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O primeiro grande disco de 2024 – e não apenas brasileiro – chega aos ouvidos de todos nesta sexta-feira, quando o pianista pernambucano Amaro Freitas compartilha conosco o mergulho que fez nas águas amazônicas e na alma dos povos originários desta região. Y’Y (pronuncia-se Ieiê e quer dizer “água” ou “rio” no dialeto indígena sateré mawé) será lançado pelo selo norte-americano Psychic Hotline e segue sua busca com seu jazz decolonial para além dos rumos do ótimo Sankofa, de 2021. Em faixas como “Mapinguari (Encantado da Mata)”, “Uiara (Encantada da Água) – Vida e Cura” e “Sonho Ancestral” (em que cita lindamente “Luar do Sertão”), ele nos conduz por uma viagem ao mesmo tempo misteriosa e mágica ao lado de músicos estadunidenses como o harpista Brandee Younger, o baterista Hamid Drake, o flautista Shabaka Hutchings e o guitarrista Jeff Parker (ele mesmo, do Tortoise), do baixista cubano Aniel Someillan e dos arranjos do professor Laércio Costa e ainda saúda o mestre Naná Vasconcellos em “Viva Naná”. Dá pra ouvir alguns dos singles que ele já lançou abaixo, pra ter uma ideia do que vem por aí…

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Que maravilha a apresentação que Paula Tesser fez no Centro da Terra nesta segunda-feira, revisitando suas raízes culturais – Fortaleza e Paris – com uma banda irrepreensível e convidadas de ouro. O espetáculo Alumia foi dirigido por seu compadre Dustan Gallas (vou te chamar, hein!), que assumiu o piano à frente do baixo de Zé Nigro e da bateria de Samuel Fraga e os três passaram o show inteiro esmerilhando entre si, mas sem tirar o foco da estrela da noite, completamente à vontade no palco. E depois de passar por canções francesas, inclusive a fatal “La Chanson de Prévert” de Serge Gainsbourg, e outras de seu primeiro disco, Paula voltou-se para o Ceará ao visitar Fagner (“Cebola Cortada”), Fausto Nilo (“Tudo Blue”) e Amelinha (“Depende”) e ainda chamou duas divas para dividir momentos específicos do show, como quando pôs Kika para enveredar por “Ingazeiras”, faixa de abertura do disco mitológico do Pessoal do Ceará, Meu Corpo Minha Embalagem Todo Gasto na Viagem, que Téti, Ednardo e ‎Rodger Rogério lançaram há 50 anos, ou quando convidou Soledad para dividir a pulsante “Galope Rasante”, de Zé Ramalho. A apresentação já tinha uma carga mágica considerável, que transcendeu quando, acompanhada apenas do trio que reuniu, passeou por “Beira Mar”, numa versão de chorar.

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Ao apresentar seu Favelost neste sábado no Sesc Avenida Paulista, Fausto Fawcett reuniu uma banda que deu um sabor ao mesmo tempo novo e retrô ao seu poema épico e decadente sobre a megalópole do terceiro mundo. Ao lado do casal Leela (Bianca Jhordão e Rodrigo Brandão, ambos empunhando guitarras, Bianca às vezes arriscava-se no theremin), ele substituiu a cozinha de uma banda de rock pelos sintetizadores de Paulo Beto, soando simultaneamente dance e rock e deixando sua verborragia apocalíptica, ir rumo à psicodelia dançante da Manchester do final dos anos 80, a famigerada Madchester, mas com o tempero sensual, decadente e brasileiro característico de sua poética. Misturando samples de Rolling Stones, Led Zeppelin, Bee Gees e “Please Don’t Let Me Be Misunderstood” no meio de pérolas de seu repertório como “Facada Leite Moça”, “Santa Clara Poltergeist”, “Drops de Istambul” e “Caligula Freejack”, ele ainda recebeu a presença de Edgard Scandurra e Fernanda D’Umbra, com quem tocou “De Quando Lamentávamos o Disco Arranhado” da banda desta última, o Fábrica de Animais. O espetáculo ainda teve os visuais do diretor Jodele Larcher e a reverência ao hit imortal “Kátia Flávia”, revisitado com direito a parte dois, quando a protagonista sai do submundo cão para assumir o “supermundo cão” fazendo OnlyFans para agentes de inteligência e do crime organizado em troca de segredos de estado. E, de repente, em 2024, as hipérboles de Fausto não parecem tão exageradas quanto eram no século passado. Showzaço.

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Acabou a moleza?

“A temporada de treino acabou”, canta Dua Lipa em seu novo single, “Training Season”. Será? Afinal de contas, mesmo com todos os instrumentos e vocais de apoio do senhor Tame Impala (Kevin Parker), que assina a música ao lado da vocalista e do midas pop Tobias Jesso Jr. (que depois de abandonar sua carreira solo com o ótimo disco Goon, de 2013, escreveu hits para Adele, Shawn Mendes, John Legend, Pink, Florece and the Machine, Haim, Elle Goulding, FKA Twigs, Harry Styles e Miley Cyrus), a música parece uma mera continuação de seu disco de 2020, Future Nostalgia, algo que já havia acontecido com o primeiro single que ela lançou, “Houdini”. O clipe, que mostra ela sendo blasé ao ser desejada por uma multidão de homens num bar em Londres, está longe de ser uma boa ideia e por melhor que seja executada parece tão descartável quanto a nova canção. Só dá pra entender que ela pode apontar para um outro lado se esses dois primeiros singles são justamente uma forma de desviar a atenção para uma mudança (daí a ênfase na frase que destaquei no início do texto) que não a faça apenas repetir as fórmulas de seu segundo disco. Falta sustança:

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Ave Tom Zé!

Não consegui assistir à estreia de Tom Zé na Casa de Francisca no mês passado, mas felizmente (e graças a um bem-vindo ingresso em cima da hora, valeu Leoni!) pude ver o mestre em ação num dos palcos mais emblemáticos da cidade nesta quinta-feira, em sua segunda aparição num dos palcos mais emblemáticos de São Paulo. E como o mestre baiano cai bem naquele lugar. Mais à vontade do que na média de seus shows, ele aproveitou a intimidade com o público para esticar longas conversas sobre assuntos mais diversos entre – e às vezes durante – suas músicas. Sem um show recente específico, Tom Zé passeou por pérolas de seu repertório que passeiam tanto por clássicos de sua discografia quanto discos mais recentes, acompanhado da mesma banda que reuniu depois que conseguimos sair do pesadelo da pandemia, com o guitarrista Daniel Maia, a tecladista e vocalista Cristina Carneiro, o baixista Felipe Alves, o baterista Fábio Alves e a vocalista Andreia Dias, todos atentos ao velho mago entre suas estrepolias e causos contados no palco. Ele abriu o show lembrando do desfile do bloco de carnaval em sua homenagem, o Abacaxi de Irará (e cantou a música que deu origem ao nome do bloco), que sai neste sábado e aproveitou para lembrar histórias do tempo em que sua cidade tinha só três mil habitantes, enquanto percorria por pérolas como “Hein?”, “Não Urine no Chão”, “Jimi Renda-se”, “Xique-Xique”, “Tô”, “2001”, “Não Tenha Ódio no Verão”, “Jingle do Disco”, “Menina Amanhã de Manhã”, “Aviso Aos Passageiros”. “Politicar” e “Amarração do Amor”, antes de reverenciar Adoniran Barbosa em duas músicas que diz ter se inspirado no clássico sambista paulistano, “Augusta, Angélica e Consolação” e “A Volta do Trem das Onze”, e nesta última Tom Zé puxou uma longa conversa sobre sua infância e sobre a ausência de ferrovias no Brasil. Sério e austero quando começava a falar, parecia estar passando um pito no público que só queria se divertir, mas logo em seguida derretia-se em gingado e sorrisos assim que começava a cantar, uma usina de energia que o tempo todo nos faz esquecer que ele está com quase 90 anos de idade. Um patrimônio vivo da cultura brasileira. Ave Tom Zé!

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Vem Warpaint!

Nossas amigas do Warpaint comemoraram o aniversário de vinte anos (já?) com um novo single, “Common Blue”, que chega com um clipe em clima de retrospectiva de carreira (veja abaixo) ao mesmo tempo em que elas anunciam mais uma turnê pelos EUA. No dia 22 do mês que vem elas lançam o single em vinil, que vem com o lado B “Underneath”, as duas primeiras músicas que lançam desde o ótimo Radiate Like This, de 2022. Elas bem que podiam esticar essa turnê pra cá, hein…

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Mais uma música – e um clipe – do próximo disco de Kim Gordon, The Collective, que sai no começo do mês que vem (e já está em pré-venda). Como a primeira faixa (“Bye Bye“), esta “I’m a Man” mantém o clima de trap com beats insistentes, timbres distorcidos e vocal falado na sua cara e também tem um clipe estrelado pela filha de Kim, Coco Gordon Moore. Assista abaixo: Continue

Pra quem não conseguiu ver o Roda Viva desta segunda, em que participei da bancada de entrevistadores para falar sobre carnaval em São Paulo com o compadre Thiago França, segue o programa abaixo: Continue

Beyoncé começou oficialmente o segundo ato do seu disco de 2022. Ainda sem anunciar o título do álbum – ainda não sabemos se será apenas o segundo ato de Renaissance ou se terá um novo título, como já foi especulado -, ela aproveitou a audiência do jogo da final de futebol norte-americano que aconteceu neste domingo para cravar a data do próximo lançamento, que acontecerá no dia 29 de março. A data foi marcada após ela apresentar uma propaganda que fez para uma operadora de celular dos EUA brincando com as possibilidades em que ela poderia “quebrar a internet”, misturando referências ao seu Lemonade, inteligência artificial, eleições presidenciais, viagem espacial e até à Barbie, terminando a propaganda anunciando não apenas uma, mas duas canções. E tanto “Texas Hold ‘Em” quanto “16 Carriages” apontam que o disco se aprofunda em um território que é caro, porém pouco frequentado, por Beyoncé – a música country. Nascida no Texas, ela já havia dado uma piscadela para o gênero quando fez sua “Daddy Lessons”, de seu clássico Lemonade ao lado das Dixie Chicks – que agora assinam apenas como The Chicks.

As duas novas faixas apontam rumos distintos dentro deste universo: enquanto “16 Carriages” é uma balada mais introspectiva, “Texas Hold ‘Em” é mais expansiva e aponta para ser um dos hits deste ano. Esta última foi apresentada com o início de um clipe que fez muita gente especular sobre uma participação de Lady Gaga em seu disco, pois traz Beyoncé dirigindo um táxi, o qu seria uma referência à parceria que as duas fizeram há mais de dez anos, “Telephone” (em que Bey dá uma carona para Gaga). O vídeo também cita nominalmente hits country de autores negros, como “Laughing Yodel” de Charles Anderson, “Grinnin’ in Your Face” de Son House e “Maybelline” de Chuck Berry.

Essa pegada já vinha sendo insinuada desde que ela apareceu vestida à caráter no último Grammy, com chapéu e tudo, e parece seguir o rumo do disco anterior, só que trocando de estilo musical. Enquanto o ato I sublinhava a relação da música negra com a música de boate pós-disco music, abraçando techno, funk e house music. ela agora parece querer mostrar que mesmo o branco azedo country tem dívidas com a música negra. Curioso esse movimento acontecer ao mesmo tempo em que Lana Del Rey anuncia seu próprio disco country, batizado de Lasso, mas parece ter a ver com o momento crítico que os Estados Unidos atravessam, especificamente devido ao fato de 2024 ter eleições para presidente por lá.

Veja o comercial e os dois novos singles abaixo: Continue

Sempre reconheci que a breve passagem de Damo Suzuki por São Paulo em 2005, quando participou da quarta edição do festival Hype, que aconteceu no Sesc Pompeia, como um dos grandes acontecimentos da minha vida. Além do eterno vocalista do Can, o festival reuniu, entre os dias 12 e 14 de maio daquele ano, artistas tão distintos quanto a volta da banda Akira S & As Garotas que Erraram, o produtor austríaco Fennesz, o duo Wolf Eyes, a produtora norte-americana DJ Rekha, o pernambucano DJ Dolores, o DJ escocês Kode9, o rapper Black Alien e a dupla Drumagick. Damo apresentou-se no último dia do evento, no sábado, quando eu faria a mediação de duas conversas na parte da tarde, a primeira com o próprio Damo e a segunda com Steve Goodman, mais conhecido como Kode9. Mas conversamos os três um pouco antes do papo e em vez de fazermos uma hora de conversa com cada um deles, misturei as experiências dos dois numa longa e riquíssima conversa de duas horas com discussões que ecoam na minha cabeça até hoje, contrapondo arte e experiências pessoais às noções de sucesso comercial que, como reforçava o próprio Damo, eram artificiais e vazias. Não bastasse essa conversa maravilhosa, no fim do dia ainda pudemos assistir a mais de uma hora de improviso intenso reunindo nomes de diferentes fases do pop experimental paulistano – Miguel Barella, Paulo Beto, Ian Dolabella, Renato Ferreira, Carlos Issa, Gustavo Jobim, Maurício Takara e Sergio Ugeda – regidos pelo decano vocalista japonês, num descarrego energético que mudou a vida de quem esteve no teatro do Sesc Pompeia naquele sábado. Encontrei uns poucos registros em vídeo dessa noite no canal do compadre Paulo Beto, mas torço para que o Sesc tenha gravado a íntegra desta apresentação e sonho com a possibilidade de encaixá-la nessa excelente série Relicário, em que o Selo Sesc finalmente abre seu acervo de shows para o público.

Assista abaixo: Continue