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Só a notícia que existe um disco novo inédito dos Tincoãs que nunca foi lançado já seria suficiente para segurar o fôlego de qualquer um que goste de música. Mas não para por aí: esse disco, engavetado há quarenta anos, finalmente verá a luz do dia, trazendo Dadinho (violão), Mateus Aleluia (atabaques) e Badu (agogô e ganzá) acompanhados do Coral dos Correios e Telégrafos do Rio de Janeiro, um projeto que foi idealizado pelo produtor Adelzon Alves, que trabalhava com o grupo. O primeiro aperitivo de Canto Coral Afrobrasileiro, que será lançado ainda este semestre, é o single “Oiá Pepê Oiá Bá”, que chega às plataformas digitais nesta quinta-feira, mas já dá pra sentir um gostinho em primeira mão aqui no Trabalho Sujo.

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Desafio vencido

Que maravilha a estreia do Guaxe ao vivo. A dupla formada por um boogarin e um supercorda finalmente debutou nos palcos depois de quase dez anos de parceria – Dinho e Bonifrate começaram a compor desde o primeiro dia em que se conheceram, em 2015, e lentamente seguiram maturando composições entre a guitarra do goiano e a viola do paratiense até que elas tomaram forma no ano anterior à pandemia e o encontro no palco foi suspenso pelos motivos que conhecemos. Este primeiro reconhecimento finalmente aconteceu nesta terça, quando Bonifrate disparava bases eletrônicas num Casiotone – ou simplesmente fazia o teclado cantarolar uma melodia – para que seus instrumentos de corda e suas vozes se encontrassem num ponto perfeito entre a desconfiança caipira e a ingenuidade lo-fi, num show memorável que terminou com os dois reverenciando Spacemen 3, numa versão para “The Sound of Confusion”. Lindaço.

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Tanto eu quanto André Graciotti fomos impactados pelo quarto capítulo da série John Wick, o ápice de uma fórmula desenvolvida em vários filmes pelo dublê de ação Chad Stahelski, que assumiu a direção de um filme apenas para escrever esta franquia. Com Keanu Reeves no papel do matador de aluguel do título, o diretor foi moldando um formato de filme de ação que começou a desenvolver quando trabalhou na trilogia original Matrix e atingiu a perfeição neste filme mais recente, esmerilhando em cenas impecáveis com um elenco de cair o queixo. Foi a deixa para elegermos mais um novo clássico e falarmos sobre a má reputação que o cinema de ação tem na história do cinema, algo que já se abateu sobre a ficção científica e o cinema de horror mas que ainda persiste, mesmo que seja uma das espinhas dorsais da sétima arte.

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Jadsa escolheu a canção como fio da meada da primeira noite de sua temporada no Centro da Terra e convidou o conterrâneo e contemporâneo Giovani Cidreira para cair no Big Buraco que vai tomar conta das segundas-feiras no palco mais ousado do Sumaré. Juntos e acompanhados apenas de seus instrumentos – Jadsa na guitarra e Giovani ao violão -, os dois foram do céu ao inferno entrelaçando vozes e instrumentos em canções cruas que eram distorcidas pelos efeitos de Felipe Galli, que fez timbres e ecos dar novas dimensões a um encontro tão afetivo e importante. E pensar que foi só a primeira noite…

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De volta ao desvio

Só o fato do Ira! resolver visitar seu disco mais ousado 35 anos depois de seu lançamento já seria motivo para comemoração. O mitológico Psicoacústica, lançado 12 anos antes do fim do século passado, reúne uma série de qualidades que o tornam único, tanto na discografia da banda quanto na história da safra de bandas que surgiu naquela década: além de ser o primeiro disco produzido por uma banda e praticamente não trazer nenhum refrão (como o vocalista Nasi fez questão de frisar), ainda ampliou o leque artístico e conceitual daquele final de década, antecipando inovações que seus pares de geração só iriam experimentar nos anos seguintes, como fariam os Paralamas em seu Os Grãos, os Titãs com seu Õ Blésq Blom e o Legião com seu V. E neste sábado o grupo colocou esse plano em prática no Teatro Bradesco, em São Paulo.

Seguindo uma trilha aberta pelos Paralamas em seu Selvagem?, o Ira! flertava com a embolada e com o rap (“Advogado do Diabo”, que ecoou no Recife pré-mangue beat) ao mesmo tempo em que questionava sua própria natureza rock, mas chocava-se com o astral do trio formado no Rio ao desbravar um pessimismo que tirava o país do oba-oba do chamado “rock de bermudas” que havia dado as cartas da música pop daquele período. Flertando com o cinema marginal (sampleando O Bandido da Luz Vermelha em “Rubro Zorro”) e a poesia moçambicana (mesmo que sem saber disso, em “Receita para Se Fazer um Herói”), Psicoacústica puxava o tom pessimista que começava a pairar sobre o país à medida em que afundávamos na ressaca da tragédia que foi a ditadura militar iniciada em 1964, enquanto Scandurra cantava sua busca por “outros sons, outras batidas, outras pulsações” em um hard rock chamada “Farto do Rock’n’Roll”. Ao vivo e num país arrasado pela pandemia e pela extrema direita, aquelas canções ganhavam novas dimensões – e como é bom ver o grupo deslizando num delírio anticomercial do passado que consolidou sua aura depois de emplacar vários hits no rádio com os discos anteriores.

Claro que as oito faixas deste terceiro disco não corresponderiam ao total do show e o grupo foi esperto ao passear por clássicos inevitáveis (“Dias de Luta”, “Envelheço na Cidade”, “Flores em Você”, uma bem-vinda “Tarde Vazia” e “Núcleo-Base”, que encerrou a noite) quanto por músicas de outro período além dos anos 80 (tocando “Flerte Fatal”, “Vida Passageira”, “O Amor Também Faz Errar”, “O Girassol” e “Eu Quero Sempre Mais”), além de visitar clássicos do rock como se fizesse questão de mostrar suas patentes – uma inesperada versão para a faixa que batiza o grupo Black Sabbath, a versão que o grupo fez para “Train in Vain” do Clash (que virou “Pra Ficar Comigo”) e “Purple Haze” de Jimi Hendrix seguida de “Surfin’ Bird” dos Trashmen.

Nasi, de bom humor, apontava para o público, cumprimentava quem estava na primeira fila, deu autógrafo e jogou uma camiseta para o público, enquanto Scandurra esmerilha cada vez mais seu instrumento, provando-se um dos maiores guitarristas de rock do Brasil. A dupla icônica, únicos remanescentes da formação clássica da banda, era acompanhava pelo fiel escudeiro Johnny Boy (no baixo) e Evaristo Pádua (na bateria), ambos cientes que estão tocando num grupo clássico – e fazendo jus a essa reputação. E ao abrir mão de sucessos como “Tolices”, “Vitrine Viva”, “Pobre Paulista”, “Gritos na Multidão” e “Longe de Tudo” para sair dos anos 80, seja tocando sua obra mais recente quanto celebrando ícones do passado, o Ira! mostrou que ainda faz sentido em 2023, principalmente à luz da semente que plantaram 35 anos atrás.

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O mineiro tornado capixaba sentiu o impacto do mar. Juliano Gauche refugiou-se no litoral do Espírito Santo logo no início da pandemia, onde passou boa parte da quarentena e perdeu pessoas queridas – entre elas, seu próprio pai -, quando abriu seu inconsciente para conectar-se com o que estava acontecendo. Compôs uma série de canções neste período e separou algumas delas para exorcizar estas sensações no disco Tenho Acordado Dentro dos Sonhos, que acabou de lançar. Conversei com ele sobre este processo e como ele tem se envolvido cada vez mais com espiritismo e sonhos lúcidos e como isso dialoga com sua criatividade e… com o mar.

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(Foto: Rayssa Lima/Divulgação)

A história já se arrasta há um tempo: Yma e Jadsa estão fazendo um disco juntas! Há uns dois anos a parceria entre a paulista e a baiana se firmou, foi para o estúdio, e aguarda lentamente – como é de praxe na carreira das duas – o momento certo para aparecer. E eis que Zelena – o nome do EP de seis faixas que firma o compromisso artístico das duas – começa a dar as caras no fim deste mês, quando, nessa sexta-feira, será lançada a primeira faixa da colaboração, “Meredith Monk”, que pode ser ouvida em primeira mão no Trabalho Sujo.

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Até furar!

Em quase duas horas de apresentação, Mestre Nico conseguiu até furar seu próprio tambor, de tamanha empolgação. “É a primeira vez que isso acontece!”, disse, surpreso, quase no fim de sua segunda apresentação no Centro da Terra, quando mostrou seu espetáculo De Andada no Tempo. Mais uma vez à frente de seu Balanço da Manipueira (com Thalita Gava, Rafaella Nepomuceno e Júnior Kaboco), ele puxou o fio da meada de sua trajetória outra vez com os compadres BB Jupteriano, Lello Bezerra, Edinho Almeida e a flautista belga Fiona Kelly, que fez uma performance durante a apresentação.

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Em nome de Vadico

Deslumbrante a última apresentação da temporada de Ná Ozzetti no Centro da Terra, quando ela se juntou ao violonista e pesquisador Franco Galvão para debruçar-se – e deslizar – sobre a obra de Oswaldo Gogliano, que todos conhecemos por Vadico. Eterno parceiro de Noel Rosa, Vadico é objeto de estudo de Galvão, que está prestes a gravar um disco triplo dedicado ao legado do mestre sambista, incluindo versões para arranjos que o autor escreveu quando estava em turnê pelos Estados Unidos com Carmen Miranda. O espetáculo de voz e violão foi concebido e arranjado pelo violonista, que também abriu um site dedicado ao mestre (vadicogogliano.com/), e passeava por diferentes facetas do compositor, todas conduzidas pela voz angelical de Ná, que aproveitou algumas canções para continuar dançando, atividade que vem desfilando em sua conta no Instagram e que materializou-se no palco nesta temporada do Centro da Terra. Siga a dança, Ná!

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Em mais um episódio do programa que faço com Tomaz Paoliello sobre política internacional, desta vez escolhemos falar sobre o momento em que as forças armadas passam a circular entre a sociedade civil e surge a figura do policial. Criada no final do século 19 como uma forma de conter problemas que surgiam com o crescimento das grandes cidades, a polícia entra na rotina do século passado como uma espécie de agente comunitário mais do que repressor, mas a forma como um novo imperialismo criou novos antagonistas para justificar o uso da violência para com a parte mais baixa da pirâmide social transformou esta força civil em militar começou a impor o clima das guerras à urbanidade. E discutimos, claro, o caso específico brasileiro, que, para variar, tem uma história bem específica em relação ao tema.

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