
Não consegui assistir à estreia de Tom Zé na Casa de Francisca no mês passado, mas felizmente (e graças a um bem-vindo ingresso em cima da hora, valeu Leoni!) pude ver o mestre em ação num dos palcos mais emblemáticos da cidade nesta quinta-feira, em sua segunda aparição num dos palcos mais emblemáticos de São Paulo. E como o mestre baiano cai bem naquele lugar. Mais à vontade do que na média de seus shows, ele aproveitou a intimidade com o público para esticar longas conversas sobre assuntos mais diversos entre – e às vezes durante – suas músicas. Sem um show recente específico, Tom Zé passeou por pérolas de seu repertório que passeiam tanto por clássicos de sua discografia quanto discos mais recentes, acompanhado da mesma banda que reuniu depois que conseguimos sair do pesadelo da pandemia, com o guitarrista Daniel Maia, a tecladista e vocalista Cristina Carneiro, o baixista Felipe Alves, o baterista Fábio Alves e a vocalista Andreia Dias, todos atentos ao velho mago entre suas estrepolias e causos contados no palco. Ele abriu o show lembrando do desfile do bloco de carnaval em sua homenagem, o Abacaxi de Irará (e cantou a música que deu origem ao nome do bloco), que sai neste sábado e aproveitou para lembrar histórias do tempo em que sua cidade tinha só três mil habitantes, enquanto percorria por pérolas como “Hein?”, “Não Urine no Chão”, “Jimi Renda-se”, “Xique-Xique”, “Tô”, “2001”, “Não Tenha Ódio no Verão”, “Jingle do Disco”, “Menina Amanhã de Manhã”, “Aviso Aos Passageiros”. “Politicar” e “Amarração do Amor”, antes de reverenciar Adoniran Barbosa em duas músicas que diz ter se inspirado no clássico sambista paulistano, “Augusta, Angélica e Consolação” e “A Volta do Trem das Onze”, e nesta última Tom Zé puxou uma longa conversa sobre sua infância e sobre a ausência de ferrovias no Brasil. Sério e austero quando começava a falar, parecia estar passando um pito no público que só queria se divertir, mas logo em seguida derretia-se em gingado e sorrisos assim que começava a cantar, uma usina de energia que o tempo todo nos faz esquecer que ele está com quase 90 anos de idade. Um patrimônio vivo da cultura brasileira. Ave Tom Zé!
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Nossas amigas do Warpaint comemoraram o aniversário de vinte anos (já?) com um novo single, “Common Blue”, que chega com um clipe em clima de retrospectiva de carreira (veja abaixo) ao mesmo tempo em que elas anunciam mais uma turnê pelos EUA. No dia 22 do mês que vem elas lançam o single em vinil, que vem com o lado B “Underneath”, as duas primeiras músicas que lançam desde o ótimo Radiate Like This, de 2022. Elas bem que podiam esticar essa turnê pra cá, hein…
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Mais uma música – e um clipe – do próximo disco de Kim Gordon, The Collective, que sai no começo do mês que vem (e já está em pré-venda). Como a primeira faixa (“Bye Bye“), esta “I’m a Man” mantém o clima de trap com beats insistentes, timbres distorcidos e vocal falado na sua cara e também tem um clipe estrelado pela filha de Kim, Coco Gordon Moore. Assista abaixo: Continue

Pra quem não conseguiu ver o Roda Viva desta segunda, em que participei da bancada de entrevistadores para falar sobre carnaval em São Paulo com o compadre Thiago França, segue o programa abaixo: Continue

Beyoncé começou oficialmente o segundo ato do seu disco de 2022. Ainda sem anunciar o título do álbum – ainda não sabemos se será apenas o segundo ato de Renaissance ou se terá um novo título, como já foi especulado -, ela aproveitou a audiência do jogo da final de futebol norte-americano que aconteceu neste domingo para cravar a data do próximo lançamento, que acontecerá no dia 29 de março. A data foi marcada após ela apresentar uma propaganda que fez para uma operadora de celular dos EUA brincando com as possibilidades em que ela poderia “quebrar a internet”, misturando referências ao seu Lemonade, inteligência artificial, eleições presidenciais, viagem espacial e até à Barbie, terminando a propaganda anunciando não apenas uma, mas duas canções. E tanto “Texas Hold ‘Em” quanto “16 Carriages” apontam que o disco se aprofunda em um território que é caro, porém pouco frequentado, por Beyoncé – a música country. Nascida no Texas, ela já havia dado uma piscadela para o gênero quando fez sua “Daddy Lessons”, de seu clássico Lemonade ao lado das Dixie Chicks – que agora assinam apenas como The Chicks.
As duas novas faixas apontam rumos distintos dentro deste universo: enquanto “16 Carriages” é uma balada mais introspectiva, “Texas Hold ‘Em” é mais expansiva e aponta para ser um dos hits deste ano. Esta última foi apresentada com o início de um clipe que fez muita gente especular sobre uma participação de Lady Gaga em seu disco, pois traz Beyoncé dirigindo um táxi, o qu seria uma referência à parceria que as duas fizeram há mais de dez anos, “Telephone” (em que Bey dá uma carona para Gaga). O vídeo também cita nominalmente hits country de autores negros, como “Laughing Yodel” de Charles Anderson, “Grinnin’ in Your Face” de Son House e “Maybelline” de Chuck Berry.
Essa pegada já vinha sendo insinuada desde que ela apareceu vestida à caráter no último Grammy, com chapéu e tudo, e parece seguir o rumo do disco anterior, só que trocando de estilo musical. Enquanto o ato I sublinhava a relação da música negra com a música de boate pós-disco music, abraçando techno, funk e house music. ela agora parece querer mostrar que mesmo o branco azedo country tem dívidas com a música negra. Curioso esse movimento acontecer ao mesmo tempo em que Lana Del Rey anuncia seu próprio disco country, batizado de Lasso, mas parece ter a ver com o momento crítico que os Estados Unidos atravessam, especificamente devido ao fato de 2024 ter eleições para presidente por lá.
Veja o comercial e os dois novos singles abaixo: Continue

Sempre reconheci que a breve passagem de Damo Suzuki por São Paulo em 2005, quando participou da quarta edição do festival Hype, que aconteceu no Sesc Pompeia, como um dos grandes acontecimentos da minha vida. Além do eterno vocalista do Can, o festival reuniu, entre os dias 12 e 14 de maio daquele ano, artistas tão distintos quanto a volta da banda Akira S & As Garotas que Erraram, o produtor austríaco Fennesz, o duo Wolf Eyes, a produtora norte-americana DJ Rekha, o pernambucano DJ Dolores, o DJ escocês Kode9, o rapper Black Alien e a dupla Drumagick. Damo apresentou-se no último dia do evento, no sábado, quando eu faria a mediação de duas conversas na parte da tarde, a primeira com o próprio Damo e a segunda com Steve Goodman, mais conhecido como Kode9. Mas conversamos os três um pouco antes do papo e em vez de fazermos uma hora de conversa com cada um deles, misturei as experiências dos dois numa longa e riquíssima conversa de duas horas com discussões que ecoam na minha cabeça até hoje, contrapondo arte e experiências pessoais às noções de sucesso comercial que, como reforçava o próprio Damo, eram artificiais e vazias. Não bastasse essa conversa maravilhosa, no fim do dia ainda pudemos assistir a mais de uma hora de improviso intenso reunindo nomes de diferentes fases do pop experimental paulistano – Miguel Barella, Paulo Beto, Ian Dolabella, Renato Ferreira, Carlos Issa, Gustavo Jobim, Maurício Takara e Sergio Ugeda – regidos pelo decano vocalista japonês, num descarrego energético que mudou a vida de quem esteve no teatro do Sesc Pompeia naquele sábado. Encontrei uns poucos registros em vídeo dessa noite no canal do compadre Paulo Beto, mas torço para que o Sesc tenha gravado a íntegra desta apresentação e sonho com a possibilidade de encaixá-la nessa excelente série Relicário, em que o Selo Sesc finalmente abre seu acervo de shows para o público.
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Sem mais delongas, eis “Floating On A Moment”, o primeiro single do primeiro disco solo de Beth Gibbons, Lives Outgrown, que ela anunciou há cinco dias. O single mantém o clima de pesar e tensão característico de sua banda, o Portishead, mas a instrumentação acústica – sussurros usados pra marcar o tempo, contrabaixo de madeira na cara, assobios, violão dedilhado, vocais de apoio, guitarra sem efeitos – a ajudam a desvendar um outro lugar musical, mais plácido e intimista, algo que vem traduzido num clipe multicolorido e com efeitos digitais que misturam filtros de redes sociais com reproduções feitas por inteligência artificial, superpondo sua imagem a paisagens distorcidas, numa estética que vai de encontro à sobriedade austera do Portishead. E por esse primeiro aperitivo dá pra cravar que tem um discão vindo aí. Lives Outgrown será lançado no dia 17 de maio e já está em pré-venda, sua capa e o nome de suas músicas – bem como o primeiro clipe – podem ser visto abaixo. Continue

Maravilhosa a apresentação que Nina Maia fez nesta terça-feira no Centro da Terra. Mostrando parte do repertório que estará em seu disco de estreia, que ainda está sendo gravado, ela mostrou-se intensa e delicada na mesma medida, indo da introspecção à explosão sonora sempre com sua bela voz como fio condutor. Com poucas pausas e interação mínima com o público, ela suspendeu a expectativa dos presentes ao alternar momentos sutis e sensíveis – seja somente ao piano, cantando sobre bases eletrônicas pré-gravadas ou em dupla com sua eterna parceira Chica Barreto – com outros mais expansivos, que levam sua musicalidade rumo ao jazz e à MPB com a cozinha formada pelo baixo de Valentim Frateschi e a percussão de Thalin com acréscimos do cello de Chica e do violão de Yann Dardenne na última música da noite, “Amargo”, que será seu próximo single. A luz da dupla Retrato (Ana Zumpano e Beau Gomez) também ajudou o clima de introspecção e expansão entre luzes e sombras — e um espelho no palco.Cheia de si e com plena confiança da firmeza de sua voz e composições, ela está pronta para acontecer. E isso que foi só primeiro show do ano.
#ninamaianocentrodaterra #ninamaia #centrodaterra2024 #trabalhosujo2024shows 14
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O que você vai fazer no próximo dia 14 de agosto? Herbie Hancock conseguiu marcar um encontro com seus compadres dos Head Hunters para revisitar o clássico disco funk composto em 1973 que finalmente o livro da sombra de Miles Davis e colocou-o em seu próprio sistema solar. O aniversário de 50 anos do disco ao vivo acontecerá a princípio apenas no Hollywood Bowl, em Los Angeles, mas não duvide se começarem a pintar outras datas por aí. Ele postou um vídeo nesta terça-feira em sua conta no Instagram convidando os chapas Harvey Mason, Bennie Maupin e Bill Summers para reviver aquele delírio musical meio século depois e de todos os responsáveis por aquela joia, apenas o baixista Paul Jackson (que morreu em 2021) não estará presente, sendo substituído pelo grande Marcus Miller, outra lenda do instrumento. Os ingressos já estão à venda no site do Hollywood Bowl – e se você não conhece esse disco, faça-se esse favor agora mesmo!
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Começamos muito bem a temporada 2024 no Centro da Terra nesta segunda-feira, quando recebemos o MC fluminense Dadá Joãozinho para mostrar a próxima fase de seu trabalho, que está sendo construída no palco. Depois da boa recepção de seu disco de estreia, Tds Bem Global, o produtor rearranjou canções deste primeiro trabalho no espetáculo Global Inabitual, em que, sozinho, desconstruiu suas faixas, deixando seu canto livre para experimentar novas paisagens sonoras. Com o auxílio luxuoso da luz de Mau Schramm, Dadá saudou parceiros como Bebé, Alceu e Joca, além de reverenciar Maria Beraldo numa versão particular para sua “Da Menor Importância”. Foi bonito.
#dadajoaozinhonocentrodaterra #dadajoaozinho #centrodaterra2024 #trabalhosujo2024shows 13
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