E Distrito 9 é tudo isso que andam falando mesmo. Do mesmo jeito que Blade Runner mudou completamente a ficção científica ao trazer o futuro distante e utópico das sociedades espaciais para o futuro próximo de um planeta Terra em franca decadência, o filme de estréia do diretor Neill Blomkamp aproxima ainda mais o hoje do amanhã. Ao estacionar uma nave espacial à deriva sobre Johannesburgo, o diretor empilha metáforas sobre metáforas para tornar explícitos cada um de nossos preconceitos – e mistura racismo, tortura, canibalismo, xenofobia, miséria, feitiçaria, zoofilia, drogas e armas pesadas com a estética favela movie – tom documental, câmera na mão, chão de terra batida, barracos, crianças e galinhas – que Fernando Meirelles consagrou em Cidade de Deus. O protagonista Wikus van de Merwe é um Michael (do Office) posto em uma situação tão extrema quanto a da tenente Ripley em Alien ou o policial Alex Murphy em Robocop – a diferença é o simples fato de, embora os dois últimos também sejam funcionários de corporações, Wikus não tem experiência militar nenhuma, como a maioria dos telespectadores. Assim, o filme puxa para uma primeira pessoa verité que o torna tão descendente da ficção científica distópica dos anos 80 quanto do documentarismo fictício dos últimos dez anos (Bruxa de Blair, Cloverfield, [REC], Atividade Paranormal). E nos mostra aliens asquerosos que, em última instância, são apenas versões deformadas de nós mesmos. No fim, Distrito 9 chega às mesmas conclusões da ficção científica recente – a de quanto mais nos tornamos soldados, menos somos humanos. Mas até chegarmos neste ponto, atravessamos uma viagem excepcional, de interfaces que flutuam, pessoas que explodem, armas impossíveis e até uma criança ET, com muito som e fúria, neste que é tranquilo um dos melhores filmes de 2009.
Faz tempo que o Air não acerta com jeito. A dupla francesa que apareceu com o disco Moon Safari no final dos anos 90 não surgiu apenas como um contraponto leve aos beats e vocoders do Daft Punk, mas também como uma versão prog e ainda mais pop do perdido trip hop, que via seus principais autores (Massive Attack, Portishead, Tricky) distanciarem-se da sutileza de seus primeiros discos à medida em que a década terminava. Desde então, Jean-Benoit Dunckel e Nicolas Godin ajudaram o pop francês a se reerguer e a funcionar como ponte entre a geração trip hop e experimentalistas instrumentais da virada do século – nomes como Zero 7, Boards of Canada, Nouvelle Vague, Télépopmusik, The Knife, M83, Röyksopp e Cinematic Orchestra são apenas alguns artistas que tiveram suas carreiras facilitadas pelo fato do Air ter aberto um novo caminho no pop em 1998, trazendo para os anos 90 uma paisagem sonora onírica composta por diferentes usinas de som dos anos 70, como o progressivo pop do Pink Floyd, o jazz funk de Isaac Hayes e, claro, os cenários orquestrados das peças de Serge Gainsbourg (não à toa que capitanearam o disco de estreia da filha de Serge, Charlotte).
Air – “You Can Tell It to Everybody“
Se não voltarmos com atenção à Moon Safari, tem-se a impressão de que o disco emplacou apenas o hit “Sexy Boy”, mas ele já é maduro o suficiente para ser chamado de clássico – e faixas como “All I Need”, “Kelly Watch the Stars”, a belíssima introdução “La Femme D’Argent”, “Remember”, a doce “You Make It Easy” e a densa “Le Voyage de Pénélope” ajudam a dar a aura de obra-prima necessária ao disco.
Mas a partir dele, a carreira do Air torna-se errática. Embora sua presença midiática continue constante – em seus primeiros anos, a dupla lança um disco com as primeiras gravações (Premiers Symptomes), uma compilação de remixes (Everybody Hertz) e uma trilha sonora (do filme As Virgens Suicidas), antes de um segundo disco ainda mais setentista que o primeiro (10,000hz Legend). Mas desde 2002, os dois parecem ter se conformado em, em vez de mudar a paisagem sonora do planeta, cuidar apenas de sua pequena e particular biosfera sonora. Os discos seguintes – Talkie Walkie (de 2004) e Pocket Symphony (de 2007) – eram pequenos jardins ou hortas comparados à selva de seu primeiro disco. Em vez de nos perdermos no som, observávamos à distância, quase que com mais curiosidade do que prazer.
Air – “Night Hunter“
Love 2, seu novo disco, repara essa falha – e a solução apresentada vem em forma de melodia e, por que não, canções. Em vez de simplesmente propor um planos de cordas, pianos, beats e teclados elétricos, onde a ambientação sonora e os arranjos são postos à frente, a dupla prefere voltar ao ponto de partida do primeiro disco, em que pequenas canções iam, aos poucos, do ouvido para dentro da cabeça, crescendo e expandindo universos sem que o ouvinte sequer percebesse. Talvez isso – mais do que a quietude e doçura musical – fosse o principal responsável pelo clima de sonho da estréia da dupla.
E as canções voltam em Love 2 – sem a esquisitice de 10,000 Hz Legend ou a preguiça de Talkie-Walkie. Elas partem de pontos muito simples, como melodias tocadas em um instrumento (a escaleta de “Heaven’s Light”, a frase esticada pelo sintetizador em “Do the Joy”, o sax de “”), riffs de guitarra surf music (“Be a Bee” e “Eat My Beat”) ou de refrões quase infantiilizados (“Sing Sang Sung”, “You Can Tell It to Everybody”) para serem, aos poucos, acrescidas de camadas de instrumentação. Algumas canções refletem isso como fórmula e ecoam diretamente Moon Safari, como “So Light Is Her Footfall”. Contudo, certo clima sombrio contrapõe-se à luz enluarada deste disco, um pé na música africana filtrada pelo sotaque europeu que ganha ares de jazz – como “Love” (que pode soar quase como world music), “Night Hunter” e “African Velvet”, quando não assumem o ritmo como fio condutor (como “Be a Bee”, “Missing the Light of Day” e “Tropical Disease”) que praticamente revelam um novo Air, tenso, pouco amigável, mas igualmente encantador.
É no equilíbrio dessas duas metades que se equilibra Love 2 – de um lado, há o Air clássico, Gainsbourg instrumental, jazz funk para ninar; do outro, o Air da próxima década, mais pé no chão, menos classudo, mais incisivo, direto, reto. Contemplando a mudança de ares que vem por aí, a dupla é otimista – mas não perde o ceticismo.
O dia em que virei uma hashtag
Estava no táxi e o telefone tocou. Era a Helô. “Matias…”, a hesitação em sua voz disparou minha paranóia, “…você tá sabendo…”, caiu o anúncio da capa, algum repórter passou mal, alguém foi contratado/demitido, “…do trabalhosujoday no Twitter?”, o Google comprou o Twitter, Steve Jobs morreu, mudou a escala do plantã… cuma? Como é que é?
Que porra é essa?
“Er… Criaram uma hashtag no Twitter chamada #trabalhosujoday…”, “mas já tá nos trending topics?” usei a megalomania para ganhar tempo, enquanto meu cérebro zapeava por rostos (representados por seus avatares do Twitter, pois) de amigos ou conhecidos que poderiam ter aprontado essa: Arnaldo, Mutlei, Bruno, Carbone, Cardoso, Fred, Flávia, Danilo, Cissa, Vlad, Mason, Kátia, Dahmer, Pablo, Maron, Serjão, Ronaldo, Terron, Rafa, Luciano, cada um deles com um motivo diferente para tirar onda com a minha cara ao inaugurar uma hashtag em minha homenagem. Pensei nos três ou quatro detratores (acreditem, eles existem – toda Corrida Maluca tem seu Dick Vigarista), mas eles não tem coragem de assumir uma dessas em público. Disse que veria que diabo era aquilo quando chegasse no jornal, para não estragar a surpresa, mas vim com a mesma velocidade que pensei nos nomes e nas possibilidades acima, fiquei juntando peças pra tentar descobrir qual seria a motivação da hashtag – links sobre Brasília? Sobre Beatles? Dia do mashup? Pra notícias sobre cultura digital? Notícias do Link? Links dOEsquema?
As duas últimas opções quase me fizeram chegar na resposta certa. Ao ver o tom dos tweets do #trabalhosujoday logo entendi a brincadeira – e primeiro falo de seu contexto antes de explicá-la.
Como já falei, opto por usar o Twitter como uma forma de disparar links. Os últimos posts da minha conta ficam exibidos na home do Sujo e eu sempre acho que fica estranho, pro leitor que cai na página principal, acompanhar um diálogo pela metade, com pessoas que eles não conhecem. Por isso, resolvi não participar ativamente do diálogo que é o Twitter. Acompanho quase que diariamente tudo que acontece na rede (até por conta do trabalho no Link), mas se alguém me pergunta algo, via Twitter, prefiro responder em mensagem privada (via DM, no linguajar tweet). Na verdade, transformei o meu Twitter numa versão para o antigo Leitura Aleatória, que eu publicava no site. A princípio, vocês chiaram, mas depois se acostumaram.
Por isso, em vez de ficar twittando tudo que eu vejo em tempo real, prefiro deixar tweets programados pra serem postados durante o dia. Ou eu fazia isso (tiro uma horinha pra programar os posts do dia inteiro) ou a regularidade dos tweets ia cair, por isso optei por agendá-los. Na prática também é uma hora pra eu ver o que está acontecendo agora, quais tweets e links que eu favoritei no dia anterior, ler o RSS (cada vez mais abandonado), visitar os sites de amigos.
Mas, na paralela, também venho atualizando as páginas do Sujo pré-OEsquema (antes o Sujo ficava hospedado no quase extinto Gardenal), atualizando tags, vendo se algum vídeo saiu do ar, ajeitando o tamanho de imagens pro novo template, separando as categorias. E nessa visita ao passado, deparo várias vezes com posts que não perderam a validade, que mesmo velhos, ainda valem a visita. Assim, estou retwittando posts velhos do Sujo há pelo menos duas semanas – teve muita gente que achou que o meu Twitter tinha dado pau, mas, não, é assim mesmo.
É aí que entra o tal #trabalhosujoday, que começou com estes três tweets do Chico Barney:
Maldito! Tive que mandar uma mensagem cumprimentando pela genialidade infame (que lhe é inerente, caso não o siga, faça isso), mas quando fui falar com ele, a palavra já estava solta no mundo:
Tati e Ana, repórteres da minha equipe no Link, twittaram não poder fazer piada com a hashtag (podiam, vocês sabem que eu sou um chefe bonzinho), Fred – que também tá aqui no Link – nem pestanejou e lembrou do velho 1999, enquanto o Marcio K foi achar um post do Lucio de 2001 em que ele anuncia o lançamento da Play (que eu editava na Conrad) e o show do Radiohead pro Brasil (em 2002!). Mas a hashtag foi passando entre muitos amigos, conhecidos e leitores, que aproveitavam a deixa para ressuscitar notícias do passado e anunciá-las como fatos recentes. E antes mesmo de eu falar com o Chico Barney (cê sabe que eu sempre demoro quando tou no táxi), ele foi se desculpando:
Como se precisasse. Depois, conversando com ele, ele disse que achou que eu havia ficado puto, como se um tipo de coisa dessas pudesse me deixar puto (aliás, é ruim me deixarem com raiva…), mas eu achei que nem precisava dessa explicação. Mas vou seguir postando link velho, pelo menos até chegar aos posts de setembro, mês que comecei isso (já tou postando os de março…) – embora eu ache que, antes disso, atinjo uma meta pessoal que estabeleci sobre isso.
Mas essa história toda veio mais uma vez martelar questionamentos sobre o que é novo e o que é velho em tempos de internet, sobre a perenidade e a a perecibilidade dos fatos, sobre o papel da notícia e do jornalismo (embora eu só assuma que o meu Twitter seja jornalismo se você aceitar o meu conceito sobre o tema – de que tudo que um jornalista faz, em relação à comunicação e informação, seja jornalismo). O Twitter, como sempre, é só a ponta do iceberg.
E pode ficar tranqüilo que ano que vem eu lembro: dia 24 de setembro de 2009 foi o #trabalhosujoday.
O Porão do Rock desse ano também deu motivo para o Pinduca escrever um pouco sobre o estado das coisas no rock de Brasília. Vi lá no Senhor F:
“Cheguei a Brasília em 1989, época em que existia uma verdadeira idolatria em relação às bandas da Capital. Lembro de, em minhas primeiras idas ao shopping Conjunto Nacional com a minha mãe, ver vários estandes com camisas que estampavam o nome de bandas brasilienses à venda. Além disso, era comum ter amigos de escola ou de quadra que tinham bandas, numa proporção bem maior do que em outros estados onde havia morado. O rock era uma espécie de orgulho e hábito locais, principalmente para uma cidade nova como Brasília, que ainda buscava a sua identidade cultural.
Viver minha adolescência aqui me fez adquirir uma “alma brasiliense”. E, de uma hora para outra, me vi fazendo parte dessa turma que produzia rock na capital federal. Para a minha geração, dos anos 90, essa história de ser uma banda brasiliense ainda tinha algum valor e rendia até espaço em jornais de outros estados. De certa forma, o estouro nacional da geração anterior (Plebe, Capital e Legião) fazia brotar uma curiosidade por parte tanto do público e crítica brasilienses quanto de outros estados pelo que estava sendo produzido por aqui.”
Sou desta mesma geração do Pinduca, estudamos juntos no Maristão, quando ele ainda tocava no Cravo Rastafari (ou era só o Txotxa e eu tou confundindo?) e zarpei de Brasília rumo à Campinas na mesma época em que a safra Little Quail, Raimundos, Low Dream, Oz e Maskavo começavam a aparecer pelo então ainda decisivo eixo Rio-São Paulo. Pude assistir como cada uma dessas bandas conseguiu sua brecha de sucesso (vi, por exemplo, os Raimundos abrirem para o DeFalla e para o Ratos de Porão no Gran Circo Lar menos de dois meses de fazer o show no Juntatribo que revelou a banda para a crítica paulistana) para, logo depois, perder – cada uma por seu motivo.
Hoje é fácil localizar essa geração de bandas como a segunda onda do rock de Brasília – na época, nos referiamos como sendo a terceira, pois contava-se uma fase de bandas do final dos anos 80, grupos com nomes bizarros como 5 Generais, Marciano Sodomita e Beta Pictoris, completamente desconhecidos no resto do país, mas que por uma faísca de orgulho local disparada pelo trio Legião-Capital-Plebe eram pequenos ídolos locais – tocavam até no rádio. Dessa segunda safra, engolida pelo tempo, só o Finnis Africae e o Detrito Federal conseguiram alguma exposição fora de Brasília. Pra quem era da cidade, qualquer aparição em programa da Cultura em São Paulo (retransmitida para o DF pela TV Nacional) era motivo para celebração.
Mas a geração dos anos 90, no fim das contas, ensina uma nova lição à cidade – a de que é importante fazer música. As três bandas da cidade que conseguiram colocá-la no mapa nos anos 80 definharam na década seguinte e quase todos largaram a música – o Legião acabou após a morte de Renato e sobreviveu em relançamentos e biografias, o Capital tentou resistir na marra e viu até a transformação de Dinho num MPBista eletrônico (enquanto os irmãos Lemos convocavam o vocalista de uma banda chamada Rúcula para o seu lugar) e a Plebe simplesmente acabou. Já a geração dos anos 90 segue firme na música. Os Raimundos continuam na ativa mesmo que apenas como uma paródia de si mesmos. Os três Little Quail ainda mantém-se no ramo – Gabriel é dono do Autoramas, Bacalhau tocou no Rumbora e hoje toca no Ultraje e Zé Ovo segue roadie de bandas. O ex-Marcelo Bighead do Oz virou o Nego Moçambique e até o Giulliano do Low Dream mantém-se DJ. Foram esses caras – junto com mais algumas outras bandas – que criaram a tal cena descrita por Pinduca em seu blog e que fizeram com que Brasília se tornasse uma das cidades com mais tradição em rock do Brasil. O resto do texto segue falando da importância desta percepção até mesmo para a continuação dessa tradição, uma das poucas de uma cidade que não tem nem 50 anos de vida. Vale muito a leitura (a foto eu peguei de uma entrevista que ele deu ao blog Rock Pará).
Você acertou: o show da Orquestra apertou o gatilho da obsessão e cá estou em meio de mais uma, dividindo com vocês, como sempre. Sempre acompanhei de perto a obra de Serge Gainsbourg e seus discos sempre apareceram em momentos estranhos ou inusitados – fazendo sentido à própria figura que Serge projetou para a posteridade. Apreciador não-linear, fui montar os pedaços que conhecia da biografia do sujeito graças à biografia escrita por Sylvie Simmons, editada no Brasil pela Barracuda. Um Punhado de Gitanes reconhece, de cara, não ser uma biografia definitiva, mas uma introdução à obra e à vida de uma figura sem par na história do século passado.
Serge era, ao mesmo tempo, o maior sabotador e o grande conservador da cultura francesa, reinventando-a para a era da música pop cantada em inglês. Serge é uma espécie de Bob Dylan influenciado por James Brown, ao piano; ou um Phil Spector que, quando sai dos bastidores, vira um Bowie 100% irônico; os Sex Pistols e Malcolm McLaren na mesma pessoa; um Chico Buarque cafajeste e politicamente incorreto. Qualquer paralelo é falho: Gainsbourg era um provocador profissional e um conservador ferrenho, maníaco por controle e pela própria família, obcecado com a própria imagem à ponto de reinventá-la a cada dois ou três anos. Cantor, compositor, cineasta, fotógrafo, celebridade e diretor de arte da própria vida, ele é o autor da música francesa mais conhecida do mundo (“Je T’Aime… Moi Non Plus”), além de emplacar dezenas de hits nas paradas de sucesso de seu país. Era uma máquina de composição no ritmo da Motown, mas com um requinte essencialmente europeu e, sua maior contribuição lírica, apegado à sonoridade de seu idioma. Misturando o francês com onomatopéias, costurando aliterações e jogos de duplo sentido com o som e o sentido das palavras, as letras de sua música sequer precisam de melodia para tornarem-se canções. Una-as a uma herança musical de berço que deu-lhe a formação mais clássica que um pianista noturno poderia ter, e aí está Serge Gainsbourg, que ainda temperava a própria imagem pública como um sujeito insuportável, um bêbado que não parava de fumar um segundo, sempre cercado de mulheres lindíssimas e metido em polêmicas absurdas. E, mesmo assim, mesmo sendo uma celebridade intragável – uma espécie de Pedro de Lara com estilo -, um ídolo pop para várias gerações e uma persona non grata que ridicularizou até o hino da França num reggae gravado com a dupla Sly & Robbie, Serge é tratado em seu país como uma instituição nacional.
A minha trip pelo sujeito começou com a resenha do show da Orquestra Imperial e seguiu na primeira parte de um especial no Vida Fodona. Como disse no programa, não sei se o próximo VF vai ser dedicado ao sujeito ou intercalo com um programa tradicional, mas certamente a parte 2 vem em seguida. Além dos podcasts, resolvi compartilhar alguns pérolas que me acompanharam nessa viagem, caçadas no YouTube. São seções de vídeos – shows, clipes e programas de TV – que contam as diferentes fases da carreira de Serge. Não vou entrar em muito mais detalhes em sua vida e carreira em texto – vou deixar pra falar disso no Vida Fodona e ligar a TV Serge Gainsbourg por uma semana ou duas (vai saber). E os 4:20 também vão na onda – e serão temáticos sobre a França até essa brincadeira acabar.
E se você não sabe falar francês, não liga. Eu também não sei.
Sesc Pinheiros @ São Paulo
3 de setembro de 2009
Orquestra Imperial – “Commment te Dire Adieu”
Confesso que minha expectativa ficou entre a empolgação e o pé-atrás. O primeiro sentimento, claro, vinha da simples notícia que um dos principais colaboradores de Serge Gainsbourg, o maestro Jean-Claude Vannier, conduziria a Orquestra Imperial rumo a um mergulho na obra do maior nome da música pop francesa, escudado por ninguém menos que Caetano Veloso e Jane Birkin, musa maior de Serge. Por outro lado, o risco de carnavalização de uma obra cuja esculhambação era milimetricamente calculada existia e a possibilidade de esquentar, na marra, um autor essencialmente cool me fazia ter alguma ressalva em relação ao espetáculo.
Minha desconfiança já vinha se aquietando à medida que as primeiras matérias sobre o encontro saíram: falavam de um Vannier mão-de-ferro, que pensou que a Orquestra Imperial fosse uma orquestra de fato e que não gostava de brincadeiras nos ensaios. Um almoço com uma amiga no dia da estréia me pôs na mesma mesa de um dos envolvidos com o evento que, além de umas piadas de bastidor, ainda deu uma prévia do que esperar da noite.
E o ar que Vannier impôs sobre a Orquestra encaixou-se perfeitamente ao clima austero do teatro do Sesc Pinheiros. Sentados e paramentados como uma big band, o grupo funcionou como um relógio e os arranjos tensos e complexos apresentaram pouco espaço para o improviso. O ar de sobriedade era dado pelo próprio maestro, sentado ao piano de cauda à esquerda e revezando-se em teclados elétricos vintage, que conduzia a orquestra e chamava os vocalistas ao palco com o desprezo natural da língua francesa.
Assistimos a um show de precisão e sofisiticação, mas, principalmente, de conjunto – e aí o mérito recai sobre Vannier. Ele deu à Orquestra ares europeus inimagináveis e seus músicos e vocalistas gostaram de como foram vestidos. Nas primeiras músicas, era possível notar algum nervosismo nos cantores – ainda inseguros como o francês, com os primeiros minutos da apresentação e com o clima da noite -, que logo se dissipou: Moreno Veloso soou meio caricato no início de “Comic Strip”, logo envolto pelas onomatopéias estridentes da Bardot encarnada por Thalma de Freitas; em seguida a própria Thalma – novamente Bardot – titubeou um pouco em “Contact”, mas era natural do início do show.
A tensão ficou para trás quando Nina Becker vestiu-se de Rita Lee para encarnar a Françoise Hardy de “L’Amour en Privé” escudada de um Nelson Jacobina posando de guitar hero tropicalista. A partir daí já era possível ver os sorrisos entre os músicos da Orquestra e a sutil descontração do maestro. Thalma voltou para mais uma de Hardy (“Commment te Dire Adieu”) e para posar de Jane Birkin para Vannier, que assumiu os vocais de duas músicas (“Ballade de Melody Nelson” e “Ah Melody”) do disco central de Serge, Histoire de Melody Nelson. Mais uma com Thalma (“Insoluble”) e a Orquestra entra em mais uma faixa instrumental tirada de uma trilha sonora composta por Gainsbourg. A primeira – “Les Chemins de Katmandu” – abrira o show e agora era a vez de “Slogan”. Mais tarde viriam a roqueira “Cannabis” e a delicada “Théme 504”, com o vibrafone tocado por Kassin. E por mais que os intérpretes tenham brilhado em seus momentos solo, aí estava o grande trunfo do show. O corpo instrumental que a Orquestra Imperial se tornou nas mãos de Vannier tinha tanto parentesco com a obra de Gainsbourg como da fluência da própria orquestra por estilos diferentes – do jazz funk à surf music, passando por embalos rítmicos, marchinhas de carnaval, groove pesado, funk brasileiro ou canção francesa. Dava pra ouvir diferentes grupos nos detalhes da Orquestra, um grupo de músicos que se dá ao luxo de ter o melhor baterista da históriia do Brasil – Wilson das Neves – entre seus percussionistas. Mais dois hits – “Bonnie & Clyde” relido por Stephane San Juan e Nina Becker, com a cuíca vocal cantada por Thalma, que logo depois assumiu “Harley Davidson” acompanhada da guitarra de Kassin – e chega a hora dos convidados de luxo.
Jane Birkin e Jean-Claude Vannier – “Fuir le Bonheur de Peur Qu’il Ne Se Sauve”
Jane Birkin entra animada, falante, de jeans e camiseta regata, misturando inglês e francês e esbanjando toda a simpatia do mundo, como se ela pudesse ocultar o fato daquela senhorinha um dia ter sido um monumento à beleza feminina e logo depois engata “Fuir Le Bonheur de Peur Qu’il Ne Se Sauve” acompanhada apenas do piano de Vannier. Caetano entra na música seguinte, tímido e vestido como deve se vestir quando sai pra comer uma pizza (contrastando com os trajes de gala do resto da Orquestra), ele inicia o dueto de “Je Suis Venu Te Dire Que Je M’en Vais” com Jane enquanto ela se encosta nele como se abraçasse um velho namorado. Caetano, a princípio travado – parte da cena? Só ele sabe – logo se entrega ao corpo de Jane e os dois cantam um dos melhores momentos da noite. Caetano segue no mesmo nível e trasforma “Baudellaire” em uma música sua, mudando apenas a velocidade do andamento (incluindo até um trecho do velho samba-canção “Siga” no final da faixa).
Orquestra Imperial e Caetano Veloso – “Baudelaire”
O show termina com a celebração ao redor do disco Percussions, que Gainsbourg gravou com uma banda africana, e, assim, carnavalesco como temia incialmente, mas completamente dentro do contexto da noite (atenção para a caricatura assumida de Domenico em “New York U.S.A.” e na empolgação de Rubinho Jacobina em “Les Sambassadeurs”). A banda se despede com a última música lançada por Serge Gainsbourg, ironicamente batizada de “Requiem pour un Con” (“Réquiem para um Idiota”), em que cada músico vai saindo do palco e batendo continência para Vannier que termina sozinho no palco.
Logo em seguida entra Jane Birkin. Não há mais maestro, nem banda, nem tempo para apresentações ou agradecimentos. Sozinha ao microfone ela canta “La Javannaise”, uma das músicas mais bonitas do período pré-pop de Gainsbourg. Um encerramento perfeito para uma apresentação histórica que uma boa alma conseguiu disponibilizar para download. Assim, a impressão não é só minha.
Dessa vez mexendo na história do mercado editorial:
Qual é o segredo do autor do ‘Código Da Vinci’?
Dan Brown volta às notícias com seu novo livro, ‘The Lost Symbol’: o e-book está vendendo mais do que o livro de papel
Vão falar em conspiração. Apesar do novo livro de Dan Brown, The Lost Symbol, mais uma vez abordar temas polêmicos, ele está prestes a entrar para a história por outro mérito: desde seu lançamento, na terça-feira passada, o livro ocupa, simultaneamente, as duas primeiras posições na lista dos mais vendidos em ficção na loja online Amazon. O detalhe histórico é que a versão eletrônica, o e-book, que só pode ser lida no Kindle, o e-reader lançado pela loja, está acima da versão em papel.
Aguardado desde o lançamento de O Código Da Vinci, que vendeu mais de 80 milhões de exemplares em todo mundo, o livro não criou uma expectativa de lançamento como se esperava, mesmo com o uso de ferramentas como o Twitter e o Facebook para promovê-lo. Mas sem vender um exemplar sequer, Lost Symbol já tinha conseguido seu pequeno lugar na história ao se tornar o primeiro livro a ser lançado tanto em formato eletrônico quanto em papel no mesmo dia. Até então, a cópia eletrônica sempre era lançada depois.
Mas bastou o livro chegar às lojas para conseguir suas primeiras marcas consideráveis. A primeira foi no terreno físico. Lost Symbol atingiu a marca de um milhão de cópias vendidas no primeiro dia de lançamento.
O feito invejável veio logo que a semana terminava e, embora a Amazon não confirmasse oficialmente, estava no site: o e-book, lançado há menos de uma semana, era mais vendido do que a edição de papel, posto em pré-venda há seis meses.
No Brasil, a editora Sextante, que lançará o livro em dezembro, já criou um blog (www.sextante.com.br/simboloperdido) para divulgar o lançamento. Mas não há previsão sobre uma versão eletrônica do livro.
Mas o ponto é que, mesmo que no fim das contas o e-book ainda não desbanque o livro de papel, vimos, na semana passada, o primeiro passo dado rumo à popularização do livro eletrônico, fato de que até os mais céticos duvidavam.
E aí, já definiu pra qual dos dois festivais você vai? Planeta Terra ou Maquinária?
Eu já: vou pro Planeta Terra. Primeiro porque o festival vem provando há duas edições que dá pra fazer um festival decente, cobrando um único preço razoável para assistir a várias atrações na mesma e única noite. Segundo porque estou curioso pra saber como fazer funcionar um festival no Playcenter às vésperas do renascimento da Barra Funda. O bairro está passando por uma evolução imobiliária de larga escala e é questão de anos para vermos aquela região dos galpões transformar-se em um dos melhores lugares de São Paulo. E terceiro porque mesmo sem fechar as atrações principais (por enquanto, além do Maximo Park, do Metronomy e do Primal Scream, a especulação caía sobre a possibilidade de trazer Neil Young – imagina… -, Snow Patrol ou Sonic Youth – e acho que essa última leva), o festival ainda me parece mais interessante do que o Maquinária.
Esse, por sua vez, me parece acumular defeitos – quase todos vindo pela via pessoal. Não estou entre as viúvas do Faith No More, muito menos das do Jane’s Addiction, dois shows facilmente perdíveis (embora esteja cogitando pegar o FNM em outra praça), mas um festival que inclui estas duas bandas e ainda adiciona o Evanescence à mistura me parece o oposto de uma boa noite. Junte isso ao fato do evento acontecer na mesma Chácara do Jóquei que viu o fiasco de produção pós-show do Radiohead esse ano e já tenho ingredientes para deixá-lo fora da minha mira.
Há quem diga que um dos festivais vai dar com os burros n’água. Exagero. São Paulo é uma cidade grande o suficiente para comportar dois – ou mais – eventos de tais proporções no mesmo dia. Fora que eu acho que, além de não competir diretamente, os dois festivais ajudam a fazer uma separação que não diz respeito especificamente a gênero musical ou a faixa etária, mas a uma combinação dos dois misturada com o momento atual do pop no Brasil.
Não são dois festivais de música pop e pronto. Um soa mais pesado e tem apelo mais juvenil, o outro soa mais indie e tem um enfoque um pouco mais adulto. O problema é que, no Brasil, não existe a possibilidade de se encarar música pop e idade adulta ao mesmo tempo. Aqui ou você gosta da Alta Cultura ou é apenas um moleque. É uma piada de mau gosto que faz com que aconteça alguns absurdos que já nos acostumamos: a ausência de uma revista de música num país essencialmente musical, a insistência de artistas juvenis de outrora em continuar insistindo no mesmo hit do passado, a existência da MPB como gênero musical (e chancela instantânea de bom gosto), o melhor da cultura brasileira dos últimos 30, 40 anos sendo tratado como descartável e passageiro, até ser descoberto por algum gringo desavisado.
E você, vai em qual dos dois?
Banda Black Rio (com Mano Brown) – “Mente do Vilão”
O privilégio de ter leitores bem informados é ouro. O Peu escreveu pra dar nome aos bois sobre o tal Tá na Chuva, CD de inéditas dos Racionais que está circulando online:
“Cara, não dá pra cair nessa compilação sem vergonha q nego lançou na net, a começar pela capa tosca… Vamo lá:
“Mãos” é uma gravação que tem uns 5 anos e já saiu no disco do Almir Guineto
“Quem procura acha” é um rap super antigo, dum tal grupo Sabedoria de Vida, apadrinhado na época pelo Mano Brown que só aparece na introdução. Já foi lançada faz uma era, chegou a tocar na rádio 105 fm e nem a música nem o grupo vingaram… ouvindo o som se entende por que…
“O jogo é hoje” é uma música feita para uma coletânea produzida pelo Mano Brown pra Nike, cd promocional sobre futebol, batalha das quadras, alguma campanha dessas
“Inimigo é de Graça” – Musica do Utime, grupo produzido e lançado pelos Racionais mas já lançada no cd deles
Possemente Zulu (com Mano Brown) – “Nova Função”Faltou ainda “Mente do Vilão” (lançada pela ‘nova’ Banda Black Rio, que constrange semanalmente pelos bares e casas noturnas de são paulo os geniais criadores da ‘original’ BBR) e “Nova Função” do PosseMenteZulu que às vezes são divulgadas na net como sendo músicas novas dos Racionais…
Racionais MCs – “Canto de Oração & Oya”De tudo, as únicas que são novas mesmo, e que acredito que podem sair num possível cd deles (tenho grande dúvidas se eles ainda têm pique para lançar um cd no formato tradicional) são “Oya”, “Tá na chuva” e “Mulher Elétrica”, que eles já estão inclusive tocando em shows. De resto, essa nova versão pra “Artigo 157″ ficou animal. Mas na boa, se eles lançarem um disco novo recheado de gravações para outros projetos e Remixes, é sinal de que deviam ter parado de vez… ou apelam logo para um Acústico fim de carreira, com direito a Fim de Semana no Parque, Voz Ativa e Um Homem na Estrada…”
Valeu, Peu, pente fino bonito que certamente será copiado em algumas matérias que começarão a aparecer sobre o grupo (você sabe que um dos meus passatempos favoritos é dar idéias de pauta, via Trabalho Sujo, pra editores de cultura preguiçosos espalhados pelo Brasil). Mas é quase certo, portanto, que esse disco não é oficial – se for, concordo contigo que é vacilo master dos caras de reaparecer com uma compilação mezza boca dessas (salpiquei esse post com as faixas que o Peu cita e que eu não havia linkado no post oriiginal).
Mas é um alívio, afinal, isso quer dizer que o grupo realmente pode retomar seu papel de liderança (quase política) e voltar o foco para a música. Descaradas, no entanto, ficam as intenções de Brown, Blue, Edy e Kléber. O zunzum que que apelida informalmente a nova fase do grupo de “Racionais Paz & Amor” (numa clara referência ao “Lulinha Paz e Amor” do presidente da República) não veio do nada…
Céu sorri. Preguiçosa, estica-se pequena num cenário de graves quentes, timbres analógicos e percussão minimalista. Efeitos sonoros (o crepitar do vinil, um lento scratch) e teclados elétricos da idade da pedra ajudam a desenhar uma paisagem descrita em câmera lenta. Envolta na névoa branca da psicodelia jamaicana, ela, no entanto, não é uma Alice recém-chegada no país das maravilhas do dub. Pelo contrário – pela cor amarela das pontas dos dedos das faixas de Vagarosa dá pra perceber que ela mesma é a patroa, a própria Lagarta fumando em seu narguilé, enquanto recosta-se sobre seu sofá-pufe em forma de cogumelo. Ela é nativa.
Embora não pareça. O sorriso estampado na capa do primeiro disco foi bookmarcado pela Apple e ajudou a vender a loja de MP3 de Steve Jobs como uma de suas artistas favoritas, quase sempre apresentada junto de seus produtos como exemplo da pluralidade da empresa. Seu sempre referido berço musical (“filha do maestro Edgar Poças, o criador da Turma do Balão Mágico, começou cedo no meio artístico”, todas as matérias irão dizer) também a coloca como refém de uma inevitável carreira musical, quando, na verdade, muitos dos méritos são seus.
Vagarosa, seu segundo álbum, começa com um pequeno prelúdio em samba (“Sobre o Amor e Seu Trabalho Silencioso”) tocado apenas ao cavaco e disfarça na largada, mas reforça seu mote logo na primeira frase: “Vai pegar como bocejo”. É a primeira de uma série de metáforas que reforçam, no decorrer do disco, seu clima lento e sossegado – e também é mesma conclusão do refrão da primeira música de fato: a irresistível “Cangote”, que instaura a vibe de sauna canabista que impregna as paredes do álbum, que esparrama-se e rola por sobre timbres cirurgicamente aquecidos pelos produtores Beto Villares e Gustavo Lenza que, ao lado da cantora, recepcionam nada menos que a fina flor da música brasileira atual.
Por Vagarosa passam luminares da primeira década do século no país: Fernando Catatau, BNegão, os Sebozos Postiços (Lucio, Pupilo e Dengue), os teclados de Bactéria (Mundo Livre S/A) e Chiquinho (Mombojó), os sussurros de Thalma de Freitas e Anelis Assumpção, Curumin e Guizado, além do veterano baterista Gigante Brazil e do highlander Luiz Melodia, único responsável por tirar o disco do clima esfumaçado do Sumaré e trazê-lo para o samba de alguma das duas Lapas – a paulista ou a carioca -, na deliciosa “Vira Lata”.
Mas entre tantos convidados ilustres, Céu ainda é a patroa. Como no primeiro disco, o novo também funciona na medida de sua voz – por vezes inflexível e hipnótica (“Papa”, “Sonâmbulo”, “Nascente”, “Ponteiro”), por outras sedutora e caliente (“Cordão da Insônia”, “Grains de Beaute”, “Bubuia”). Ela equilibra timbres e músicos com sua batuta vocal e a pós-produção só salienta ainda mais sua presença musical, tratando arranjos de cordas e de metais, convidados e instrumentos como samples vivos. Vagarosa é um disco quase gêmeo de 3 Sessions in a Greenhouse, de Lucas Santtana, mas enquanto Lucas convidava o ouvinte para entrar no universo dub em pleno estúdio, Céu deixa seu espectador do outro lado do vidro, transformando-se – e a todos em seu disco – num animal de zoológico, encarcerada como atração turística. Questão de ponto de vista: do lado de lá, ela está livre em sua nação de sons e sonhos, cantando para ouvintes encarcerados do outro lado do vidro. Ao pegar carona com o dub, Céu deixa os clichês de MPB anos-luzes no passado e livra-se de toda uma herança secular brasileira (o compromisso com o samba é assumido de forma quase didática, através da participação de Melodia e pelo cover de Jorge Ben com os Sebosos Postiços, em “Rosa Menina Rosa”) para abraçar uma sonoridade mais próxima de nossos dias do que os dos ídolos de nossos pais, que ainda teimam em dar a benção para quem quer se aventurar nesse métier. Céu nem olha pros lados, chama os amigos, mira pra frente – e vai embora. Sorte nossa.












