
E por falar em Campus Party, escrevi justamente sobre a boa edição deste ano, que terminou na semana passada, na edição do Link desta segunda-feira:

Sem celebridades, a melhor edição da Campus Party
Evento se adaptou às mudanças tecnológicas
Acompanho a Campus Party desde sua criação. Em 2008, a banda larga não era tão disseminada. Lembro de matérias da época sobre gente que ainda usava conexão discada em São Paulo porque a internet rápida não estava disponível em seu bairro. Portanto fazia sentido um evento em que a conexão veloz fosse a grande atração. Mas a Lei de Moore – aquela que comenta a progressão geométrica da evolução da tecnologia – já antevia que a velocidade deixaria de ser um atrativo em poucos anos e eu já me perguntava o que a Campus Party poderia oferecer no futuro.
A primeira edição aconteceu no Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera, no coração de São Paulo. Um evento em que as pessoas levam seus computadores para passar dias acampados jogando videogame e compartilhando conteúdo naturalmente geraria curiosidade. Assim, a primeira edição funcionou como um cartão de visitas daquele novo universo digital para toda a cidade.
Foi a única que aconteceu ali. As três edições seguintes foram para o Centro de Exposição Imigrantes. Numa região afastada do centro e do metrô, as Campus Party de 2009, 2010 e 2011 aconteceram longe do olhar da cidade. E ali o evento cresceu de forma atrapalhada, com filas e problemas de infraestrutura, segurança, temperatura e barulho.
O público, contudo, relevava. Para os participantes, a Campus Party era um acampamento de verão sem os perrengues e com conexão 24 horas. Tudo bem que não dava para ouvir os debates ou que houvesse uma goteira. O importante era estar conectado.
Neste tempo, o mundo fora da Campus Party mudou. As conexões domésticas melhoraram e hoje baixa-se um filme em menos tempo do que o tempo para assisti-lo, algo considerado incrível na época do primeiro evento. Ao mesmo tempo houve a expansão do Facebook e a popularização dos smartphones, que aceleraram a aproximação de muito mais gente para o digital. Ao completar cinco anos, a Campus Party não parecia mais um evento feito para um nicho de tarados por downloads.
Se a conexão rápida aos poucos deixava de ser um atrativo, coube ao evento repensar no que poderia substituí-la – e por anos assistimos a um desfile de celebridades do universo digital. Nomes como Tim Berners-Lee e Steve Wozniak garantiram uma audiência considerável, mas apostar em nomes famosos também poderia ser um beco sem saída. Afinal, não são muitas as celebridades neste universo e os maiores nomes, como Mark Zuckerberg e Bill Gates, são executivos com agendas lotadas.
Em 2012 o evento mudou para um lugar de acesso fácil, o Parque Anhembi, e algumas questões pareciam ter sido resolvidas. As atrações não eram tão famosas assim: o físico Michio Kaku e o jornalista e matemático Alex Bellos, executivos da empresa do Angry Birds e integrantes do Occupy Wall Street. Mas aos poucos profissionais entenderam que o encontro também era um bom lugar para procurar novos talentos.
Chegamos a 2013 e a edição da semana passada foi, sem dúvida, a melhor da história. Os erros serviram como aprendizado e os palcos foram colocados no centro do pavilhão, causando menos barulho. Com este desafogamento, foi possível abrir mais espaço para quem trouxesse seu computador e, ao dissipar estas pequenas multidões, o ruído diminuiu. O aspecto comercial do evento chegou a um consenso à medida que novas startups e grandes empresas começaram a dialogar entre si usando a Campus Party como ponto de partida. Os convidados desta edição não tinham o peso da fama dos anos anteriores e sua importância não ofuscava o resto das atrações.
É possível que a Campus Party tenha, enfim, chegado à maturidade e entendido sua vocação. Pode ser, por outro lado, que esteja surfando na onda das startups, e que, uma vez que esta onda passe, pode ter de repensar seu rumo. Mas o fato é que houve mais acertos que erros – e isso é digno de parabéns.
Conversei na semana passada com Nolan Bushnell, o fundador da Atari e pai do entretenimento eletrônico doméstico com o conhecemos hoje, que veio para São Paulo como uma das atrações da Campus Party na semana passada. Segue a íntegra abaixo:

Conversamos com o pai do Atari
Nolan Bushnell, um dos convidados da Campus Party 2013, falou a Galileu sobre videogames e educação, como inspirou a Apple e a Nintendo e como quase popularizou a internet dez anos antes
Em uma Campus Party com poucas atrações célebres, Nolan Bushnell, que completa 70 nesta terça-feira, dia 5 de fevereiro, talvez seja o nome mais famoso do evento que encerrou suas portas neste domingo. Ele só divide atenções com o ex-astronauta Buzz Aldrin. Mas enquanto o segundo lugar de Aldrin – o segundo homem a pisar na Lua – não foi o suficiente para lhe garantir lugar na história (Neil Armstrong, que morreu no ano passado, sempre será o grande astronauta da Nasa, pelo menos no século 20), a prata de Bushnell não foi tão problemática. Afinal, ele foi o segundo empresário a lançar uma linha comercial doméstica de jogos eletrônicos, no início dos ano 70. O primeiro console da história, o Magnavox Odyssey, lançado seis meses antes, não sobreviveu, enquanto o por Bushnell, o pai do Atari, por um bom tempo foi sinônimo de videogame. E é da fama do Atari que este norte-americano vive até hoje – foi ela que o trouxe à Campus Party 2013 e que me permite entrevistá-lo quarenta anos depois de seu grande feito.
Quando refiro-me a ele como uma lenda viva, ele graceja: “Sempre pergunto às pessoas que dizem isso: ‘O que tenho feito recentemente para você?’”, ri. E, realmente, depois que vendeu a Atari para o grupo Warner no meio dos anos 70, Nolan Bushnell saiu do holofote mundial e deixou o mundo dos games comerciais para dedicar-se à educação. Sua atual empresa, a Brainrush, foi criada para aproveitar-se de um momento em que, graças aos meios digitais e à internet, o autoaprendizado torna-se não apenas complexo quanto divertido.
Foi disso que falou durante sua apresentação na Campus Party, sobre como o formato de aula tradicional restringe o aprendizado ao capturar a atenção apenas nos minutos iniciais. Bushnell crê no que ele chama de “tempestade perfeita”, uma situação de condições ímpares que irá acelerar o aprendizado em dez – “talvez vinte”, completa – vezes nos próximos cinco anos. “A aproximação entre software onipresente, redes robustas, hardware barato e ciência do cérebro irá provocar algo que nunca vimos antes, será uma mudança sem precedentes”, explicou, enfatizando que sua empresa aposta bastante no último ingrediente desta equação – a exploração do cérebro humano. “Hoje já fazemos testes que conseguem medir o quão rápido é o seu aprendizado. E sabe o que é engraçado? As crianças que estão tirando as piores notas hoje em dia são, na verdade, aquelas que aprendem mais rápido. Mas elas se chateiam mais rápido e por isso não conseguem mostrar um bom desempenho”, explica.
Embora afastado do universo do comércio digital, Bushnell sabe de sua importância para este mercado. “Acho que não foi por acaso, por exemplo, que Steve Jobs e Steve Wozniak trabalharam para a Atari. Eles construíram o primeiro computador Apple com partes de um Atari… Gosto de pensar nisso como raízes comuns para esta cultura de criatividade e inovação que une a computação pessoal aos videogames”, explica.
O fortalecimento desta indústria do outro lado do planeta também tem influência do trabalho de Bushnell na Atari, empresa norte-americana que adotou um nome japonês apenas pela sonoridade. Anos após se tornar a principal empresa de games dos EUA, a Atari viu surgiu, no Japão, sua primeira grande concorrente, a Nintendo, que impulsionou toda a indústria por lá. “Pong foi o jogo que deu origem ao negócio de jogos eletrônicos para o consumidor no Estados Unidos”, explica. “Mas, no Japão, como eles têm famílias menores, um jogo para duas pessoas não fez tanto sucesso, pois eles não têm o hábito de chamar amigos para jogar em casa. Então era preciso que um jogo bom para ser jogado sozinho e foi Breakout, justamente o jogo que Jobs desenvolveu, que deu origem ao mercado de jogos eletrônicos para o consumidor naquele país.”
A lógica dos jogos o acompanha desde o tempo da faculdade, antes de aplicá-la aos computadores. “Paguei minha faculdade como gerente de um parque de diversões. Eu trabalhava no verão e estudava no inverno, era uma combinação perfeita de empregos. E foi isso que me fez pensar em jogos. Desenvolvi uma sensibilidade ao ver milhares e milhares de pessoas jogando todos os dias. Via o que elas gostavam e o que elas não gostavam. Quando você empreende qualquer tipo de negócio, você tem de ter uma certa flexibilidade para lidar com seu público e acredito que minha experiência em parques de diversão me ajudou muito com isso”, explica.
Além de inspirar Apple e Nintendo, a Atari poderia ter acelerado a popularização da internet em pelo menos uma década. “A internet foi criada pelo governo e depois se tornou privada, mas 1976, tínhamos um projeto chamado Ataritel, em que construímos os modems mais rápidos no mundo e iríamos construir uma rede de troca de informações através das linhas de telefone. A ideia era reunir jogadores de uma região que tivesse o mesmo código de área em uma central que conversasse com outras centrais de outras regiões com códigos de área diferentes, de forma que as pessoas não tinham que pagar interurbano para jogar com pessoas de outros estados. Acontece que esta é exatamente a arquitetura da internet (ri)!”
Ele culpa o fracasso do projeto à venda da Atari para a Warner, naquele período. “Eles achavam que não tinha sentido fazer as pessoas jogarem games através de linhas telefônicas, que era uma ideia estúpida”, ri, sem graça. “A Atari é um dos raros casos – talvez o único – em que uma companhia que era líder em seu segmento cometeu
suicídio!”, lamenta. “Não foi homicídio, foram engravatados idiotas que trabalhavam na empresa que mataram a própria Atari.”
Pergunto se isso não tem a ver com a lógica corporativa industrial, que parece perseguir, em vez de incentivar, a inovação. “Acho que quem faz sucesso sem saber porquê tem muito medo de perder este status. Eles acham que qualquer tipo de mudança é perigosa e, por isso resistem a mudanças. Por isso que a próxima grande batalha que está vindo acontecerá nas escolas e universidades. Quem hoje é o detentor do conhecimento, que diz querer ajudar as pessoas, está completamente alheio e fechado às novas tecnologias que ensinam muito mais rápido do que um cara com um giz na frente de uma pequena multidão. Nos próximos anos vamos ver isso mudar muito rápido, na medida em que pessoas que não assistem aulas e não frequentam cursos começarem a superar as pessoas que frequentam escolas”, profetiza, voltando para seu tema atual favorito, a educação.
Mas é inevitável que o assunto volte aos jogos eletrônicos, uma vez que são justamente eles que o motivam a enveredar pela educação. Para Bushnell, são os games que vão salvar a educação da chatice. “Jogos fazem parte da textura psíquica dos seres humanos, desde que nós éramos homens das cavernas e brincávamos com fogo, até os dias de hoje. E à medida em que a tecnologia evolui, os jogos dão um jeito de se inserir nela. E do mesmo jeito que a tecnologia melhora, os jogos também melhoram. Eu me sinto muito mais um veículo deste fluxo do que um criador”, conclui.

Acompanho e participo da Campus Party desde a primeira edição, quando aconteceu no Ibirapuera, e para a edição deste ano estarei em diferentes atividades no evento, que desde o ano passado acontece no Anhembi. Hoje, no Palco Guttenberg, às 15h45 apresento a primeira mesa da Galileu na Campus Party, o debate E-books à Brasileira, que fala do mercado editorial no Brasil às vésperas da popularização do formato digital. A discussão será mediada por um dos editores da revista, Diogo Sponchiato, que escreveu matéria sobre este assunto na edição de janeiro, e ainda conta com a presença de Carlo Carrenho, do Publishnews; Sergio Herz, CEO da Livraria Cultura; Karine Pansa, presidente da Câmara Brasileira do Livro e Roberto Bahiense, diretor da Biblioteca on-line Nuvem de Livros. Às 17h participo do debate A Comunidade Conectada, que conta com a presenta de Dinho França, fundador da agência Dharma; Carol Romano, do AsBoasNovas, Rodrigo Masuda, da rede itsNOON e Patricia Santin, da Fundação Telefonica Vivo. Na sexta, às 11h, Palco Gutenberg, medio a discussão Jornalismo Reloaded, sobre como a mídia tradicional está se adaptando às novas tecnologias, que acontece entre Adriana Garcia Martinez criadora do serviço online da Reuters no Brasil; Gustavo Faleiros, do InfoAmazônia; Gilberto Dimenstein, do CatracaLivre; Beth Saad, da ECA-USP; e Leandro Machado, da Folha de S.Paulo. Na mesma sexta, também no Palco Gutenberg, a mesa Isso é Bizarro, sobre o interesse de leitores online por este tipo de tema, conta com a participação da repórter da Galileu Luciana Galastri, que toca o blog Buzz; da Carol Castro, do Ciência Maluca, da Superinteressante e de Juliana Emy Yokomizo, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. A outra mesa proposta pela Galileu acontece no sábado, às 14h30, no Palco Gutenberg, e discute a Contracultura digital no trânsito, sobre como a tecnologia pode nos ajudar a nos locomover pela cidade de maneira mais eficiente, sustentável e menos estressante. A mesa tem mediação da editora da revista Priscilla Santos, e conta com a participação de Paulo Hilário Nascimento Saldiva, do Laboratório de Poluição da USP; Arthur Costa Lima; sócio da Jurema, empresa de pesquisa e desenvolvimento de produtos baseados na internet; Marcelo Romera Dell Osso, gerente de comunidade do aplicativo Waze, e Marcio Henrique Nigro, do site Caronetas. A agenda completa da Campus Party tá aqui.
Eis a entrevista que fiz com o Cory Doctorow para a Galileu deste mês.

O que acontece quando se é banido da internet
Um romance para ilustrar os riscos da vigilância online
Cory Doctorow vive uma vida dupla. É um escritor de ficção científica que usa elementos da nova era digital para pensar num futuro próximo. E também é ativista digital empenhado em não permitir que as mudanças na internet possam interferir na liberdade individual. Em seu novo livro, Cinema Pirata (Galera Record, R$ 47,90), ele junta as duas faces ao desenhar um cenário que para muitos parece inofensivo, mas que pode ser tenebroso em poucos anos. Ele conta a história do adolescente Trent McCauley, que mora no norte da Inglaterra e tem como passatempo remixar filmes de um velho galã do cinema para recontextualizá-lo em situações constrangedoras — e sem o consentimento do autor. Isso o torna um infrator digital e a pena resulta no fim do acesso de sua família à internet, o que quer dizer que seus pais não podem mais procurar emprego ou pagar impostos em casa, nem sua irmã pode estudar. Frustrado, foge para Londres onde começa a entender a natureza por trás de sua punição. Conversei com Doctorow no fim de 2012, quando, atarefado com os filhos pequenos, preferiu responder em áudio às perguntas que fiz por e-mail.
Cinema Pirata é um romance, mas também funciona como um alerta, afinal o futuro distópico do livro não é tão distante de nossa realidade atual…
O que a ficção científica faz de melhor é colocar movimento e sangue em um argumento que, de outra forma, soaria frio e abstrato. Antes de George Orwell escrever o romance 1984, era difícil explicar por que ter uma câmera filmando por cima do seu ombro era tão perturbador. Graças a ele podemos importar aquela narrativa para entender por que toda essa vigilância suprime a nossa liberdade e por que só somos felizes, saudáveis e completos em uma sociedade livre. É muito fácil ser abstrato ao se tratar a internet como um sistema de TV por assinatura melhorado e dizer coisas como “qual é o problema de se regular a internet para excluir pessoas que assistem à TV de forma errada?”. O que quis mostrar no livro é o que isso significa tanto emocional quanto politicamente, como é sentir a pena de morte da era digital, ter seu acesso à internet tirado em um mundo em que quase tudo que você faz envolve a internet e que, em breve, tudo que você fará irá exigi-la.
Como a guerra contra a pirataria pode nos levar a esse estado de vigilância e restrição da liberdade?
O motivo para os computadores estarem na linha de frente do debate sobre direitos autorais não se deve apenas ao fato de serem máquinas de fazer cópias e destruírem o modelo de negócios da indústria do entretenimento, mas em razão de os legisladores acreditarem que eles podem ser legislados. Acham que basta fazer leis que digam como os computadores e a internet devem funcionar, que conexões podem ou não fazer, que programas podem rodar. O problema é que não há como inventar esse tipo de função, tecnicamente falando. Não dá para criar um computador que execute todos os programas menos um que lhe aborrece. O mais próximo disso são computadores que permitem fazer tudo, mas vêm repletos de softwares-espiões que vigiam o que é feito e tentam parar o usuário quando ele quer fazer algo proibido. Quando uma máquina vem de fábrica com esses recursos, há muitos desvios mal intencionados que podem também vir com eles. Se alguém entrar naquele software, pode prejudicar o usuário de muitas formas. Imagine, por exemplo, um carro que se dirige sozinho e que dispõe de uma trava digital que não permite que você carregue seus próprios softwares ou que não possa ver o que o software está fazendo. Se essa trava for comprometida, alguém pode alterar o software do carro e, em vez de ele não permitir que você corra, pode fazer seus freios pararem de funcionar. Os computadores foram concebidos para podermos ver o que eles estão fazendo e pará-los de fazer algo quando não queremos.
Há futuro para o direito autoral?
Antigamente, dizíamos que era possível controlar a indústria do entretenimento ao controlar a possibilidade de se fazer cópias, pois todo mundo que poderia fazer isso estaria necessariamente trabalhando em escala industrial. Hoje em dia, um computador faz cópias milhares de vezes ao dia e isso não torna todos que usam computadores parte desta indústria. Assim, temos uma indústria do entretenimento que insiste em leis ancestrais feitas para serem interpretadas por advogados corporativos e que devem ser obedecidas por todas as pessoas que trabalham com cópias. Ou seja, na era da internet, isso significa quase todo mundo. Não existe um conjunto de leis que seja flexível o suficiente para que a Warner licencie os direitos de Harry Potter para que a Universal faça um parque temático sobre o personagem e que, por outro lado, seja simples o suficiente para permitir que uma garota de 12 anos no porão da casa dos pais faça um site de fã sobre Harry Potter. Acho que a única maneira de resolver isso é criar outra definição para o que chamamos de processo industrial, que não seja apenas fazer cópias, algo que realmente represente só o que a indústria faz e, a partir disso, um novo conjunto de leis. Isso, no entanto, não quer dizer que não teremos regras culturais que nos digam como devamos usar essas coisas entre nós mesmos, de formas não-comerciais ou não-industriais. Mas não serão as mesmas leis que controlarão a indústria, da mesma forma que hoje temos leis que controlam o sistema financeiro e os bancos e elas não se aplicam quando precisamos emprestar dinheiro de um amigo ou pagar um almoço para ele.
Seus livros sempre foram lançados no formato tradicional, de texto. Você não tem intenção de explorar a interatividade ou o aspecto multimídia da narrativa?
Meu primeiro emprego de verdade foi em uma editora de CD-ROMs chamada Voyager, onde fui programador e desenvolvedor multimídia por alguns anos. Ainda não encontrei motivação de usar tais recursos na ficção, embora haja alguns projetos com os quais trabalho hoje que poderiam ter este formato. Mas, até agora, no que diz respeito à arte, eu tenho uma estética irredutível e um sentimento que está na minha cabeça e no meu coração e que eu quero levar para a sua cabeça e para o seu coração. E os recursos artísticos que melhor domino para transferir esses sentimentos são as palavras em ordem sequencial. Isso não quer dizer que eu não faria outro tipo de linguagem. Recentemente, lancei um livro ilustrado para crianças, algo que nunca tinha feito.
Conte-nos a história do site em que você escreve, o Boing Boing.
Meu primeiro contato com o Boing Boing foi como vendedor, quando eu ainda morava em Toronto e trabalhava em uma livraria — e o Boing Boing era uma revista de papel. Ela tinha sido criada por dois futuros amigos meus, Mark Frauenfelder e sua esposa Carla Sinclair, e alguns colegas deles, em uma época em que pequenas revistas estavam começando a ter distribuição internacional. Mas, alguns anos depois, a distribuidora que cuidava da revista faliu e a revista não conseguiu sobreviver. Conheci Mark anos depois, quando ele trabalhava em uma revista chamada Industry Standard, e foi convidado a testar um novo produto digital chamado Blogger. Para fazer o teste, pegou o domínio que já tinha de sua velha revista (boingboing.net) e instalou o Blogger lá. Ele ficou muito empolgado, mas não conseguiu emplacar a matéria na publicação, que pensava que esse novo serviço era só um modismo, uma nota de rodapé engraçadinha. Mas Mark gostou e continuou, conseguindo reunir algumas centenas de leitores até que ele conseguiu um furo jornalístico de médio porte. Havia muita especulação sobre uma invenção que estava para ser anunciada: uma empresa havia declarado que tinha desenvolvido um novo dispositivo inventado por Dean Kamen, que havia atraído o interesse de muitos investidores e quem o havia visto dizia que a invenção revolucionaria o mundo — Steve Jobs era um destes —, mas ninguém sabia direito o que era. Mark, sendo engenheiro, foi atrás das patentes registradas por Kamen e acertou corretamente sobre o que era o dispositivo, o Segway. Assim, a CNN publicou o Boing Boing no programa da noite e o blog teve milhares de novos leitores. Mark estava para sair de férias e me perguntou se eu estaria interessado em ser o editor convidado do site por uma ou duas semanas. Eu topei, ele gostou e, quando voltou, pediu para que eu continuasse. Trouxemos alguns amigos que tinham escrito na Wired — Xeni Jardin e David Pescovitz — e continuamos por cinco ou seis anos trabalhando basicamente por amor. Só que chegamos a um ponto em que não poderíamos trabalhar de graça, porque tínhamos alguns custos, como a banda de internet, que passava de US$ 50 mil dólares por mês… então resolvemos adotar publicidade. E falamos com nosso amigo, John Battelle, que estava começando uma empresa de publicidade online, chamada FM Publishing, e resolveu usar o Boing Boing como protótipo de como sua companhia iria funcionar. E assim continuamos crescendo. Acho que nossa fórmula secreta — o que fazemos melhor do que os outros — é que nós escrevemos apaixonadamente sobre as coisas em que acreditamos e nada mais. Não buscamos leitores, nossos interesses são nossas paixões. Provavelmente teríamos mais leitores se escrevêssemos sobre assuntos que eles gostariam de ler, mas tais pessoas viriam e iriam embora. Acho que onde nós acertamos é no fato de escrevemos sobre as coisas que realmente nos interessam.
Como você vê esta era da mídia social? Acha que o Facebook e o Twitter chegaram a um auge?
Se Facebook ou Twitter chegaram ao auge, isso não quer dizer que o mesmo tenha acontecido com a era da mídia social. O que provavelmente acontecerá com um lugar puramente social, como o Facebook, é que ele se tornará bastante tóxico. É o que parece sempre acontecer quando tentamos articular nossos contatos na internet e derrubar todas as barreiras entre as diferentes facetas de nossa personalidade, as diferentes pessoas que somos para nossos amigos, nossos familiares, nossos colegas de trabalho e por aí vai. Quando tentamos falar com todas essas pessoas ao mesmo tempo, isso começa parecendo ser libertador, mas com o tempo fica opressor e logo vamos para algum lugar em que não precisamos ser a mesma pessoa o tempo todo.
Foi o que aconteceu com o Facebook, que pegou todo mundo que estava no MySpace, que por sua vez pegou todo mundo que estava no Friendster. Parece ser uma regra que se repete o tempo todo e acredito que isso também acontecerá com o Facebook. Mas este tipo de serviço chegou para ficar e logo surgirão outros novos, todos tentando achar um equilíbrio entre como fazer dinheiro com seus usuários — às vezes às custas deles, forçando-os a derrubar as barreiras de suas identidades sociais — e como fazer dinheiro de outras formas, assim evoluindo para algo melhor. O Twitter, no entanto, não pertence ao mesmo universo do Facebook e se ele acabar será porque alguém entendeu como fazer o que o Twitter faz melhor do que eles. É parecido com a TV: quando a televisão apareceu, todos aqueles filmes que funcionavam melhor nesse formato se tornaram programas de TV. Aí, quando o YouTube apareceu, os programas de TV que funcionavam melhor na telinha se tornaram vídeos do YouTube. E acho que isso pode acontecer com o Twitter. Agora, mesmo que isso aconteça e que o público do Twitter vá para outro serviço, acredito que ele continuará como veículo para as coisas que têm mais a sua cara.
Qual dos dois devemos temer mais: Google ou Facebook?
Acho que o Facebook. O Google pelo menos parece ter alguma consciência da dimensão social do que ele faz. Não é que ele sempre faça as coisas melhor ou que leve seu slogan de não fazer o mal tão rigidamente, mas ao menos eles têm uma ideia empresarial sobre como o que eles fazem afeta a vida das pessoas. E a saúde da internet está ligada à saúde do Google. Já o Facebook parece não ter nenhuma dimensão moral ou ética. Não é que ele seja imoral, mas, sim, amoral. Eles não medem as consequências de seus atos se o assunto é faturar dinheiro. E quando articulam qualquer tipo de filosofia moral é sempre o Zuckerberg [seu criador] falando coisas bizarras ou estúpidas, como as pessoas devem ter apenas uma personalidade ou mostrar todas as facetas de sua identidade a todo mundo. Isso é de uma estupidez e arrogância monumental. Fora que as pessoas continuam empilhando uma quantidade enorme de informações sobre si mesmas que podem colocá-las em risco — informações que, se alguém mais fica sabendo, podem causar problemas no trabalho ou com a polícia. Esses dados eventualmente vazam ou são hackeados, e eles [do Facebook] não estão nem aí. O quanto antes o Facebook acabar, melhor.
Você acha que os problemas políticos e empresariais relacionados à internet vêm do fato de que seus líderes não entendem a rede porque nasceram em outra época?
Não sei se dá para apenas dividir isso por faixas etárias. É claro que quem é mais velho nunca vai conseguir entender o que é crescer em um mundo em que tudo está conectado. Mas, dito isso, também é verdade que há muitos jovens que não se lembram da internet mais aberta e livre, que nasceu de um esforço coletivo e onde tudo que fazíamos parecia de certa forma heroico, onde todos se sentiam parte de um grande projeto humano que tornaria o mundo um lugar melhor. E algumas pessoas mais velhas sempre têm isso em mente. Acho que precisamos achar esse equilíbrio, entre a internet como um projeto que nos torne a todos melhores e a internet como uma ferramenta que deve ser tratada de forma sensível.
Gostaria que você falasse um pouco do que conhece sobre o Brasil e nossa política digital.
Acompanho bem o Brasil, mas não tanto quando estava na Organização Mundial da Propriedade Intelectual, vinculada a ONU. A delegação brasileira era tão boa que eu aprendi muito sobre a política do país. Claro que também tive contato com o Gilberto Gil [então Ministro da Cultura], Sérgio Amadeu [sociólogo e pesquisador da cultura digital], o pessoal do movimento dos Telecentros… O Brasil é central para o movimento do software livre e dos Creative Commons… Mas sei muito desse lado politizado, mas não do Brasil como um todo, o que é uma pena. E uma das tragédias de se morar na Inglaterra é que muito pouca coisa é traduzida para o inglês, e o pouco que é tem de competir com esse enorme pool de produção em inglês nativo. Aí, é difícil se informar em outro idioma a não ser o inglês.
Minha coluna desta semana no Link foi sobre a segunda temporada de Black Mirror, que foi anunciada na semana passada.

Se a tecnologia é um vício, quais são os efeitos colaterais?
‘Black Mirror’, série critica efeitos da tecnologia na sociedade
Uma voz monótona repete frases sem emoção: “Viva mais. Conecte-se mais. Viaje mais. Compartilhe mais. Procure mais”. Pessoas sorriem em situações cotidianas com seus tablets ou celulares. A iluminação é perfeita, a fotografia é de publicidade. Todos são lindos.
De relance, um outdoor eletrônico transforma empolgação em ameaça – “O futuro que você merece” – e seguem os imperativos: “Consuma mais. Pense mais. Experimente mais. Lembre mais. Veja mais. Compartilhe mais. Aprenda mais. Faça mais. Lute mais. Faça mais. Conecte-se mais”. As imagens mudam, os sorrisos tornam-se falsos e celulares filmam cenas violentas – confrontos, espacamentos – vistas por uma criança debaixo de seu cobertor.
“Deixe de ser você”, diz a voz robótica antes de surgir uma avenida tomada por pedestres que filmam, sem reação e com seus celulares, uma enorme nuvem de poeira que vem em sua direção. É inevitável a associação com a mórbida nuvem que tomou as ruas de Nova York depois da queda do WTC.
“O futuro está quebrado.” É o trailer da nova temporada de Black Mirror (espelho preto), do jornalista inglês Charlie Brooker, anunciada semana passada. Eu já havia comentado sobre a série em uma Impressão Digital no fim de 2012, mas apenas comentei a força de seu título, mais do que seu tema.
Black Mirror não é um seriado, mas três pequenos filmes exibidos pela Canal 4 da BBC inglesa. Seu autor, Charlie Brooker, é um notável crítico de mídia conhecido por sua abordagem nada sutil e pela franqueza agressiva que usa para expor suas opiniões, uma espécie de Michael Moore menos bonachão. É um inglês cínico cujo sotaque é tão pesado quanto a forma como ele trata os temas que escolhe. Ele explora como burrice, vaidade, ganância e banalidade derretem nossa civilização ao tratar inteligência como excentricidade e aparência como lastro de confiança.
O que une os três primeiros episódios de Black Mirror, exibidos no fim de 2011, é um dos principais alvos das críticas de Brooker – a tecnologia. Sua abordagem é simples: a tecnologia é a droga mais consumida do mundo hoje e estamos todos viciados nela. Todo o ecossistema criado pela internet e novos aparelhos não apenas nos permite consumir conteúdo em qualquer lugar como também faz que nossas vidas possam ser transformadas em conteúdo para ser consumido. A partir desta constatação, Brooker quer descobrir quais são os efeitos colaterais desse vício.
Em três episódios, três choques: no primeiro (Hino Nacional) o primeiro-ministro inglês vê-se chantageado para fazer sexo com um porco em cadeia nacional. No segundo (15 Milhões de Méritos), um operário de uma fábrica do futuro – que parece uma academia de ginástica – tenta ajudar uma desconhecida a comprar sua vaga em um programa de reality show. No terceiro (Toda a História de Você) uma tecnologia permite que você grave e reveja as próprias lembranças e isso pode ser catastrófico para as nossas relações.
Black Mirror ainda é inédita no Brasil e o canal BBC HD, recém-lançado no País, poderia nos presentear com sua exibição (como já fez com a excelente série Sherlock, adaptada pelo bamba Steven Moffat), antes de os três episódios da próxima temporada – que começam a ser filmados no mês que vem e ainda não têm data de exibição – irem ao ar no Reino Unido.
Do pouco que se sabe dos próximos episódios, num deles o namorado de uma viciada em redes sociais consegue voltar a ter contato com ela depois de sua morte graças à internet; no outro, um personagem de programa infantil concorre a um cargo político e começa a soar menos estúpido que seus concorrentes; e no último, uma mulher acorda numa casa em que não conhece para descobrir que as pessoas se tornaram voyeurs sem motivo, filmando os outros o tempo todo e não fazem mais nada.
Não parece tããããão diferente da nossa própria realidade…

É real.

E não dá pra desver!

Já estou ficando mal acostumado – todo ano começa com a votação de melhores do ano anterior feita pelo Scream & Yell. A de 2012 acabou de sair e entre os vários primeiros lugares apresentados lá estã o meu Trabalho Sujo mais uma vez entre os melhores blogs do ano – e pela sexta vez em seis anos consecutivos! Desta vez ficou engraçado, porque, ao juntar blogs e sites na mesma categoria, o Sujo ficou na frente do Twitter, do Facebook e do Buzzfeed. Me resta agradecer a confiança de quem me colocou neste posto e manter mais uma vez o compromisso de fazer o melhor blog do Brasil. A íntegra da votação (bem como os votos de cada um dos 119 votantes) pode ser conferida lá no S&Y.
Eis a primeira foto de divulgação do ator que encarnou o melhor Sherlock Holmes de todos os tempos (Sherlock, da BBC, é nota 10) no papel de Julian Assange (a seu lado, o Daniel Bruhl de Adeus Lênin posa como Daniel Domscheit-Berg). O filme The Fifth Estate, sobre a rápida e polêmica ascensão do site WikiLeaks e a popularização do nome de seu criador, estréia nos EUA no segundo semestre; mas esta notícia me lembrou que tenho de falar sobre o próprio Sherlock (quem já viu? Comentem aê!) e da participação do ator no próximo Jornada nas Estrelas…

Vi no Vírgula.

E a minha coluna no Link dessa semana foi sobre a morte de Aaron Swartz (que a Tati entrevistou pra uma capa do Link em abril do ano passado…

Swartz não se contentava com uma vida confortável
O ativista seguiu seus ideais e não o mercado
Como acontece com quase tudo online, o trecho do clássico poema beat Grito (Howl, em inglês), de Allen Ginsberg, virou piada há algum tempo. A épica constatação que “vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura” ganhou um tom jocoso feito para ridicularizar uma das principais obsessões profissionais deste século digital: “Vi as melhores mentes da minha geração pensando em como fazer as pessoas clicarem em anúncios”.
Parece só uma piada, mas não é exagero: há muita, mas muita, gente talentosa que, devido às preocupações do mercado, se vê obrigada a deixar suas melhores qualidades em segundo plano para queimar neurônios para fazer com que as pessoas curtam posts no Facebook, deem RT em tweets, cliquem em banners ou para que façam galerias de fotos para que os usuários fiquem mais tempo online. Palavras como “engajamento”, “monetização”, “publieditorial” e “multiplataforma” (além de termos em inglês “buzz”, “app”, “newsfeed”, “e-commerce”, “startup”, “brainstorm”) causam urticária em pessoas que gostariam de estar fazendo outras coisas, mas se veem presas à obrigação de gerar audiência para uma marca.
O norte-americano Aaron Swartz, que nasceu em 1986, preferiu o outro caminho. Gênio da programação, o rapaz de 26 anos que cometeu suicídio há dez dias pode ser considerado não apenas um dos desbravadores da web que habitamos hoje, mas um de seus principais arquitetos. Ainda adolescente, trabalhou com nomes como o criador da World Wide Web Tim Berners-Lee (em um projeto de web semântica, a tão esperada web 3.0) e com o advogado Lawrence Lessig (Aaron o ajudou a traduzir a lógica das licenças livres do mundo do direito para a linguagem técnica dos computadores). Mas não bastou estar nos ombros dos gigantes. Foi além.
Não tinha nem 20 anos quando criou o web.py, framework para desenvolvimento web na linguagem Python que não só foi a base da criação de um dos primeiros sites sociais do mundo, o FriendFeed, como mais tarde serviu tanto para a criação do Facebook quanto para os vários projetos de rede social do Google. Ajudou a criar o Reddit, uma das redes sociais mais importantes e ativas da última década, cuja relevância e importância crescem a cada ano – não por acaso Barack Obama ofereceu-se para ser sabatinado na rede social, na campanha para a reeleição no ano passado. Aaron também era um dos principais articuladores do ativismo digital do século, escrevendo artigos e defendendo causas sempre à favor da liberdade de expressão e da internet aberta.
O tom grave de sua morte parece piorar o cenário descrito na paródia do poema do início do texto. Aaron poderia se juntar aos muitos geninhos que preferiram o conforto do emprego seguro e da vida corporativa e hoje estaria vivo, talvez ganhando muito dinheiro, mas inquietado. Preferiu seguir seu coração e todos nós ganhamos com isso.
Os mais cínicos dirão que ir atrás do próprio sonho foi o que determinou o fim de sua vida – um argumento ridículo. O motivo pelo qual Aaron tirou a própria vida não é claro, embora tudo indique que tenha a ver com o processo que o Massachusetts Institute of Technology (MIT) movia contra ele. Um processo que, se fosse considerado culpado, poderia colocá-lo na cadeia por até 50 anos.
Aaron era a favor da difusão livre da informação e hackeou o Jstor, um banco de dados de teses científicas, para mostrar que este conhecimento deveria estar na rua, ao alcance de todos. A ironia desta situação vem do caso que Aaron só virou programador porque, aos 11 anos, descobriu que o próprio MIT oferecia cursos gratuitos online.
Claro que ele aprenderia a programar de outra forma – mas, ao hackear o Jstor, não tenho dúvida de que ele queria aumentar a possibilidade de que mais pessoas como ele pudessem seguir seus sonhos – e não ficar pensando em como fazer os outros clicarem em anúncios.