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Lost por Ana Bean

Tirando um certo crush pelo MacGyver nos anos 80, nunca gostei de séries e filmes de ação/drama centradas em um personagem ou em um “herói recorrente”. E, os meninos que me perdoem, incluo aí Jack Bauer e até os super-heróis da Marvel (e você também, James Bond). A meu favor, vejam bem, se isso lá for um aliado de respeito, tenho o Nick Hornby.

Eu adoro um trecho do livro Frenesi Polissilábico (não tive tempo de procurar o quote exato) no qual ele fala sobre o “não conseguir se solidarizar” com os heróis de livros de ação. Eu mudo esse argumento para filmes, aqui. Por que eu vou sofrer com o Jack Bauer se ele ainda tem mais 16 horas pela frente, antes que as 24 acabem? Como você vai me convencer que devo sofrer por você agora, com a mesma intensidade com que sofri há três episódios, quando você tinha uma bomba na virilha e mesmo assim não morreu?

É frustrante. Não sofro, não torço, quero mais é que morra logo. Mas eu sofri com o LOST e com os seus “personagen recorrentes” que eram às vezes heróis, às vezes vilões, e às vezes só babacas mesmo. Achei que valia a pena acreditar que o Jack poderia sim morrer engolido por uma fumaça preta em qualquer episódio. Quem passou pelo seriado sem sofrer, pesquisar, sem fundir a cabeça, sem entrar em fóruns de discussão, sem se irritar com spoilers… não “viu” LOST. A experiência é/foi justamente esse grau (exagerado) de envolvimento, essa participação e utilização de todas as ferramentas virtuais para montar um quebra-cabeça de peças beeem tortas. Eu faço parte dos que se divertem mais com o processo que com o produto final. Juntar as peças, tentar encaixa-las, decifra-las… quando o jogo vai chegando ao final, eu sento e observo. Já não me sinto mais no controle e daí perde a graça. Gosto de torcer para o vilão, ou melhor, torcer sem ter idéi a de quem é realmente o vilão. Sou do Team Ben & Team Locke! (*fazendo coraçãozinho com as mãos haha). Porque Jack, desculpa, é só um rostinho barbudo e bonito.

Seis anos depois, claro que exageramos. Inventamos mais teorias que os próprios roteiristas poderiam conceber. Achamos indícios e referências literárias, científicas, freudianas (por que não?) que não ajudaram em muita coisa… Demos atenção até ao que o Sawyer lia, às tatuagens cafonas do Jack, ao diário do Faraday… Moldamos personagens a torto e direito e fomos até ouvidos em alguns momentos.

Com tamanha expectativa, não há season finale que aguente. As frustrações serão proporcionais ao frenesi. A constatação de que – hey atenção amiguinhos do fórum – AS PEÇAS NÃO SE ENCAIXAM INTENCIONALMENTE vai fazer a bolsa de valores despencar. Gente se atirando dos prédios. Gente xingando muito no twitter. =)

E isso, acredito, também faz parte da brincadeira. Essa é a graça! Você vai ficar satisfeito se o final for exatamente como você esperava? Eu não. Prefiro ficar sem algumas respostas porque quero pensar na possibilidade delas existirem. Quero bolar meus finais alternativos, minhas realidades paralelas. Lembram daqueles livrinhos que a gente lia quando criança? Você escolhia se fulano pegava a faca (“pule para a página 26”) ou o serrote (“pule para a página 52”) e 72 escolhas depois, você tinha praticamente dezoito realidades paralelas em um livro de menos de 100 páginas. Os “what if?” do LOST ainda vão continuar por muito tempo online. “Você quer que o Jack aperte o botão (“alternativa a”) ou siga em frente (“alternativa b”)?” Provavelmente teremos uma versão 2.0 desse final “múltipla escolha” para que menos pessoas morram de depressão pós-finale e para que todos saiam dessa ao menos ilesos.

ps1: De todas as experiências estranhas que o LOST me trouxe, tenho que destacar duas.

1- A bizarrice do JustinTV. A fissura de ver LOST ao vivo e se submeter a um áudio capenga, imagem tosca e um bate-papo surreal na barra lateral. Gente do mundo todo tentando se entender, gente que nem falava inglês pedindo legenda real time, pedindo tradução simultânea (!!!)… Lembro de um brasileiro desesperado gritando em caps lock: “To usando 100% do meu inglês para entender 10% do que eles estão falando, HELP!!”. haha

2- Os DVDs pirateados do Stand Center. Quero agradecer ao senhorzinho que ficava lá na extinta loja da Augusta vendendo mashup de seriado em DVD. Para quem tinha preguiça e não tinha tempo de baixar os seriados em casa, ele colocava o último do LOST (no dia seguinte) com mais dois episódios de séries a sua escolha. Legendado, imagem ok. Ah, ele vendia os teasers também. Os TEASERS! #wtf

ps2: Poderia escolher várias frases dos diálogos entre Hurley e Miles, mas pensando bem, minha frase preferida do LOST ever é essa: “A 12-Year-Old Ben Linus Brought Me a Chicken Salad Sandwich. How Do You Think I’m Doing?” (Sayid, S05)”

* Ana Bean manda no Trash it Up.

4:20

O novo Spielberg?
J.J. Abrams homenageia seu mestre

J.J. Abrams não quer ser reconhecido apenas como um novo Midas do pop do século 21. Há algumas dezenas de candidatos – a escritora J.K. Rowling, Sergey Brin e Larry Page do Google, o DJ Dangermouse, Steve Jobs, o diretor Michael Bay, a dupla Daft Punk, Shigeru Miyamoto da Nintendo são apenas alguns deles. J.J. Abrams quer ser “apenas” o novo Spielberg.

Rebobinando (que expressão arcaica) para quem chegou agora: criador da badalada série Lost, J.J. Abrams não poderia existir há alguns anos. Produtor e diretor de séries e filmes, ele partiu da plataforma televisão e começou a expandi-la para outras mídias. Marcas como os seriados Alias, Lost e Fringe e os filmes Cloverfield e o novo Jornada nas Estrelas saem das telas para games, livros, sites e celulares. Não parece muito diferente do que outros produtores fazem, criando versões paralelas para um título principal. A diferença é que, para J.J. Abrams, isso tudo não é acessório – e sim peças de um quebra-cabeças que pode ser montado pelos fãs. Assim, ele faz com que os espectadores deixem de ser passivos, deitados em suas poltronas, para se tornarem ativos, inclinados em frente de seus monitores.

Agora que sua principal grife está prestes a acabar (o último episódio de Lost vai ao ar no próximo domingo, nos EUA), ele começa a ativar seu novo projeto secreto, de que falei na coluna da semana passada, chamado Super 8. E, para isso, ele não deixou por menos – e se aliou ao próprio Spielberg para a realização do filme que estreia em 2011.

Mas associar-se ao diretor que deu ao mundo os filmes de Indiana Jones não foi o suficiente. No trailer que foi lançado na semana passada (e que logo caiu no YouTube), o diretor apresentava uma única cena durante um minuto e meio. Nela, vemos uma caminhonete entrar nos trilhos de uma ferrovia e chocar-se com um trem. Após o acidente, a câmera foca em um vagão que tem sua porta esmurrada de dentro para fora, como se algo muito grande quisesse sair.

Nestes 90 segundos, Abrams faz referência a vários filmes de Spielberg. Seu primeiro filme, Encurralado, tem uma cena em que um carro quase é destruído por um trem. Em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, o governo americano noticia um acidente ferroviário como forma de encobrir o pouso de uma nave alienígena. Em E.T., um trem de brinquedo liga sozinho quando agentes invadem a casa em que o extraterrestre está.

Fora o fato de que, quando era adolescente, Spielberg dava seus primeiros passos no cinema filmando acidentes com seu trenzinho de brinquedo. E filmando com uma câmera, er… super 8. E J.J. fez isso só em um trailer. Imagine num filme inteiro.

Materinha de abertura da edição do Link de hoje.

O começo do fim
Falta uma semana para o fim de Lost. Mas o impacto da série de J.J. Abrams, que mudou a forma como a cultura é produzida e consumida, continuará a ser sentido ao longo do século 21

Em menos de uma semana, tudo terá terminado. A história que fez que a série Lost se tornasse uma das marcas mais fortes da cultura do século 21 chega ao fim no próximo domingo, quando irá ao ar o último episódio da série, chamado apenas de “The End”.

Mas o fim da série só reforça sua importância, que vai muito além da TV. Lost criou uma mitologia própria e obrigou o espectador a especular para além da trama original, buscando links em livros clássicos e na história da religião, da ciência e da filosofia para tentar desvendar seu enigma.

Some isso ao fato de que a série acompanhou a forma como a internet mexeu com a velha mídia e desdobrou-se online, usando a rede como plataforma para divulgar mais especulações. Lost não só contava uma história – chamava seu público para participar dela, como em um jogo.

Fora dos Estados Unidos, Lost foi ainda mais importante, pois pela primeira vez na história um produto ficcional teve audiência planetária em tempo real, mérito que antes era apenas de transmissões jornalísticas e eventos esportivos. O interesse pela série fez que telespectadores de todo o planeta não esperassem a exibição dos episódios em seus países e buscassem meios – online – para acompanhar a saga simultaneamente ao público de seu país de origem.

Lost também inaugura um novo tipo de narrativa, que explora as possibilidades da era digital como nenhum filme, livro ou disco conseguiu fazer até hoje. É o produto que melhor representa como será a cultura do futuro, em que o público pode escolher entre simplesmente acompanhar uma única história ou se entregar a um universo de ramificações infinitas.

A série faz que seus espectadores sejam ativos e busquem aumentar a história a partir de sua própria participação – mesmo que isso signifique apenas especular sobre o que pode acontecer. Parece pouco, mas não é.

“O mistério representa possibilidades infinitas”, disse seu criador J.J. Abrams em uma palestra no evento TED (sobre tecnologia, entretenimento e design) em 2007. “Representa esperança, representa potencial… O mistério é um catalizador da imaginação”.

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

Os outros debates (sobre política e economia em tempos digitais) podem ser assistidos seguindo este link.

Inclusão digital nela.

Via Te Dou um Dado.

OViolão nOGlobo

Olha como ficou, no impresso, a matéria que o Leo fez sobre OViolão para O Globo, que eu havia comentado ontem.