Uma orquestra de ritmo

, por Alexandre Matias

De cair o queixo o ritual rítmico que o grupo Aguidavi do Jêje promoveu neste fim de semana no Sesc Vila Mariana. Pude ver a apresentação de domingo desta orquestra percussiva baiana que já tem 20 anos de atuação e só agora conseguiu apresentar-se pela primeira vez em São Paulo. Também pudera, só no palco são 16 cabeças atracadas ao ritmo do terreiro de Bogum, um dos mais longevos do país, que há quase 200 anos teve papel central na histórica – e pouco difundida – Revolta dos Malês, um dos principais levantes dos africanos escravizados na história do Brasil e palco para a gravação de seu primeiro álbum, homômino, lançado no ano passado, motivo de sua vinda para São Paulo. O grupo é um asombro percussivo cujo único instrumento harmônico – o violão de seu maestro e fundador, Luizinho do Jêje – é tocado de maneira percussiva e funciona como batuta para essa orquestra de ritmos. Entre os músicos, além do filho de Luizinho Kainã do Jêje (que toca uma bateria de atabaques chamada atabaqueria e acompanha artistas como Caetano Veloso e Ivete Sangalo), ainda temos músicos que acompanham diferentes artistas baianos de todas vertentes, de Bel Marques a Baco Exu do Blues, passando por BaianaSystem, Carlinhos Brown, Timbalada, Orquestra Afrosinfônica, entrre outros. O coletivo é um dos muitos filhotes espirituais deixados pelo mestre Letieres Leite, da Orkestra Rumpilezz – Luizinho era percussionista do Quinteto Letieres Leite e já tocou com Olodum, Mateus Aleluia, Virgínia Rodrigues, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Margareth Menezes, Daniela Mercury, entre outros. À esquerda do palco, ele rege com seu violão e canto, as vozes e peles vibradas por seu time, um grupo de músicos de idades distintas e dividido em grupos por instrumentos, embora entre agogôs, pandeiros, caxixis e berimbaus a predominância seja de atabaques. O ataque dos couros do grupo é único na música brasileira e sua força hipnótica de timbres ancestrais atrelada ao canto uníssono de 16 homens foi um dos espetáculos mais impressionantes que vi nos últimos tempos. Mágico.

Assista a um trecho aqui.

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