Trabalho Sujo - Home

Texto

E minha coluna ontem no 2 foi sobre a nova versão de Guerra nas Estrelas e a vinda do Hercules & Love Affair pra São Paulo.

Darth Vader diz “nãããããoooo!”
O problema da obra aberta

Está sendo lançado no Brasil e no resto do mundo mais uma edição da série Guerra nas Estrelas – desta vez, no formato Blu-ray. E para não fugir a regra, lá vem George Lucas de novo fazer mais reparos em sua obra mais popular. Desde que surgiu a possibilidade de relançar o filme em diferentes formatos (primeiro no VHS, depois no DVD e assim por diante), o criador da saga de Darth Vader sempre acrescenta cenas, efeitos e personagens que não existiam nos filmes originais – quase sempre enfurecendo seus próprios fãs.

Na atual edição, Darth Vader fala um “nããããooooo!” antes de atacar o Imperador, que estava matando seu filho, Luke Skywalker (mostrando que o lord do mal também tem coração). Os ursinhos Ewoks agora piscam os olhos e Obi-Wan Kenobi faz um som bizarro para assustar alguns alienígenas (na versão original, ele apenas gritava). Não foram as piores mudanças feitas na saga, mas seguem o padrão de ruindade das anteriores.

Fica a dúvida: o autor pode mexer numa obra depois de finalizada? Qual deve ser considerada a versão “correta”? Quem determina isso, o autor, a crítica, o público? Mais dilemas criativos para a nossa rotina digital, que torna a obra aberta uma regra, não uma exceção.

Hercules & Love Affair em Sâo Paulo

Confirmado para tocar na última noite do Rock in Rio 2011 (que começa na próxima sexta-feira, 23), o grupo nova-iorquino Hercules & Love Affair confirmou mais uma apresentação no Brasil, tocando em São Paulo no dia 1º de outubro, na casa noturna Hot Hot. Liderado pelo produtor Andy Butler, que também discotecará na mesma noite, o grupo é um dos milhares de exemplos da transformação que a disco music impôs à música pop. Se antes dos anos 70 optar por uma carreira musical significava ter algum domínio técnico, a disco music permitiu que não-músicos entrassem em cena e mudassem por completo a paisagem artística do século atual. O grupo entrou para o radar pop mundial com o hit “Blind” e lançou, no início do ano, seu segundo disco, Blue Songs, mas em sua passagem pelo País vem sem o vocalista Anthony. Os ingressos começam a ser vendidos na segunda, às 12h, através do site Ingresso Rápido.

Escrevi sobre o disco novo do Rapture na minha coluna de domingo no 2.

O futuro do álbum
Rapture e um formato ‘obsoleto’

Antes de aposentar o CD – ainda à venda, firme mas não tão forte, nas principais casas do ramo –, o formato digital tornou o álbum obsoleto. Mesmo que ele ainda seja produzido em larga escala e que grande parte dos artistas em atividade ainda o tenham como meta, o formato pertence ao século passado. Trancar-se num estúdio com determinado produtor e gravar uma coleção de canções que orbitem numa certa ambiência (seja estética, temática ou sonora) e sejam envelopadas num mesmo pacote, com material gráfico comum ao tema escolhido – isso ficou no passado.

No século 21, a música se movimenta por canções – e por motivos puramente técnicos, mais uma vez. Quando o formato digital se impôs, a velocidade de transmissão de dados online não estava tão avançada quanto hoje em dia. Por isso era mais fácil baixar apenas uma música do que um disco inteiro. Isso criou um problema para a antiga indústria do disco, que se bastava de um punhado de músicas boas para garantir a venda de um disco que tinha umas tantas outras faixas sem tanta importância. Investiam na canção para vender um pacote de músicas que não eram, no todo, boas o suficiente para serem compradas isoladamente. E assim, com a internet, os ouvintes c0meçarama a, primeiro, baixar apenas as músicas que queriam para, depois, comprar faixas avulsas digitalmente, destruindo o formato álbum, criado entre os anos 50 e 60.

(Interessante notar que o formato canção também surgiu de uma limitação técnica: quando a iniciante indústria fonográfica percebeu que a música erudita não seria mais popular, optou por formatar a canção popular – que crescia sem dimensão de duração – e, para isso, a compactou no máximo de tempo que os vinis da época permitiam – três ou quatro minutos.)

Isso não quer dizer que nunca mais iremos ouvir um conjunto de canções com uma mesma temática numa ordem preestabelecida. O melhor exemplo recente é o novo disco do grupo nova-iorquino Rapture, In the Grace of Your Love. Mesmo que suas músicas possam ser ouvidas em separado ou de forma aleatória, há uma coesão que ainda mantém o sentido de ouvir tudo na ordem proposta pelos autores. O crescendo autoral que começa em Sail Away e termina com It Takes Time to Be a Man me faz pensar que o formato álbum deixou de ter uma abordagem comercial para ser puramente estético – como a sinfonia, a ópera ou o concerto.

Bati um papo rápido com o Reed Hastings, fundador e CEO do Netflix, que estreou semana passada no Brasil no especial sobre TV e internet que fizemos no Link essa semana.

TV social começa antes no Brasil
Reed Hastings, co-fundador e CEO do Netflix

A TV é a última fronteira das mídias digitais?
Não acho que seja a última, mas entendo sua pergunta. Acho que a TV via internet deve revolucionar a TV tradicional como o celular fez com o telefone, o MP3 fez com o disco, etc. pois as pessoas querem mais opções. Mas estamos bem no começo disso. A TV tradicional ainda será forte por muitos anos. Pelo que vemos nos EUA, isso deve demorar. Mesmo com o crescimento da internet, acredito que um tipo específico de programação – como competições esportivas de alcance nacional ao vivo, por exemplo – ainda manterão vivo o interesse pela TV tradicional.

Mas a transmissão de eventos ao vivo – não apenas esportes, mas também a cobertura jornalística, por exemplo – têm futuro na internet, não?
Sim, a transmissão de eventos ao vivo é uma grande oportunidade para quem quiser entrar nesse mercado, mas não optamos por isso. Nosso foco é a TV sob demanda.

E na área de TV social? Vocês têm interesse em colocar seus clientes para assistir a filmes juntos?
Sim, inclusive estamos para lançar, ainda neste mês, na América Latina, nossa plataforma de TV social através do Facebook Connect.

Antes dos EUA?
Sim, pois temos uma superposição de leis que nos impede o compartilhamento de vídeos através de nosso site. A América Latina vai ter isso antes dos EUA.

Também falei nessa edição de segunda do Link sobre o Canv.as, o novo site do Moot, que deixou de ser fechado pra convidados na semana passada.

Canv.as é 4Chan organizadinho

Quando veio ao Brasil, no mês passado, o programador Christopher Poole, o Moot, estava às vésperas de lançar sua nova empreitada – o site Canv.as. “É uma espécie de versão domada do 4chan”, disse o criador do principal fórum de memes da internet.

O Canv.as estava funcionando só para convidados, mas a partir da semana passada quem quisesse conhecer o site já podia experimentá-lo. E a descrição feita por Moot disfarça o potencial de seu novo negócio.

Porque o 4chan é caótico por natureza. Um fórum de imagens em que qualquer um pode publicar o que quiser, sem nem mesmo se identificar, e que aceita qualquer contribuição, ingênuas ou escabrosas.

Já o Canv.as é organizado. Quem o utiliza deve se identificar e há um filtro que não permite publicar imagens mais tensas. Ele conta até com um editor de imagens online. Mas seu grande trunfo é a interface: tão simples de publicar quanto nos fóruns do 4chan, mas muito mais fácil de se encontrar.

O grande destaque do site é a forma como ele permite que seus usuários votem nas imagens que os outros sobem, de forma bem humorada. Será que Moot acertou de novo?

Escrevi sobre o Cowboys & Aliens no Divirta-se de hoje. O filme é bom, mas podia ser beeeem melhor…

Bom western, fraco sci-fi

A premissa de Cowboys & Aliens é esdrúxula desde o ponto-zero – recriar um conceito clássico da ficção científica, a invasão alienígena, num ambiente improvável, o velho oeste americano.

Não é propriamente pioneiro nesse sentido: ‘Batalha de Los Angeles’, do início desse ano, já brincava e bem com o mashup de gêneros (no caso, um filme de guerra sobreposto na premissa de invasão alien). Já o filme que fez o diretor Jon Favreau abandonar o terceiro Homem de Ferro não acerta em cheio como fez o filme de guerra.

E não foi por falta de brio. Na tentativa de se manter fiel ao gênero que determina o cenário da invasão, ‘Cowboys & Aliens’ recria um western com cara de clássico, bebendo na fonte dos faroestes crus feitos a partir de ‘Os Imperdoáveis’, de Clint Eastwood. A recusa de ser em 3D e sua fotografia escura e cheia de poeira combinam com atuações duras de Daniel Craig e Harrison Ford.

O filme só derrapa ao nos apresentar a alienígenas que misturam as baratas de ‘Tropas Estelares’ (1997), o ‘Alien’ da série clássica e o monstro de ‘Cloverfield’ (2008). O que sobra na parte western falta à parte sci-fi. Boa diversão, mas prometia mais.

Conversei com a senhora Huffington Post que esteve no Brasil na semana passada – e resumi o papo que tive com ela em na minha coluna do Caderno 2.

Arianna Huffington fala sobre o futuro do jornalismo

Na semana passada, Arianna Huffington esteve em São Paulo para palestrar em um evento e trouxe, na bagagem, uma informação que deixou todos em polvorosa: seu agregador de blogs, o diário Huffington Post, terá uma sucursal brasileira ainda em 2011. Seu site foi lançado em 2005 como duas operações conjuntas: de um lado, reuniu jornalistas para mudar a forma como as notícias são tratadas na internet, e do outro, oferece uma plataforma gratuita para blogueiros terem uma audiência maior.

A fórmula deu certo e o site se tornou referência para o jornalismo do século 21, ganhando relevância por cobrir de forma diferente tanto a crise financeira de 2008 quanto a eleição de Barack Obama, no mesmo ano. Sua sacada foi aprimorar a discussão com o público, tornando-o parte da notícia. Ela diz que, sem estatísticas, o jornalismo atual se esvazia, pois dá as costas para o que chama de “mais alta distinção” da profissão, que é contar histórias.

“Há tantos dados disponíveis hoje em dia, que parece que é possível justificar tudo apenas usando números”, ela me contou em entrevista na quinta-feira passada, dia 1º , no saguão do hotel Unique, em São Paulo. E afirmou que esse é um dos principais motivos do desinteresse do leitor pelas mídias tradicionais. “Esquecemos como contar histórias”, disse e concordou logo em seguida quando perguntei se esse era o motivo do sucesso do chamado “jornalismo cidadão” – em que, qualquer um, com um blog, pode se tornar um canal de notícias. Sem se encontrar nas notícias, o público começou a escrever sobre si mesmo.

E vai além: “Também acredito que a liberdade de expressão individual se tornou uma espécie de entretenimento”, dispara. “A gente sempre ouve perguntas como “por que as pessoas atualizam a Wikipedia de graça?”, “por que as pessoas blogam sem receber por isso?”, mas ninguém se pergunta por que as pessoas assistem a cinco horas seguidas de programas ruins de televisão de graça. Fora que escrever, criar… São formas muito mais inteligentes de entretenimento. Mesmo que você tenha um público muito pequeno, mesmo que escreva apenas para si mesmo e para poucos amigos. A liberdade de expressão individual é algo que precisa ser realizado”.

Segura de si, mas sem o estereótipo da mulher executiva do mundo digital, ela esbanja simpatia e deixa a conversa sempre em tom informal, lembrando que isso também é um dos motivos do jornalismo atual estar distante do leitor online – e riu ao lembrar como seu site noticiou o escândalo do presidente do FMI Dominique Strauss-Kahn com a manchete “OMG IMF” (siglas em inglês para “Meu Deus, FMI!”), típica da linguagem online.

Sobre o Huffington Post Brasil, ela não tem nada definido. “Estou conversando com possíveis parceiros, mas quero lançá-lo ainda neste ano”.

Minha coluna no Caderno 2 de domingo foi sobre a importância de Steve Jobs.

O digital é pop
Porque Jobs é tão importante

A principal notícia da semana foi a aposentadoria prematura de Steve Jobs. Já é possível prever a preguiça do leitor ao ser confrontado, de novo, com um tema que, teoricamente, lhe diz respeito apenas lateralmente. Mas mesmo que você não ache o iPad tudo isso, mesmo que não tenha nenhum tipo de smartphone, mesmo que tenha horror a computadores e os tenha que usar apenas pela imposição do mundo moderno, é inegável a contribuição do pai da Apple para a paisagem do século atual.

Ele não é apenas o inventor do computador pessoal. O verdadeiro pai da nova máquina é seu parceiro Steve Wozniak, mas foi Jobs que viu potencial comercial num aparelho que parecia não ter lugar na casa dos anos 70. Foi ele também quem pensou em mudar a cara desse mesmo cenário ao cogitar um computador pessoal que não precisava ser montado peça a peça – bastava comprá-lo na loja e sair usando. Também surrupiou duas ideias que estavam no limbo das invenções do mítico laboratório da Xerox, o PARC, e tornou-as não apenas pop, mas também cruciais no desenvolvimento deste mercado: a interface gráfica (antes, para se usar um computador, era preciso saber uma série de comandos digitados em uma tela preta com texto escrito em verde) e o mouse.

Ele também não inventou a distribuição digital, mas foi esperto o suficiente para perceber que as gravadoras estavam perdendo o bonde da história ao processar os consumidores que aprenderam a baixar música graças ao Napster. Notou a lacuna no mercado e transformou, em 2003, seu programa para ouvir música em uma loja online, a iTunes Music Store, e convenceu, aos poucos, as mesmas gravadoras que lutaram contra o download ilegal a vender música pela internet através da nova plataforma, tornando sua empresa, na primeira década do século, mais importante para o mercado musical do que qualquer outra gravadora. Aproveitou a deixa para impulsionar as vendas do MP3 player que havia lançado em 2001. E o iPod virou sinônimo desse tipo de aparelho. O sucesso de ambas iniciativas o cacifaram para voos mais altos.

Em 2007 nos apresentou ao iPhone e mudou completamente o conceito de smartphone, que antes era associado a executivos teclando em BlackBerrys. Aproximou o telefone a um computador portátil e tornou-o fácil e divertido de usar, criando, na mesma tacada, o mercado de aplicativos. E pavimentou o caminho para seu iPad, lançado ano passado, que hoje ameaça a existência do computador pessoal que inventou décadas antes.

O que há em comum em suas invenções é a facilidade de uso, o acabamento visual e um certo ar moderno e cool, verniz que Jobs sempre priorizou. E, com isso, transformou o mundo digital para sempre. Antes, nerds e computadores eram antissociais e inacessíveis. Depois de Jobs, eles se tornaram corriqueiros e legais. Eis a medida de sua importância.

O futuro sem Jobs

Escrevi o texto na capa do Link dessa segunda-feira.

O futuro sem Jobs
Ele não inventou nada, mas envernizou criações alheias com encanto e expectativa que mantiveram vivo o sonho americano

No início deste mês, no programa de entrevistas de Bill Maher, o astrônomo Neil DeGrasse Tyson, uma das principais autoridades em sua área no mundo atualmente, lamentou o fato de a crise econômica dos EUA ter obrigado o governo americano a cancelar o programa espacial. Ele disse que o rombo financeiro daquele país é astronomicamente maior do que todo o orçamento da história da agência espacial americana, a Nasa, e salientou que a importância de explorar o espaço vai além da astronomia: “Você se lembra de como era nos anos 60 e 70?”, explicava, “toda semana tinha uma matéria na revista Life sobre ‘a casa do amanhã’, ‘a cidade do amanhã’, ‘os transportes do amanhã’… Tudo isso acabou logo que paramos de viajar para a Lua. Nós paramos de sonhar.”

Ele se referia ao fim do sonho americano, que já vinha definhando desde o assassinato de Kennedy, passando pela Guerra do Vietnã e culminando com o escândalo de Watergate. É claro que o fim das viagens à Lua também mexeu com a autoestima do norte-americano, mas houve uma sobrevida, que aconteceu logo que os hippies ajudaram a transformar o Vale do Silício em uma das regiões mais inovadoras de todo o mundo. E é claro que essa transformação foi produto do trabalho de várias pessoas, mas um deles, o visionário, foi quem melhor encarnou o novo espírito.

Steve Jobs deixou, última quarta-feira, 24, o cargo de CEO da empresa que fundou em 1976 e que, há menos de um mês, chegou ao topo do mundo dos negócios, ultrapassando a Exxon Mobil no ranking das maiores de seu país. Uma trajetória fantástica, cheia de altos e baixos, que daria um filme bem mais interessante do que o feito sobre o Facebook, no ano passado.

Computador pessoal, interface gráfica, mouse, MP3 player, desenhos animados feitos em computadores, loja de distribuição digital, smartphone, tablet. Ele não inventou nada disso. Mas foi ele quem soube as cobrir com um verniz de encanto e expectativa a aparição de máquinas que apenas seguiam o conceito do sonho americano forjado nos anos 50.

São apenas eletrodomésticos, mas, como se referia Tyson em relação às invenções proporcionadas pela Nasa, eles nos ajudavam a criar uma noção de futuro. Nos davam uma perspectiva de horizonte próximo que nos fazia imaginar como seriam os próximos 5, 10, 50 anos.

A saída de Jobs da linha de frente da Apple coloca não apenas o futuro da empresa em xeque mas também o papel dos Estados Unidos na construção deste novo futuro. O país que regeu o século passado, o fez à base de produtos e aparelhos. Todo o chamado “imperialismo norte-americano” não seria bem sucedido caso não contasse com o aparato tecnológico que tornou carros, discos, tênis, jeans e camiseta, rádio, cinema, celulares e computadores parte do cotidiano de todo o planeta.

Mas o mundo mudou. E o presidente Barack Obama anunciou para seu país, no início do ano, que Google e Facebook, invenções norte-americanas, poderiam dar início ao que ele que se referiu como “o momento Sputnik da nova geração”, citando o primeiro satélite russo lançado no espaço, que deu origem à corrida espacial que colocou os EUA na Lua antes da União Soviética. Mesmo que isso aconteça, não veremos a possibilidade de um novo século americano. Pelo menos não do mesmo jeito que aconteceu no século passado.

Para começar, Google e Facebook não são produtos, são serviços. Ninguém os compra, todos apenas aderem a eles pelo fato de serem gratuitos. Não são palpáveis, não podem ser exibidos como símbolos de status e, por melhores que sejam, podem sim ser copiados e cair em desuso tão rápido quanto ascenderam. Além disso, ambos serviços vivem à sombra do fantasma e um totalitarismo digital, que faz o Google repetir “don’t be evil” (“não faça o mal”) como uma espécie de mantra para não cair em tentação e a figura de Mark Zuckerberg ser vista por mais de uma geração não como um visionário idealista, mas como um robô obcecado por controle.

Google e Facebook não têm ninguém tão carismático e reconhecido pelo público como a Apple tinha. Jobs segue a tradição dos grandes nomes que se consolidaram nos EUA, que une Benjamin Franklin, Henry Ford, Alexander Graham Bell, Levi Strauss, Thomas Edison e Bill Gates, homens que inventaram máquinas que deram origem a indústria inteiras, ao mesmo tempo em que personalizavam estas invenções. Jobs é o filho caçula desse cânone e, ao menos por enquanto, não surgiu ninguém que possa reivindicar o posto de prodígio temporão. Também não surgiu ninguém deste porte vindo da Índia, Rússia, China ou Brasil, o que dá alguma folga para os EUA.

A saída de Jobs de cena não é, como parece, o anúncio de sua morte. E, sim, o ocaso final do sonho americano. Aquele em que é possível chegar e acontecer, mostrar que é possível sair do nada e se tornar alguém apenas com uma ideia e a própria perseverança. Foi Jobs quem proveu os aparelhos que mantiveram o sonho americano vivo até hoje. Ao deixar seu principal palco, pode estar apressando a saída dos EUA do pódio do imaginário mundial, mesmo que a contragosto. E assim, quem sabe, começamos para valer o século 21.

Escrevi sobre o novo filme da série O Planeta dos Macacos no Divirta-se dessa sexta. O filme vale – e muito.

Destreza e graça

Esqueça o ‘Planeta dos Macacos’ de Tim Burton (aquele acinte à história da ficção científica). Planeta dos Macacos – A Origem não tenta inventar moda nem reescrever nenhuma história. Pelo contrário. Parte do pressuposto tão em voga na ficção científica do século 21 que dispõe-se a contar o que aconteceu antes da história que todos conhecem.

Vale um parêntese: (assistir ao primeiro ‘Planeta dos Macacos’ ou às suas quatro continuações – produzidas entre 1968 e 1973 – não é um pressuposto imprescindível para ver o novo filme, mas há uma série de referências e cenas rápidas que farão os fãs dos originais sorrir em silêncio – como a rápida citação a ‘Os Dez Mandamentos’, com Charlton Heston, o protagonista do primeiro filme.)

‘A Origem’ acompanha a carreira do cientista Will Rodman (James Franco, ótimo como sempre), que tenta desenvolver uma droga para curar o mal de Alzheimer, que aflige seu pai (John Lithgow). Mas, ao testá-la em chimpanzés, Rodman percebe que sua invenção vai além do proposto e aumenta a inteligência dos bichos-cobaia. E leva um deles para a casa, para logo perceber que seu remédio tem funcionado bem demais.

O que vemos a seguir é o auge de uma parceria já consagrada: a do ator Andy Serkis e do estúdio de efeitos especiais Weta, de Peter Jackson. Serkis pode ser desconhecido à primeira lembrança, mas é o mesmo ator que vive o Gollum na saga ‘O Senhor dos Anéis’ e o personagem principal de ‘King Kong’ (2005). Sua interpretação magistral e efeitos especiais de primeira fazem o macaco de Rodman, batizado Caesar, um dos principais eventos cinematográficos do ano.

E, para quem teme que o filme seja apenas ação e ficção científica, o trunfo de seu diretor (o novato Rupert Wyatt, em seu segundo filme) é equilibrar isso com cenas tocantes da relação homem-animal. Há certa demagogia, mas na medida certa, sem nunca tornar o filme piegas.

Também convém observar a câmera de Wyatt, que balança entre árvores, prédios e carros como a graça e a destreza de um animal selvagem – uma espécie em extinção.

Escrevi sobre a saída de Jobs do cargo de CEO da Apple no caderno de Economia dessa sexta, no jornal.

É preciso avisar que Steve Jobs não morreu
“News of my death has been greatly exaggerated”

A notícia da aposentadoria de Steve Jobs pegou todos no susto. Sua empresa, criada numa garagem californiana no meio dos anos 70, foi apontada há pouco como a mais valiosa do mundo. A Apple se beneficiou da recente crise econômica que desvalorizou os papéis nos EUA e fez que a antiga líder, a Exxon Mobil, caísse momentaneamente para o segundo posto.

Não é só isso: com a consolidação de seu iPad no mercado, a Apple não apenas ditou um parâmetro para o mercado – ainda sem concorrentes à altura, apesar das inúmeras tentativas –, como corre o risco de reinventar o computador pessoal mais uma vez, se seu tablet aposentar de vez o desktop.

E, de uma hora para a outra, vem a notícia de sua aposentadoria inesperada. Principalmente porque, depois de pedir afastamento por problemas de saúde, ele voltou à ativa, mesmo que por exigência do conselho da empresa, para anunciar o novo modelo do iPad. Parecia que em pouco tempo ele voltaria à ativa de fato e, em breve, revelaria mais um novo produto, além das já anunciadas – embora ainda especuladas – versões do iPhone (a quinta) e iPad (a terceira).

O impacto da notícia, por mais importante que seja, teve um tom fúnebre. Há até fãs da marca fazendo vigília em Apple Stores, como se o criador da empresa tivesse realmente falecido. “Cadê seu Deus agora?”, perguntam engraçadinhos na internet, provocando os fãs dos aparelhos Mac.

Mas a aposentadoria de Jobs é o ponto final em sua carreira? A não ser que seu estado de saúde seja realmente crítico (o que não descarta a possibilidade de sua morte acontecer entre a redação deste texto e sua publicação), a notícia da última quarta é apenas mais uma das inúmeras adversidades que Jobs enfrentou em sua biografia.

Para começar, não é a primeira vez que ele sai da Apple – isso aconteceu em 1985, quando pediu demissão da própria empresa que criou após uma disputa de poder interna. E não é o primeiro problema de saúde que enfrenta – venceu um câncer de pâncreas no início da década passada e passou por um transplante de fígado em 2009.

Não é à toa que a maioria das biografias escritas a respeito dele têm um tom de autoajuda e de superação; motivo semelhante de suas aparições terem tom religioso. Fui a um desses cultos, quando ele apresentou o finíssimo Macbook Air, em janeiro de 2008, em San Francisco – que nem é dos principais aparelhos de sua empresa. Mas a simples presença de Jobs no palco era o suficiente para encantar seus fãs (não à toa, carisma ele tem de sobra) e, logo depois, fazer as ações da empresa subirem. Deixar a Apple, portanto, não é o fim.