
Não estava programado, mas encerrar a segunda aula do curso História Crítica da Música Brasileira, que estou fazendo no Sesc Pinheiros, com um show gratuito do Metá Metá convidando Jards Macalé dentro do festival Mario de Andrade (organizado pela Biblioteca Municipal que carrega o nome do escritor e pensador paulista) no Paço das Artes, no Centro de São Paulo, deu um tempero especial para o sábado frio de São Paulo. E a experiência não é só pessoal, uma vez que tanto Bernardo Oliveira (que deu a aula deste sábado) e Rodrigo Caçapa (que dará a aula no próximo e estava como ouvinte na aula passada) também concluíram essa jornada comigo, como alguns alunos que pude reencontrar entre o público. O show pecou pelo som baixo – nada justifica terem colocado as caixas de PA rente ao chão e não apontadas para o público -, mas a química entre o trio paulistano e o mestre carioca é irresistível. O Metá Metá começou a apresentação sozinho, enfileirando seus hits irresistíveis, todos recebidos pelo público como bênçãos coletivas: “Oyá”, “São Jorge”, “Orunmilá”, “Atotô”, “Cobra Rasteira” e “Vias de Fato”, esta última cantada baixinho pelo público e ganhando sua condição de reza. Depois o trio chamou o velho Macau para o palco, que logo depois assumiu o show sozinho puxando hinos como “Soluços” e “Vapor Barato”, esta tocada ao lado do sax de Thiago França. Kiko Dinucci e Juçara Marçal voltaram ao palco para acompanhar o compadre em outros clássicos, como “Pano pra Manga”, a nova “Coração Bifurcado”, a imortal “Negra Melodia”, composta com Waly Salomão (te dedico, Juliana Vettore), e “Let’s Play That”, que o Metá já toca em seu repertório habitual. Os quatro não resistiram ao clamor do público e voltaram para o bis cantando “Juízo Final”, de Nelson Cavaquinho, que transformou o local numa missa sobre a vitória da luz sobre as trevas. Ave música!
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Nascida na Albânia e criada em Nova York desde os oito anos de idade, a cantora e compositora Suzy Clue surge no horizonte com um single perfeito lançado nessa sexta-feira 13: “Remember Me” lida com questões amorosas mal resolvidas e pergunta se a pessoa para quem a canção foi feita ainda “guarda minhas fotos em seu telefone?”. Mas o que chama atenção mesmo, além da doçura e candura do vocal de sua autora, é como a canção vai crescendo do que parece ser apenas uma balada metal dos anos 80 para tornar-se um colosso ruidoso entre o indie rock, o emocore e o shoegaze, ecoando referências clássicas dos anos 90 e 00, empilhadas pelo produtor Dan Carey da gravadora Speedy Underground, que também trabalhou com Fontaines D.C., Kae Tempest e Wet Leg . Uma joia – e é só seu primeiro single. Ouça abaixo: Continue

Quando Nath Calan me explicou a ideia que estava propondo para a primeira das duas apresentações no Centro da Terra seria um concerto de música cênica, apresentando obras que a aproximaram desta escola musical, mencionou os trabalhos que equiparavam timbres de percussão com fonemas, gestos com unidades de ritmo e como isso misturava-se com textos, que também apresentaria enquanto desdobrava em seus instrumentos de percussão: um vibrafone, uma percuteria, uma bateria e o próprio corpo. Mas o impacto dos dez primeiros minutos, quando quase em silêncio, atravessou as duas obras que a trouxeram para este universo (“Silence”, do músico e cineasta belga Thierry de Mey, que gritava sem som que “o silêncio deve ser”, e “?Corporael”, do trombonista e compositor francês Vinko Globokar) e suspendeu até a respiração de todos os presentes, que embarcaram em sua proposta num arrebatamento cênico promovido apenas por uma artista e seu próprio corpo, numa apresentação que estava entre a performance e as artes cênicas, mas transpirava música. E dali em diante, Nath estava com o jogo ganho, percorrendo outros momentos igualmente mágicos, como “Toucher”, também de Globokar, em que um texto da peça Vida de Galileu, de Bertolt Brecht, era lido em francês enquanto cada um de seus fonemas era associado a um timbre respectivo entre os muitos tambores à sua mão. Ao vibrafone, percutiu “A Última Curva”, de Martin Herraiz, para depois percorrer o texto “Lisboa Revisitada”, de Fernando Pessoa, acompanhado do solo de bateria escrito por Moisés Bernardes, voltar ao vibrafone para mostrar sua “Um Pouco de Stela”, escrita a partir de textos de Stela do Patrocínio, e mostrar um texto que leu num livro infantil para seu filho e que transformou-se em “Terra”, tocada enquanto percutia uma cabaça e batia em garrafas e formões pendurados à sua frente. E encerrou a apresentação com dois momentos pessoais. Primeiro ao musicar o texto “Subalternidades do Atlântico Sul”, escrito por seu companheiro Danislau TB (também integrante do Porcas Borboletas, que está voltando!), e depois ao mostrar seu próprio texto musicado em percussão, “Falo”, que puxou mais uma vez à bateria. Uma noite mágica.
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Apesar de ter entrado para a história como a banda da dupla Mick Jagger e Keith Richards, a verdade é que os dois que mais tarde encarnariam os Rolling Stones, entraram na banda depois que ela foi fundada – e seu fundador chama-se Brian Jones. Foi o guitarrista loiro demoníaco quem vislumbrou a possibilidade de montar uma banda de rhythm’n’blues elétrico em Londres e até Ian Stewart, eterno tecladista da banda que foi limado da formação original porque o primeiro empresário da banda, Andrew Loog Oldham, o considerava grandalhão demais para um grupo juvenil, tocava com os Rolling Stones antes da entrada de Keith e Mick. A aliança entre o vocalista e o outro guitarrista, que fez o grupo começar a compor suas próprias músicas, foi firmada para contrapor o peso da liderança de Brian, sujeito do novo documentário de Nick Broomfield, que dirigiu Kurt & Courtney (1998), Biggie & Tupac (2002), Whitney: Can I Be Me (2017) e Marianne & Leonard: Words of Love (2019). The Stones and Brian Jones contará a história do ponto de vista do Stone mais elétrico, mais endiabrado e mais ousado dos cinco integrantes originais – e como o peso do sucesso foi lhe tirando a importância dentro de sua própria banda. O filme estreará nos EUA em novembro, não tem previsão de lançamento no Brasil (alô In Edit!) e o primeiro trailer traz imagens inacreditáveis de Jones, veja abaixo: Continue

Paula Rebellato começou sua temporada com um show maiúsculo. Convidando Mari Crestani e Thiago França para acompanhá-la em uma noite em que mostraria novas canções, ela preferiu preparar o território musical lentamente chamando primeiro os dois convidados a uma levada de percussão circular para lentamente trazer seus instrumentos aos holofotes, pilotados por Mau Schramm: enquanto Mari desembainhava seu saxofone, Thiago fazia o mesmo e ainda trazia uma flauta como contraponto, enquanto Paula regia tudo com seu teclado e efeitos que disparava inclusive sampleando os outros dois músicos. Uma lenta parede de drone foi sendo construída camada a camada, tudo para o momento final da noite, quando, depois de uma hora de improvisos, Paula soltou a voz, grave, sem efeitos ou alterações de timbres, em canções gélidas e quentes ao mesmo tempo, como se uma lufada de vento polar pudesse carregar a memória táctil do sol. A melodia etérea surgiu logo depois que adicionou ecos em sua voz e nos saxes, deixando as notas suspensas como ondas de rádio sobre uma paisagem sem interferência humana, não importa se deserto, floresta, tundra, geleira ou mar. Foi uma noite que deixou claro que seu domínio do palco vai além da intensidade da performance, dos efeitos eletro-eletrônicos e do mero improviso. Paula pisa com força e firmeza em um território que sabe que sempre pertenceu. Essa temporada Ficções Compartilhadas promete.
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E esse Both Sides Now que a Luíza Villa tá fazendo em homenagem à Joni Mitchell no Belas Artes vai ser bonito demais… Olha só essa versão de “Coyote” que a gente passou neste domingo. A apresentação vai acontecer no dia 31 de outubro, logo depois da exibição do documentário Echo in the Canyon, sobre a cena do bairro de Laurel Canyon, em Los Angeles, no final do anos 60, que viu florescer não apenas a obra de Joni como de artistas como Byrds, Buffalo Springfield, Mamas & The Papas, Doors e Frank Zappa. O show da Luíza acontece logo depois e os ingressos já estão à venda neste link.
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Transcorria da primeira aula do curso que estou dando sobre música brasileiro rumo à festa que discotequei no sábado, quando o compadre Fábio “Mumu” Bianchini me lança um link pelo Whatsapp enquanto ele mesmo estava a caminho do show do Paulinho da Viola, na distante Florianópolis. “Tu já ouviu ISSO AQUI?”, perguntava no mesmo balão em que linkava a versão que a espanhola Jornada B. havia feito para “Common People” do Pulp. Filha de atores – da espanhola Blanca Oteyza e do argentino Miguel Ángel Solá -, a jovem nascida em Madrid lançou-se em carreira solo no ano passado, com o disco Tú Y Cuántos Más, e aos poucos prepara o segundo álbum, precedido justamente por essa inacreditável versão do hino britpop para o idioma latino. Não bastasse isso, o clipe é uma maravilha, dá uma sacada aí embaixo: Continue

Tem coisas que só no Inferninho Trabalho Sujo… No meio do showzaço que a Grand Bazaar fez nessa sexta-feira do Picles, alguém da plateia chega nos saxofonistas João Barisbe e Fernando Sagawa. Conversa vai, conversa vem, o sujeito parece se entender com os dois e sai da frente do palco. Logo depois surge com um case, puxa um sax de dentro e rasga um solo no meio da folia balcânica do sexteto, que dominava a plateia sem a menor dificuldade, fazendo todo mundo agachar e pular, terminando a apresentação botando o público do Picles numa roda que tomava conta de todo o lugar. Depois da banda, eu e a Fran botamos a casa abaixo, como de praxe (ainda mais quando a festa cai na sexta, afff). E fica aqui o registro das ideias que brotaram no camarim: o show Grand Bazaar toca Skank (me chama que eu dirijo hahahah) e o bloco carnavalesco Grand Blooco. Pra ninguém dizer que esqueceu, hein.
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2023 nem terminou e as Sleater-Kinney já anunciam 2024: Corin Tucker e Carrie Brownstein adiantaram o sucessor do ótimo Paths of Wellness, de 2021, ao apresentar seu primeiro single, com um ótimo clipe. “Hell” traz a multiartista Miranda July se entregando ao domínio das guitarras da dupla e é a faixa de abertura do disco Little Rope, que está programado para sair no dia 19 de janeiro do ano que vem e já está em pré-venda. E elas já emendaram anunciando 30 datas em menos de três meses logo no início do ano – alguém bem que podia trazê-las pro Brasil, hein…
Assista o clipe abaixo, onde também dá pra ver a ordem das faixas do novo álbum: Continue

Ave Waly! Celebramos a obra deste monstro da poesia brasileira de forma intensa nesta quarta-feira, quando apresentamos o espetáculo de som e poesia Waly Salomão: Dito e Lido, em que Joca Reiners Terron, Julia de Carvalho Hansen e Natasha Felix despejaram a verborragia sensível e forte do poeta baiano sobre camadas elétricas de textura e melodia cogitadas pelo encontro das guitarras e pedais de Jadsa e Guilherme Held. Cada poeta teve seu bloco, pontuado pelas canções que eternizaram as letras de Waly apresentadas de forma desconstruída: Julia costurou quatro poemas (entre estes uma inspirada e ritmada versão de “Mãe dos Filhos Peixes”) com os versos de “Mal Secreto” para depois, ao lado de Natasha, perambular pelos versos e notas de “Vapor Barato”, logo depois da cascata de prosa poética despejada por Joca, ao ler um trecho de “Self Portrait”. Natasha emendou “Babilaque” e “Balada de um Vagabundo” para arrematar tudo com “Negra Melodia”, deixando, nas três, sua musicalidade nascer entre as palavras. Uma noite inesquecível.
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