O post do Mutlei me lembrou o que escrevi quando o Teenage veio para o Brasil pela primeira vez, shows que aconteceram na mesma semana em que o Pixies veio para o Curitiba Pop Festival. O que vem a seguir é uma relíquia do passado – looooongo texto de uma época em que seu Trabalho Sujo era afeito a viagens intermináveis em primeira pessoa. Espírito da época, vai saber. Quem agüenta ler até o fim? Acho que tá na hora de começar a ressuscitar estes textos por aqui…
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Twin Pixies
Você ouviu o que eu disse?
(Eu sei que o vídeo é do show de Recife, mas foi o único que encontrei no YouTube…)
Sentaê que lá vem pedrada: texto gigantesco sem propósito pré-definido, escrito de uma vez só e sem olhar pra trás. Você conhece o riscado – às vezes vale à pena seguir a interminável ladainha como uma espécie de montanha russa pros sentidos interiores, altos e baixos intercalando baboseiras, adjetivos forçados, bolhas de hipérbole, trocadilhos infames e frases de efeito que se fundem uma filosofia auto-ajuda pseudo-beat a alternar referências de cultura inútil sem notas de rodapé, comentários dispensáveis sobre os bastidores de uma “cena” (aspas propositais – pois ela segue uma regra em que existe apenas enquanto acontece) que é tão pessoal quanto pop (seria o novo mainstream a revolução individual, ou justamente o contrário?), além de descrições e considerações sobre feitos e acontecidos, próprios ou alheios (e quase sempre avesso às normas da chamada objetividade no que diz respeito ao tamanho de orações e períodos e do uso de travessões ou parênteses [fora os colchetes {colchetes! Isso é matemática?!}e o gerúndio-muleta]) – isso sem contar o flerte exibicionista com o charme do chulo (tifudê…), e citações não creditadas de frases soltas pelo caminho (acontece). Às vezes é um saco, o texto não sai do lugar e a impressão que só o autor se diverte – dono da bola que só vai deixar a geral jogar depois que ele fizer mil embaixadinhas (todo mundo contando, hein): um, dois, três, quatro… Um, dois… Um, dois… Um, dois, três… Um… Quer jornalismo? Compra o jornal: “aqui é internet, mano, vale tudo”. E nada de ler em voz alta ou imprimir pra ler deitado (num güenta, é?) – tem que ser na frente do monitor, luz branca fritando as pupilas no escuro – crrr… Tudo bem, eu deixo ler por partes, mas sendo assim considere-se júnior (as sêniors podem contar os minutos, pela diversão).
Você lembra do Rock in Rio 3, do Abril Pro Rock de 2001 e do Eletronika no ano passado, né? Lembra sim que cê tava lá, não faz essa cara de prego. O mesmo protagonista destas sagas anteriores (este seu irresponsável missivista) está prestes a embarcar em uma semana cujos acontecimentos terão desdobramentos de dimensões extraplanetárias. Signos de consideração cósmica estão escondidos sob o tecido de quatro apresentações aparentemente inofensivas de uma mesma banda de pop rock e em um festival de indie rock que culminaria com o show antológico de uma banda histórica em sua única apresentação no país, mostrando coincidências não tão coincidentes, que revelariam toda a ironicamente simples complexidade de um sistema de forças e poderes que se traduz neste falso consenso (que generaliza e força a barra) que chamamos de realidade. E tudo começa com a locutora anunciando que “essa é pra quem tá indo pro show do Teenage Fanclub: ‘The Concept'” na hora em que o rádio do carro é ligado.
É pra isso que rádio existe. Sim, há o valor comunitário e social, que é inegável, mas a interseção entre as ondas de transmissão e o tímpano do ouvinte pressupõe, antes de qualquer coisa, um contexto pessoal e intransferível. É uma ação solitária, que tem muito mais a ver com escutar discos em casa do que sair para dançar, é mais leitura do que conversa, mais introspecção que interação. As supracitadas coincidências não tão coincidentes são objeto de estudo de grandes desocupados da história e quando o acaso da programação coincide com o que você está fazendo o que acontece é, como reza uma nova expressão autoirônica 360o (tão irônica que deixa de ser), “mágico”. É o chamado sincronismo definido por Jung, que o Burroughs definia, ao falar em seus cut-ups, como “quando o que acontece fora de você se alinha com o que acontece dentro de você”. Imagino a reação em cada um dos ouvintes que tiveram a mesma sensação que eu, ouvindo ali, no rádio, aquela mesma música poucos minutos antes de um show da banda e cogito um mapeamento daquele tipo de energia brilhando por cima da noite de São Paulo, tentando imaginar quantos pontos de luz poderiam ser vistos e se eles poderiam formar uma estranha constelação. Aí já estamos no contexto social do rádio, mas, como eu disse, ele é secundário ao individual.
E podia ser qualquer música do velho Tineije, mas foi “The Concept”, que, como seu título explica, é “o conceito” da banda. Conceito? A música fala de uma garota que tá pensando em arrumar os discos do Status Quo (gente boa faz bons trocadilhos), que não vai ser forçada a fazer o que não estiver a fim, que leva a galera pro bar de carro e faz a cabeça de vez em quando, qual é o conceito? Pois é justamente esse – a celebração de uma informalidade que as pessoas têm com a música que sequer dão conta. A relação fã-ídolo mistura muito as coisas na cabeça de neguinho, que sequer percebe que o vínculo é com a própria música, e não com seus intérpretes ou autores. “Não é o músico que toca a música, é a música que toca o músico”, disse um übbernerd desses aí (Fripp, pra quem está anotando) e é justamente disso que o Teenage Fanclub trata. Pense no grupo como uma sociedade secreta chamada Fã Clube Adolescente, que exalta justamente os valores intrínsecos à audição e curtição dos sentimentos mais escancaradamente associados à música (ou, cultura, dependendo do escopo preferido) pop. Nada de tristeza, agressividade, violência, angústia – estes sentimentos tornam-se pop em uma segunda instância e pela exceção, não como regra (o mercado os “regra” com o tempo, mas não é uma ação natural). O grupo escocês está no universo dos filmes de Elvis e dos Beatles, naquele paraíso tropical (ou estância de inverno? Barzinho?) em que Burt Bacharach, o Kiss, o Abba, Kurt Cobain, Leo Jaime e os Carpenters se jogam para trás por baixo de uma corda esticada na horizontal ao som de “Tequila”.
A música é intercalada por “oh yeahs” que antecipam a entrada da seqüência básica dos acordes, expressões que, em si, já dizem muito sobre a banda. “Oh yeah” é uma espécie de “pois é” com “só…” (além de ser, claro, “sim”) que virou sinônimo de rock’n’roll (e, quase por conseqüência, de cultura pop) e em “The Concept” eles são cantados com desleixo e informalidade que raramente são associados ao gênero. Lemas como “sexo, drogas e rock’n’roll”, “Tougher than Leather” e “quero morrer antes de ficar velho” sempre associam o rock a um machismo autodestrutivo que se justifica em sua própria existência. Mesmo que essas baboseiras hemingwaynianas tenham lá um fundo de verdade, há um outro aspecto que é fundamental na estrutura disso que chamamos de rock e que é solenemente ignorado pelos slogans consagrados pela história. Não há frase de efeito que se refira à idolatria à música que é igualmente característica ao gênero. Conceitos pós-modernos como os Smiths (ou sua versão anos 90, o Belle & Sebastian), a grife Alta Fidelidade, o Oasis e o Weezer, aquele clipe do Yo La Tengo, o filme Quanto Mais Idiota Melhor e a consolidação do rótulo “indie” no Brasil como referindo-se a um grupo específico de pessoas são exemplos recentes do início de uma autoconsciência neste aspecto nerd do rock que é tão imprescindível quanto o “only the good die young”/River Phoenix da parada. A iconografia básica é igualmente clássica e talvez ainda mais certeira: as fãs dos Beatles na primeira apresentação do grupo no Ed Sullivan, Woodstock, Dark Side of the Moon, o conceito Rolling Stones, o London Calling inteiro, o clipe de “Paranoid”, Graceland, capas de disco, as máscaras do Kiss. Imagens e idéias que vêm e vão apenas para mostrar que, mais do que “atitude”, rock’n’roll é energia adolescente a todo vapor: hormonal e inocente, sem consciência que está em “fase de crescimento” – apenas se divertindo muito com tudo isso.
“Eu não quis te machucar”, cantam os caras no refrão. Pra que machucar os outros? Sai pra lá, urucubaca, más vibrações atraem más vibrações. Olho gordo engorda sozinho e, nas sábias palavras de Picapau (cujo desconhecimento da autoria da frase seguinte custou ao estudioso pop Rogério de Campos um tremendo vexame público em plena redação – pior que isso, só quando o Sidney Guzman disse que não era nerd): “Vodu é pra jacu”. Só por emanar tais sentimentos com o açúcar pop na medida já garante ao Teenage Fanclub um lugar de honra na história do pop (sem contar que eles fizeram isso em plenos anos 90, esforço dobrado por certo cinismo burro). Fora isso, o grupo exerce um papel junto a seus fãs que não é o de popstar, ídolo ou guru, um sentimento que a Aninha resumiu aos prantos: “Eles são os meus melhores amigos que eu nunca conheci”.
Não havia melhor jeito de começar tudo. Se nada interferisse no percurso, seria uma semana com quatro shows do Teenage Fanclub, um dos Pixies e dezenas de bandas nacionais pelo caminho. Ao alardear “o conceito” na hora certa, o rádio se justificava. O acaso ainda proveria duas outras pérolas na seqüência, “Roam” dos B-52’s e “Wild Flower” do Cult, outras duas bandas de rock cujos excesso de referências e aspecto temporão em relação à fase clássica do gênero tornavam-nas próxima do TFC. Minutos mais tarde, o próprio grupo explicaria-se em acordes e letras, resumindo-se em um gigantesco sorriso de quase duas horas nos quatro dias seguidos.
No palco, eles são o mais próximo dos Beatles que um grupo pode chegar hoje em dia. Lá atrás, Francis MacDonald, o Nice Man, balança a cabeça de um lado para o outro como Ringo Starr, ritmo seguro e groove rock’n’roll próprio do baterista mais famoso do mundo – além de prover vocais de apoio tão imprescindíveis quanto os da dupla principal. Raymond McGinley é o próprio Mr. Cool, como convém ao terceiro integrante de qualquer banda que se equilibre em uma dupla principal de compositores (só o Led e os Smiths fogem à regra – pense em George Harrison, Brian Jones, Paul Simonon): grisalho, sempre de preto e à esquerda do palco, fechava os olhos para assumir graves vocais e certeiros de faixas-chave, como “About You” e “Verisimilitude” (a versão definitiva para “Primeiros Erros”, do Kiko). Na ponta da direita, o baixista Norman Blake, tímido e quieto, fazia as vezes de um Paul McCartney feio – vegetariano e sósia de Kevin McDonald (do Kids in the Hall), apaziguava toda a euforia das músicas de Gerry Love em números mais terráqueos, como os clássicos “Starsign” (o primeiro contato que a maioria do público brasileiro teve com o grupo, via clipe ou rádio), “Don’t Look Back” ou “Discolite”. Love, no meio, comanda a festa como um Peter Pan pop – o Gordinho falou em “Michael J. Fox”, mas a semelhança talvez incorresse mais ao imaginário adolescente defendido pelo ator (Teen Wolf, O Segredo do Meu Sucesso, De Volta para o Futuro) do que por fisionomia ou incapacidade de envelhecer.
Os três shows no Sesc Pompéia, em São Paulo, foram equivalentes, mesmo com o repertório bem variado entre si – era formado basicamente pelas músicas dos discos Grand Prix e Songs From Northern Britain, com alguns petiscos do Bandwagonesque e poucas faixas dos outros álbuns, além de um único cover (“He’d Be a Diamond”, do Bevis Frond, nos primeiro e terceiro shows) e da música inédita da coletânea (“The World’ll Be OK”). A diferença entre os três shows, igualmente perfeitos, aconteceu mais na forma com que eles interagiram com os fãs. O primeiro foi uma apresentação de reconhecimento, em que o grupo tateou lentamente as possibilidades com canções que funcionaram como termômetros – “Near You”, “Versimilitude”, “Start Again”, “Radio” e “Mellow Doubt” usadas com certa parcimônia. Na quarta-feira, o clima pendeu à introspecção graças à maior quantidade de músicas do Thirteen (“Hang On” e “The Cabbage”) e a crepuscular “Cul de Sac”, com direito ao Ray no bongô – o show ainda foi o único em São Paulo em que a banda terminou “The Concept” com a parte final de “Satan”, um hardcorezinho fuleiro. Quinta-feira – que, na minha opinião, foi o melhor show deles no Brasil (e, disseram depois, que a própria banda considerou o melhor show que eles já fizeram) – foi dia de explosão pop, com direito a “Alcoholiday”, “Broken” e “Metal Baby”, negligenciadas nas noites anteriores. Pelos três shows, tomem versões de “Speed of Light”, “Neil Jung”, “Can’t Feel My Soul”, “Don’t Look Back”, “Your Love is the Place Where I Come From” (com xilofone de brinquedo), “Ain’t That Enough”, “Did I Say”, “I Need Direction”, “Sparky’s Dream”, “What You Do To Me”, e, claro, “Discolite”, “Everything Flows”, “The Concept” e “Starsign” – sempre revezando um verdadeiro desfile de instrumentos clássicos: vimos um Fender Jaguar, uma Gibson SG, uma Guild, uma Gibson Les Paul, duas Stratocasters, uma Epiphone Casino semi-acústica e baixos Fender Jazz e Precision.
A apresentação em Curitiba foi uma espécie de melhores momentos dos shows no Sesc Pompéia, só que sem a proximidade que o palco paulistano dava à platéia. Mas nada que desconcentrasse público ou banda – ambos estavam hipnotizados pela renca de hits que uns mandavam para os outros; a massa sorridente com o rosário pop e a banda esfuziante com seis mil fãs semibilíngües – e ainda rolou “My Uptight Life”, que não tinha rolado em nenhum show de São Paulo. E uma tremenda Lua, ensaiando a míngua, solta num céu lindaço. A companhia carioca não podia ser melhor…
A banda adorou o Brasil e nem precisava dizer isso – estava estampado no rosto de cada um deles. A interação Brasil-Escócia foi aproximada pelo apreço cervejeiro do grupo, que sentia-se em casa com o frio repentino que baixou na cidade. Em São Paulo, passearam por restaurantes, botecos e foram até vítimas de uma festinha surpresa na Vila Madalena – sempre rodeados por fãs e velhos amigos (ser fã é ser um velho amigo, parece sublinhar o mote da banda), recebendo mimos e sorrisos de brasileiros que nunca tinham visto na vida. A reação do grupo foi a melhor possível e o tempo todo, durante toda a estada do grupo no Brasil, era fácil vê-los dando atenção a moleques deslumbrados com o fato de estarem falando com alguém que tinham visto pela primeira vez quando a Bandeirantes transmitiu aquele mítico festival de Reading em 92 ou 93 (rito de passagem pra quem o assistiu, mais importante que o show do Nirvana em termos de impacto). Assisti tudo à distância, despreocupado em conversar com os integrantes da banda e mais interessado na própria reação do grupo ao público e vice-versa. Que funcionava às mil maravilhas, com a banda oferecendo músicas pras meninas e para casais de namorados pelo nome. Ao integrarem-se à platéia, o TFC apenas sintonizou-se a uma freqüência que já estava difundida entre as pessoas que foram assisti-los. Não é exagero dizer que mais da metade daquilo que chamamos de público indie passou pelo Sesc Pompéia para vê-los, provocando aquele clima de reencontro de amigos que sempre caracteriza os megaeventos deste meio (quantas pessoas compõem o “núcleo indie” no Brasil? 10 mil? Não pode ser muito mais do que isso…). Veio gente do interior e do litoral, do Rio e da Bahia, de Recife e de Brasília, de Floripa e de Belo Horizonte, e até do exterior – fora os diversas semicelebridades do meio – gente de banda, de gravadora independente, de produção de shows e festas, escritores pop, blogueiros famosos, etc. Pode incluir, tranqüilamente, o Teenage Fanclub na lista dos grandes acontecimentos indies da virada do século, ao lado dos shows do Stereolab, dos White Stripes, do Mogwai, do Sonic Youth, do Yo La Tengo, do Superchunk, do Mudhoney e do Belle & Sebastian – quase todo mundo foi em todos esses shows. E esse ano ainda deve ter Radiohead – a jóia que falta pra fechar a coroa (ou tem mais? Strokes? Pulp junta tanta gente [eu ia, fácil]? A volta do Pavement? PJ Harvey? Suede? Weezer?).
Entre os shows de São Paulo, quatro bandas brasileiras, mas só consegui ver, direito, o Grenade – a melhor banda do Brasil. O telefone elétrico que Rodrigo aplica nos ouvintes deixa todo mundo atordoado durante todo o show. São riffs clássicos enfileirados como se estivessem prestes a sair de moda, encaixados em músicas que parecem sair de uma improvável parceira entre John Lennon e Ray Davies. A pegada da banda é absurda e soa tão precisa quanto uma caixa de música, apresentando cada nova música com perfeição de faixa gravada. O repertório do show começou desfilando exatamente a mesma ordem das faixas do novo disco, abrindo espaço para uma ou outra nova composição e uma versão quebratudo de “Vampire Blues”, do Neil Young (fazendo o trocadilho-cotovelo com um dos hits do Grenade, a ausente “Vampire”). Show perfeito, que pede mais tempo de execução e, talvez, um espaço menor, para a reverberação mais tensa dos ruídos elétricos. Ainda tinha a ilusão de ver o grupo no palco grande do CPF, mas uma cláusula-frescura dos Pixies cortou meu barato. Quem mandou confiar no atraso brasileiro… Das outras bandas que abriram para o Teenage, eu não vi o Delomax (a nova banda do Gui, ex-Spots), vi só o finzinho do show do Vellocet (que, apesar do indiesmo estridente, parece ser outra banda) e peguei as quatro últimas músicas do show do Cigarrettes, cuja banda de apoio, desta vez, é a ainda anônima banda de apoio all-star da Slag: Eduardo Ramos (do Headache) na guitarra, Pedro Palhares (do Charlotte’s Suit) na outra guitarra, Ronaldo Evangelista (da revista Jazz+) no baixo e Bruno Ramos (também do Headache) na bateria. O som, shoegazer parede-de-som, sofreu com o baixo volume imposto pela casa, mas Marcelo Colares, o homem-cigarro, não tava nem aí – e tocou as mesmas músicas de sempre, com aquela disposição característica. Veio o Luciano Vianna me comentando justamente sobre isso e eu nem precisei pestanejar: “Daí o termo autoral, né?”, disse, percebendo que não havia a menor ironia no que eu estava falando, apesar de achar que ele tinha entendido assim.
Mais um diagnóstico de que, como eu falei repetidas vezes (pleunasmo!), os anos 90 estavam desintegrando-se naquela semana. A ironia, o sarcasmo e o cinismo, estes grifos de linguagem que a década passada se esforçava em usar para passar-se por cool, estavam vaporizando-se à medida que o Teenage Fanclub não permitia segundas interpretações para sentimentos tão descarados. Não era o Oasis dizendo-se maior que os Beatles ou o Primal Scream revivendo alguma parte da história do rock – os principais traços de referência vinham ao próprio público, listado por vezes nominalmente. O stage dive em câmera lenta que alguns felizardos protagonizaram não remetiam ao The Year that Punk Broke e sim ao simples prazer de ser carregado por uma massa de mãos.
Outros fatores ecoariam por aquela semana determinando o fim da década, a repetição como fim do ciclo. Granado dividindo o mesmo palco com diferença de dias tinha a ver com o fato de eu ter finalmente encontrado o Palugan para ele digitalizar o vídeo que eu tenho do segundo Juntatribo (ó lá, hein!). Daqui a uns dias os Pin Ups tocariam em seguida de três ícones gaúchos dos 90 – Flu, Wander Wildner e Frank Jorge -, que tocariam clássicos portenhos basicamente daquele período (fora um DeFalla e outro Replicantes). Sem contar os Pixies – e o último show da jornada, que encerraria a semana com uma música símbolo da década da ironia (repetida ainda na semana seguinte, veremos), embora não trouxesse o mínimo traço desta. Com o fantasma dos anos 90 lentamente se dissipando (um sentimento que, de forma semelhante, desintegrou o “rock alternativo” no show do Mudhoney no Olympia), finalizava a etapa paulistana da maratona. Restava pegar o vôo para Curitiba, tomar a última dose de Teenage Fanclub e me preparar para os Pixies. Quer dizer: não dá pra se preparar para os Pixies. Acho que essa foi uma conclusão que todos nós chegamos. Mas eu falo disso mais tarde.
Depois de um aperto na Rubem Berta, quase sou espirrado para trás pelo vôo, que por dez minutos, conseguiu me capturar. O que te dá mais aflição? O vôo ou todo o ritual que o antecede? Há quem viaje diariamente e sequer sinta a rotina. Mas viagens costumam ser esporádicas para a maioria das pessoas. E todo o processo de fatos que precedem o momento em que se olha, finalmente, o aeroporto do lado de dentro do avião (nem que seja por cima do ombro dos outros), parece ser muito mais complexo que todos aqueles mostradoresinhos no interior da cabine do piloto. Ora, mostradores. Há uma série de mostradores no painel de cada carro do planeta e nenhum deles é usado simultaneamente ao outro. A menos que o sujeito tenha muito azar – tipo esquentar o motor ao mesmo tempo em que a gasolina acabar -, as possibilidades de ter de se verificar dois mostradores ao mesmo tempo é bem pequena. Tudo bem que um avião deve ter lá suas dificuldades, mas aquele emaranhado de números, ponteiros e vidrinhos redondos são apenas sensores para cada pequena parte de um todo gigantesco que levanta-se pesadamente rumo ao céu. Se der merda, todos os ponteiros vão dar merda ao mesmo tempo. Bastava substituir aqueles microrrelógios por um mostrador de parede gigantesco que ocupasse toda uma parede da cabine, ao lado do piloto. Olhando de soslaio para o piloto, o megamostrador seria tão assustador quanto um segurança de boate – o tamanho da responsabilidade te olhando como um filhodaputa. Não há “calma passageiros” quando o ponteiro vai para o vermelho. Desta forma, o piloto gritaria “meidei! meidei!” como um galã de segunda num filme de segunda guerra mundial, ao mesmo tempo em que entregaria a todos os passageiros a verdadeira coragem aeronáutica frente à inevitável lei de Newton. Num “tora! tora! tora!” à brasileira, medraria e borraria-se em primeira pessoa do passado, evitando qualquer paliativo sexydróide vindo do alto-falante das aeromoças. No ar, pânico. Por isso, as companhias disseminam o ponteirão em centésimos ponteirinhos, para a dar a impressão de que é um trabalho verdadeiramente técnico – e não apenas aquela alavanca que qualquer moleque sabe mexer desde o primeiro videogame (sem as bombas ou as metralhadoras, o que deve ser um saco).
Pilotar um avião é fácil. Tenha umas aulas e mande ver. Mas tentar otimizar o tempo anterior à chegada do vôo é tarefa de bibliotecário – isso não se aprende em poucas aulas. Não é simplesmente segurar no volante e abrir os flapes na hora em que o avião triscar no asfalto. Preparar-se para uma viagem é como descer de escadas um prédio que está desabando: quando chegar no chão, você ainda tem que correr para fora. Há um nível de afobação entre o “o que que eu levo?” e o “será que tá tudo certo?” que é capaz de desestruturar o mais frio dos robôs. Case isto com a minutometria de check-ins, rádio-taxis e trânsito no caminho, por si só uma tarefa que requer concentração e destreza – simultâneas. Quando a véspera foi um dia que não existiu, resta apenas acordar assustado com a certeza de que o despertador falhou e o avião já pousa em terras distantes, jogar toda a roupa que puder na primeira mala que estiver a mão e esperar a largada do alarme à base de TV no mute e com os próprios movimentos como som ambiente, como se Jerry Lewis suingasse em um assoalho de boxe. O pré-vôo desta vez equivaleria a um pouso forçado no meio da Amazônia, num teco-teco baleado pelo narcotráfico e pelo descaso, na chuva. Ainda me avisam que eu não poderia embarcar no vôo porque acabaram de avisar no som a tal “última chamada”. Ora, menina, tenha a santa paciência, olha a minha cara (e o sorriso, canto da boca, tipo a Cláudia Abreu faz na novela pra dizer que “agora eu posso mostrar que sou vilã” – embora eu use esse gesto com outras intenções). Entro no avião e encontro com o Diego e o Miranda, que tira do bolso sua lista de bandas cujos discos ainda não comprou (guardada num saco plástico, pra não molhar!) e começa a falar de reedições de artistas que eu nunca ouvi falar e de discos novos de outros caras que eu mal conheço de nome. Enquanto ele ia explicando e situando cada um dos nomes, comecei a cogitar que a afobação pré-vôo tenha sido uma forma inconsciente de me familiarizar àquela ida à Curitiba, que, pela primeira vez, me chamava com antecedência.
O Curitiba Pop Festival era mais uma desculpa para voltar à Curitiba. Não uma desculpa minha, mas da cidade. Ela tem dessas. Tomo doses freqüentes de Curitiba há uns anos e ela toma doses freqüentes de mim. Toda vez de um jeito esquisito, nunca numas de “vou pra Curitiba”. É sempre algo resolvido meio em cima da hora, algo que não tem a ver necessariamente com o meu emprego da vez, um atalho para evitar uns dias em casa – seja jabá de gravadora, favor de amigo ou convite de desconhecido (ou variações das seis alternativas entre si). Caí em anos de entressafra e passei por situações estranhas e shows do caralho. Um Relespública, um Dash, um Happy Cow, um Woyzeck… Preso sem a chave do apartamento, sem lembrar de como havia parado lá. “Posso emendar até terça? Não, a outra! Trago a matéria da capa!”. O show de lançamento do Sr. Banana – bebedeira-livre e todo underground curitibano em noite hi-fi. Indies lovecraftianos numa viagem erradíssima no James. O nascimento da “irreverência”. Como assim, perdeu a carteira? Pentelhando a Cissa numa performance Contos da Cripta. Como é mesmo o seu nome? Esmolando quarto de hotel pra produção do falecido BIG edição Aeroanta onde conheci pessoalmente Simone, no mesmo evento do infame e famoso incidente dos 50 reais. Acabação etílica no mexicano na conta de algum poder público. Digão – indefectível e infalível – o único que vi TODAS as vezes. As várias caras do 92… O motivo do nome do Abonico. O Diet abrindo a porta do quarto do hotel só de short vermelho. A risada da Paola. A Angélica com o queixo quebrado do outro lado do telefone. Devorar o macarrão expresso que até os Concreteness (hoje estrelas do jetset paulistano) desprezaram. O policial perguntando o que a gente tava fazendo na porta do hotel (o que a gente tava fazendo?). Flanar pelo centro com o casal Candyland e a Clarah. Las ticas tienen fuego. Cidade esquisita, realidade paralela. As coisas funcionam, mas de um jeito diferente. É como se Twin Peaks não fosse uma cidadezinha, mas a capital de um estado. E, convenhamos, o Paraná é muito Twin Peaks. Troque os pinheiros pelas araucárias e espere o anãozinho vir falando de trás pra frente. Os caipiras daqui não são brasileiros, eles vêm de Fargo. As pessoas não olham na cara (como não olham em São Paulo – mas, pensando bem, você olharia na minha cara?) e ficam intimidadas com qualquer demonstração de afetuosidade, por menor que seja.
Completava o Miranda, sobre a capital: “Mulher casada te cumprimenta com a mão e não dá beijo nem por telefone. Tu fala ‘um beijo’ e elas respondem ‘um abraço'”. Junte isso ao fato de ser uma cidade essencialmente indie. Apesar dos fãs de Ramones e dos torcedores do Atlético Paranaense (um tipo de gente que, por algum motivo xis, faz parte do mesmo grupo social), Curitiba está mais próxima de Roma e Londres do que da Califórnia carioca ou da São Paulo noviorque. Não tem o sabor caribenho de Recife, o charme cajun de Salvador, o antídoto cronenberguiano à claustrofobia de Brasília, a atmosfera platina de Porto Alegre, o bon-vivantismo dundee de Florianópolis ou a aspiração barcelonesca de Belo Horizonte. O Brasil tem o privilégio de encubar texturas de todo o ocidente e em nenhuma capital do país o pesar do Velho Continente é melhor sentido do que em Curitiba. Até os policiais são indies: uns fantasiados de Chips (capacete branco) e outros de Guarda Belo (de quepe). E sexta-feira, o tempo traduzia de forma perfeita o sentimento bucólico-medieval que paira sobre avenidas e shopping centers: um solzinho amarelo, quente o suficiente para aquecer a pele do impacto bruto de um frio seco, que cortaria a pele com seus menos de 15 graus não fossem as bem-vindas boas vibrações do chamado astro-rei. A frieza curitibana é aquecida com uma certa tristeza feliz, uma conformação com a compensação que é característica central do adjetivo indie. Poucas horas dali, os Pixies explicariam o porquê da convergência rumo à capital paranaense. Mas até aqui, no percurso rumo ao hotel, o cheiro da cidade ainda é daquele que faz o povo ouvir Smiths, Sonic Youth e Jesus & Mary Chain antes de Pink Floyd, Led Zeppelin e Doors. INDIE! dizem os outdoors, estejam anunciando motéis ou imobiliárias.
Chegamos ao hotel e em poucos segundos percebo que aqueles quatro ali não são o Alcir Pécora, o Sérgio Brito, o Charles Pilger e a mãe do Malcolm, e sim os Pixies – ciceroneados pela Fabbie, que quando a cumprimentei, transitava entre o estado de choque e o estado de alerta, ainda sem alguma noção palpável de quem estava do lado. Depois de acomodado no hotel (piscina aquecida e o escambau, eu mereço…), seria a hora de uma banda pelo centro acompanhado das literais celebridades Kid Vinil e Miranda, que pararam várias vezes para tirar foto e cumprimentar fãs. Só em uma cidade indie! Colamos no Stuart para petiscar uns tapas (e curar um trauma de infância do Kid, que comeu coelho pela primeira vez) e lamentamos a onipresença Kaiser tomando água. No meio do hecatombe (vá ao dicionário), pinta um carinha que, depois de reconhecer meus chapas andarilhos popstars, vira-se para mim e metralha um inquisidor (“eu te conheço de algum lugar…”), que me constrange tanto quanto uma cantada gay. Tal qual, desvencilho-me com o coração tranqüilo:
– Você não me conhece.
A satisfação do anonimato só seria compatível ao momentum Orkut horas mais tarde no CPF, que, apontando na direção oposta, me aproximaria de pessoas que estariam a bem mais tempo longe do meu alcance, traduzindo perfeitamente a geografia do espaço-tempo para o universo das relações entre as pessoas. “Amigos dos amigos” já se batizava a facção malaca nos morros do Rio, “the enemy of the enemy is a friend” cantava o Asian Dub Foundation e agora vem o cadastro do Big Brother proposto pelo Google – e aceito por nós – com o conceito de “Friends of Friends” (os “Fofs”, pros meta-irônicos) que, no fim das contas, reverbera exatamente a noção teia/formigueiro que está, pouco a pouco, minando conceitos que eram tão sólidos e consistentes quanto as torres gêmeas ou a ética do exército norte-americano: Pê-Dois-Pê, malandro, “de parrrceiro pra parrrceiro”, tudo na faixa, sem crise, pegaê. Uma lógica que tem tanto a ver com o sucesso de programas como Soulseek e Napster quanto a cada vez mais intensa queda moral rumo ao solteirismo, à cultura do DJ e do software livre. Pitchupi or not pitchupi, esta é a tal questão – e vocês sabem a resposta.
O melhor exemplo desta nova forma de interação foi encarnado no casal Cris e Maui, cuja existência só me foi apresentada quando eles já haviam se mandado do Brasil, mas que amizades em comum e listas de discussão sempre me mantiveram em contato com os dois. Pouco antes de vir para cá (aproveitar o grande encontro da semana ida), Cris me manda um email avisando da chegada e, quando os encontro, estou conversando com velhos amigos. Novos velhos amigos, uma sensação que você com certeza já teve – e que muita gente que não teve ainda olha com estranheza. Azar deles.
De volta de um passeio por lojas de vinil e um minitour gastronômico com o Miranda, a Rosa e o Zé Guilherme, restava ir ao evento de táxi. Com a credencial à mão, abriam-se os portões dos fundos e foi possível uma entrada triunfal pelo elevador Gotham City nos fundos da Pedreira. Era a minha primeira vez naquele lugar e não tem como não ficar impressionado – e a noite, em especial, contribuía para o deslumbre. Descer naquela espécie de cratera de luxo, uma arena lunar, num elevador que, estrutura de andaime, explicava, visualmente, todo o mecanismo de funcionamento do aparelho, já seria uma experiência e tanto – que fora completa com o fato do Pipodélica estar encerrando sua participação com “Space Oddity”, de David Bowie. Uma abertura ímpar para a minha edição pessoal do CPF. O Íris, em seguida, com aquele famoso “som de Curitiba” (que parece muita coisa, não chega a empolgar e funciona muito bem como trilha sonora) serviu para ambientação na Pedreira – e encontrar uma enorme quantidade de compadres, conhecidos, chicas e comadres. E novos velhos amigos – eram em quantidade suficiente para serem mencionados como um grupo.
O público começou a balançar com o groove do Sonic Júnior, um dos poucos a destoar da uniformidade rock da noite. Não chegou a comover em massa, mas era possível perceber nas filas do bar e nas rodinhas de conversa, pés batendo e ombros chacoalhando às levadas proto-eletrônicas da dupla alagoana – e que melhor juiz que o fluxo sangüíneo? Os suecos do Hell on Wheels trilharam pelo mesmo caminho, mas trazendo o clima de volta ao rock’n’roll – riffs e pegadas substituindo o suíngue e o bolebole. Como o Sonic Júnior, foi igualmente recebido com morna indiferença, embora uma ou outra faixa empolgasse bolsões de animação espalhados pelo público. Nada demais, comparada à catarse feliz que o Teenage Fanclub induziria logo a seguir – e que já foi contada anteriormente. No meio do show, o público derruba as duas grades que separavam os dois setores da platéia – um acontecimento previsível e que podia estragar o show, caso rolasse algum empurra-empurra pesado. Mas felizmente, a turba era curitibana e o tumulto, indie, foi apenas caótico o suficiente apenas para derrubar as barreiras, sem maiores contusões – maravilha.
Findo o primeiro dia do festival, restava seguir para o segundo programa da noite, o festival RG, que acontecia num lugar chamado Cine – que, como o nome diz, era um antigo cinema. Mas o fato do CPF ter acabado bem depois do horário previsto e um demorado pitstop no hotel fez com que chegássemos a tempo da última banda da noite, o trio paulistano Detetives, que melhorou horrores desde o outro show que eu vi do grupo. Presença rock na mesma medida das referências certas (o cover garagesco pra “White Light White Heat” do Velvet foi o ápice), o grupo está tão próximo do rock gaúcho quanto da cena churly paulistana e do Novo Rock que sai de Nova York. Capta freqüências que estão no ar e a transferem com um grau de virulência contido o suficiente para garantir sotaque e personalidade, uma fórmula que seria repetida com esmero na noite seguinte do evento. O Biônica, também de São Paulo, ainda apareceu como banda-surpresa da noite, mas sem novidades – eles são apenas OK, falta concretizarem o nível de periculosidade que tentam induzir entre riffs, solos e gritinhos. Restava terminar a noite (já dia, e de óculos escuros) se empanturrando com as frutas do café da manhã do hotel. Que coca-cola gelada o quê! O melhor remédio pra ressaca há de ser uma porção com vários pedaços de frutas tropicais, repetidas vezes.
O dia seguinte começaria a diluir os resquícios finais do Teenage Fanclub à medida em que a presença pixieana ia se tornando uma realidade – cheguei a ouvir a camareira assobiando “Gigantic” ou era só aquela música do Belo? O fato é que quando eu liguei no canal de TV que mostrava o que a câmera no teto da recepção filmava, certa presença feminina chamou minha atenção: recostada ao balcão do lobby do hotel, ela conferia alguns papéis com um funcionário. Pensei – era uma oportunidade e só, não custava nada. Desci pelo elevador e encostei-me ao seu lado, perguntando para o funcionário se haviam deixado algum recado para o meu quarto. Enquanto ele conferia o que eu já sabia, virei para a vítima e sorri um “oi” em inglês que me funcionou como passaporte para um ícone crucial para a década que esmaecia naquela semana:
– Hi
, respondeu o sorriso de Kim Deal. A poucos palmos do meu (e igualmente clássico, embora em outras dimensões), o sorriso de Mona Lisa emulado por Kurt Cobain e Billy Corgan em suas parcas tentativas de parecerem delinqüentes juvenis. Eis o sorriso que suspira não apenas a letra de “Gigantic” como os uivos iniciais de “Cannonball” e que encantou mais de uma geração com seu misto de insanidade e juventude. Há um certo grau de indolência naquele sorriso que parece não ser certo deixá-lo à solta, para pegar pessoas desprevenidas com aquele desprezo natural. Eu fui preparado, mas não sabia o que havia por trás daquela paisagem horizontal. Certamente, um enigma, mas qual? Um sorriso com olhar de cantos da boca, preenchendo o campo de visão feito o mar em uma praia. Uma esfinge ao contrário: decifra-te ou devoro-me. Deixei-a devorar-se, enquanto descubro que ninguém deixou mensagem pra mim. Satisfeito, voltei ao quarto, para me preparar para a grande noite.
De saída, não dava pra não se apaixonar por duas pequenas ninfetas que grudaram naquele bando de credenciados na tentativa de entrar no show sem pagar. Como quem não queria nada, elas sentaram num cantinho e foram ficando, até perceberem-se no meio da Pedreira. Ah, o viço da adolescência, o rubor da tez macia frente aos perigos da idade, a candura dócil dos verdes anos, aqueles peitinhos e sorrisos tímidos… O Grenade havia passado (mérde!) e era a vez do Excelsior mandar um capitular Som Indie para a massa que ainda chegava no lugar – e põe letra maiúscula nisso, tamos falando de uma banda com gente do Woyzeck e do Wandula na formação. Meio fora d’água num evento daquele tamanho, mas foi show caprichado, pop de gente grande como só Curitiba sabe fazer.
Logo era a vez dos Autoramas puxar seu cordão de hits, boa parte deles cantarolados pelo público. Quem já viu os caras ao vivo, sabe: não tem erro nem mistério, é rock’n’roll como se o gênero não tivesse se tornado uma espécie de piada interna. Gabriel ainda cutucou a aflição da geral ao, pouco antes de sair do palco, entoar as solitárias notas de abertura de “Here Comes Your Man”. “Lá vem os caras”, pensava o público em uníssono, respondendo em rugido. “Lá vem a bomba”, pensei, na multidão.
Depois entra o Pelebrói Não Sei, que é outro mistério: a banda é muito, mas muito ruim, embora os caras façam o show empolgadaços e o vocalista Dee Diedrich roube a cena. É impressionante isso – a banda é um hardcorezinho fuleiro cantando músicas toscas sobre sexo e violência, mas nem é o conceito que decepciona e sim o fato da execução sem muito primária. Mas com um sujeito daqueles no microfone, se a banda entrasse batendo lata e saísse tocando chocalho, ganharia o público do mesmo jeito. Lembro do outro show que eu vi deles, no De Inverno de 2002, quando os caras ainda tavam ganhando intimidade com o palco e Dee já impressionava. Dois anos depois, o cara é popstar local, o público sabe cantar boa parte das letras e ele tava com a platéia na mão. “Obrigado a todas as mulheres que vieram pra cá me ver” – não é todo dia que alguém solta uma pérola dessas sem ser expulso às latadas. Fora que foi a banda que agitou a derrubada da cerca no sábado, pedindo “o fim do Apartheid”. Fico imaginando a banda num palquinho, show lotado, todo mundo pirando. Mas não é o meu tipo de som, por isso fui dar uma banda pelas lojinhas encontrando o Júnior “sexto Mogwai” felizaço com a quase rapa que aconteceu com as camisetas que ele levou pra vender e o Lariú com um sorriso gigante por ter esgotado todos os discos do PELVs que ele trouxe. Só em Curitiba… Ainda trombo com o Nobre que, depois de me intimar para o show do MQN mais tarde na continuação do RG, me lembra da primeira resenha que escrevi sobre a banda dele, descendo o malho. Mais um motivo para ir ao festival paralelo, e direto do show, sem passar no hotel. O outro eram os Walverdes que, motivo de vergonha admitido, pois nunca havia os visto em palco. Mas tenho meus canais de averiguação de confiança e já sabia que veria um Grande Show de Rock depois do Evento Pixies, cuja conjunção planetária começava a alinhar-se no céu.
Depois de um problema e uma solução de natureza drosófila, trombei com o roadie do Teenage Fanclub que, até então, era apenas o “George” – um sujeito grande e grisalho, com os cabelos lisos escorrendo até os ombros, sempre de jaqueta de couro, olhar pacato e prestativo. Sua fisionomia o levara a ser batizado pelo Diego e pelo Lúcio como “Bob”, em referência ao espírito que mata Laura Palmer em Twin Peaks – é coincidência? Não acho… Restava confirmar um rumor que o acompanhava desde São Paulo e qual a surpresa da confirmação que era ele mesmo, o próprio George Borowski, lenda-viva da guitarra elétrica no norte inglês que tocava na banda The Out e fora homenageado em letra pelos Dire Straits, em “Sultans of Swing”. É o próprio “Guitar George”:
“You check out Guitar George he knows all the chords
Mind he’s strictly rhythm he doesn’t want to make it cry or sing
And an old guitar is all he can afford
When he gets up under the lights to play his thing”
“Just George”, disse ao ser inquirido, antes de começar um discurso apaixonado sobre o Brasil e as qualidades da terrinha. “Você sabe quais são, mas eu preciso falar” e comentava sobre o calor das pessoas e como o fato do país ser um lugar lindo era a menor das qualidades. “São as pessoas que importam e você sabe disso. Vocês todos sabem disso, por isso que o Brasil é um lugar tão bonito”, explicava, visivelmente emocionado e candidamente ornado por um vaso de orquídea provavelmente dado por uma fã. É isso aí, mister gringo, tu captou a nossa mensagem. Spread the word, então. Diz ele que ano que vem tá aí, pra fazer shows solo – vamos ver.
Enquanto isso, o Ludov continuava sendo o Supertrunfo ou os Maybees, apesar de tudo. Soam como um Pato Fu paulistano – ou seja, todas as gracinhas do quarteto mineiro acabam transformadas em… nada. O problema não é serem uma banda ruim (como eu sou gente boa, hein…), e sim só o fato de não transmitirem energia suficiente para passar algo. Vai ver sou eu, mas mesmo prestando atenção em duas ou três músicas, a má impressão não se desfaz, mantendo-se com a cara de pop papel-de-parede, música ambiente num sentido pejorativo, muzak inconsciente. Mas o que é? É a vocalista? São as letras? As guitarras? Não consegui detectar uma coisa específica que tornasse o som da banda tão insípido – o que me leva a crer que é o próprio conjunto que chega a esta conclusão. Falando em sorriso da Kim Deal, encontro a Paola (o P de CPF) num canto atrás do palco, maravilhada com o fato de tudo ter corrido como planejado (salvo uma ou outra bobagem, normal num treco deste tamanho). Ela me pede desculpas por uma besteira qualquer, enquanto aproveito a deixa pra assuntar o elenco de sonho pra edição do ano que vem. Ela finge que não sabe, mas tem a lista na ponta da língua – mas como estamos no plano das idéias, melhor nem falar nada, pra não agourar. Sacumé…
No palco, a Relespública, novamente um trio, explica porque ainda é uma das melhores bandas de rock do país, abalroando tímpanos com versões para “A Fumaça é Melhor que o Ar” (do Ira!), “Eu Sou Terrível” (Dele) e “Won’t Get Fooled Again” (do Who). Entre os transeuntes pelo público, encontro uma massa: o casal De Inverno, o Bicso, a Lia, o Farinha, Charles Pilger ele mesmo, o Jonas, a Grazi, o Rafa, os onipresentes Zé e Gordinho, Diógenes, Mestre Giglio, a Eiko, a Liana, Luciano Elcabong, Dodô, o Sapo, o casal André e Rafaella, Takeda, o Cassiano (que havia salvo a discotecagem do festival da tragédia da noite anterior, em que um tanso ficava curtindo, sozinho, o mesmo disco do Pantera), Miss Bobsin, o Sol, Abonico, Mutley, o Pablo – enfim, um monte de gente conhecida (minha – numa coluna social pessoal – e entre si), fora os novos velhos amigos, uma vaibe incomparável. Pouco depois, o Mombojó repetiria o efeito Sonic Júnior, trocando o groove da sexta-feira por um flow quase jazzístico, com um pé num lounge mangue e outro na MPB. Únicos artistas não-rock da noite, sofreram com o som baixo, mas nem a banda nem o público pareceu se preocupar. Hipnotizados pela tranqüilidade séria e serena do sexteto, a choldra parou para prestar atenção em mais uma prova da maturidade do grupo. O palco gigantesco também prejudicou o impacto da banda (problema que trios como a Reles e os Autoramas não tiveram), mas o andar da carruagem não foi prejudicado em nenhum momento e além de alguns pontuais grooves do disco Nadadenovo (como “A Missa”, “Deixe-se Acreditar” e “Nem Parece”), que moveram a multidão, o resto da apresentação induziu a um transe psicodélico light, bem azeitado com o tempero samba, violão acústico, cavaco e flautinhas providenciais à viagem. “Essa é de Chico”, anunciou o vocalista Felipe, “Buarque”, antes de entrar em uma “Tem Mais Samba” quase lounge.
Logo então começaria o segundo melhor show do sábado no CPF, um encontro que poderia ser genial ou um fracasso, reunindo, numa mesma banda, Wander Wildner, Frank Jorge e Flu, tocando (aham) “clássicos do rock gaúcho”. O que poderia ser um mico de proporções cepeéficas, no entanto, mostrou-se o show certo na hora certa (quase na hora certa, pois o Pin Ups devia ter vindo antes). Abrasileirando um pouco o imaginário indie que alinhava Curitiba a Boston e outras cidades universitárias improváveis pelo planeta, enquanto a Lua seguia seu aparente ingênuo percurso por um céu que aos poucos vias as nuvens dissipar, o trio lembrou-nos da grande contribuição do rock feito no Rio Grande do Sul para a cultura nacional: a diversão pura e simples, prima de oitentistas desafetados como Léo Jaime, Ultraje a Rigor e Camisa de Vênus. Uma seqüência de canções que juntava os pontos de diferentes situações e oportunidades conseguidas pelo gênero nas duas últimas décadas – de clássicos dos Replicantes (“Sandina” em versão bilíngüe, “Hippie Punk Rajneesh” e “Surfista Calhorda”), hits improváveis do DeFalla (“It’s Fucking Boring to Death”), nuggets do Cascavelettes (“O Dotadão Tem Que Morrer” e “Menstruada”), a velha Graforréia (“Empregada”) um Frank Jorge patofuzado (“Eu”), um sucesso wanderiano (“Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo”) e o hino de Júpiter Maçã “Lugar do Caralho”, que, como quase todas as músicas, foi cantada aos berros por boa parte do público (são hits, ora pois) – esta última com a certeza de que, mesmo que a cerveja não fosse tão barata quanto a do lugar descrito pelo velho Basso (veria o sujeito mais tarde), o CPF de sábado chegava próximo à paisagem cantada. Só faltou umas músicas, ou ao menos uma, do Carteira Nacional de Apaixonado, clássico gaúcho desde sua incepção.
Os Pin Ups vieram em seguida e fizeram um show apenas OK – e eu só digo OK pra não pegar pesado e dizer “ruim” direto. Porque não chegou a ser ruim, mas foi tão deslocado e fora de sintonia com o resto do evento que parecia estar em rotação errada ou sem contato com o público, como se tocassem atrás de um muro (um The Wall involuntário, punk). Sem contar que o Pin Ups redivivo é uma aparição essencialmente paulistana, o que torna as coisas ainda mais desfavoráveis para a banda fora de casa – no dia do Mudhoney (e ainda mais com o Mario do Wry puxando “Evisceration”) fazia muito mais sentido. E nem ao tocar a mesma seqüência de covers de sempre (um Stooges, um MC5, um Jesus & Mary Chain) o grupo conseguiu animar o público, que fingia agitar apenas para não perder o embalo para os Pixies. Eu circulei ali no meio – mais se conversava do que se prestava atenção no palco. O clima era “PIXIES! PIXIES!” em diferentes escalas de articulação sentimental, o público extático com a cada vez mais curta distância espaço-temporal entre suas próprias individualidades e um conceito midiático considerado clássico associado a um período feliz de suas vidas. Mesmo longe do público, a presença dos Pin Ups fazia todo o sentido no âmbito fim dos 90 que exaltava da semana, que ainda contou com a virtual presença do Killing Chainsaw, cuja “Passion” (do disco-atordôo Slim Fast Formula) vinha metralhada em um anúncio de loja de skate que passava nos telões, entre um show e outro.
O grupo paulistano deixou o palco pouco antes da meia-noite e o clima de expectativa começa a tornar-se um ruidoso zunzum de apreensão. É o barulho da massa crepitando os próprios engulhos, tomada de excitação pelo momento coincidente que está por vir. A calma antes da tempestade, o vácuo que anuncia a tsunami, o vazio na alma aos pés do apocalipse. Me instalei a menos de cem metros do palco, estrategicamente entre o casal Maui e Cris, o Du, o Bernardo e a Fabiana. Enquanto os verticalmente prejudicados roubavam cadeiras de plástico da praça de alimentação para não perder nenhum detalhe. Mas alguém procurava um lugar melhor para o show.
O palco montado na Pedreira era formado por dois grandes retângulos, sendo um deles, o da base, o dobro do tamanho do outro, a parte de cima. Vistos de cima, ambas áreas eram alinhadas ao centro, fazendo com que, de cada esquina do palco, subisse uma viga de metal em diagonal, rumo ao centro do palco e apontando para cima. Visto de frente, o palco parecia um trapézio (a figura geométrica, quem disse que você não lembra?). Não sei se você consegue visualizar, acho que uma foto facilitaria as coisas. E à medida em que os minutos se aproximavam da meia-noite, as nuvens já não estavam mais no céu e a Lua lentamente se posicionava um pouco acima do palco, formando, pelo menos olhando de onde eu estava, uma outra figura geométrica, tridimensional, de contornos adequados ao evento que aos poucos o show dos Pixies se tornava. As pontas do palco, a Lua e a banda no meio: uma pirâmide.
Ô-ôu.
Você deve ter alguma noção do que isso significa. Pirâmides não apenas remetem ao início da civilização ocidental mas seu formato inspira o equilíbrio mental e espiritual que é a meta de diferentes religiões, ideologias e filosofias – além do Egito, tem pirâmide no México, no meio da selva brasileira, no fundo do mar, na África, na Ásia, na nota de dólar, em Brasília, no símbolo da maçonaria, no Louvre. Diferentes teorias posicionam-na como matriz para possibilidades improváveis – a teosofia da Madame Blavatsky falava em rituais de renovação da energia vital baseando-se no Livro Egípcio dos Mortos; outros pesquisadores do século 19 conseguiam interrelacionar as pirâmides egípcias com profecias bíblicas; matemáticos e arquitetos debruçavam-se sobre a perfeição numérica do formato. Uma superstição mágica fala que a carne leva mais tempo para apodrecer caso deixada sob uma pirâmide e não é raro encontrarmos gente dentro de estruturas piramidais fazendo exercícios ou meditando, aproveitando-se da dita paz encontrada no interior de um treco daqueles. A natureza enigmática da pirâmide vai além e evoca até mesmo os mais antigos temores humanos, mistérios inexplicáveis como Atlântida, ocultismo e seres alienígenas.
Estamos, definitivamente, em território pixieano.
Os quatro Pixies sobem ao palco, quatro lados da pirâmide, quatro elfos brincando de deus para uma massa de quase oito mil fãs de carteirinha. Lovering, impecavelmente vestido com uma camisa bufante com estampa de cartas de baralho (ele também é mágico, caso você não saiba) esmurra sutilmente seu kit, pouco antes do baixo da senhora John Murphy enganchar no andamento de “Bone Machine”, abrindo o caminho para os acordes gritalhões das duas guitarras e o zurro primevo de Frank Black. Tanto o público quanto a banda sabia que a viagem dali em diante não seria uma mera apresentação clássica, e sim uma provação ritual, para ambos os lados. Os Pixies precisavam enfrentar o público brasileiro e tentar uma comunhão mais séria e todos presentes estavam dispostos a validá-la. E se o número humano é 5, não custa lembrar que 5 também são os lados da pirâmide – nos esquecemos do lado que não vemos, pois somos nós. A própria base. Quatro Pixies no palco e o público. A Lua no alto, observando tudo, olho solitário. O cenário estava armado.
Sim, eram os Pixies mesmo. Mesmo que fisicamente tenham mudado (Black foi o menos afetado pelo tempo – apenas aumentou de tamanho), na hora em que os quatro embarcaram na primeira de uma seqüência de vinte e seis músicas praticamente sem intervalo, numa coletânea perfeita que nem eles mesmos conseguiram sintetizar em disco, percebemos que estávamos de frente para tudo aquilo. A banda começa a tocar e tudo era familiar: os berros e sussurros de Francis e sua guitarra grunhida; as intervenções cândidas de Kim ao vocal, sob um baixo tão firme quanto o eixo magnético da Terra; os gemidos e uivos elétricos de um Joey Santiago tão discreto no palco quanto indiscreto no som; os três instrumentos e dois vocais convulsionando possibilidades simples propostas pela pegada segura e precisa do prestidigitador David Lovering. Não era difícil imaginar todo mundo lembrando do primeiro vinil, daquela fita que havia pego emprestado com o amigo, do primeiro clipe, da primeira vez que leu o nome “Pixies”.
Nenhum deles é músico virtuoso… e daí? O que faz dos Pixies fundamentais nessa história toda é justamente que cada canção conter um excesso de simplicidade tão impressionante a ponto de nos inquirir sobre o fato de elas não terem sido compostas antes. Eles pegam o molde do punk e o colocam em perspectiva, relativizando seu impacto e cogitando novos caminhos para o formato baixo-guitarra-vocal-bateria. Não há influência de blues ou de rock clássico explícita em nenhum momento do grupo (a única, talvez, seja a citação do riff de “Purple Haze” de Jimi Hendrix, pelo final de “Into the White”, um lado B) e a banda é tão surreal que parece ser um dos grupos de música pop inventados por Thomas Pynchon e Robert Anton Wilson, dos filmes de David Lynch ou de Pedro Almodóvar ou do imaginário pop aleatório das realidades paralelas da Hanna Barbera. Não parece existir.
Convenha: um grupo de punk surf com tendência ao pop radiofônico perfeito, citando ufologia, cinema de arte e violência gráfica e gabando-se de influências como western spaghetti e cultura porto-riquenha, além de uma estranha obsessão com a morte não é exatamente o que se espera da História do Rock. Um grupo nerd, estudantes de escola de arte, olha a cara desses sujeitos. A descrição dos Pixies é adequada a desenhos animados para gente grande, a filmes do John Waters ou de Quentin Tarantino ou elocubrações ensandecidas de Hunter Thompson. Não parece um grupo que realmente existiu – parece ter sido um sonho. Não é acaso o fato do grupo pertencer ao mesmo terreno crepuscular de bandas como Cocteau Twins e Dead Can Dance (a gravadora 4AD) e o fato de ter sua discografia resumida a quatro discos e um EP os coloca ao lado de outras lendas tortas do século passado, como o Velvet Underground, os Doors, os Stooges e o T-Rex – bandas igualmente estranhas, improváveis e fugazes.
O transe ia em direção à consciência histórica da própria banda (que batizou informalmente a turnê com o trocadilho Sold Out Tour e se negava a falar com a imprensa – pra desespero, frustração e raiva dos ditos coleguinhas), até que aconteceu “Velouria”. A seqüência de acordes que abre a canção é tão esquisita quanto triste e o fato de todo o público se entregar àquele sentimento de desespero febril, em apenas uma canção me acordou para vários sentidos, que começaram a revelar-se numa seqüência quase apocalíptica. Os sete selos.
Foi quando eu pensei na teoria da velha Blavatsky e comecei a concatenar os fatos. Sim, havia um ritual sendo realizado no meio da pirâmide daquela cratera lunar de granito escuro e não é uma festa, apesar dos ânimos estarem a mil. Ao menos não uma festa como imaginamos. É uma celebração, mas não estamos comemorando simplesmente a vinda dos Pixies ao Brasil, ali em nossa frente, naquela conjunção astral que tomou décadas para acontecer – primeiro o palco, depois a Lua no topo e finalmente a banda no centro. Tanto que era comum o sentimento à grande parte dos que assistiram ao show, logo que a apresentação terminou: “Agora, já posso morrer!”.
É, meus amigos, estávamos em frente a uma imensa Dança da Morte, celebrando a finitude humana e o fato que tudo um dia vai embora. Claro que conscientemente as pessoas estavam apenas cantando apenas várias de suas músicas favoritas como se não houvesse amanhã (mais uma referência ao fim?), mas quando “Velouria” terminou, percebi o que havia acontecido até ali. Por trás das letras surrealistas ou teoricamente nonsense de Black e Deal, havia certo significado alheio, esperando ser revelado num momento daqueles: “Segure minha mão, finalmente iremos saltar através do teto rumo a algum lugar próximo e longe no tempo”.
A Morte. Vendida diariamente como o pior que nos pode acontecer, a morte ainda nos é algo completamente desconhecido, e nada como o que não conhecemos para atiçar nossa curiosidade. Nos entregamos à Morte com a morbidez e o fascínio de uma menina gótica de 13 anos, embora mídia e mercado insistam em uma tragédia brutal e mal explicada, como se morrer fosse algo injusto. Junte com a culpa ocidental de ter o Filho de Deus crucificado PELOS SEUS PECADOS e a Morte torna-se o pior castigo do mundo, a ponto de pessoas de pensamento estreito e retenção anal a cogitarem como punição, seja de forma legal ou informal.
Não sabemos o que é a morte. A Luz do outro lado é só uma metáfora visual (e das mais básicas) para o que pode acontecer do outro lado. Mas ao vilanizarmos a morte como castigo, como punição, esquecemos a principal lição da vida – que somos temporários o tempo todo. Que nada é pra sempre, que poucas coisas resistem a mais de alguns minutos intactas. Estamos em constante mudança, nos reavaliando e revendo consciente ou inconscientemente. Da mesma forma que andar é uma sucessão de quedas, viver é um alinhamento de pequenas mortes. De sete em sete anos, todas nossas células se regeneraram e são novas – ou seja, fisicamente, já morremos. Morremos o tempo todo, sem perceber, e aguardamos a Morte Final como uma aposentadoria moral, a vida eterna que os cristãos acreditam, que não passa de uma utopia tão distante da realidade quanto a terra das oportunidades do capitalismo e a sociedade pós-estado do comunismo – mera isca pra cair no engodo. E tal qual a aposentadoria, você estará velho demais para curtir o que poderia ter curtido quando era mais jovem. Descansar de ter passado a vida apenas se cansando. Pior: imagine que o Outro Lado tem um porteiro Mike Patton, que te recepcione sorrindo: “Surpresa! Você está morto! Abra seus olhos: nunca termina!”. Pra quem você vai chorar?
O Fim. É inevitável, é o que nos une a todo o cosmo. “É a única certeza que temos”, diz o Veríssimo, “não sairemos dessa vivos”, citando Jim Morrison, em “Five to One”. Tivemos um começo e iremos acabar. Nosso ciclo é finito. Podemos aprender a estender sua duração (como a Cura da Morte proposta pelo Cory Doctorow), mas até hoje vivemos realidades prontas a serem desligadas, a qualquer minuto, por qualquer motivo. Mas nos esquecemos que, como a vida é passageira, a morte não pode ser temida. Precisamos conviver com a morte, não com o fantasma do Castigo Final, mas com a presença de nossa própria finitude. Temos de celebrar a Passagem. É quando entra toda uma simbologia pixeana que, fora de contexto, parecia apenas surreal: “Bone Machine” como uma constatação cartesiana de nossa angústia frente ao trágico da vida (“Você é uma máquina de ossos”). “Cactus” e “Nimrod’s Son” falando em quase morte, “Isla de Encanta” cantando um lugar onde não há sofrimento, “Hey” ameaçando a morte à separação, sem contar o macaco indo pro céu (o mesmo tema da “máquina de ossos”) e o fato de “Vamos”, em sua aparição oficial, começar com Black Francis ameaçando “you fucking die” para Kim Deal. Mais adiante falavam em acreditar no “Senhor Luto” (“Mr. Grieves”). E isso só até “Velouria” – ainda teríamos quase uma hora de show pela frente e a obsessão do senhor Charles Thompson pela morte provocaria estranhas reações coletivas cantadas em inglês num país subdesenvolvido.
O primeiro destes momentos seria o bizarro coro de uivos em “Caribou”. Porque uma coisa é você ouvir, no disco, apenas Frank cantando o alongado “u” que acompanha a palavra-título e outra coisa é estar no meio de quase oito mil integrantes de um coral improvisado que, mesmo sem um ensaio geral, entoava massivamente a mesma vogal, doce e triste, pelas frias pétreas paredes da cratera Pedreira. “Number 13 Baby” também surtiria um efeito prosaico com seu refrão cantado em uníssono, urrando “Viva” com uma melancolia distante da saudação. O apreço do grupo pela cultura latina proporcionou vários destes momentos – palavras em espanhol cantadas com sotaque norte-americano por fãs brasileiros, desmoronando fronteiras geográficas sem embaraços característicos. A mesma música ainda cantava: “Não quero olhos azuis/ Quero olhos castanhos”. Dispersos pela platéia, gente de todo o Brasil, na cidade que menos lembra Brasil de todas – daí a conjunção Curitiba, que, além de obrigar o público a se renortear por nova Estrela da Manhã (o Cruzeiro do Sul?), ainda proporcionava um show em “território neutro” – nem carioca, nem paulista; nem gaúcho, nem baiano.
De repente, Frank e Kim começam a empilhar “ride, ride, ride” e estamos indo, indo, indo pelas águas do Rio Eufrates, outro berço da civilização ocidental, voltando milhares de anos na quarta dimensão, cantando que “o Mar Morto faz flutuar” e “o Mar Morto faz engasgar”, sem perceber do que realmente estamos falando. Em seguida estamos pedindo para levitar e para apagar nossos próprios egos. “Isso não é um feriado” (ou “dia santo”, como possibilita a etimologia de holiday), Black Francis redivivo nos impele ao grito central de “Holiday Song” num idioma que não é o nosso, “mas sempre acaba sendo”. “Gouge Away”, como “Hey”, falando em estarmos acorrentados, em estar o dia inteiro acordado, numa festa que dura três dias – antes que todos morram.
A banda é precisa, talvez melhor que em seus dias originais. A aparente rusga entre os dois vocalistas desmancha-se antes da aparência e eles trocam sorrisos e olhares de cumplicidade entre si. À parte do jogo cênico, completamente introspectivo, Joey Santiago é um Raymond McGuinley chicano, comunicando-se apenas com seu instrumento. As guitarras se entrelaçam com a perfeição da produção de Gil Norton, que, pelo jeito, apenas apertava o “REC” e deixava a banda fazer o serviço (claro que não, né, mas você entendeu): a de Frank que rasga-se como seus próprios vocais, estraçalhando-se em microfonia e volume; a de Joey abrangendo todo o espectro pós-punk do ruído com a desenvoltura e maturidade rebelde dos guitarristas de rock clássico, como se Robbie Krieger ou David Gilmour tivessem sido punks – o próprio comedimento no palco é referência à fleuma cool típica dos guitarristas psicodélicos originais. Atrás dos três, Lovering é o próprio Charlie Watts punk, submetendo sua bateria a uma sessão de massagem não-convencional, que provavelmente mataria um ser vivo, ainda que para manter seu equilíbrio corpóreo. Peso compacto, bordoadas curtas – um animal minimalista, um outro sentido para o termo jazz punk.
Mas o cimento da banda é Kim Deal. Seu baixo é o motivo de nove entre dez baixistas mulheres tocarem baixo (Kim Gordon, outra unanimidade, é o modelo da décima) e só isso já é motivo o suficiente para erguê-la ao panteão (o Godard falava que não há nada mais sexy e cool do que uma mulher com uma arma na mão [ou algo do tipo]; eu sugiro trocar o falo ianque pelo baixo elétrico). Mas sua influência vai além – ela repensa a função do baixista em uma banda de rock, principalmente à luz do reducionismo do punk. A grande maioria das bandas tinha (e tem) baixistas que apenas acompanham o guitarrista em riffs esmagadores, segurando a mesma base quando os outros começam a solar. Kim reeducou seu baixo para um outro lugar. Enquanto as duas guitarras dos Pixies conversavam no âmbito tradicional, numa reedição torta para o formato base/solo, Kim criava uma segunda linha de diálogo musical, criando uma espécie de “segundo chão” para a música – e, praticamente (à Zé do Caixão), inventando o rock alternativo. “Debaser”, Nirvana; “I Bleed”, Weezer; “Monkey Gone to Heaven”, Pavement, e por aí vai… Uma fórmula que vai sendo lapidada em Come On Pilgrim e Surfer Rosa e que é a base para ambos Doolittle e Bossanova, inteiros. E são linhas de baixo simples, com poucas notas, fáceis de serem tocadas – mas são pegas com virilidade tipicamente feminina, circular, cíclica. Unindo-as ao vocal de criança fantasma típico da baixista e temos uma assinatura musical intransferível, capaz de validar qualquer projeto musical que a tenha no meio – bandas medianas como o Breeders e o Amps soam geniais apenas pela presença do baixo e voz de Kim Deal. Um Paul McCartney irresistivelmente diferente: mulher.
Entra “Wave of Mutilation” e o Du brinca que iria começar “uma Open Field Church gigante”, em referência ao fato de seu coral indie cantar a música. Nem percebeu o que, sem querer, havia descrito uma enorme igreja a céu aberto. Celebrando o Fim – seja dos anos 90, da Espera, da Existência. “Cessar de existir, dando adeus/ Dirijo meu carro rumo ao oceano/ Você acha que eu morri, mas eu navego por aí”. “Tame” criaria outro grande momento, de coral apocalíptico, intercalando os “arran” que o casal vocalista canta no meio da música entre homens e mulheres em toda a platéia, provocando aquele tipo de catarse coletiva de expectativa masoquista, feito espera de pênalti em final de campeonato – só que, no caso, já sabíamos que ia ser gol (“Taaaaaaaaaame!”) e que havia uma deliciosa interação entre gêneros na simples alternância de gemidos em massa.
A ingênua “Here Comes Your Man” (ingênua? Vai falar isso pro Colt Silvers, que ouviu o apocalipse nuclear nas entrelinhas da música) entrega o quanto a banda está se divertindo no show, todos com largos sorrisos de clara satisfação. É isso aí, macacada, assumam: vocês faturaram uma gorda nota por pouco mais de duas horas de trabalho, mas não tem dinheiro que pague essa tiração de onda. Fazem por merecer, ora bolas. “Where’s My Mind?” encerraria a primeira parte do show com mais demonstração coletiva de intensidade, graças ao corinho em “u” que passeia pela música. “Com seus pés no ar e sua cabeça no chão/ Faça isso e gire/ Sua cabeça vai entrar em colapso e se não houver nada lá/ Você vai se perguntar:/ O que estou pensando?”. “Onde está minha cabeça?”. Onde estamos? UuuuuUUUUUuuuuu… UuuuuUUUUuuuuu…. Um lamento triste ecoando na Pedreira, que continua quando o grupo se vai. O coro logo vira um chamado por “Pixies! Pixies!” que inevitavelmente traz a banda de volta ao palco.
E eles recomeçam com o equivalente a ouvir “Hey Jude” e “Revolution” tocadas pelos Beatles na mesma noite: a sutilmente exagerada “Gigantic” de Kim Deal e o esforço concentrado de Black Francis de resumir-se em uma música, “Debaser”. Lembro do papo do Perry Farrell tendo a idéia de criar o Lollapalooza ao ver 20 mil moleques berrando “Debaser!” num festival de Reading do começo dos anos 90. Mais um marco naquilo que convencionamos chamar de rock alternativo envolvendo os Pixies. Mais uma vez, restava ao grupo jogar a pá de cal na esquife da década que inauguraram. Não por acaso, a última década do milênio. E o fim dos anos 90 deixa de ser uma mera referência histórica pop e passa a ter ares de fim do próprio conceito de Milenarismo (seria a constatação da morte a revolução individual, ou justamente o contrário?). É o Fim do Fim.
De repente entra “Into the White”, uma favorita, que eu, sinceramente, não esperava ouvir. A coisa fica séria demais. Inacreditável. O riff linear começa a convulsionar muita energia sônica em torno de um tema simples e a lembrança do Sonic Youth é inevitável – é o mesmo território de Daydream Nation, visitado com epicidade e eletricidade típicas do disco dos nova-iorquinos. Só que, ao contrário do show do grupo em São Paulo, os Pixies tinham um som que, por mais que embaralhasse as guitarras, estava muito alto. Hora de ir mais para frente ainda, tomar a enxurrada de volume mais de perto. À medida em que me aproximava do palco, Kim Deal começava a cantar:
“Não existe dia
E não existe noite
E não existe dia
E não existe noite
E não existe dia
E não existe noiteNo branco
No branco
No branco
No brancoVocê ouviu o que eu disse?
Você ouviu o que eu disse?
Mais fundo que sua cabeça sonolenta
Mais fundo que sua cabeça sonolenta
Nada para ver
Nada à vistaNo branco
No branco
No branco”
Muralhas de guitarras sendo erguidas sobre a base simples do baixo de Kim e do que é que ela tá falando?
“Vá e irá bem longe
Vá e irá bem longe”
Para o branco. O branco puro, a tal Luz. Na hora, lembro do bisavô do Moby explicando porque a baleia do seu livro era branca, num capítulo chamado, er, A Brancura da Baleia. Depois de enfileirar várias manifestações religiosas e culturais em que a cor branca tem um significado majestático ou de pureza, Herman Melville começa a olhar para o outro lado do branco, chegando à trágica conclusão:
“Porém não resolvemos ainda o problema da magia da cor branca nem descobrimos por que razão ela atrai a alma com tal força, e, o que é ainda mais estranho e prodigioso, por que razão é ao mesmo tempo o símbolo das coisas espirituais, o verdadeiro véu da divindade cristã e contudo é o agente que dá maior relevo às coisas que mais atemorizam a humanidade.
Será porque, pelo que tem de indefinido, projeta a sombra sem coração dos vazios e imensidades do universo e assim nos apunhala pelas costas com a idéia de aniquilamento, no momento em que contemplamos as brancas dobras da Via Láctea? Ou será antes porque em essência o branco não é tanto uma cor visível como a ausência de cor e ao mesmo tempo a concreção de todas as cores? Será por essa razão que existe um silêncio ermo cheio de significação numa ampla paisagem de neve – a completa ausência de cor do ateísmo, que nos apavora? E quando considerarmos essa outra teoria dos filósofos da Natureza, segundo a qual todas as outras cores terrestres, cada esmalte magnífico e encantador, as tintas suaves dos céus crepusculares e dos bosques, os veludos brilhantes das borboletas e as faces das borboletas das donzelas não são mais do que ilusões sutis de modo algum inerentes à substância e sim meras exterioridades, chegamos à conclusão de que a divina Natureza pinta-se como uma cortesã, cujas atrações nada cobrem senão o sepulcro que leva dentro de si. E ainda mais, quando considerarmos que o mistério cromático, ou seja o grande princípio da luz, permanece para sempre branco ou incolor, em si mesmo, e que se atuasse sem ter ponto de apoio na matéria tocaria todos os objetos, fossem tulipas ou rosas, com a sua própria tonalidade vazia, chegamos à conclusão de que afinal o universo é como um leproso; e, como os bisonhos viajantes da Lapônia que não querem usar óculos de cor, o viajante descrente sente-se cegar diante da mortalha monumental que envolve todas as perspectivas que o rodeiam. E de todas essas coisas a baleia branca constitui o símbolo”.
Esqueça a piadinha com o tamanho do Frank Black, a coisa aqui é pra valer. Dentro do branco era o estágio em que todos se encontravam ali. Longe de algum ponto imaginável específico – era o mesmo tipo de sensação que eu havia percebido quando “The Concept” tocou no rádio do carro antes do primeiro show do Teenage. A diferença é que se eu havia pensado num traçado de energias entre os pontos desconexos que poderiam estar ouvindo aquela música poucos minutos antes do show da banda que a gravou, aqui em Curitiba todos estes pontos (quase 8 mil) estão reunidos, uma pequena e concentrada Via Láctea de adoração pixieana. “Passe pelo quasar”, continua cantando Kim, enquanto a platéia, sem querer, forma um.
Aos poucos, comentávamos uma ou outra coisa entre si, ainda sem saber se o que estava acontecendo ali na frente era sério. Não estávamos pensando em mais nada a não ser na entrega a um show perfeito, como há muito não se via no Brasil. Não era só o show dos Pixies – era um show dos Pixies envelhecido com gosto, com todos os presentes venerando cada uma das músicas como um momento especial, sem pensar no que ocorria de fato. Todos os presentes se curtindo – “hey, tava tentando te encontrar!”. Era um banda clássica tocando, em grande forma, seus melhores momentos porque todos seus momentos eram melhores. Dava pra montar um novo repertório só com as músicas que ficaram de fora. Sente o drama que seria um show desses:
– Cecilia Ann
– Tony’s Theme
– Allison
– Hangwire
– There Goes My Gun
– Break My Body
– Is She Weird?
– Oh My Golly!
– The Sad Punk
– Dead
– Letter to Memphis
– Something Against You
– I’m Amazed
– I’ve Been Tired
– Motorway to Rosswell
– La La Love You
– All Over the World
– Dig For Fire
– Alec Eiffel
– Ed is Dead
– Head On
– Havalina
– Subbacultcha
– Rock Music
– I Bleed
– Ana
É claro que reclamaríamos por não ter não apenas “Here Comes Your Man”, “Debaser” ou “Monkey Gone to Heaven” como quase todo o repertório do Doolittle, a grande unanimidade entre os fãs da banda – mas presta atenção nesse repertório que eu fiz aí em cima e veja se um show desses não salvaria sua vida. Acontece que o show que vimos foi justamente o outro. O um. “Planet of Sound” encerrou a noite quase de improviso – não estava no repertório original e foi a primeira vez que o grupo a tocou na nova turnê. “Esse não é um planeta de som”, berrava Frank Black, “essa não é uma cidade rock’n’roll!”. Resquícios finais da ironia dos anos 90, em grande estilo. Era o Fim. De um show antológico, histórico, irretocável. Dos anos 90, do Milênio, do Milenarismo. O Fim do Fim. Quem esteve lá, sabe.
Sintomaticamente, encontro dois paranaenses por opção, ambos em êxtase: Granado praticamente sem palavras e a Lilli não se agüentando de felicidade, contando como puxou um flash mob anti-Apartheid. Mas não era o fim da noite. Dali ainda iria continuar no RG, saldar a dívida com o Mini e o Nobre de nunca ter visto shows de suas bandas. Depois de parcos minutos à espera da saída, entre gracinhas autorâmicas sobre o paramentar de palco pixie, de volta no elevador-andaime rumo ao MegaHotel. Pelo caminho, um engraçadinho brinca sobre minha condição empregadícia e, ironicamente, pergunta por quem eu estava no evento (com ares de “quem você está enganando?”). Com a autoridade típica do Pequeno Poder concedido pela credencial, tive de esfregá-la na cara do Mala: SITE TRABALHO SUJO. O sorriso sem graça havia sido suficiente para a forra, mas intrépida forasteira percebeu o entrevêro formado e intimou o cidadão: “Tu acha que algum jornal ou revista publica o tipo de texto que ele escreve no site?”.
Claro que não. Havia uma ironia interna na inquisição da menina (o “no site” foi pronunciado quase como por obrigação), mas também havia um fundo de verdade. Imagina se alguém vai gastar tanto papel com um texto desses – só tendo muita raiva do patrão, e olhe lá. Olha o tamanho do texto, olha o nível da informação, olha o grau de nerdismo. Qualquer psicólogo usaria um tratado desses como oportunidade perfeita para um diagnóstico relâmpago (“autismo esquizofrênico exibicionista egocêntrico com tendências autoritárias e controladoras”), mas eu sei que psicólogos fazem isso do mesmo jeito que gente normal faz palavras cruzadas ou fica tentando adivinhar siglas improváveis nas três letras das placas do carro (ué, tu não faz isso?). E eu falei no início – isso não é jornalismo, não é literatura, não é não-ficção, nem sequer invenção. Não é blog nem relatório; não é travelogue, nem mera tiração de onda. Não é mentira, palavrório, nem causo de pescador (pescar… Sei não, hein…), teste de paciência, esnobismo pop… Não é história, não é doutrina, não é ciência, seita ou religião – muito menos coisa limpa, coisa pura… Isso é apenas texto – a área inexistente em que o olho encontra a letra e tudo começa a ser possível. É também meio sonho (ou pesadelo): (in)felizmente, isso tudo não existe.
De volta ao hotel por falta de opção de transporte, espero amigos altos falantes dispostos a enfrentar a segunda noite no Cine. Pelo sofá da recepção todo o Teenage Fanclub se confraterniza com Frank Black, ao redor de bolinhos, bolachas, cafés, Boêmias long-neck (finalmente cerveja) e um Dimple sendo seco aos poucos. Comento com o Cris sobre a ausência de “Rock Music” no show e um pândego tira a viola do saco e passa para o Frank: “Toca Rock Music”. O cara vê aquele violão preto flutuando em sua frente e o segura como se estivesse recebendo uma ferramenta alien, não sabe bem o que fazer com aquilo. Coloca no colo e a apreensão na sala é evidente, embora todos disfarcem a expectativa com uma informalidade curitibo-escocesa – até os Tineijes estão olhando de esgueio, se perguntando se ele vai tocar algo.
Minutos depois, ele tamborilaria os dedos no corpo do violão e voltaria-se para o sujeito que o deu o instrumento: “Rock Music?”. “Yeah”, mais de uma voz responde, antes de ele começar a puxar as cordas iniciais no violão, emulando microfonia com perfeição e berrar: “Your mouth! Your mouth! Mile away!”. Ninguém no lobby estava acreditando naquilo. Todos se olhavam incrédulos, sem saber se estavam assustados com o fato de Francis ter aceito de graça um pedido de uma música dos Pixies depois de tocar num show que custou uma baba ou do fato da música, mesmo só ao violão, soar idêntica à versão em estúdio. O cara acabou de tocar a música de uma vez (“I’m already gone!”) e devolveu o violão ao pedinte, convulsionando palmas esparsas e pasmas.
Até parece. TÉ PARECE. Até parece que o Frank Black ia tocar “Rock Music” depois do show, no lobby do hotel… Ainda mais num violão. Tu já ouviu “Rock Music”? Se sim, sabe que uma música dessas não se toca no violão. Cê também, acredita em qualquer coisa, né? Isso é só pra mostrar que TEXTO (independente de literatura, ficção, jornalismo, crônica ou bula de remédio) é uma equação que envolve IMAGINAÇÃO, CRIATIVIDADE, EXPERIÊNCIA e OPINIÃO. Que pouco tem a ver com o fato. Aliás, o que são fatos, mesmo? Fatos são definidos por textos, o que nos leva a crer que sequer os fatos existem. São apenas versões.
Meia hora esperando, o show vai começar, né? Chamo a Mariana pelo interfone que chega a tempo de lamentar “o Frank Black tava aqui…?” e ser empurrada para o táxi rumo ao Cine. Lá chegando, vemos um ônibus com os dizeres “Valverdes Banda” (com “V” mesmo) saindo de frente do lugar. Quequéêss… Uma muvuca de gente se acavalava na entrada, indicando que o festival havia começado há pouco tempo – já tinha rolado a banda Pata de Elefante e estava saindo do palco, felizmente, a banda Bartenders, cujo vocalista devia ser um dos organizadores do evento (ia o tempo todo para o microfone anunciar as bandas e explicar procedimentos pro público, pelo menos). Só isso explicava o fato de uma banda de blues rock fuleiro em português (daquelas que perto do Barão deixam o Barão bom) num festival de rock de garagem.
Pelo público, mais enxurrada de caras conhecidas – entre elas o vocalista do Pelebrói Não Sei que, em meio ao meu torpor etílico, me ouviu dizendo o que eu realmente achava da sua banda. Pensei que ele fosse me devolver quatro dedos fechados na têmpora, mas o cara foi gente boa e disse que era legal que alguém falasse isso. Também devia estar bêbado…
Começam os Walverdes e eu tenho de esfregar os olhos. Quantos músicos têm no palco? Quantas guitarras o Mini toca ao mesmo tempo? O som que sai do palco não é compatível com o baixo, guitarra e bateria que estamos vendo – há uma avalanche de ruído compacto saindo das caixas de som que parece ser de duas ou três bandas tocando simultaneamente. Fabrício Nobre se juntou à banda para berrar “Classe Média Baixa Records” e o grupo fechou o set com uma versão cavalar de “Sweet Leaf”, que abria um vácuo pela metade e virava um reggaeinho que, se deixassem, dubava bonito. E mesmo com a banda citando há tempos que as referências iniciais são o Who e o Mudhoney, não dá pra não deixar de ver a influência do Nirvana no trio. É o mesmo rolo compressor sonoro, com canções apenas menos pop. Depois é a vez do MQN e não precisa ouvir muito pra saber que o Fabrício comanda o palco, fazendo mão de fogo e tudo mais. A banda deixou de lado (há tempos) o fantasma de rock alternativo que perseguia na época do primeiro disco e hoje cai de boca no bom e velho, sujo e malvado rock’n’roll. São os riffs mais conhecidos da história do zeitgeist roqueiro, embaralhados e reempacotados como presente novo. Reciclagem é isso aí – e se essa é a norma do chamado Novo Rock, podem incluir o MQN nessa tchurma. Hard rock instantâneo: apenas adicione cerveja.
Os locais dos Faichecleres retomariam o festival como se fossem uma banda de rock gaúcho retrô, mas, pouco a pouco, iam crescendo em volume e impacto. O público se dividia em ver a banda ao vivo e um vídeo projetado na parede em que o baterista deles surtava como veio ao mundo, usando apenas uma gravata como traje para rolar no chão. Uma cena bisonha, que distraía a atenção do palco – atenção foi retomada graças a alguns hits locais (cantados pela racinha, eu é que não vou lembrar dos nomes) e aos covers de “Casalzinho Pegando Fogo” (da primeira demo do Júpiter Maçã, quando ainda era acompanhado pelos Pereiras Azuis) e “The End”, dos Beatles, numa versão fodona. E justo na noite do Fim. Nada é por acaso, camaradas…
Nem o fato de o último show da noite NÃO ter sido o dos Faichecleres, como estava programado. Com sua cara de Ricardo Alexandre dândi, o próprio Júpiter Maçã acompanhava o festival por trás de óculos escuros meio de gatinha e resolveu apresentar-se no RG como atração surpresa. Mais do que isso: estava com duas bandas diferentes – a atual e o mesmo trio que gravou o clássico A Sétima Efervescência. “Vai ser a Oitava Efervescência”, disse o apresentador sem graça.
Júpiter começou discreto, melancólico e cuzão – era sua versão Jupiter Apple sussurrando “Collector’s Inside Collection”, com a esposa nos vocais astrudianos. Ainda tocou “Carol”, que os Stones gravaram, para delírio de um adolescente bêbado na minha frente que, vez por outra, ficava de quatro para vomitar embaixo do palco – levantando-se em seguida e, lentamente, formando um círculo vazio de umidade e náusea ao seu redor. Júpiter trocou o baixo pela guitarra e chamou os músicos de seu primeiro disco (a saber, os irmãos Glauco e Emerson Caruzo, bateria e baixo) e iniciaram uma trip assumidamente retrô, rumo, não a 1968, e sim a 1998, quando o ex-cascavelette Flávio Basso assumiu-se oficialmente o cidadão psicodélico Júpiter Maçã, com o auxílio de discos antigos e muito ácido lisérgico. Passou a enfileiras clássicos instantâneos do rock gaúcho e da psicodelia nacional, como “O Novo Namorado”, “Pictures and Paintings” e “Querida Super Hist”, além da já citada “Casalzinho Pegando Fogo”, o novo hit instantâneo “Síndrome de Pânico” e outro cover, de “My Generation”, do Who, em versão slow-motion. Conectando-se com toda a semana passada e com o show na Pedreira, encerrou a apresentação com a inevitável “Lugar do Caralho”, igualmente cantada em uníssono.
Chefe, fecha a conta. Saio do Cine com o Sol aceso e o taxista, calado (coisas de Curitiba…), até deixa fumar no carro… Subo pra outro café da manhã cheio de frutas e outras poucas horas de sono. Aterrissando em São Paulo, pego o carro no exato momento em que “Starsign” toca na Brasil 2000. A semana ainda teria o mesmo Wander revisitando o “Lugar do Caralho” e apresentando seu Pára-quedas do Amor no Outs e o mesmo Mombojó lotando o Urbano, cheio de fãs cantando as músicas do disco de estréia, Nadadenovo, fazendo cover de “Tem Mais Samba”, como em Curitiba, e de Nelson Cavaquinho, “Juízo Final”. Lugar do Caralho e Juízo Final… “O amooor será eterno novameeeeenteeeee….”.
Minha coluna de ontem no Caderno 2 foi sobre formas de rir por escrito, em tempos digitais.
“Kkkk”, “rs” ou “AHAHAH”?
Como é que você ri na internet?
Como você ri na internet? A pergunta parece não ter sentido se pensarmos na pessoa que está utilizando a rede sendo vista do lado de fora. Mas, uma vez online, o sorriso, o riso e a gargalhada pouco têm de biológico e são traduzidos em versões por escrito – e, não custa lembrar que, mesmo com vídeo, áudio, animações e links, a internet ainda é um meio primordialmente escrito. Assim, em e-mails, bate-papos por MSN, comentários em blogs, redes sociais e onde mais a conversa por escrito possa ser travada informalmente, a informação que avisa que o interlocutor está rindo ou brincando é sempre uma palavra, um emoticon ou uma sigla.
No fim do mês passado, o tradicional dicionário britânico Oxford incluiu algumas dessas siglas em seu léxico. Termos como “LOL” (acrônimo em inglês para “laughing out loud”, que quer dizer “gargalhando”), “BFF” (“melhores amigos para sempre”), “OMG” (“Oh meu Deus!”) e IMHO ( “na minha humilde opinião”) já faziam parte do vocabulário inglês até mesmo antes de a internet existir, mas foram popularizados, consagrados e oficializados naquele idioma graças à sua onipresença no diálogo por escrito.
(Cabe um parêntese aqui: o fato de o texto por escrito não permitir inflexões emocionais é um dos principais fatores do uso desse tipo de recurso e, portanto, de sua popularização. É muito fácil confundir o que está sendo escrito por alguém do outro lado da tela. Sutilezas podem passar despercebidas se vierem escritas exatamente como se fala. Um simples emoticon – aquela carinha feita com dois pontos e um parêntese, por exemplo – já agiliza bastante o lado de quem lê.)
Mas em português, ou melhor dizendo, no Brasil, essas siglas não são tão comuns. Há até quem ria escrevendo “LOL” no fim da frase. Mas eles são poucos e, em geral, vêm de gente que é bilíngue ou tem hábitos digitais mais frequentes que a maioria das pessoas.
E é aí que volto à pergunta inicial do texto: como você ri na internet? Eu rio “AHAHA”, mas há quem ria “KKKK” ou usando apenas uma abreviatura pálida para o termo “risos” (“rs”). E essas palavras não entrarão para o Aurélio ou para o Houaiss tão cedo, como já sabemos da resistência dos linguistas da língua portuguesa a esse tipo de “invencionice”.
E há quem se comunique por escrito apenas usando esse tipo de linguagem. Uma das formas mais comuns de texto escrito na internet brasileira é tida como assassinato do idioma para os puristas. Batizado de “tiopês”, esse português mal escrito surgiu de erros de digitação comuns e da agilidade exigida pela conversa por escrito – o nome veio do excesso de vezes que a palavra “tipo” é escrita e, portanto, mal digitada (virando “tiop”). Consagrada por novos humoristas como Misto Eleazar e Cersibon, esse português tosco não é utilizado por gente que não sabe escrever – mas sim como código territorial, idioma próprio, para afugentar quem é de fora, funcionando como uma enorme piada interna. Como as formas de rir na internet também o são.
Entrevistei o Dean Wareham ontem sobre os shows de hoje e amanhã aqui em São Paulo, para o Caderno 2…
Uma visita a Andy Warhol
Dean Wareham, líder do Luna, homenageia o papa da pop art
“Neste exato momento estou preso no trânsito de São Paulo”, disse Dean Wareham, em entrevista por telefone. Isso foi ontem de manhã, o tempo estava fechado e ele havia acabado de chegar à cidade, onde fará dois shows, hoje e sexta-feira, no Sesc Pompeia.
Líder da mítica banda indie norte-americana Galaxie 500, ele vem ao Brasil pela segunda vez, quando faz duas apresentações diferentes, duas homenagens, uma a Andy Warhol e outra à sua banda original.
O primeiro show é creditado a ele e à mulher, Britta Philips, que também o acompanha em sua banda atual, o Luna. Britta também toca na sexta, embora ele seja anunciado como um show mais de Dean do que propriamente do casal, uma vez que Britta não fazia parte do Galaxie 500.
“Os dois concertos têm a mesma formação e estamos tocando há tanto tempo que praticamente não ensaiamos mais”, explica Dean Wareham, antes de dizer que, para os shows brasileiros, retomaram músicas do Luna, com quem veio ao Brasil em 2001. “Tocamos aqui exatamente uma semana após o atentado do 11 de setembro, por isso tenho boas lembranças daqui. Mesmo com o trânsito e a quantidade enorme de pessoas em qualquer lugar, a comida e o calor humano local nos fizeram muito bem numa época bem difícil de estar em Nova York”, lembra ele.
O espetáculo de hoje já vem sendo exibido desde o início do ano passado. 13 Most Beautiful… Songs for Andy Warhol’s Screen Tests traz a banda tocando sobre a projeção dos testes de elenco do pai da pop art, closes extremos em nomes conhecidos como Lou Reed, Dennis Hopper, Nico e Edie Sedgwick.
Além de músicas compostas para o show, também há versões para Bob Dylan (“I’ll Keep It With Mine”, que Dylan compôs para Nico) e do Velvet Underground (a rara “I’m Not a Young Man Anymore”). Feito para ser apresentado em museus e exposições de arte, o show já passou por retrospectivas de Warhol na Opera House de Sydney, no Lincoln Center de Nova York e no Museu de Arte Contemporânea de Chicago.
Mas passar por esses palcos fez o casal e sua banda terem vontade de voltar às casas de show, criando o que será apresentado na sexta, Dean Plays Galaxie 500 Songs. Para combinar com as duas atmosferas diferentes, o concerto de hoje ocorre no Teatro do Sesc Pompeia e o de amanhã na Choperia.
A morte do carão é um nicho

Na funça, Instagram do Pedreira
“Cadê tu, mano?”, Maurício me ligou quando estava descendo a Consolação rumo ao centro. “Calma, tou chegando, já tem gente?”, era meia-noite quando ele havia me ligado, exatamente a hora em que as portas da Tracktower se abriam para a festa de 15 anos do Trabalho Sujo. “Ainda estão chegando, mas vem logo!”. Estava indo. Sem pressa. A lista de convidados já estava batendo o milhar e meio e eu já havia avisado aos próximos: chegue cedo para não pegar fila. E ao passar pela São João, avistei a portinhola que dava acesso à festa, constatando feliz que não havia fila ainda.

Carol e Jana na escada espiral, foto da Ilana
Que nada. A fila começava exatamente logo que se passava pela porta rumo ao prédio e serpenteava pelos vários lances de escada circular até chegar ao andar da Trackers. Passei por ela, cumprimentando uma vastidão de conhecidos e amigos por seus degraus. “Tá todo mundo aí”, pensei, ao mesmo tempo em que começava a perceber que a noite desequlibraria. Quem trabalha na noite consegue perceber, ainda nos primeiros minutos, se o clima vai engatar ou não. E bastou atravessar a porta para dentro do andar em que a festa aconteceu para ter a certeza disso. Recuso-me a tentar descrever o local fisicamente – suas paredes grafitadas e luzes coloridas perdem todo o impacto e magia ao morrer nas palavras.

Hipster in natura, foto da Fer
Cheguei, cruzei o Maurício, “cadê o Ronaldo?”, que ainda não havia chegado (e a fama de atrasado é minha, tudo bem, lido com ela), e comecei a circular pelo lugar em busca da segunda pista. No caminho, num lounge com uma banheira e um cadeirão, encontro Jana, Carol e Ilana tirando fotos sob as luzes coloridas do apartamento. As três atentaram ao meu anúncio e chegaram cedo demais, antes da casa abrir, mas estavam maravilhadas com a casa ao mesmo tempo em que ansiosas em relação ao início da festa.

Like a boss, foto da Ilana (enquadra pra mim? :P)
Jana pede pra tirar uma foto minha na banheira, digo que está cedo e sento no cadeirão para a câmera de seu celular. No cômodo ao lado, o Peba começa a movimentar corpos ao som de grooves dos anos 70. Uma pequena fila se forma no caixa, os fumantes dominam a varanda, as pessoas começam a circular.

Ilana na banheira, foto da Jana
O dono do local me leva à salinha menor que, ainda vazia, me passava a impressão de caos que eu tanto gosto. A palavra “inferninho” piscou no meu inconsciente, me levando para festas em moquifos no Recife, em casas minúsculas no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, no saudoso Susi in Transe aqui em São Paulo, animações coletivas que fugiram do controle da realidade e transformaram todos os envolvidos em um único ser festeiro, sorridente, bêbado feliz, inconsequente e tolerante.
Tolerância. Eis a palavra-chave da noite. Percebi logo depois que a Dani chegou e começamos a arrumar seu set. Sem o cabo para ligar seu computador, ela se dispôs a discotecar usando apenas o iPod, até que, certa hora, alguém bateu em algum lugar e desligou o som. Já esperava os habituais “êêêêêêê”, “iiiiiih” e”uuuuuuuuuuh” que sempre acompanham estes incidentes, mas em vez disso, só gente conversando. Ninguém gritou “não vai começar, não?” ou “vai djidjêi”. As pessoas que já lotavam a salinha perceberam que estávamos com um problema e esperavam este ser sanado. Quem queria dançar logo foi para a outra pista, mas a grande maioria esperou pacientemente arrumarmos as coisas e a música voltar a ecoar na salinha. Perguntei se ela tava tranquila, ela disse que não, tava “TEMÇA” (e eu li o mç naquele sorriso duro), disse que ia pegar um drink e fumar um cigarro. A pista ainda não tinha legalizado.

Ao fundo, Mr. Mason e Chico Barney combinam alguma, foto minha
Encontro novamente o Maurício na varanda e ele tá com os olhos arregalados. “OLHA A FILA…”, que fazia a curva e deslizava quarteirão afora. Aos poucos começavam a chegar os relatos: meia hora na fila, uma hora na fila, uma hora e meia na fila, fulano acabou de ligar dizendo que desistiu depois de uma hora. Isso sem contar a chuva. Mas quem enfrentava a bendita não levava nem cinco minutos para entrar no clima da festa. As pessoas estavam ali claramente pra se divertir e haviam se encontrado num apartamento do centro que parecia uma dimensão paralela. Aos poucos, casais de todos os tipos começavam a se formar e a multidão lentamente se metamorfoseava em muvuca. Gente saindo pelo ladrão. Mas nenhuma cara feia, sorrisos largos para todos os lados. E um monte gente conhecida, famosos, amigos, famosos-amigos e conhecidos que sabiam a senha para a noite. Todos se divertindo pacas. “Cê viu que a Alessandra Negrini tá aí?”. Eu só vi o BNegão, cuja presença me lembrou uma noite desse naipe que promovemos em Belém, em 2007, eu discotecando e ele rimando.

A Dani tá escondida atrás do BNegão e, sim, é um cara de toga, foto da Fer
Trago o drink de Dani quando ela me puxa uma relíquia da bolsa, sacudindo CD-Rs com nomes de músicas escritos à mão no envelope de papel branco: “Gente Bonita Clima de Paquera” diziam os títulos dos CDs, gravados para a Gente Bonita em que ela tocou em 2007, que eu comentei outro dia. Mas depois de um início tenso, ela logo estava dominando a pista como bem sabe e o sorriso começou a se soltar. Perguntei quanto tempo ela queria tocar, ela, com algum resquício de ansiedade, disse “meia hora” e eu reclamei que ela havia acabado de começar. Disse que tocaria com ela pra aliviar a tensão, ela topou, mas em menos de dez minutos já estava disparando Neneh Cherry, Technotronic, Madonna e funk carioca como se não houvesse amanhã. Um dos ápices de sua discotecagem foi quando sacou “All That She Wants”, do Ace of Base. A partir daí, as coisas começaram a sair do controle. For good.

Esse cara com a coroa de louros logo tiraria a roupa e ficaria apenas de cueca, pendurado numa janela, foto da Fer
“O que que tá acontecendo?!”, Ronaldo aparece com um sorriso estatelado e olhos pasmos, “que festa é essa, Matias?!”. Saquei meu charuto de Hannibal e ameacei rir “adoro quando um plano dá certo” com o canto da boca, mas estava igualmente pasmo para tentar qualquer reação cínica. As próximas a assumir a pista, Giu e Chebel, já haviam gasto a tensão que fritaram o sábado inteiro com a discotecagem da Dani e ficaram bem à vontade para esculhambar de vez as coisas.

Dani na pista, bem em primeiro plano, foto minha
Que surpresa boa. Quando elas me mandaram o set que eu havia pedido para postar no Sujo, todo cheio de disco music, soul e música brasileira vintage, pensei que podia haver um momento de intersecção com a pista Veneno, grooves que se espalham pelos cômodos na mesma freqüência… mas qual. Apimentadas pelo set da Dani, as duas não seguraram a franga e nos fizeram cantar… “CHORANDO SE FOI” DO KAOMA. E quando a Giu tocou “VOLARE” com os Gypsy Kings? E quando rolou” O Meu Sangue Ferve por Você” do Sidney Magal? Em quase todas essas músicas eu não resistia e abaixava o volume delas no refrão, deixando o povo se esgoelar: “AAAAAAAAAAAAAH! EU TE AMO! AAAAAAAAAAAAAAAAAH EU TE AMO MEU AMOR!” Acho que por volta desse horário todo mundo entrou em alfa ao mesmo tempo e a festa passou a entender todos os sentidos como um só. Visão, audição, tato, paladar e olfato todos à disposição do prazer. Dancinhas, esfregões, gente pendurada no teto, gente tirando a roupa, suor nas paredes, ebulição completa. Eu já falei umas três vezes pra elas, mas não custa repetir: QUE DISCOTECAGEM, meninas.

Que discotecagem… Chorei, foto minha
Depois que Renata e Giuliana saíram (Chebel sairia da festa logo depois, com dor no coração por ter de fazer um frila às 8h da madruga do domingo!), eu e Luciano assumimos a discotecagem e aí eu não lembro de mais nada.
Só uns flashes.
Mas geral curtiu.
Só sei que eram oito da manhã quando cheguei em casa. Vai rolar outra? Vai, mas ainda estou me recuperando do que aconteceu neste sábado… Quem mais foi? Mais histórias? E AS FOTOS, CADÊ? Tive que fazer uma rapa nas poucas fotos que tirei, nas da Fer, do Pedreira e da Jana pra ter alguma recordação visual, mas vi muito flash estourando por lá… Alguém mais tirou? E a pista Veneno? Não vi nada…
E na segunda, a Helô lamentava não ter ido por motivos de saúde, depois de ter ouvido relatos de todas as amigas e de cruzar uma galera no jornal que só me cumprimentava com uma risada frouxa que parecia misturar “que festa” com “que ressaca”. “É o fim do carão, Matias!”, ela comemorava enquanto esperávamos o elevador. “Não é o fim do carão, Helô”, respondi, “as pessoas vão continuar tirando onda que são ricas, cultas, esnobes, nobres, bem vestidas, por dentro. Isso ainda vai ser esfregado na cara de todo mundo”. Mas de todo mundo que se dispor a entrar nessa onda errada. Aos que não – gente que foi na festa de sábado -, uma coisa já está clara: o não-carão é um nicho.
Sejam bem-vindos.
E minha coluna no 2 de ontem foi sobre música.
O som de 2011
Strokes? Melhor ir atrás do chillwave
O excesso de expectativa a respeito do novo disco dos Strokes só foi superado pelo excesso de frustração. Pudera: seu novo disco, Angles, apenas repete a velha fórmula de seus primeiros singles, já com 10 anos de idade, de requentar riffs pós-punk para uma geração acostumada a ouvir rock na pista de dança. Acostumada, diga-se, pelos próprios Strokes e pela geração que surgiu em sua esteira – nomes como White Stripes, Interpol, Rapture e outros grupos inspirados em bandas dos anos 80, como Joy Division, Cure e Television.
No início do século, aquele som fazia sentido. O rock havia se transformado num arremedo pasteurizado e corporativo do rock alternativo apresentado ao mundo pelo Nirvana. Era uma época em que a dance music e a música eletrônica haviam conseguido se firmar no mercado e que o hip hop dominava. Britney Spears estava começando e o N’Sync ainda existia. Guitarras faziam sentido naquela época.
Dez anos depois, não mais. Mas a geração que tinha 20 e poucos anos quando os Strokes surgiram não liga. E espera o novo disco da banda como se eles pudessem se reinventar ou, pior, recuperar o brilho de seus primeiros dias. Esqueça. O rock dos Strokes em 2011 faz tanto sentido quanto o rock corporativo de bandas como Coldplay, Muse e Travis – o rock que o mundo ouvia quando eles apareceram.
E o que faz sentido em 2011? Não há uma só resposta, mas, na minha opinião, nenhum tipo de música pop parece fazer mais sentido neste ano uma cena chamada… chillwave.
Embora seja rejeitado por seus principais nomes, o rótulo chillwave caracteriza-se por unir duas qualidades: uma é etária, a outra, tecnológica. A primeira diz respeito à idade de seus protagonistas. Jovens que nasceram nos anos 80, ouvindo dance music rasteira, de instrumentos sintéticos e texturas de plástico. Cresceram, gostando ou não, ouvindo esse tipo de som. E ao começar a compor seus trabalhos, recorreram à tal palheta de timbres para compor músicas, mas acabaram optando por outra abordagem. Em vez da dance music farofa, aquela sonoridade agora dava espaço para construções mais etéreas e líricas, quase zen. E, em vez de serem produzidas em grupo durante ensaios, esses artistas – quase sempre bandas de um homem só – usavam a solidão do quarto e o computador para compor.
Nomes como Memory Tapes, Ariel Pink e Neon Indian aos poucos começam a sair da obscuridade dos blogs de MP3 e ganhar um público maior. Tanto que o segundo disco de um desses artistas, Underneath the Pine do Toro y Moi, está sendo lançado no Brasil. E outro, Washed Out, teve seu melhor single (I Feel It All Around) transformado em abertura de seriado neste ano (o ótimo Portlandia). É um início tímido, mas é bem mais interessante do que tentar reviver os dias em que os Strokes importavam.
Eu não. Tanto que vou hoje lá ver os caras no Clash. Quem vai? Abaixo, a materinha que fiz com eles pro Caderno 2 de hoje.
Cansei de Ser Sexy não descansa
Uma das mais bem-sucedidas bandas brasileiras no exterior se apresenta hoje em São Paulo e anuncia turnê pelos EUA e novo disco para agosto
Hoje começa a fase três do Cansei de Ser Sexy. A banda, que começou como uma piada interna de uma turma de meninas sob olhares carrancudos de críticos sem humor, conseguiu provar-se como mais do que uma simples modinha paulistana ou hype de internet e hoje é um dos grupos brasileiros mais bem-sucedidos no exterior. E depois de dois discos, começa a mostrar como será seu 2011 no primeiro show que a banda faz fora de festivais no Brasil desde 2006, hoje, no Clash Club, na Barra Funda.
O CSS, como é conhecido no exterior, lançou-se no mercado em 2003 quase como uma banda de brincadeira, usando a internet como principal plataforma – a título de curiosidade, no início da banda, ela possuía um único MP3 e cinco fotologs. Nasceu no meio de um grupo de meninas que eram ligadas à moda e foram organizadas pelo músico Adriano Cintra, que já tinha construído sua reputação no underground paulistano em bandas como Thee Butchers’ Orchestra, I Love Miami e Ultrasom. Adriano assumiu a bateria e domou a espontaneidade das meninas de tal forma que, em pouco tempo, elas eram uma banda – ainda que de dance music – de fato.
Foi um dos artistas que ajudaram a gravadora Trama a consagrar seu site de bandas iniciantes, o Trama Virtual, que mais tarde viraria um selo que lançaria CDs de verdade – principalmente graças ao sucesso da banda no exterior. Algo impensável para quem chochava a banda em seus primeiros dias, que a colocou ao lado dos principais artistas da primeira década do século, tocando nos maiores festivais do mundo e ganhando capa de revistas de moda e de música.
Desde que começou sua carreira no exterior, a banda só voltou para o Brasil em férias, até que passou por uma montanha-russa de emoções, principalmente devido a problemas com o antigo empresário, que deram o tom amargo do segundo disco, Donkey, de 2008. Mas se os problemas se refletiram nas composições, eles não atrapalharam a maratona de shows feita pela banda, disposta a consagrar o nome que havia conquistado nos últimos anos. Nesse período, se apresentaram duas vezes no Brasil, apenas em festivais, no Planeta Terra de 2007 e no SWU do ano passado.
“Foi ótimo”, lembra a guitarrista Ana Rezende, em entrevista por e-mail, falando sobre o show do ano passado. “É sempre muito bom tocar no Brasil. O público aqui é diferente de qualquer outro lugar e sempre é meio nostálgico pra gente, no melhor sentido da palavra. Nós nos sentimos literalmente em casa.”
A guitarrista disfarça sobre o disco novo, que já está gravado. “A gente ainda não pode falar porque a gravadora tem de fazer o anúncio antes, mas ele já está gravado, masterizado e pronto para ir para a fábrica. O primeiro single sai em maio e o disco sai em agosto.” A apresentação no Clash contará com algumas músicas novas, além do repertório já conhecido da banda, que inclui hits como Move, Let’s Make Love and Listen to Death from Above e Alala. A banda se apresentou no fim de semana passado no Chile, quando também mostrou uma música nova.
O show de hoje é encarado como o início dos trabalhos no ano. No próximo dia 15, o Cansei de Ser Sexy começa uma turnê de um mês e meio pelos Estados Unidos, fazendo dupla com a banda Sleigh Bells, mas não deixa de cogitar uma turnê pelo Brasil, rumor que já vem sendo ventilado há pelo menos um ano. “Queremos muito fazer uma turnê por umas oito cidades por aqui”, continua Ana. “É difícil viabilizar, mas é uma coisa que queremos muito. Vamos ver se a gente consegue!”, anima-se.
Publiquei a entrevista que fiz com o Miami Horror, que toca hoje em São Paulo, na edição de Caderno 2, que comemora 25 anos nesta quarta.
Sem nenhum complexo
“Estamos satisfeito por sermos pequenos”, diz Ben Plant, líder da banda Miami Horror, que se apresenta no Brasil
“Estamos satisfeitos com o nosso tamanho”, explica Ben Plant, vocalista e fundador do grupo australiano Miami Horror, que passa esta semana pelo Brasil em miniturnê. “Não somos uma banda grande, acho que não dá para dizer que não somos nem uma banda média. Somos uma banda pequena, que está em seu primeiro disco, tem alguns singles e remixes conhecidos por um público que é pequeno mas não é minúsculo, o que nos deixa à vontade para tocar uma carreira do jeito que nós queremos e sermos conhecidos fora de nosso país.”
O Miami Horror faz parte de uma cena de dance music que vem mexendo com a paisagem sonora da Austrália há cinco anos. São artistas cuja formação vem tanto do indie rock quanto da música eletrônica, uma cena que misturou alternativas para sobreviver no mercado pós-internet que vinham tanto da cena de rock independente local como da rotina das casas noturnas de Melbourne, principal centro urbano dessa nova safra de bandas. Entre os nomes da mesma geração do Miami estão Bag Raiders, Van She, Midnight Juggernauts, Empire of the Sun e Cut Copy. De todos esses, apenas o último não se apresentou por aqui (vem em junho), numa prova de que o Brasil já se firmou como polo para essa nova dance music da chamada era MySpace.
Mas hoje se o MySpace já não é lá grandes coisas (demissões afetam o portal e especula-se que ele seja vendido para o braço da música corporativa no YouTube, o Vevo), o mesmo não pode ser dito sobre essa geração. São artistas que se estabeleceram mesmo à revelia de uma crise no negócio da música que poderia ter tanto a ver com a chegada da internet e a popularização do MP3 quanto com a má administração econômica dos grandes grupos contratadores de música. Esses fatores fizeram com que uma fábrica de computadores (Apple) se tornasse um dos principais nomes no negócio da música no século 21.
O Miami Horror é um dos milhares de nomes desta geração, artistas que vivem na fronteira da canção tradicional com a cultura DJ, remixando e sendo remixado por outros tantos artistas. Foi graças a dois remixes (da velha “Music Sounds Better With You”, do Stardust, e da nova “Walking With a Ghost”, da dupla Tegan & Sara) que o grupo conseguiu chamar atenção. Sua geração, mais do que viver grudada a um site popular, se espalhava por toda a internet em uma plataforma que surgiu na virada do século, mas ganhou novo formato a partir do meio da década passada: os blogs de MP3. Feitos por amantes de música, eles simplesmente comentavam artistas novos de que gostavam sem o ranço das rádios ou gravadoras.
Os blogs de MP3 funcionam quase como organizadores da nova música na internet. E foi graças a um desses, o IM//UR feito por um brasileiro e uma australiana, que Ben Plant veio ao Brasil pela primeira vez, há dois anos, para discotecar representando sua banda, no já consagrado formato DJ set.
“Devo muito aos blogs de MP3 e ao download indiscriminado da música pela internet”, ele explica. “Tenho certeza de que nem 10% das pessoas que sabem o que é Miami Horror compraram o meu disco, o que, por um lado, é uma pena. Mas por outro, não, porque se dependessem da compra para conhecer nossa música, não estaríamos fora da Austrália e provavelmente não estaríamos vivendo apenas de fazer música. Não vou dizer que não devam fazer isso. Lamento, mas sei que é uma característica desta época.”
A entrevista foi realizada por telefone na semana passada, quando eles terminavam a turnê norte-americana e se preparavam para passar a atual semana no Brasil. Os shows desta semana fazem parte do lançamento do único álbum do grupo, Illumination, do ano passado, que chega às lojas brasileiras este mês pela gravadora EMI.
Pergunto se Ben não vê contradição ao lançar um álbum em uma época que parece ser movida pelos singles, devido ao aspecto viral do MP3, e ele concorda meio a contragosto. “Gosto da ideia de um disco, com uma capa, com um nome, que reúne um número determinado de canções. Pode ser que seja um conceito defasado ou que eu já esteja ultrapassado, mas cresci ouvindo música dessa forma, é assim que quero fazer música e espero que influencie gente a continuar fazendo música assim.”
A banda passou por Porto Alegre ontem e hoje toca em São Paulo em uma festa fechada, em uma casa noturna na Rua Augusta. Amanhã se apresenta no Circo Voador, no Rio, onde toca graças ao financiamento prévio barganhado pelos fãs do grupo – é o conhecido movimento Queremos, que aproveita a vinda de bandas estrangeiras para o Brasil para, reunindo uma quantia mínima de cariocas interessados no show, conseguir trazer a atração para a cidade. Plant elogia a iniciativa: “É mais um motivo para que eu queira estar envolvido nisso, vai ser uma experiência incrível.”
Formada em Melbourne, há quatro anos, o Miami Horror é cria da cabeça de Ben, hoje com 24 anos, que reuniu músicos para dar forma ao seu conceito musical, uma dance music sintética e sinuosa, com elementos da virada dos anos 70 para os 80, quando a disco music se metamorfoseava em house, com elementos de Giorgio Moroder, Prince, Michael Jackson e Electric Light Orchestra, mas atualizando essa linguagem para composições enxutas como as das bandas da geração pós-Strokes. Sua música mais conhecida é “Sometimes”, mas não toca no rádio, embora pareça ter sido feita para isso. Procure por ela no YouTube e confira.
Minha coluna no Caderno 2 essa semana foi sobre o “Curtir” do Google.
A guerra dos botões
Google copia “Curtir” do Facebook
O início de 2011 tem sido tenso para o Google. Nada que abale sua moral – atualmente. Mas uma série de acontecimentos mexeram com o site mais conhecido do mundo e não há dúvidas sobre o motivo dessas mudanças – chama-se Facebook. A rede social de Mark Zuckerberg não é apenas um Orkut global – mais do que ambiente digital de relacionamento pessoal, o “Feice” (como os brasileiros chamam o site) se tornou uma espécie de território seguro que abriga toda a internet.
As mudanças no Google começaram em fevereiro, quando seu CEO, Eric Schimdt, anunciou que deixaria o cargo em abril, ficando a vaga para Larry Page, um dos fundadores do site. No mesmo mês, o Google também se viu obrigado a mudar seu algoritmo de buscas, pois alguns sites conseguiam entender como trapacear o ranking de páginas oferecido a cada pesquisa, subindo degraus e figurando entre os primeiros resultados.
Na semana passada, o site apresentou mais uma novidade para melhorar suas buscas, um botão chamado “+1”. Após fazer uma busca sobre qualquer assunto e descobrir entre os primeiros resultados obtidos qual é o link que melhor se encaixa à pesquisa, basta clicar o “+1” para mostrar que o link é confiável e que alguém o recomendou.
Familiar? Demais. O botão “+1” é idêntico ao “Curtir” do Facebook, botãozinho mágico que ajudou o Feice a crescer ainda mais no segundo semestre de 2010. Mas por que o Google está copiando o Facebook?
A página inicial do Google pergunta para quem o visita o que ele quer da rede. Isso fazia sentido na virada do século. Hoje em dia, com a tonelada de informações que recebemos, não. Não queremos descobrir coisas novas. Nos anos 10 do século 21, queremos que nos digam o que vale a pena. Eis a sacada do Facebook, que, em vez de perguntar o que quer, oferece dicas de amigos. O Google tenta correr atrás, mas será que o “+ 1” pega?
Nesta edição do Link, publicamos a tradução de uma matéria do New York Times que fala da troca de cadeiras de executivos entre a Casa Branca e os dois maiores sites do mundo. Aproveitei o gancho pra falar do discurso que Obama fez no início do ano, para entender melhor este jogo de poder…
A estratégia de Obama junto ao Google e ao Facebook
Há trinta anos não poderíamos saber que algo chamado ‘internet’ nos levaria a uma revolução econômica. O que podemos fazer agora – o que os EUA fazem melhor do que qualquer um – é instigar a criatividade e a imaginação de nossa gente. Colocamos carros nas estradas e computadores nos escritórios”, disse Barack Obama, em janeiro passado, no tradicional discurso Estado da Nação que o presidente norte-americano apresenta no início de ano. “Somos a nação de (Thomas) Edison e dos irmãos Wright; do Google e do Facebook. Nos EUA, a inovação não só muda as nossas vidas. É como nós a vivemos.” E continuou: “Há meio século, quando os soviéticos nos ultrapassaram ao lançar no espaço um satélite chamado Sputnik, não tínhamos ideia que chegaríamos antes deles à Lua. Não existia tal ciência. Nem a Nasa. Mas depois de investir muito em pesquisa e educação, nós não só passamos os soviéticos como lançamos uma nova onda de inovação que criou milhões de novos empregos. Este é o momento Sputnik de nossa geração.”
Ou seja: a corrida espacial do século 21 acontecerá entre nossos computadores e celulares. O discurso de Obama só não diz com todas as letras que a internet é uma invenção norte-americana. Afinal, não é. A rede Arpanet foi sim criada pelo Pentágono e foram as universidades norte-americanas as primeiras a reconhecer naquela rede um objetivo mais prático do que o que deu origem a ela – inventada por militares, servia para salvar informações que pudessem ser destruídas no caso de um ataque inimigo. Mas a rede só se popularizou graças a uma invenção europeia, a World Wide Web.
Mas se Obama não diz literalmente que a internet é americana, ele sublinha que seus principais personagens atuais – Google e Facebook – são. E isso não fica só no discurso, como pode-se perceber no jantar em que o presidente norte-americano recebeu os principais nomes desta indústria (Zuckerberg, Jobs, dois nomes do Google, entre outros) em fevereiro, além da movimentação de executivos entre os dois sites e a Casa Branca.
Uma das principais especulações sobre essa dança das cadeiras, aliás, diz respeito a um dos personagens centrais desta indústria. Eric Schimdt já passou pela Bell, pelo histórico PARC da Xerox, pela Sun e pela Novell, antes de virar CEO do Google e entrar do conselho da Apple. No mesmo mês em que jantou com Obama, anunciou que deixaria o cargo no Google. Mas um rumor que ganhou força durante o mês de março é que ele assumiria o cargo que hoje é de Gary Locke, o secretário de Comércio dos EUA que veio reunir-se com a ministra da Cultura Ana de Hollanda no mês passado, conforme apurou a repórter Tatiana de Mello Dias no Link há duas semanas. Locke assumiria o cargo de embaixador dos EUA na China, cedendo a vaga para Schimdt – que deixa de ser o homem do Google para se tornar o homem do comércio exterior daquele país.
Será esse um novo tipo de imperialismo, em que filmes, discos e livros não precisam ser boicotados? Uma coisa é tentar execrar uma obra, outra coisa é convencer as pessoas a não usar esses dois sites… O problema é que internet não é só Google e Facebook. E como o próprio Obama disse, se Google e Facebook são seu Sputnik, pode ser que alguém reaja a isso com uma nova Nasa para o século digital.
Lembrei de uma matéria que fiz para a Ilustrada anos atrás, quando o primeiro encontro dos Beatles e de Bob Dylan completou 40 anos – reunião de cúpula que mudou o curso das carreiras dos dois artistas e, com elas, a história da cultura do século 20. Segue o texto abaixo:
Encontro entre Bob Dylan e os Beatles faz 40 anos
“Olhando em retrospecto, eu ainda vejo aquela noite como um dos grandes momentos da minha vida. Na verdade, eu tinha a consciência de que estava dando início ao encontro mais frutífero na história da música pop, pelo menos até então. Meu objetivo foi fazer acontecer o que aconteceu, que foi a melhor música de nossa época. Eu fico feliz com a idéia de que eu fui o arquiteto, um participante e o cronista de um momento-chave da história.”
Assim o jornalista norte-americano Al Aronowitz se refere ao clássico encontro que, exatamente há 40 anos, mudou a cara da música pop e da cultura popular, quando, no dia 28 de agosto de 1964, os Beatles foram apresentados a Bob Dylan e este os apresentou à maconha. O encontro, ocorrido no Delmonico Hotel, em Nova York, fez com que ambos artistas começassem a se enxergar como partes de um mesmo universo, cedendo atrativos musicais entre si –não havia mais consumismo infanto-juvenil de um lado e cabecismo adulto do outro, tudo era a mesma coisa. Nascia a música pop moderna.
O que a princípio parecia se tornar um breve alô entre jovens ícones se tornou um acelerador para novas certezas que ambas as carreiras vinham desenvolvendo. Fenômeno de mercado, os Beatles eram uma banda elétrica adolescente, cantando baladas de amor e petardos dançantes com maestria inigualável. Já o acústico Dylan nascera na mesma cena folk pacifista que habitava o bairro boêmio do Village e glorificava autores beat e músicos do povo.
Mas logo a seguir as coisas mudariam de figura. Dylan abraçaria a guitarra como um violão de maior alcance, ferindo seus próprios fãs puristas com decibéis de eletricidade distorcida, ao mesmo tempo em que deformava a própria lírica das canções de protesto para um panteão bíblico-pop que buscava a pureza da alma americana ao mesmo tempo em que se perdia em seus próprios pecados. Já os Beatles deixariam de lado o iê-iê-iê para mergulhar fundo em si mesmos, emergindo de seu experimentalismo intuitivo –parte nostálgico, parte ingênuo– com o melhor legado que o formato canção conheceu.
Aronowitz havia entrevistado John Lennon e descobriu que ele considerava Bob Dylan um “ego igual” e, amigo de Dylan, passou a pensar em como aproximar os dois artistas. Até que, naquele 28 de agosto, Al recebe um telefonema –era Lennon, de passagem com os Beatles por Nova York:
“Cadê ele?”.
“Quem?”
“Dylan!”
“Ah, ele está em Woodstock, mas eu posso trazê-lo!”
“Do it!” (Faça!), mandou John do outro lado da linha, e o jornalista percebeu que podia dar ignição na própria história. Aronowitz combinou com Dylan, que veio acompanhado do roadie Victor Maimudes, ao volante. Com Al no carro, foram em direção a Manhattan, chegando logo ao hotel na Park Avenue. Lá, os três alcançaram o andar em que os Beatles estavam, sendo recebidos por um amontoado de artistas, radialistas, policiais e jornalistas, bebendo cerveja e conversando, que esperavam a vez de entrar na suíte para conversar com os Beatles, que estavam na capa da revista “Life” daquela semana.
Dylan entrou rapidamente, e a recepção foi feita pelo empresário do grupo, Brian Epstein, que, ao perguntar, entre champanhe e vinhos franceses, o que Dylan gostaria de beber, ouviu o pedido por “vinho barato” –para despachar o roadie dos Beatles, Mal Evans, em busca da tal garrafa. O encontro vinha frio, e os Beatles ofereceram pílulas para Bob, que sugeriu que eles fumassem maconha. Os ingleses responderam que nunca haviam fumado –consideravam a maconha uma droga pesada como a heroína, restrita a músicos de jazz e escritores malditos.
Pasmo, Dylan perguntou sobre aquela música que eles compuseram sobre estar chapado. Sem entender o que ele queria dizer, o cantor folk citou uma passagem em que os Beatles cantavam “I get high! I get high! I get high!” (“Eu fico chapado”), e Lennon esclareceu que era “I Want to Hold Your Hand”, cuja letra, na verdade, dizia “I can’t hide! I can’t hide! I can’t hide!” (“Eu não posso esconder!”). Desfeito o mal-entendido, Dylan sugeriu que todos fumassem um baseado.
Os Beatles, Dylan, Mal, Victor, Brian, Al e o assessor de imprensa Derek Taylor se dirigiram ao fundo da suíte do hotel, onde se trancaram e fecharam as cortinas. Bob Dylan começou a enrolar o cigarro, mas deixou o fumo cair por duas vezes, deixando que seu roadie terminasse o serviço. Aceso, o cigarro foi passado para Lennon, que passou a vez para o baterista Ringo Starr, que, por desconhecer os rituais canábicos, fumou-o inteiro, sem passá-lo adiante. Isso fez com que Al incentivasse a produção de mais cigarros –e logo cada um tinha o seu.
“Foi muito engraçado!”, lembra Paul McCartney em suas memórias, “Many Years from Now”, “o negócio dos Beatles eram humor, tínhamos muito humor. Havia um lado do humor que usávamos como proteção e, com aquilo ainda por cima, as coisas ficaram mesmo hilárias”.
“Virou uma espécie de festinha”, continua Paul, “voltamos todos para a sala, bebemos e coisa e tal, mas não acho que alguém precisasse de mais fumo depois daquilo. Passei a noite toda correndo para lá e para cá, tentando achar papel e caneta porque, quando voltei para o quarto, descobri o sentido da vida. Queria contar ao meu pessoal como era aquilo. Eu era o grande descobridor, naquele mar de maconha, em Nova York”.
“Até a vinda do rap, a música pop era largamente derivada daquela noite no Delmonico. Aquele encontro não mudou apenas a música pop, mudou nosso tempo”, lembra Al Aronowitz, em sua coluna on-line “The Blacklisted Journalist”. Logo depois, Dylan lançaria, em seqüência, os discos “Bringing It All Back Home”, “Highway 61 Revisited” e “Blonde on Blonde”, enquanto os Beatles trariam “Rubber Soul”, “Revolver” e “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Pura história.












