
Boa estreia autoral a de Nina Camillo nesta terça-feira no Centro da Terra, quando apresentou seu espetáculo Nascente acompanhada do pianista Vitor Arantes, do baterista Gabriel Bruce e do baixista Noa Stroeter, este último diretor musical do trabalho. Mostrando pela primeira vez um repertório composto nos últimos anos mas ainda não gravado, ela passeou entre o jazz e a bossa nova com suas próprias músicas e fez uma única reverência não-autoral (e por duas vezes!) ao cantar Marcos Valle, quando puxou a maravilhosa “Preciso Aprender A Ser Só” e “Que Bandeira”, esta última com vocais divididos com a amiga Sophia Ardessore, que participou da apresentação. Foi bonito e foi só o começo…
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Nunca consigo ir ao Tranquilo porque ele acontece sempre às segundas-feiras, dia em que me ocupo com as temporadas que faço no Centro da Terra, mas como a apresentação dessa segunda terminou logo e a edição do Tranquilo era por perto, consegui me deslocar para chegar no União Fraterna antes da última convidada da noite, Ana Frango Elétrico, que iria mostrar sozinha – como é a praxe do evento – músicas de sua lavra depois de apresentações da Marina Nemésio e da banda Pluma (que, pelos motivos descritos acima, perdi). Mas cheguei a tempo de ver Ana mostrar músicas de seus primeiros discos (Mormaço Queima e Little Electric Chicken Heart), além de canções de seu disco mais recente, Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua. Ela começou primeiro na guitarra e depois foi para o teclado, quando convidou Marina Nemésio para dividir a maravilhosa ” Nuvem Vermelha”, parceria das duas (e como eu amo a voz da Marina…). Voltou para a guitarra, quando, acompanhada do público que lotou o União Fraterna, fez todos cantarem em uníssono a perfeita “Insista em Mim”, minha música favorita do ano passado. Uma noite memorável.
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Pesado o movimento feito por Romulo Alexis em sua segunda noite de Cosmofonias, temporada que ele está apresentando no Centro da Terra. Reunindo-se ao lado de outros onze músicos (entre eles o mestre Salloma Salomão, os sopros de To Bernado, Laura Santos e Stefani Souza, o violino de Karine Viana, as percussões de Manoel Trindade, Lerito Rocha e Henrique Kehde, o contrabaixo de Lua Bernardo, as cordas de Du Kiddy e Gui Braz), ele apresentou pela primeira vez a Nigra Experimenta Arkestra, big band de improviso instantâneo que estreou no palco do Sumaré causando uma combustão espontânea, seja nos momentos mais expansivos e explosivos ou nos introspectivos e delicados. Uma apresentação que durou menos de uma hora, mas abriu caminhos mentais que nos fizeram percorrer dias entre notas e beats.
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Do nada, Donald Glover não apenas retirou o disco mais recente que lançou com seu pseudônimo musical Childish Gambino – 3.15.20, lançado no início da pandemia – das plataformas de streaming como o substituiu pelo disco Atavista, que anunciou no Twitter como sendo uma versão melhor acabada daquele disco. E além de anunciar que o disco terá uma versão em vinil (já à venda) e que todas as músicas terão versões audiovisuais, ele também disse que ainda no verão lançará músicas novas sob sua alcunha de rapper. Não bastasse isso, ele inaugurou essa nova fase com uma música inédita, a irresistível “Little Foot Big Foot”, em que apresenta-se como um grupo vocal dos anos 50 em um clipe em preto e branco, com direito a coreografia que, se cair no TikTok, pode ampliar ainda mais seu alcance. O vídeo conta com a participação do rapper Young Nudy, que canta a parte final da música, e tem a direção do velho colaborador de Glover, Hiro Murai, seu parceiro na série Atlanta e em vários outros projetos audiovisuais, como o filme Guava Island (que lançou em 2019 em parceria com Rihanna) e o polêmico clipe “This is America“. Veja o clipe abaixo: Continue

A vida de excessos do genial Paulo César Pereio chegou ao fim na tarde deste domingo, quando esse ícone do cinema brasileiro cedeu à complicações hepáticas que lhe levaram às pressas para o hospital neste fim de semana. Morando desde o início da pandemia no Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro, entidade gerida pelo amigo Stepan Nercessian, ele andava mais recluso e bem distante da imagem pública de boêmio incansável que o eternizou. “Construo este mito para ser pouco incomodado”, ele contou ao jornalista Geneton Moraes Neto em entrevista em 2010. É uma espécie de self-art. Pereio, na terceira pessoa, é obra minha. Posso ser considerado no Brasil uma celebridade. As pessoas me reconhecem na rua. Mas posso me dar ao direito de sair sozinho por aí, subir morro, andar na banda podre e na baixa sociedade, tranquilamente. Sei como não ser vítima disso. Conheço atores brasileiros que têm de fingir que são outra pessoa para sair na rua”.
Nascido em Porto Alegre, ele mudou-se para o Rio nos anos 50, onde participou de algumas montagens de teatro moderno (como Esperando Godot em 1958 e a clássica versão de Zé Celso Martinez Corrêa para a Roda Viva de Chico Buarque em 1968) e logo foi puxado para o cinema. Estreou em 1964 no filme Os Fuzis de Ruy Guerra e fez uma participação breve Terra em Transe de Glauber Rocha, em 1967. A partir dessa época e pelos anos 70, tornou-se uma constante em filmes brasileiros, atuando em produções como Os Marginais, O Homem Que Comprou o Mundo, A Lira do Delírio, Chuvas de Verão, Os Inconfidentes, Bang Bang, A Dama do Lotação, Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia, Rio Babilônia e Toda Nudez Será Castigada, entre dezenas de outros – foram quase 60 filmes.
Misto de Humprey Bogart com Jean Paul Belmondo, Pereio fazia personagens que se confundiam com sua persona pública, um galã da pesada, sensível e truculento, que criava problemas e despertava paixões por onde passava. Trabalhou com os maiores nomes de nosso cinema (Cacá Diegues, Andrea Tonacci, Hector Babenco, Neville de Almeida, Joaquim Pedro de Andrade e Arnaldo Jabor), além de circular tanto pela turma do Cinema Novo quanto da pornochanchada com a mesma desenvoltura. Também fez carreira na publicidade (com sua voz grave tornando-se sinônimo de algumas marcas) e na TV, quando trabalhou em produções da Globo como Gabriela, Roque Santeiro, Anos Dourados, A Viagem, Presença de Anita e Carga Pesada. Foi amigo pessoal de Nelson Rodrigues e dirigiu sua penúltima peça (O Anti-Nelson Rodrigues, 1974), além de ter sido o foco do documentário Peréio, Eu Te Odeio, dirigido por Allan Sieber e Tasso Dourado em 2013. Viveu como quis, morreu como pode. Um bastião da nossa cultura e também o retrato de uma época.
Não sou propriamente fã do saudoso Pereio, mas é inevitável reconhecer seu talento. Sua atuação intensa e indomável transforma qualquer cena em que ele atue num épico dramático de proporções simultaneamente caricatas e gigantescas – esteja em um filme clássico brasileiro ou batendo boca em um boteco qualquer. E em nenhum filme ele está tão bem quanto no clássico Bang Bang, que Andrea Tonnaci dirigiu em 1971, que figura entre os melhores filmes brasileiros na minha opinião. Só a cena de abertura, um clássico em si mesma, em que ele discute com um taxista de forma completamente improvisada, já vale o filme inteiro e funciona como uma analogia do que Tonnaci – e o próprio Pereio – estava fazendo no cinema (a anarquia completa do personagem principal) em relação à formalidade da linguagem no Brasil (o monte de explicações dadas pelo coadjuvante para não conseguir fazer o que está sendo pedido). Um momento único da sétima arte, puro delírio. Obrigado, Pereio.
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Yma está nos devendo seu segundo disco há tempos, mas enquanto isso vai afiando ainda mais sua apresentação ao vivo. Nessa sexta-feira ela apresentou-se no MIS e mostrou como tem tratado seu pop delicado e melancólico cada vez mais à vontade no palco ao mesmo tempo em que está completamente entrosada à sua banda, formada por Uiu Lopes (baixo), Leon Perez (teclados), André Luiz (guitarra), Marco Trintinalha (bateria) e Vinícius Rodrigues (sax). Foi o primeiro show dela desde sua apresentação no Lollapalooza e, embora ainda calcado no disco de estreia Par de Olhos, já trouxe músicas de sua fase de transição, como “Aquário” e “Meredith Monk”, que gravou com Jadsa em seu projeto paralelo Zelena, além de uma música inédita, composta em francês. A apresentação terminou com uma homenagem a uma amiga gaúcha que não pode comparecer ao show pela tragédia que aconteceu no Rio Grande do Sul, a quem a cantora dedicou a bela e triste “Pequenos Rios”. Foi bem bonito.
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Noite histórica com o Tortoise nesta quinta-feira, quando o sexteto de Chicago subiu no palco do Cine Joia para tocar a íntegra de seu clássico disco TNT. Só o anúncio deste evento já foi o suficiente para mobilizar toda uma safra de fãs do grupo que entupiu a casa de shows da Liberdade com a maior concentração de indies do século passado vista reunida num evento pós-pandemia (e justamente na semana em que outra concentração histórica dessa comunidade, o famoso show dos Pixies em Curitiba, , completa 20 anos). Como aconteceu com boa parte das bandas indie daquele período, o Tortoise melhorou ainda mais com o tempo e vê-los executando com detalhismo e sutileza todas as nuances de seu clássico de um quarto de século foi uma viagem musical, artística e, claro, sentimental. E mesmo começando pesado – com duas bateras frente a frente no primeiro plano do palco -, mostraram que as coisas estavam sérias de verdade no primeiro momento sem este instrumento, quando hipnotizaram o público com o andamento contínuo de “Ten-Day Interval”, logo no início do show. Vê-los trocando de instrumentos constantemente – do xilofone pra guitarra pro teclado pra bateria pro baixo pro synth pra pedal-steel – e ouvindo-os fluir do jazz atonal ao krautrock, passando pelo dub profundo, eletrônica purinha, indie rock clássico (com direito a sopros e cello) e trocas de andamentos até no meio do improviso reforça a ideia original de pós-rock – um grupo originalmente de rock que não respeita barreiras musicais e explora todas as possibilidades que surgem no caminho -, embora os seis torçam o nariz para o rótulo. Findo o disco na íntegra (numa execução impecável), o grupo ainda voltou ao palco no bis para tocar “Along the Banks of Rivers” (do primeiro disco da banda, Millions of Now Living Will Never Die) e “Crest” (do disco que lançaram há vinte anos, It’s All Around You), encerrando uma das apresentações mais intensas – e quentes! – que eu vi do grupo. Mágico.
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Produtor e tecladista do grupo Pelados, Luiz Martins, mais conhecido pelo pseudônimo de Lauiz, lança seu quarto disco solo, o primeiro mais arredondado e com cara de álbum, ainda este mês. E apesar da temática country presente na divulgação de Perigo Imediato, o disco não tem nada do gênero norte-americano e mais uma vez flagra Lauiz experimentando entre versos e beats. Ele tenta associar a temática caubói à exploração de timbres e gêneros musicais que faz em sua música. “A mistura final é uma forma de estrogonofe: uma canção imprevisível feita como uma colagem melequenta”, explica falando não só sobre o disco, mas especificamente sobre o primeiro single, “Só Palavras”, composto em parceria com seu colega de banda Theo Ceccato, que sai nessa sexta-feira e que ele antecipa em primeira mão aqui para o Trabalho Sujo. Lauiz reforça que o disco “é quase uma graduação na forma de canção que venho aprimorando nos últimos anos. A grande ironia é que por mais que atravesse de Aphex Twin a Mutantes, acredito que haja uma coesão na diversidade, uma ordem no caos”, ri.
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Trecho do documentário Reeling with PJ Harvey – lançado apenas em VHS em 1994 – em que Polly Jean Harvey ateia fogo nos pés do mestre Steve Albini durante as gravações de seu Rid of Me no estúdio Pachyderm.
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Tire duas horas da sua semana para entregar-se ao cotidiano de Luís Fernando Veríssimo no documentário que leva seu sobrenome dirigido por Angelo Defanti, em cartaz em parcos cinemas espalhados pelo Brasil. O diretor acompanha a pacata e lenta rotina de um de nossos maiores escritores, terrivelmente agitada pela véspera do aniversário de 80 anos. Acompanhamos o mestre em entrevistas, participações em debates e tardes de autógrafos que o tiram de sua lida diária que envolve brincadeiras com os netos, caminhadas pela cidade, desenhos, leituras, exercícios físicos, jogos de computador (você vai entender) e conversas quase monossilábicas com parentes num ritmo deliciosamente lento, alheio à pressão e à velocidade de nossas rotinas eletrônicas. Vou deixar apenas o teaser original abaixo e pedir para que evitem o trailer, que tira toda a magia do filme ao ordenar cenas singelas e familiares num ritmo de filme comercial, algo que Veríssimo não é. É um reality show sobre o maior cronista de nossa história e por mais paradoxal que essa frase possa parecer, ela captura sua essência e a traz para cada um de nós. Duvido você não sair mais leve desse filme.
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