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Rumo ao mar

Belíssima a apresentação que a cantora e compositora paulistana Sophia Ardessore realizou nesta terça-feira no Centro da Terra. Acompanhada por uma banda enxuta e precisa – os teclados de Nichollas Maia e a bateria de Matheus Marinho, ambos regidos pelo baixista Fi Maróstica -, ela singrou para além de seu primeiro álbum, Porto de Paz, se aventurando num novo alto mar e por algumas primeiras vezes – tanto tocando em público só com o violão, quanto estreando canções inéditas e celebrando uma parceria de menos de mês, quando convidou a nova amiga Mari Merenda para dividir os vocais em duas canções. Cada vez mais segura de sua voz, Sophia ainda explorou canções alheias enquanto não tinha dificuldades para dominar o público.

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Sobre conexões

Enio começou sua série Encontros Híbridos nesta terça-feira no Centro da Terra, quando desfilou seu repertório ao lado de músicas de seu convidado da vez, o pianista pernambucano Zé Manoel, de quem visitaram juntos “Adupé Obaluaê” e “Canção e Silêncio”. Mas o baiano aproveitou a oportunidade para reverenciar a Bahia por muitos de seus autores, intérpretes e sonoridades, passando por “Sorte” (de Celso Fonseca e Ronaldo Bastos, eternizada por Gal e Caetano), “Me Abraça e Me Beija” (do mestre Lazzo Matumbi, canonizada pela atual ministra da cultura Margareth Menezes) ou “Emoriô” (de Gilberto Gil e João Donato), além de reverenciar Letieres Leite e Olodum (lembrado na eterna “Deusa do Amor”). Enio também mostrou as músicas de seu primeiro disco que ainda não se materializou, tocando diferentes instrumentos (guitarra, teclado, baixo) e disparando beats quando mostrou que seu cancioneiro também avança pelo hip hop e pela música eletrônica. Mas um dos grandes momentos do encontro ocorreu logo no início da noite, quando o anfitrião e seu convidado dividiram uma das músicas mais agudas do pianista, a infelizmente atual “História Antiga”.

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Laço cossangüíneo

Se na penúltima apresentação de sua temporada Águas Turvas no Centro da Terra Dinho Almeida reuniu sua família de escolha, juntando amigos/vizinhos para uma jam onírica em torno de seu novo repertório, nesta última segunda-feira de setembro ele embarcou em uma viagem ainda mais cossangüínea ao convidar sua irmã Flávia Carolina para entoar suas canções. E não só as de Dinho, mas também as dela e inclusive uma do pai dos dois, finalizando a temporada no mesmo tom terapêutico esteve presente nessas noites. A entrega superou as expectativas: as vozes dos irmãos têm um encaixe perfeito, mesmo com timbres parecidos, e o ritmo de Flávia, que por vezes alternava instrumentos de percussão, explicava a mão direita de Dinho na guitarra, tornando riffs e acordes quase sempre pulsantes. Uma noite linda de uma temporada transformadora. Voa, Dinho!

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Genealogia psicodélica brasileira

Pesado esse show que a Bike fez com o Tagore nessa terça-feira no Centro da Terra, enfileirando hits da lisergia brasileira que colocava os dois artistas num cânone viajandão que enfileirava Arnaldo Baptista solo (LSD), Pedro Santos (“Um Só”), Cérebro Eletrônico (“Pareço Moderno”), Júpiter Maçã (“Um Lugar do Caralho”), Fábio (“Lindo Sonho Delirante”), Tom Zé (“Parque Industrial”) e Violeta de Outono (“Declínio de Maio”), entre outros clássicos da música psicodélica brasileira, todos rearranjados com muito peso, microfonia e ritmo, cortesia da química entre os integrantes da banda paulista. O ápice da apresentação foi quando o grupo soltou Tagore em cima de dois hinos do udigrudi nordestino, quando emendou “Vou Danado pra Catende” de Alceu Valença com “Nas Paredes da Pedra Encantada Os Segredos Talhados por Sumé” do mitológico Paebirú, de Zé Ramalho e Lula Côrtes, que contou com uma interpretação possessa do vocalista pernambucano.

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Cataclisma sonoro

Quem foi ao Sesc Avenida Paulista nesta quinta-feira pode aproveitar mais uma avalanche sonora provocada pelo Test em sua versão hiperbólica, a Test Big Band, e só quem esteve presente tem noção do impacto que foi essa primeira apresentação que o grupo faz neste formato depois da pandemia. Além dos heróis João e Barata, os responsáveis por esse cataclisma de som que o público pode assistir, eles contaram com Sarine na percussão, Bernardo Pacheco no baixo, Alex Dias no contrabaixo acústico, Rayra da Costa nos eletrônicos, Livia Cianciulli no saxofone, Romulo Alexis no trompete, Flavio Lazzarin na bateria, Tomas Moreira, Chris Justtino e Jonnata Doll nos vocais e Maureen Schramm na luz. Vida longa ao Test!

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Magnetismo de longa data

O Campo Magnético que batizou o encontro de Maurício Takara e Guizado nesta quarta-feira no Centro da Terra é o da convivência artística. Os dois já participaram juntos de inúmeros shows e projetos, tocando seus próprios trabalhos ou em bandas de outros artistas numa amizade que atravessa décadas. Mas os dois nunca tinham estado sozinhos num mesmo espaço para criar juntos e entraram numa sintonia fina cada um com suas ferramentas: Takara disparando samples, bases eletrônicas, puxando percussão e até um trumpete piccolo, enquanto Guizado conduziu a partir de seu instrumento, o trumpete, processado por um computador, em que adicionava efeitos, e também sampleando a própria voz. Foram duas longas imersões em que a conexão musical dos dois era quase palpável.

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Do rasinho às profundezas

Três instrumentos de sopro, um contrabaixo elétrico e base eletrônica – sem violão, sem guitarra, sem vocais, sem percussão ou bateria. Essa formação inusitada é a base do Comitê Secreto Subaquático, formado por Clara Kok, Fernando Sagawa, João Barisbe, Helena Cruz e Luiz Martins, que estreou no palco nesta terça-feira, apresentando músicas que vêm trabalhando desde o início do ano. Trajados com capas de chuva amarelas e vasculhando sonoridades que misturam o andamento incomum tanto da música eletrônica mais experimental quanto na música erudita contemporânea em canções com títulos infames e engraçadinhos como os samples e as intervenções vocais feitas por Lauiz. E o melhor: não parece com nada que você possa associar a algum gênero, artista ou cânone musical facilmente identificável. Soando únicos, passearam por diferentes profundidades sonoras sem medo de levar o público do rasinho às fossas abissais, às vezes numa mesma música. Foi mágico.

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De dentro de um sonho

Me acordem que ainda não sei se estava sonhando. A apresentação que os Yeah Yeah Yeahs fizeram nesta sexta-feira no Cine Joia foi um dos melhores shows do ano e prova que não é preciso muito mais que três músicos num palco para encantar uma plateia devota. Tudo bem que o grupo usou de elementos cênicos durante sua apresentação, como o gigantesco balão em forma de globo ocular e os lança-confetes disparados pela vocalista Karen O, mas bastava a presença do trio para fazer nossas personalidades grudarem na parede de trás do cérebro, tamanho impacto ao vivo. Eles são certamente a banda de sua geração que melhor envelheceu (a cena dos Strokes, Interpol, Liars etc), em grande parte por conta da presença magnética da vocalista. Karen O é um espetáculo, uma aula de estética misturada com uma sedução sobrenatural, e apesar de ser a mais baixa do trio (fui checar no seu google), ela se agiganta de forma soberba. Vestindo um maravilhoso vestido cheio de franjas brilhantes que, junto com seu cabelinho la garçonne, remetia imediatamente às melindrosas dos anos 20 do século passado, Karen dominava o público como se tivesse combinado uma coreografia com todos os presentes – e se divertindo demais. “É noite de sexta-feira em São Paulo com os Yeah Yeah Yeahs!”, gritava sorrindo. Mas esses momentos pedestres logo desapareciam quando ela começava a cantar e sua voz hipnótica vinha acompanhada de um domínio corporal que transformava o show no surgimento de um personagem mitológico, como se assistíssemos uma lenda secular descortinando em frente aos nossos olhos. E mesmo que as músicas do disco do ano passado não sejam memoráveis, a parede instrumental, sendo demolida entre tambores rufando e eletrochoques de microfonia, só emoldurava a imagem transcendental da deusa. Um show curto, pouco mais de uma hora, mas que pareceu durar eras dentro da bolha mágica inflada pelo trio – ainda estou preso no momento em que o grupo enfileirou “Gold Lion”, “Maps” e “Heads Will Roll”. E sem contar que esses shows de bandas indies deste século que já podem ser consideradas clássicas são sempre oportunidades perfeitas de encontrar TODO MUNDO. Uma noite perfeita.

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De volta às bandas

Um dos motivos que me fizeram criar o Inferninho Trabalho Sujo foi a percepção de que há uma mutação acontecendo no cenário musical brasileiro. A tragédia pandêmica que nos isolou por tanto tempo fez com que voltássemos de forma muito viva aos encontros presenciais. Shows, peças, blocos de carnaval, jantares de família, restaurantes, botecos, casas de amigos: todo mundo está se encontrando muito mais e de forma mais intensa do que fazia antes da praga, talvez por uma questão de compensação ou mais provável por uma sensação de que perdemos algo que tínhamos como certo, então ninguém quer perder a oportunidade de estar junto com outras pessoas.

Isso também está acontecendo do ponto de vista artístico. A profissionalização do mercado de música brasileiro dos últimos anos colocou o artista solo (seja ele intérprete, músico, DJ, cantautor, produtor) como unidade básica do mercado. Os motivos são fáceis de entender (é mais fácil gerir a carreira de uma pessoa do que de um grupo), o que fez com que as bandas parassem de surgir, pode reparar.

Mas isso mudou depois da pandemia. Ter uma banda hoje não pressupõe gestão de carreira, gastos de produção, divisão de cachê e de tarefas. Comecei a notar bandas surgindo pelo motivo que sempre deveriam ter surgido: porque é legal tocar junto com outras pessoas. As bandas voltaram a ser turmas de amigos, mais do que CNPJs da indústria do entretenimento. E bandas que tocam em qualquer quintal, qualquer buraco, qualquer lugar em que elas possam ser ouvidas. E do mesmo jeito que não são empresas, fogem das tendências de mercado, inclusive estéticas. Estão buscando rumos artísticos novos e diferentes só porque é legal fazer isso. E bastou que eu começasse a frequentar o Picles para saber que aquele era o palco perfeito para uma festa pensada para essas bandas.

A edição desta quinta-feira do Inferninho Trabalho Sujo era exatamente o que eu havia pensado quando o conceituei. Duas bandas novíssimas, quase desconhecidas, fazendo música de um jeito muito pessoal e particular, ambas melódicas e barulhentas na mesma medida. E lembro ter conversado com integrantes das duas bandas (especificamente a Anna d’Os Fadas e a Stéfanie do André Medeiros Lanches), mesmo antes de começar a festa, sobre a necessidade da existência de um lugar como esse. De alguma forma é o antônimo do trabalho que estou fazendo no Centro da Terra, mas paralelo e complementar. Ver as duas bandas tocando para um público feliz e lotado mostrou as coisas estão dando certo. Que venham os próximos!

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Chora, piano

Foi lindo o batismo de fogo de Paola Lappicy no palco do Centro da Terra nesta quarta-feira, em seu primeiro espetáculo autoral, Que Mágoa é Essa Que Me Chama?. Apresentando as músicas que se tornarão seu disco num palco pela primeira vez, ela deixou o lugar de instrumentista e musicista convidada para abrir seu coração com suas próprias músicas – e o resultado foi um show, literalmente, de chorar. Acompanhada de Dustan Gallas, Caio Chiarini, Léo Carvalho, Rogério Roggi e Luciana Rosa (além da participação surpresa e arrebatadora de Raquel Tobias), ela passeou por seu repertório quase todo ancorado na sofrência e na tristeza, com variações do termo “choro”, espalhadas pela noite, e deslizou pelo piano, seu instrumento-natal, mas também foi para o violão, sempre segurando com sua bela voz aquelas canções tão tristes, que ainda foram salpicadas por versões de outros temas de fossa, como a clássica “Espumas ao Vento” e a cortante “Alvejante” que reuniu Priscila Senna e Zé Vaqueiro, para encerrar sua apresentação. Chora, peito.

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