
O Oscar é um jogo de cartas marcadas, a voz da indústria e é bem provável que seus filmes e cineastas favoritos nunca foram agraciados com a estatueta, mas a premiação tem seus momentos, como este discurso do inglês Jonathan Glazer, autor do excelente Zona de Interesse, que ganhou o prêmio de melhor filme estrangeiro. Pra mim é o melhor filme da temporada e não apenas por mostrar a Segunda Guerra Mundial de um ponto de vista apenas sonoramente explícito ou por sua visão de vídeo-arte para um assunto tão delicado, mas mais especificamente por usar o Holocausto para metáfora para outros tempos, inclusive agora. E isso não diz respeito apenas ao genocídio em Gaza ou à ascensão do neonazismo, como o diretor fez questão de frisar em seu discurso, mas sobre todos nós que vivemos no conforto de nossos lares, vizinhos de torturas, tragédias, massacres e todo tipo de violência, fingindo que não perguntamos se aquele escapamento que estourou na rua não pode ser um tiro – esteja você em qualquer lugar do planeta. Se há um filme para ser visto atualmente, este é Zona de Interesse.
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As divas Kylie Minogue e Madonna dividiram o palco pela primeira vez quando a primeira participou do show que a segunda fez em Miami nesta quinta-feira. Além de cantar juntas o refrão de “Can’t Get You Outta My Head”, as duas ainda uniram vozes para cantar o hino de Gloria Gaynor “I Will Survive”. Bonito.
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Faz quase um mês que o Air está circulando a Europa tocando a versão ao vivo para seu disco de estreia, o perfeito Moon Safari, mas nesta quinta-feira a dupla formada por Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel tocou no Olympia, clássica sala de shows de sua cidade-natal, Paris, e uma boa alma registrou a íntegra do show com sua camerinha… E que viagem que foi isso, porque além de todo o disco que está completando 25 anos, eles ainda tocaram um bis com músicas dos discos Walkie Talkie e 10,000 Hz Legend, além da hipnótica “Highschool Lover”, da trilha do filme Virgens Suicidas. S’il te plaît, viens au Brésil!
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E depois de muita espera, Stop Making Sense, o filme dos Talking Heads que a A24 restaurou e distribuiu nos cinemas chega às salas brasileiras. As sessões acontecem neste mês, a princípio apenas no dia 9, mas como os ingressos se esgotaram muito rápido, foram abertas novas sessões nos dias 27 (22h) e 31 (16h), no IMS de São Paulo, e no dia 27 (20h) no Estação Net Botafogo do Rio de Janeiro. Os ingressos para as novas sessões começam a ser vendidos neste sábado, dia 9, apenas pelo site Ingresso.com. Continue

Por motivos de Centro da Terra não consegui ver o show do Bikini Kill desde o começo, mas que bordoada! A banda parece ter saído direto dos anos 90 de tão intacta que está – desde o vigor das músicas ao timbre de voz de Kathleen Hanna até a presença de palco de todas as instrumentistas. Claro que todos os olhos se firmam na sacerdotisa hipnótica do rock enquanto mulher, mas o resto da banda – a baterista Tobi Vail, que por vezes assumiu o vocal, a estonteante baixista Kathi Wilcox e a virulência da guitarra de Sara Landeau (única integrante que não fazia parte da formação original) – faz jus à reputação de grupo, de gangue, expandindo sua coletividade para o resto do público, grande parte dele formado por fãs extasiadas por estarem realizando o sonho de uma vida. O primeiro show do Bikini Kill no Brasil não só foi pautado pelo lema da banda – garotas na frente, gritado em inglês pelas fãs o tempo todo – quanto pelos sermões puxados por Hanna, falando sobre gênero, dando esporro nos caras que poderiam estar ameaçando quem não fosse homem, rindo com as fãs ao lembrar histórias da banda e feliz por estar tocando a primeira vez no país, enquanto as quatro desciam a lenha de forma simples e sem rodeios, colocando o dedo na tomada por nós, pecadores. O Áudio estava lotado como eu não via há muito tempo (e cheio de gente conhecida) e esse é outro grande feito da noite: um evento independente, bancado por duas pequenas forças da cena que tornaram essa noite possível: a Associação Cecília e o Girls Rock Camp. Uma noite histórica.
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A casa cheia nesta terça-feira foi conduzida para outras dimensões a partir do violão e do alaúde de Juliano Abramovay. Sua pesquisa musical que contempla a mescla entre música brasileira e músicas do leste do Mediterrâneo no espetáculo Amazonon teve diferentes nuances a partir dos músicos convidados. Seja sozinho no palco ou com alguns de seus parceiros, ele ia modelando o clima da noite à medida em que recebia novos instrumentistas no palco, seja a excelente cozinha formada pelo baixista Ricardo Zoyo e o baterista João Fideles, o clarinete hipnótico de João Barisbe (com quem gravou o disco Aló no ano passado), a voz transcendental de Yantó, os sopros do catalão Oscar Antoli (que revezou-se entre o clarinete e o balcânico kaval) e, meu momento favorito da noite, o cello e a voz da holandesa Chieko. A condução de Juliano, que pontuava ocasionalmente as peças instrumentais (parte de sua autoria, parte alheia), esbarrava em sua natureza de professor de conservatório, dando uma dimensão ainda maior à viagem no tempo e espeço que proporcionou aos presentes.
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Delicada e didática, Luiza Brina começou sua temporada Aprendendo a Rezar no Centro da Terra nesta primeira segunda de março explicando tanto o conceito de seu próximo disco, Prece, que disse que sairá ainda no mês que vem, gravado com uma orquestra composta por 22 mulheres, quanto da própria ideia que faz para o conceito de oração, título de cada uma das vinte faixas que comporão o novo trabalho. Para a primeira noite, veio sozinha para o palco, de violão e peito abertos, para demonstrar músicas de outros autores que lhe fazem as vezes de conexão com o sublime, uma vez que, a princípio sem religião, entendeu que sua crença está na própria música. Assim, ela passeou por canções de ídolos nacionais (como Seu Humberto do Maracanã, Vander Lee, Caetano Veloso, Alzira E e versões deslumbrantes para “Estrela” e “Eu Preciso Aprender a Só Ser” de Gilberto Gil) e latino-americanos (como Edgardo Cardozo, Jorge Drexler e Silvana Estrada), além de cumprimentar seus contemporâneos como Luiza Lian, Luizga, Flávio Tris e Castello Branco (que vai passar pela temporada) para demonstrar o que quer dizer quando chama uma canção de prece. Foi bem bonito.
#luizabrinanocentrodaterra #luizabrina #centrodaterra2024 #trabalhosujo2024shows 30
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Cada apresentação de seu Mateus Aleluia é um convite à reflexão – e não foi diferente neste domingo, quando apresentou-se pela segunda vez no fim de semana na Casa Natura Musical. Com sua fala mansa e pausada e seu timbre de voz grave e profundo, ele conduziu a apresentação com seu violão ao lado do percussionista Day Brown, o contrabaixista Alexandre Vieira e o flautista Rodrigo Sestrem, cada um deles temperando com seu instrumento a elegia do mestre baiano. Aleluia costurava uma filosofia ecumènica (de saudações a entidades afrobrasileiras até à celebração judaica “Hava Nagilla”) com suas canções atemporais, da ancestral “Deixa a Gira Girar”, imortalizada por seus Tincoãs, com a qual abriu o show, à “Fogueira Doce”, faixa-título de um de seus discos mais recentes. Por toda a apresentação, ele temperava esse percurso com uma pregação existencial que por vezes incitava o público à dança ou à celebração e por outras emudecia todos os presentes ao fazer verter lágrimas em uma missa humanista. “Toda a cultura vem de um culto”, comentou ao frisar o quanto estávamos em pleno trabalho espiritual travestido como show de música. Ver seu Mateus ao vivo é sempre uma experiência transcendental e uma bênção plena. Aleluia!
#mateusaleluia #casanaturamusical #trabalhosujo2024shows 29
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Foi excelente o show que o King Krule fez em São Paulo neste sábado. O jeito displicente e quase tímido que Archy Marshall se aproxima do microfone disfarça um maestro de melodia e ruído que usa sua guitarra como batuta, conduzindo sua banda entre o transe e a catarse, para delírio do público que lotou o improvável Terra SP. O grupo, composto de baixo, bateria, guitarra, teclado e sax, preenchia silêncios com camadas de microfonias e golpes de barulho, permitindo que as canções do inglês ganhassem uma profundidade ainda mais complexa que nos discos. E nisso a cumplicidade com o público, que conhecia todas as músicas e cantou quase todas as letras junto, era essencial. Show de rock sem os vícios do gênero e abrindo para inesperadas massas amorfas de eletricidade sonora que misturava improviso jazz, explosão noise, melancolia indie, letras balbuciadas como rap e melodias acridoces, acalentadas por uma pequena multidão – e como tinha gente conhecida entre aquelas milhares de pessoas. Talvez o único ponto negativo do show tenha sido o local, que ao menos não comprometeu o som da apresentação. Mas o Terra SP, além de ficar em Ohio (Ohio que o parta, tenho que manter vivo o humor infame que meus pais me passaram – a casa fica a 20 quilômetros do centro de São Paulo), comprometia a visão da audiência mesmo tendo espaço de sobra. O lugar é uma espécie de Áudio quadrado misturado com um Espaço das Américas de menor lotação e, com dois mezaninos, teoricamente teria ótimas opções para se assistir ao show. Mas duas pilastras no meio da casa criava bolsões vazios nos três andares atrás destas, que impediam o público de ver o palco e obrigando a acotovelar-se ao lado de espaços vazios para conseguir ver toda a banda. Mas, como comentei, isso felizmente não comprometeu a apresentação e marcou mais um golaço na trajetória da Balaclava Records, que ainda aproveitou para tirar sua onda ao anunciar, discretamente, que irá trazer o Tortoise tocando seu disco TNT no Brasil esse ano.
#kingkrule #balaclavarecords #terrasp #trabalhosujo2024shows 28
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Se estivesse vivo, Lou Reed, que perdemos há pouco mais de uma década, completaria 82 anos neste sábado e a gravadora norte-americana Light in the Attic (uma das melhores do ramo, atualmente) acaba de anunciar um tributo ao bardo de Nova York. The Power of the Heart: A Tribute to Lou Reed, que será lançado dia 19 de abril, reúne fãs de todas as idades do fundador do Velvet Underground, gente como Joan Jett, Rufus Wainwright, Lucinda Williams, Angel Olsen, Rickie Lee Jones, Afghan Whigs, Rosanne Cash, entre outros. E a faixa escolhida para começar este tributo foi um dos pilares de sua discografia, “I’m Waiting for the Man”, do primeiro disco do Velvet, cantada por ninguém menos que Keith Richards, numa versão fulminante para o clássico sobre comprar drogas, veja abaixo, junto com a capa do disco e a ordem das músicas. Continue