
Redondinho os shows que os Pelados fizeram neste fim de semana no Sesc Avenida Paulista. Tocando na ordem e na íntegra seu disco mais recente, o sensacional Foi Mal, o quinteto paulistano entregou-se ao delírio idílico indie encapsulado no disco do ano passado, mostrando todas as cores de pérolas como “Coquinha Gelada After Sex”, “A Linha Tênue Entre Gostar e Não Gostar”, “Foda Que Ela Era Linda”, “Julho de 2015”, “Música de Término” e “Yo La Tengo na Casa do Mancha”, tocadas com o entrosamento típico de uma banda de garagem: Manu Julian completamente entregue à canção, Vicente Tassara deixando baixar a vibe de guitar hero anos 90, enquanto a bateria e o baixo de Theo Cecato e Helena Cruz estavam completamente sintonizados, temperados pelos timbres retrô do moog Lauiz Orgânico. Entre piadas infames e diversos pedidos de desculpas que ecoavam o nome do disco, o quinteto foi acompanhado pelo guitarrista Thales Castanheira, aumentando o volume e a parede de microfonia, sem que isso tirasse a doçura e a complexidade de canções-chave. Entre as faixas do disco (incluindo uma versão Pixies para “Ser Solteiro é Legal!!!”), eles ainda tocaram uma música do disco anterior, uma versão para uma música do disco solo de Lauiz e uma inédita, aos poucos apontando os próximos passos. Com pouca conversa entre as músicas – papo que quase sempre ficou a cargo seu humor larrydavidiano do tecladista Lauiz e -, o grupo mostrou que está cada vez mais coeso musicalmente, funcionando como um mesmo organismo com a pressão e ruído necessários (e consequentes leveza e melodia) para uma banda de sua estirpe. Fico imaginando essa apresentação num inferninho…
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Estava devendo essa conversa com a Sara Não Tem Nome há um tempo, desde antes de seu disco mais recente, A Situação, ter sido lançado. Sempre conversei com ela sobre seu processo criativo depois do ótimo Ômega 3 e tentamos algumas vezes gravar esse papo para o meu programa sobre música brasileira Tudo Tanto. Só conseguimos nos acertar depois do disco ter sido lançado – e ela fala sobre a conclusão deste processo e como isso se deu durante o período pandêmico e num governo de extrema-direita. Ela também aproveita para falar sobre seu mestrado, sobre mulheres multiartistas, e como isso influenciou este seu trabalho.
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ALERTA DE SPOILER sobre o show do Cidadão Instigado tocando o Dark Side of the Moon do Pink Floyd na íntegra que o grupo está apresentando nessa sexta e sábado no Sesc Ipiranga.
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Nesta quinta-feira teve mais um show solo da Sophia Chablau, mas antes de comentar sobre a apresentação, queria dar os parabéns ao novo Bona. A intimista casa de Pinheiros mudou de endereço e de proporção devido à especulação imobiliária e por mais que as novas instalações (120 pessoas sentadas, com direito a mezanino e um pé direito gigante) pareçam dar outra escala para a aura original, o casal Manu e Kiko conseguiu manter a aura original, que vai desde a luz indireta à decoração do palco, que agora tem dezenas de metros de largura, mas ainda mantém-se próximo. Longa vida ao novo Bona, que ajuda a minha vizinhança a ficar ainda melhor. Sophia foi a segunda atração desta nova fase da casa e cantou várias músicas que está compondo em sua recente carreira solo ao mesmo tempo em que não abandonou parte do repertório que apresenta com sua banda, a Enorme Perda de Tempo. E por mais que tenha feito todo o show praticamente sozinha, ela trouxe participações que levaram o show para outra dimensão, a começar pela participação do pai Fabio Tagliaferri, passando pela improvável (e deliciosa) dupla com Bebé Salvego, que inclusive tocou uma música inédita de seu próximo disco e um hit do Negro Leo, e por Ana Frango Elétrico, que produziu o primeiro disco da banda de Sophia, transformando uma apresentação solitária numa imensa demonstração pública de afeto.
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A vida é feita de pequenas coisas importantes. Quando os Pelados me mostraram seu Foi Mal antes de lançá-lo no ano passado, fui curtindo o disco a cada faixa que passava, até que, quase no fim, um épico doce e noise sobre a instabilidade dos relacionamentos nos anos 20 ultrapassava os sete minutos e me tragou de tal forma que eu poderia passar outros tantos sete minutos nessa canção, tanto que foi a música que mais ouvi em 2022. O título da faixa, “Yo La Tengo na Casa do Mancha”, lidava exatamente essas com duas sensações, de que talvez algo muito importante não necessariamente precisasse parecer dessa forma, criando a possibilidade de assistir a uma das principais bandas indies do mundo ao vivo em uma das principais casas noturnas de São Paulo no início do século. Nada improvável, nada impossível, mas que tornava-se factível a partir do momento em que era pensado, o tal encantamento que começa quando a imaginação cogita algo. E quando vi que o grupo ia ensaiar para os dois shows que vão fazer neste fim de semana no Sesc Av. Paulista na atual casa do Mancha, não pude perder a poesia deste pequeno momento importante. Tá certo que não é “a” Casa do Mancha que tanto nos ensinou (na marra) sobre música, comportamento e cultura em seus 13 anos de vida, mas é a casa em que o próprio Mancha mora atualmente e a sensação de profecia autorrealizável pairava no ar. Não, os Pelados não são o Yo La Tengo nem aquela casa de dois andares em Pinheiros não chega perto daquele imóvel quase na esquina da rua Filipe de Alcaçova na Vila Madalena, mas saber viver estes momentos é o que torna tudo… mágico.
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Maravilha o show que Cacá Machado fez nesta quarta-feira no auditório do Sesc Pinheiros, dando continuidade ao trabalho que vinha fazendo com a banda formada no ano passado (e que banda! Allen Alencar na guitarra, Marcelo Cabral no baixo e Richard Ribeiro na bateria) ao mesmo tempo em que unia forças à voz da cantora Anaïs Sylla. Equilibrando o repertório de seus dois discos com composições recentes, a apresentação tomou o clássico de Paulinho da Viola “Roendo as Unhas” como ponto de partida, experimentando possibilidades improváveis a partir de uma base tradicional de música brasileira. Ao redor de Cacá, o trio de músicos explorava possibilidades entre o ruído e a melodia, Allen fazendo sua guitarra rugir ou gorjear dependendo da situação, Cabral entre o baixo elétrico, o synth bass e alguns pedais para distorcer bases nada previsíveis e Richard passeando pelas peças da bateria com pulso firme ou mão leve, de acordo com o clima que a música exigia, enquanto Cacá tocava uma guitarra elétrica em vez do sempre presente violão de nylon, deixando boa parte dos vocais a cargo da voz doce e sinuosa de Anaïs. Foi minha estreia na direção artística com o músico e compositor paulistano e um show em que palpitei pouco justamente para valorizar a base que Cacá já vinha armando desde que voltamos à vida nos palcos.
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Mais uma quarta-feira de cinema no Centro da Terra, graças à parceria que fechamos com o festival In Edit. E o documentário que será exibido nesta quarta-feira, a partir das 20h, conta a saga de um dos maiores nomes da música paulistana, a encarnação definitiva de seu samba, Adoniran Barbosa, cuja personalidade é deschavada por Pedro Serrano no ótimo Adoniran – Meu Nome É João Rubinato, de 2018. O filme começa a ser exibido a partir das 20h, os ingressos podem ser comprados neste link e o trailer pode ser visto abaixo.
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Uma hora doce e delicada – foi a isso que o trio formado pela dupla carioca Meiabanda e a cantora sergipana Tori proporcionaram na primeira apresentação deste maio no Centro da Terra. Os três optaram por uma apresentação minimalista, em que o guitarrista e produtor Eduardo Manso apenas disparava bases pré-gravadas levemente manipuladas ao fundo para que Tori e Bruno Di Lullo se revezassem ao violão, quase sempre cantando em uníssono, acentuando as distâncias entre seus timbres ao mesmo tempo em que alinhavam os próprios repertório como se sempre tivessem tocados juntos. No meio do show, Ava Rocha surgiu para cumprimentar os velhos parceiros e a cantora novata com suas canções – ela começou com “Doce é o Amor”, passou por “Mar ao Fundo”, “Joana Dark” e terminou num bis improvisado em que Ava puxou Bruno para cantar “Periférica”, de seu último disco, apenas os dois ao violão. Foi demais.
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Acompanho os Pelados desde antes da pandemia, quando estavam começando a programar os primeiros shows de seu terceiro disco ainda não lançado, o primeiro sem o nome original da banda, Pelados Escrotos. Sem poder lançar o disco formalmente, a banda passou por uma transformação radical durante este período, negando a natureza clean e correta do disco Sozinhos, de 2020, quando se enfurnou no estúdio caseiro Orgânico (do tecladista Lauiz) para, em dez dias, compor e gravar um disco na contramão do que se espera de uma gravação profissional, lançando o excelente Foi Mal, meu disco nacional favorito do ano passado. O minidocumentário 2 e 2 são 5, feito pela produtora Tuqui Filmes a partir de registros caseiros que a banda fez durante a gravação, flagra o processo a que o grupo se submeteu e estreia em primeira mão aqui no Trabalho Sujo.
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Consagrando o lançamento do disco ao vivo Relicário, registro da inauguração do Sesc Vila Mariana quando João Gilberto começou os trabalhos do hoje clássico equipamento cultural há vinte e cinco anos, a apresentação Rei Sem Coroa reuniu súditos de todas as gerações da música brasileira para reverenciar nosso maior artista e pude assistir à sua terceira e última apresentação neste primeiro dia de maio. Um quinteto formado por Joyce Moreno, Alaíde Costa, Dori Caymmi, Renato Braz e Vanessa Moreno saudou o repertório clássico do pai nosso da música brasileira moderna com as condições perfeitas de temperatura e pressão – o público imóvel e em silêncio deixando lágrimas rolarem no escuro enquanto músicos e intérpretes revezaram-se no palco em formações mínimas, sempre lustrando o formato que João escolheu para sua música – somente voz e violão. Entre as canções, várias histórias e lembranças, com Alaíde lembrando do tempo em que tudo era chamado de “bossa nova” pois o nome do gênero ainda era associado a um modismo passageiro, Joyce citando testemunhas que viram João sapatear – e bem! – e Dori fazendo a conexão de seu pai Dorival com nosso mestre.
A novata do grupo Vanessa Moreno abriu a noite com três orações obrigatórias deste rosário – “Corcovado”, “Samba de Uma Nota Só” e “O Pato” -, deixando sua doce voz solar equilibrando solenidade e carinho. Renato Braz pegou o violão na canção seguinte, a imortal “Bahia com H”, dividindo os vocais com Vanessa, que percutia a batida nostálgica em seu próprio corpo. Braz seguiu com “Pra Que Discutir Com Madame?” tocando apenas com um tamborim e prosseguiu com a faixa que batiza o espetáculo, “Rei Sem Coroa”, pérola de Herivelto Martins que finalmente ganhou registro oficial de João Gilberto com o lançamento de Relicário, emendando-a com “Eu Vim da Bahia”, de um dos principais pupilos dele, Gilberto Gil. Depois Braz recebeu Alaíde Costa, uma imortal da canção, que começou sua participação dividindo “Caminhos Cruzados” (de Tom Jobim e Newton Mendonça), para depois seguir ao lado de Joyce Moreno, que trocou de lugar com Renato, para dois duetos fabulosos: “Nova Ilusão” e “Retrato em Branco e Preto” (de Chico Buarque e Tom Jobim).
Depois Joyce seguiu sozinha e deslumbrante como sempre com “Desafinado” e “Águas de Março”, convidando Dori Caymmi para dividir uma mistura impecável de “Esse Seu Olhar” com “Só em Teus Braços” seguida de “Aos Pés da Cruz”. Dori teve seu momento solo cantando “Rosa Morena” de seu pai (quando improvisou a letra para avisar ao assistente de palco que a correia de seu violão havia escapulido) e “Bolinha de Papel”, até que Renato e Vanessa voltaram para cantar “Doralice” (também de Dorival). O final trouxe três faixas fora do roteiro: “Saudades da Bahia”, com os cinco no palco, “Dindi” (apenas Dori e Alaíde, numa versão maravilhosa, que abriu o bis) e “Chega de Saudade”, que encerrou a uma noite de reverência ao maior nome de nossa cultura que, como Joyce lembrou, ousou imaginar um Brasil moderno: “João pra mim ainda hoje é um Brasil possível, um sonho de Brasil, um Brasil que deveria ter sido e que algum dia será”.
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