
Começamos o ano de fato nessa estranha coincidência entre o fim do carnaval e Twin Peaks e comentamos as inúmeras tentativas de abordagem românticas, desde as contemporâneas do mundo digital (como usar o Letterboxd como uma nova versão do clássico “venha conhecer minha biblioteca”) até as decadentes, como a hora da música lenta, que clamamos pela volta – sem contar as mais esdrúxulas – e nichadas – como levar um livro do Thomas Pynchon debaixo do braço. E que tal um programa de rádio tipo correio elegante chamado New Romantic com “Stairway to Heaven” como música de abertura? E no meio disso tudo falamos de carros que saíram de moda, de uma importante agente cultural e política brasileira, a sobreposição entre as danças do TikTok, a Macarena e É o Tchan e a rede social do Aparelho. E nos perguntamos sobre a volta do horário de verão!
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Retomo os trabalhos do meu programa sobre música brasileira conversando com o baiano Lucas Santtana, que durante a pandemia estreitou seus laços com o velho continente mudando-se para uma pequena cidade no interior da França, onde reside atualmente. Neste processo, começou a compor seu novo disco a partir do contato com uma série de autores (como a cientista Lynn Margulis, objeto do documentário Symbiotic Earth: How Lynn Margulis Rocked the Boat and Started a Scientific Revolution), que pensam o lugar da raça humana no planeta Terra, levando em conta principalmente a crise climática que já estamos atravessando – e que foi responsável também pelo surgimento deste trágico capítulo em nossas vidas. O Paraíso, lançado no inicio do ano, foi gravado com músicos franceses e conta com versões de músicas dos Beatles e Jorge Ben.
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Tirei o domingo de Carnaval pra ver mais um show dos ótimos Sophia Chablau & Uma Enorme Perda de Tempo, desta vez fazendo todo mundo no Sesc Ipiranga cantar todas as músicas junto. Em mais um show completo de seu primeiro disco (que inclui as participações da maravilhosa Lucinha Turnbull, do saxofonista João Barisbe, das cordas de Arthur Merlino e Fabio Tagliaferri – este último, pai de Sophia), o quarteto está liberando pouco a pouco as músicas novas de seu segundo álbum que, ao que tudo indica, deve sair ainda este ano – foram quatro só neste show. Sophia foi atropelada pelo Carnaval e mal conseguia colocar e tirar a guitarra, mas, como sempre, transformou o sofrimento em piada e outra vez tirou de letra um desconforto para dominar facilmente o público do teatro, que ela incitou para que levantasse em vez de ver o show sentado. Ninguém ficou parado.
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O Carnaval da Céu está acontecendo no Sesc Pinheiros, quando ela estreia o espetáculo Fênix do Amor, em que organiza seu repertório numa apresentação que não prioriza um determinado disco para repassar seus hits. Ela segue com a banda que montou para circular com o disco Um Gosto de Sol, com o fiel escudeiro Lucas Martins no baixo puxando os novatos Sthe Araujo (percussão), Bruno Marques (bateria) e Leo Mendes, que assume a guitarra depois de tocar apenas violão na turnê anterior – e esta mudança é crucial para a nova apresentação, fazendo o show ganhar força e eletricidade ao mesmo tempo em que Céu desliza em seus hits, como bem sabe fazer. O foco do show fica em seus dois melhores discos – Vagarosa e Tropix – e passeia por algumas do Apká! e até do disco mais recente (fazendo Céu ceder ao repertório autoral quando um fã pediu “Deixa Acontecer”, o samba do grupo Revelação que ela gravou no disco de versões), mas senti falta de músicas do Caravana Sereia Bloom – “Falta de Ar”, “Baile da Ilusão” e “Chegar em Mim” fariam bonito nessa noite. Mas é Carnaval e ela aproveitou para emendar uma sequência de músicas alheias no final, que começou sua já clássica versão para “Mil e Uma Noites de Amor” do Pepeu Gomes, passou pelo axé (“Vai Sacudir, Vai Abalar”, da banda Cheiro de Amor), visitou a pioneira Chiquinha Gonzaga (com, claro, “Abre Alas”) e encerrou celebrando Gal, com a irresistível “Bloco do Prazer”. Uma banda tinindo e uma luz deslumbrante (Marcos “Franja” Cicerone esmerilhando com a ajuda do laser de Diogo Terra), deixaram Céu completamente à vontade para dominar o palco e o público com facilidade, numa apresentação que funciona como balanço de carreira e quem sabe a ajude a pensar em novos planos para o futuro.
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Mais um DM pré-Carnaval e Dodô já começa desconfiado com uma falta de politização nesta primeira folia sem Bolsonaro, o que bate com uma sensação que vinha sentindo sobre um individualismo extremo na festa deste ano. E aproveitamos para falar do exato oposto disso, trazido à tona pelo excelente documentário Andança, sobre Beth Carvalho, que coloca arte e cidadania no mesmo balaio, sem distinção. E damos nossas dicas de Carnaval – e deixo o link pra quem quiser aparecer na sexta-feira no Cineclube Cortina para festejar em mais um Baile à Fantasia Noites Trabalho Sujo com a Charanga do França. Vai ser bonito!
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Mesmo antes da apresentação que Sophia Chablau fez nesta quarta-feira no Centro da Terra eu já tinha a sensação de que ela estava dando um passo importante em sua ainda breve biografia. Tocando sozinha com seu violão e apresentando músicas novas pela primeira vez, ela mostrou um lado mais lírico e menos irônico do que o que conhecemos em seus trabalhos com suas outras bandas, usando o humor para quebrar o gelo entre as músicas, mas criando um clima mais intimista mesmo quando tocava os rocks tortos que conhecemos quando ela lidera, a Uma Enorme Perda de Tempo, ainda que este clima se expandisse com os vídeos que Dora Vinci projetava sobre a jovem compositora paulistana. E quando uma das músicas novas crava sobre “o início de uma nova era”, confirma-se a sensação de que ela começa a virar uma página de sua carreira para alçar outros voos.
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Linda a apresentação que Bruna Lucchesi fez nesta terça-feira no Centro da Terra celebrando uma das facetas menos conhecidas de Paulo Leminski – a de compositor de canções. Ela passeou pelo cancioneiro do lendário poeta curitibano como parte de uma pesquisa que ela faz há anos sobre sua obra e deu uma nova roupagem a canções quase desconhecidas que encantaram o público desde o início do espetáculo, que ainda contou com a participação remota de Angélica Freitas e presencial do grande Rubi.
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Lana Del Rey deu início aos trabalhos de seu próximo álbum, que tem o maravilhoso título de Did You Know That There’s a Tunnel Under Ocean Blvd, soltando uma faixa nova sem aviso prévio. “A&W” parece fazer alusão a uma rede de restaurantes, mas logo explica suas iniciais quando, no refrão, depois de citações à infância e à adolescência clama que a faixa é sobre “the experiеnce of being an american whore”. E num épico de sete minutos, ela mistura todas as referências que gosta num ousado exercício de concisão – são raros os momentos em que a dramática Lana Del Rey mistura suas baladaças conduzidas ao piano com beats eletrônicos e em “A&W” ela faz isso com maestria, dividindo a canção em dois atos: a primeira parte é uma ode trágica sobre os próprios erros e como superá-los, entrelaçando seus próprios vocais com teclas vigilantes, que a ajudam a cantar sobre o próprio corpo, a própria idade, estupro e chamar deus de charlatão, pesando o clima até mais da metade da canção, que é quando entram os beats. O clima vai ficando ainda mais tenso, com ruídos aleatórios criando um clima de pesadelo, que a própria Lana quebra assim que começa a rimar frases repetidas misturadas com o título de um hit esquecido de doo-wop “Shimmy Shimmy Ko-Ko Bop”. A música ganha ares de gangsta rap com uma ambiguidade trap que apenas complementa o começo da canção, em vez contradizê-la. E se a primeira música que ela mostra do disco é essa, imagina o que vem por aí… Não custa lembrar que o disco sai em março e ela tá vindo pro Brasil no fim de maio.
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O décimo sétimo álbum do Yo La Tengo, This Stupid World, lançado na semana passada, foi gravado em 2022 quando Ira Kaplan, Georgia Hubley e James McNew finalmente puderam voltar a ensaiar, tocar e compor juntos depois do período de isolamento pandêmico. O reencontro musical dos três no estúdio exprimiu a essência das qualidades dessa pedra fundamental do indie norte-americano, em que o trio equilibra doces baladas contemplativas e pilares de microfonia erguidos sobre uma base hipnótica sintetizando toda uma tradição roqueira nova-iorquina que começa no Velvet Underground, passa pelo Sonic Youth e Galaxie 500 e deságua na cena dos Strokes do começo do século. E no meio do transe interminável de faixas longas (como “Sinatra Drive Breakdown”, a faixa-título e “Miles Away”) e curtas (como “Until It Happens”, “Fallout”, “Tonight’s Episode”) as vozes dos três surgem como observadores desta longa tradição: o vocal mole e manhoso de Ira, o quieto e assertivo de Georgia e o quase vago de James, costurando canções que por vezes são delicadas como um dedilhado de violão (“Aselestine”) e outras explosivas como uma descarga elétrica (“Brain Capers” e a faixa-título), mas que na maioria das vezes unem essas duas facetas, neste que é o melhor disco da banda desde seu último clássico, And Then Nothing Turned Itself Inside-Out, lançado há exatos 22 anos. O que nos leva a uma zona de conforto muito específica, que parece ruidosa e áspera para quem ouve de fora, mas que conta com um calor humano que está no coração da obra da banda.
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Corre pra ver no cinema o documentário Andança – Os Encontros e as Memórias de Beth Carvalho, que pode parecer mais uma biografia levada à telona a partir de registros inéditos e depoimentos de compadres da artista (o que já seria ótimo), mas é muito mais do que isso. Logo de cara, somos apresentados a uma Beth Carvalho que não conhecíamos – uma pesquisadora e arquivista de tudo aquilo que lhe emocionava. O tempo todo munida de uma câmera de vídeo ou de um gravador portátil (quando não eram os dois ao mesmo tempo), ela se revela uma autobiógrafa consciente não apenas de sua importância mas do trabalho que faz como agente cultural de seu tempo. O documentário de Pedro Bronz deixa as convenções cronológicas em segundo plano para nos apresentar não só a carreira de uma intérprete ímpar de nossa música como a forma como sua cabeça e coração funcionavam a partir de seus próprios registros, boa parte deles em vídeo. E daí que são velhos VHS e gravações em baixa resolução de telejornais locais do Rio de Janeiro? A verdadeira alta definição está na forma como Beth chegava em seus objetos de estudo, que logo tornavam-se seus camaradas, no momento exato, ouvindo em primeira mão pérolas de Cartola e Nelson Cavaquinho e tirando a cena do bloco do Cacique de Ramos do literal fundo de quintal para a história fonográfica do país, apresentando ao resto do Rio de Janeiro – e depois para o Brasil – nomes como Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Jorge Aragão e várias outras lendas do samba, no momento em que eles floresciam. E ela não separava seu ativismo musical do político, batendo sempre em várias questões que são discutidas até hoje, além de estar presente em momentos decisivos da história do país – ao lado de personalidades que é melhor nem comentar para manter a surpresa. O filme ergue um pedestal para sua musa a partir das cenas, diálogos, versos, canções, rodas e shows que ela conseguiu presenciar e amplificar, mostrando que a importância de Beth Carvalho para a cultura brasileira ainda nem começou a ser medida. E prepare-se para chorar, porque é muita emoção.
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