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O jovem mestre Steven Ellison, também conhecido como Flying Lotus, deixa todo seu amor por Twin Peaks exposto ao incluir a faixa-tema de Angelo Badalamenti no meio de um set no Upstream Music Fest em Seattle.

E por que não lançar o minirremix pra download?

Que encontro!

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Há quatro anos sem lançar disco novo, o grupo nova-iorquino Grizzly Bear lançou uma música nova no início do mês (“Three Rings”, ouça lá embaixo), além de começar a fazer uma reforma em seu site. Foi o suficiente para os fãs se animarem com a possibilidade de um novo disco, que agora confirma-se com o anúncio de Painted Ruins para agosto desse ano, com capa, ordem das faixas do novo disco, pré-venda e mais um single, a delicada “Morning Sound”:

A capa e a ordem das músicas novas vêm a seguir e lá no final você ouve o primeiro single do novo disco, a impressionista “Three Rings”:

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“Wasted Acres”
“Mourning Sound”
“Four Cypresses”
“Three Rings”
“Losing All Sense”
“Aquarian”
“Cut-Out”
“Glass Hillside”
“Neighbors”
“Systole”
“Sky Took Hold”

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Depois de lançar duas trilhas sonoras no ano passado, a primeira, chamada apenas Atomic, para o documentário da BBC Storyville – Atomic: Living in Dread and Promise e a segunda para o documentário de Leonardo Di Caprio sobre o aquecimento global Before the Flood (esta ao lado de nomes como Trent Reznor, Atticus Ross e Gustavo Santaolalla), o grupo de pós-rock escocês anuncia seu próximo álbum propriamente dito desde o disco Rave Tapes, de 2014. Every Country’s Sun, que o líder da banda, Stuart Braithwaite, classificou como um disco de recuperação. “Nós estamos vagamente nos recuperando do referendo escocês, da morte de David Bowie, do Brexit e de Trump”, disse ao anunciar o disco. “O disco foi composto numa época muito turbulenta e intensa, por isso talvez sinta que ele funciona como um escudo contra isso.” O álbum sai apenas em setembro (e já está em pré-venda no site da banda), mas o grupo já adiantou o primeiro single do disco, “Coolverine”.

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Nossa querida australiana Courtney Barnett registra uma de suas primeiras canções, “How to Boil an Egg”, para o clube de assinatura de singles Split Singles Club, uma parceria entre as gravadoras locais Milk! Records e Bedroom Suck. Courtney falou sobre sua nova/velha canção num post no Facebook: “Eu tocava essa música em palcos com microfone aberto e gravei esta versão recentemente quando estava enfurnada no mato gravando umas demos para meu próximo álbum. Seguindo a tradição das compilações da Milk! Records, como “Pickles from the Jar” ou “Three Packs a Day”, eu queria incluir uma canção minha no Split Singles Club que estava um tanto à esquerda do centro do disco. É um experimento de composição que realmente não pertence a nenhum outro lugar.”

Dá para assinar o clube de singles no site oficial deles.

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Na última edição do festival Coachella, nossa querida Lana Del Rey saiu maravilhada do evento apenas para descobrir que o clima entre presidente norte-americano Donald Trump e o líder norte-coreano Kim Jong-il estava ficando pesado a ponto de ambos estarem com um dedo sobre o botão que dispararia mísseis nucleares entre os dois países. Ela admitiu em seguida, num post no Instagram, ter “sentimentos complexos” entre estar feliz num festival de música mesmo que à sombra de uma chuva nuclear em seu país – e mostrou um trecho da música que escreveu ao sair do festival:

E agora ela oficializa a canção – batizada de “Coachella – Woodstock In My Mind” -, lançando-a antes de seu novo disco.

Mas não sabemos ainda se a música faz parte ou não de Lust for Life.

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Não tem como não estranhar. Em vez de um aviso sonoro genérico e anódino que nos lembra de acordar do transe da mesmice para avisar qual é a próxima estação, a linha amarela do metrô de São Paulo sugere com um alerta sonoro que fica entre o inusitado e o infame:

Comentei outro dia que esse “sax” (que, como vemos, é um clarinete) que desperta risos e rancores nos passageiros que transitam entre o Butantã e o centro de São Paulo parece traduzir perfeitamente o inconsciente coletivo de 2017 – em que o que parecia tristeza renasce como exaustão. E se você, como a maioria das pessoas, cogitou a possibilidade de saber de quem foi a grande ideia de mudar esse alerta sonoro tradicional por esse bordão musical de humor involuntário, eis quem você procurava:

nickdrake

O músico e jornalista Thomas Pappon assistiu a um bate-papo com o produtor Joe Boyd em Londres e não esperava ser surpreendido por uma bomba intercontinental: Nick Drake teria se inspirado em João Gilberto para buscar sua própria sonoridade, uma das assinaturas musicais mais fortes da música britânica, mesmo que registrada em parcos três discos e gravações esparsas. Ele contou brevemente a história em seu perfil no Facebook e pedi para que ele compartilhasse sua descoberta aqui no Trabalho Sujo. Valeu Thomas!

Peter Paphides e Joe Boyd (foto: Thomas Pappon)

Peter Paphides e Joe Boyd (foto: Thomas Pappon)

Trilhas da Hammer e cocktail jazz: a conexão Nick Drake – João Gilberto

O que era para ser um programinha bacana num fim de tarde chuvoso de domingo trouxe uma bomba, pelo menos para os jornalistas de música: Nick Drake, o trágico bardo depressivo que morreu no ostracismo para ser redescoberto nos anos 80 e influenciar deus e o mundo – de Robert Smith a Renato Russo – passava horas no quarto ouvindo João Gilberto.

Pelo menos é o que sugeriu Joe Boyd, o produtor americano que descobriu Drake na Grã-Bretanha e produziu seus dois primeiros álbuns, num evento no bar/restaurante audiófilo Spiritland, em Londres.

Boyd participou de uma conversa sobre Nick Drake, respondendo a perguntas feitas pelo jornalista Peter Paphides e, ao final, de membros do público.

Ele contou como conheceu Drake: através de um bilhete de Ashley Hutchings, baixista do Fairport Convention, deixado sobre sua mesa com um número de telefone e um nome. Hutchings tinha visto Drake tocar num concerto contra a guerra do Vietnã na noite anterior (uma das raras apresentações ao vivo del, pelo visto) e ficara impressionado.

Boyd ligou, chamou Drake ao escritório, ouviu suas músicas e assim começa a trajetória de três álbuns lançados pela gravadora Island, Five Leaves Left (69), Bryter Layter (71) e Pink Moon (72). Drake morreu em 1974, aos 26 anos, de overdose de antidepressivos (30 comprimidos, o que levou muita gente, inclusive a irmã dele, Gabrielle, a acreditar que foi suicídio).

“Com os anos, fiquei surpreso em ver que muitas pessoas próximas pintavam um quadro de Nick bem diferente do que eu conheci”, disse Boyd. “Diziam que ele era popular na faculdade (Cambridge), que participava de corridas (atletismo)…o Nick que conheci era bashful (Boyd usou essa palavra ao menos duas vezes para descrevê-lo, significa ‘relutante em chamar atenção sobre si, tímido, reservado’).

Boyd deu detalhes sobre as gravações. Falou do fiasco dos arranjos de cordas de Robert Hewson, que tinha trabalhado com James Taylor, e do alívio que Drake sentiu quando soube que Boyd também não tinha gostado. Sobre a tímida indicação de Drake – “tem um amigo meu de Cambridge que conhece minhas músicas” -, Robert Kirby, que acabou cuidando dos arranjos de cordas, parte tão orgânica das canções.

E contou que Kirby se recusara a fazer o arranjo para River Man, talvez música mais conhecida – e reverenciada – do repertório de Drake.

“Kirby era ligado a música barroca. Ela não se sentia à vontade para fazer um arranjo de uma música em (andamento) 5 por 4. Haendel não tinha 5 por 4”, disse Boyd.

“Quem acabou sendo chave nessa história foi o engenheiro de som, John Wood. Wood perguntou a Drake: ‘Que tipo de arranjo de cordas você quer?’ ‘Algo tipo Delius (compositor britânico)’. Wood era o dono do estúdio e estava acostumado a gravar trilhas sonoras de filmes. Ele conhecia um cara que fazia arranjos imitando qualquer compositor. Se você precisa de uma trilha tipo Mahler, ele fazia. Tipo Wagner, ele fazia.”

Esse cara era Harry Robinson, “que compunha trilhas para os filmes de terror da Hammer”.

“Eu e Nick fomos de carro conhecê-lo. Nick levou um violão e um gravador cassete. Ele tocou o cassete com o violão de ‘River Man’ e tocou, junto, a ideia que tinha de arranjo. Portanto Harry Robinson fez o arranjo a partir da ideia de Drake e do pedido de fazer algo ‘tipo Delius’.”

Boyd contou que tudo foi gravado em um só take ao vivo: Nick Drake, voz e violão, e o grupo de cordas executando as partituras de Harry Robinson, ao vivo. “O John Wood diz que a voz de Drake foi gravada depois, ms não é essa a lembrança que tenho”.

Depois, veio a bomba: “A forma como a voz e o violão parecem ter duas vidas próprias segue o estilo do cantor e violonista brasileiro João Gilberto”.

“Isso só me ocorreu mais tarde. Mas um amigo de Drake, da Universidade de Cambridge, me disse que ele ouvia João Gilberto, que tinha discos dele”.

O comentário passou batido, menos para mim e meu amigo, o também jornalista Rogério Simões, fã de longa data de Nick Drake. Não tínhamos ideia…

Na sessão de perguntas do público, o Rogério perguntou por que os discos de Nick Drake não venderam (nem 5 mil cópias cada) na época.

Boyd deu, como pista, uma resenha que tinha saído na época na Melody Maker, do álbum Bryter Layter, que dizia que a música “parece uma mistura esquisita de folk e cocktail jazz”.

E depois, o serviço da casa foi interrompido, para que os pouco mais de 100 presentes pudessem ouvir, à meia-luz em em silêncio total, à mistura esquisita – e mágica – de folk e cocktail jazz do Bryter Layter.”

A nova Miley Cyrus

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Culpe a volta do namoro com o ator Liam Hemsworth ou a derrota de Hillary Clinton nas eleições norte-americanas do ano passado, mas o fato é que Miley Cyrus abandonou a persona porra louca que havia encarnado nos últimos anos e voltou a posar de garota bem comportada em seu novo single, “Malibu”:

Em entrevista à Billboard, ela disse ter se retraído para atingir um público maior: “Eu tenho de me perguntar: ‘Como vou fazer uma mudança real? E não apenas pregar para os convertidos? Eu gosto da forma como eu penso agora. Mas os eleitores de Trump também não gostam de como eles pensam? Então tenho de estar aberta à forma que abordo as pessoas com as minhas opiniões. É a única forma de provocar uma mudança de verdade.”

Tudo bem, mas a música é uma merda. Não que a fase twerk fosse boa, mas ela ao menos rendeu a parceria com os Flaming Lips, que foi bom para ambos. Mas será que nesta nova fase ela ainda é amiga de Wayne Coyne? E será que grava algo com sua banda num futuro próximo?

cornelius

Há onze anos sem lançar nada de novo, o mago japonês das colagens Cornelius de som anuncia o disco Mellow Waves – e o primeiro single, o melancólico e levemente perturbador “あなたがいるなら (If You’re Here)” mostra, com um casamento incrível entre som e imagem, que ele não voltou à toa.

Essa é a capa do disco e o nome das músicas vem logo a seguir. O disco sai em CD no final de junho apenas no Japão – e chega às plataformas digitais no final do mês seguinte.

cornelius2017

“あなたがいるなら (If You’re Here)”
“いつか / どこか (Sometime / Someplace)”
“未来の人へ (Dear Future Person)”
“Surfing on Mind Wave pt 2”
“夢の中で (In a Dream)”
“Helix / Spiral”
“Mellow Yellow Feel”
“The Spell of a Vanishing Loveliness”
“The Rain Song”
“Crépuscule”

Are_You_Experienced

Escrevi para o meu blog no UOL sobre o mítico primeiro disco que Jimi Hendrix lançou com seu trio Experience, que completa meio século neste dia 12 de maio – e como Are You Experienced? captura todo o poder revolucionário do músico.

É fácil entender porque Jimi Hendrix ainda é um ícone imbatível da cultura, mesmo passado meio século desde o que o primeiro registro de sua força emocional e sonora foi disponibilizado em escala industrial. Are You Experienced?, que chegou às lojas de disco no dia 12 de maio de 1967, concentra as principais qualidades do guitarrista, mas, visto à distância, cinquenta anos depois, é essencialmente um disco pop. Canções como “Purple Haze”, “Fire”, “Foxy Lady” e a faixa-título já se embrenharam na textura sonora do inconsciente coletivo a ponto de serem consideradas, sem dúvida, hits. Fora a figura encantadora de Hendrix, um trickster armado com uma guitarra, um soul man psicodélico, um xamã elétrico.

Difícil, no entanto, é entender o impacto que Jimi Hendrix exerceu sobre os anos 60 – e como sua presença foi capital para sincronizar dois continentes em uma nova perspectiva de vida, alinhando a contracultura de Londres (e consequentemente a da Europa) à de Nova York e da Califórnia (e consequentemente a da América) ao redor de o despertar de uma nova consciência. Não por acaso o disco foi lançado no mítico 1967 – é um dos discos que ajudou a transformar aquele ano numa época de ouro para a música, para o rock e para a cultura contemporânea, como um todo.

E isso aconteceu num estalo. Um ano antes de seu lançamento, Jimi Hendrix sequer era Jimi Hendrix. Tocava em uma banda chamada Jimmy James and the Blue Flames onde exercitava todo seu virtuosismo rock aprendido na marra ao lado de titãs da música negra, como os Isley Brothers e Little Richards, de quem foi guitarrista de suas bandas de apoio. Mas estava longe do alienígena musical que se transformou em poucos meses. Já estava acompanhando o que seus contemporâneos brancos dos Estados Unidos e da Inglaterra estavam fazendo, principalmente Dylan, uma de suas principais influências, e os Beatles. Mas a barreira racial o impedia de ir para além da fronteira onde atuava, até que Linda Keith surgiu em sua vida.

A história de Linda com Hendrix parece um conto de fadas. Ela o viu se apresentando no Cafe Wha, em Nova York, e imediatamente reconheceu seu talento cru. Modelo e it girl inglesa, Linda era namorada de Keith Richards dos Rolling Stones e passava uma temporada na costa leste americana quando percebeu que poderia lapidar aquele guitarrista. Foi ela quem o convenceu a deixar o cabelo crescer e a cantar, usando Dylan como parâmetro para estas mudanças no guitarrista. Ela insistiu que adotasse seu verdadeiro sobrenome e não se escondesse atrás de uma banda – além de assinar seu prenome de forma singular, Jimi, e não como todos os outros James, que assinavam o próprio apelido como Jimmy. Ela lhe sugeriu que usasse roupas menos comportadas e que experimentasse o ácido lisérgico. Em outras palavras, Linda lhe aplicou uma dose expressa da Swinging London, a transformação comportamental que tirava Londres do pós-guerra e puxava a capital inglesa para a era psicodélica. O encontro de Jimi e Linda é crucial para a transformação de Hendrix em um ícone da música e da contracultura global.

Ela usou suas conexões para tentar chamar atenção da indústria fonográfica para o músico, mas nem Andrew Loog Oldham (empresário dos Rolling Stones) e Seymour Stein (dono da gravadora Sire Records) não viram grande coisa no guitarrista. Foi preciso que Linda o apresentasse a um amigo músico que estava insatisfeito com a vida dos palcos e queria experimentar a vida nos bastidores, empresariando um novo artista. Chas Chandler, ex-baixista dos Animals, havia ouvido a música “Hey Joe” e sabia que ela seria o hit do primeiro artista que empresariasse. E ele conseguiu ver exatamente o que Linda dizia quando assistiu Jimi Hendrix ao vivo.

Mitch Mitchell, Jimi Hendrix e Noel Redding

Mitch Mitchell, Jimi Hendrix e Noel Redding

Chandler é a segunda ferramenta para a ascensão de Hendrix. É ele quem banca a viagem do guitarrista para Londres, suas primeiras apresentações. É Chandler quem apresenta Hendrix a seus novos músicos, os ingleses Noel Redding, guitarrista que começava a tocar baixo, e Mitch Mitchell, baterista que também havia tocado com uma banda chamada Blue Flames (Georgie Fame and the Blue Flames). A química entre os três é instantânea e logo que eles começam a gravar, Chandler vê que não precisa alugar sala de ensaio para os três, que agora se chamavam The Jimi Hendrix Experience, pois os novos músicos aprendiam rapidamente as músicas de Jimi logo que estavam testando os instrumentos no estúdio.

O impacto ao vivo de Jimi Hendrix em Londres, ainda em 1967, foi avassalador. Guitarristas contemporâneos, como Jeff Beck, Eric Clapton e Pete Townshend sentiram o baque na hora e em menos de um mês todos os instrumentistas da cidade se viam confrontados com um novo patamar de excelência – todos mesmo, inclusive músicos que não se consideram virtuosos, como integrantes dos Beatles e dos Rolling Stones que puderam assistir aos primeiros show de Hendrix na Inglaterra.

Em frente a uma plateia progressista e sem preconceitos, o guitarrista explorava todos os limites de sua performance, assumindo o holofote como Linda Keith havia profetizado, não apenas como instrumentista, mas como showman, líder carismático no palco. Ele e sua guitarra Fender Stratocaster eram um só e ele ficava cada vez mais consciente e confiante de sua força artística, seja cuspindo frases de apresentação no começo de suas músicas ou narrativas melódicas completas nos intervalos entre os refrões. A guitarra também era a batuta com a qual regia a microfonia, o barulho dissonante dos instrumentos elétricos que Hendrix aos poucos domou. Hércules sonoro, desafiava bestas sonoras inomináveis e transformava estas lutas em solos memoráveis, deslumbrantes, transcendentais.

Era uma força ancestral. O que Hendrix mostrava para os ingleses era a versão atual da geração de músicos norte-americanos que a Swinging London venerava. Uma geração que surgiu com o rock’n’roll de Elvis Presley, Chuck Berry, Buddy Holly e Little Richards, mas que logo foi atrás dos discos anteriores, dos primeiros bluesmen elétricos, dos discos da gravadora Chess. Hendrix era um daqueles monstros sagrados, só que não vivia no passado, mas no presente, apontando para o futuro.

Sua importância é maior do que apenas para o rock. Hendrix faz a ponte entre as ragas indianas mencionadas por John Coltrane e o espaço sideral de Sun Ra com as viagens intergaláticas de George Clinton e a força política de Sly & The Family Stone. Não à toa foi parar com Miles Davis no momento em que o Picasso da música norte-americana começava sua fase elétrica. Hendrix não é apenas a consagração da união das novas consciências na cultura pop da América e da Europa, a consolidação do que Dylan dizia quando batizou um de seus discos de 1965 de “trazer tudo de volta pra casa”, em relação à cultura urbana que teria sido “roubada” pela geração dos Beatles. Ele também é a evolução improvável de uma consciência musical, que, por mais difícil que possa parecer, soa facílima uma vez apresentada pelo guitarrista e vocalista. E está tudo ali, encerrado no primeiro disco de seu power trio. “Você já experimentou?”, pergunta desafiador na faixa-título, para responder sorrindo. “Eu já.”