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JonnataDoll2019

O cantor cearense Jonnata Doll finalmente começa a mostrar o novo disco de sua banda, Os Garotos Solventes, ao lançar o primeiro single, “Trabalho Trabalho Trabalho” em primeira mão no Trabalho Sujo. Batizado de Alienígena, o disco tem produção de Fernando Catatau, que também participa do primeiro single, bem como a cantora Ava Rocha e o trumpetista Guizado.

“O disco nasceu da minha experiência em São Paulo”, conta o cantor e compositor. “Cheguei aqui em 2013 e morei em vários lugares, em situações e pessoas diferentes, tendo uma amostra do que é a vida em São Paulo da perspectiva de alguém pobre, sem grana nenhuma, sem pai, dependendo de favores, amigos e bicos – atualmente eu passeio com cachorros e com um porco, o George. Pretendo até fazer um clipe com o George, se o dono dele deixar”, ri, antes de voltar para o assunto do disco.

“Observei essa onda de extrema direita efervescente aqui em São Paulo, aqueles seres bizarríssimos na Paulista e isso fez de Alienígena o disco mais político da gente”, continua. “Ao contrário dos outros, pude utilizar minha autobiografia como relato, usando o meu eu em relação ao outro, à cidade. Nunca o foco sou eu mesmo, tentei estabelecer esse método beatnik, que o Kerouac e o Burroughs faziam muito bem.” Este método é ilustrado na intervenção que a banda fez no centro de São Paulo para realizar o clipe.

A relação com São Paulo também está expressa ao chamar o guitarrista do Cidadão Instigado para produzir o álbum. “Foi o cara que me trouxe pra São Paulo e é um grande parceiro. Ele influenciou também na sonoridade quanto na composição, falava pra fugir de fórmulas, de repetições, me mostrando como cantar de forma livre, sem pensar numa regra, o que deixou as músicas bem psicodélicas.” A própria sensação expressa no título do disco traça um parentesco direto com o conceito do Cidadão Instigado de Catatau – alguém que se muda do Ceará para tentar a sorte em São Paulo, mas ao chegar em São Paulo sente saudades do Ceará. É como se Fernando estivesse passando este bastão para Jonnata.

“Escolhi ‘Trabalho Trabalho Trabalho’ para começar porque é uma música bem diferente da gente e mostra bem o que é o disco. É uma crônica sobre o trabalhador”, explica o compositor. “O alienígena quando chega de fora vê esse ritmo de São Paulo, a pressa, a indiferença e a liberdade de poder fazer o que quiser sem que as pessoas se importem muito, mas também a solidão.” O disco será lançado pelo selo Risco no próximo dia 21 de agosto.

Foto: Priscila Buhr

Foto: Priscila Buhr

Ao pegar pesado nas duas músicas (“Sangue Frio” e “A Casa Caiu“) que usou para anunciar seu quarto disco solo Desmanche, que chega nessa sexta às plataformas digitais, Karina Buhr nos induziu a imaginar que ela viria com um disco agressivo e pesado, subindo o tom em relação ao disco anterior, o forte Selvática (2015). As duas músicas (mais “Temperos Destruidores”) formam apenas um dos sabores do álbum, que também se desmancha em doçura.

“Eu não pensei num tema pra fazer um disco”, ela me conta em uma troca de áudios por WhatsApp. “Fiz as músicas, as letras e ao pensar no nome, achei que Desmanche representava muito, porque ele tem uma coisa tanto de guerrear, de ser agressivo, de ir pra cima e buscar as coisas, o desmanche do país, o desmanche de carro, o imperativo do verbo desmanchar, como também tem uma tranquilidade, um bailar na festa, um carnaval, tem as duas coisas. Eu não parti do nome Desmanche pra criar o disco, mas não tem um tema, são um monte de coisas misturadas. E feminista todo meu disco vai ser, porque eu sou.”

O disco foi criado a partir da tríade que montou com o guitarrista Régis Damasceno (guitarrista do Cidadão Instigado e coprodutor do disco, que vem se reinventando musicalmente de uma forma bem interessante nos últimos anos) e o percussionista Maurício Badê. “Eu faço as músicas partindo da percussão, que é o meu instrumento”, ela me explica. “Não tem muita ordem na hora de fazer melodia ou letra, mas o ritmo tá sempre por perto, mesmo que eu não esteja com o tambor ali, eu toco na mesa, no que tiver, sempre com uma coisa rítmica junto.”

Esse sim é o tema musical de Desmanche, um disco com tambores que pulsam pesados ou com delicadas texturas rítmicas que sustentam os devaneios – alguns deliciosos, outros ríspidos – de Karina. “Nos outros discos, desde que comecei minha carreira solo, mas nos discos isso não aparecia. Eu tirava a percussão quase que totalmente, usava esse material pra mostrar pra banda pra criar os arranjos, mas depois os tambores saíam. E nesse disco resolvi mostrar essa percussão, tirar a bateria, deixar só a percussão. Eu trouxe pra frente e prum lugar de importância uma coisa que sempre foi fundamental, mas que na hora de mostrar e botar na rua, não aparecia.” Além de Badê e Damasceno, o disco conta com participações de outros músicos, como Mestre Nico, Isaar, Sthe Araújo, Lenis Rino, Victor Vieira Branco, Bernardo Pacheco e Max B. O., este último – atual parceiro de vida de Karina – coautor da ótima “Filme de Terror”, um “quase bolero” como diz Karina, que conta com a participação do MC.

“No disco eu aproveitei mais isso, no show vai ter umas bases, mas sou eu e Maurício Badê fazendo percussão”, continua falando sobre o show, que estreia no Sesc Pinheiros no próximo dia 3 (mais informações aqui). “Antes de começar meu trabalho solo, eu sempre cantei tocando percussão, e depois eu descobri essa coisa de cantar sem tocar e descobrir coisas com a voz, que é bem diferente de cantar sem o tamborzão pendurado. Principalmente a alfaia, que eu gosto muito de tocar, que é um tambor de quase dez quilos. Muda muito. Toco mais no show, mas não toco todas as músicas, Maurício faz as percussões e Régis toca guitarra e baixo, enquanto Charles Tixier faz MPC e uma ou outra coisa de teclado.” Aproveitei a deixa do lançamento e pedi para que ela dissecasse-o faixa a faixa.

Desmanche, faixa a faixa

“Sangue Frio”
“Fala sobre extermínio de pessoas pelo exército brasileiro e polícias e como brasileiros que não morrem se colocam diante disso. Ela faz parte – junto com ‘A Casa Caiu’ e ‘Temperos Destruidores’ – do grupo de músicas do disco onde usei o peso dos tambores e levadas influenciadas por caboclinhos e toré, misturando com coco e viradas de maracatu de forma livre e sobreposta criando um tipo de punk rock de tambor.”

“Amora”
“A romântica defeituosa do disco.”

“Lama”
“Caminhada psicodélica de palavras e tambores por Recife, nos bairros de São José, Santo Antônio, Casa Amarela, Bomba do Hemetério. Festa, pesca, leveza, tensão, calor, memórias de carnaval, de dormir no asfalto esperando a hora de tocar na avenida Guararapes, os ônibus lotados das agremiações, escolas de samba, ursos.”

“Temperos Destruidores”
“Sobre os fins dos mundos, as justificativas falsas de guerra e os verdadeiros motivos, os assassinos legalizados que comandam as nações.”

“Nem Nada”
“Calma, mar, falta de pressa, desapego, descanso, esquecimento momentâneo dos gritos, uma zerada, por motivo de sobrevivência.”

“Chão de Estrelas”
“Baile, pista, globo, fumaças, bebidas, luzes.”

“Filme de Terror”
“De verdade só os filmes de terror. E o quase bolero e a rima viva de Max. B.O.”

“A Casa Caiu”
“Sobre latifúndio, ocupação, exploração desenfreada da terra e das pessoas, Brumadinho, revoluções e líderes delas em ação, MST, MTST, MSTC…

“Peixes Tranquilos”
“Jah love, coração transposto num rio que corre no leito original dele, águas mornas e tranquilas, Oxum, Yemanjá, lembranças de Os Sertões com o Teatro Oficina, um mapa no chão.

“Vida Boa é a do Atrasado”
“E quem dirá que não? Côco com Isaar e seu brilho cantando junto”

metronomy

O grupo inglês Metronomy, liderado por Joseph Mount, lança mais um single de seu próximo disco, Metronomy Forever, que será lançado em setembro. “Walking in the Dark” segue o tom melancólico do single anterior (“Salted Caramel Ice Cream”), mas difere de “Lately“, que o grupo lançou no semestre passado – dando o tom variado do novo disco.

O disco, que sairá dia 13 de setembro, já está em pré-venda e seguem abaixo sua capa e a relação das (dezoito!) faixas:

metronomy-forever

“Wedding”
“Whitsand Bay”
“Insecurity”
“Salted Caramel Ice Cream”
“Driving”
“Lately”
“Lying Now”
“Forever Is A Long Time”
“The Light”
“Sex Emoji”
“Walking In The Dark”
“Insecure”
“Miracle Rooftop”
“Upset My Girlfriend”
“Wedding Bells”
“Lately (Going Spare)”
“Ur Mixtape”

westworld3

De tudo que foi mostrado na Comic Con deste ano – fase 4 da Marvel completa, inclusive -, o que mais me deixou salivando foi o trailer da terceira temporada de Westworld…

…que pelo visto se passa no mundo real, fora dos parques temáticos, e coloca Dolores para conhecer outros humanos, bem diferentes dos superricos que frequentam aquele universo fake e que a fez odiar nossa espécie. Guiada por um novo personagem, vivido pelo Aaron Paul de Breaking Bad, a nova temporada parece sugerir uma nova empatia dos robôs com os humanos, só que com a classe operária. E, de relance, ainda vislumbramos um novo parque temático inspirado na Segunda Guerra Mundial. Pena que temos que esperar mais um ano ainda…

daveberman2019

Boa a hora em que o Dago (valeu!) me lembrou que o Dave Berman estava de volta com disco novo, anunciado no fim do ano passado, com o novo nome artístico de Purple Mountains. E como os singles iniciais (“All My Happiness is Gone” e “Darkness and Cold“) já vinham mostrando, é reconfortante encontrar o criador do movimento poético Nova Abertura que inventou no lançamento do clássico American Water de seu grupo Silver Jews, continua em ótima forma (mesmo que alguns teclados fuleiros sobrem em algumas faixas), depois de mais de dez anos sem gravar nada.

purplemountains

Discaço.

matias-vai-de-cevada

Bati um papo com a Paloma Klisys do canal Vai de Cevada – o assunto era as coisas que faço (e fomos da curadoria de música ao Vida Fodona passando pelo livro que escrevi sobre o PC Siqueira), mas no meio do caminho conversamos sobre o que desse na telha. E bebendo cerveja, o que é mais estranho (quem me conhece, sabe).

velvet-underground-1969

É disso que as lendas são feitas: os poucos registros em vídeo do Velvet Underground em sua breve existência ajudam a aumentar a aura que o torna uma das bandas mais importantes dos últimos cinquenta anos. Por isso é sempre motivo para comemorar quando surge algum trecho da banda em vídeo – e foi o que acabou de acontecer nos Estados Unidos, quando, ao digitalizar parte do acervo da Southern Methodist University, em Dallas, foram descobertas imagens do grupo ao vivo – e a cores – em um show em 1969.

Os registros trazem a banda em sua formação final, com Doug Yule substituindo John Cale. Mas três de seus pilares iniciais estão lá: o cantor e compositor Lou Reed, o guitarrista Sterling Morrison e a baterista Maureen “Mo” Tucker. A banda foi chamada para participar do Dallas Peace Day, um protesto contra a guerra do Vietnã realizado no dia 15 de outubro daquele ano e, infelizmente, a maior parte dos registros não tem som. Os que tem mostram a banda tocando “I’m Waiting for the Man”, “Beginning to See the Light” e “I’m Set Free” e uma entrevista com Sterling Morrison. Mas só de ter imagens em movimento e a cores da banda já é um achado e tanto, saca só:

Velvet_Underground_Dallas_Peace_1969

Vi no Dangerous Minds.

joao-gilberto-auditorio-2008

Eis a íntegra do penúltimo show que João Gilberto fez em São Paulo, o único show dele que vi ao vivo, no dia 14 de agosto de 2008. 29 clássicos da música brasileira – a maioria da primeira fase de sua discografia – na voz de seu maior intérprete. Cada segundo deste vídeo é uma aula de história, de música e de estilo.

“Aos Pés da Santa Cruz”
“Treze de Ouro”
“Wave”
“Caminhos Cruzados”
“Doralice”
“O Amor, o Sorriso e a Flor”
“Preconceito”
“Disse Alguém”
“O Pato”
“Corcovado”
“Samba do Avião”
“Lígia”
“Você já foi á Bahia?”
“Rosa Morena”
“Morena Boca de Ouro”
“Desafinado”
“Estate”
“Não Vou Pra Casa”
“Chega de Saudade”
“Isso Aqui o Que é?”
“Chove lá Fora”
“Esse Nosso Olhar”
“Bahia com H”
“Da Cor do Pecado”
“Retrato em Branco e Preto”
“Samba de Uma Nota Só”
“Guacyra”
“Pra Machucar meu Coração”
“Garota de Ipanema”

João Gilberto não morre nunca. E um salve ao pirateiros!

papisa-2019

Encontrei a Rita Oliva, dona do projeto Papisa, dia desses, retomando uma conversa que paramos lá no início de 2018, quando ela apresentou a segunda versão de seu Tempo Espaço Ritual numa das primeiras terças-feiras no Centro da Terra. De lá pra cá, ela abriu o processo de criação e gravação de seu novo disco com o público e vem amadurecendo o que se tornaria o disco Fenda, que ela anuncia para o início de agosto. Depois de lançar a faixa “A Velha” no início do ano, ela traz um contraponto, “Roda”, que chega às plataformas digitais nesta sexta-feira mas pode ser ouvido em primeira mão aqui no Trabalho Sujo.

“‘Roda’ fala da sensação de estar no meio das mudanças”, explica a cantora e compositora paulista. “e ela traz uma certa leveza, mais humana, da emoção, da nostalgia, de encarar o tempo é como uma espiral”. A faixa é um contraponto leve de um disco que ela mesma encara como mais denso, ao ser temático sobre a morte. “É um disco que fala da morte em várias perspectivas, como parte de um ciclo, literal ou figurado”, continua, lembrando que viveu algumas mortes próximas que funcionaram como gatilho para o disco, batizado justamente a partir desta sensação de transição que sentimos atravessar. “A fenda é um símbolo de uma entrefase, de um momento em que uma coisa acabou e outra não começou. Tem essa suspensão, no tempo e espaço.” O disco deve sair no dia 2 de agosto e estas são as faixas.

“Moiras”
“A Velha”
“Terra”
“Fenda”
“Retrato Infinito”
“Nigredo”
“Semente”
“Roda”
“Espelho”

hebe-andrea-beltrao

Não bastasse a escolha da protagonista ser ótima (Andrea Beltrão parece ter nascido pra viver este papel), a cinebiografia sobre Hebe Camargo (Hebe – A Estrela do Brasil, que estreia em setembro) toca em pontos sensíveis para o Brasil de 2019.