Ana Garcia manda notícias do Recife e começa a planejar o 2017 do festival Coquetel Molotov. Antes de botar às mãos na massa, um balanço para tentar ver o tamanho do desafio, já que a edição do ano passado – que reuniu Céu, BaianaSystem, Karol Conká, Boogarins, Jaloo, Rakta, Ventre, entre outros – foi tranquilamente o melhor festival de 2016. Pra esse ano ela repete a meta do ano passado – além de um grande evento central no Recife, o festival também se espalha por Belo Jardim (no interior do Pernambuco), Belo Horizonte e Salvador, além de tentar dar a cara tanto no Rio quanto em São Paulo. A edição do festival deve acontecer novamente em outubro e a Ana passou em primeira mão para o Trabalho Sujo um vídeo dando uma geral na edição do ano passado.
Grimes segue colhendo os frutos de seu excelente Art Angels, lançado no final de 2015. Ela se reúne novamente com Janelle Monáe para transformar a deliciosa “Venus Fly” das duas em um curta – dirigido por ela mesma – que mistura cultura oriental, estética de ficção científica e movimentos de filmes de ação às já características sensibilidade plástica e psicodelia fashion de nossa querida heroína canadense. Mas o delírio mesmo deste novo clipe é a versão em baixa velocidade da mesma música, escondida na cena de créditos, que começa em quase cinco minutos do vídeo – que filé!
O lançamento do clipe também foi motivo para que ela falasse sobre fazer arte em tempos pesados como os atuais, em um post no Instagram:
“Às vezes parece fútil fazer arte neste clima político cruel e extremo, mas alguns dos momentos mais iluminados dos últimos meses para mim e para muito de vocês, suspeito, veio de ver a incrível e positiva visão que Janelle Monáe tem do futuro, especialmente quando estamos sendo apresentados a tantas possibilidades de futuros distópicos. Obrigado por dar tanto tempo, energia e criatividade para este projeto. Como diretora, editora e diretora criativa, eu também acho que seja meu trabalho mais forte, e não vejo a hora de compartilhar com vocês.”
Ela também publicou a playlist Grimes’ Deep Vibes no Tidal, que alguma boa alma subiu também no YouTube, e que reúne Smashing Pumpkins, Lana Del Rey, Harry Nilsson, Rihanna, Fifth Harmony, Deftones, entre outros:
Não consigo deixar de admirar esse sujeito: canta um sambinha e emenda três covers do Bowie… Quem mais?
“I’m not Rihanna, I’m not Madonna I’m not Mariah or Ariana / I’ve been around in this world causing drama”, canta a cingalesa M.I.A. em seu recém-lançado single “P.O.W.A.”, que veio junto com um clipe de coreografia à Chemical Brothers.
Eis o primeiro samba absurdo composto pela parceria tripla de Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis.
A ideia do projeto nasceu de Rodrigo Campos que, inspirado pelo livro O Mito de Sísifo, de Albert Camus, resolveu encarar o absurdo como tema – e para isso chamou Juçara Marçal para cantar e Gui Amabis para disparar beats e samples no palco. As letras das canções foram compostas por Nuno Ramos. Os três contam como Sambas do Absurdo – que vai virar disco – nasceu no vídeo abaixo:
Vi na Bravo.
O primeiro disco solo do Kiko Dinucci já pode ser baixado em seu site oficial – e, como eu disse, é uma pedrada.
A capa é uma imagem de Kiko tomando um enquadro da polícia. Uma imagem representativa dessa época bizarra que estamos vivendo.
O YouTuber norte-americano Evan Puschak, dono do canal NerdWriter, analisa, usando Louis C.K. como ponto de partida, a forma que comediantes agem na área cinzenta da moral justamente para testar seus limites – se arriscando em nome da sociedade.
Muito bom.
Continuando o resgates das minhas colunas da Caros Amigos para o Trabalho Sujo, segue o texto que escrevi para a edição de dezembro do ano passado sobre o festival brasiliense Satélite 061, que reuniu Elza Soares e Gal Costa debaixo da mítica torre de TV da capital do país.
Duas estrelas sob a Torre
Festival brasiliense Satélite 061 superou os problemas de produção com dois shows históricos de Elza Soares e Gal Costa
“Vida dura de quem trabalha acreditando na arte independente e que faz na raça mesmo”, ri Marta Carvalho, presidenta da Ossos do Ofício, associação multicultural que realiza o festival Satélite 061, a cuja quinta edição pude comparecer no final do mês de setembro, em Brasília. Ela ri quando peço para que ela conte a história de que ouvi falar, sobre como ela conseguiu pagar os artistas que se apresentaram em seu festival dois anos antes. “No ano de 2014, o festival contava somente com um pequeno patrocínio da Petrobras e para que acontecesse eu tinha que utilizar verba da Secretaria de Cultura para estruturas e cachês artísticos”, conta.
“Logo após o festival, o governo contingenciou as verbas para cultura inclusive vetando os pagamentos de eventos já executados. Sem opção, me uni a vários artistas do movimento cultural do Distrito Federal e fi zemos um plano radical: entramos na Secretaria de Fazenda do DF e nos acorrentamos. Só sairíamos de lá após termos as datas concretas da liberação dos recursos. Foi difícil, mas necessário para que pudéssemos honrar com os nossos compromissos.”
O festival também passou por maus bocados na edição deste ano, quando uma improvável tempestade no início da primavera – época em que não chove em Brasília –, danificou o equipamento no primeiro dia, atrasando a programação. “Com o atraso, tivemos que cancelar o show do BaianaSystem, mas que já marcamos nova data para acontecer. Será dia 18 de novembro, no Museu da República, dentro da programação do Festival Favela Sounds, que eu contribuo com a direção artística”, explica Marta. A queda do BaianaSystem da programação foi um baque num elenco maravilhoso.
O festival, que reunia várias bandas da cidade, entre grupos de rap, bandas de rock e sambistas, tinha escalado uma seleção de artistas que fazia a ponte entre a tradicional música brasileira e a atual música independente moderna, fazendo um contraponto ao outro grande festival da cidade, o Porão do Rock, por não se basear no rock como gênero-base. Assim, tínhamos o veterano Di Melo ao lado do novato Fióti, o irmão de Emicida, que agora lança sua carreira como soulman (com direito a participação do irmão como percussionista e vocalista de apoio ele só foi rimar em “África Nossa”, versão para o hino da diva caboverdiana Cesária Évora). O rock dos Autoramas – que agora é um quarteto – e o rap / R&B de Drik Barbosa. O free jazz elétrico do trumpetista Guizado e a MPB teatral de As Bahias e a Cozinha Mineira.
O raggatech samba-reggae do BaianaSystem seria a liga perfeita para misturar estes diferentes gêneros ancestrais e modernos, principalmente pelo fato do grupo estar lançando um dos melhores discos deste ano, o elétrico Duas Cidades. Mas as duas maiores estrelas do festival foram dois monstros sagrados de nossa música popular, duas divas de histórias díspares que vivem momentos semelhantes nesta segunda década do século 21.
“Elza Soares e Gal Costa têm biografias distintas, mas nunca tiveram seus títulos colocados em xeque, estrelas de dois Rios de Janeiros e de dois Brasis de épocas diferentes, encarnações de mulheres fortes relativas a recortes específicos de nossas culturas”
Elza Soares e Gal Costa têm biografias distintas, mas nunca tiveram seus títulos colocados em xeque, estrelas de dois Rios de Janeiros e de dois Brasis de épocas diferentes, encarnações de mulheres fortes relativas a recortes específicos de nossas culturas. As duas tiveram um ótimo 2015 quando, cercadas de novos músicos, fizeram álbuns ousados para suas carreiras: Elza Soares cercou-se da nova vanguarda paulistana (Rômulo Froes, Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos, Celso Sim, José Miguel Wisnik, Thiago França, Douglas Germano, os metais do Bixiga 70 – todos sob a batuta do percussionista Guilherme Kastrup) para lançar o poderoso Mulher do Fim do Mundo, talvez o disco brasileiro mais importante desta década.
Gal fez seu Estratosférica um oposto solar, diurno e carioca do disco paulista de Elza, reunindo composições de Céu, Mallu Magalhães, Marcelo Camelo, Lirinha, Alberto Continentino, Antônio Cícero, Arnaldo Antunes e Caetano Veloso, sob a produção de Kassin e Moreno Veloso. Elza trouxe seu espetáculo pleno, inclusive o cenário de Anna Turra que a coloca central, num trono, cantando a íntegra de seu disco intenso, além de músicas clássicas de seu repertório, como “A Carne” e “Malandro”. Gal foi intimista e, em vez da apresentação de seu novo disco, preferiu desfi lar seu rosário de clássicos ao lado do músico Guilherme Monteiro, no espetáculo Espelho D’Água. É uma sequência de clássicos sem par na música brasileira – “Baby”, “Vaca Profana”, “Tigresa”, “Negro Amor”, “Coração Vagabundo”, “Passarinho”, “Folhetim”, “Sua Estupidez”, “Meu Nome é Gal”, “Dom de Iludir”, “Tuareg” – todas entre a guitarra e o violão e voz intacta da cantora, que completava 71 anos (“54”, brincou) naquele mesmo 26 de setembro.
O público, entregue à sua majestade, não acreditava no que assistia e cantou parabéns para a baiana no palco mais de uma vez. Satisfeita com o resultado da quinta edição do festival, que mesmo com o tropeço do sábado conseguiu reunir 50 mil pessoas aos pés da monumental Torre de TV de Brasília, um dos cartões postais da cidade, a organizadora Marta nem acredita o quanto já conseguiu neste tempo, mas esquiva-se da modéstia. “Esse ano eu fui bem além e vi que é possível ir cada vez mais”, comemora, cravando a sexta edição do festival para o ano que vem, sonhando com dois grandes nomes: o rapper ganês Blitz The Ambassador e o cantor Ney Matogrosso. “Afi nal sonhar não me custa nada”, conclui, rindo.
O grupo baiano BaianaSystem aproveita o dia de Iemanjá para soltar uma faixa que poderia estar em seu Duas Cidades, com vocais do BNegão e de Russo Passapusso. “Invisível” fala sobre o contraste entre duas camadas da sociedade brasileira – a que se acha protagonista e a que se vê como coadjuvante.
E eu falei que eles vão tocar em São Paulo fim de semana que vem, né? Melhor show do ano passado fácil!
A MC brasiliense Flora Matos abre o ano com “Quando Você Vem” uma balada introspectiva produzida por ela mesma – numa música praticamente sem beats.
Ela foi pra uma praia sonora parecida com a que a Mahmundi está faz tempo, não acham?









