma ficou de fora, ele força a memória. “Se ficou, foi outra do Spiritualized que foi a primeira coisa que eu fiz quando tive um gravador de fita de 4 pistas na minha frente lá pra 1998, mas não consegui encontrar no meio de tantas fitas, e acho que hoje deve soar bastante tosca, até pros meus padrões”, confessa.
Ainda mais isolado devido à quarentena, ele segue no meio do mato em sua cidade-musa Paraty. “Olha, não posso dizer que estamos na pior. Moramos perto da natureza, temos duas crianças na casa que dão muito trabalho mas muita alegria também, e por enquanto temos esse ‘privilégio’ do isolamento social – que nada mais é do que um direito que só é garantido a poucos no Brasil. É doido como dá trabalho ficar em casa, tanta coisa pra fazer, pra limpar, pra secar, pra esfregar, pra martelar, pra rastelar e eu já me pergunto como é que eu conseguia existir trabalhando de 8h-17h antes disso”, confessa.
Quando fala na primeira pessoa do plural, refere-se a ele e à esposa, Thalita Silva, que cada vez mais participa do trabalho de Pedro, cantando desta vez em três canções, além de aparecer na capa do disco. “Na real ela já estava na capa do Museu de Arte Moderna (2013) e gravou uns vocais pra última faixa, ‘Canção de Pelúcia’. Volta e meia ela grava umas vozes, teve ‘Rock da Paçoca’ do Toca do Cosmos EP (2014), ‘Rã’ do Lady Remédios (2017), e na ‘Parte VI’ do Mundo Encoberto (2019) ela não só canta solo como toca caixa, meio que de um jeito como se toca a Caixa do Divino, do Maranhão, porque ela toca num grupo de caixa daqui de Paraty há alguns anos. Ela tem uma musicalidade muito intuitiva e uma voz muito bonita e aerada, que sempre cai bem.”
Mas nem só de versões vive o velho supercorda em 2020 e já anuncia mais um disco solo, o primeiro desde que seu antigo grupo acabou. “Um novo álbum como Bonifrate já está quase pronto, com canções próprias e inéditas”, revela. “O Diogo Valentino está terminando de mixar aí em São Paulo e deve sair nos próximos meses. Fora isso, vamos tentando ficar vivos e sãos pra encarar esse mundo esquisito que vem logo depois da curva.”
Que maravilha essa transformação a que Kieran Hebdan submeteu em uma das faixas do disco mais recente de Kevin Parker. O remix que o senhor Four Tet fez para “Is it True?” tira a faixa mais besta do disco novo do Tame Impala, The Slow Rush, dos anos 80 para elevá-la espiritualmente rumo a uma dimensão fluida entre beats da virada do século e acordes ambient que parecem sempre terem existido, aprofundando a canção para além de seu ar pop vespertino original.
“As Curvas da Estrada de Santos” é uma das canções mais emblemáticas de Roberto Carlos, especificamente no ponto de vista musical, quando ele começa a flertar com a soul music, o gospel e o blues, usando a música para extravasar as emoções – tanto que no ano seguinte de seu lançamento, em 1970, Elis Regina a regravou em seu clássico Em Pleno Verão justamente sublinhando as cores rasgadas da canção original. Três anos depois, o grupo instrumental Azymuth regravava o hit numa versão ainda mais pesada, que infelizmente foi engavetada. Só que ao arrumar suas coisas depois de ajudar a coletânea Azymuth – Demos (1973-75) Volumes 1 & 2, lançada no ano passado pelo mesmo selo inglês Far Out, o baterista do grupo, o mítico Ivan Conti, o Mamão, desenterrou essa pérola que agora vai ser finalmente lançada pelo mesmo selo, em um compacto. Na gravação, alem de Conti, o grupo ainda conta com o falecido José Roberto Bertrami nos teclados elétricos, Alex Malheiros tocando contrabaixo acústico e o guitarrista João Américo.
O disco já está à venda no site da Far Out. No lado B do compacto, um improviso entre o tecladista e o guitarrista, cujo apelido era Paraná, batizando a faixa de “Zé e Paraná”. Estas duas faixas, como a coletânea do ano passado, foram gravadas entre 1973 e 1975, na casa de Bertrami, no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro.
Quando quis recriar a cena glam rock norte-americana do começo dos anos 70 em seu controverso filme Velvet Goldmine, de 1997, o diretor Todd Haynes convidou o guitarrista Don Fleming, da banda Gumball, para criar uma versão fictícia dos Stooges para o filme. Fleming arregimentou um time que, além dele mesmo, ainda incluía dois integrantes do Sonic Youth (Thurston Moore e Steve Shelley), o vocalista do Mudhoney Mark Arm, o baixista do Minutemen Mike Watt, Sean Lennon (pois é!) e um stooge original (o guitarrista Ron Asheton). Batizados de Wylde Rattz, este supergrupo gravou um disco inteiro na época, além de uma versão insana para “Fun House” dos Stooges – que só vieram à tona nesta quarentena. Sente só essa versão do clássico dos Stooges, que conta apenas com Thurston Moore, Steve Shelley, Mark Arm, Mike Watt e Ron Asheton:
E esse disco inteirinho então? Olha só que pesado!
Rapaz…










