É uma mistura simples, mas pega de um jeito: uma guitarrinha clara e molenga, beats artesanais, uma voz doce sussurrando uma canção soul em inglês que parece ingênua, mas só na superfície, seguida de um refrão tão bobo quanto grudento. “W.T.K.U.B.L.”, primeiro single da cantora e compositora catarinense Elga Flanger, é uma pérola pop irresistível, misturando R&B e lo-fi na mesma medida, soando tão caloroso quanto um abraço – o que, em tempos de distanciamento social, ganha uma profundidade específica. “W.T.K.U.B.L.” é uma ode àqueles clássicos dos anos 90 bem chicletes, só que misturando elementos e técnicas mais contemporâneas da música eletrônica”, ela me explica por email, contando que escreveu uma letra falando sobre experiências que viveu com casos de ghosting – quando uma pessoa cessa todas as formas de comunicação com a outra.
Conheço Elga de outros carnavais, quando ela ainda trabalhava como engenheira de som e fez essa função no programa Vintedoze (não conhece? Saca só aqui) que tive durante 2012 com o Ronaldo Evangelista, mas, embora já tivesse um passado hardcore (teve uma banda com duas amigas chamada Roxanne nos tempos do MySpace), só começou a mexer em seu próprio trabalho autoral há pouco tempo. “O projeto surgiu da minha necessidade de explorar a música além jobs”, ela continua. “Eu estava me limitando a produzir músicas apenas para fins publicitários desde 2013. Em 2015 eu até cheguei a gravar algum material, mas acabei me perdendo no processo e demorei tanto pra terminar as faixas que as músicas pararam de fazer sentido pra mim. A vontade de fazer um som que me representasse ficou reverberando na cabeça durante um tempo até eu fazer uma ruptura real na minha carreira, apostando em novos caminhos.”
“Ano passado fiz minha primeira trilha sonora original pra cinema no curta-metragem Ressurreição, do diretor Otto Guerra, e também participei de apresentações pontuais como tecladista, guitarrista, DJ e projetista de alguns artistas independentes, como Patrícia Coelho, Kia Sajo, Laura Wrona, La Leuca e Frabin”, lista, citando-os todos como inspiração para o novo projeto, que é uma banda de uma mulher só – o sobrenome artístico, claro, vem do pedal que dá o som característico da canção.
Quarentenada em Floripa, ela já tem o material do primeiro EP pronto para o segundo semestre. “Já tenho um próximo single a caminho e um clipe pra finalizar no próximo mês”, explica. “Apesar de ter feito toda a parte musical sozinha, com exceção da masterização do Arthur Joly, na parte visual, tive a felicidade de encontrar excelentes colaboradoras”, como a Nena, do grupo La Leuca, que fez a capa do single.
Mais do que a primeira pessoa a fotografar os Beatles como um grupo, Astrid Kirchherr, cuja morte, terça passada, só se tornou pública nesta sexta (com um tweet do beatlólogo Mark Lewisohn), foi a responsável por apresentar-lhes as primeiras noções práticas de estilo. Ela fazia parte do trio de amigos que foram os primeiros fãs da banda em sua temporada em Hamburgo, na Alemanha, em 1960, e que logo se tornaram os primeiros amigos alemães do grupo. John Lennon chamava Astrid, Klaus Voorman e Jürgen Vollmer de os “exis”, em referências aos existencialistas franceses, mas foi a fotógrafa e estudante de moda que mais mexeu com o senso estético e existencial do grupo – era uma mulher que morava sozinha, tinha seu próprio emprego e seu próprio carro, além de usar cabelo curtinho, algo impensável para aqueles caipiras de uma cidade portuária no norte da Inglaterra.
Além das fotos estilosas que consagraram essa pré-história da banda, que ainda contava com o baixista Stuart Sutcliffe e o baterista Pete Best em sua formação, ela também foi responsável por inventar o penteado que anos mais tarde seria reconhecido como o corte de cabelo dos Beatles, cortando primeiro o cabelo de seu namorado na época, Stu, que ficou em Hamburgo quando a banda voltou para Liverpool, e depois o de cada um dos outros Beatles (menos de Best, que manteve o topete). Mesmo depois que o grupo voltou para a Inglaterra e fez sucesso no resto do mundo, eles continuaram o contato com ela, que nunca foi muito fã daquele tipo de fama. Descanse em paz.
O produtor canadense Dan Snaith, o dono do Caribou, segue deschavando o disco que lançou no começo do ano, o ótimo Suddenly, dando faixas na mão de alguns conhecidos para que eles possam dar seus tratos ao disco. E depois de passar “Never Come Back” na mão do produtor norte-americano Morgan Geist, agora ele passa a mesma faixa para o chapa Kieran Hebden. E o remix que Four Tet faz para a faixa, a mantém no mesmo plano musical, mas a leva para uma estratosfera sônica, enquanto a transforma num sobrevoo noturno… Bem foda.
Não tinha visto Star Wars Origins, curta inglês dirigido pelo fã Phil Hawkins e lançado no fim do ano passado, antes do catastrófico nono episódio de Guerra nas Estrelas. Filmado no Marrocos com efeitos especiais do estúdio Flipbook, o filme se passa na Segunda Guerra Mundial e mostra como um pequeno incidente pode ter inspirado duas das maiores sagas da história do cinema.
Não grile se seu olho começar a lacrimejar…
A primeira vez que Tatá Aeroplano me falou sobre Delírios Líricos, no segundo semestre do ano passado, o disco ainda não tinha nome e tinha acabado de ser gravado – e as novas canções já carregavam uma qualidade ao mesmo tempo solene e solitárias. Meses depois daquele primeiro papo – depois de ele ter mostrado algumas destas novas canções no espetáculo Um Brinde à Mãe da Lua, que fez em novembro no Centro da Terra, e depois de lançar o primeiro single “Alucinações” em março aqui no Trabalho Sujo, dias antes de entrarmos em quarentena -, o mister saca o novo álbum quase que de surpresa e chega a impressionar como a atmosfera do disco conversa com o clima estranho e introspectivo desses dias de quarentena que estamos atravessando.
“É delírio meu valorizar assim a solidão”, cantarola triste o refrão de “Trinta Anos Essa Noite”, reforçando, na faixa-título, que “quando o tempo parou fazia silêncio”, enfileirando canções melancólicas que olham para dentro. “Sinto que algumas músicas conversam com o momento que estamos vivendo, talvez pelo fato de terem sido criadas num momento que eu mergulhei fundo na introspecção”, ele me conta por email. “Semanas antes de lançar o disco eu fiquei lembrando de algumas letras que batem com esse momento atual, são muitos sentimentos juntos. Quando entramos em quarentena eu fiz essa conexão com as canções logo de cara.”
É seu quinto álbum solo e o sexto que grava com a mesma formação de músicos que o acompanha desde o início da década, com Junior Boca na guitarra, Dustan Gallas no baixo e sintetizadores e Bruno Buarque na bateria e percussão (o outro álbum com o grupo foi Vida Ventureira, que dividiu com Bárbara Eugenia), sempre no estúdio Minduca, deste último. “Viramos uma banda, começamos o primeiro álbum em dezembro de 2011 e de lá pra cá nos tornamos amigos, parceiros de discos, de histórias e de estrada”, ele lembra, elencando também um quinto elemento. “O mister Lenis Rino grava com a gente desde o álbum Na Loucura & Na Lucidez, fazendo percussões, capturando o som dos discos e tá colado com a gente nos shows ao vivo.”
Ele conta como o disco começou a tomar forma. “Antes de gravar Delírios Líricos, tivemos a ideia de trazer algumas sonoridades, sensações e viagens dos discos anteriores, não foi uma coisa muito pensada, mas jogamos essa semente”, continua. “Os discos são gravados em uma semana, então é um mergulho intenso no material, buscamos manter o astral lá em cima e fazer tudo com calma. Gravamos as bases ao vivo, eu aproveito pra colocar os vocais. O Bruno Buarque sempre traz novidades pro estúdio, instrumentos e equipamentos novos que acabam entrando no disco. Essa intimidade faz com que a gente muitas vezes nem se dê conta do que estamos fazendo, flui num tipo de loucura boa.” O disco ainda conta com vocais de Bárbara Eugenia e da companheira de Tatá, Malu Maria, que ainda toca flauta na faixa “Cabeças Cortadas”, além do acordeon da gaúcha Biba Graeff em “Amoras Na Beira Do Rio” e do trompete de boca de Beto Lanterna em “O Silêncio das Serpentes”.
Pouco antes da gravação, Tatá começou a compor outras músicas além das que havia trazido originalmente para o estúdio – destas dez primeiras escolhidas, só três acabaram no álbum. “As novas músicas apareceram com muita força, mais introspectivas, mais misteriosas”, lembra-se. “Uma semana antes da gravina, me debrucei nesse novo material e fui arredondando, colocando sentimento, entortando. “Cabeças Cortadas” foi composta dentro do estúdio Minduca, durante a semana de gravação. O disco tomou uma dimensão mais solene, um pouco mais soturna, eu estava escutando muito Nick Cave, Arnaldo Batista e também rolou o fato de que quatro músicas surgiram na mesma madruga. Eu ganhei uma garrafa de pisco do amigo Carlos, integrante da banda Macabea. Numa sexta de julho, lá pelas 23h, lembrei que tinha essa garrafa de Pisco e animei tomar uma dose, peguei o violão e saiu “Alucinações” e “O Silêncio Das Serpentes”, registrei elas no gravador do celular e fui dormir. Quando deu cinco da manhã acordei cantando a melodia de “Amoras Na Beira Do Rio”, fui pra sala, peguei o violão, escrevi ela e quando terminei, veio na sequência, “Réquiem Para Um Sonho”, já era sábado, dia 20 de julho, dia que fizemos um show memorável com a banda toda na Casa do Mancha”.
No repertório, apenas uma música não é de sua autoria, “Alucinações”, de Jorge Mautner. “Eu pirei com o álbum Revirão, escutei demais e “Ressurreições” me acompanhou por infinitas caminhadas. Incluí ela nos meus sets, quando era residente nas noites de sábado no Studio SP nos anos 2008, 2009, 2010 e sempre sonhei em fazer uma versão para ela. Em 2014 eu tirei ela no violão, comecei a tocar nos shows que eu faço no formato voz e violão, e foi uma realização gravar ela pra esse novo álbum.”
Recolhido há dois meses, ele conta sobre como soube da seriedade do drama que estamos atravessando. “Tô em casa desde o dia 12 de março, depois que eu vi uma live do Torturra. Se não engano, foi no dia que foi decretada a pandemia. Me dei conta da gravidade da coisa e me preparei com a Malu Maria para esse período. A gente decidiu não sair mais”, conta. “Nas últimas semanas consegui organizar melhor as ideias, passar cada dia por vez, estabeleci uma rotina, tempo para parcerias, para escutar lançamentos, continuo lendo bastante e escutando muita música. Como eu te falei, tenho acompanhado o Climatias logo pela manhã e curtindo pacas, me dá energia e ânimo pra seguir legal pelo resto do dia. Tive um pouco ansiedade no início e para conseguir manter a cabeça no lugar estabeleci com alguns amigos, trocas de mensagens diárias, com alguns troco emails como se fosse cartas, filosofamos, falamos de música, política e várias coisas, são momentos onde deixo o inconsciente agir.”
Mas apesar dos dias enclausurados, Tatá não para. “Delírios Líricos é um álbum de canções, e já temos uma ideia para o próximo disco, que é fazer algo totalmente fora do que fizemos até agora. Já temos uma parte do material, uns anos atrás começamos a criar coletivamente no estúdio, junto com o DJ Marco, então vamos voltar nesse material que começamos a gravar com ele para produzir um material novo.”
Quem está acompanhando o CliMatias já sabe que eu comecei um programa de entrevistas semanal no fim de semana passado – que a princípio fica online primeiro para quem contribui com o meu trabalho (pergunte-me como no trabalhosujoporemail@gmail.com). Mas na terça-feira abro o programa pra todo mundo, portanto, olha aí a primeira edição, em que eu continuo o papo com o Bruno Torturra, desta vez puxando mais pras suas principais áreas de atuação: jornalismo e psicodelia. E é claro que isso se mistura com vários outros assuntos… Saca só:
E quem você quer que eu entreviste nos próximos programas? Diz aí…
Que alegria descobrir que as meninas do quarteto catarinense La Leuca transformaram o show que fizeram no ano passado no Centro Cultural São Paulo, quando eu era curador de música de lá, em um disco ao vivo, lançado em plena quarentena. Em Ao Vivo @ CCSP elas exibem sua doce e frágil psicodelia indie ao mesmo tempo em que nos hipnotizam com riffs e solos de guitarra.
Abaixo, o vídeo que fiz desta mesma apresentação:
Participo nesta terça, às 16h, de um papo com o baterista Theo Cecato da banda Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo no Instagram da banda. Vamos conversar sobre shows históricos da minha vida, seja lá o que isso queira dizer. Confere lá.
Um dos personagens mais importantes dos bastidores da história do rock, o jornalista, DJ e radialista inglês John Peel estava sempre buscando novidades na música pop a partir de seu programa na emissora Radio 1, da BBC. Desde o final dos anos 60, ele foi um dos primeiros a dar atenção a fenômenos musicais como o rock psicodélico, o rock progressivo, o punk, o pós-punk, o dub e o indie rock, entre outros e desde o início dos anos 70, apresentava estes novos artistas em gravações ao vivo nos estúdios da rádio que, aos poucos, ficaram conhecidas como Peel Sessions, chegando a se tornar inclusive discos oficiais de vários grupos clássicos, lançados como EPs pelo selo Strange Fruit, do próprio Peel.
Foram mais de quatro mil sessões em 37 anos, com mais de dois mil artistas diferentes, incluindo nomes como Bob Marley, Syd Barrett, Kinks, Thin Lizzy, Nick Drake, Roxy Music, T-Rex, Buzzcocks, Can, David Bowie, Roxy Music, Joy Division, Gang of Four, Specials, Slits, Wire, New Order, Elvis Costello, Cocteau Twins, XTC, Cure, Smiths, The Fall, Big Black, Echo & The Bunnymen, Nirvana, Jesus & Mary Chain, Sonic Youth, Fairport Convention, Happy Mondays, Pulp, Elastica, Mogwai, Galaxie 500, Breeders, Four Tet, Mercury Rev, Pavement, Ween, PJ Harvey e muito mais.
Como boa parte destas sessões estava no YouTube, o blogueiro inglês Dave Strickson deu-se ao trabalho de reunir o link para quase mil delas em seu site. É música que não acaba mais – um senhor trabalho, que o próprio Strickson promete seguir alimentando… Eis algumas pérolas:
Tudo lá no site do Strickson.
Lançando o primeiro single em dois anos, a bela e tranquila “Love Is All We Share”, o grupo australiano Cut Copy tira o pé da pista de dança e se joga numa introspecção quase ambient que acaba conversando – e bem – com esses dias de reclusão forçada.










