Materinha de apresentação da edição do Link de hoje.
2010: de zero a cem em onze dias
Ninguém poderia prever. Mas a década mal havia começado e uma notícia pegou todos de surpresa. Um gigante online entrava com tudo num mercado tradicional pagando bilhões de dólares. Quando a America Online anunciou a compra do grupo Time Warner por US$ 164 bi no dia 10 de janeiro de 2000, há exatos dez anos e um dia, o mundo parou para discutir a importância daquilo que parecia ser apenas uma novidade da década anterior e que, ano recém-começado, dava pistas de que deixava de ser uma rede de contatos entre adolescentes, tecnófilos e acadêmicos para mexer de forma agressiva no resto do mundo.
2010 não começou com um único anúncio bilionário, mas com várias notícias de diversas áreas distintas que sacramentam a importância assumida pelo mundo digital. A começar pela maior feira de tecnologia do mundo, a Consumer Electronics Show (CES), em Las Vegas, que em todo janeiro, desde 1967, apresenta produtos e tendências que irão dominar o ano. Se em 2009, a feira foi abalada pelas notícias da crise econômica mundial, em 2010 ela já prometia a recuperação do mercado de tecnologia.
Se fossem só as novidades da CES 2010, já teríamos motivo para começar o ano com boas notícias: TVs e carros que acessam a internet, entretenimento doméstico incorporando o 3D, novas marcas se estabelecendo no mercado, computadores cada vez menores e integrando funções de outros aparelhos, tecnologia “vestível”, rivais para o Kindle. O Link esteve em Las Vegas e mostra nesta edição as principais novidades da feira que terminou no domingo.
Duas notícias paralelas à CES mexeram com a própria feira. O anúncio do Nexus One, o telefone do Google, não foi feito na terça-feira passada por acaso – ele simplesmente ofuscou quaisquer outros celulares que foram apresentados em Las Vegas, pelo simples fato de ter sido feito pelo Google.
O anúncio do novo aparelho – cujas expectativas foram aquém do esperado – pode, de cara, mudar completamente o relacionamento entre fabricantes e operadoras. E mostra uma faceta inesperada para a empresa – não bastasse ir para o mercado de celulares com seu sistema operacional, o Android, o Google agora atua no mercado de hardware.
A outra novidade que abalou a CES nem sequer é notícia, mas apenas um rumor que começou a circular no final do ano passado e causou até a subida das ações da Apple. Um suposto lançamento anunciado para o final deste mês jogou luz sobre um aparelho que estava fora do foco das novidades tecnológicas. E bastou uma especulação para que concorrentes apressassem o lançamento de seus próprios tablets. Pois é sabido que, como aconteceu com o MP3 player e o celular com muitas funções, uma vez que a empresa de Steve Jobs lança um determinado produto novo, é o suficiente para que outras marcas se animem e corram para entrar neste mercado.
A outra novidade é brasileira e veio na quarta-feira, quando a TV Globo anunciou os participantes da décima edição do Big Brother Brasil e nada menos do que cinco dos novos candidatos do reality show são personalidades que já eram conhecidas em diferentes nichos da internet.
Pode parecer bobagem, mas é uma prova de que até a principal emissora do País passa a dar atenção para a cultura digital em sua programação – o que é bem diferente de exibir URLs na tela da TV ou acessar a programação via internet. A fusão entre reality show e web 2.0 veio apenas escancarar uma suspeita – a de que, independente da plataforma em que as pessoas estejam, seja TV ou internet, é cada vez mais comum exibir-se para os outros e não se preocupar com a própria privacidade. A nova edição do Big Brother Brasil, que começa amanhã, pode acelerar essa tendência, além de desafiar a disposição das celebridades de nicho num veículo de massa.
Em entrevista recente ao Link, o futurólogo Alvin Toffler afirmou que estava cada vez mais difícil fazer previsões sobre o futuro da tecnologia. O próprio anúncio da compra da Time Warner pela America Online, que parecia criar um novo gigante online, deu com os burros n’água e foi eleito neste ano, pelo jornal inglês Telegraph, como a pior fusão de empresas da década passada.
Mas do mesmo jeito que aquela notícia antecipou a importância da internet na década passada, será que estas primeiras notícias de 2010 podem funcionar como um aperitivo dos próximos dez anos? Ou será que é melhor chutar o que pode acontecer na próxima década? Na dúvida, escolhemos as duas opções.
Mais um capricorniano de janeiro que aniversaria: desta vez é um dos discos mais importantes da história do rock, London Calling, do Clash, que completa três décadas de vida exatamente hoje. Em homenagem ao disco, ressuscitei um texto que escrevi há um tempão – quando o disco completou vinte anos.
Eram quatro sujeitos briguentos, geniosos, difíceis de se lidar. Mimados como a primeira tropa da nova revolução musical e comportamental no planeta, os quatro tornaram-se ainda mais temperamentais, explodindo raiva em cima de todos com quem conviviam, incluindo eles mesmos. Mas, juntos, Mick Jones, Joe Strummer, Paul Simonon e Topper Headon tinham um entrosamento difícil de conceber mas transparente, intacta.
“Raiva pode ser poder” cantaram em seu disco mais memorável – o clássico London Calling – e seguiram este credo por toda sua curta existência, erguendo, como na gênese do rock, a bandeira da insatisfação, apatia e rebeldia de toda uma geração contra uma série de regras preestabelecidas por adultos de forma agressiva e sem meios termos. Grunhindo opiniões sobre todos tipos de política (governamental, individual, social, internacional, sentimental, existencial), o grupo traduzia os elementos básicos do rock como parte de uma revolução pessoal que, através de suas músicas, batia em todas as portas recrutando soldados da nova cruzada. “O rock da revolução”, como eles mesmos disseram, “é um estado de choque”.
Mas embora a química perfeita dos músicos combine com suas personalidades exigentes e sua imagem praticamente intacta (comparando-se apenas ao Who no quesito “rock perfeito”), o Clash começou através das mãos de um empresário, Bernie Rhodes, que quis aproveitar o vácuo deixado por mais um das picaretagens de seu rival, Malcolm McLaren. Este havia juntado quatro moleques com total liberdade para serem os piores possíveis e tocarem o mais alto que conseguissem (criando os Sex Pistols). Com eles, o empresário conseguiu o espaço que queria para lançar suas idéias e, depois de circular pelas ruas de Londres à noite, inventou a estética do punk e a vendeu para a mídia.
Rhodes havia percebido a possibilidade de McLaren estar certo e na mesma hora catou músicos da banda 101ers com da London SS, duas bandas barulhentas que lutavam por um lugar ao sol pelos squats londrinos. Da 101ers (cujo nome saiu do número do squat que eles moravam – o mesmo da sala de tortura de 1984, de George Orwell) saíram o guitarrista Keith Levene, o vocalista Joe Strummer e o baterista Terry Chimes (também conhecido por Tory Crimes, apelido que pode ser traduzido por “crimes do partido conservador”). Da London SS saíram o guitarrista Mick Jones e o baixista (e estudante de arte) Paul Simonon. O nome, Clash (”confronto”), era uma palavra freqüente nas manchetes dos jornais.
Levene saiu da banda logo no começo, iniciando sua carreira de outsider (sairia também, mais tarde, do Magazine e do Public Image Ltd.), Chimes substituído rapidamente por Tony James (que depois iria para o Generation X e, mais tarde, para o Sigue Sigue Sputinik), que saiu para dar lugar a Topper Headon (que havia tocado no London SS). Como um quinteto, eles entraram na primeira turnê dos Sex Pistols pela Inglaterra em 1976 – na lendária Anarchy in the UK Tour (que deu origem a grupos como Joy Division, Buzzcocks e Siouxsie & the Banshees) – e logo se tornaram o equivalente Rolling Stones dos Beatles Sex Pistols.
A princípio, a comparação era justa. Em seus dois primeiros discos (The Clash – ainda com Chimes – e Give’Em Enough Rope), o Clash era uma banda tão barulhenta como os Pistols, mas mais viscerais. Como os Stones, o Clash bebia direto na fonte da música negra: enquanto Jagger, Richards e Jones contrabandeavam discos de blues e rhythm’n’blues norte-americanos no início da década de 60, os quatro punks vinham se embebedando de música jamaicana, que ao mesmo tempo que tomava conta dos guetos londrinos vinha ganhando popularidade e entrando na mídia através de Bob Marley.
Gravaram “Police & Thieves”, de Junior Murvin, em um de seus primeiros singles, e “Complete Control” foi produzido por Lee “Scratch” Perry. Este contato com o reggae e seus afluentes deu-lhes não apenas uma noção mais pessoal e ao mesmo tempo global da noção de política que o grupo pregava em seus hinos do contra com menos de dois minutos, como funcionou como a chave para a expansão do conceito punk que o Clash abriria logo depois de gastar sua munição pesada nos discos de estréia.
Como os Sex Pistols, o Clash esgotou-se após o segundo disco. O punk tosco e primitivo contra tudo e contra todos dos dois grupos começaria a se repetir, foi a gota d’água. Os Pistols debandaram em San Francisco, depois da única e fatídica turnê pelos Estados Unidos, em que Syd Vicious furava suas mãos com cacos de vidro gigantescos só para impressionar os caubóis americanos. O Clash desviou o esgotamento criativo por culpa do reggae. Ao adotar o ritmo jamaicano, o grupo inglês logo tinha um vínculo com algo maior que a classe operária inglesa. Logo falavam de problemas mundiais, de crises internacionais e dos oprimidos em geral. Musicalmente, o reggae libertava-os dos padrões estéticos tradicionais do punk. Por um lado, a influência latina e africana os deixava confortáveis com as variantes de ritmo. Por outro, tomavam emprestado o soul e o blues que os reggaeiros surrupiaram dos EUA para transformar o ska em rock steady. E finalmente o dub os mostrou que não há limites se o assunto é experimentação em estúdio.
Assim, começaram a gravar o disco que os consagraria na história do rock. Mais do que firmá-los como sobreviventes da primeira leva do punk inglês, London Calling transformou o grupo num grupo de rock perfeito. Expandindo seus horizontes musicais à medida que o disco vinha sendo gravado, o Clash resolveu aventurar-se por diferentes terrenos sonoros, indo cada vez mais longe à medida que iam andando. E à medida que iam gravando, assistidos pelo produtor Guy Stevens (o mesmo do Mott the Hopple), desvendavam a amplitude da música popular de seus tempos e ligavam pontos e gêneros, descortinando não apenas o amadurecimento musical do grupo, mas todo um universo musical cujas partes insistiam em fingir não ser um todo. “Eclético” foi o adjetivo usado para descrevê-lo no início, mas o Clash não estava sendo várias bandas, mas apenas eles mesmos, quem eles queriam ser. Com o auxílio do tecladista Mickey Gallagher (que tocava nos Blockheads, com Ian Dury) e de um time de metais, o disco tem reggae, jazz, rockabilly, rock, música latina e a versão que a dinâmica entre quatro sujeitos de convivência difícil dava à música que eles tocavam.
“London Calling” abre às marteladas que Joe Strummer e Mick Jones dão em suas guitarras à medida que Topper Headon golpeia metronomicamente sua bateria. Paul Simonon entra escorregadio, sorrateiro, como se observasse o tumulto à distância até a introdução deixar Strummer berrar o início da música. “Londres chama as cidades distantes/ Agora que a guerra começou e a batalha vem aí”, Joe canta sobre uma Londres decadente, mas de outro ponto de vista. Se antes gritava London’s Burning como se comemorasse o caos que é o inferno, agora assiste a tudo friamente, sem emoção: “A era glacial está vindo/ O sol se aproxima/ Máquinas parando, o trigo cresce magro/ Um erro nuclear, mas eu não tenho medo/ Porque Londres afunda e eu vivo à margem”. A mensagem é simples, mas descrita de forma apocalíptica e fatal; o instrumental também amadurece instantaneamente. Mick Jones empunha sua guitarra como um verdadeiro guitar hero (mas sem solar, apenas soltando os guinchos que o punk lhe ensinou), a cozinha deixa a canção com ar pesado e sombrio, Strummer canta como se fosse o último homem vivo e eles se dão ao luxo até de alguns overdubs, como as guitarras invertidas da metade da música e o código morse ao final.
A faixa-título cai com a força de uma bomba, mas mesmo entre a poeira levantada percebemos ser uma canção correta, bem acabada, pop (tanto que o Kid Abelha surrupiou sua introdução para compor “Educação Sentimental II”, substituindo o baixo pelo sax). Não tem a agressividade de um coquetel molotov nem a violência de um porrete, mas acerta em todos os alvos em que mira justamente por tirar o punk da sociedade. Enquanto a maioria reclama das condições de vida e contra o sistema, o Clash sai um pouco da cidade e tenta observar tudo de fora. Com este distanciamento – e graças à então nascente crítica musical rock nos Estados Unidos -, eles contaram a história do rock de seu próprio ponto de vista. O punk não era uma ruptura, era apenas uma afirmação de uma certa marginalidade que sempre existiu no ser humano. A diferença é que marginal vem de “margem” e não significa ladrão ou mau caráter. Por todo London Calling assistimos histórias de personagens que negam-se a viver como o sistema quer justamente por ir de encontro ao indivíduo. E entre caubóis, soldados, apostadores, fugitivos, artistas, rude boys, rockers, mocinhos e operários, o Clash mostra que é preciso sair da vida quadrada que planejaram pra gente se quisermos ter um mínimo de verdade em nossas vidas.
“Brand New Cadillac” aponta para uma direção que não havíamos pensado no punk inglês. Enquanto o punk americano sabiam quem eram seus ancestrais (os Ramones amavam surf music e bubblegum, os Talking Heads e o Blondie era um grupo de garagem, os Feelies recitavam Beatles e Rolling Stones e Modern Lovers e Velvet Underground, o Television urbanizava a guitarra psicodélica), a versão britânica do surto de rebeldia juvenil que tomou o planeta de assalto nos anos 70 faziam questão de mostrar o quanto diferente eles eram de tudo que havia vindo antes. A primeira onda de punk da Inglaterra é tosca, mal tocada, grotesca, rude, primitiva: Sham 69, X-Ray Specs, Damned, 999.
O Clash surgiu como uma das primeiras bandas daquela tropa pioneira capitaneada por Johnny Rotten, Sid Vicious, Steve Jones e Glen Matlock. Mas à medida que esta primeira geração se viu presa no próprio estilo que haviam irrompido, uma segunda aparecia sem vergonha de dizer que eram herdeiros de alguns ídolos do passado. O Joy Division citava Velvet Underground e Doors, o Gang of Four usava Marx e funk ao mesmo tempo, as bandas da 2Tone – Specials, Madness, Selecter – desvendavam o ska dos anos 60 para a eternidade, os Buzzcocks e os Undertones vinham da fase careta dos Beatles. Podia ser um mundo novo, mas existia um passado.
Quando o Clash invade os anos 50 de jaqueta e topete empolgadíssimo com o Cadillac novinho que a namorada do protagonista acabou de comprar, eles oficializam essa tendência. Encarnam o rockabilly com uma garra não vista desde “Long Tall Sally” e Strummer encarna o mocinho que toma um pé na bunda na última cena (”Balls to you daddy”/ Ela não vai voltar pra mim!”) com perfeição, enquanto a banda, afiadíssima, galopa o rock caipira americano em direção ao punk. E enquanto todos esperam que o herói da música seja o vocalista, vemos sua namorada, com um carrão, deixando o cara pra trás.
“Jimmy Jazz” volta ainda mais no tempo e muda o espaço. Logo estamos num beco sujo e mal iluminado, onde a guitarra perambula chutando latas ao som de pessoas conversando em algum clubinho noturno. O assobio desinteressado entra em ação junto com o baixo e Strummer explica a situação: “A polícia entrou procurando Jimmy Jazz/ Eu disse, ele não está aqui, mas já esteve”. Boemia de subúrbio, jazz ainda sendo tratado como coisa de marginal, a canção dança enquanto caminha, rebolando à medida que anda, contando os tempos da música a cada passo. A primeira intervenção do trio de metais acontece nessa faixa, tirando o Clash do punk e sua filosofia de vida dos anos 70. Logo o punk não é mais bandido, nem os bandidos são os vilões, os vilões têm um charme próprio deles. “Que alívio”, agradece Strummer, “me sinto como um soldado e pareço um ladrão”.
“Hateful” entra incisiva, disposta a quebrar o ambiente sossegado que o lado A parece estar criando. Mas no lugar de um esporro punk tradicional, eles conduzem sua energia para as tradicionais batidas pesadas de Bo Diddley, numa ótima faixa, com backing vocals trabalhados de forma inteligente e criativa, que canta sobre a triste relação de pseudoamizade entre usuário e traficante de drogas: “Tudo que eu quero ele me consegue/ Tudo que eu quero ele me dá, mas não de graça/ É odiável/ E é pago e eu agradeço por não estar em nenhum lugar”. “Rudie Can’t Fail” encerra esta introdução do disco com mais um reggae na carreira do Clash. Canta sobre fugir de casa e encarar o mundo “bebendo cerveja como café da manhã”. Mas diferente dos outros reggaes do grupo, este é mais melódico, com o time de metais e com cozinha bem amarrada transpondo o Clash para o Caribe. E é o primeiro vocal de Mick no disco (”Sing Michael Sing”, ordena Strummer no começo da canção): “Fui ao mercado entender minha alma/ O que eu preciso, não tenho”.
Depois de cinco faixas que explicam didaticamente os limites do álbum, London Calling começa pra valer. “Spanish Bombs” nos leva à Guerra Civil espanhola, numa das melhores músicas do disco. Novamente com vocais de Joe Strummer, a faixa descreve um cenário em que as forças militares do governo espanhol (que deram um golpe liderado pelo General Franco em 1936) aniquilavam os rebeldes anarquistas em fuzilamentos em praça pública. Jones canta sobre os “buracos de bala nas paredes do cemitério”, “o exército esfarrapado consertando baionetas para lutar em outro front” e “os carros pretos da Guardia Civil”. No refrão, em espanhol, Mick traz a revolução para o nível pessoal, declarando-se apaixonado pela causa que persegue: “Yo te quiero y finito/ yo te querda, oh, mi corazón!”. Em outras músicas ele continuará cantando entre o global e o individual, usando o amor como metáfora da política e explicando o jeito certo dos dois darem certo – com a verdade.
A voz fria e grave de Mick Jones contrapõe-se à garganta rasgada de Strummer, cujo excelente timbre o transforma numa espécie de roqueiro seminal, clássico, irmão temporão dos primeiros rockers e dos galãs de Hollywood dos anos 50. E é assim que ele entra em “The Right Profile”: “Onde eu que eu vi esse cara?/ No Rio Vermelho?/ Em Um Lugar ao Sol?/ Talvez em Os Desajustados/ Ou A Um Passo da Eternidade?”. Descreve o acidente de carro que matou o ator Montgomery Clift (”Eu vejo um carro destruído à noite/ Cortar o aplauso e diminuir as luzes/ A cara de Monty está quebrada no volante/ Ele tá vivo? Ele sente?”) e da reação de espanto dos transeuntes, que o reconhecem incrédulos: “Todo mundo diz: ‘Ele tá legal?’/ Todo mundo diz: ‘Como ele é?’/ Todo mundo diz: ‘É lógico que é engraçado/ É o Montgomery Clift, honey!”). Strummer canta a apatia do protagonista morto (”Nembutol anestesia tudo/ Mas eu prefiro álcool”) e o desespero dos fãs (tendo um colapso próximo ao fim da música), encarnando ambas formas de energia como se pudesse senti-las. “The Right Profile” também conta com metais, que dão o groove jazzy que os Stones conseguiram em Exile on Main Street.
“Estou perdido no supermercado/ Não posso mais comprar alegremente/ Eu vim aqui por causa daquela oferta especial: / Personalidade garantida”, Mick Jones canta sussurrando sobre a base que sua guitarra havia desenhado dos oito primeiros compassos de “Lost in the Supermarket”. Tocado de forma leve e correta, este refrão acaba criando a sensação de desespero totalitarista que o capitalismo impõe (”Estou sintonizado, assisto seus programas/ Guardo cupons dos pacotes de chá/ Eu tenho meu disco de grandes hits da discoteca/ Esvazio uma garrafa e me sinto um pouco mais livre”). Durante as estrofes, o teclado de Mickey Gallagher surge sutil e ao mesmo tempo imponente, deixando Jones livre para suas recriações na guitarra. Ele não decide entre a base ou o solo e deixa o instrumento falar mais alto no primeiro solo de guitarra. E durante um lamento sobre a solidão (”Os garotos no pátio e os canos na parede/ Fazendo barulho como companhia”), Mick Jones batiza o grupo de humor canadense Kids in the Hall.
“Clampdown” é a vez de Strummer atacar o sistema. As três últimas músicas do lado B do disco são petardos pessoais contra o imperialismo vigente. “Lost in the Supermarket” usa da ironia e da inversão de valores; “Clampdown” é direta e didática; “Guns of Brixton” – de Paul Simonon – vê pelo ponto de vista do oprimido. A versão de Joe Strummer para a investida ideológica explica, sobre um punk tradicionalmente clashiano (baseado no ritmo e na seqüência de simples acordes), as principais regras do jogo, ao trabalhar para um patrão. “Você cresce e se acalma/ (…) E começa a vestir azul e marrom/ Então precisa de alguém para mandar/ Pra se sentir grande/ Você afunda até brutalizar/ Você acabou de matar pela primeira vez”. A agressividade marcial da canção ajuda a enfatizar a força das letras: “Deixe a fúria ter sua vez, raiva pode ser poder/ Você sabia que pode usá-la?”. Jones entra no meio da canção, invadindo com um trecho de uma música sua que não conseguiu sobreviver ao tempo, tornando-se coadjuvante de Strummer ali. Mas não fez por menos: “Vozes em sua cabeça estão dizendo/ ‘Pare de gastar seu tempo, nada vai acontecer/ Só um tolo acreditaria que alguém irá te salvar/ Os caras da fábrica estão velhos e gastos/ Você não tem nada a perder, por isso saia correndo/ São os melhores anos da sua vida que querem roubar”.
É claro que um conjunto pode se basear apenas no talento de uma só pessoa. Mas quando duas personalidades dividem o mesmo palco, uma tensão criativa emblemática é travada, gerando jóias perfeitas. A existência de um terceiro elemento nesta disputa, um ponto de equilíbrio entre os dois egos do grupo, é uma das características mais clássicas na história do rock. É só pensar em George Harrison nos Beatles, Sérgio Dias nos Mutantes, John Bonhan no Led Zeppelin, Keith Moon no Who, Sterling Morrison no Velvet Underground e por aí vai.
No Clash, este terceiro vértice era o baixista Paul Simonon. Enquanto Strummer se esforçava para transformar-se num bad boy à americana, Simonon era tudo que ele queria ser. Topete, olhar distante e ar de apatia que dava o tom blasé que Strummer incorporava, Paul era estudante de arte e morava nas ruas, um misto de James Dean com Dean Moriarty do punk. Tocar baixo numa banda punk era só mais uma das coisas que ele achou que podia fazer, mesmo sem nunca ter tocado um instrumento. Foi lá e conseguiu seu lugar. A ponto de compor sua primeira música no Clash em seu melhor álbum e transformá-la em um dos principais momentos do disco.
“Guns of Brixton” não tem meios-termos. “Quando chutarem sua porta da frente/ Como você vai sair?/ Com as mãos na cabeça/ Ou engatilhado?/ Quando a lei vier/ O que você vai fazer?/ Baleado na calçada/ Ou no corredor da morte?”. É um reggae fantasmagórico, que o usa o poder de hipnotismo do dub para juntar nuvens negras sob o disco. O baixo de Simonon é ostensivo e agressivo, como uma arma levantada em direção ao ouvinte, e combina com o vocal monocórdico e com sotaque rasta forçado. “Você pode nos esmagar/ Você pode nos pisar/ Mas terá que responderá/ Às armas de Brixton”, saúda a principal colônia jamaicana em Londres. Como “Within You Without You” no meio de Sgt. Pepper’s, “Guns of Brixton” tem um papel fundamental em London Calling: é ela quem dá o crédito de rua do grupo. Sem ela, London Calling soaria como a árvore genealógica do rock contada por analistas políticos. Com ela, o disco ganha de volta toda energia punk que abandonara a favor do rock’n’roll.
A eficácia de “Guns of Brixton” pode ser sentida na ordem das músicas a seguir. “Death or Glory”, um dos mais céticos e apaixonados hino ao rock’n’roll, seria a opção perfeita para abrir a segunda parte de um disco cujo nome de trabalho era The New Testament (O Novo Testamento). Mas invejosos do trunfo de Simonon, Strummer e Jones resolveram recomeçar com um reggae, para mostrar que também conseguiriam fazer aquilo (dariam a resposta na dobradinha “One More Time”/ “One More Dub” no álbum seguinte, Sandinista!).
“Wrong’Em Boyo” começa como uma balada punk (com teclados e sopros mágicos), descrevendo uma partida de pôquer entre Billy e Stagger Lee, até que o primeiro, percebendo que vai perder, anuncia mentalmente ao parceiro de mesa que vai roubar “Vou ter que deixar minha faca em suas costas”. “Vamos começar tudo de novo”, pára Strummer no meio da música, transformando-a num ska festivo. A letra é um sermão: “Por que você tenta roubar/ Passar por cima dos outros/ Você não sabe que é errado roubar aquele que tenta?/ É melhor parar, é onda errada” e o clima da canção transforma a aula numa pregação gospel nas ruas de Kingston, num dos melhores momentos caribenhos do grupo.
Sem esperar, “Death or Glory” entra com a base do refrão, para que o público possa cantá-lo antes da música efetivamente começar. Num belíssimo trabalho de guitarras, eles explicam a mitologia do rock’n’roll em uma frase: “morte ou glória torna-se apenas mais uma história”. Eles explicam a repetição da história e como esta acaba se justificando, despindo o rock de suas farsas: “Qualquer idiota cheio de trejeitos cavando ouro do rock’n’roll/ Pega o microfone e diz que morrerá antes de se vender/ Mas acredito nisto e foi confirmado em pesquisas: ‘Aquele que come freiras, mais tarde se junta à igreja’”. Jogando a fama no lixo, eles explicam qual é a deste sentimento chamado rock – “De todo porão sujo e de toda rua suja/ Ouço cada uma das palmas batidas sobre cada um dos ritmos/ É o ritmo do tempo, o ritmo que deve ir/ Se você tem tentado por anos, já ouvimos sua canção”.
“Death or Glory” é uma ode ao gênero maior que “Rock’n’Roll” do Led Zeppelin, “It’s Only Rock’n’Roll” dos Stones e talvez até que “Rock and Roll” do Velvet Underground. Ela varia tempos, abre espaços, cria cenários diferentes à medida que é executada praticamente sem sair do ritmo original, sempre tocado com vigor. Quando Strummer começa a improvisar, balbuciando que “vamos marchar um longo caminho/ vamos viajar por um bom tempo/ vamos viajar pelas montanhas/ vamos viajar sobre os mares”, ele parece um Winston Churchill do punk, só carisma e presença de espírito, clamando as tropas para uma luta que possivelmente não acabe nunca: “Vamos criar problemas, vamos criar o inferno!”, brada entusiasmado, antes da banda voltar ao refrão.
“Elevador, subindo”, sorri o mesmo Strummer no começo de “Koka-Kola”. Na mira do Clash agora está a cocaína, que, em 1979, era a droga da moda. Apesar de conhecer os efeitos nocivos da droga, o grupo não quer reprimi-la – apenas a usa como forma de ironizar da nascente nova classe dominante, jovens executivos engravatados que mandariam nos anos 80 achando que eram modernos porque usavam brincos e… cheiravam cocaína. “Nos corredores lustrosos do 51º andar/ Dinheiro pode ser feito se você quiser mais/ Decisão executiva – precisão clínica/ Pula da janela, cheio de indecisão/ Recebi uma boa nova do mundo da propaganda/ (…) Koka adiciona vida onde não existe/ Então, pare cara. Pare” – ele diz “so freeze man, freeze”, como se apontasse uma arma para o ouvinte.
“É a pauta que refresca nos corredores do poder/ Quando os altos cargos precisam de altas doses um pouco antes do happy hour/ Sua mala de pele de cobra, suas botas de couro de jacaré/ Você não precisa de lavanderia, mande-os pro veterinário”. Yuppies e publicitários, “seus olhos parecem bolas de pinball/ Sua língua fica igual um peixe”, eles acabariam com os anos 80. “Propaganda de Koka-Kola e kokaína/ Descendo pela Broadway na chuva/ A luz do neon diz isso”. A música aponta que a cocaína está onde poucos pensavam na época “Na Casa Branca, que eu sei/ Em Berlim (fazem há anos)/ e em Manhattan”.
“The Card Cheat” começa ao piano, uma baladaça anos 50 tocada com a força de uma banda punk. “Eis um solitário gritando: ‘Me segure’/ Só porque está só/ Se o senhor do tempo correr devagar/ Ele não continuará vivo por muito tempo/ Se ele ao menos tivesse tempo de dizer todas as coisas que planejou/ Com uma carta na manga, o que ele conseguiria?/ Não quer dizer nada”, ele canta novamente sobre uma mesa de cartas e a vontade de roubar o adversário cuja face “quebra com um sorriso/ quando ele baixa o rei de espadas”. Cantando como se realmente dependesse disto (em um de seus melhores vocais), Jones passa de apostador a soldado e chora a perda da amada: “Da guerra dos 100 anos à Criméia/ Com uma lança, um mosquete ou um dardo romano/ A todos os homens que enfrentaram sem medo/ A serviço do rei/ Antes de encontrar seu destino/ Certifique-se antes de desaparecer/ Sua amada pode não estar mais na volta”.
“Lover’s Rock” abre o último lado do disco num rock sossegadíssimo, respirando ares caribenhos para cantar o jeito certo de fazer amor: “Você deve tratar sua garota direito/ Se quiser fazer o lover’s rock/ Você deve saber onde beijar/ Se quiser fazer o lover’s rock”. A música prega a atenção às preliminares e uma visão menos machista do ato sexual, afinal “ela não precisa daquela coisa que ela tem que engolir”, canta Strummer para logo depois certificar-se “sabe do que eu tô falando?”. O final da música perde o apelo caliente para ganhar velocidade e ritmo.
Em “Four Horsemen” o grupo chega como quatro caubóis correndo contra a corrente. “Lhes deram todas as comidas da vaidade/ E todas as promessas de imortalidade/ Mas saíram correndo gritando ‘insanidade!’”. A própria formação do grupo é descrita, num misto de velho oeste, Easy Rider e sua própria história: “Um veio do abismo, o outro do penhasco/ Outro bebia todas com um enorme baseado/ Quando pegaram o carona, este não queria mais sair”. E perguntam ao ouvinte o quanto ele está envolvido: “Mas você, você não está procurando, está?/ Não está olhando pra lugar nenhum/ Nunca andará uma milha só/ Ou colocar a si mesmo em julgamento/ Você me disse que a sua vida está ruim/ Eu acredito, mas pra mim parece triste/ Mas esse é o preço a se pagar/ Por ficar de preguiça todo dia”. I’m Not Down, cantada por Jones e Strummer, é o cuspe na cara do torturador: “Fui espancado, jogado fora/ Mas não estou mal, não estou mal/ Fui exposto, mas cresci/ E não estou mal, não estou mal”. O rock de resistência termina com um desafio: “Você agita por aí e acha que é o mais durão no mundo, em todo mundo/ Mas você está ruas distante de onde fica realmente duro/ Você nunca foi lá”.
O disco termina com “Revolution Rock”, um reggae de celebração ao punk rock. “Todo mundo destrua as cadeiras e dance neste ritmo novo/ Esta música aqui abala nações/ Esta música aqui causa sensação/ Diga à sua mãe, diga ao seu pai/ Tudo vai ficar bem/ Você sente? Não o ignore/ Vai ficar legal”. O clima pra cima do ritmo jamaicano contrasta-se com o manifesto que é London Calling, mas é essa a mensagem: a revolução é uma festa, não é uma guerra – e o rock é o meio.
Escondida sem créditos, o boogie rock “Train in Vain”, gravada para o semanário NME, traz Mick Jones trazendo os conceitos políticos novamente para o nível pessoal. “Você disse que me amava e isso é um fato/ Agora me deixa, dizendo-se aprisionada/ Algumas coisas você pode explicar/ Mas meu coração ainda dói/ Você ficou ao meu lado?/ De jeito nenhum”. Com o coração partido, o marginal sofre da única coisa que realmente o fere. Românticos, o Clash entra para a história do rock como um dos grupos mais coesos de todos os tempos (ou “a única banda que importa”, como clamam seus fãs). London Calling é seu credo – segui-lo não é necessário. É inevitável.
1. London Calling
2. Brand New Cadillac
3. Jimmy Jazz
4. Hateful
5. Rudie Can’t Fail
6. Spanish Bombs
7. The Right Profile
8. Lost in the Supermarket
9. Clampdown
10. The Guns of Brixton
11. Wrong ‘Em Boyo
12. Death or Glory
13. Koka Kola
14. The Card Cheat
15. Lover’s Rock
16. Four Horsemen
17. I’m Not Down
18. Revolution Rock
19. Train in Vain (Stand by Me)
A era da inocência?
E aí, como foi a virada, tudo certo? Os amigos, os amores, a família… tudo direitinho? Comigo, tudo ótimo – descansado, pronto pra nova década. Fechei ontem uma série de posts que deixei programados desde que saí de folga (que deram uma geral tanto nas 300 melhores músicas da década quanto nos 100 melhores discos dos anos 00), antes do natal, e gostei tanto desse papo de lista da década que emendarei este ano com mais uma outra: os 300 maiores nomes de nossos anos 00. Começou com uma lista dos artistas mais importantes (entre bandas, músicos e intérpretes), mas quando eu cheguei â conclusão de que Britney Spears era o nome mais importante da música destes dez anos, vi que tinha algo faltando. Britney passava, fácil, mestres como Daft Punk, LCD Soundsystem e Radiohead em importância, onipresença e constante reinvenção da própria personalidade – imagine um David Bowie sem alma, que sabe que é um personagem inventado por alguém. Aí depois lembre-se que este mesmo personagem – vazio, – protagoniza mais hits do que outros grandes nomes no quesito musical (como Strokes ou Amy Winehouse, para ficar em dois exemplos populares), músicas que traduzem bem a época em que vivemos: da sensualidade como parâmetro de status, de uma dance music que finalmente vê o hip hop diluindo-se na música eletrônica, de uma cobertura de celebridades que é o maior reality show da história da TV.

Britney Spears: artista da década?
Mas o fato de Britney Spears reinar solitária como principal artista musical da década é sintomático de outra característica desta década – a de como os valores de importância sentimental da cultura pop mudaram drasticamente. Ao mesmo tempo em que a internet tornou-se mainstream, música e cinema foram perdendo a importância em captar o imaginário coletivo mundial devido primeiro ao fato dos meios de produção e de divulgação terem se multiplicado em potências nunca vistas (criando uma quantidade gigantesca de novos artistas) e depois pelo fato do lucro de suas indústrias ter desabado graças ao download ilegal e irrestrito de discos e filmes. Na paralela, a televisão ganhou audiência planetária e assumiu uma maturidade que já vinha ensaiando na década anterior – e seriados ganharam uma importância inédita no cenário pop da década, em muito caso mais importantes que filmes de autores consagrados. A explosão dos reality shows veio acompanhada pela abertura do interesse por nichos recém-chegados à escala planetária (moda, gastronomia, decoração, turismo e até ciência tiveram dezenas de novos popstars apresentados ao público na década passada). O elemento de autopublicação da internet também permitiu um aparecimento de um novo tipo de artista, que, em vez de ser “descoberto”, ele mesmo se apresenta para o público. Complete isso com o refinamento e a complexidade que tanto os quadrinhos quanto os games, ambos em plena maturidade (como a própria televisão), inventando seus anos 60, atingiram nos últimos dez anos e você tem uma escala de valores virada do avesso, se compararmos com décadas anteriores.



Games, TV e quadrinhos: plena maturidade
Tudo isso para reunir numa mesma enorme lista nomes contemporâneos que são importantes para quem eu imagino que seja meu leitor. Você já deve ter percebido que o assunto do Trabalho Sujo não é música, nem cinema, nem modas da internet, quadrinhos, games ou minha própria vida. São só coisas que eu acho legais – simples assim. Me sinto confortável no papel de ímã deste tipo de informação – coisas legais – e diariamente sou bombardeado por amigos, leitores e desconhecidos com links de notícias, vídeos, discos e sites para coisas que estes acham que eu poderia achar legal. Eu bem podia só ficar recebendo isso, desfrutando estas novidades solitário em um pequeno círculo social, mas gosto de compartilhar, de passar para a frente, de eu mesmo mandar para os meus amigos – tanto que alguns deles ficam sabendo das notícias antes mesmo de eu abrir o post. E não é só online não, embora eu tenha decidido não mais exercer a minha onipresença fora da internet.



Animal Collective, Susan Boyle e Coldplay: melhor sem
Daí que esta lista – e todo o Trabalho Sujo, portanto – estar relacionado ao meu filtro pessoal do que eu considero legal ou não. Os anos 00 também foram bons para artistas como Coldplay, Susan Boyle e Animal Collective? Inegável. Mas não esperem que esse tipo de nome surja no meu dia-a-dia. Se não bateu, não tem porque eu passar para frente (e o mesmo vale em relação a falar mal destas coisas – quem gosta desse tipo de polêmica, no fim das contas tá mais querendo chamar atenção para si mesmo do que realmente discutir estes assuntos; por isso eu prefiro nem registra-los). Mas isso quer dizer que eu não queira conversar com quem gosta de coisas que eu não gosto? Nah, não tenho mais 16 anos há muito tempo e não defino minhas companhias pelo jeito que elas se vestem ou pelo tipo de músicas que elas ouvem – mas sim pelo fato de elas respeitarem o que eu gosto e não me julgarem por isso. É meio óbvio isso, mas às vezes precisa ser dito. Afinal, o que não falta é gente pagando de adulto e sofisticado com o discernimento de bebês.
Pra confundir, a lista que começa ainda hoje, mas pro final do dia, tem sim uma ordem de importância (completamente subjetiva, mas enfim), só que eu vou apresentá-la de forma um pouco diferente, randômica. E seu último deadline é o fim deste ano que acabou de começar. Me comprometo a 300 comentários feitos sobre estes 300 nomes durante todo 2010, na maioria de seus dias úteis, quase sempre que estiver de frente ao computador. Se alguém quiser depois colocá-la na ordem, fique à vontade. O mesmo vale para quem quiser juntar a lista dos melhores discos da década num mesmo torrent e ou a lista das melhores músicas dos anos 00 num mesmo zip. Pra mim, é muito trabalho, mas se alguém se dispor, linko aqui. E se alguma editora quiser juntar essas listas num livro, entre em contato por email, tou aberto a negociações (he).
Falando em aleatória, muda também o comportamento do meu Twitter. Ele oficialmente passa a twittar apenas os posts do Sujo, do resto dOEsquema e do Link como, ao mesmo tempo, entro no tal diálogo contínuo como havia prometido. Neste início de semana vem mais links do Link, que não parou durante as festas, e logo, logo pintam os posts do Sujo. Esta mudança significa também o fim da listagem dos últimos tweets aí na coluna do meio do site – ficando só com o link para o Twitter. A partir disso também começo também uma nova seção durante o miolo do dia, um post contínuo que junta notícias desde o fim da manhã até as já clássicas 4:20 (no caso, 16:20). Mas ele não vem de cara, é uma seção que criarei com o passar dos dias e que, presumo, estará prontinha ao final do mês. Isso quer dizer uma leve redução na velocidade de postagem, mas que caminha junto com um exercício de escrever mais para cá, coisa que deixei meio de lado desde que assumi a edição do Link, em maio (não sei se você percebeu, mas a quantidade de vídeos e JPGs deixou o site com cara de Tumblr, em 2009).
E essa lista dos melhores da década já é o início deste exercício – e de outro, que diz respeito à necessidade de se falar de algo na hora em que ele aparece. Cansamos de ver exemplos de obras que vão se mudando com o tempo, graças à interferência alheia direta na obra ou em sua divulgação. Quantos artistas e obras nos passaram batido pelo simples fato de não termos tempo? Ou de não estarmos com paciência para aquele assunto naquela hora, ou por ele se desdobrar ao mesmo tempo em que algo bem mais interessante parecia acontecer? De novo, volto ao tema deste novo “agora”, uma nova recontextuação deste período de tempo que tem muito a ver com o que eu estava falando há pouco sobre o “tema” do Trabalho Sujo. Nos últimos dez anos, como qualquer outra pessoa, pude desfrutar de momentos ótimos que só consegui compartilhar com pessoas mais próximas. Com essa lista, em vez de simplesmente linkar um vídeo ou uma imagem com um link (embora estes formatos aparecerão), vou falar um pouco sobre estas obras e personalidades que eu gostaria que você desse um tanto de sua atenção para tornar sua vida mais divertida.
Não, eu não vi todos os filmes, nem todas as séries, nem ouvi todos os discos – mais um gole da obviedade que precisa ser dita. Nem eu, nem ninguém que faz suas próprias listas pessoais. Se ouviu tudo, pode ficar tranqüilo, ouviu mal. Daqui a cinco anos, talvez minha lista das 300 melhores músicas dos anos 00 seja bem diferente dessa de hoje. Mas ninguém é uma estátua parada no tempo e se até as obras podem mudar (do bigode na Mona Lisa do Duchamp ao Grey Album, passando por “We Are Your Friends” e o ringtone do sapo), vamos deixar de bobagem e assumir que também mudamos. Apesar de termos nomes próprios que tratamos como substantivos possessivos, talvez devêssemos aceitar nossa natureza de verbo e assumir as próprias conjugações. Você era uma pessoa bem diferente há dez anos – talvez sinta vergonha, talvez orgulho -, mas aceite isso: mudamos o tempo todo. Não seja tão rígido com suas convicções, solte um pouco a respiração, ninguém está te vigiando por cima do seu ombro. E daí que o melhor disco de todos os tempos da sua vida já mudou umas cinco ou seis vezes? Não foi assim com seus amigos, amores e a família?
Fora que ninguém consegue acompanhar tudo. E esse tudo ainda exclui tudo aquilo que foi produzido antes de hoje, que pode e deve ser revisitado constantemente. Por isso, passo a dedicar mais a escrita ao Trabalho Sujo, posts curtos de não-ficção de coisas velhas e novas que estou lendo/vendo/ouvindo para equilibrar essa velha conhecida sanha de escrever textos gigantescos como este que você atravessa. Dá para pensar numa rotina de publicação que inclui dois destes posts curtos, a tal nova seção do meio da tarde, os dois tradicionais 4:20 diários e ocasionais vídeos e JPGs, sempre de segunda a sexta, fechado durante os findes. Mas, como sempre, eu não garanto nada.
Junto a isso, ainda abro a possibilidade de posts fotográficos e desenhados (e a transformação do Flickr do Trabalho Sujo em um Flickr de fato – as fotos talvez até renderão um post diário). O desenho é uma atividade que deixei em segundo plano em minha vida, mas que foi responsável pelo pagamento de minhas contas por mais de três anos durante os anos 90 e que, agora, espero voltar a praticar. Já venho desenhando bastante em casa (2009 foi um ano de rascunhos neste sentido inclusive) e começo a desovar esse tipo de produção no Sujo pela primeira vez online (já que o próprio Sujo impresso contou com desenhos meus). O coelho que ilustra este post é um deles. E isso sem contar um janeiro que tem a CES, a Campus Party e uma ótima novidade no Link nas próximas semanas – Link este que finalmente chegou a uma equipe concisa e fodaça, pronta para encarar 2010 com gosto -, e a possibilidade de duas Gente Bonita fora de São Paulo (fora a do meu aniversário, que vai ser aqui e eu tou vendo onde pode ser…).
Quando resenhei o Kid A no ano 2000 falei que estávamos às vésperas da década da verdade, em que todas as máscaras iriam cair, todas as verdades iriam ser ditas. Uma brusca reação à década anterior, da ironia. E, de fato, os anos 00 foram anos do desmoronamento da privacidade contra a transparência compulsória. O momento que melhor sintetiza isso talvez seja protagonizado por David Letterman, que abriu seu programa no final de 2009 para assumir que vinha sendo vítima de extorsão por ter trepado com funcionárias de seu programa. Em vez de se submeter ao escrutínio público, deu um cavalo de pau nas expectativas e veio ele mesmo contar o que houve. Mas isso esteve em todos os cantos da década passada, na Guerra do Iraque, na questão do aquecimento global, nas eleições de Lula e de Obama, nos reality shows, nos discos e filmes que vazaram antes de serem lançados. Goste ou não, verdades foram ditas, na sua cara.
É hora de, depois de uma década traumática e de auto-análise constante (pela primeira vez na história a humanidade se percebeu como uma só), abraçarmos o admirável mundo novo – e uma nova inocência. Essa é a minha aposta para os anos 10: as novas tecnologias que mudarão ainda mais nosso dia-a-dia, mas em vez de nos agarrarmos ao que vai sucumbir no novo processo, iremos abraçar o novo com mais curiosidade e menos preconceito. Isso parece se referir a hábitos digitais, mas no fim das contas está relacionado com diferentes facetas da rotina de cada um de nós. É claro que isso não significa abandonar o ceticismo, mas este virá com menos cinismo e com mais disposição.
E, antes de começar os trabalhos de verdade por aqui, lembro que dedico janeiro aos melhores discos e músicas de 2009. Para não me alongar como em 2008, repito o formato da retrospectiva da década: vídeos para as melhores músicas, capas de disco para os melhores álbuns. E também vou começar – ainda hoje – a perguntar o que já podemos esperar de legal para 2010. Alguns posts vão com especulações minhas (umas são óbvias, como o post a seguir), em outros vou convidar palpiteiros de fora. Mas eu queria ouvir também o que você, que lê o Sujo, tá esperando desse ano.
Acho que, por enquanto, é só. Feliz ano novo e se prepara: essa década vai ser ainda melhor que a anterior.
Ih, senta que lá vem história. Resumindo bem, é uma teoria do teólogo, paleontologista e padre jesuíta francês Pierre Teilhard de Chardin, que advoga que a evolução humana tem sim um ponto final, que é quando todas as consciências se fundirão numa só e que a humanidade é um só ser, que habita o planeta inclusive fora de nossos corpos e mentes. Muita loucura? Vou citar a Wikipedia:
In this theory, the universe is constantly developing towards higher levels of material complexity and consciousness, a theory of evolution that Teilhard called the Law of Complexity/Consciousness. For Teilhard, the universe can only move in the direction of more complexity and consciousness if it is being drawn by a supreme point of complexity and consciousness. Thus Teilhard postulates the Omega Point as the supreme point of complexity and consciousness, which is not only as the term of the evolutionary process, but is also the actual cause for the universe to grow in complexity and consciousness. In other words, the Omega Point exists as supremely complex and conscious, independent of the evolving universe. I.e., the Omega Point is transcendent. In interpreting the universe this way, Teilhard kept the Omega Point within the orthodox views of the Christian God, who is transcendent (independent) of his creation.
Teilhard argued that the Omega Point resembles the Christian Logos, namely Christ, who draws all things into himself, who in the words of the Nicene Creed, is “God from God”, “Light from Light”, “True God from true God,” and “through him all things were made.”
Teilhard de Chardin’s The Phenomenon of Man states that the Omega Point must possess the following five attributes. It is:
- Already existing – Only thus can the rise of the universe towards higher stages of consciousness be explained.
- Personal – an intellectual being and not an abstract idea. The complexification of matter has not only led to higher forms of consciousness, but accordingly to more personalization, of which human beings are the highest attained form in the known universe. They are completely individualized, free centers of operation. It is in this way that man is said to be made in the image of God, who is the highest form of personality. Teilhard expressly stated that in the Omega Point, when the universe becomes One, human persons will not be suppressed, but super-personalized. Personality will be infinitely enriched. This is because the Omega Point unites creation, and the more it unites, the more the universe complexifies and rises in consciousness. Thus, as God creates the universe evolves towards higher forms of complexity, consciousness, and finally with humans, personality, because God, who is drawing the universe towards Him, is a person.
- Transcendent – The Omega Point cannot be the result of the universe’s final complexification of itself on consciousness. Instead, the Omega Point must exist even before the universe’s evolution, because the Omega Point is responsible for the rise of the universe towards more complexity, consciousness and personality. Which essentially means that the Omega Point is outside the framework in which the universe rises, because it is by the attraction of the Omega Point that the universe evolves towards Him.
- Autonomous – that is, free from the limitations of space (nonlocality) and time (atemporality).
- Irreversible, that is, attainable.
Isso tudo pode ser entendido como uma metáfora para a apoteose (quando o Homem vira Deus – pensando que Deus não é uma entidade idosa que mora numa nuvem, mas uma espécie de alma do universo) do mesmo jeito que o Big Bang é um jeito nerd de explicar o Gênesis bíblico. Isso tem a ver com a teoria do Jesus Saltador (que o conhecimento humano está se acelerando cada vez mais e que isso pode ser medido numa unidade que o saudoso Robert Anton Wilson chamava de “Jesus” – escrevi sobre isso num texto pra versão em papel do falecido e-zine BScene, que foi citado pelo Petillo nesse texto no Digestivo Cultural) e com a velocidade do avanço tecnológico descrita pelos irmãos McKenna. A teoria também conversa com a dupla budismo/física quântica (“tudo é luz” equivale a “e=mc²”) e com o Aleph do Borges. E também tem a ver com a rede neural planetária que estamos vendo surgir com o avanço da internet – não é à toa que a teoria de Chardin influenciou ninguém menos do que o Karl Marx do mundo digital, nosso querido papa Marshall McLuhan. E pode até ter a ver com o tal “fim do mundo” dos maias, em 2012.
O certo é que tem algo que vai mudar tudo em breve. Não sei quão breve, mas se você acha que computador + internet foram um salto evolutivo violento, eu aposto que essa dupla é só um degrauzinho baixo comparado com o que vem por aí.

Foto: Aditi Jain Chaves, do WikiAves
Artigo que escrevi para a retrospectiva que fizemos de 2009 no Link, na semana do natal.
Hype ou barômetro emocional do planeta?
Twitter mudou o conceito de “agora” a partir da fusão de rede social e autopublicação online
“Rede social de microposts”. Assim o Twitter era apresentado a uma comunidade digital disposta a testar novos serviços e ferramentas online que começaram a se tornar regra a partir de metade da década que termina agora. Eram duas tendências da década que pareciam finalmente chegar a um consenso.
De um lado, a web 2.0, que permitia a autopublicação online sem que fosse preciso ter noções técnicas de programação. Do outro, as redes sociais, que tornavam possível a comunicação instantânea e online de comunidades de pessoas que se conheciam fora da internet. Os dois pilares do novo site (ou seria um serviço?) só funcionaram como ponto de partida para a criação de algo que ainda não tem nome, mas que mudou a internet em menos de um ano – justamente este, que se encerra.
Mas por que 2009? Criado em 2006, o site já vinha sendo usado por early-adopters desde o primeiro ano e já havia causado algum ruído em nichos específicos, como entre gente que trabalha com comunicação e tecnologia – a ponto até de o próprio Google ter comprado no mesmo ano um concorrente parecido, o Jaiku. Mas o fato é que, por mais barulho que o serviço (ou seria um site?) tenha feito até o início deste ano, foi só um pequeno alarido comparado com o papel central assumido pelo site desde o início do ano.
Já vínhamos falando do Twitter aqui no Link desde que ele começou a virar notícia, em 2007, mas nossa primeira capa relacionada ao tema só apareceu no início deste ano, no dia 9 de março, o que causou desconforto em alguns de nossos leitores – que acharam que havia um certo exagero na cobertura que começamos a fazer relacionada ao site. Não era um hype, como queriam parecer que fosse, e o Twitter atravessou 2009 mudando a história de muitas pessoas – e, por que não, a História propriamente dita. É um novo jeito de se portar online.
Pois o Twitter mistura os dois elementos citados no início – autopublicação e rede social –, criando um híbrido que absorve outras tendências da primeira década deste século. É uma rede social, sim, mas também é uma enorme conversa online em que pessoas, marcas e instituições conversam simultaneamente, usando linguagens formal, informal e até mesmo cifrada, criando um enorme mosaico de informação rápida que funciona como um mashup de MSN, SMS, RSS e sala de bate-papo. E, diferente das redes sociais antes dele, o Twitter permite que você siga apenas quem você quiser – e não necessariamente quem também te segue.
A grande mudança, no entanto, não diz respeito à interface, mas a uma noção nova de um jargão que ficou banalizado desde a popularização da web, nos anos 90 – o chamado “tempo real”. O Twitter não apenas se organiza por fatos e opiniões que acontecem neste exato momento. Ele também amplia o tempo do “agora” para uma escala quase pessoal – e não tão rígida quanto uma transmissão ao vivo de TV. Uma entrevista, uma notícia, uma campanha publicitária – tudo pode ser assimilado sem pressa, de acordo com a velocidade de cada usuário.
E é na força do impacto da novidade nos diferentes conceitos de “agora” que faz surgir outro superpoder do Twitter. Quando muitas pessoas começam a twittar sobre determinado assunto, ele aparece nos chamados “trending topics” (a lista dos assuntos mais discutidos na rede), que funciona como uma enorme nuvem de tags emocional de uma rede cada vez mais global. É como se o site funcionasse como um barômetro da pressão do inconsciente coletivo.
Foi essa força que tornou o Twitter o principal protagonista digital deste ano: da posse de Barack Obama na Casa Branca à morte de Michael Jackson, passando pelos protestos contra o resultado da eleição do Irã, a gripe suína e futilidades como as cantoras Lady Gaga e Susan Boyle, o serviço Google Wave e os filmes Atividade Paranormal, Avatar e Lua Nova, tudo foi registrado via Twitter. Resta saber se o site continuará desequilibrando nos próximos anos – ou se será apenas o principal “modismo” de 2009.
A mais nova melhor rede social de todos os tempos da última semana é o tal do Formspring, que permite que pulhas anônimos e curiosos cara-de-pau perguntem coisas que querem saber sobre você (eu tou lá, mas não pergunta merda que eu xingo a tua mãe). Aparentemente uma idiotice pra perder tempo (como toda rede social), o Formspring, no entanto, pode se tornar uma espécie de We Feel Fine do mal, se tiver um “momentum” em que todo mundo comece a prestar atenção no site (como o Irã funcionou para o Twitter). A prática, no entanto, é pré-digital e a Bean resgatou um caderno de infância que partia do mesmo pressuposto do novo site. A Ana também comentou sobre a semelhança entre os dois formatos. Me preocupa tanto isso: a história digital, tudo bem, ela meio que se autorregistra (cache do Google não existe à toa). Mas e todas essas tradições de quem foi criança, jovem ou adolescente no final do século 21? Alguém tem um compêndio com todas as variações de “Chora Bananeira”? Quais os melhores trotes telefônicos da história antes de isso virar o Mussão, quais os Paretos que não foram gravados?
“Good times are comin’,/ I hear it everywhere I go”
Falando em mashup de Radiohead com outro ícone da década, deixo aqui meu comentário sobre a onda Crepúsculo no cinema, que, mesmo sem ter um filho para usar como desculpa, fui assistir para tentar entender. O primeiro filme, Crepúsculo, é bem feitinho: tem um bom filtro que azula a luz como o que esverdeia Matrix e Amelie Poulain, a química – ainda que imóvel – do casal protagonista funciona e os momentos sentimentalóides não são tão ridículos quanto poderia se supor (a cena do namoro de Anakin Skywalker e a princesa Amigdala no Episódio 2 do Guerra nas Estrelas é muito mais vergonha alheia). O segundo, Lua Nova, sofre da crise de sucesso financeiro e o que era discreto e esperto em Crepúsculo fica meio exagerado e desnecessário. O próprio casal Bella/Edward padece disso (eles parecem ter acabado de sair do salão de beleza, ao contrário da naturalidade do primeiro filme), mas isso ecoa de formas diferentes na produção.
É claro que são filmes para adolescentes, mas estão mais próximos da nova geração Sessão da Tarde (pense em Superbad, Juno e Pequena Miss Sunshine como um novo gênero) do que da safra de cinema fantástico de Harry Potter e Senhor dos Anéis. Não vão mudar a sua vida e talvez não valham o ingresso do cinema. Mas diz muito sobre a época em que vivemos.
A própria metáfora do vampiro já foi esvaziada antes de Crepúsculo. Se antes o mito misturava o conflito romântico do século 19 com a consciência do tempo pós-revolução industrial, a importância arquetípica do personagem aos poucos vai se “humanizando” enquanto o vampiro passa ser visto menos como monstro e mais como um ser fantástico, parente dos super-heróis, só que carregando o fardo da vida eterna. Essa “humanização” sentimental está em quase todas as adaptações da lenda para a cultura atual – nos vampiros andróginos de Anne Rice, no Drácula do Coppola com o Gary Oldman, nos vilões de Buffy, na série de cinema Underworld e nos vampiros pervertidos de True Blood. Ela também é aliada da mudança de atitude entre o vampiro e a presa, em que o vampiro aos poucos se torna mais sensível e delicado enquanto sua presa passa a ser mais decidida em relação ao seu papel. Não é exclusividade dos vampiros – é só um reflexo das transformações de gênero a que os papéis do homem e da mulher foram submetidos na segunda metade do século passado. O casal protagonista de Crepúsculo é um ótimo exemplo destas mudanças.
O vampiro Edward vivido por Robert Pattinson faz a ponte entre o “novo homem” detectado por Jack Kerouac nos anos 50 (o caubói que não tem vergonha de chorar, o homem que dança, o início do macho sensível) e que jogava Elvis, James Dean e Marlon Brando como novo parâmetro de masculinidade, com a geração emo, sem apelar para a androginia. Kristen Stewart, por sua vez, com sua beleza crua e discreta, faz uma musa arredia, que não quer ser social e prefere ler livros a fazer as compras. É como se fosse uma versão indie da Mina Harker, protagonista do livro Drácula original, reinventada por Alan Moore na Liga Extraordinária, que passa a ser uma espécie de ícone protofeminista. A personagem Bella é quase pós-feminista, tão decidida a tomar a dianteira que passa toda a saga querendo ser mordida, abocanhada, possuída – sem sucesso. Assim, Crepúsculo é menos onda adolescente do que termômetro social – e detecta esse baile de emos e indies que se tornou a velha guerra dos sexos.
Mas a cena com “Hearing Damage”, do Thom Yorke, é boa.
E a cobra mordeu o próprio rabo – hora de tirar mais uma semana de folga
Não lembro direito quando foi, deve ter uns três, quatro meses, no máximo, quando comecei a twittar coisas velhas do Trabalho Sujo que ainda faziam sentido depois do post original (o hábito que causou o surgimento do chamado #trabalhosujoday). E assim comecei diluindo coisas de janeiro e fevereiro entre agosto e setembro, vendo que, uma hora ou outra eu ia começar a twittar posts de meses mais próximos ao que eu estava, deixando rolar mesmo sabendo que, uma hora ou outra, a fonte ia secar.
Uma delas, nem longe disso. Você que me acompanha via Twitter já deve ter percebido a alternância – um post velho do Trabalho Sujo, um post de ontem do Link. Se por um lado os posts antigos do Sujo iam chegar ao fim, os posts do Link nem sequer começaram. Cabei de fechar a equipe com quem trabalho depois de uma série de mudanças, que começaram quando assumi a editoria do caderno, em maio. Estamos fechando nas próximas semanas o primeiro ciclo online, quando mudamos nosso site de novo para sair da fase de transição que começou quando virei editor do caderno. Junte a véspera desta mudança com os posts velhos do Sujo acabando e ambas se encontraram na mesma sexta-feira em que o próprio Twitter anunciou sua mudança de lema – em vez de perguntar “O que você está fazendo agora?” pergunta “O que está acontecendo” (como eu já havia profetizado em julho, quando o site do ano suspendeu minha conta). E como eu gosto de facilitar as coincidências, ainda reúno tudo isso ao fato de que, no próximo dia 28, o Trabalho Sujo completa quatorze anos de vida.
Que beleza, não? Véspera de aniversário do site, véspera de mudança no site do jornal, fim dos posts velhos para twittar no mesmo dia em que o Twitter muda sua pergunta. Era o que eu precisava para pedir uma semaninha de folga para me preparar para o ano que vem.
Dezembro já é praticamente 2010 e eu não vou esperar o mês inteiro para anunciar as novidades. De cara, eu e o Bruno já começamos a recepcionar o verão com a ajuda de bons bambas da nossa música, no terceiro disco com a chancela dOEsquema. Na mesma primeira semana do mês que vem temos nova localização para a Gente Bonita na última festa do ano, em que eu e o Kalatalo viramos a noite inteira discotecando. O décimo quarto aniversário do Sujo também marca o início das atualizações das edições impressas, quando este site era uma coluna de papel no Diário do Povo em Campinas. O plano é subir os quatro anos de impresso até o décimo quinto aniversário, mas sabe como são esses planos…
Além da mudança no Link, também mudo, quando voltar, o viés do Twitter. Já que não tenho mais posts velhos pra ressuscitar (ou tenho? É claro que tenho) vou sair da vida de links que exercitava até hoje e começar a entrar no papo furado do dia-a-dia do site. Claro que vou continuar linkando um monte de coisas – inclusive o Link e posts, velhos e novos, do Sujo – mas já vi que tem discos, filmes e acontecimentos que não valem mais que 140 caracteres de empolgação. E assim, meu Twitter começa a virar uma versão micro do Trabalho Sujo.
E a versão macro – esta aqui que você está lendo – também irá mudar. Provavelmente durante essa minha semana de recesso (que também aproveito para encerrar minhas listas de melhores da década e começar a colocar as listas de melhores de 2009 no jeito, além de terminar a tradução de um livro – depois eu falo mais disso), você irá ver algumas mudanças aqui e ali, nesses banners aí da direita, nos links debaixo da minha foto, nas categorias, no uso do Flickr… Enfim, mais uma revisão sazonal acontece aqui no site e você perceberá algumas mudanças drásticas – e outras nem tanto quando eu voltar a postar direito na próxima segunda-feira, dia 30.
Essa segunda eu ainda posto alguma coisa, de leve: um Vida Fodona (Soundsystem, ora pois), o Link da semana, uma ou outra novidadezinha. Se pintar algo em cima da hora, quem sabe eu tuíte. E até a sexta eu também dou notícia pois estou em duas programações diferentaças – ma non troppo – durante o fim de semana.
Certo? Já já, volto ao ritmo normal. Por enquanto, relaxem…
Era o Sonic Youth sendo o Sonic Youth
Duas coisas me fizeram escolher assistir ao Planeta Terra em vez de ir ao Maquinária – a primeira, crucial, foi a localização de ambos. Enquanto o festival do portal de internet acontecia num inusitado Playcenter, o outro ocorria na mesma Chácara do Jóquei que viu o fiasco de organização que foi o show do Radiohead em São Paulo. Só a lembrança da zona que foi este lugar no início do ano já me faz ter bode de qualquer evento que se disponha a montar sua tenda por lá. O segundo motivo foi a confirmação do show do Sonic Youth. Embora muita gente estivesse esperando bandas mais novas ou inéditas no Brasil, fiz parte de turma que sorriu quando anunciaram que Thurston, Kim, Lee e Steve voltariam a tocar por aqui. Sou fã dos quatro, fazer o quê – suportei até a última apresentação de Merce Cunningham em vida só pelo fato de saber que o Sonic Youth era a banda que faria o som da apresentação de dança. Faith No More, Jane’s Addiction, Primal Scream, Iggy Pop… As duas primeiras bandas ficaram presas num passado que não faço questão de revisitar, quando, no início dos anos 90, o heavy metal se descobriu tão esquizofrênico quanto os desenhos animados de Chuck Jones (o Jane’s Addiction tem uma pegada menos palhaça que a banda de Mike Patton, mas esse L.A. blues soa melhor quando o Farrell monta o Porno for Pyros – e todo mundo sabe que o melhor momento do Dave Navarro em disco é no One Hot Minute, do Red Hot). O Primal Scream já tinha passado por aqui em 2004 (foi isso? Ou foi 2005? Preguiça de olhar no Google) e eu já tive o meu momento com o Iggy Pop.
Por isso, o festival dos festivais que ocorreu no fim de semana, para mim, se resumia a assistir ao show do Sonic Youth. Cheguei no Terra um pouco antes do Primal Scream entrar no palco, mas nem precisava ir tão cedo (embora o evento já estivesse cheio de gente desde as 5 da tarde, segundo relatos, devido aos brinquedos do parque), porque o show foi bem ruim. Não por culpa da banda, visivelmente aborrecida com uma série de problemas – a ausência de luz no palco nas primeiras músicas, a ausência do som de uma das guitarras, “XTRMNTR” teve de ser recomeçada duas vezes. Quem estava mais perto do palco viu o vocalista Bobby Gillespie de cara fechada, nada satisfeito com o show, que até teve seus bons momentos – como uma versão krautrock para “Shoot Speed Kill Light” e a seqüência final do show que começou com “Moving on Up”.
Mas foi no Sonic Youth que as coisas engrenaram. No show que o grupo fez no Claro que é Rock (2006?) muitos reclamaram da ausência de hits e do som baixo. Sobre os hits, não reclamo – gosto da banda mesmo quando ela toca só músicas do disco novo. O som parece que estava baixo, mas eu não percebi porque me enfiei no meio do público e cheguei pertinho do palco. Para não correr o risco de pegar um show baixo, repeti a tática – e, depois do show, descobri que nem era preciso, pois o som tinha sido o melhor no palco principal do evento.
E veio a chuva. Constante sem ser pesada, ela atravessou todo o show do Sonic Youth como uma espécie de textura para a noite. E mesmo com a banda se recusando a voltar a seus hits dos anos 90, o público não largou do pé do palco e se deixou levar pelo transe da eletricidade que, por vezes, vinha de três guitarras – o baixista do Pavement, Mark Ibold, revezava-se entre o baixo e a guitarra no papel de quinto integrante da banda, talvez mais feliz do que todo o público por estar tocando ao lado de seus ídolos (o sorriso vinha ao rosto do cara durante várias músicas).
As únicas exceções que fizeram ao passado levaram o público ao meio dos anos 80, com três faixas do Daydream Nation (“The Sprawl”, “‘Cross the Breeze” e “Hey Joni”), uma do Sister (“Stereo Sanctity”) e “Death Valley 69”. E aí estava o principal trunfo do show deste ano – sem apelar para as músicas mais conhecidas, eles envolveram o público com riffs, dedilhados, palhetadas, acordes tortos e microfonia, tirando-o das referências fáceis de um show de rock, como solo, refrão e letra fácil de ser lembrada, e levando-o para seu próprio universo onde som, ruído, música e canção são indistintos entre si, partes de um mesmo processo. Neste contexto, pouco importou o fato das músicas do novo disco, The Eternal, serem conhecidas ou não. Era o Sonic Youth sendo o Sonic Youth – e não apenas um show de rock.
Perdi quase todos os outros shows (lamento mesmo não ter visto o Metronomy, a melhor atração nova da noite, na minha opinião), mas ainda consegui ver o Iggy Pop se esgoelando como um zumbi que teima em não morrer (e isso é um elogio, como foi bom ouvir “Search & Destroy” ao vivo) e dar uma passada no Ting Tings a ponto de vê-los tocar “Great DJ”. E perceber que o Playcenter, por mais inusitado que podia parecer, não só funcionou e bem para um festival desse porte como contagiou parte do público com a alegria infantil de voltar a um parque de diversões. Tomara que o do ano que vem continue lá – além de o fato de chegar em casa em menos de meia hora depois de sair do show contar pontos extra para o evento.
PS – E pra quem queria saber o setlist do SY, ei-lo:
“No Way”
“Sacred Trickster”
“Calming The Snake”
“Hey Joni”
“Leaky Lifeboat”
“Anti-Orgasm”
“Antenna”
“Stereo Sanctity”
“The Sprawl”
“Cross the Breeze”
“Poison Arrow”
“What We Know”
“Jam Runs Free”
“Pink Steam”
“Death Valley ’69”
Entrevistei o Clay Shirky para a edição desta semana do Link. Se liga:

Foto: Joi
Um dos principais pensadores da era digital acredita que a internet vai mudar ainda mais as pessoas
“O poder de organizar sem organizações”. O subtítulo da principal obra do jornalista e acadêmico Clay Shirky – Here Comes Everybody (ainda não publicado no Brasil) – anuncia não apenas seu tema como explica, em poucas palavras, o conceito de crowdsourcing. O termo junta as expressões “multidão” e “fonte” em inglês para designar a produção coletiva de conhecimento na era digital e é o mote para decifrar o que o autor considera como sendo a principal transformação que estamos vendo hoje: como a cultura humana está às vésperas de uma mudança tão – ou talvez mais – radical do que a da invenção da cultura impressa. Falando sem parar com a clareza de um bom professor, ele conversou com o Link sobre estas mudanças e o papel do Brasil neste cenário.
Como diferenciar a cultura tradicional da cultura da era digital?
Quando terminei de escrever meu livro Here Comes Everybody (Aí vem todo mundo, em inglês), tinha a impressão de que o comportamento determinava aquilo a que chamamos de cultura. Mas “comportamento” pode ser traduzido como motivação filtrada pela oportunidade. O que a cultura digital faz é pegar motivações ancestrais – “quero estar conectado a pessoas de que gosto”, “quero ter mais autoconfiança”, “quero ser autônomo”– e apresentar a elas um monte de novas oportunidades.
Tanto a ascensão da Wikipedia ou da comunidade de software livre oferecem uma oportunidade da criação coletiva. Ninguém está no comando e ninguém tem a garantia de que sua contribuição será aceita, mas em algum lugar entre esses dois polos há uma cultura de compartilhamento, de combinação e de progresso. A pergunta a ser feita é: “Qual valor conseguimos extrair destas oportunidades?” ou “como temos que mudar a cultura para ter vantagem com isso?”.
Dá para comparar as mudanças que vemos hoje com alguma outra mudança histórica?
Sim, com a invenção da cultura impressa, outro período em que o enorme acesso à informação mudou tudo. E quando ela apareceu, havia o temor de que ela centralizaria a cultura. A nova tecnologia permitiria que todos pudessem ter acesso a livros, mas sempre aos mesmos títulos, e a noção de cultura se tornaria mais massiva, ainda mais porque era controlada a pela Igreja Católica. O que aconteceu foi o contrário – e até hoje eu fico impressionado como a Elizabeth Einseinstein fala bem sobre essas mudanças sociais em seu livro A Revolução da Cultura Impressa (Ática, 1998).
Em vez de um mesmo livro ser lido por milhares de pessoas, uma pessoa podia ler milhares de livros. E o choque da diversidade – de formas de pensar e viver – virou o mundo de cabeça para baixo. A internet é uma ferramenta para acessar informação, isso é óbvio, mas é uma ferramenta muito mais importante para conectar uns aos outros. E a variedade de formas de pensar e viver está apenas começando a crescer porque, de repente, a idéia de nicho – você achava que era a única pessoa do mundo que gostava de determinada coisa ou que fazia uma atividade de um jeito diferente – pode ser expressa socialmente. Antes da consolidação da internet assistimos a diferentes movimentos – como a questão ambiental, a luta pelos direitos civis ou os direitos do consumidor – que começaram localizados e se tornaram globais.
Essa mudança poderia acontecer sem a invenção da internet?
Perceba o seguinte: embora a revolução científica não fosse possível sem a invenção da cultura impressa, ela não foi a causa da revolução científica. O que vemos com a internet é a ascensão de uma plataforma que permite o pensamento global numa época de problemas de escala global.
Esse foi o ponto da revolução científica: não foi que os cientistas descobriram que havia a mídia impressa em que eles poderiam publicar suas descobertas, mas o fato de eles perceberem que precisavam de uma cultura em que uns lessem o que os outros estavam fazendo e em que pudessem se desafiar uns aos outros. O foco agora deve ir para essas normas culturais que podem mudar a forma como usamos a internet.
Há algo semelhante à revolução científica em andamento hoje?
A mudança política vai ser a revolução científica desta geração. Precisamos pensar em um conjunto de normas culturais que nos permita lidar com questões que afetam todo o planeta. Não temos isso ainda.
Transformar o mundo inteiro em um só país com um único governo não é a forma correta de lidar com isso, pois é um retrocesso colocar o controle do mundo na mão de um grupo de líderes, mas os modelos que temos hoje também não são apropriados. Temos que pensar em formas de lidar com o engajamento político global.
Algumas das principais transformações hoje são em países em desenvolvimento. Marshall McLuhan dizia que a cultura digital é mais próxima da oral do que da escrita. Você não acha que essa mudança está redefinindo o que é sucesso?
Eu não iria tão longe. Para a maioria das pessoas, o sucesso diz respeito ao impacto que você tem em relação aos outros. Eu posso ser um integrante bem sucedido da minha comunidade a partir do momento em que fiz algo que interesse aos integrantes desta comunidade. Dentro disso, concordo que estamos vendo uma ampla mudança no que chamamos de sucesso, que permite que eu seja recompensado por ser generoso com a minha comunidade e vice-versa. E essa mudança – a habilidade de encontrar grupos ue se importam com as mesmas coisas que você, de forma que você possa ser bem sucedido – vai fazer que a amplitude de formas pelas quais podemos nos conectar uns aos outros aumente ainda mais.
Países menos alfabetizados têm mais facilidade de compreender a cultura digital?
Precisamos que as possibilidades de participação coletiva que vivenciamos principalmente online tornem-se disponíveis não de forma escrita, mas através da voz; não através de computadores, mas de telefones. O telefone é o principal dispositivo de contato para a maior parte do planeta; 4,5 bilhões de pessoas usam o telefone, enquanto outros 3 bilhões usam celulares. Vivemos num mundo em que é muito comum acessar a rede global. O que essas pessoas fazem na internet – se escrevem, leem, tiram fotos ou fazem filmes – é o de menos. A oportunidade e o desafio é como iremos fazer que a motivação social da internet esteja disponível para qualquer um que tenha um telefone – e não só para quem tem computador. E tem coisas que você pode fazer no telefone que não dá para fazer na web – e não estou falando de um iPhone, mas de aparelhos que façam apenas telefonemas e enviem SMS. Acho que é um grande desafio pensar nesses sistemas de organização social.
Você acha que o Brasil é um agente desta mudança?
Claramente. O Brasil é o primeiro país a se alinhar inteiramente a um modelo de compartilhamento como forma de progresso econômico, cultural e social. E isso aparece em diferentes níveis, desde o mais baixo – como a cultura do funk de favela, que pressupõe o compartilhamento em sua essência – até o mais alto, com o presidente Lula dizendo que prefere soluções open source para os problemas do País. Há outros países que estão se desenvolvendo desta forma, mas nenhum outro está tão à frente quanto o Brasil. E é por isso que eu acho que o Brasil é um dos países mais importantes do mundo hoje.
E o resto do mundo percebe isso?
O mundo não percebe isso como um todo, apenas como exemplos que se desenvolvem isolados uns dos outros. Não há a consciência de que essas iniciativas façam parte de um todo, mas que há, de fato, uma cultura brasileira que está sendo desenvolvida ao redor desses modelos. E isso é a coisa mais importante – não só em relação ao País, mas à forma como encaramos cultura digital no planeta.




