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Lost é um fenômeno cultural, não apenas uma série de TV. A narrativa cortada, os desdobramentos online e principalmente a maneira com que a estratégia do mistério foi capaz de engajar uma audiência global e simultânea é um marco. Se você não é fã da série e não aguenta mais esse assunto, prepare-se: é um acontecimento que será estudado e analisado por muito tempo ainda. É exatamente por isso que acompanhar a derradeira temporada tornou-se obrigatória não apenas para os maníacos pela ilha, mas por qualquer um com o mínimo de interesse nas muitas áreas do entretenimento.

Foi exatamente essa última porta que me trouxe ao último capítulo nesse domingo. Tendo acompanhado boa parte da primeira temporada e desistido de Lost por absoluta falta de paciência para ocupar a cabeça tentando desvendar a intrincada trama. Escaldado com a frustração da conclusão da trilogia Matrix, preferi deixar passar. Porém, antes da ducha de água fria, naqueles seis meses entre Matrix Reloaded e Matrix Revolutions qualquer encerramento da saga de Neo era possível. Em meio as intermináveis discussões sobre o que poderia acontecer, uma única certeza resistia: após o lançamento do terceiro filme provavelmente ninguém viveria esse período de especulações. A resposta estaria, para sempre, a um clique de distância.

Bombardeado pela apreensão dos fãs de Lost antes do início da sexta temporada, percebi que algo parecido estava acontecendo. Com a diferença de que era algo com alcance ainda maior, afinal Lost é um programa de TV. Se quisesse viver esse momento cultural histórico com o mínimo de envolvimento, incrementando a experiência social, a última chance era essa, nem que fosse entrando pela janela, através de resumos e mais resumos de cada uma das temporadas anteriores.

Seja como for, tornou-se impossível escapar do assunto, até quem não assistiu um episódio da série sabe um bocado sobre ela. Sugado pelos segredos da ilha, não demorou muito para entrar em rota de colisão com os fãs mais radicais. Um dia, ao fazer um comentário sobre a fotografia do episódio na noite anterior no Twitter (imaginando que se até eu já havia assistido, todos deveriam ter assistido também), falei mais do que devia e tive uma fatwa decretada em meu nome. Havia cometido o mais vil dos pecados, um spoiler, e questão de segundos estava chovendo xingamento para mim.

O ocorrido serviu para ilustrar como são delicados os tempos atuais em termos de informação. Ao mesmo tempo que os episódios são disponibilizados na rede menos de um hora após serem exibidos nos EUA, as pessoas continuam tendo cada uma o seu tempo para assistir. Tem os apressados que correm pra ver, tem gente que espera até final de semana, tem gente que espera acumular para assistir vários episódios em sequência. A mudança na distribuição do conteúdo interefere inclusive na maneira como algo tão banal quanto um programa de TV é conversado nas ruas. O fato de Lost, tão dependente da expectativa, ter conseguido prender atenção de milhões de pessoas nessas circunstâncias é uma vitória por si só.

Nesse domingo a série chega ao fim e estaremos todos finalmente livres para falar o quanto quiser sobre Lost e finalmente poder discutir o final dessa história. Isso é, se as respostas vierem. O que aliás, pouco importa e pouca gente quer. O segredo da longevidade de Lost promete mesmo ser o eterno mistério.

* Bruno Natal foi quem teve a idéia dOEsquema.

Eu chego ao final de Lost certamente como cada uma das pessoas que acompanhou a série por 6 anos chegará: com uma sensação de vazio. Afinal, por mais que tenhamos buscado respostas por todo esse tempo, não é fácil abandonar o universo e personagens que aprendemos a gostar.

Lost foi a única série em que eu sempre precisei estar atualizado. Não podia esperar acabar a temporada ou acumular episódios para assistir tudo de uma vez, tinha que ser o ato religioso semanal. Adiar Lost era não ter assunto com os amigos ou então precisar fugir de qualquer texto sobre a série na internet.

Eu sempre gosto de dizer que, independente de seu final, Lost é um produto que alterou para sempre a indústria do entretenimento. Para produtores, espectadores, emissoras de TV, cinema, games, marcas, etc. Tudo foi atingido de algum maneira pelo blockbuster colossal da ABC.

E sim. Queremos as respostas nesse domingo. Não as teremos, obviamente, pelo menos não a maioria delas, mas fica a sensação de que J.J. Abrams tinha razão o tempo todo: o que mais importou foi a jornada, e não o final. Até porque, Lost sempre foi muito mais eficiente em criar mistérios e expectativa do que dar respostas.

Algo que me decepcionou muito na série foi a total queda para o lado místico, para o sobrenatural. Isso contrariou totalmente os que os próprios roteiristas tinham afirmado na primeira temporada: de que tudo poderia ser respondido cientificamente. Eu nunca engoli a história da fumaça, do pêndulo da Dharma, e – SPOILER – ainda não fui com a cara dessa misteriosa caverna luminosa.

Não que eu seja avesso a ficção, pelo contrário, mas não é o que me foi prometido há 6 anos atrás. E quando tudo vira uma questão de fé, os roteiristas podem colocar qualquer coisa na tela, porque acreditar ou não só vai depender de você.

Mas sinceramente, isso não importa mais, e é algo que me ficou ainda mais provado depois do dramático episódio 14 dessa sexta temporada, “The Candidate”.

A ilha, ursos polares, Dharma, fumaça, viagens no tempo ou seja lá mais quais forem as nossas dúvidas, tudo isso ficou em segundo plano. Eu quero é saber o que vai acontecer com os personagens. Quero é entender o destino dessas pessoas que aprendemos a gostar, torcer e odiar pelos seis anos. Porque se existe muita curiosidade em desvendar os mistérios de Lost, também nos deparamos com a questão fundamental de qualquer boa história: com quem o mocinho vai ficar no final? Seja ele qual for.

* Carlos Merigo é manda e desmanda no Brainstorm 9.

Todo relacionamento amoroso tem lá suas falsas promessas. O meu, durante três anos, foi um só: ver Lost. A Bem Amada, com quem conversava de cinema, cultura trash, televisão e qualquer bobagem, do dia pra noite resolveu só falar dessa porra, que em 2004 me parecia ser apenas um derivado do filme Náufrago.

Ela passava finais de semana fazendo as tais maratonas, tentava me explicar o que era RMVB, Lost in Lost, Equação de Valenzetti, Buracos de Minhoca… E eu ainda de luto pelo final de Friends (pois é).

Em 2007, em uma semana de folga no estágio, que deveria servir para eu começar o TCC, resolvi alugar na locadora da esquina a 1ª temporada de Lost. “A nível de” curiosidade. Antes de pôr o disco no DVD player, ainda liguei e fiz piada.

Aqui estou, três anos depois, sem nunca ter visto um novo episódio longe dela novamente…

Lost teve um tremendo impacto na minha vida, não apenas na pessoal – inclusive ajudou a desenferrujar meu #nerdpride. Mas também na profissional. Virei, veja só, repórter de séries: Lost me apontou que as melhores histórias, aquelas mais ousadas, dispostas a fazer o meu cérebro explodir, estavam na TV (americana), não mais no cinema.

Antigamente o sucesso de um programa televisivo era medido por conversas de bares, bordões que se espalhavam pelas escolas, telefonemas pro Projac sobre o nome do estilista da protagonista da novela das oito. Com Lost a medição foi feita no Orkut, fóruns, Twitter, ARGs, podcasts, blogs, YouTube… O programa foi uma síntese da comunicação deste começo de século. Lost foi um universo, uma espécie de hub, que fez da internet a sua rua.


Foto do Gustavo

No começo deste ano, tive a oportunidade de participar de uma coletiva em Pasadena com o elenco e com os produtores/cabeças Carlton Cuse e Damon Lindelof. Sabia que tinha tempo para uma única pergunta, mas os jornalistas americanos me engoliam, a fim de conseguirem alguma novidade sobre a 6ª temporada.

Não parava de olhar para o relógio, morrendo de medo de perder a única oportunidade de falar com os responsáveis por minha série predileta. Talvez a ilha tenha desejado, sei lá, mas tomei coragem, peguei o microfone, ergui o tom da minha voz o máximo que pude e avisei que tinha vindo do Brasil só para falar com eles.

A sala ficou quieta e fiz uma pergunta que nem tinha anotado: o legado futuro de Lost. “Desejamos que as pessoas lembrem da experiência de assistir a Lost, e de como elas se sentiram gratificadas e felizes por terem dedicado 120 horas de tempo e energia a ele”, resumiu Lindelof.

Foi a melhor resposta que eu podia ter.

* Gustavo Miller também é cria do Link e fez a matéria sobre a última temporada da série no início deste ano, quando entrevistou Carlton e Damon – e hoje está no G1, também falando de Lost.

A gente fica falando e falando sobre o quanto Lost é relevante, revolucionário, multiplataforma, transmedia, enigmatico e tudo mais. Mas o que importa, o que sempre fez toda a diferença do mundo, é que Lost é bom demais. Simples assim.

Agora, jogar adjetivos ao vento é simplificar demais. Por que “bom demais”? Poucas vezes eu vi um equlíbrio tão preciso entre história (o episódio da semana e a grande trama que serve de pano de fundo) e caracterização (as personalidades complexas dos personagens que movem a história). Os escritores se deram a chance de explorar sem pressa cada item que julgavam importante para a história que queriam contar. Convenhamos que isso não é comum para um programa exibido na TV aberta Americana, a mais impiedosa do mundo quanto ao resultado de sua programação.

Durante essa jornada, a trama inicialmente nebulosa foi tomando forma e os segredos sendo revelados. Os escritores habilmente manobraram as expectativas das tribos de fãs oferecendo, lá e cá, fé e ciência, mas quem ia vendo sua teoria de estimação descartada, muitas vezes se desinteressava pelo programa. Era o choque dos homens de fé (as teses místicas) e os de ciência (os ratos do sci-fi). Quem achava que eles estavam mortos, ou que eles eram avatares, ou que habitavam um limbo espiritual, ou ou ou…

Nessa jornada, aprendemos a jogar de uma maneira nova. Muita gente nunca se tocou que um romance de mistério, um “whodunit” clássico, é um jogo entre o leitor e o escritor. Estão brincando uma mistura de Esconde-esconde e, sei lá o nome daquela brincadeira de “tá quente-tá frio”. Lost trouxe isso pro terreno da multimedia-multiplataforma e explodiu as cabeças de uma geração que achava que só havia um jeito de acompanhar uma trama. Quando alguém tenta explicar o que é esse negócio de narrativa transmedia, Lost é o exemplo perfeito, o estudo de caso. Pense nisso: uma geração de espectadores do mundo todo aprendendo a jogar com sua série. Uau.

Mas chamar uma audiência de milhões de pessoas para… jogar? Era óbvio que a coisa ia filtrar seu público. Sobramos nós, que ouvimos o chamado de Darlton (o nome ridículo dado à entidade formada por DAmon Lindelof e CARLTON Cuse) materializado no refrão da música “Make Your Own Kind Of Music”, cantada por Mama Cass Elliot, tocada na primeira cena do primeiro episódio do segundo ano:

“You gotta make your own kind of music
Sing your own special song
Make your own kind music
Even if nobody else sings along”

Esperamos semanas entre episódios que entregavam uma gota de informação, meses entre temporadas. Minha mulher, irritada com as doses homeopáticas de informação no segundo ano da série, cunhou a frase: “é muito pouco pela minha fidelidade” (Hummm, penso sempre nessa frase em outros contextos e fico bem espertinho, sabe. Mais uma informação importante que Darlton me deu).

E, caramba, como somos globais, somos muitos. Dezenas de milhões em todo o mundo. Gente que aprendeu a fazer downloads e catar legendas, operar gravadores digitais, ressuscitar videocassetes, ficou de olho na tela do AXN, acompanhou a exibição diária na Globo no início do ano ou esperou pelos lançamentos anuais das caixas de DVDs. Tudo para saber o que estava por trás daquele fatídico acidente do vôo 815 da Oceanic Airlines. Ou da escotilha, ou o que acontecia na outra ilha, ou porque os Oceanic Six tinham que voltar ou agora: o que diabos é aquela luz no coração da Ilha? Agora queremos saber como vai ser nossa vida depois de, bem, do fim.

Somos talvez menos do que quando Lost podia ser qualquer coisa, naqueles primeiros e nebulosos dias. Mas agora estamos em todo lugar, conectados por um programa revolucionário, genial e que, na essência, pode ser definido, depois de tantos rodeios, como smplesmente bom demais.

* Alexandre Maron é do tempo em que se orgulhar de ser nerd era motivo de vergonha.

Lost por Ian Black

O maior mérito de Lost foi potencializar transformações culturais possíveis através das internets. A maior delas é a NECESSIDADE de acompanhar a série em tempo-real, que fez com que as pessoas dessem um foda-se para a qualidade e se atirassem ao streaming em tempo real, mas PRINCIPALMENTE pela questão dos downloads, que fez nascer uma indústria informal responsável por colocar o episódio disponível com ótima qualidade, e até com LEGENDAS muitas vezes melhor que as que vemos na TV por assinatura. Aliás, os responsáveis OFICIAIS pelas séries no Brasil tiveram um gostinho de INDÚSTRIA DA MÚSICA, onde uma realidade se mostra tão escandalosamente irreversível.

Lost é o maior fenômeno envolvendo ficção nerd (ciência e / ou magia) depois de Star Wars, com a vantagem de ter a internet e a própria saga de George Lucas o imaginário popular ao seu favor. Ou você acha que existiria Sawyer sem Han Solo? Essa overdose de referências externas muito bem resolvida talvez seja o seu grande trunfo. E o mais foda é que essas referências não ficam só ali entre o cagalhão gente boa do Locke e o goiaba do Jack:

Um dos baratos do Jorge Lucas é conferir as criações derivadas da sua obra, e certamente para o Abrams (o novo Spielberg / Lucas), Lindelof e Cuse deve ser assim também, das bobagens geniais que pipocam a cada MINUTO no 4Chan até a banda Previously On Lost. O que de Star Wars ficou restrito a convenções e fanzines por quase 20 anos, Lost conseguiu ter desde o seu início e para todo mundo, em tempo real.

Por outro lado, outro excesso, o de mistérios (que NÃO terão respostas), pode ter sido uma escolha tão ruim quanto a dos Ewoks no episódio VI. Ainda acredito que Lost tenha pulado o tubarão lindamente quando o Ben girou a ilha. Imagino, e entendo, a empolgação dos responsáveis pela série diante da repercussão inédita em fóruns e blogs, e o quanto isso não influenciou nos caminhos que a série trilhou (caminho esse que, é bom lembrar, foi encurtado depois de um ultimato dos executivos da ABC para que a série tivesse só mais uns 45 episódios). De todo modo, e principalmente para quem tem menos de 40 anos, é indescritível a experiência de ser testemunha destes tempos de revolução cultural tão bem representados por Lost. E o mais foda é saber que é apenas o começo.

* Ian Black também mandou seu texto depois da minha convocação inicial.

The End ao vivo

Fim.

O fim de Lost

A transmissão da ABC começa às 20h, com um especial que antecede a transmissão do último episódio, “The End”, com duas horas e meia de duração. Depois tem um especial do programa de entrevistas Jimmy Kimmel Live: Aloha to Lost, com entrevistas com Terry O’Quinn (John Locke), Jeremy Davies (Daniel Faraday), Emilie de Ravin (Claire Littleton), Naveen Andrews (Sayid Jarrah ), Nestor Carbonell (Richard Alpert), Alan Dale (Charles Widmore), Michael Emerson (Benjamin Linus), Matthew Fox (Dr. Jack Shepard), Daniel Dae Kim (Jin-Soo Kwon) e Harold Perrineau (Michael Dawson). O programa ainda exibirá os três finais alternativos para a série que foram filmados.

Lost é apenas o começo.

Acredito que muito do impacto de Lost reside no fato de ser a primeira grande série que estreou com a internet mais consolidada entre as pessoas. Esse detalhe potencializou todo o ecossistema criado em torno da série.

O interessante é que a série ajudou a quebrar e a provar certas premissas.

Primeiro, provou que o consumo de vídeos de longa duração na web era viável. Meio óbvio falar isso hoje em dia, mas até pouco tempo atrás existia um mito de que as pessoas somente teriam paciência para assistir a vídeos de até 3 minutos na web. Hoje é comum conhecer pessoas que assistiram a toda série sem nunca terem se sentado diante de uma televisão. Consumiram tudo em frente a tela de um computador.

Mais: Lost também provou que um modelo menos restritivo de distribuição é possível.Um dia após a exibição na TV, os episódios eram disponibilizados no site da ABC, inclusive via streaming, tecnologia cada vez mais endossada pela indústria de música e filmes.

Aliás, Lost foi uma das primeiras séries a estar disponível na loja online iTunes, chegando a servir de carro-chefe para a inauguração da versão alemã da loja da Apple.

Depois de Lost será difícil assistir a uma série como antes. Sem ter a alguns cliques de distância os episódios para assistir quando e onde quiser, as teorias das conspirações, as comunidades online para discutir cada detalhe da série, os remixes publicados no YouTube, os ARGs, enfim todo o rico ecossistema criado em torno da série.

No caso de Lost, assistir a um capítulo era apenas o início da experiência. Reflexo de que, hoje em dia, o consumo de um conteúdo (seja uma notícia, música, filme) deixou de ser apenas o ponto de chegada. É o início da experiência.

* Tiago Doria é um dos poucos caras que escreve sobre mídia e tecnologia no Brasil que precisa ser lido sempre

A primeira coisa que eu falei pro Matias quando ele me chamou pra escrever sobre Lost foi um simples “não”. Afinal de contas, diferente da maior parte das pessoas que estão lendo as séries de posts de Lost no Trabalho Sujo, eu não estou acompanhando o seriado. Pra ser mais exato, eu abandonei Lost mais ou menos em S03E05 ou S03E06, quando percebi que não ia conseguir acompanhar as temporadas num ritmo adequado. Preferi, então, dizer não e me mantar à parte do tumulto da final.

Mas, veja como eu aprendi logo nas primeiras temporadas, não é tão fácil abandonar a ilha. Ou, melhor dizendo, não é tão fácil a ilha abandonar você. O Matias insistiu e eu me dei conta: mesmo sem continuar assistindo Lost de fato, eu acompanhei a maior parte da trama por fragmentos que chegaram até mim através de conversas próximas, posts rápidos em blogs ou comentários em redes sociais. Não vou saber descrever com detalhes o destino dos personagens, mas, mesmo sem querer, chegaram até mim notícias de que a coisa ficou realmente feia e incluiu viagens no tempo e realidades paralelas, uma grande sacanagem com os personagens de qualquer trama pop.

O ponto é o seguinte: em vez de eu acompanhar Lost, Lost é que me acompanhou. Pedaços da trama, entrevistas com os produtores e reações de fãs volta e meia orbitavam a minha vida mesmo que eu não quisesse ter nada a ver com o assunto. Obviamente isso não acontecia por acaso (acaso? Em Lost?). O seriado é um dos produtos ícone de uma nova leva de entretenimento meticulosamente desenhado para se espalhar, não apenas no que diz respeito aos formatos de mídia mas inclusive no conteúdo. Não é qualquer trama que suporta tamanha amplitude.

Como tudo hoje já nasce com teoria e explicação, compartilho com vocês a pirâmide invertida que fotografei num workshop da 42 Entertainment, empresa responsável por ARGs célebres como Why So Serious pro Cavaleiro das Trevas e Year One do Nine Inch Nails. Ela oferece uma visão bastante interessante que explica de forma clara o fenômeno Lost.

Em 2008, depois de participar desse workshop no Festival de Publicidade de Cannes, escrevi: “Essa pirâmide aí em cima mostra os níveis de envolvimento que o público pode ter com um ARG (clica na imagem que ela aumenta). Na ponta lá embaixo estão os louquinhos que rastreiam todas as pistas, formam comunidades pra resolver, atravessam a cidade até um telefone público para receber uma informação gravada, largam a namorada pra se dedicar ao ARG. Logo acima, no nível dois, estão os que acompanham as comunidades e participam do ARG de um jeito um pouco mais light, meio que sentado na cadeira em frente ao computador. O nível três diz respeito a quem sabe que um ARG está rolando, dá uma olhada de vez em quando e, se descobrir uma pista, passa para um amigo. O nível zero é o mainstream, que não sabe muito bem que negócio é esse, mas olha que legal a reportagem na TV sobre o ARG.”

Pois então.

O ensaísta Douglas Rushkoff chama de “moeda social” tudo aquilo que é usado pra gerar conexões entre pessoas. É uma espécie de medida de riqueza que determinados conteúdos ou produtos podem agregar a relações pessoais. O grande sucesso de Lost residiu na distribuição inteligente de moeda social para todos os níveis dessa pirâmide. Até mesmo os pobre maltrapilhos da base invertida como eu, que não tinham muito contato com o seriado, saíram com umas moedinhas no bolso. Se não muito pra dizer que fez parte da comunidade de um novo tipo de produto de entretenimento, ao menos o suficiente pra escrever um post no blog de um parceiro.

* Mini é dOEsquema.

Quando eu entrevistei alguns fãs de Lost para a edição do Link sobre a série, houve um ponto em comum nos depoimentos. Todos eles disseram nunca nenhuma outra série foi capaz de fazer o que Lost fez. Deve ser por isso que quando você começa a falar de Lost nas rodinhas colam os tipos mais variados pra oferecer os palpites e as teorias.

Lost teve todas essas coisas que mudaram a maneira como a gente assiste TV, mudaram a maneira como o espectador interage com uma série. Mas acho que a maior conquista (há os que considerem desgraça) de Lost foi nerdificar gente que em outros tempos jamais se imaginaria assistindo uma série de ficção científica, discutindo bolsões de eletromagnetismo e Efeito Casimir. Dá até pra dizer que Lost foi um dos responsáveis por tornar o nerd cool, também, essa transição magnífica que aconteceu depois da interwebs.

Outro motivo de identificação: as “coincidências” em Lost, que devem ser das coisas mais inteligentes que alguém resolveu enfiar no roteiro de um seriado. A maneira como as pessoas se conectam, sempre sob o famoso more ‘Everything happens for a reason’, atrai as pessoas porque, no fundo, todo mundo gostaria de saber que suas coincidências não foram coincidências, que existe um motivo por trás delas.

Lost não vai ter uma explicação científica no final. É que a série é sobre fé e ciência, mesmo. Eu não tô falando só dos dramas do Locke e do Jack: a Dharma é a ciência, a Ilha é a fé. É a história do homem avançando a ciência até um ponto em que a religião e o misticismo se fundam com a tecnologia. É uma cerca sônica que pode manter afastado um monstro de fumaça claramente místico, cientificamente inexplicável. A luz deve ser protegida para impedir o homem de avançar a ciência até a fé.

É impossível agradar todo mundo com um final baseado nessa premissa – eu mesma não sei se vou gostar (provavelmente, a essa altura). Mas acho que a ideia de um roteiro baseado nisso é fazer as pessoas pensarem na possibilidade de que tudo seja uma coisa só, ciência e religião. Aliás, você já pensou nisso?

* Tenho maior orgulho de trabalhar com a Ana. Serião. Ela é o máximo.