
E antes da quinta acabar ainda pude ver a segunda noite dos shows que o Queremos fez em São Paulo, antecipando o festival que farão no sábado no Rio de Janeiro. Mais uma vez na Áudio, a produtora carioca reuniu duas atrações internacionais relativamente desconhecidas que trouxeram um bom público para a casa entrando na onda dos dois artistas, nomes em ascensão na cena soul jazz londrina. Quem começou a noite foi a impressionante Adi Oasis, que empunhando seu baixo com uma desenvoltura invejável, como seu carisma igualmente intenso, conquistou facilmente o público – e citar “Onda” do Cassiano ou chamar Luedji Luna para dividir o palco foram só as cerejas de uma apresentação de peso. Depois foi a vez do produtor e tecladista Alfa Mist, que levou o público para uma viagem mais jazz cabeçuda, que rapídamente hipnotizou os presentes. Mas acho que se a ordem das atrações fosse invertidas – deixando Adi Oasis para encerrar o dia -, a noite terminaria num clima ainda mais pra cima e alto astral do que terminou.
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Dua Lipa lançou o terceiro single de seu terceiro álbum, Radical Optimism, e deixando-me influenciar pelos títulos, percebo que o otimismo radical que batiza seu álbum é uma ilusão. “Illusion”, como os dois singles anteriores, apenas repete a fórmula de seu disco de 2020, Future Nostalgia, e mesmo que as digitais de um dos produtores do álbum (o homem Tame Impala Kevin Parker) estejam mais evidentes, não parece que ele conseguiu fazer com que a cantora inglesa desse o salto que parecia estar preparada. Jogando no seguro, ela preferiu seguir numa trilha dançante quase formulaica, que até funciona na pista, mas não expande seus horizontes. O clipe que acompanha o novo single é igualmente sem sabor, recriando coreografias na piscina filmadas de cima como se 2024 precisasse de um velho musical da RKO. Ainda fico na torcida de ela nos surpreender com o conjunto de sua próxima obra, mas até aqui ela tem se provado previsível – ainda que de um bom jeito.
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O gaúcho Pedro Pastoriz está chegando ao final do processo de seu terceiro disco solo, Pingue Pongue com o Abismo, lançado no fatídico ano de 2020, e para isso volta para as origens deste trabalho, ao lançar, nessa sexta-feira, as demos deste mesmo disco – ou, como preferir, as Replay Demos. “Elas foram gravadas entre abril de 2018 e março de 2019 e são registro de ideias pré-estúdio”, explica o ex-vocalista do Mustache e os Apaches, que gravou essas canções ao lado dos músicos e produtores Arhtur Decloedt e Charles Tixier. “São as primeiras versões que gravei pra mim mesmo, e que agora – depois que tudo já foi escolhido e lançado – complementam de um jeito interessante o disco”, continua o cantor, que antecipa suas demos em primeira mão para o Trabalho Sujo. Apesar de inédito para a maior parte de seu público, não é a primeira vez que ele as mostra para alguém. “Mostrei esse material caseiro pra uma primeira audição de quem participou do financiamento coletivo na época de pandemia, que viabilizou o lançamento do Pingue-Pongue com o Abismo e as variações do álbum, como produtos da loja e essas coisas do dia a dia da música”. A conclusão do processo desse disco antece no próximo dia 23, quando apresenta-se no Centro da Terra.
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Finalmente conheci o recém inaugurado porão da Casa de Francisca – e não podia ser com uma atração melhor, quando, mais uma vez, Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Suzana Salles se juntaram para celebrar Itamar Assumpção apenas com violão e vozes. A entrada para o novo palco do Palacete Tereza fica na porta ao lado do acesso original da casa e o público desce por uma rampa abaixo de uma placa que nos recepciona para o “Cine Teatro – Espaço Imaginário e Recreativo”, que já dá a medida das possibilidades do novo espaço. O show desta quarta foi para um público sentado em poltronas ao redor do palco, que fica num tablado circular no centro do porão, mas o espaço permite várias modalidades de apresentação, inclusive além de atrações musicais, como deixa explícita a placa na entrada. A apresentação intimista pediu uma luz mais comedida e a sensibilidade dos três intérpretes nos deixava ainda mais próximos do palco. Todos de preto e óculos escuros passavam um repertório não tão óbvio das canções do mestre Ita e alternavam momentos de frágil delicadeza com espasmos de som liberados pelo violão de Kiko e acompanhado por berros de Suzana e Juçara. E tão bom quanto a apresentação da noite foi descobrir que a movimentação à entrada do Palacete, ocupando a rua em frente a outra nova área da Francisca, um bar e restaurante na parte térrea, seguia noite adentro, mesmo depois do DJ do dia, o grande Rodrigo Caçapa, que estava tocando desde o começo da noite até a hora do show começar, ter parado de tocar. Muito bom ver a Francisca tomando conta da rua e ampliando as possibilidades artísticas e culturais em uma região que, dez anos atrás, estava completamente largada. Viva a Casa de Francisca!
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A vocalista do Portishead, Beth Gibbons, aproveitou essa quarta-feira para soltar mais uma faixa de seu primeiro disco solo, Lives Outgrown, programado pra sair no dia 17 de maio (o mesmo dia do disco da Billie Eilish). “Reaching Out” é mais claustrofóbica e percussiva que “Floating on a Moment“, a balada que apresentou quando anunciou seu primeiro disco solo, e explode em metais pela metade da música em diante, deixando o vocal de Beth ecoar solto até o final da canção. O clipe, como o primeiro vídeo que lançou, segue o padrão que mistura computação gráfica, padrões de inteligência artificial, colagens visuais e fractais em 3D, ganhando inclusive uma versão interativa feita pelo autor do filme, o videoartista Weirdcore, neste link.
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Nesta terça-feira, o trio Música de Selvagem convidou o público do Centro da Terra para uma viagem densa que, ao mesmo tempo em que desbravava fronteiras de linguagem, lentamente aquecia sentimentos e neurônios ao apresentar o conceito de sua apresentação Cru/Cozido, inspirado no trabalho do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, inspirador do disco Pensamento Selvagem, lançado em 2021. O disco original, fruto do processo de isolamento do período pandêmico, misturou os instrumentos do trio (o baixo de Arthur Decloedt, os sopros de Filipe Nader e a percussão de Guilherme Marques) às incursões vocais de Inês Terra e às eletrônicas de Luisa Putterman – tudo gravado à distância e trabalhado em três partes de pós-produção dirigida por cada um dos integrantes do grupo. O trabalho de 2021, portanto dividido em três atos, foi seccionado em 94 partes, sendo que três delas apresentavam cada um dos atos. Para cada uma das 91 partes do trabalho, a artista gráfica Maria Cau Levy criou uma capa específica e todos esses 91 recortes visuais estavam espalhados pelo palco do teatro do Sumaré, de onde o público pode assistir à apresentação. Grudados na plateia, os instrumentistas não precisaram nem de microfones, deixando este apenas com Inês, que ainda processava sua própria voz no meio das diferentes camadas de improviso livre propostas pelo encontro. No lugar de Putterman, que não estava na cidade, o trio chamou o trompetista Rômulo Alexis, que alternou seu instrumento com apitos e flautas, complementando os malabarismos vocais de Inês. Como no disco, o espetáculo foi dividido em três partes, cada uma delas mostrando o processo de transformação da comida que mudou a cara da civilização, apresentando primeiro o estado cru para depois mostrar a metamorfose do momento de cocção para finalmente exibir a última etapa, já cozida. As três partes misturavam ataques coletivos com duos entre diferentes integrantes da apresentação, todos temperados pela luz que ia da penumbra ao calor de cores quentes, numa apresentação curta que ao mesmo tempo pareceu suspender nossa noção de tempo.
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Um dos principais acontecimentos dos anos 60 na história da cultura pop foi a transformação de uma região em ascensão dos Estados Unidos em marco central daquela década. Por mais que Hollywood já estivesse aberto as portas da Califórnia para o resto do mundo, só com a música que o estado da costa oeste dos EUA tornou-se reconhecido – mais que isso, desejado – pelo resto do planeta. Suas principais cidades, Los Angeles e São Francisco, tornaram-se pontos de referência para toda uma geração que cresceu lendo os beats e depois cairia de cabeça na psicodelia e no LSD, mas quem começou essa história foi uma banda de irmãos chamada Beach Boys, cuja história finalmente é repassada num documentário batizado apenas como o nome do grupo, produzido pela Disney, que estreia no próximo dia 24 de março no canal de streaming da produtora. Dirigido por Frank Marshall e Thom Zimny, o documentário conta com entrevistas com os integrantes da banda que ainda estão vivos – Brian Wilson, Mike Love, Al Jardine, David Marks e Bruce Johnston -, além de trazer cenas inéditas e muito material raro sobre o grupo que mudou a cara da música pop nos Estados Unidos. O trailer do filme, que ainda traz depoimentos de fãs como Lindsey Buckingham, Janelle Monáe e Don Was, acaba de dar o ar de sua graça, veja abaixo: Continue

E a temporada de abril no Centro da Terra começou devagarinho, como quem não quer nada, e aos poucos dominou o público que saiu de casa numa segunda-feira chuvosa para encher o teatro do Sumaré. Rodrigo Campos, Rômulo Froes e Thiago França começaram pelo projeto mais recente dos dois primeiros (o ótimo Elefante, lançado no ano passado), contando com a presença de Marcelo Cabral e Anna Vis como convidados. Cabral esteve no palco desde o início, quase um quarto integrante da temporada, e enquanto Rômulo e Rodrigo dividiam-se nos violões, ele e Thiago alternavam de instrumentos a cada nova canção: Thiago ia do sax pra flauta pro surdo pro cavaco e pra caixinha de fósforos, enquanto Cabral alternava seu contrabaixo acústico (tocado com ou sem arco e com ou sem efeitos) com outros instrumentos de percussão. Da metade da apresentação em diante, Anna Vis veio sem instrumentos para o centro do quarteto, dobrando vozes com os outros dois vocalistas, que expandiam o repertório para além do disco de 2023, puxando músicas em comum aos envolvidos, desde canções solo de Rômulo e Rodrigo (que estreou uma inédita, “Cadê o Dinheiro?”) a uma natalina fora de época (e triiiiste) “Boas Festas” de Assis Valente até “Da Vila Guilherme até o Imirim”, do Passo Torto, e “Dono da Bateria”, do disco Conversas Com Toshiro, de Rodrigo, que encerraram a apresentação.
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Híbrido de peça e apresentação musical, o espetáculo Pega, Mata e Come: 60 anos de Opinião, que foi exibido em duas sessões neste fim de semana no Sesc Vila Mariana, foi concebido por Paulo Tó ao lado do Instituto Augusto Boal antes mesmo do período pandêmico, que acabou por adiar sua existência. Retomada dentro da programação Territórios do Lembrar que aquela unidade do Sesc está fazendo para que não esqueçamos da tragédia política e cultural que foi o golpe empresarial-militar de 1964, a peça musical aproveitou a infame efeméride para realçar a importância de um espetáculo que hoje é lembrado mais como o palco para os primeiros passos das carreiras de Nara Leão e Maria Bethania do que como o que realmente foi: a primeira obra artística a se revoltar contra o revolução de araque que as forças armadas e parte do empresariado brasileiro deu contra a democracia brasileira sob o pretexto de “interromper o avanço comunista”, mentira repetida até hoje por seus agentes até para justificar crises políticas do país neste século. Montado pelo herói do teatro brasileiro Augusto Boal, Opinião foi revisitado por seu filho Julian Boal e a dramaturga Mariana Mayor, companheira de Tó, que assina a direção musical do espetáculo, dirigido por Jé Oliveira. À frente da apresentação, Xis, Ellen Oléria, Xeina Barros, Alessandra Leão e o próprio Tó, apresentavam-se como os integrantes da montagem original, assumindo personalidades que ajudavam o público entender o contexto da época ao mesmo tempo em que desfilaram tanto as canções do espetáculo original (“Peba na pimenta” de Dominguinhos, “Guantanamera” que foi cantada pela viúva de Boal, Cecília Boal, “Borandá” de Edu Lobo e, claro, a faixa de Zé Kéti que batizou o espetáculo original e a de João do Valle que trouxe o verso que batiza esse novo espetáculo) quanto músicas contemporâneas que conversam com a alma do espetáculo, como “História Para Ninar Gente Grande” (samba-enredo da Mangueira em 2019), “Lama” (de Douglas Germano), “Zumbi” (de Jorge Ben) e “Obá Iná” (do Metá Metá), além de músicas dos próprios intérpretes: Tó (contemplado em “Samba do Perdoa” e “De Cara no Asfalto”), Ellen (que trouxe “Testando” e sua versão para “Miss Celie’s Blues”), Xis (“De Esquina” e “Us Mano e As Mina”) e Alessandra (com “Exu Chega”, “Atirei” e sua versão para “Xangô”). Na banda que acompanhou o grupo de perto, um grupo pesado formado por Marcelo Cabral, Thiago Sonho, Lua Bernardo e Rodrigo Caçapa. Pena só terem rolado duas apresentações, temporada curta para uma apresentação deste porte ganhar corpo e lacear entre os intérpretes. Vamos torcer para outras edições pintarem em outras unidades do Sesc.
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Há alguns anos, se ouvíssemos falar que o rapper Andre 3000, metade do Outkast, participaria de um disco do saxofonista Kamasi Washington, a notícia seria recebida com a mesma medida de empolgação e estranhamento – o primeiro pela volta do MC à música, algo que não acontecia há muito tempo, a segunda pela conexão com um artista denso e bem menos pop. Mas desde o período pandêmico, ele voltou a dar sinais de vida, primeiro num single com Kanye West (“Life of the Party”) em 2021 e depois com outro (“Scientists & Engineers”) ao lado de Killer Mike, Future e Eryn Allen Kane no ano passado. Foi o mesmo ano em que deu sua maior guinada artística ao lançar o soberbo e abstrato New Blue Sun, disco instrumental composto ao redor de sua nova obsessão por flautas, jazz e música ambient. Neste sentido, a colaboração que Kamasi acaba de revelar com o amigo (o instrumental de lenta combustão “Dream State”, que faz parte do seu próximo disco, Fearless Movement) provoca reações menos adversas e igualmente admiradas, mostrando que o encontro ao mesmo tempo em que aproxima duas personalidades únicas da música norte-americana atualmente, mostra que a fase flautas de 3000, mesmo que seja só uma fase, não é o trabalho de um único disco.
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