Weezer puxa a nova geração de clássicos do rock

Quem brilhou neste domingo, mesmo com o som baixo do Índigo Festival, foi o Weezer do menino Rivers Cuomo, que lavou a alma dos fãs ao transpor o repertório para além do disco azul, que teoricamente era o centro do show. Tocando 20 músicas em pouco mais de uma hora, o grupo também passa por uma transformação geracional, quando as bandas de indie rock dos anos 90 começam a surgir como artistas de um novo rock clássico. Falei sobre isso no texto que escrevi sobre o show pro Toca UOL.
Weezer emociona ao transformar seu indie rock em rock clássico no Índigo
Patinho feio da cena alternativa dos anos 90, o Weezer encerrou o festival Índigo, que aconteceu neste domingo (2) no Parque Ibirapuera, em São Paulo, mostrando uma exuberância de rock clássico pouco associada ao histórico indie da banda.
Em sua terceira visita ao país, o grupo liderado por Rivers Cuomo foi saudado por uma pequena multidão de fãs que encheu a parte externa do Auditório do Parque, feliz por ter atravessado seca uma tarde de domingo em que a meteorologia previa tempestade, mostrando um repertório impecável.
Mais curta que as outras apresentações que a banda tem feito por fazer parte de um festival, a deste domingo obrigou o grupo a sacrificar o roteiro que vem seguindo nos shows dos últimos anos, quando vem tocando seu homônimo disco de estreia, lançado em 1994, na íntegra. Mas foi por uma boa causa. Ao contrário do que acontece com seus shows recentes em festivais, quando o grupo toca pouco mais que dez músicas, o show de encerramento do Índigo, contou com uma notável coleção de vinte canções, que lavaram a alma dos fãs.
Mas o disco azul, como os fãs se referem ao álbum de estreia, devido à cor de sua capa, não ficou em segundo plano e praticamente dominou o repertório ao ter quase todas suas músicas tocadas, à exceção de “The World Has Turned and Left Me Here” e da longa “Only in Dreams”. No entanto, ao contrário dos shows anteriores, preferiram não seguir a ordem do disco clássico e misturaram aquela lista de canções com músicas de discos de outras épocas da banda. À exceção do excelente segundo disco Pinkerton, de 1996, que veio com quatro faixas, a noite contou com várias músicas pinçadas de diferentes discos das três décadas do grupo em atividade.
O show começou com o tema instrumental “Blue Voyage Takeoff” tocando nas caixas de som da noite à espera da entrada da banda e logo que os cinco entraram no palco, uma mudança começou na introdução da primeira música: quando o violão que abre a primeira faixa do disco azul — “My Name is Jones” — apareceu tocado pelo baterista Patrick Wilson, que nos shows toca violão e guitarra, deixando seu instrumento a cargo do músico convidado Josh Freese.
Patrick é o único integrante que esteve desde a fundação do Weezer ao lado de seu líder, embora tenha deixado o grupo entre 2007 e 2012. Completavam o time o guitarrista Brian Bell, outro veterano da banda, que entrou durante as gravações do disco de estreia, em 1993, e o baixista Scott Shriner, membro do grupo desde 2001.
Mas todos os olhos seguem Rivers Cuomo, nerd fã de heavy metal e hard rock farofa que, ao mudar do interior dos EUA para a Califórnia, começou a ouvir bandas de rock alternativo que começavam a ganhar espaço no início da década, como Pixies, Nirvana e Sonic Youth. Estamos vivendo seu sonho, a idealização adolescente de ser líder e guitarrista de uma banda de hard rock que, por caprichos do destino, não precisava ter cabelos compridos, camisas sem manga e calças justas.
Visualmente, Cuomo não difere da maioria do público que foi vê-lo. De cabelo curto e vestindo camisa de flanela xadrez por cima de uma camiseta, calça jeans preta e os indefectíveis óculos de aro grosso, ele parece habitar um planeta bem diferente daquele frequentado por seres extravagantes que associamos ao termo “rock star”. Mas basta deixar as guitarras tinir que percebemos que o grupo não é uma mera banda de rock alternativo ou de indie rock, ainda mais passadas três décadas de sua existência.
Com riffs fáceis de cantar, solos memoráveis, melodias eternas e versos inteiros tatuados no imaginário de seus fãs, que os berravam a plenos pulmões, o Weezer já pode ser considerado uma banda de rock clássico.
É um fenômeno que está acontecendo com todas as bandas ditas indie que cresceram a partir dos anos 90. Décadas de carreira ensinaram a esses grupos que viviam à margem do rádio e das listas de discos mais vendidos como é possível habitar o mainstream sem que isso fira sua integridade musical. Do Pavement aos Smashing Pumpkins, passando pelo Pulp, My Bloody Valentine, Radiohead, Blur, Flaming Lips e Dinosaur Jr., são dezenas de grupos que estão passando por essa metamorfose.
Num século em que rádio e discos não têm mais a força e importância que tinham, internet e apresentações ao vivo fazem tais grupos manterem-se relevantes, sendo saudados por fãs que hoje já ultrapassam os 40 anos de idade. Todo o festival deste domingo parecia ser um reflexo dessa nova tendência, que já viu outros shows deste tipo de artista acontecendo este ano no país.
Só neste semestre já vimos Supergrass e Teenage Fanclub por aqui e neste mesmo mês teremos vários exemplos, com os shows do Yo La Tengo, Stereolab (estes no festival Balaclava, no próximo domingo), Primal Scream (dia 11, no Áudio), Massive Attack (dia 13, no Espaço Unimed) e Oasis (dias 22 e 23, no estádio do Morumbi).
Assim, o Weezer reinou. E além de músicas do disco azul, também passou por quatro do Pinkerton (“Why Bother?”, “Pink Triangle”, “El Scorcho” e “The Good Life”) e hits de outros discos como “Island in the Sun”, “Hash Pipe”, “Pork and Beans” e “Beverly Hills”, todas cantadas pelo público, que sofria com o baixo som da apresentação (mal que atravessou todos os shows da noite).
O som baixo talvez tenha sido o único porém da noite. À frente de um telão gigantesco puxando referências visuais galácticas (tema da turnê do disco azul) e com seus músicos visivelmente emocionados e entrosados, o Weezer encerrou o festival Índigo com o peso que se espera de um headliner e a sequência final, em que emendaram a arrasadora “The Good Life” com o hino “Say It Ain’t So” (em que o grupo parava de tocar nos dois riffs antes do refrão só para deixar a plateia cantar sozinha), amoleceu até o mais duro dos corações. O grupo ainda voltou com uma versão fulminante para seu maior hit, “Buddy Holly”, fazendo o público voltar satisfeito para a casa. Noitaça.
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