
E por falar em plano-seqüência, separei alguns clássicos pra matar o tempo. Começando pelo principal deles, o ousado início de A Marca da Maldade, de Orson Welles. Se ele inventou o cinema em Cidadão Kane, com esse filme ele inventou o cinema B:
Tem vários outros aí embaixo:
Meus dois centavos sobre o Google Buzz…
Lembra de quando o Google apareceu? Seu visual clean mostrava que não eram necessários todos aqueles links e diretórios – característicos do Yahoo, o grande mecanismo de busca dos anos 90 – em uma página dedicada apenas a procuras feitas online. A solução do Google era um ovo de Colombo: só com um campo de busca sob um logo colorido, ele relembrava a todos que menos era mais.
Lembra de quando o Facebook apareceu? Seu visual clean mostrava que uma rede social não precisava parecer uma penteadeira de madame (o MySpace) nem uma sala de pré-escola (o Orkut). A solução do Facebook foi arquitetônica nos dois sentidos: ao oferecer um ambiente em que se deve reter o público-alvo, o site apresentava-se agradável, organizado, hierárquico, cool. Tanto sua arquitetura de informação quanto seu acabamento visual têm exatamente o mesmo peso. O site deve ser fácil de ser entendido, utilizado e percorrido, além de, por que não, agradável.
Eis os dois gigantes da internet hoje em dia. E agora, ao lançar um serviço de mensagens instantâneas muito parecido com o Twitter integrado ao seu e-mail, o Google tenta se reinventar de olho em tempos mais – para usar uma palavrinha da moda– “sociais”.
Em outras palavras, assumiu que o Facebook – a maior rede social do mundo – é seu principal rival.
Mas entre o Buzz e uma rede social envolvendo todos os serviços e produtos Google, há um longo caminho. O serviço recém-lançado, no entanto, não é o primeiro flerte do gigante rumo a uma plataforma mais social. O YouTube e o seus Maps já têm elementos de rede social, seu Reader permite compartilhamento de conteúdo. Mas foi com o Buzz que o Google assumiu que quer mudar sua natureza.
Eis o problema central: o Facebook sempre foi uma rede social. É um ambiente murado, em que todos que querem estar ali concordam em ficar apenas ali. Já o Google é o oposto disso. Começou como uma porta de entrada para a internet e está aos poucos crescendo um muro ao redor dela. E se, para usar o Google, for preciso estar dentro destas paredes, muita gente vai pular fora.
Isso fora a questão da interface, que ainda é bisonha – confusa, feia, sem hierarquia, quase aleatória. Parece um rascunho do Google Wave. Não seria o caso de o Google lembrar de como era quando começou?
Aproveitando a deixa, aproveito para falar rapidamente de Lynch, um diretor que me desperta sentimentos dúbios. Nem chego perto de questionar seu valor cinematográfico – tanto técnica quanto esteticamente o cara é um mestre, isso sem contar a forma como ele está abraçando o cinema digital, que talvez seja o principal movimento de um bastião do cinema atual em abraçar o novo formato. Nem George Lucas – que, cinematograficamente falando, é uma nulidade – é tão empolgado com a mídia e o formato digital quanto David Lynch.
O que me incomoda é que toda sua mitologia, seu universo de estranheza e desconforto, sempre me pareceu uma tremenda ironia com todo o chamado cinema de arte. Uma ironia grosseira, beirando o ridículo, uma grande picaretagem em que, à medida em que ele vai deixando as coisas mais confusas, apenas vai conduzindo o espectador a uma espécie de estado de sonho que não deve ser racionalizado – mas que boa parte dos fãs de Lynch insiste em racionalizar. Não há explicação, não tente entender – mas tentam. E tentam.
Percebo David Lynch como um artista completo, além de apenas um diretor. Um sujeito que transformou-se em sua própria obra de arte – e nisso o sentido de sua filmografia é quase uma paródia do conceito de autoria cinematográfica. Tirando Eraserhead, um trunfo inicial que poucos diretores podem chegar perto, seu início de carreira é um jogo de tentativa e erro que só chega a um consenso no final dos anos 80, quando inventa seu noir-bizarro americano, entre Veludo Azul e Twin Peaks, e começa a curtir uma tensão surrealista misturada com uns Estados Unidos idealizados, à Norman Rockwell, pelos anos 50 imortalizados em áudio e vídeo em comerciais de eletrodomésticos, filmes de Billy Wilder e Alfred Hitchcock e comédias de Cary Grant e Doris Day. É quase uma caricatura, um quadro do Monty Python ou do Saturday Night Live sobre um diretor de cinema americano que acha que pode criar um senso de cinema europeu com as matizes dos EUA.
Mas como personagem de si mesmo, Lynch é impecável. E que cabelo.
Quando o assunto é diversão, manipular expectativa pode ser a chave do jogo
Engraçado notar a ironia de muitos à medida em que as imagens ainda não vistas da sexta temporada começaram a “vazar” na internet. Coloco as aspas por puro preciosismo – é óbvio que o que apareceu online não veio de outro lugar se não de uma brecha aberta pela própria produção. Até parece que uma série como Lost não tem contratos e mais contratos de confidencialidade assinados por todos envolvidos (ABS a eles), para evitar justamente que uma ou outra cena apareça antes da produção ser autorizada. Pois a questão dos “vazamentos” deixou de ser só algo que tange a segurança como o próprio elemento de marketing. E quem mais pode “vazar” o conteúdo senão quem está diretamente envolvido no processo? Quer descobrir quem “vazou” o disco novo do fulano ou aquele filme que está para sair? É relativamente fácil – e inevitavelmente terminará com alguém da “indústria” (ou do “sistema”) arrumando uma cópia para alguém “de fora” (ou “pirata”).
Foi um dos motivos do Radiohead ter dado um cavalo de pau na percepção social do que é a música – e, no fim das contas, a cultura – no século 21 ao “vazar” seu próprio disco, em In Rainbows. Pior: “autovazar”, meses antes do “lançamento” do disco oficial, físico, cuja data foi marcada para o primeiro dia de 2008 quase como uma troça, como se dissessem “para vocês que não consideram o download como sendo oficial, In Rainbows é um disco de 2008”.
As pistas sobre o controle do “vazamento” do que já se viu da sexta temporada de Lost – primeiro, de alguns minutos; depois, de toda a primeira hora do episódio duplo desta terça – são evidentes. No primeiro caso, os quatro minutos do primeiro episódio foram liberados para fãs da série que se cadastraram em uma promoção no site da emissora ABC. A produção do seriado não só apenas entregou o pequeno trecho num pendrive, como fez com que ele viesse numa garrafa de vidro, feito uma mensagem de náufrago. O kit (veja abaixo, as fotos vieram daqui) ainda tinha uma mensagem de fato, que trazia escrita apenas a frase “nada é irreversível”.
Já a primeira hora “vazada”, além de alardeada com muito entusiasmo, foi registrada de um ótimo ângulo em uma câmera que não se mexia e de forma a não ter nenhum problema em registrar tudo que foi exibido na praia no Havaí, sábado passado. Detalhe sórdido: em alguns momentos cruciais do episódio – principalmente em cenas com diálogos -, uma sirene de ambulância era disparada quase que de forma aleatória, como se estivesse sendo ligada apenas para tapar os tais diálogos. Esfregando em nossa cara que, sim, aquilo fazia parte da estratégia de lançamento da nova temporada.
Os próprios criadores admiram isso em uma entrevista recente ao site IGN:
Regarding the footage that was leaked today, were you shocked it got out there, or was it that this was the right time for people to see those first few minutes?
Lindelof: [Chuckles] I mean, they were on a flash drive in a bottle that ABC sent out, so it’s one thing to call it a leak and it’s another thing to reach over and turn on the faucet. They’ve been great. When Carlton and I basically said, “We don’t want any material from the final season to get out in advance of the premiere,” they were enormously willing to play ball. But when we said we wanted to do sunset on the beach in Hawaii, and that we’d be showing the first hour of the show on Saturday, it didn’t seem fair to the people who weren’t actually going to be here to give them nothing. So this is the compromise we came up with.
Cuse: We didn’t want, basically, stuff to become stale. So we felt like three or four days ahead of the premiere, for there to be some hint as to what’s going to happen in Season 6 is exciting for the audience, as opposed to if they’d been pounded for four months with images of Season 6. It wouldn’t be so fun.
Por isso, volto a usar o verbo vazar sem as aspas. É lógico que tudo que aparecer sem querer querendo na internet parou ali graças a alguém envolvido no processo. O grande barato é a forma como é possível manipular esta expectativa e fazer o entretenimento voltar a ser divertido de novo – em vez de simplesmente correto, como vem sendo.
Textinho que escrevi hoje no Link impresso.
O entretenimento do futuro nasce com o fim de ‘Lost’
A primeira década do século 21 assistiu a mudanças drásticas no que diz respeito à cultura – principalmente devido à dominância digital que marcou estes anos. Não houve mídia ou gênero que não fosse abalado por este impacto. E mesmo com dois formatos do século anterior vivendo dias de ouro (quadrinhos e games atingiram um patamar de excelência inédito), nenhuma obra soube lidar melhor com a cultura digital – e de forma mais ampla – do um certo seriado sobre os sobreviventes da queda de um avião em uma ilha maluca.
Num mundo cada vez mais dividido em dualidades – velho/novo, digital/analógico, online/offline -, Lost preferiu apostar nas duas alternativas ao mesmo tempo. É uma série comercial com ares de culto. Aborda mistérios científicos e espirituais, as diferenças entre destino e livre arbítrio, física e filosofia, pais e filhos, passado e futuro.
Tais oposições, na verdade, partem de um conceito descrito pelo criador da série J.J. Abrams, que ele expande para todas suas outras obras: ele quer dar classe A à “cultura B” – de nicho, quase sempre produzida com pouco orçamento e, por isso mesmo, mais ousada que a comercial.
Assim, Lost é, ao mesmo tempo, programa de sucesso e objeto de culto, novelinha emotiva e complexa saga de ficção científica, mainstream e nerd.
Esta ambivalência não fica só na tela – e aí que Lost desequilibra. Mesmo com séries de TV bem melhores que ela produzidas no mesmo período (Sopranos, The Office, Battlestar Galactica), Lost desempata ao trazer sua dualidade para fora da tela – e incluir o fã na história.
Não como nos games, em que você assume a pele do protagonista, nem como na web 2.0, em que você cria uma identidade digital a partir do que posta online. Ela apresenta a opção ao telespectador: você quer apenas assistir um programa de TV ou mergulhar num universo que expande-se online no fim de cada episódio?
Enquanto não surge um aparelho que possa romper as barreiras entre nova e velha mídia (o iPad de Steve Jobs tenta abrir este meio-termo, leia na página L7), Lost é o melhor exemplo de integração de duas culturas que ainda caminham separadas mas que tendem a virar uma só. Se é apenas um rascunho que vamos assistir daqui para frente ou já o primeiro capítulo de uma nova cultura, cabe ao futuro nos dizer.
Mas eu quero saber mesmo é o que aconteceu com os personagens depois do clarão no último episódio…
Textinho meu no site do Link de hoje.
Apple pode mudar tudo hoje – de novo
Anúncio do novo tablet que acontece em São Francisco às 15h de Brasília pode matar o Kindle e criar um iPod das letras
“É verdade… Estou testando o tablet da Apple pelas últimas duas semanas e ele é impressionante“.
O silêncio já vinha sendo quebrado desde antes do fim do ano, quando apenas rumores sobre um anúncio que seria feito pela Apple no início de 2010 fizeram as ações da empresa saltar, e à medida em que janeiro passava, surgiam ainda mais notícias e novidades relacionadas a mais um produto da empresa de Steve Jobs, cujo anúncio ocorre nesta quarta-feira, em São Francisco, nos EUA, a partir das 15h (em Brasília). Até que o blogueiro e empreendedor Jason Calacanis começou a twittar na madrugada desta quarta-feira, 27:
“A melhor parte do tablet é um sintonizador de TV digital com gravador de vídeo – além de um jogo de xadrez“, “o tablet da Apple é realmente impressionante para jornais. A videoconferência é super estável, mas nada novo“, “o preço será entre US$ 599, 699 e 799 depenendo do tamanho e da memória no tablet. Ele também tem um teclado sem fio e conexão do monitor para a TV“, “sim @HappyDrew, o tablet da Apple tem um sistema operacional parecido com o do iPhone com a possibilidade de manter múltiplos aplicativos rodando simultaneamente“, “ele conta com duas câmeras: uma na frente e outra nas costas (ou pode ser apenas uma lente dupla), assim ele grava tanto você quanto o que está à sua frente“, “os games do tablet da Apple são ótimos. Do nível de inovação da Nintendo. O aplicativo para o Farmville é insano. Mark Pincus (dono da Zynga, criador do Farmville) fará uma demonstração do aplicativo amanhã“.
São muitas novidades. Ao que parece, o novo dispositivo da Apple não será meramente um “iPhonão” como previsto – não é apenas um dispositivo que permite acessar a web como conhecemos hoje de forma menos espremida do que no celular. Também não parece ser só um meio termo entre o netbook e o smartphone, um aparelho que permite conectar-se à internet de forma prática e de qualquer lugar. Pelos relatos e rumores que já surgiram, especula-se que o território que a Apple quer desbravar não é apenas o da interação e conectividade, mas também o de conteúdo e entretenimento. Especula-se que o novo dispositivo da Apple venha elevar o conceito proposto pelo Kindle – o leitor eletrônico 1.0 – a um nível sequer sonhado pelo dispositivo da Amazon – aí sim, multimídia, interativo e diferente de tudo que já foi visto antes.
O que se espera é que a Apple lance o que a Amazon parecia ter lançado: um iPod das letras. E não apenas dos livros, como o Kindle. Mas que abranja para além do mercado livreiro, o editorial como um todo, incluindo não apenas jornais e revistas, mas provedores de conteúdo online e, em última instância, até blogs. Mais do que isso: o dispositivo, se for tudo o que promete, pode integrar de vez conteúdo multimídia ao texto, provocando um terceiro salto evolutivo em uma série de tecnologias que estão mudando nossa relação com o conteúdo. Primeiro veio a web, que tornou possível livro, jornal, TV, música, telefone, rádio e cinema num mesmo ambiente, ainda que primitivo. Depois veio a web móvel, que reempacotou tudo isso em nosso bolso – e em que a Apple foi capital (primeiro com o iPod, depois com o iPhone). E é possível que estejamos às vésperas de um salto ainda maior, que torne nossa relação com a web móvel tão corriqueira e natural quanto o manusear de uma revista ou de um jornal e nos livre, de vez, do computador.
No final de uma matéria de segunda-feira no LA Times em que o jornal detalhava os acordos que algumas empresas (como a editora Conde Nasté e o jornal New York Times) vinham fazendo com a Apple em relação ao novo tablet, o analista do Instituto Gartner Allen Weiner explicava que haveria muita tentativa e erro antes que os editores tradicionais descubram o que fazer com suas edições digitais.
“Ninguém vai comprar um tablet para ler e-books. O Sony Reader mais barato custa 199 dólares e é ótimo para ler livros. Mas onde está a oportunidade? Está em criar experiências de leituras. É colocar vídeos e atualizações feitas pelo autor em um livro de culinária. É uma oportunidade porque você pode cobrar algo extra por isso”.
O que nos leva a um post de setembro do ano passado do Fake Steve Jobs, o blogueiro que posta como se fosse o fundador da Apple falando sem papas na língua (mas que na verdade é o jornalista David Lyons), quando a especulação sobre o tablet já existia. Ele começa citando outro blog, o Gizmodo:
“O Brian Lam do Gizmodo dá uma dica esta manhã, mas vale uma explicação mais profunda. Uma pequena dica: não é sobre tecnologia. Eis o trecho do artigo de Lam sobre como ele acha que nós estamos querendo reinventar jornais, livros e revistas:
‘O objetivo final é fazer com que editores criem conteúdo híbrido que tenha áudio, vídeo e gráficos interativos em livros, revistas e jornais, onde o layout no papel é estático. Com as datas de lançamento do Courier da Microsoft ainda à distância (a MS apresentou seu tablet na CES deste mês, o Slate) e o Kindle preso à tinta eletrônica relativamente estática, parece que a Apple está se movendo rumo à liderança na distribuição da próxima geração de conteúdo impresso (…)’
O itálico em ‘conteúdo híbrido’ é meu. Pois aí está o ponto central. E é isso que Brian acerta quando ele fala sobre ‘redefinir’ jornais e outros produtos feitos de árvores mortas.
Novas tecnologias abrem novas formas de contar histórias. Eis o que é verdadeiramente excitante aqui. Não é o tablet, mas o que ele significa para as notícias, para o entretenimento, para a literatura. Sacou? É isso que o Tchekov queria dizer quando falava que o meio é a mensagem. E é por isso que o tablet é tão profundo.
Não faz sentido mudar para e-readers se formos fazer só o que já fazemos em papel. É por isso que o Kindle é tão ruim. Eles só abriram a picada. E é por isso que seguramos o nosso tablet – não porque não tínhamos a tecnologia, mas porque quem lida com conteúdo é tão devagar que eles não conseguem criar algo que valha a pena ser colocado no tablet.
É impressionante como poucos grandes nomes do mercado editorial realmente entendem isso. Nós convidamos alguns deles para reuniões e enquanto estávamos conversando, nós meio que passávamos um pequeno questionário para eles resumido em uma única pergunta: para onde você acha que o mercado editorial irá? A maioria deles não conseguia pensar em outra coisa a não ser no que já vinham fazendo no passado. Para eles é só um detalhe, uma pequena mudancinha em seus negócios, como os jornais deixando de ser preto e branco para ganhar cores ou mudando de formato, por exemplo.
Mas não tem nada a ver com isso. Estamos falando de uma forma completamente nova de transmitir informação, uma que incorpore elementos dinâmicos (áudio e vídeo) com estáticos (texto e fotos) mais a habilidade para o ‘público’ se tornar criador, não apenas consumidor.
O engraçado é que os caras do mercado editorial se consideram do lado ‘criativo’ do negócio, mesmo que eles não tenham visão alguma. Para eles, nós que lidamos com tecnologia somos um bando de parasitas. E se perguntam porque, em plena era digital, somos nós quem estamos colhendo a recompensa financeira.
Minha aposta é que o conteúdo verdadeiramente revolucionário não virá dos editores de velha guarda. Virá dos novos, dos moleques que cresceram no digital. Esta noção de fundir elementos é natural para eles. E em algum lugar há um gênio esperando ser descoberto – o Orson Welles da mídia digital, alguém que irá criar uma linguagem completamente nova para contar histórias. Se você estiver lendo isso, Orson Jr., entre em contato. Temos algo que queremos mostrar para você”
Pode ser ficção, pode vir em tom de piada, pode ser ríspido em vários trechos (e eu peguei leve na tradução), mas o fato é que as considerações do Steve Jobs de mentira têm um efeito profundo à luz do que a Apple de verdade pode anunciar mais tarde.
Onde você estava em 2001? Eu tinha começado a trabalhar em São Paulo (ainda morando em Campinas) e havia escrito o release do segundo disco do Los Hermanos – e, por isso, não cheguei a escrever sobre o disco na época em nenhum outro lugar. Mas tropecei com o texto no site da banda e me liguei que justamente quem precisava ler não havia lido, uma vez que esse material fica disponível apenas para quem trabalha com música (quando é lido). E como daqui a pouco é carnaval (já? Já), taí a íntegra do texto:
Los Hermanos continuam o Baile de Carnaval. A charanga ainda ecoa sobre o batuque secular do samba se espremendo entre marchas-rancho, chá-chá-chás e boleros para chegar à massa. Mas a celebração da alta noite aos poucos vai cedendo ao cansaço físico e a festa vai esmorecendo. Não estamos mais no meio de 250 mil compradores de disco berrando o refrão “Ô Anna Júliaaaaa”, nem no meio de uma seqüência acelerada de neo-boleros pós-pagode que transformaram a tradicional festa brasileira numa máquina registradora trabalhando em ritmo industrial. O porre vai virando ressaca, a boca vai ressecando, acabou-se o que era doce. Mas, como a banda das quatro noites, o grupo carioca segue tocando. Mas reduzem a marcha, literalmente. O frenesi frevo/axé/baião da eletricidade rock fica em segundo plano. É acessório, cosmético. Não adianta forçar o público para pular – olhe para eles, derrubados uns por cima dos outros.
Estamos entrando na quarta e última fase de qualquer boa noite de carnaval, aquela enunciada pelas emblemáticas “Bandeira Branca” e “Máscara Negra”. O trombone assume uma função tão importante quanto a guitarra no primeiro disco e o tom azul-madrugada do instrumento toma conta do segundo disco do Los Hermanos.
Bloco do Eu Sozinho canta o fim do baile, o nascer do dia, as pessoas acordando ainda meio bêbadas, entre fantasias rasgadas, garrafas derrubadas pelo chão, confete e serpentina desbotados pela mistura indecifrável de líquidos espalhados pelo chão. Canta para os vários solitários que atravessaram a noite inteira entre flertes e sorrisos e acabaram sem par como vieram. Mas agora eles estão amarrotados, suados, usados, borrados. O final de um baile de carnaval sempre vem mostrar para cada um de nós quem realmente somos. A fantasia cai tão pesada quanto a realidade que, indefectivelmente, é triste.
O grupo sente isso, sempre sentiu. Mesmo nos momentos mais eufóricos de seu primeiro disco, a felicidade vinha apenas como um raio de sol no horizonte.
Contemplativo e cético, o vocalista e guitarrista Marcelo Camelo caía na triste constatação dos poetas românticos, de que a melancolia é o estado natural do ser humano. Pintava-se de palhaço para fazer os outros rirem, enquanto, por dentro, estava chorando. Assim o conjunto se sentia em meio ao turbilhão “Anna Júlia”, o hit jovem guarda que catapultou o grupo de suas raízes underground ao panteão de plástico do mercadão pop. Enquanto todos cantavam sorrindo a plenos pulmões, o grupo se sentia preso à uma música que não representava o todo de seu trabalho, numa encruzilhada clássica na história da música popular: ser ídolos de multidões ou queridos de poucos. Entre um caminho e outro, o grupo preferiu trilhar seu próprio rumo, abrindo a terceira via à foice. Para isso, se reuniram em um sítio no interior do Rio de Janeiro, onde começaram a calibrar o que se tornaria o disco que está saindo. A saída do baixista Patrick Laplan foi suprimida pela participação especial do amigo Kassin (do Acabou La Tequila, influência confessa do grupo) e a produção ficou por conta do cobra Chico Neves.
Curtindo o disco como pinga de alambique, retrocederam a um tempo em que a bossa nova não havia transformado o samba em ritmo pré-programado de teclado. E voltaram para o ano 2001 como uma banda de samba. Como se o rótulo “MPB” não existisse, como se fazer samba fosse tão natural a qualquer brasileiro, independente de sua faixa etária, classe social ou formação acadêmica. É um exercício de recriação da genealogia do rock brasileiro: Noel Rosa é o nosso Robert Johnson, Chico Buarque nosso Bob Dylan, Cartola nosso Muddy Waters, Beth Carvalho uma Aretha Franklin, Jair Rodrigues um James Brown e por aí vai…
Sim, Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante (voz e guitarra), Bruno Medina (teclados) e Rodrigo Barba (bateria) formam uma banda de samba, apesar de virem da classe média, do curso superior, da pele branca e da formação baixo-teclado-guitarra-e-bateria. Em seu segundo álbum, eles mergulham ainda mais fundo no fundo de quintal, temperando o sambão com doses de hardcore,rock alternativo, levadas latinas, um microponto de psicodelia beatle e compassos mutantes. Deixam de lado o astral Red Hot Chili Peppers/Mr. Bungle que o primeiro disco transparecia e se devotam à melodia, cantando o fim da festa incessante que eles mesmos eram até então.
Mas se o tom do disco remete à quarta-feira de cinzas, ele também vê o nascer do novo século como um fim de carnaval. Mas em vez de correr atrás de recursos tecnológicos e futurísticos para falar sobre a aurora do novo tempo, eles voltam ao começo do século 20, usando elementos das primeiras décadas dos anos 1900 como fantasia. Há referências de modernismo, vaudeville, citações em francês, bailes de máscaras, maxixe, atenção aos detalhes, literatura, eles colocam o Bloco do Eu Sozinho na rua em busca da mesma ingenuidade frívola dos primeiros anos do século passado. Procuram,assim, fugir da ironia que tentou, de todo jeito, encaixar o grupo em rótulos esdrúxulos e diferentes comportamentos.
O excesso de referências musicais deixou de ser um simples problema de arranjos. Quase todas as faixas do disco atravessam várias fases, a estrutura das canções (mais complexas que as do primeiro disco, hoje vistas pela banda como “um rascunho”) alcança diferentes pontos de vista, sem dificuldade ou forçar a barra. Como o Clash fez no clássico London Calling, eles contam a sua versão da história transformando tudo em samba (enquanto o grupo inglês pulverizava tudo em punk) a citação (incidental?) que o trombone faz no primeiro som ouvido no disco remete imediatamente à introdução instrumental da faixa-título do disco de 1979. Seja qual for o território musical, a linguagem melancólica e o batuque do samba estão ali, onipresentes. Não é à toa que a editora de músicas do grupo seja chamada Zé Pereira.
Mas por baixo das letras tristes e contemplativas, os Hermanos aproveitam para espetar quem os incomoda. Os “vocês” espalhados pelo belíssimo encarte podem se referir ao fã, à crítica, ao mercado, a certas publicações (há citações ainda mais explícitas, embora maquiadas como letra de música), ao público que comprou o grupo só por causa de “Anna Júlia”, ao seguidor fiel dos tempos do underground carioca. A letra de “Cadê teu Suin-?”, uma brincadeira com sílabas, contém desde a rixa não declarada entre Tom Zé e Caetano Veloso, cobranças de diretores artísticos, desculpas esfarrapadas, críticas à dita “nova MPB”, o peso do refrão exigido… O grupo passa adiante “Eu que controlo o meu guidon” sem dar ouvidos a quem ladra. O disco termina convicto de que eles fizeram o melhor que podiam ao não repetir o primeiro álbum. “Quero não saber de cor, também”, canta Camelo entre as cordas e um surdo de escola de samba, “pra que minha vida siga adiante”.
Materinha de apresentação da edição do Link de hoje.
2010: de zero a cem em onze dias
Ninguém poderia prever. Mas a década mal havia começado e uma notícia pegou todos de surpresa. Um gigante online entrava com tudo num mercado tradicional pagando bilhões de dólares. Quando a America Online anunciou a compra do grupo Time Warner por US$ 164 bi no dia 10 de janeiro de 2000, há exatos dez anos e um dia, o mundo parou para discutir a importância daquilo que parecia ser apenas uma novidade da década anterior e que, ano recém-começado, dava pistas de que deixava de ser uma rede de contatos entre adolescentes, tecnófilos e acadêmicos para mexer de forma agressiva no resto do mundo.
2010 não começou com um único anúncio bilionário, mas com várias notícias de diversas áreas distintas que sacramentam a importância assumida pelo mundo digital. A começar pela maior feira de tecnologia do mundo, a Consumer Electronics Show (CES), em Las Vegas, que em todo janeiro, desde 1967, apresenta produtos e tendências que irão dominar o ano. Se em 2009, a feira foi abalada pelas notícias da crise econômica mundial, em 2010 ela já prometia a recuperação do mercado de tecnologia.
Se fossem só as novidades da CES 2010, já teríamos motivo para começar o ano com boas notícias: TVs e carros que acessam a internet, entretenimento doméstico incorporando o 3D, novas marcas se estabelecendo no mercado, computadores cada vez menores e integrando funções de outros aparelhos, tecnologia “vestível”, rivais para o Kindle. O Link esteve em Las Vegas e mostra nesta edição as principais novidades da feira que terminou no domingo.
Duas notícias paralelas à CES mexeram com a própria feira. O anúncio do Nexus One, o telefone do Google, não foi feito na terça-feira passada por acaso – ele simplesmente ofuscou quaisquer outros celulares que foram apresentados em Las Vegas, pelo simples fato de ter sido feito pelo Google.
O anúncio do novo aparelho – cujas expectativas foram aquém do esperado – pode, de cara, mudar completamente o relacionamento entre fabricantes e operadoras. E mostra uma faceta inesperada para a empresa – não bastasse ir para o mercado de celulares com seu sistema operacional, o Android, o Google agora atua no mercado de hardware.
A outra novidade que abalou a CES nem sequer é notícia, mas apenas um rumor que começou a circular no final do ano passado e causou até a subida das ações da Apple. Um suposto lançamento anunciado para o final deste mês jogou luz sobre um aparelho que estava fora do foco das novidades tecnológicas. E bastou uma especulação para que concorrentes apressassem o lançamento de seus próprios tablets. Pois é sabido que, como aconteceu com o MP3 player e o celular com muitas funções, uma vez que a empresa de Steve Jobs lança um determinado produto novo, é o suficiente para que outras marcas se animem e corram para entrar neste mercado.
A outra novidade é brasileira e veio na quarta-feira, quando a TV Globo anunciou os participantes da décima edição do Big Brother Brasil e nada menos do que cinco dos novos candidatos do reality show são personalidades que já eram conhecidas em diferentes nichos da internet.
Pode parecer bobagem, mas é uma prova de que até a principal emissora do País passa a dar atenção para a cultura digital em sua programação – o que é bem diferente de exibir URLs na tela da TV ou acessar a programação via internet. A fusão entre reality show e web 2.0 veio apenas escancarar uma suspeita – a de que, independente da plataforma em que as pessoas estejam, seja TV ou internet, é cada vez mais comum exibir-se para os outros e não se preocupar com a própria privacidade. A nova edição do Big Brother Brasil, que começa amanhã, pode acelerar essa tendência, além de desafiar a disposição das celebridades de nicho num veículo de massa.
Em entrevista recente ao Link, o futurólogo Alvin Toffler afirmou que estava cada vez mais difícil fazer previsões sobre o futuro da tecnologia. O próprio anúncio da compra da Time Warner pela America Online, que parecia criar um novo gigante online, deu com os burros n’água e foi eleito neste ano, pelo jornal inglês Telegraph, como a pior fusão de empresas da década passada.
Mas do mesmo jeito que aquela notícia antecipou a importância da internet na década passada, será que estas primeiras notícias de 2010 podem funcionar como um aperitivo dos próximos dez anos? Ou será que é melhor chutar o que pode acontecer na próxima década? Na dúvida, escolhemos as duas opções.
Mais um capricorniano de janeiro que aniversaria: desta vez é um dos discos mais importantes da história do rock, London Calling, do Clash, que completa três décadas de vida exatamente hoje. Em homenagem ao disco, ressuscitei um texto que escrevi há um tempão – quando o disco completou vinte anos.
Eram quatro sujeitos briguentos, geniosos, difíceis de se lidar. Mimados como a primeira tropa da nova revolução musical e comportamental no planeta, os quatro tornaram-se ainda mais temperamentais, explodindo raiva em cima de todos com quem conviviam, incluindo eles mesmos. Mas, juntos, Mick Jones, Joe Strummer, Paul Simonon e Topper Headon tinham um entrosamento difícil de conceber mas transparente, intacta.
“Raiva pode ser poder” cantaram em seu disco mais memorável – o clássico London Calling – e seguiram este credo por toda sua curta existência, erguendo, como na gênese do rock, a bandeira da insatisfação, apatia e rebeldia de toda uma geração contra uma série de regras preestabelecidas por adultos de forma agressiva e sem meios termos. Grunhindo opiniões sobre todos tipos de política (governamental, individual, social, internacional, sentimental, existencial), o grupo traduzia os elementos básicos do rock como parte de uma revolução pessoal que, através de suas músicas, batia em todas as portas recrutando soldados da nova cruzada. “O rock da revolução”, como eles mesmos disseram, “é um estado de choque”.
Mas embora a química perfeita dos músicos combine com suas personalidades exigentes e sua imagem praticamente intacta (comparando-se apenas ao Who no quesito “rock perfeito”), o Clash começou através das mãos de um empresário, Bernie Rhodes, que quis aproveitar o vácuo deixado por mais um das picaretagens de seu rival, Malcolm McLaren. Este havia juntado quatro moleques com total liberdade para serem os piores possíveis e tocarem o mais alto que conseguissem (criando os Sex Pistols). Com eles, o empresário conseguiu o espaço que queria para lançar suas idéias e, depois de circular pelas ruas de Londres à noite, inventou a estética do punk e a vendeu para a mídia.
Rhodes havia percebido a possibilidade de McLaren estar certo e na mesma hora catou músicos da banda 101ers com da London SS, duas bandas barulhentas que lutavam por um lugar ao sol pelos squats londrinos. Da 101ers (cujo nome saiu do número do squat que eles moravam – o mesmo da sala de tortura de 1984, de George Orwell) saíram o guitarrista Keith Levene, o vocalista Joe Strummer e o baterista Terry Chimes (também conhecido por Tory Crimes, apelido que pode ser traduzido por “crimes do partido conservador”). Da London SS saíram o guitarrista Mick Jones e o baixista (e estudante de arte) Paul Simonon. O nome, Clash (”confronto”), era uma palavra freqüente nas manchetes dos jornais.
Levene saiu da banda logo no começo, iniciando sua carreira de outsider (sairia também, mais tarde, do Magazine e do Public Image Ltd.), Chimes substituído rapidamente por Tony James (que depois iria para o Generation X e, mais tarde, para o Sigue Sigue Sputinik), que saiu para dar lugar a Topper Headon (que havia tocado no London SS). Como um quinteto, eles entraram na primeira turnê dos Sex Pistols pela Inglaterra em 1976 – na lendária Anarchy in the UK Tour (que deu origem a grupos como Joy Division, Buzzcocks e Siouxsie & the Banshees) – e logo se tornaram o equivalente Rolling Stones dos Beatles Sex Pistols.
A princípio, a comparação era justa. Em seus dois primeiros discos (The Clash – ainda com Chimes – e Give’Em Enough Rope), o Clash era uma banda tão barulhenta como os Pistols, mas mais viscerais. Como os Stones, o Clash bebia direto na fonte da música negra: enquanto Jagger, Richards e Jones contrabandeavam discos de blues e rhythm’n’blues norte-americanos no início da década de 60, os quatro punks vinham se embebedando de música jamaicana, que ao mesmo tempo que tomava conta dos guetos londrinos vinha ganhando popularidade e entrando na mídia através de Bob Marley.
Gravaram “Police & Thieves”, de Junior Murvin, em um de seus primeiros singles, e “Complete Control” foi produzido por Lee “Scratch” Perry. Este contato com o reggae e seus afluentes deu-lhes não apenas uma noção mais pessoal e ao mesmo tempo global da noção de política que o grupo pregava em seus hinos do contra com menos de dois minutos, como funcionou como a chave para a expansão do conceito punk que o Clash abriria logo depois de gastar sua munição pesada nos discos de estréia.
Como os Sex Pistols, o Clash esgotou-se após o segundo disco. O punk tosco e primitivo contra tudo e contra todos dos dois grupos começaria a se repetir, foi a gota d’água. Os Pistols debandaram em San Francisco, depois da única e fatídica turnê pelos Estados Unidos, em que Syd Vicious furava suas mãos com cacos de vidro gigantescos só para impressionar os caubóis americanos. O Clash desviou o esgotamento criativo por culpa do reggae. Ao adotar o ritmo jamaicano, o grupo inglês logo tinha um vínculo com algo maior que a classe operária inglesa. Logo falavam de problemas mundiais, de crises internacionais e dos oprimidos em geral. Musicalmente, o reggae libertava-os dos padrões estéticos tradicionais do punk. Por um lado, a influência latina e africana os deixava confortáveis com as variantes de ritmo. Por outro, tomavam emprestado o soul e o blues que os reggaeiros surrupiaram dos EUA para transformar o ska em rock steady. E finalmente o dub os mostrou que não há limites se o assunto é experimentação em estúdio.
Assim, começaram a gravar o disco que os consagraria na história do rock. Mais do que firmá-los como sobreviventes da primeira leva do punk inglês, London Calling transformou o grupo num grupo de rock perfeito. Expandindo seus horizontes musicais à medida que o disco vinha sendo gravado, o Clash resolveu aventurar-se por diferentes terrenos sonoros, indo cada vez mais longe à medida que iam andando. E à medida que iam gravando, assistidos pelo produtor Guy Stevens (o mesmo do Mott the Hopple), desvendavam a amplitude da música popular de seus tempos e ligavam pontos e gêneros, descortinando não apenas o amadurecimento musical do grupo, mas todo um universo musical cujas partes insistiam em fingir não ser um todo. “Eclético” foi o adjetivo usado para descrevê-lo no início, mas o Clash não estava sendo várias bandas, mas apenas eles mesmos, quem eles queriam ser. Com o auxílio do tecladista Mickey Gallagher (que tocava nos Blockheads, com Ian Dury) e de um time de metais, o disco tem reggae, jazz, rockabilly, rock, música latina e a versão que a dinâmica entre quatro sujeitos de convivência difícil dava à música que eles tocavam.
“London Calling” abre às marteladas que Joe Strummer e Mick Jones dão em suas guitarras à medida que Topper Headon golpeia metronomicamente sua bateria. Paul Simonon entra escorregadio, sorrateiro, como se observasse o tumulto à distância até a introdução deixar Strummer berrar o início da música. “Londres chama as cidades distantes/ Agora que a guerra começou e a batalha vem aí”, Joe canta sobre uma Londres decadente, mas de outro ponto de vista. Se antes gritava London’s Burning como se comemorasse o caos que é o inferno, agora assiste a tudo friamente, sem emoção: “A era glacial está vindo/ O sol se aproxima/ Máquinas parando, o trigo cresce magro/ Um erro nuclear, mas eu não tenho medo/ Porque Londres afunda e eu vivo à margem”. A mensagem é simples, mas descrita de forma apocalíptica e fatal; o instrumental também amadurece instantaneamente. Mick Jones empunha sua guitarra como um verdadeiro guitar hero (mas sem solar, apenas soltando os guinchos que o punk lhe ensinou), a cozinha deixa a canção com ar pesado e sombrio, Strummer canta como se fosse o último homem vivo e eles se dão ao luxo até de alguns overdubs, como as guitarras invertidas da metade da música e o código morse ao final.
A faixa-título cai com a força de uma bomba, mas mesmo entre a poeira levantada percebemos ser uma canção correta, bem acabada, pop (tanto que o Kid Abelha surrupiou sua introdução para compor “Educação Sentimental II”, substituindo o baixo pelo sax). Não tem a agressividade de um coquetel molotov nem a violência de um porrete, mas acerta em todos os alvos em que mira justamente por tirar o punk da sociedade. Enquanto a maioria reclama das condições de vida e contra o sistema, o Clash sai um pouco da cidade e tenta observar tudo de fora. Com este distanciamento – e graças à então nascente crítica musical rock nos Estados Unidos -, eles contaram a história do rock de seu próprio ponto de vista. O punk não era uma ruptura, era apenas uma afirmação de uma certa marginalidade que sempre existiu no ser humano. A diferença é que marginal vem de “margem” e não significa ladrão ou mau caráter. Por todo London Calling assistimos histórias de personagens que negam-se a viver como o sistema quer justamente por ir de encontro ao indivíduo. E entre caubóis, soldados, apostadores, fugitivos, artistas, rude boys, rockers, mocinhos e operários, o Clash mostra que é preciso sair da vida quadrada que planejaram pra gente se quisermos ter um mínimo de verdade em nossas vidas.
“Brand New Cadillac” aponta para uma direção que não havíamos pensado no punk inglês. Enquanto o punk americano sabiam quem eram seus ancestrais (os Ramones amavam surf music e bubblegum, os Talking Heads e o Blondie era um grupo de garagem, os Feelies recitavam Beatles e Rolling Stones e Modern Lovers e Velvet Underground, o Television urbanizava a guitarra psicodélica), a versão britânica do surto de rebeldia juvenil que tomou o planeta de assalto nos anos 70 faziam questão de mostrar o quanto diferente eles eram de tudo que havia vindo antes. A primeira onda de punk da Inglaterra é tosca, mal tocada, grotesca, rude, primitiva: Sham 69, X-Ray Specs, Damned, 999.
O Clash surgiu como uma das primeiras bandas daquela tropa pioneira capitaneada por Johnny Rotten, Sid Vicious, Steve Jones e Glen Matlock. Mas à medida que esta primeira geração se viu presa no próprio estilo que haviam irrompido, uma segunda aparecia sem vergonha de dizer que eram herdeiros de alguns ídolos do passado. O Joy Division citava Velvet Underground e Doors, o Gang of Four usava Marx e funk ao mesmo tempo, as bandas da 2Tone – Specials, Madness, Selecter – desvendavam o ska dos anos 60 para a eternidade, os Buzzcocks e os Undertones vinham da fase careta dos Beatles. Podia ser um mundo novo, mas existia um passado.
Quando o Clash invade os anos 50 de jaqueta e topete empolgadíssimo com o Cadillac novinho que a namorada do protagonista acabou de comprar, eles oficializam essa tendência. Encarnam o rockabilly com uma garra não vista desde “Long Tall Sally” e Strummer encarna o mocinho que toma um pé na bunda na última cena (”Balls to you daddy”/ Ela não vai voltar pra mim!”) com perfeição, enquanto a banda, afiadíssima, galopa o rock caipira americano em direção ao punk. E enquanto todos esperam que o herói da música seja o vocalista, vemos sua namorada, com um carrão, deixando o cara pra trás.
“Jimmy Jazz” volta ainda mais no tempo e muda o espaço. Logo estamos num beco sujo e mal iluminado, onde a guitarra perambula chutando latas ao som de pessoas conversando em algum clubinho noturno. O assobio desinteressado entra em ação junto com o baixo e Strummer explica a situação: “A polícia entrou procurando Jimmy Jazz/ Eu disse, ele não está aqui, mas já esteve”. Boemia de subúrbio, jazz ainda sendo tratado como coisa de marginal, a canção dança enquanto caminha, rebolando à medida que anda, contando os tempos da música a cada passo. A primeira intervenção do trio de metais acontece nessa faixa, tirando o Clash do punk e sua filosofia de vida dos anos 70. Logo o punk não é mais bandido, nem os bandidos são os vilões, os vilões têm um charme próprio deles. “Que alívio”, agradece Strummer, “me sinto como um soldado e pareço um ladrão”.
“Hateful” entra incisiva, disposta a quebrar o ambiente sossegado que o lado A parece estar criando. Mas no lugar de um esporro punk tradicional, eles conduzem sua energia para as tradicionais batidas pesadas de Bo Diddley, numa ótima faixa, com backing vocals trabalhados de forma inteligente e criativa, que canta sobre a triste relação de pseudoamizade entre usuário e traficante de drogas: “Tudo que eu quero ele me consegue/ Tudo que eu quero ele me dá, mas não de graça/ É odiável/ E é pago e eu agradeço por não estar em nenhum lugar”. “Rudie Can’t Fail” encerra esta introdução do disco com mais um reggae na carreira do Clash. Canta sobre fugir de casa e encarar o mundo “bebendo cerveja como café da manhã”. Mas diferente dos outros reggaes do grupo, este é mais melódico, com o time de metais e com cozinha bem amarrada transpondo o Clash para o Caribe. E é o primeiro vocal de Mick no disco (”Sing Michael Sing”, ordena Strummer no começo da canção): “Fui ao mercado entender minha alma/ O que eu preciso, não tenho”.
Depois de cinco faixas que explicam didaticamente os limites do álbum, London Calling começa pra valer. “Spanish Bombs” nos leva à Guerra Civil espanhola, numa das melhores músicas do disco. Novamente com vocais de Joe Strummer, a faixa descreve um cenário em que as forças militares do governo espanhol (que deram um golpe liderado pelo General Franco em 1936) aniquilavam os rebeldes anarquistas em fuzilamentos em praça pública. Jones canta sobre os “buracos de bala nas paredes do cemitério”, “o exército esfarrapado consertando baionetas para lutar em outro front” e “os carros pretos da Guardia Civil”. No refrão, em espanhol, Mick traz a revolução para o nível pessoal, declarando-se apaixonado pela causa que persegue: “Yo te quiero y finito/ yo te querda, oh, mi corazón!”. Em outras músicas ele continuará cantando entre o global e o individual, usando o amor como metáfora da política e explicando o jeito certo dos dois darem certo – com a verdade.
A voz fria e grave de Mick Jones contrapõe-se à garganta rasgada de Strummer, cujo excelente timbre o transforma numa espécie de roqueiro seminal, clássico, irmão temporão dos primeiros rockers e dos galãs de Hollywood dos anos 50. E é assim que ele entra em “The Right Profile”: “Onde eu que eu vi esse cara?/ No Rio Vermelho?/ Em Um Lugar ao Sol?/ Talvez em Os Desajustados/ Ou A Um Passo da Eternidade?”. Descreve o acidente de carro que matou o ator Montgomery Clift (”Eu vejo um carro destruído à noite/ Cortar o aplauso e diminuir as luzes/ A cara de Monty está quebrada no volante/ Ele tá vivo? Ele sente?”) e da reação de espanto dos transeuntes, que o reconhecem incrédulos: “Todo mundo diz: ‘Ele tá legal?’/ Todo mundo diz: ‘Como ele é?’/ Todo mundo diz: ‘É lógico que é engraçado/ É o Montgomery Clift, honey!”). Strummer canta a apatia do protagonista morto (”Nembutol anestesia tudo/ Mas eu prefiro álcool”) e o desespero dos fãs (tendo um colapso próximo ao fim da música), encarnando ambas formas de energia como se pudesse senti-las. “The Right Profile” também conta com metais, que dão o groove jazzy que os Stones conseguiram em Exile on Main Street.
“Estou perdido no supermercado/ Não posso mais comprar alegremente/ Eu vim aqui por causa daquela oferta especial: / Personalidade garantida”, Mick Jones canta sussurrando sobre a base que sua guitarra havia desenhado dos oito primeiros compassos de “Lost in the Supermarket”. Tocado de forma leve e correta, este refrão acaba criando a sensação de desespero totalitarista que o capitalismo impõe (”Estou sintonizado, assisto seus programas/ Guardo cupons dos pacotes de chá/ Eu tenho meu disco de grandes hits da discoteca/ Esvazio uma garrafa e me sinto um pouco mais livre”). Durante as estrofes, o teclado de Mickey Gallagher surge sutil e ao mesmo tempo imponente, deixando Jones livre para suas recriações na guitarra. Ele não decide entre a base ou o solo e deixa o instrumento falar mais alto no primeiro solo de guitarra. E durante um lamento sobre a solidão (”Os garotos no pátio e os canos na parede/ Fazendo barulho como companhia”), Mick Jones batiza o grupo de humor canadense Kids in the Hall.
“Clampdown” é a vez de Strummer atacar o sistema. As três últimas músicas do lado B do disco são petardos pessoais contra o imperialismo vigente. “Lost in the Supermarket” usa da ironia e da inversão de valores; “Clampdown” é direta e didática; “Guns of Brixton” – de Paul Simonon – vê pelo ponto de vista do oprimido. A versão de Joe Strummer para a investida ideológica explica, sobre um punk tradicionalmente clashiano (baseado no ritmo e na seqüência de simples acordes), as principais regras do jogo, ao trabalhar para um patrão. “Você cresce e se acalma/ (…) E começa a vestir azul e marrom/ Então precisa de alguém para mandar/ Pra se sentir grande/ Você afunda até brutalizar/ Você acabou de matar pela primeira vez”. A agressividade marcial da canção ajuda a enfatizar a força das letras: “Deixe a fúria ter sua vez, raiva pode ser poder/ Você sabia que pode usá-la?”. Jones entra no meio da canção, invadindo com um trecho de uma música sua que não conseguiu sobreviver ao tempo, tornando-se coadjuvante de Strummer ali. Mas não fez por menos: “Vozes em sua cabeça estão dizendo/ ‘Pare de gastar seu tempo, nada vai acontecer/ Só um tolo acreditaria que alguém irá te salvar/ Os caras da fábrica estão velhos e gastos/ Você não tem nada a perder, por isso saia correndo/ São os melhores anos da sua vida que querem roubar”.
É claro que um conjunto pode se basear apenas no talento de uma só pessoa. Mas quando duas personalidades dividem o mesmo palco, uma tensão criativa emblemática é travada, gerando jóias perfeitas. A existência de um terceiro elemento nesta disputa, um ponto de equilíbrio entre os dois egos do grupo, é uma das características mais clássicas na história do rock. É só pensar em George Harrison nos Beatles, Sérgio Dias nos Mutantes, John Bonhan no Led Zeppelin, Keith Moon no Who, Sterling Morrison no Velvet Underground e por aí vai.
No Clash, este terceiro vértice era o baixista Paul Simonon. Enquanto Strummer se esforçava para transformar-se num bad boy à americana, Simonon era tudo que ele queria ser. Topete, olhar distante e ar de apatia que dava o tom blasé que Strummer incorporava, Paul era estudante de arte e morava nas ruas, um misto de James Dean com Dean Moriarty do punk. Tocar baixo numa banda punk era só mais uma das coisas que ele achou que podia fazer, mesmo sem nunca ter tocado um instrumento. Foi lá e conseguiu seu lugar. A ponto de compor sua primeira música no Clash em seu melhor álbum e transformá-la em um dos principais momentos do disco.
“Guns of Brixton” não tem meios-termos. “Quando chutarem sua porta da frente/ Como você vai sair?/ Com as mãos na cabeça/ Ou engatilhado?/ Quando a lei vier/ O que você vai fazer?/ Baleado na calçada/ Ou no corredor da morte?”. É um reggae fantasmagórico, que o usa o poder de hipnotismo do dub para juntar nuvens negras sob o disco. O baixo de Simonon é ostensivo e agressivo, como uma arma levantada em direção ao ouvinte, e combina com o vocal monocórdico e com sotaque rasta forçado. “Você pode nos esmagar/ Você pode nos pisar/ Mas terá que responderá/ Às armas de Brixton”, saúda a principal colônia jamaicana em Londres. Como “Within You Without You” no meio de Sgt. Pepper’s, “Guns of Brixton” tem um papel fundamental em London Calling: é ela quem dá o crédito de rua do grupo. Sem ela, London Calling soaria como a árvore genealógica do rock contada por analistas políticos. Com ela, o disco ganha de volta toda energia punk que abandonara a favor do rock’n’roll.
A eficácia de “Guns of Brixton” pode ser sentida na ordem das músicas a seguir. “Death or Glory”, um dos mais céticos e apaixonados hino ao rock’n’roll, seria a opção perfeita para abrir a segunda parte de um disco cujo nome de trabalho era The New Testament (O Novo Testamento). Mas invejosos do trunfo de Simonon, Strummer e Jones resolveram recomeçar com um reggae, para mostrar que também conseguiriam fazer aquilo (dariam a resposta na dobradinha “One More Time”/ “One More Dub” no álbum seguinte, Sandinista!).
“Wrong’Em Boyo” começa como uma balada punk (com teclados e sopros mágicos), descrevendo uma partida de pôquer entre Billy e Stagger Lee, até que o primeiro, percebendo que vai perder, anuncia mentalmente ao parceiro de mesa que vai roubar “Vou ter que deixar minha faca em suas costas”. “Vamos começar tudo de novo”, pára Strummer no meio da música, transformando-a num ska festivo. A letra é um sermão: “Por que você tenta roubar/ Passar por cima dos outros/ Você não sabe que é errado roubar aquele que tenta?/ É melhor parar, é onda errada” e o clima da canção transforma a aula numa pregação gospel nas ruas de Kingston, num dos melhores momentos caribenhos do grupo.
Sem esperar, “Death or Glory” entra com a base do refrão, para que o público possa cantá-lo antes da música efetivamente começar. Num belíssimo trabalho de guitarras, eles explicam a mitologia do rock’n’roll em uma frase: “morte ou glória torna-se apenas mais uma história”. Eles explicam a repetição da história e como esta acaba se justificando, despindo o rock de suas farsas: “Qualquer idiota cheio de trejeitos cavando ouro do rock’n’roll/ Pega o microfone e diz que morrerá antes de se vender/ Mas acredito nisto e foi confirmado em pesquisas: ‘Aquele que come freiras, mais tarde se junta à igreja’”. Jogando a fama no lixo, eles explicam qual é a deste sentimento chamado rock – “De todo porão sujo e de toda rua suja/ Ouço cada uma das palmas batidas sobre cada um dos ritmos/ É o ritmo do tempo, o ritmo que deve ir/ Se você tem tentado por anos, já ouvimos sua canção”.
“Death or Glory” é uma ode ao gênero maior que “Rock’n’Roll” do Led Zeppelin, “It’s Only Rock’n’Roll” dos Stones e talvez até que “Rock and Roll” do Velvet Underground. Ela varia tempos, abre espaços, cria cenários diferentes à medida que é executada praticamente sem sair do ritmo original, sempre tocado com vigor. Quando Strummer começa a improvisar, balbuciando que “vamos marchar um longo caminho/ vamos viajar por um bom tempo/ vamos viajar pelas montanhas/ vamos viajar sobre os mares”, ele parece um Winston Churchill do punk, só carisma e presença de espírito, clamando as tropas para uma luta que possivelmente não acabe nunca: “Vamos criar problemas, vamos criar o inferno!”, brada entusiasmado, antes da banda voltar ao refrão.
“Elevador, subindo”, sorri o mesmo Strummer no começo de “Koka-Kola”. Na mira do Clash agora está a cocaína, que, em 1979, era a droga da moda. Apesar de conhecer os efeitos nocivos da droga, o grupo não quer reprimi-la – apenas a usa como forma de ironizar da nascente nova classe dominante, jovens executivos engravatados que mandariam nos anos 80 achando que eram modernos porque usavam brincos e… cheiravam cocaína. “Nos corredores lustrosos do 51º andar/ Dinheiro pode ser feito se você quiser mais/ Decisão executiva – precisão clínica/ Pula da janela, cheio de indecisão/ Recebi uma boa nova do mundo da propaganda/ (…) Koka adiciona vida onde não existe/ Então, pare cara. Pare” – ele diz “so freeze man, freeze”, como se apontasse uma arma para o ouvinte.
“É a pauta que refresca nos corredores do poder/ Quando os altos cargos precisam de altas doses um pouco antes do happy hour/ Sua mala de pele de cobra, suas botas de couro de jacaré/ Você não precisa de lavanderia, mande-os pro veterinário”. Yuppies e publicitários, “seus olhos parecem bolas de pinball/ Sua língua fica igual um peixe”, eles acabariam com os anos 80. “Propaganda de Koka-Kola e kokaína/ Descendo pela Broadway na chuva/ A luz do neon diz isso”. A música aponta que a cocaína está onde poucos pensavam na época “Na Casa Branca, que eu sei/ Em Berlim (fazem há anos)/ e em Manhattan”.
“The Card Cheat” começa ao piano, uma baladaça anos 50 tocada com a força de uma banda punk. “Eis um solitário gritando: ‘Me segure’/ Só porque está só/ Se o senhor do tempo correr devagar/ Ele não continuará vivo por muito tempo/ Se ele ao menos tivesse tempo de dizer todas as coisas que planejou/ Com uma carta na manga, o que ele conseguiria?/ Não quer dizer nada”, ele canta novamente sobre uma mesa de cartas e a vontade de roubar o adversário cuja face “quebra com um sorriso/ quando ele baixa o rei de espadas”. Cantando como se realmente dependesse disto (em um de seus melhores vocais), Jones passa de apostador a soldado e chora a perda da amada: “Da guerra dos 100 anos à Criméia/ Com uma lança, um mosquete ou um dardo romano/ A todos os homens que enfrentaram sem medo/ A serviço do rei/ Antes de encontrar seu destino/ Certifique-se antes de desaparecer/ Sua amada pode não estar mais na volta”.
“Lover’s Rock” abre o último lado do disco num rock sossegadíssimo, respirando ares caribenhos para cantar o jeito certo de fazer amor: “Você deve tratar sua garota direito/ Se quiser fazer o lover’s rock/ Você deve saber onde beijar/ Se quiser fazer o lover’s rock”. A música prega a atenção às preliminares e uma visão menos machista do ato sexual, afinal “ela não precisa daquela coisa que ela tem que engolir”, canta Strummer para logo depois certificar-se “sabe do que eu tô falando?”. O final da música perde o apelo caliente para ganhar velocidade e ritmo.
Em “Four Horsemen” o grupo chega como quatro caubóis correndo contra a corrente. “Lhes deram todas as comidas da vaidade/ E todas as promessas de imortalidade/ Mas saíram correndo gritando ‘insanidade!’”. A própria formação do grupo é descrita, num misto de velho oeste, Easy Rider e sua própria história: “Um veio do abismo, o outro do penhasco/ Outro bebia todas com um enorme baseado/ Quando pegaram o carona, este não queria mais sair”. E perguntam ao ouvinte o quanto ele está envolvido: “Mas você, você não está procurando, está?/ Não está olhando pra lugar nenhum/ Nunca andará uma milha só/ Ou colocar a si mesmo em julgamento/ Você me disse que a sua vida está ruim/ Eu acredito, mas pra mim parece triste/ Mas esse é o preço a se pagar/ Por ficar de preguiça todo dia”. I’m Not Down, cantada por Jones e Strummer, é o cuspe na cara do torturador: “Fui espancado, jogado fora/ Mas não estou mal, não estou mal/ Fui exposto, mas cresci/ E não estou mal, não estou mal”. O rock de resistência termina com um desafio: “Você agita por aí e acha que é o mais durão no mundo, em todo mundo/ Mas você está ruas distante de onde fica realmente duro/ Você nunca foi lá”.
O disco termina com “Revolution Rock”, um reggae de celebração ao punk rock. “Todo mundo destrua as cadeiras e dance neste ritmo novo/ Esta música aqui abala nações/ Esta música aqui causa sensação/ Diga à sua mãe, diga ao seu pai/ Tudo vai ficar bem/ Você sente? Não o ignore/ Vai ficar legal”. O clima pra cima do ritmo jamaicano contrasta-se com o manifesto que é London Calling, mas é essa a mensagem: a revolução é uma festa, não é uma guerra – e o rock é o meio.
Escondida sem créditos, o boogie rock “Train in Vain”, gravada para o semanário NME, traz Mick Jones trazendo os conceitos políticos novamente para o nível pessoal. “Você disse que me amava e isso é um fato/ Agora me deixa, dizendo-se aprisionada/ Algumas coisas você pode explicar/ Mas meu coração ainda dói/ Você ficou ao meu lado?/ De jeito nenhum”. Com o coração partido, o marginal sofre da única coisa que realmente o fere. Românticos, o Clash entra para a história do rock como um dos grupos mais coesos de todos os tempos (ou “a única banda que importa”, como clamam seus fãs). London Calling é seu credo – segui-lo não é necessário. É inevitável.
1. London Calling
2. Brand New Cadillac
3. Jimmy Jazz
4. Hateful
5. Rudie Can’t Fail
6. Spanish Bombs
7. The Right Profile
8. Lost in the Supermarket
9. Clampdown
10. The Guns of Brixton
11. Wrong ‘Em Boyo
12. Death or Glory
13. Koka Kola
14. The Card Cheat
15. Lover’s Rock
16. Four Horsemen
17. I’m Not Down
18. Revolution Rock
19. Train in Vain (Stand by Me)
A era da inocência?
E aí, como foi a virada, tudo certo? Os amigos, os amores, a família… tudo direitinho? Comigo, tudo ótimo – descansado, pronto pra nova década. Fechei ontem uma série de posts que deixei programados desde que saí de folga (que deram uma geral tanto nas 300 melhores músicas da década quanto nos 100 melhores discos dos anos 00), antes do natal, e gostei tanto desse papo de lista da década que emendarei este ano com mais uma outra: os 300 maiores nomes de nossos anos 00. Começou com uma lista dos artistas mais importantes (entre bandas, músicos e intérpretes), mas quando eu cheguei â conclusão de que Britney Spears era o nome mais importante da música destes dez anos, vi que tinha algo faltando. Britney passava, fácil, mestres como Daft Punk, LCD Soundsystem e Radiohead em importância, onipresença e constante reinvenção da própria personalidade – imagine um David Bowie sem alma, que sabe que é um personagem inventado por alguém. Aí depois lembre-se que este mesmo personagem – vazio, – protagoniza mais hits do que outros grandes nomes no quesito musical (como Strokes ou Amy Winehouse, para ficar em dois exemplos populares), músicas que traduzem bem a época em que vivemos: da sensualidade como parâmetro de status, de uma dance music que finalmente vê o hip hop diluindo-se na música eletrônica, de uma cobertura de celebridades que é o maior reality show da história da TV.

Britney Spears: artista da década?
Mas o fato de Britney Spears reinar solitária como principal artista musical da década é sintomático de outra característica desta década – a de como os valores de importância sentimental da cultura pop mudaram drasticamente. Ao mesmo tempo em que a internet tornou-se mainstream, música e cinema foram perdendo a importância em captar o imaginário coletivo mundial devido primeiro ao fato dos meios de produção e de divulgação terem se multiplicado em potências nunca vistas (criando uma quantidade gigantesca de novos artistas) e depois pelo fato do lucro de suas indústrias ter desabado graças ao download ilegal e irrestrito de discos e filmes. Na paralela, a televisão ganhou audiência planetária e assumiu uma maturidade que já vinha ensaiando na década anterior – e seriados ganharam uma importância inédita no cenário pop da década, em muito caso mais importantes que filmes de autores consagrados. A explosão dos reality shows veio acompanhada pela abertura do interesse por nichos recém-chegados à escala planetária (moda, gastronomia, decoração, turismo e até ciência tiveram dezenas de novos popstars apresentados ao público na década passada). O elemento de autopublicação da internet também permitiu um aparecimento de um novo tipo de artista, que, em vez de ser “descoberto”, ele mesmo se apresenta para o público. Complete isso com o refinamento e a complexidade que tanto os quadrinhos quanto os games, ambos em plena maturidade (como a própria televisão), inventando seus anos 60, atingiram nos últimos dez anos e você tem uma escala de valores virada do avesso, se compararmos com décadas anteriores.



Games, TV e quadrinhos: plena maturidade
Tudo isso para reunir numa mesma enorme lista nomes contemporâneos que são importantes para quem eu imagino que seja meu leitor. Você já deve ter percebido que o assunto do Trabalho Sujo não é música, nem cinema, nem modas da internet, quadrinhos, games ou minha própria vida. São só coisas que eu acho legais – simples assim. Me sinto confortável no papel de ímã deste tipo de informação – coisas legais – e diariamente sou bombardeado por amigos, leitores e desconhecidos com links de notícias, vídeos, discos e sites para coisas que estes acham que eu poderia achar legal. Eu bem podia só ficar recebendo isso, desfrutando estas novidades solitário em um pequeno círculo social, mas gosto de compartilhar, de passar para a frente, de eu mesmo mandar para os meus amigos – tanto que alguns deles ficam sabendo das notícias antes mesmo de eu abrir o post. E não é só online não, embora eu tenha decidido não mais exercer a minha onipresença fora da internet.



Animal Collective, Susan Boyle e Coldplay: melhor sem
Daí que esta lista – e todo o Trabalho Sujo, portanto – estar relacionado ao meu filtro pessoal do que eu considero legal ou não. Os anos 00 também foram bons para artistas como Coldplay, Susan Boyle e Animal Collective? Inegável. Mas não esperem que esse tipo de nome surja no meu dia-a-dia. Se não bateu, não tem porque eu passar para frente (e o mesmo vale em relação a falar mal destas coisas – quem gosta desse tipo de polêmica, no fim das contas tá mais querendo chamar atenção para si mesmo do que realmente discutir estes assuntos; por isso eu prefiro nem registra-los). Mas isso quer dizer que eu não queira conversar com quem gosta de coisas que eu não gosto? Nah, não tenho mais 16 anos há muito tempo e não defino minhas companhias pelo jeito que elas se vestem ou pelo tipo de músicas que elas ouvem – mas sim pelo fato de elas respeitarem o que eu gosto e não me julgarem por isso. É meio óbvio isso, mas às vezes precisa ser dito. Afinal, o que não falta é gente pagando de adulto e sofisticado com o discernimento de bebês.
Pra confundir, a lista que começa ainda hoje, mas pro final do dia, tem sim uma ordem de importância (completamente subjetiva, mas enfim), só que eu vou apresentá-la de forma um pouco diferente, randômica. E seu último deadline é o fim deste ano que acabou de começar. Me comprometo a 300 comentários feitos sobre estes 300 nomes durante todo 2010, na maioria de seus dias úteis, quase sempre que estiver de frente ao computador. Se alguém quiser depois colocá-la na ordem, fique à vontade. O mesmo vale para quem quiser juntar a lista dos melhores discos da década num mesmo torrent e ou a lista das melhores músicas dos anos 00 num mesmo zip. Pra mim, é muito trabalho, mas se alguém se dispor, linko aqui. E se alguma editora quiser juntar essas listas num livro, entre em contato por email, tou aberto a negociações (he).
Falando em aleatória, muda também o comportamento do meu Twitter. Ele oficialmente passa a twittar apenas os posts do Sujo, do resto dOEsquema e do Link como, ao mesmo tempo, entro no tal diálogo contínuo como havia prometido. Neste início de semana vem mais links do Link, que não parou durante as festas, e logo, logo pintam os posts do Sujo. Esta mudança significa também o fim da listagem dos últimos tweets aí na coluna do meio do site – ficando só com o link para o Twitter. A partir disso também começo também uma nova seção durante o miolo do dia, um post contínuo que junta notícias desde o fim da manhã até as já clássicas 4:20 (no caso, 16:20). Mas ele não vem de cara, é uma seção que criarei com o passar dos dias e que, presumo, estará prontinha ao final do mês. Isso quer dizer uma leve redução na velocidade de postagem, mas que caminha junto com um exercício de escrever mais para cá, coisa que deixei meio de lado desde que assumi a edição do Link, em maio (não sei se você percebeu, mas a quantidade de vídeos e JPGs deixou o site com cara de Tumblr, em 2009).
E essa lista dos melhores da década já é o início deste exercício – e de outro, que diz respeito à necessidade de se falar de algo na hora em que ele aparece. Cansamos de ver exemplos de obras que vão se mudando com o tempo, graças à interferência alheia direta na obra ou em sua divulgação. Quantos artistas e obras nos passaram batido pelo simples fato de não termos tempo? Ou de não estarmos com paciência para aquele assunto naquela hora, ou por ele se desdobrar ao mesmo tempo em que algo bem mais interessante parecia acontecer? De novo, volto ao tema deste novo “agora”, uma nova recontextuação deste período de tempo que tem muito a ver com o que eu estava falando há pouco sobre o “tema” do Trabalho Sujo. Nos últimos dez anos, como qualquer outra pessoa, pude desfrutar de momentos ótimos que só consegui compartilhar com pessoas mais próximas. Com essa lista, em vez de simplesmente linkar um vídeo ou uma imagem com um link (embora estes formatos aparecerão), vou falar um pouco sobre estas obras e personalidades que eu gostaria que você desse um tanto de sua atenção para tornar sua vida mais divertida.
Não, eu não vi todos os filmes, nem todas as séries, nem ouvi todos os discos – mais um gole da obviedade que precisa ser dita. Nem eu, nem ninguém que faz suas próprias listas pessoais. Se ouviu tudo, pode ficar tranqüilo, ouviu mal. Daqui a cinco anos, talvez minha lista das 300 melhores músicas dos anos 00 seja bem diferente dessa de hoje. Mas ninguém é uma estátua parada no tempo e se até as obras podem mudar (do bigode na Mona Lisa do Duchamp ao Grey Album, passando por “We Are Your Friends” e o ringtone do sapo), vamos deixar de bobagem e assumir que também mudamos. Apesar de termos nomes próprios que tratamos como substantivos possessivos, talvez devêssemos aceitar nossa natureza de verbo e assumir as próprias conjugações. Você era uma pessoa bem diferente há dez anos – talvez sinta vergonha, talvez orgulho -, mas aceite isso: mudamos o tempo todo. Não seja tão rígido com suas convicções, solte um pouco a respiração, ninguém está te vigiando por cima do seu ombro. E daí que o melhor disco de todos os tempos da sua vida já mudou umas cinco ou seis vezes? Não foi assim com seus amigos, amores e a família?
Fora que ninguém consegue acompanhar tudo. E esse tudo ainda exclui tudo aquilo que foi produzido antes de hoje, que pode e deve ser revisitado constantemente. Por isso, passo a dedicar mais a escrita ao Trabalho Sujo, posts curtos de não-ficção de coisas velhas e novas que estou lendo/vendo/ouvindo para equilibrar essa velha conhecida sanha de escrever textos gigantescos como este que você atravessa. Dá para pensar numa rotina de publicação que inclui dois destes posts curtos, a tal nova seção do meio da tarde, os dois tradicionais 4:20 diários e ocasionais vídeos e JPGs, sempre de segunda a sexta, fechado durante os findes. Mas, como sempre, eu não garanto nada.
Junto a isso, ainda abro a possibilidade de posts fotográficos e desenhados (e a transformação do Flickr do Trabalho Sujo em um Flickr de fato – as fotos talvez até renderão um post diário). O desenho é uma atividade que deixei em segundo plano em minha vida, mas que foi responsável pelo pagamento de minhas contas por mais de três anos durante os anos 90 e que, agora, espero voltar a praticar. Já venho desenhando bastante em casa (2009 foi um ano de rascunhos neste sentido inclusive) e começo a desovar esse tipo de produção no Sujo pela primeira vez online (já que o próprio Sujo impresso contou com desenhos meus). O coelho que ilustra este post é um deles. E isso sem contar um janeiro que tem a CES, a Campus Party e uma ótima novidade no Link nas próximas semanas – Link este que finalmente chegou a uma equipe concisa e fodaça, pronta para encarar 2010 com gosto -, e a possibilidade de duas Gente Bonita fora de São Paulo (fora a do meu aniversário, que vai ser aqui e eu tou vendo onde pode ser…).
Quando resenhei o Kid A no ano 2000 falei que estávamos às vésperas da década da verdade, em que todas as máscaras iriam cair, todas as verdades iriam ser ditas. Uma brusca reação à década anterior, da ironia. E, de fato, os anos 00 foram anos do desmoronamento da privacidade contra a transparência compulsória. O momento que melhor sintetiza isso talvez seja protagonizado por David Letterman, que abriu seu programa no final de 2009 para assumir que vinha sendo vítima de extorsão por ter trepado com funcionárias de seu programa. Em vez de se submeter ao escrutínio público, deu um cavalo de pau nas expectativas e veio ele mesmo contar o que houve. Mas isso esteve em todos os cantos da década passada, na Guerra do Iraque, na questão do aquecimento global, nas eleições de Lula e de Obama, nos reality shows, nos discos e filmes que vazaram antes de serem lançados. Goste ou não, verdades foram ditas, na sua cara.
É hora de, depois de uma década traumática e de auto-análise constante (pela primeira vez na história a humanidade se percebeu como uma só), abraçarmos o admirável mundo novo – e uma nova inocência. Essa é a minha aposta para os anos 10: as novas tecnologias que mudarão ainda mais nosso dia-a-dia, mas em vez de nos agarrarmos ao que vai sucumbir no novo processo, iremos abraçar o novo com mais curiosidade e menos preconceito. Isso parece se referir a hábitos digitais, mas no fim das contas está relacionado com diferentes facetas da rotina de cada um de nós. É claro que isso não significa abandonar o ceticismo, mas este virá com menos cinismo e com mais disposição.
E, antes de começar os trabalhos de verdade por aqui, lembro que dedico janeiro aos melhores discos e músicas de 2009. Para não me alongar como em 2008, repito o formato da retrospectiva da década: vídeos para as melhores músicas, capas de disco para os melhores álbuns. E também vou começar – ainda hoje – a perguntar o que já podemos esperar de legal para 2010. Alguns posts vão com especulações minhas (umas são óbvias, como o post a seguir), em outros vou convidar palpiteiros de fora. Mas eu queria ouvir também o que você, que lê o Sujo, tá esperando desse ano.
Acho que, por enquanto, é só. Feliz ano novo e se prepara: essa década vai ser ainda melhor que a anterior.











