E se eu te dissesse que os dois últimos episódios de Twin Peaks se forem sincronizados conversam entre si? Alguém cogitou essa teoria no Medium e outro alguém a executou num vídeo no YouTube. E o resultado está aí – com spoilers, claro, para quem não viu toda terceira temporada da série.
“Dois pássaros com uma pedra”: e assim o season finale ganha mais uma camada de significado.
Fui convidado pela banda Maglore para escrever sobre seu recém-lançado Todas as Bandeiras, seu disco mais coeso.
Maglore – Todas as Bandeiras
O século vinte e um parece estar virando o mundo do avesso. São tantas mudanças, rupturas, surpresas, sustos, tragédias e revoluções acontecendo simultaneamente que todos temos a nítida sensação de não estarmos entendendo nada, à medida em que vemos os referenciais que ajudaram a nos entender como gente desfazendo-se entre novos comportamentos, novas tecnologias e novas visões de mundo.
Essa sensação de despertencimento não é estranha à carreira do Maglore. Rock demais para quem gosta de música pop, pop demais para quem gosta de rock; líricos demais para quem gosta de peso e barulhentos demais para os mais poéticos, mainstream para os que não gostam de música comercial e underground para os que fazem pouco do mercado alternativo, o grupo baiano também encontra-se num limbo etário – é o irmão caçula de uma geração de artistas que se firmou nos últimos dez anos e é o irmão mais velho de uma nova geração de bandas que vem se estabelecendo de alguns anos para cá. Mas isso não desencoraja o público, cada vez maior e mais ávido pelas considerações levantadas pela banda em seus shows, em suas músicas, em seus discos.
E no início deste ano passou por uma turbulência interna que a obrigou a reinventar-se a partir da saída do baixista Rodrigo Damati, que deixou a banda sem atritos pouco antes da gravação do sucessor de III, o primeiro trabalho da banda como um trio. À sua saída, o líder e principal compositor da banda, o guitarrista e vocalista Teago Oliveira, achou que era hora da banda voltar a ser um quarteto, convocando o ex-integrante Lelo Brandão, o Lelão, para assumir a segunda guitarra e convidando o guitarrista mineiro radicado em São Paulo Lucas Oliveira, da banda Vitreaux, para assumir o baixo. A bateria, como sempre, ficou com Felipe Dieder.
O novo repertório já estava composto antes da mudança na formação, o que obrigou o grupo a reinventar-se musicalmente sobre as novas canções. Mas o que parecia um processo que poderia ser conturbado na verdade funcionou como um choque de realidade que fez a banda chegar a seu disco mais preciso e definitivo.
Todas as Bandeiras, seu quarto álbum, é o momento em que as indecisões anteriores parecem ter cessado para chegar ao ápice da própria sonoridade, melancólica e esperançosa ao mesmo tempo. É sua obra mais madura, mais autoral e até mesmo mais política, embora as bandeiras citadas no título não tenham vertente ideológica, falando sobre verdades e buscas pessoais do que falam sobre a política de fato – a individual.
Todas as Bandeiras abre com sua principal assinatura sonora: o casamento das guitarras de Teago e Lelão, senssentistas, cruas e quase sem efeitos de distorção, sendo que o vocalista empunha um instrumento de doze cordas. O timbre dos dois instrumentos é solar e inspirador, acalentando o ouvinte para as letras nada felizes do vocalista. “Aquela Força”, a primeira faixa, parceira de Teago com o mineiro Luiz Gabriel Lopes, da banda Graveola, fala de superação pessoal sem maniqueísmos simplistas, usando belas imagens para retratar a sensação que quer passar: “Conservar a força que faça crer que o futuro seja nosso amigo/ A mesma força que tem o grito do tigre quando corre perigo/ A fé e a força que a águia tem no alto quando vai mergulhar/ A força é essa.” Enquanto descreve este sentimento, a banda cresce em volume e peso até chegar aos versos que talvez resumam a sensação do álbum: “Você só vai saber vivendo/ Você só vai saber sendo”, canta, arrebatador, Teago.
É essa política individual que o grupo busca por todo o disco, seja na dançante faixa-título (“O tempo passa e o herói fica sozinho/ Mas em qual herói devo acreditar?”), na excelente “Clonazepam 2mg”, feita para a estrada (“O problema é o passado que bagunça a nossa visão e a noção de tempo e espaço”) ou na praiana “Você Me Deixa Legal”, com seus “uh-uhs” entre a Bahia e o Havaí. O onipresente timbre cristalino das guitarras inevitavelmente remete ao pós-punk mais melódico dos anos 80, a psicodelia dos anos 60 e a primeira surf music, mas também ecoa a guitarra baiana e a melodia elétrica dos Novos Baianos.
As deliciosas “Jogue Tudo Fora” e “Hoje Vou Sair” são irmãs conceituais e ambas falam de mudança – a primeira vira a mesa da vida e a segunda vira a mesa do dia. E até as tristes “Eu Consegui” (“eu consegui perder meu grande amor”) e “Quando Chove no Varal” (“O seu rosto tá sumindo…”) ganham ares de redenção, a primeira ao resvalar no breque do samba, a segunda nos ecos esperançosos dos acordes. “Calma” e “Valeu, Valeu!” encerram Todas as Bandeiras certas da missão cumprida.
Um trabalho multifacetado mas coeso, que contou apenas com dois agentes externos na gravação, repetindo a produção da dupla formada pelo guru do pop brasileiro deste século Rafael Ramos e o produtor – e único músico de fora da banda em Todas as Bandeiras – Leonardo Marques, os mesmos do álbum antecessor, no estúdio carioca Tambor. A mixagem ficou por conta de Otávio Carvalho, no estúdio Submarino Fantástico e a masterização é de Felipe Tichauer, feita no Redtraxx Music, na Flórida. A arte de Azevedo Lobo, que forma imagens a partir de cores diferentes, espalha-se pelas páginas do encarte e por sua capa, mostrando que diferentes tonalidades podem coexistir sem atrito. Um resumo da conexão perfeita encontrada pela banda no disco que consagra sua maturidade e abre um novo capítulo em sua saga. Os fãs, atentos, se identificam e agradecem.
Azeitando a dobradinha que irão fazer no Rock in Rio, a cantora paulistana Céu grava “Foi Mal”, do novo disco dos Boogarins, ao lado da banda goiana.
Ficou demais.
Taylor Swift revela mais uma música de seu disco novo Reputation, “…Are You Ready?”, que será a música de abertura do disco e também revela as capas, aí em cima, das duas edições da revista de moda que acompanhará o novo CD ao ser vendido nas lojas Target, nos EUA, com letras das músicas escritas à mão por ela, ensaios de moda, pintura e fotos pessoais.
A já célebre cena do trenzinho dos irmãos Mitchum e de Dougie Jones conta com uma trilha sonora que nada tem a ver com a cena – e parece uma música de videogame antigo. Mas alguém se deu ao trabalho de desacelerar a cena em duas velocidades diferentes para descobrir uma bateria de jazz e um tecladinho
Isso é invenção do próprio David Lynch, que faz a direção de som da série e é autor do remix que marca a personalidade da versão maligna do agente Cooper, uma versão em câmera lenta da deliciosa “American Woman”, das Muddy Magnolias, que nessa nova velocidade ganha um aspecto assustador:
Vamos rever novamente este momento e sua trilha sonora bizarra:
A cantora Lara Aufranc encara o próprio sobrenome (pronuncia-se “ôfranq”) na nova fase de sua carreira. Abandona o codinome que fazia parecer que seu trabalho solo era uma banda (Lara e os Ultraleves) rumo a uma sonoridade menos comercial e mais autoral. “Eu não me preocupei em ser coerente com o disco anterior, em agradar, nada”, me explica a cantora por email. “Foi uma escolha de vida, optei por seguir o meu caminho da forma mais sincera possível. E nesse contexto, assumir o meu sobrenome fez todo sentido.” O primeiro resultado desta nova fase é o clipe de “Passagem”, que estreia em primeira mão aqui no Trabalho Sujo.
“‘Passagem’ foi uma das primeiras músicas a surgir, e por isso é uma boa representação do caminho que foi desenvolvido no disco”, ela explica. “Existe uma pressão para que a sociedade seja homogênea. Todo mundo no mesmo caminho, na mesma direção. Só que a vida é múltipla, as pessoas são complexas e os desejos são os mais variados. A música e o clipe são um chamado para a vida que acontece agora, imersa nesse fluxo urbano de gente e informação.
Outras duas cenas da nova temporada de Twin Peaks sincronizadas: o discurso do Woodsman do episódio 8 e a bebedeira de Sarah Palmer no episódio 13. Repare que ela bebe toda vez que ele fala em “drink full”…
Não é a primeira vez que duas cenas distintas parecem feitas para espelharem uma à outra nesta temporada: a cena do choque em Cooper, as cenas do Dr. Jacoby e as cenas da caixa de vidro.
Geoff Barrow, do Portishead, leva o grupo canadense Arcade Fire a uma viagem dubzeira em seu remix para “Creature Comfort”, que virou “Comfort My Sleng Teng (Geoff Barrow Mix)”.
A clássica dupla dance Orbital, formada pelos irmãos Paul e Phil Hartnoll, pendurou as chuteiras em 2012, quando lançou seu último disco, Wonky, mas desde o início do ano vem ensaiando sua volta, fazendo apresentações ao vivo sob rumores que estariam trabalhando num novo álbum. A principal novidade é a faixa “Copenhagen”, a primeira inédita em cinco anos, lançada meses após o primeiro sinal de vida dado pela dupla, no início do ano, quando recriaram a faixa de 2008 “Kinect” ambientada para este ano. Ouça as duas abaixo:
Às vésperas de lançar seu primeiro disco solo, Susan Souza lança mais uma faixa do álbum produzido por Steve Shelley, baterista do Sonic Youth. “Cinnamon Sea”, lançada em primeira mão no Trabalho Sujo, talvez seja a música que mais lembra a banda original de seu produtor e encerra o disco. “‘Cinnamon Sea’ foi a última música que compus para fechar o álbum. Nessa parte final – ‘Cinnamon Sea’ é a penúltima faixa-, a fragilidade da Nabia que foi apresentada no primeiro single, ‘Sol’, ficou para trás”, explica a cantora e compositora, falando da personalidade que criou para conduzir a história do disco. “Nesse ponto da narrativa, a personagem não sente medo de se afirmar porque conhece suas sombras e sabe quais são os potenciais que podem surgir a partir do entendimento delas.”
Ela continua: “Compus ‘Cinnamon Sea’ quase na véspera de viajar para Hoboken, em fevereiro desse ano, durante noites de insônia por causa da ansiedade para terminar o disco. A letra foi parcialmente escrita aqui e finalizada já nos Estados Unidos. O Emil Amos, dos Holy Sons, OM, Grails, participa no baixo e também na segunda guitarra. Ele foi fundamental para construir uma sonoridade meio ‘oceânica’, que foi como sentimos que precisava ser o clima dessa faixa. A letra fala sobre se sentir sagrada, sábia e livre, não é sobre nenhuma religião específica, mas sim sobre estar em contato com um espaço sagrado particular. Quando a gente entende nosso propósito de vida e nossas fragilidades fica muito mais fácil acessar esse lugar sagrado de força interior para permitir que a felicidade não seja uma ideia inatingível, mas sim uma vivência sutil do cotidiano. Essa música é sobre isso e sobre se direcionar para o centro da roda da fortuna, ou seja, encontrar um ponto de equilíbrio para não se deixar levar pelos altos e baixos da vida.” Steve Shelley completa o time tocando bateria.










