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Com o fim do Carnaval, podemos finalmente comemorar o início de 2023, mas a cada ano que se passa o “adeus ano velho” também é um “olá você velho” e no segundo programa do ano, eu e Pablo Miyazawa nos dispusemos a falar sobre envelhecer no século 21 – e o quanto que este paradigma vem sendo quebrado à medida em que o tempo passa, tornando os velhos menos velhos com o passar do tempo e fazendo a gente repensar os limites da adolescência, da vida adulta e da dita melhor idade. Aproveitamos para falar sobre o Carnaval deste ano e do próprio Altos Massa (sempre assim), além de falar dos primeiros shows que vamos fazer com a nossa banda (como assim???? Pois é).

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Anna Vis lançou sua carreira fonográfica no dia em que fez o primeiro show desta nova fase, lançando seu disco de estreia, Como Um Bicho Vê, no palco do Sesc Vila Mariana exatamente no mesmo dia em que este viu a luz do dia. E, como o próprio disco, o show foi direto e convicto, com sua autora assumindo a força deste primeiro trabalho acompanhada da mesma dupla que a ajudou a transformar suas canções em fonograma – Marcelo Cabral e Maurício Takara -, que abriram seus respectivos baixo e bateria para que ela mostrasse suas composições desimpedidamente. Além da dupla, que também produziu o disco, ela ainda contou com a presença do diretor artístico deste trabalho, Romulo Fróes, que em vez de cantar a música que participa no final do álbum (a tensa “Moribundo”), preferiu cantar “Calada”, que leva a carrega o verso que batiza o disco – Anna retribuiu a participação puxando “Numa Cara Só”, de um dos discos que Romulo lançou ano passado, Aquele Nenhum. Mas o show era dela e mesmo com essas presenças ilustres, não baixou a cabeça e apresentou-se com a mesma firmeza do disco. Quase sem trocar palavras com o público, ainda intercalou as faixas com o longo poema “Sem Vacilação”, que, como no disco, espalhou pelo repertório – a diferença é que se, no disco,os pedaços do texto foram amparados pela colagem eletrônica do produtor carioca Mbé, no show Takara e Cabral improvisaram bases acústicas para que ela recitasse o texto, criando uma conversa dinâmica e ao mesmo tempo austera com suas canções incisivas e sensíveis.

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E começamos a programação de cinema do Centro da Terra em 2023 com o documentário Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista (2012) sobre a clássica casa de shows que mudou a cara da paisagem cultural da cidade de São Paulo – e, a longo prazo, do Brasil – na virada dos anos 70 para os anos 80. Palco de nomes como Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Premeditando o Breque, entre outros, o Lira é o objeto deste primeiro filme exibido no teatro do Sumaré em parceria com o festival In Edit Brasil. Sua exibição acontece nesta quarta-feira, às 20h, e será seguida de um bate-papo com o realizador do filme – e um dos agitadores da casa original – Riba de Castro. Os ingressos já estão à venda e quem comprar um ingresso também ganha o livro Lira Paulistana – Um Delírio de Porão. Nos vemos lá?

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Duas realidades sonoras se chocaram nesta terça-feira no Centro da Terra sob o signo do ruído. O duo paulistano Test (transformado em trio com a presença de Bernardo Pacheco, assumindo o baixo como convidado desta noite) convidou o quinteto paraibano Papangu para um encontro no palco que, a princípio, imaginei vir na linha dos outros encontros que já haviam realizado anteriormente, tocando coletivamente com o trio Rakta e o quarteto Deaf Kids, ambos daqui de São Paulo. Mas ao contrapor um universo musicalmente tão distinto quanto o do Papangu, o time paulistano preferiu alternar composições com o grupo da Paraíba. E enquanto o Test passeava pelo grindcore e speed metal com sua desenvoltura já tradicional – criando um volume grave de barulho que às vezes arrastava-se e outras disparava, o Papangu expandiu os tentáculos de seu metal pela música nordestina, sacando flauta, gaita e triângulo como contrapontos acústicos da massa sonora do grupo, e pelo rock progressivo, chegando ao extremo de reduzir o show a um piano acústico acompanhado do sax do convidado da banda, o francês Benoit Crauste. Com duas bandas no palco simultaneamente, era inevitável que o encontro vez por outra descambasse para o improviso, fazendo os sete músicos entrarem em combustão espontânea musical. Um soco sonoro, daqueles de tirar o fôlego.

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Quando dedicou-se a visitar o repertório clássico – no limite do clichê – da música brasileira reconhecida no exterior em seu Brazliian Songbook, Marcela Lucatelli despedaçou símbolos da MPB como uma forma de confronto estético, iconoclastia que inevitavelmente tem natureza política. Isso muito pelo fato de que o projeto foi gravado com músicos do país em que Marcela reside há anos, a Dinamarca, cuja visão de nossa sonoridade é muito específica (e também no limite do clichê). Mas quando ela arregimentou um timaço de músicos brasileiros para reviver esta premissa no palco do Centro da Terra, nesta segunda-feira, a abordagem foi para um outro patamar. Livre dos clichês que permeiam o álbum – o pianinho bucólico, o violão percussivo com acordes dissonantes, a bateria segurando o beat no aro da caixa -, ela partiu do improviso livre ao lado de quatro jovens mestres nesta arte, todos eles mais do que escolados na música brasileira, mas parte desta. Marcelo Cabral, Rodrigo Campos, Alana Ananias e Lello Bezerra criaram um conjunto abstrato de ruído que em poucos momentos resvalava no que se reconhecia como clássico da música brasileira, deixando a hiperbólica apresentação vocal e cênica de Marcela como fio condutor desta sonoridade. Ela disseca versos e frases musicais com um ataque musical entre a violência e o escárnio, enquanto sua performance cênica, solta naquela teia de ruído tão bem tramada (ainda que ao acaso), relê estas canções entre o encanto e a ironia. À frente daqueles quatro cientistas do som, transmutou seu Songbook em ouro puro.

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Confesso que não entendi nada quando vi Anna Vis tocando suas canções ao violão. Ainda estávamos no primeiro semestre da pandemia, quando caiu a ficha que não eram alguns dias ou semanas e que a peste ia durar meses, talvez anos. E esta tragédia, como sabemos, obrigou a todos que viviam de apresentações ao vivo passar por transformações que mexiam em suas atividades originais. E de repente lá estava Anna, que conhecia como técnica de som de shows, empunhando seu violão e dedilhando composições próprias como se sempre tivesse feito aquilo – longe de todos. Passei acompanhar mais de perto essa mudança de papel e aos poucos a vi se envolvendo com Rômulo Froes, chamando Marcelo Cabral e Maurício Takara para acompanhá-la na gravação de seu primeiro disco, que ainda contou com participações de Juçara Marçal, Ná Ozzetti, Mbé, Clima e Juliana Perdigão. E neste processo, não só pude conversar com a nova cantora e compositora sobre sua nova carreira, como a instiguei sobre como traduzir este novo trabalho para o palco. Seu disco de estreia, Como um Bicho Vê, será lançado nas plataformas na próxima quinta-feira, o mesmo dia em que faz o primeiro show deste álbum no Sesc Vila Mariana (os ingressos estavam quase acabando, corre que ainda dá pra comprar). E ela topou mostrar seu disco antes de seu lançamento em primeira mão aqui no Trabalho Sujo, este que é o primeiro grande lançamento brasileiro de 2023.

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Quando Damon Albarn passou com seu Gorillaz pelo Brasil há quase um ano, deu um jeito de puxar o MC Bin Laden para seu lado e aumentar o elenco de estrelar do próximo álbum de sei grupo de desenho animado. Lançado sexta passada, Cracker Island trazia um time considerável de participações especiais, do Thundercat até o Bad Bunny, passando pelo Beck, Tame Impala, Stevie Nicks, mas nada do MC brasileiro. Até que na edição Deluxe do disco, lançada apenas três dias após o lançamento, entre o remix de uma música e a versão ao piano de outra, surge “Controllah”, reggaton com o dedo na ferida que promete pesar pistas com seu beat delicioso e as rimas de MC paulistano, que ainda repete a sua risada de assinatura enquanto Albarn canta um refrão bucólico sobre “as ondas do Rio”.

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Em dois anos, o mestre João Donato comemora suas nove décadas de vida, quase oito delas dedicadas à música. O buda acreano é um dos mitos da criação da música contemporânea brasileira e já apresentava-se ao vivo no início da adolescência, antes de toda a geração que veio a influenciar – e criar a bossa nova – começasse a se envolver profissionalmente com música. E mesmo prestes a cruzar a barreira nonagenária, exibe a desenvoltura mágica que o consagrou décadas atrás, tão à vontade quanto em seus discos mais clássicos. Defendendo o ótimo Serotonina, que lançou no ano passado, numa apresentação que fez no teatro do Sesc Pinheiros neste domingo, ele fez piada com o nome do disco e celebrou todas as parcerias que fez neste trabalho ao apresentar cada uma delas (mencionando nominalmente seus novos parceiros – Maurício Pereira, Felipe Cordeiro, Rodrigo Amarante, Céu – no primeiro disco de faixas inéditas em 20 anos), mas quando começava a tocar, tornava-se pleno. Acompanhado de uma banda luxuosa e mínima – Fábio Sá no baixo elétrico, Sergio Machado na bateria, Anaïs Sylla nos vocais de apoio e Marcelo Monteiro, entre a flauta e o sax -, ele foi além do repertório do disco novo e visitou clássicos de outros tempos, como “Emoriô”, “Bananeira” e “Nasci para Bailar”, sempre à vontade com seu instrumento, sua voz e seus parceiros. Que sorte podermos conviver com um mestre destes.

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Por mais que o Brasil já tenha cantado suas canções em outras épocas, Joyce Moreno amadureceu como um segredo para iniciados na exuberante árvore genealógica da música brasileira, uma orquídea que abre-se cada vez mais que aguça-se os sentidos em sua direção. Sua discrição pessoal, o canto doce e a persona suave deixam suas melhores qualidades à distância do mercado massificador que transforma qualquer artista em um produto em promoção e nada melhor que uma apresentação ao vivo para reconhecer a força de sua arte, a reverência que faz a seus mestres e parceiros e seu vigor instrumental, seja no violão ou na voz.

Na segunda de suas apresentações no Sesc Belenzinho neste fim de semana, ela mostrou o disco que compôs durante a pandemia, Brasileiras Canções, que reconheceu ter um tom mais triste do que o que vivemos hoje e aproveitou este clima para mostrar “Chuva Sem Gal”, parceria que fez com Marcos Valle após a passagem Gal Costa, no ano passado, logo após tocar a “Mistérios” que deu ao segundo disco do Clube da Esquina e que gravou com a própria cantora em seu álbum Revendo Amigos, lançado há quase 30 anos.

Temperou a tristeza destes temas com versões desafiadoras de clássicos do cânone que ajudou a erguer, o da canção brasileira. Em seu violão Joyce desfila autores e intérpretes clássicos como João Gilberto, Tom Jobim, Elis Regina, Edu Lobo, Vinícius de Moraes e Baden Powell num rosário que praticamente resume sua formação e nossa memória afetiva: “O Morro Não Tem Vez”, “Águas de Março”, “É Preciso Perdoar”, “Berimbau/Consolação”, “Desafinado” e “Upa Neguinho”.

Acompanhada de um trio de tirar o fôlego, ela não fica pequena ao lado dos virtuoses discretos que a acompanham – o baixo de Rodolfo Stroeter, o piano de Tiago Costa e a bateria de Tutty Moreno, se entrelaçam com seu violão de acordes dissonantes e marcação precisa, ao mesmo tempo em que afia sua voz sem exibicionismo, seja desconstruindo a métrica das próprias canções ou abrindo vocais improvisados sobre clássicos de nosso cancioneiro.

Sua relação com o baterista marido é um espetáculo à parte: a troca de sorrisos e olhares entre este casal que está prestes a completar meio século de parceria musical e de vida é uma conversa tão fluida e deliciosa quanto a troca musical da cantora com este que é um dos pilares do edifício que chamamos de MPB (Tutty é baterista em obras fundamentais como Transa, Expresso 2222, Cantar, o disco de estreia de Jards Macalé, Sinal Fechado e Álibi, só pra citar as joias de sua coroa).

E como se não bastasse o gigantismo deste evento de jazz brasileiro, Joyce ainda reforça seu papel de cantora e mulher, em hinos pessoais como “Samba da Mulher”, “Essa Mulher”, “Mulheres do Brasil” e, claro, “Feminina”. Uma noite maravilhosa. Viva Joyce!

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Que maravilha a imersão que os Boogarins fizeram no Clube da Esquina nesta sexa-feira no Sesc Pompeia. Logo que puderam conversar com o público que lotou o teatro, os goianos fizeram questão de frisar que não estavam tocando o disco na íntegra e nem só músicas do clássico mineiro de 1972, mas que visitavam todo o universo musical ao redor daquele álbum, afirmando isso logo após o início do show, quando emendaram “Fé Cega, Faca Amolada” com “Paula e Bebeto”, ambas do disco Minas, que Milton Nascimento lançou em 1975. E assim o disco percorreu as inevitáveis “O Trem Azul”, “Trem de Doido” e “Nada Será Como Antes” (que terminou com um aceno ao Tame Impala) e faixas de discos clássicos de Beto Guedes (a imortal “Amor de Índio”, faixa-título do disco do guitarrista de 1978, cantada pelo baixista Fefel), de Lô Borges (“Vento de Maio”, do soberbo A Via Láctea, de 1979) e até da espetacular joia secreta que é o disco Beto Guedes, Toninho Horta, Danilo Caymmi, Novelli, gravado pelos quatro músicos que o batizam, em 1973. Este último foi contemplado em dois momentos (“Serra do Mar” e “Ponta Negra”, mas faltou “Manoel, O Audaz”) e os dois vocalistas e guitarristas da banda, Dinho Almeida e Benke Ferraz, o reverenciaram como um disco central na formação da banda, citando-o praticamente como um disco dos Boogarins antes da banda existir, traçando a conexão psicodélica entre o Goiás do grupo e a Minas Gerais do Clube. O show ainda contemplou a mesma “Saídas e Bandeiras” que sentenciou esta conexão quando o grupo a tocou ao vivo no encontro com O Terno em junho de 2015 e terminou de forma épica, com a clássica “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo”, mexendo com corações e mentes de todos os presentes. Foi bonito demais e tem que voltar a acontecer com mais frequência – porque mais do que um show de tributo a um momento histórico da música brasileira, ele expõe as raízes do grupo de uma forma tão natural que torna claro o DNA musical dos goianos.

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