
A cada quase dez anos, o diretor Richard Linklater se juntava aos atores Ethan Hawke e Julie Delpy para contar a história de uma paixão que atravessou décadas entre o norte-americano Jesse e a francesa Céline. A série de filmes Antes – composta pelos títulos Antes do Amanhecer, de 1995; Antes do Por do Sol, de 2004; e Antes da Meia-Noite, de 2013 – foi interrompida pela pandemia, mas não por seus protagonistas. Há quatro anos, Rob Stone, professor de estudos cinematográficos da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, resolveu fazer um estudo com o efeito Kuleshov, que, ao justapor imagens alternadas à de um rosto imóvel, faz com que o público perceba emoções diferentes a partir do contraponto entre o rosto e a imagem mostrada. Ele misturou cenas de duas entrevistas online feitas pelos dois protagonistas dos três filmes feitas separadamente, as emparelhou com a música “Come Here”, de Kath Bloom (trilha de uma das melhores cenas do primeiro filme) e as transformou em uma vídeo-chamada característica do período pandêmico que atravessamos no trágico 2020, criando um quarto filme chamado Antes do Fim, que dá pra ser visto abaixo. Também traduzi e publiquei logo em seguida a descrição que o professor faz do vídeo: Continue

Yann Dardenne, Otto Dardenne, Thales Castanheira e Martin Simonovich ainda não sabem se sua atual banda é formada só pelos quatro ou se terá mais integrantes nem sequer qual é o nome deste novo projeto, mas usando o epíteto Protoloops – e contando com uma ajudinha dos amigos – colocaram em pé uma transformação musical que vêm acalentando desde antes da pandemia, quando começaram a desconstruir o projeto anterior que tinham – a banda psicodélica Goldenloki – em algo que soasse brasileiro, eletrônico e dançante, mas sem perder o gostinho lisérgico que é característico de quando tocam juntos. E assim apresentaram o espetáculo inédito Protoloops nesta terça-feira no Centro da Terra, mostrando poucas faixas já fechadas, que flertam com a bossa nova internacionalista de Sergio Mendes e Marcos Valle, com os experimentos político-eletrônicos do Stereolab e uma dance music de fim de século que abraça tanto a lounge music como o drum’n’bass. E a partir dessa vibe boa, reuniram outros amigos – como o videoartista Danilêra, que trouxe TVs e mais TVs para o palco do teatro, trazendo um clima retrô VHS para a noite, a dupla ténica Retrato (Beeau Gomez no som e Ana Zumpano na luz), as vozes de NIna Maia e Marina Reis, o violão de Felipe Vaqueiro e os synths Valentim Frateschi, todos comparsas de vida e com links diretos com seu próprio selo, o Selóki Records, enquanto revezavam-se entre instrumentos elétricos, acústicos e eletrônicos, forjando uma nova sonoridade à medida em se sentiam mais à vontade no palco. Uma noite astral.
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O silêncio quase eclesiástico feito pelo público que encheu o Centro da Terra neste primeiro de julho tornou a apresentação de Lucca Simões ainda mais fluida e reverente, mesmo que estes adjetivos pareçam se contradizer. O músico começou tocando sozinho para depois chamar aos poucos os outros convidados da noite, primeiro Gabriel Milliet, tocando flauta transversal, seguido de Eduarda Abreu, só ao piano, com quem fez números em dupla. Depois chamou Lucas Gonçalves (no baixo) e Chico Bernardes (na bateria) para um primeiro número como trio para finalmente chamar Eduarda de volta e terminar a noite como um quarteto, mostrando as músicas que deverão entrar em seu primeiro álbum, com todo esmero e delicadeza que as canções precisavam. Afinal seu autor é, ao mesmo tempo, um vocalista quase tímido e um guitarrista sutil e discreto, o que culminou no segundo momento solo da noite, quando tocou a única versão do repertório, uma lindíssima leitura instrumental de “Você é Linda”, de Caetano Veloso. Todos os convidados eram sensíveis o suficiente para entender a leveza do repertório e da performance do autor, deixando-o à vontade sem que precisassem rechear sua sonoridade, tornando os vazios presentes. O único momento mais cheio do show foi quando Lucca chamou o público para cantarolar o refrão de uma canção que acaba sendo a síntese de sua musicalidade: “Devagar e sempre, sempre a caminhar”. Foi bem bonito.
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E só pra não passar a deixa do Glastonbury desse fim de semana, segue o LCD Soundsystem tocando uma das melhores músicas desse século, “All My Friends”, pra começar bem esse segundo semestre de 2024. E bem que alguém podia trazer os caras pra cá de novo, né? Faz tempo já…
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De cair o queixo o ritual rítmico que o grupo Aguidavi do Jêje promoveu neste fim de semana no Sesc Vila Mariana. Pude ver a apresentação de domingo desta orquestra percussiva baiana que já tem 20 anos de atuação e só agora conseguiu apresentar-se pela primeira vez em São Paulo. Também pudera, só no palco são 16 cabeças atracadas ao ritmo do terreiro de Bogum, um dos mais longevos do país, que há quase 200 anos teve papel central na histórica – e pouco difundida – Revolta dos Malês, um dos principais levantes dos africanos escravizados na história do Brasil e palco para a gravação de seu primeiro álbum, homômino, lançado no ano passado, motivo de sua vinda para São Paulo. O grupo é um asombro percussivo cujo único instrumento harmônico – o violão de seu maestro e fundador, Luizinho do Jêje – é tocado de maneira percussiva e funciona como batuta para essa orquestra de ritmos. Entre os músicos, além do filho de Luizinho Kainã do Jêje (que toca uma bateria de atabaques chamada atabaqueria e acompanha artistas como Caetano Veloso e Ivete Sangalo), ainda temos músicos que acompanham diferentes artistas baianos de todas vertentes, de Bel Marques a Baco Exu do Blues, passando por BaianaSystem, Carlinhos Brown, Timbalada, Orquestra Afrosinfônica, entrre outros. O coletivo é um dos muitos filhotes espirituais deixados pelo mestre Letieres Leite, da Orkestra Rumpilezz – Luizinho era percussionista do Quinteto Letieres Leite e já tocou com Olodum, Mateus Aleluia, Virgínia Rodrigues, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Margareth Menezes, Daniela Mercury, entre outros. À esquerda do palco, ele rege com seu violão e canto, as vozes e peles vibradas por seu time, um grupo de músicos de idades distintas e dividido em grupos por instrumentos, embora entre agogôs, pandeiros, caxixis e berimbaus a predominância seja de atabaques. O ataque dos couros do grupo é único na música brasileira e sua força hipnótica de timbres ancestrais atrelada ao canto uníssono de 16 homens foi um dos espetáculos mais impressionantes que vi nos últimos tempos. Mágico.
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Outro grande encontro aconteceu no festival Glastonbury, desta vez no sábado, quando duas divas inglesas da pista de dança, donas de álbuns excelentes lançados no ano passado dividiram vocais no palco, quando Jessie Ware recebeu Romy para, juntas, lançarem ao vivo a irresistível “Lift You Up”, um house fino que faz a ponte entre as vertentes dance de ambas, cuja versão de estúdio já está disponível nas plataformas digitais neste domingo. Senso de marketing afinadíssimo com o senso estético, uma musicaça lançada do jeito certo.
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Quando o autor em questão chama-se Johnny Jewel, tudo é possível – inclusive nada. Os fãs dos Chromatics, a climática banda que o produtor norte-americano atravessou as duas últimas décadas aumentando sua reputação em discos clássicos (e demorados) como Kill for Love, Closer to Grey e Dear Tommy, conhecem bem a saga do sujeito, que anuncia disco novo com capa, novos singles e data de lançamento para, em muitos casos, NA VÉSPERA, mudar de ideia e abandonar tudo na frente de todo mundo. Vamos torcer para o recém-anunciado Games People Play, terceiro disco de seu projeto Desire, ao lado de sua esposa, a cantora Megan Louise, saia mesmo em outubro, como anunciou sua gravadora Italians Do It Better após lançar mais um novo single, “Dangerous Drug” (ouça abaixo). É o terceiro single que a dupla lança este ano (“Darkside“, lançado há três meses, e “Vampire“, há um mês, vieram antes), o que é relativamente pouco tempo depois que o grupo lançou seu segundo álbum, Escape, em 2022. Antes desses três singles, os dois voltaram a lançar músicas novas ainda no ano passado, gravando versões de músicas do Metronomy e do Frankie Goes to Hollywood como aquecimento para esse novo disco. E se levaramos em conta que seu disco homônimo de estreia é de 2009, dá pra ter uma noção de como este Games People Play estava vindo praticamente à velocidade da luz. O clima das três faixas dão uma ideia de como será o tom do disco, típico dos discos anteriores, aquele eletropop climão em câmera lenta, vocais quase falados ou sussurrados sobre bases hipnóticas e repetitivas de synths oitentistas. Coisa fina.

“Essa noite, vou fingir que estou no Tame Impala”, brincou a cantora Dua Lipa nessa sexta-feira, no meio de sua apresentação no festival inglês de Glastonbury, quando convidou seu amigo e produtor Kevin Parker para dividir os vocais em seu hit “The Less I Know the Better”. Que momento!
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Seria só o show de lançamento de um EP, mas o Quartabê aproveitou para transformar a apresentação dessa sexta-feira no Sesc Vila Mariana em um espetáculo celebrando sua primeira década, numa sessão de tirar o fôlego. A primeira parte da noite foi baseada em Repescagem, disco que lançaram há pouco e que funciona como um complemento do álbum de 2018, que celebra a obra do mestre Caymmi e a primeira surpresa da noite surgiu logo que as cortinas se abriram, revelando apenas as silhuetas de suas integrantes, todas empunhando um violão, que não é o instrumento de nenhuma delas – e sim de Dorival. Aos poucos, cada um desceu da bancada em que começaram a brincar com o instrumento-base da música brasileira e tomou seus lugares à frente de suas ferramentas musicais: Chicão entre teclados e piano de cauda, Maria Beraldo e Joana Queiroz entre saxes, clarinetes e clarones e Mariá Portugal pilotando sua bateria. E assim começamos a colocar os pés na praia do baiano, envoltos pelo transe instrumental conduzido pelas quatro. A próxima surpresa veio como um voz do além, quando outra silhueta surgiu atrás do grupo – era a primeira convidada da noite, Ná Ozzetti, improvisando antes de sua entrada formal, quando participou da música que canta no recém-lançado EP, “Maricotinha”, esta misturada com “Batuque no Morro”, de Herivelto Martins, uma favorita do saudoso Zé Celso Martinez Correa, que o grupo homenageou nesta inclusão, como Chicão explicou. Depois foi a vez de receber a antiga integrante Ana Karina Sebastião e seu contrabaixo elétrico parecia nunca ter saído da banda, quando visitaram o autor homenageado do disco que gravaram quando a carioca integrava o grupo, Lição #1: Moacir, em homenagem a Moacir Santos. A musicalidade e o carisma da segunda convidada engrossou ainda mais o caldo da noite e o público, boquiaberto, assistia em silêncio tanto os momentos mais intensos quanto os mais silenciosos, transformando a celebração da primeira década da banda em uma festa para os ouvidos – e olhos, este graças à integrante honorária do grupo, a iluminadora Olivia Munhoz, que brilhou mais do que o normal, como é quando apresenta-se com o grupo. “A gente faz uma linda trilha pra luz da Olivia”, brincou Beraldo, ao apresentar o time que faz o show e não estava no palco. A noite terminou com nova participação de Ná Ozzetti, quando as quatro voltaram à bancada de trás do palco com os violões, a luz destacou suas silhuetas e pudemos ver a participação sensível da cantora veterana que, na segunda volta ao palco, apenas dançou – lindamente. Fácil fácil um dos melhores shows do ano.
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Em turnê pela Europa, Patti Smith surpreendeu todo mundo quando, ao apresentar-se em Dublin, na Irlanda, nesta quinta-feira, anunciou que cantaria uma música que a lembrava dos “juventude selvagem” que teve ao lado de seu falecido marido, o lendário Fred “Sonic” Smith, do grupo MC5, pouco antes de entrar numa versão emotiva de “Summertime Sadness”, de ninguém menos que Lana Del Rey. Lindo demais, veja abaixo: Continue