Trabalho Sujo - Home

TV

Acho que devia ser entre 2005 e 2006, no intervalo entre a primeira e a segunda temporada de Lost. Nos EUA, a série já estava mais que bombada. Por aqui, começava a dar sinais de que não seria só mais uma. Portanto, fomos convocados – eu, Carina Martins, Kátia Lessa e o big boss Lúcio Ribeiro – para elaborar um especial do tipo “enciclopédia”, para a Editora Abril.

É até difícil de lembrar, mas naquela época Lost lançava dezenas de perguntas por episódio, além de enfiar um zilhão de “pistas” que poderiam ter alguma relação com a história (com o passar dos anos acabamos descobrindo que a maioria não tinha). Foi um pesadelo definir os verbetes da tal enciclopédia. Como você explica os filósofos Locke, Hume e Carlyle em dez linhas apertadas?

Ao mesmo tempo, que série de televisão é essa que faz você pensar em filósofos? E em livros, de O Senhor das Moscas a Ardil 22, passando por The Shape of Things to Come e Matadouro 5. Era, no mínimo, um programa de televisão que poderia te levar a outras coisas. Poderia, porque esses outros caminhos não eram essenciais para a sua diversão. Dava para ficar ali só curtindo as emoções, tipo “caralho, tem um urso polar na ilha!” ou “meu Deus, existem outras pessoas lá!”. Sempre com um ponto de interrogação no fim. Talvez por isso, mas não só por isso, Lost também tenha funcionado na TV aberta.

E aí eu fico imaginando como seriam as “enciclopédias” de séries como Friends e Seinfeld – que eu adoro, veja bem. No máximo se limitariam a personagens, algumas referências do universo pop, talvez algumas locações. Duvido que alguma delas tivesse o verbete “taoísmo”.

Por falar em verbetes, lembrei-me que um grande número deles terminava com a referência “Ver: Dharma”. E nós nos esquecemos de colocar exatamente um verbete na enciclopédia… Adivinha qual? Por outro lado, no universo de Lost a falta de informação faz tanto sentido que, olha só, ninguém reclamou.

* Paulo Terron é o capo do With Lasers – e colecionador de autógrafos, olha isso:

Lost por Cris Dias

Falta pouco! Mais exatamente faltam duas horas e meia para o fim daquela que — mesmo que muita gente discorde comigo ao chamar de A Melhor Série da História da TV de Todos os Tempos Ever — mudou a maneira de se contar histórias seriadas na televisão.

Se existe uma coisa que resume Lost em uma palavra é: perguntas. Há uma lista quase que oficial delas e uma maior de perguntas que provavelmente nunca serão respondidas. Enquanto muitos acham que não responder todas elas é motivo certo de decepção quando domingo acabar. Já os roteiristas apostam que muito pelo contrário, responder a todas as perguntas, seja em duas horas e meia ou ao longo de seis anos, é a pior coisa para a série. O segredo de Lost está no chamado espaço negativo literário.

O conceito de espaço negativo é mais famoso nas artes visuais. Dominar o espaço não ocupado pelo seu desenho é, segundo os mestres, tão importante quanto o desenho em si. Algumas obras usam propositalmente o espaço negativo para mostrar uma coisa que você não vê inicialmente. Mas ao contar histórias, especialmente histórias fantásticas como Lost, o espaço negativo literário também é uma ferramenta importantíssima.

O pesquisador do MIT Geoffrey Long contou, quando esteve no Rio para participar do Descolagem ano passado que um dos maiores motivos de ser completamente vidrado em Star Wars foi todo o espaço que George Lucas deixou para a imaginação da molecada. “A gente passava o recreio inteiro discutindo quem era Boba Fett. Eu achava que ele era um irmão perdido de Han Solo.” Por anos a imaginação dos fãs ficou criando uma história para o caçador de recompensas até que um dia, ao lançar o Episódio II: Ataque dos Clones descobrimos quem era Fett… e provavelmente todo mundo achou a explicação uma porcaria. (o filho-clone do Jango Fett? Sério Jorge?)

Ao deixar partes da história no espaço negativo os criadores de Lost sabem que não é uma questão de competir com a versão que as pessoas tem na cabeça para uma resposta. Eles estão competindo com o processo de imaginar e discutir com os amigos o que cada mistério significa. Revelá-lo vai simplesmente acabar com essa conversa. É muita crueldade, é pior que vinte Jar Jar Binks.

No penúltimo podcast oficial de Lost Damon Lindeloff e Carlton Cuse nos convencem de que não queremos saber exatamente o que é a Ilha, o que é ser um candidato e ter cada mistério explicado. Outros já fizeram exatamente isso antes e falharam. “Nós não vamos ter uma cena do arquiteto como em Matrix: Revolutions.”

Matrix, uma série de filmes também cheia de mistérios e revelações teve aquela que provavelmente foi a cena mais chata da história do cinema pop onde um personagem barbudo explica tim-tim por tim-tim — por quase oito minutos! — para o herói que porcaria toda era aquela. Não só a resposta era pra lá de caída como a explicação era tão chata e professoral que provavelmente ninguém conseguia lembrar exatamente o que era aquilo tudo depois dos créditos finais.

No livro oficial da criação de conteúdo transmídia — escrito pelo professor de Geoffrey Long — Matrix é um exemplo (agora) acadêmico de como não se contar uma história. E Lost, que estava começando a ser exibido quando o livro foi escrito, um exemplo de como contá-las bem, com ou sem espaço negativo.

Lost parte do princípio de que tudo que o espectador vai fazer é assistir os 45 minutos semanais de conteúdo e, se gostar do que viu, comentar com os amigos. Lost não requer, como Matrix, que você jogue o videogame, veja os curta-metragens animados ou leia os gibis empacotados exclusivamente junto com embalagens de cereal Acme vendidos apenas nos Kwik-E-Mart vendidos no lado norte de Springfield.

Se você quiser participar do ARG, contribuir para a Lostpedia, ouvir o podcast oficial, ir na Comicon… ótimo, você terá uma experiência muito mais legal do que os meros mortais que só ficam na frente da TV. Mas os produtores nunca se esquecem que, no fim das contas, a maioria das pessoas fica na base dessa pirâmide do engajamento e o conteúdo dado a elas deve ser mais do que suficiente para deixá-las vidradas por seis anos na série.

Sim, é importante saber quem vai substituir Jacob, o que são os flash-sideways e por que Rodrigo Santoro precisava ficar indo ao banheiro toda hora. O resto fica por conta do espaço negativo. Aliás, deixa eu contar minha teoria de quem é o Homem de Preto…

* Cris Dias é outro que também é dos tempos da internet a diesel no Brasil…

* Sério que eu ainda preciso apresentar o Arnaldo? Sério que você não conhece o melhor humorista do Brasil? (engraçada essa palavra… “Humorista”)

Da New Yorker. Vi no Lombardi.

Faltam dois dias

E não se esqueçam que a partir de amanhã, às 8 da manhã, eu e um monte de malucos lhe faremos companhia até a hora do último episódio.

The End: o bingo

Pra acompanhar o último episódio:

Do Holy Taco.

Lost: Oh, well

Lost termina domingo à noite – e a contagem regressiva oficial do Trabalho Sujo começa às 8 da manhã de sábado. Aguardem.

Liminha explica.

E Fringe, hein?


“First people” no lugar de “Paralell Universe”: gênio

Não é só Lost que embica pro fim: semana passada teve a primeira parte do último capítulo da série do doutor Walter Bishop e, na realidade de lá, tudo melhorou. Realidade paralela militarizada, pesada, estátua da liberdade coberta de cobre, EUA com estados a menos, Obama no West Wing e uma máquina do fim do mundo que parece ter sido uma colaboração dos sonhos entre Jack Kirby e Moebius. Alienígenas tiraram a paranormalidade dos humanos, isso dito apenas en passant, sem vínculo direto com a história principal. Puro delírio paranóico – que mais você precisa pra uma ficção científica engatar? A segunda parte do episódio “Over There” (soa “Across the Sea”, não?), dirigida pelo mesmo Akiva Goldsman que esmerilhou na primeira, vai ao ar, nos EUA, nesta quinta. E eu acho que Fringe corre o risco de decolar de vez, com a saída de Lost do cenário.