

Um trecho do documentário Stripped, financiado por crowdfunding, sobre fazer o ofício de fazer quadrinhos – e, abaixo, como ganhar dinheiro com eles via internet.

Se você assina Netflix e assistiria um filme do Nicolas Cage apenas pelo fato de ele estar presente no elenco (mesmo que seja O Motoqueiro Fantasma 2 ou o remake de Wicked Man), esse site foi feito para você.

O vídeo abaixo é um teaser prum festival de gifs que rolou nos EUA no ano passado, saca só:


E na minha coluna de hoje do Link, escrevi sobre como o famigerado “Harlem Shake” levou um desconhecido pro topo da parada de sucessos mais respeitada do mundo da música.

Um artista desconhecido no topo da parada da Billboard
Dança nonsense levou a música ao topo
Na semana passada, a parada de sucessos da revista norte-americana Billboard incluiu mais um item em seu ranking de músicas mais populares dos Estados Unidos. Chamada de Hot 100, a parada elenca desde 1958 as cem músicas mais vendidas e tocadas durante uma semana e sempre foi o termômetro de desempenho comercial dos artistas. Até a chegada da internet.
Antes da rede, era razoavelmente fácil aferir a performance mercadológica de um músico. Somava-se discos vendidos e músicas tocadas nas rádios e, a partir de cálculos específicos, a revista estabelecia qual era o artista mais popular no momento. Ou a banda que, embora não tenha atingido o topo, continuava a fazer sucesso graças às vendas e às execuções no rádio. Com a internet, esses parâmetros se perderam.
Afinal, qualquer um pode baixar quantas músicas quiser sem pagar ou ouvi-las sem que toquem no rádio, o que torna inviável a quantificação. Mesmo descartando os downloads ilegais, aumentam a cada dia as opções para ouvir música de graça (bandas que liberam o download ou serviços de streaming). Um deles, onipresente, é o que está mais perto de se tornar a maior rádio global que já se viu – embora seja uma plataforma originalmente de vídeo. Sim, o YouTube.
E foi exatamente o número de visualizações via YouTube que foi incluído no Hot 100 da Billboard. Mas o destino irônico quis que a novidade surgisse na hora em que a febre musical da vez não tivesse nem mesmo um vídeo próprio.
Se o novo parâmetro tivesse sido habilitado há seis meses, há um ano, há dois, teria elevado nomes como Psy (de Gangnam Style), Carly Rae Jepsen (de Call Me Maybe) ou Rebecca Black (de Friday) ao topo da lista e acelerado sua consagração comercial. São canções que têm videoclipes próprios, em que as imagens e a exposição são de domínio do artista.
Acontece que o hit de fevereiro de 2013 não é sequer uma música inteira. São 30 segundos de uma faixa que muitos nem mesmo podem considerar (por preconceito) uma canção. Harlem Shake, do produtor norte-americano Baauer, sem querer, se tornou o exemplar mais famoso de um gênero em formação chamado trap music.
A classe musical é uma variante sulista do hip hop norte-americano, mais lenta e pesada, que se aproxima de estilos específicos, como a versão dos EUA do dubstep (mais pesada e rápida do que a original inglesa) e o moombahton (colisão entre house music e reggaeton). Há um paralelo inevitável com o chamado “funk ostentação” paulistano, que se tornou objeto de curiosidade antropológica devido ao seu sucesso via internet.
Mas Harlem Shake não é nova – foi lançada em maio de 2012 e até fevereiro não tinha registro comercial. Até que um grupo de adolescentes australianos se vestiu com fantasias ridículas (um de Power Rangers, outro de alienígena, todos de collant) para dançar de forma ainda mais ridícula com a canção de Baauer. “CON LOS TERRORISTAS!”, diz o grito no início da música, que entra numa batida mecânica que se acelera. Aos 15 segundos, um sample diz “do the harlem shake” e a música se esborracha em câmera lenta, com um beat constante e uma base grave, sintética e lenta.
No vídeo dos jovens, a primeira parte da música é dedicada a se mexer sem sair do lugar, balançando a cabeça e os quadris sem tirar o pé do chão. Na segunda, depois de “do the harlem shake”, os moleques se chacoalham por inteiro, com os braços caídos, numa falta de noção típica da adolescência. Virou uma pérola de humor nonsense da internet.
Justamente por isso pegou. E, como outros, começou a ser citado, referido, misturado. E o “do the harlem shake” convidou as pessoas a fazerem seu próprio “Harlem Shake”. O resto é história.
E, de uma hora pra outra, um artista desconhecido, que criou uma música há quase um ano, tem um trecho seu usado ironicamente em um vídeo que se espalha por um motivo idiota e se torna o artista número 1 na Billboard. Esse começo de século 21 é uma época e tanto…
Estou acompanhando com curiosidade o crescimento deste tal “Harlem Shake” que muitos apostam ser “o próximo ‘Gangnam Style’“.

Não acho que seja por aí.

É inevitável a viralidade de “Harlem Shake” pelo puro e simples pressuposto de que o humor na internet tem como ponto de partida o nonsense e o excesso de referências (o que linka tudo a tudo), sejam elas pop ou eruditas. No caso de “Harlem Shake”, o que vemos, na verdade, é um template, um formato, para diferentes versões, feitas por qualquer um. Não é um Tourist Guy ou Seu Madruga esperando para ser encaixado em diferentes contextos. É um código não-verbal de comportamento físico realizado a partir de um conjunto de regras bem simples: nos apresentam a um ambiente estático, à exceção de um único protagonista, que se movimenta sozinho no meio de um grupo de pessoas repetindo uma rotina que está alheia ao personagem solitário, que quase sempre usa um capacete. “Con los terroristas!” é o brado que inaugura esta primeira fase. Que dura quinze segundos.
De repente, a música derrete-se entre graves esborrachados que se estatelam no chão, logo que o vocal grave chama o “do the Harlem Shake”. Ao mesmo tempo, a paisagem nos diferentes clipes vira do avesso. Toda a multidão que parecia estar indiferente à primeira parte da música transforma-se em uma festa completamente absurda, em que maquiagem, fantasias e coreografias individuais que deixem bem claro que o mundo enlouqueceu. Em outros quinze segundos.
A mania foi uma invenção de um grupo de skatistas australianos que, chateados sem ter o que fazer, resolveram brincar com a música “Harlem Shake”, do produtor norte-americano Baauer, do selo Mad Decent, do Diplo (ouça abaixo). Inventaram uma coreografia ridícula, mas que deu certo.
A comparação com “Gangnam Style” não faz sentido por uma série de motivos. A começar pelo fato de PSY ser um artista que produziu o próprio vídeo para sua música com a intenção de torná-la hit online a partir da falta de senso de ridículo. “Harlem Shake” era uma brincadeira de uns amigos que espalhou-se sem nenhuma promoção, usando apenas a força do nonsense para ser imitado, parodiado e homenageado. O clipe de PSY era, sozinho, uma íma de atenção – que não por acaso chegou ao primeiro bilhão de visualizações na história do YouTube. “Harlem Shake” já deve ter sido ouvida mais de um bilhão de vezes, mas em inúmeros vídeos espalhados em diferentes cantos da internet – inclusive fora dela, uma vez que o viral chamou atenção para uma música que, até janeiro passado, era virtualmente desconhecida. E, principalmente, é um viral ridiculamente curto, de trinta segundos, o que não toma tanta atenção como, por exemplo, todas as paródias feitas para “Gangnam Style”.
“Harlem Shake” segue viralizando – enquanto isso, reuni alguns dos melhores “harlem shakes” que vi por aí. Tem algum faltando?

…e seus gráficos fossem mais realistas, teríamos algo parecido com isso:
Brandon Laatsch, o autor dessa incrível versão, disse ter levado 50 dias para criá-la.

O LaCumbuca que levantou a lebre: o site da TramaVirtual para de existir no final do mês que vem. O anúncio, no site, é curto e triste:
O site Trama Virtual sairá do ar no dia 31/03/13.
Agradecemos a todos que estiveram conosco.
Trama Virtual
Conheci o TramaVirtual quando ele era só uma idéia do Miranda (“vamos fazer o MP3.com brasileiro, véio!”), bem antes do MySpace existir, e trabalhei na Trama naquela que talvez seja a fase áurea do site, quando o Dago era o editor (e a redação ainda contava com a Fer, o Six e o Emo, só gente finíssima), por isso tenho uma memória um pouco mais afetiva em relação ao site além da importância que de fato ele teve – foi ali que não só umas três gerações do rock independente brasileiro conseguiu deixar à disposição uma produção cultural (que em alguns casos datava do início dos anos 90) como as primeiras gerações da música digital no Brasil encontrou um terreno livre para expandir seus talentos. O site virou até um programa de TV, mas veio perdendo a importância (como a própria Trama) por uma série de motivos – e agora vem essa notícia que, embora aparentemente irrelevante, encerra um importante ciclo na história da música pop brasileira do século 21. Só me resta lamentar…
Você tem alguma história relacionada ao Trama Virtual? Contaê!
Liv me chamou pra escrever um artigo em cima da matéria dela que foi capa no Segundo Caderno do Globo nessa quarta, sobre a chegada do Spotify ao Brasil e a consolidação do streaming como tendência. A ilustração da matéria é do Tiago Lacerda, da Beleléu.

O fim do download?
Uma análise sobre o cenário atual da música digital
Estamos entrando na fase 2 da indústria fonográfica no século digital. A fase 1 foi marcada por uma série de decisões arbitrárias, posicionamentos radicais e tiros no pé — principalmente logo que as pessoas começaram a trocar MP3 de graça entre si, graças à invenção de um adolescente americano. Shawn Fanning criou um programa que permitia que as pessoas trocassem arquivos digitais entre si sem que esses arquivos estivessem hospedados em um servidor central, no fim do século passado, e inaugurou uma lógica chamada P2P (do inglês “peer-to-peer”, parceiro para parceiro). Vimos gravadoras multinacionais processando seus próprios clientes, a ascensão da Apple nesse mercado, a consagração do YouTube como uma grande rádio global, a ascensão e queda do MySpace, a solução do Radiohead para a crise e a caça às bruxas que começou com o julgamento dos caras do Piratebay e a prisão espetacular de Kim Dotcom, do Megaupload, no final de 2011.
Enquanto isso tudo aconteceu, artistas, agentes, empresários, gravadoras e novos players entenderam melhor a lógica da internet e hoje vivemos uma fase em que o streaming por assinatura parece ser a aposta certa. São vários novos nomes aos poucos se estabelecendo — Spotify, Deezer, Rdio, Pandora, Grooveshark —, mas a tecnologia pode dar uma rasteira nesse novo cenário. Afinal, em poucos anos teremos pendrives com a capacidade um terabyte (mil gigabytes) ou mais, a preços bem razoáveis. Mais do que isso: essa capacidade de armazenamento vai para os nossos celulares (ou qual seja a espécie de dispositivo móvel de acesso à internet que estaremos usando lá). Já há aplicativos de torrent para celular e já é possível acessar conteúdos em streaming usando a lógica P2P. Em pouquíssimo tempo, download ou streaming vai ser uma diferença meramente técnica. E talvez possamos finalmente falar em fim do download — não por vitória dos grandes conglomerados, mas pelo fato de que as pessoas não precisam mais baixar para consumir. A setinha do download aos poucos vai ficando bem parecida com a do play…

Na minha coluna no Link desta semana falei sobre o tal Google Glass – agora apenas Glass – que saiu da fase 1 na semana passada.

Os novos óculos do Google e um futuro sem usar as mãos
Glass responde a instruções de voz
Quando, no meio de 2012, Sergey Brin apareceu usando um estranho par de óculos com uma pequena telinha transparente no lugar de uma das lentes, a surpresa foi geral. Mostrado em uma convenção cujo público era formado por desenvolvedores, o Google Glass causou uma pequena comoção entre os presentes e, principalmente, um estranhamento geral da maioria das pessoas que não é do mundo da tecnologia. Essa reação se dividia entre ceticismo e a sensação de estar vendo algo mais próximo da ficção científica.
Afinal, são óculos que permitem adicionar uma camada digital ao mundo analógico. É uma extensão drástica do conceito de realidade aumentada, aquela que, através da câmera de seu celular, identifica o que está ao redor para acrescentar informações àquilo que se vê. Olhe para uma rua e a realidade aumentada identifica o que há em cada prédio.
O Google Glass iria além, porque não apenas reuniria informações do que se vê, mas também funciona como câmera, dispositivo de acesso à internet e canal de comunicação. Acionado apenas pela voz, ele faria a maioria das coisas que seu celular pode fazer hoje, mas sem que seja preciso manuseá-lo.
Eis que semana passada os óculos voltaram a aparecer. Agora se chamam apenas Glass e no site google.com/glass seu funcionamento é detalhado com ênfase nas atividades cotidianas. A empresa já mira no público final e não mais nos desenvolvedores. E reuniu diferentes atividades em vídeo para mostrar como seria fácil utilizá-los. Basta falar “Ok, Glass” e o aparelho está pronto para obedecer a diferentes comandos: “Filme isto”, “tire uma foto e mande para esses amigos” ou “mostre o melhor caminho para chegar num determinado lugar”.
Parece que o Google está pronto para partir para uma etapa ainda mais distante. Mas o Glass é apenas o ponto final de convergência de uma série de recursos que a empresa vem mudando em sua organização interna. O Google Plus aos poucos interligou os diferentes serviços da empresa, que aproveitou para unificar suas ramificações e deixar tudo com uma cara mais parecida e conversando melhor entre si.
Isso inclui mudanças de interface no YouTube, no Gmail, no Google Docs (que virou Drive), no Google Calendar, no Android Market (que virou Google Play), no Google Maps, entre outros serviços, inclusive em suas buscas. E também a aproximação entre os ambientes digitais no desktop, celular e tablet. Tudo isso converge para o Google Now, um assistente pessoal que interliga todo o ecossistema digital da empresa. Só faltava fazer as pessoas não terem de colocar as mãos num teclado, os dedos numa tela, encher bolsos e bolsas com máquinas que, por mais finas e leves, ainda pesam.
É aí que está o Glass: um aparelho que funciona como um celular ativado por voz mas que não precisa ser carregado nem funciona como uma tela que nos distrai da realidade ao redor. Não que o Google vá abandonar celulares, computadores e desktop de uma hora para outra – vide o recém apresentado Chromebook Pixel, um laptop que será lançado em abril. Se a transição dos desktops e laptops para tablets e celulares ainda está em andamento, a mudança que nos leva até os óculos do Google deve durar ainda um bom tempo.
E não pense que isso é exclusividade do Google. Na semana passada, segundo o site Mashable, a Apple teria registrado a patente de um relógio de pulso que pode funcionar como um iPhone – já o chamam de iWatch.
O futuro sem computador está em andamento, graças à era da internet móvel e dos smartphones. O Google nos convida para um futuro em que nem precisamos utilizar as mãos para interagir com novos aparelhos. E, como já escrevi em outra coluna, não custa lembrar que o projeto original do Google Glass era uma lente de contato. O que quer dizer que o futuro desses aparelhos também pode ser o início da era em que homem e máquina começam a se fundir de fato.