
Tive uma crise de pressão alta há um ano e meio e depois de todos os exames, o médico veio com o resultado: “Tudo normal, mas você bebe, fuma, tem quase quarenta anos, sedentário e é jornalista, uma profissão desregrada. Natural que o corpo venha pedir a conta uma hora ou outra. Você vai ter de mudar de hábitos”. Era o chamado que esperava. Sempre deixei minha saúde em segundo plano à espera deste médico, que me dissesse que, por algum motivo, teria de cuidar da minha saúde. Lá estava ele, anunciando uma profecia que eu já esperava ser anunciada.
O destino me ajudou em algumas coisas: ao mudar de emprego, do Link para a editora Globo, parei de fazer plantões aos fins de semana. Mais do que isso – agora eu havia fugido de vez do noticiário mais quente, o que me deu mais tempo para cuidar de mim. E ser vizinho do compadre Camilo Rocha me ajudou também – ele havia começado a caminhar todos os dias pela manhã e no final do ano passado comecei a andar diariamente. Inventei um apelido – uma hashtag – para estas caminhadas: #thewalk, inspirado em um hit da minha adolescência, do Cure.
Elas me obrigaram a por em prática o hábito de acordar cedo. Há uns cinco anos acordo um pouco antes do sol, mas demorava para sair de casa – entre um lento despertar e um longo café da manhã. Agora não: antes das nove já estava na rua, sentindo o frio fresco do ar da matina ao mesmo tempo em que caminho pouco mais de três quilômetros pelo meu bairro. Isso me aproximou ainda mais da minha vizinhança – aos poucos reconhecia o pessoal de uma padaria que pouco frequentava, cumprimentava os porteiros e vigias que estavam sempre no mesmo ponto todos os dias, reconhecia taxistas e outros caminhantes – com bebês, cachorros ou sozinhos – que cruzava pelo caminho. Mais do que botar o próprio corpo para trabalhar (lentamente) começava a entrar em contato com o meu próprio bairro de forma mais íntima, menos à distância. Um aprendizado duplo – que ainda se mantém.
O próximo passo foi retomar a natação, meu esporte favorito. Nadei por dez anos entre a infância e adolescência e a competição contra si mesmo, o silêncio mental submerso e o contato com a água sempre me fizeram um ávido nadador. O problema agora seria recuperar essas atividades quase vinte anos depois de deixar de praticar qualquer exercício físico, mas tem dado certo. Convidei Camilo para repetir a dobradinha das caminhadas, mas ele tornou-se pai no meio do ano, o que lhe obrigou, inclusive, a parar de caminhar. No fim, foi bom: retomar a natação sozinho me colocou em contato com uma das melhores coisas do esporte – o aspecto meditativo de percorrer raias e raias sozinho. E, como nas caminhadas, batizei esse novo hábito com outro apelido – outra hashtag -, #downbythewater, que veio de outro hit, da minha pós-adolescência, da PJ.
O corpo dói no início, a preguiça tenta a não sair de casa, é difícil achar o melhor horário, mas tem valido à pena. Os resultados vêm aos poucos, mas os benefícios são sentidos de cara. Além de sentir o corpo evoluir – o fôlego melhorar, o peso diminuir, a disposição para tudo aumentar -, o impacto mental de colocar-se em funcionamento é crucial para seguir nesta evolução. Uma mudança drástica num ano ímpar, que recomendo a todos os sedentários que conheço. Não é pra largar discos e livros e virar um beato bitolado geração-saúde, contando quilocalorias, nem o infame “projeto verão”. No meu caso está mais para “projeto 100 anos”, que é para lá que eu vou.
O próximo passo é abandonar o cigarro, mas isso é papo pra 2014.

De Bowie, em janeiro, a Beyoncé, em dezembro, lançamentos-surpresa estiveram na ordem do dia de 2013. É mais um indício que a transição da era analógica para a digital está chegando ao fim. Os artistas, que antes precisavam mover uma enorme máquina de marketing para conseguir ao menos um tijolinho de texto em uma página de jornal, estão fazendo isso sem tanta estrutura, pois falam direto com seus fãs. O álbum-surpresa não é uma novidade de 2013; o Radiohead já fez isso pelo menos três vezes (embora na primeira eles não assumam): no “vazamento” de Kid A no meio do ano 2000, quando o disco estava prometido para setembro; e no lançamento de In Rainbows, de 2007, e The King of Limbs, de 2011, postos para a rua em menos de um mês depois de finalizados em estúdio. A novidade de 2013 é que isso não é mais exceção e, aos poucos, tornam-se regra. Mesmo com gravadoras envolvidas no processo, os artistas querem entrar em contato direto com seus ouvintes e vender seus novos discos sem antecipação. Até o My Bloody Valentine tirou um atraso de mais de duas décadas usando essa fórmula, seguida pelo Boards of Canada, que brincou de quebra-cabeças com ouvintes e ratos de lojas de disco.
Mas ninguém soube faturar tão bem a expectativa como o Daft Punk. Não é de hoje que a dupla francesa experimenta formatos contemplando diferentes mídia e é nítida a ênfase específica que os dois dão à sua criação musical. Ao transformar as antigas máscaras em personalidades-robô, Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter ampliaram sua área de atuação para além da música e talvez tenham se perdido no meio do caminho. Entre o soberbo (e lotado de samples) Discovery e a trilha sonora da continuação de Tron, a imagem do Daft Punk chamou mais atenção que suas músicas – e parece que foi com este intuito que Random Access Memories foi gravado. Sem samplear ninguém, a dupla chamou um senhor time de colaboradores (Panda Bear, Julian Casablancas, Giorgio Moroder, Todd Edwards, Chilly Gonzalez) e preferiu centrar fogo em uma música. Ou melhor: quinze segundos de uma música.
Foi o que aconteceu quando ouvimos “Get Lucky” pela primeira vez, num comercial do Saturday Night Live que viralizou no YouTube. 15 segundos e só o riff. A única imagem era o logo da banda, estilizado em prata, seguido das duas metades de cada capacete vindo de cada lado da tela, revelando a data de lançamento do novo disco. Sem vocal. Sem refrão. Só o riff, que depois ficamos sabendo que era tocado por ninguém menos que Nile Rodgers, fundador do Chic, que produziu David Bowie e Madonna nos anos 80. Semanas depois, uma versão esticada do comercial aparecia num telão no festival Coachella não apenas revelando a participação de Rodgers como a do cantor Pharrell, entregando a estrofe pré-verso da música. Ao criar essa expectativa em torno da chegada de uma única canção, o Daft Punk aos poucos foi nos acostumando com sua estrutura, seu ritmo, sua textura musical – essencialmente um flashback literal do final dos anos 70 e início dos anos 80 como o próprio nome do disco deixa claro.
Quando “Get Lucky” apareceu, tudo estava pronto para ela se tornar a música mais ouvida do ano. A expectativa criada em uma única música – e não numa grande volta ou em todo o álbum – colocou o Daft Punk no centro pop de 2013 e transformou seu hit em uma das músicas mais emblemáticas de 2013, mesmo que pareça ter sido feita em 1979. A forma como ela nos foi apresentada é que é típica deste século.

Desde que me tornei editor do Link, no Estadão, em 2009 até a minha saída no final do ano passado, me autoinflingi a um mau agouro: o dia em que o suplemento de tecnologia se tornaria obsoleto (também sempre cogitava a pior hipótese de hard news para um caderno semanal que circulava no início da semana – a morte de Steve Jobs numa segunda-feira; ela aconteceu numa quarta e mesmo assim eu e Helô conseguimos tirar onda na edição daquela semana, obrigando o leitor a entortar o jornal). Sempre brincava – embora falando sério – que a natureza do Link contraposta à do Estadão permitia que nos aventurássemos por diferentes áreas do jornal sem brigar por pautas com outros cadernos. Assim conseguimos falar sobre o Marco Civil da Internet, de pirataria como vertente política e das trapalhadas da nossa justiça com a natureza da internet antes do pessoal de política, da economia aberta e de moedas virtuais sem abalroar com economia, da discussão sobre a ilegalidade dos downloads, da natureza do remix e da arte colaborativa fora das páginas de cultura. Mas chegaria um momento em que essas discussões inevitavelmente iriam interessar aos leitores de todos os cadernos, quando o digital deixasse de ser exceção. Cogitava como horizonte o dia em que a internet e as novas tecnologias se tornariam tão presentes que deixariam de ser reconhecidos apenas por um caderno. Uma vez que a internet avança cada vez mais sobre cada desdobramento de nossa vida, é inevitável a chegada de um momento em que um caderno sobre novas tecnologias e cultura digital se torne redundante frente a todas as outras editorias.
Quis o destino que tais preocupações ficassem no passado logo que assumi a direção da Galileu, no final de 2012 (cogitando, sobre novos ombros gigantescos, novos horizontes), mas tenho uma forte impressão que todo esse oba-oba em torno do digital e da internet terminará até o final desta década. Isso não quer dizer que a internet passará ou que os dilemas da transição que estamos vivendo se cessarão: pelo contrário, acho que eles se tornarão ainda mais presentes e complexos. A diferença é que não vamos mais nos referir uns aos outros como “internautas” (palavra que abomino e tento eliminá-la de meus textos, a não ser pra citar o próprio ridículo do termo, como agora) e vamos deixar de falar em “entrar na internet”. A rede já é ubíqua e o Facebook sozinho já pode gabar-se de ter um sétimo da população do planeta conectada à sua agenda de contatos, o maior CRM do planeta. Mas já começamos a ver um movimento de reação que é inevitável: a fuga da internet (ou a redução da presença online). Cada vez mais gente abandona plataformas de publicação para ter apenas um ponto de contato com a internet, deixando para trás essa era histérica e autorreferente de discussões intermináveis que só fazem bem ao ego dos envolvidos, sejam colunistas ou blogueiros de esquerda ou de direita (conceitos cada vez mais difusos, ainda mais nesses dias). E essa desconfiança da internet ganhou requinte de crueldade com as revelações feitas por um ex-agente da inteligência norte-americana, Edward Snowden, que revelou que os Estados Unidos utilizam recursos digitais – com auxílio das grandes grifes da rede – para monitorar a vida de quaisquer cidadãos que estejam na internet, norte-americanos ou não.
Qualquer um que dissesse, até 2012, que o governo dos EUA teria algo parecido com o PRISM seria imediatamente tachado de paranóico e conspirador maluco – mas eis que vem a realidade e nos esfrega em nossas ventas algo que nem a melhor ficção cogitaria. Mais do que isso: nos dá um anti-herói vilão arrependido que foge para a Rússia numa ação que desafiou até a soberania do presidente boliviano. Snowden surgiu como improvável protagonista da contrainformação corporativa, deixando o mundo boquiaberto sobre suas revelações e dando início a um dominó político que por vezes respingou no Brasil – desde reativação o Marco Civil da Internet à detenção de David Miranda, o namorado brasileiro de Glenn Greenwald (responsável pela revelação das acusações de Snowden), até a carta que o próprio Snowden escreveu ao Brasil, dizendo-se disposto a ajudar o país no que diz respeito às espionagens relacionadas ao governo e empresas brasileiras.
As revelações de Snowden podem ter tornado o mundo mais cético e mais cínico, mas se esse é o custo para que saiamos do loop de autodeslumbre que estamos presos desde que a web 2.0 permitiu que o mundo ouvisse a voz de cada um de nós, tudo bem. Pode ser que assim passamos menos tempo olhando para telas, decididos a registrar qualquer momento ou pensamento, nos fazendo refletir sobre a natureza da sinceridade da pergunta que o Facebook sempre nos faz (“como você está se sentindo agora?”). Não vivemos num reality show em que o mais exibido ou melhor articulado ganha um milhão no último episódio – estamos mais para ratos em laboratório cujas menores reações são monitoradas a cada milímetros ou segundo. E não tem último episódio, mesmo que você leve o milhão (de views, de likes, de RTs).
Treze partes de um ano ímpar, a partir do meu ponto de vista

O número 13 vem carregado de um desequilíbrio que perturba a maioria das pessoas. Como o dia em que nasci leva este número, entrei escaldado em 2013. Não havia como fugir que nosso primeiro ano 13 fosse tenso e carregado como foi – emoções boas ou ruins, igualmente inquietas. A aura do número – da sorte ou do azar, dependendo da perspectiva – pairou sobre nossas cabeças de forma quase icônica e ríamos ao chamá-lo de “creize” entre os dentes cerrados como uma forma de exorcizar toda essa pilha.
Foi um ano em que política pareceu ter perdido a aura engravatada e cinzenta que era nos vendida para se tornar algo palpável e presente, seja nos protestos de junho de 2013, nas políticas públicas, na participação popular, no convívio social. Vimos máscaras subindo e outras caindo num ano em que os papéis entre palco e platéia se embolaram de vez e a intermediação entre ambos tornou-se quase ensurdecedora, com tantos em busca de protagonismo. Polêmicas e memes se misturam às notícias e tudo parecia filtrado por opiniões recém-adquiridas via Facebook – toda semana um novo assunto é exaurido de possibilidades retóricas, o que aos poucos vem desgastando nossa capacidade (e paciência) de argumentação ao mesmo tempo em que essa fase de que se precisa ter opinião sobre tudo parece que vai passando. Convicções seguem rígidas, mas há uma desolação irônica que flutua sobre qualquer assunto – o papa que renuncia, os direitos das empregadas domésticas, o Ben Affleck vai ser o Batman, Tom Zé e a Coca-Cola, o ingresso de R$ 12.500,00, a Mídia Ninja e o Fora do Eixo – que parece nos preparar para uma realidade menos ilusória, plástica. Daí a política nos desinteressar na esfera representativa global e começar a brotar em recantos comunitários. Afinal, se somos todos monitorados pelos Estados Unidos, como já desconfiávamos pela onipresença do Google e do Facebook, por que não baixarmos a guarda e começarmos a falar umas boas verdades, inspirado pelo principal sujeito de 2013, esse Nobel da paz de verdade chamado José “Pepe” Mujica.

Mas a imagem do ano é a da fotógrafa Giuliana Vallone alvejada no olho por um policial durante um protesto pacífico, pois ela talvez seja quem melhor represente essa mudança – não estamos falando apenas de uma casualidade de guerra ou de uma estatística em um confronto, mas de uma pessoa surpreendida pela agressividade institucional. A mesma que nos faz querer ir às ruas, humanizar a discussão – afinal a discussão sobre os 20 centavos só ganhou corpo quando a violência policial fez-se presente. E isso nos custou abrir um pouco a mão de nossa zona de conforto.
Essa retomada do espaço público e do ar livre se refletiu em vários níveis pessoais – desde aproveitar melhor a cidade à materialização de uma festa vespertina. E não adianta despregar uma retrospectiva do ponto de vista individual, ainda mais no ano em que a dicotomia entre #merepresenta e #nãomerepresenta foi gasta num certo ponto em que a única verdade possível é a de cada um. Particularmente, tirei 2013 para estabilizar meu plano de vôo – e se o acaso quis que a maioridade do Trabalho Sujo coincidisse com meu primeiro ano na direção da Galileu, transformei isso em meta dupla coexistente. Sob ambas, o despertar de uma preocupação com a saúde que vai além da fácil “alimentação melhorada” rumo ao exercício físico (a caminhada #thewalk e a natação #downbythewater, dois hits da minha vida assumindo-se rótulos para transformações físicas) e vendo um horizonte sem a fumaça da nicotina em 2014. Conheci Berlim e Barcelona, duas cidades incríveis e antagônicas, São Paulo e Rio de Janeiro de uma Europa mais jovem que esperava encontrar. Vi o Cure, o Tame Impala e o Blur duas vezes, finalmente fui a um festival Primavera, vi o Cidadão tocando o Dark Side do Pink Floyd e um show histórico do Neil Young sobre seu Crazy Horse. Dei festas memoráveis sempre tocando ao lado de amigos queridos e aos poucos estou retomando a cozinha. Mas fui ao cinema e li menos do que gostaria. A série cujo final eu mais aguardava terminou sem graça e perdi um dois grandes ídolos: um icônico e outro irmão. Foi um ano montanha-russa, em que a lógica pareceu ser a mesma por trás de qualquer Harlem Shake (uma moda, por incrível que pareça, deste ano).
Nos próximos treze posts, treze lembranças deste ano treze que chega ao fim, textos que comecei a escrever em diferentes épocas e cidades nos últimos doze meses e que serão terminados nas altitudes de um deserto sul-americano, onde passo uma semana com a única pessoa que realmente importa – minha mulher.
Força, porque ano que vem, você já sabe, vai ser “o” ano: e só melhora!
PS – A contagem regressiva das 75 melhores músicas de 2013 continua a partir do primeiro dia de 2014, junto com outras listas de retrospectiva, que seguem até o dia 6.

Viram o novo site da Galileu? É o fim de um processo que começou com a entrada da Tati como editora do site, no meio do ano, e deixa a redação a postos para encarar 2014. E para marcar a mudança, resolvemos abrir o conteúdo da matéria de capa da edição com a versão integral dos 25 perfis feitos a partir da seleção dos nomes mais influentes da internet brasileira em 2013. Abaixo, o texto que escrevi para a apresentação deste Estado da Internet 2013.

O Estado da Internet 2013
Os ativistas, humoristas, pensadores, desenvolvedores de aplicativos, legisladores e agitadores culturais que ajudaram o Brasil a sair da internet para as ruas neste ano
O 2013 brasileiro, no futuro, poderá ser resumido às impressionantes cenas das pessoas invadindo as ruas das principais cidades do país naquele já histórico junho. Muito foi teorizado sobre aquele momento, mas há uma leitura que entende os protestos como um período crucial para a cultura digital brasileira. Pois 2013 foi o ano em que a cultura da internet brasileira deixou os monitores e foi para as ruas.
Foi o que percebemos ao apurar a votação dos 25 nomes mais influentes da internet brasileira em 2013. GALILEU reuniu jornalistas que cobrem tecnologia e autoridades em diferentes nichos online (conheça o júri ao final da matéria) para escolher nomes que fizeram a diferença através da rede neste ano. O resultado trouxe nomes que estariam entre os 25 mais influentes em 1999, 2004 ou 2010. Mas, como os protestos, eles não estão mais apenas na internet.

#JUNHO2013: As manifestações do meio do ano não só criaram um novo Brasil, como deram sentido ao uso da internet no país
O principal fato de 2013 no Brasil começou há oito anos, quando o Movimento Passe Livre articulou seus primeiros protestos contra o preço das tarifas de ônibus em Florianópolis e Salvador. De lá para cá, o movimento organizou mais protestos e obteve vitórias, mas nada comparado a junho. E a semente da mobilização aconteceu via internet, cutucando os que antes eram rotulados “ativistas de sofá”, que assinavam abaixo-assinados online, compartilhavam foto e só.
Embora o MPL tenha sido o estopim dos protestos, não foi o único protagonista. O ativismo digital ganhou força e rostos. O paulista Bruno Torturra tornou-se a cara do coletivo Mídia Ninja, que, com câmeras em punho e transmissão 3G, atuou nas trincheiras das manifestações com jornalismo de guerrilha que virou notícia até no exterior. No Rio, o principal nome foi o humorista Rafucko, cujos vídeos sempre tiveram forte conotação política. Mas os protestos, e sobretudo a violência policial, o colocaram na linha de frente, satirizando o estado-violência que se instalou no Rio pelo segundo semestre, transmitindo protestos e confrontando a polícia.

Junho também foi celebrado por velhos conhecidos dos bastidores da rede. Teóricos (os professores Sílvio Meira e Sérgio Amadeu) e práticos (o hacker Pedro Markun) viram, no calor da hora, que o país avançava rumo à maturidade digital. Os três também observaram de perto aquele que talvez seja o grande acontecimento do ano: a denúncia de que o governo dos EUA espiona cidadãos do mundo todo via internet. O escândalo surtiu efeito positivo no país, que voltou a discutir o Marco Civil da Internet, pioneiro conjunto de leis que propõe uma nova regulação da rede. Seu relator, o deputado mineiro Alessandro Molon, destacou-se na defesa do projeto de lei.
A causa gay também reforçou os protestos com dois nomes de peso: um deputado federal e um humorista que mudou de gênero. Mas a homoafetividade não é a principal bandeira de Jean Wyllys e Laerte, que partiam deste princípio para discutir questões que não têm propriamente a ver com sexo — e sim com direitos humanos.
2013 viu o ressurgimento dos coletivos. Movimento Passe Livre e Mídia Ninja podem ser seus representantes mais evidentes, mas estão longe de serem os únicos. Em outras áreas, dá para dizer que este é o motivo de sucesso tanto da ONG de jornalismo Agência Pública e do site de crowdfunding Catarse, quanto da dupla Jovem Nerd e do blog Não Salvo, que conversam com os fãs para produzir conteúdo coletivamente. Os dois também não são novatos, mas 2013 consagrou a expansão de seus domínios, sem deixar a internet de lado, ao contrário de outras celebridades online do passado, que trocaram a rede pela TV. Eles consagram um movimento sem volta: grupos que se fortalecem online e que transformam um hobby em profissão. Agora é possível empreender em causa própria, sem apenas usar a rede como plataforma para outros fins.
A eles juntam-se nomes que lidam tanto com produção de conteúdo quanto com publicidade, como Marco Gomes, da Boo-Box, Guga Mafra, da FTPI Digital, e Felipe Neto, que passou pela febre dos blogueiros e foi para os bastidores. Todos estes passaram pelo festival YouPix, idealizado por Bia Granja, que a cada ano torna-se um dos principais palcos para esta mesma geração.
Mas nenhum deles conseguiu o nível de popularidade do coletivo carioca Porta dos Fundos, que começou bem o ano e terminou-o de forma espetacular, como o quinto canal mais assistido no YouTube no mundo — e sem cogitar ir para a televisão, mesmo recebendo boas propostas.
O ano também foi marcado pela ascensão dos smartphones, que acarretaram uma série de mudanças sociais. Estavam presentes nos protestos, quando manifestantes registravam a beleza da multidão e a violência policial, mas não só. Afinal 2013 foi o ano em que cada vez mais brasileiros acessam a internet pelo celular, pois vimos a a venda de smartphones ultrapassar a de celulares comuns. A maior parte destes aparelhos funciona com o sistema operacional do Google, o Android, departamento liderado pelo brasileiro Hugo Barra, que em 2013 abandonou o gigante da internet para trabalhar com smartphones na China. Os smartphones também foram oportunidades para empreendedores como Tallis Gomes e Paulo Veras, que criaram aplicativos que estão mudando a forma como as pessoas usam táxis nas grandes cidades. A mobilidade urbana foi outro tema importante, não apenas quando falamos do preço de passagens de ônibus.
O clima tenso dos protestos não ofuscou o humor — e além dos já citados Não Salvo, Porta dos Fundos, Rafucko e Laerte, quadrinistas como mrevistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2013/12/alexandra-moraes.html”>Alexandra Moraes (a mãe do Pintinho), André Dahmer (o pai dos Malvados) e Bruno Maron (do Dinâmica de Bruto) também se destacaram. Só Dilma Bolada, personagem fictício inspirado na presidente do Brasil, ainda não deixou a internet, mas isso está nos seus planos para 2014.
Mas isso é outra história. Por enquanto, é hora de conhecer quem foram os principais nomes da internet brasileira neste 2013:
Jovem Nerd: Lambda! Lambda! Lambda!
Pedro Markun: Hackeando processos políticos
Marco Gomes: Quase meio milhão de blogs
Porta dos Fundos: Rindo à toa
Alexandra Moraes: A mãe d’O Pintinho
Alessandro Molon: O relator do Marco Civil da Internet
André Dahmer: O mestre Malvado
Rafucko: Humor não é crime!
Tallis Gomes: Táxis pelo mundo todo
Bia Granja: A internet é um palco
Bruno Torturra: A cara do Midia Ninja
Laerte Coutinho: A vez dela
Jean Wyllis: Voz das minorias
Gustavo Mafra: Propaganda pensada para a internet
Bruno Maron: A hora e a vez do niilismo ativo
Natália Viana: Reportagens, não notícias
Silvio Meira: Inovação de maneira pragmática
Felipe Neto: Para trás das câmeras
Paulo Veras: Corrida cheia
Movimento Passe Livre: O estopim das manifestações de junho
Hugo Barra: Do Google pra China
Maurício Cid: O homem do Não-Salvo
Luís Otávio Ribeiro e Diego Reeberg: Os pais do Catarse
Sérgio Amadeu: Ativismo acadêmico
Jéfferson Monteiro: O homem Dilma Bolada

O aniversário é hoje: há 18 anos saía a primeira edição do Trabalho Sujo, ainda no jornal Diário do Povo, de Campinas, que fechou suas portas no ano passado. Comecei minha carreira jornalística em 1994 naquele diário da Vila Industrial, quando comecei a colaborar com o caderno Diário Pirata ainda aos 19 anos. A colaboração virou contratação (quem apostou foi a Adriana Villar, minha primeira chefe : ) ) mas não durei nem um ano no emprego porque o caderno fechou. O jornalismo-cachaça, por sua vez, já havia feito nova vítima e botei na cabeça que queria fazer uma página de jornal – não apenas escrever, mas editar, diagramar, tudo. E quando comecei a conversar com o Correio Popular, o concorrente, fui chamado pelo editor-chefe do Diário, o João Paulo, que me explicou numa simples equação que o fim de um caderno (um corte industrial) não significava o fim do interesse naquele assunto, e perguntou se eu não queria publicar a coluna que estava vendendo para o Correio no próprio Diário. Topei e no dia 20 de novembro de 1995, o Trabalho Sujo foi publicado pela primeira vez como uma página inteira na contracapa do caderno de cultura do Diário.
No Diário, o Sujo assumiu diferentes formatos, de acordo com as mudanças de linha editorial que novos editores-chefes imprimiam ao jornal, até que se estabeleceu como uma página dupla na central do caderno de cultura de domingo. Na mesma época (1997, 1998…), me envolvi com a criação do primeiro site do Diário do Povo e consegui uma brecha para o Trabalho Sujo ali, que me deu uma visibilidade para além das bancas de Campinas e quando percebi que minha comunicação com público, artistas e outros veículos havia se tornado ágil como uma troca de emails. O Sujo seguiu nesse formato até seu último ano, 2000, quando fui contratado pelo jornal corrente, o Correio Popular, para editar seu caderno de cultura. Nessa época, transformei o Trabalho Sujo num site no Geocities e o alimentava com o que escrevia no Caderno C (principalmente com a coluna de discos que editava, chamada Termômetro). Do Correio Popular mudei-me para São Paulo, quando fui trabalhar na Conrad e conheci o Pablo Miyazawa, hoje na Rolling Stone brasileira, que à época queria criar um portal de blogs para reunir todo mundo que andava espalhado pelos Geocities e Blogspots da vida. Ele criou o Gardenal e mudei-me com o Trabalho Sujo para lá. E nesses tempos da infância da blogosfera, conheci o Bruno e o Arnaldo – dois blogueiros de Blogspot – e os chamei para o Gardenal.
Em 2008, depois de ter passado três anos trabalhando no Trama Universitário e após o primeiro ano de Link Estadão, a situação no Gardenal havia tornado-se insustentável do ponto de vista técnico – havíamos perdido dois anos de conteúdo por problemas no servidor e o cenário futuro não parecia animador, com o site fora do ar quase o tempo todo. Saímos eu, Bruno e Arnaldo, chamamos o Mini, que conhecíamos também de internet (eu acompanho o trabalho do Mini desde que os Walverdes eram uma banda promissora de Porto Alegre), para fundarmos OEsquema, que, além dos blogs dos quatro, desde 2011 recebe novos blogueiros, velhos amigos e novos talentos, como vocês têm acompanhado. O Sujo já virou festas e canais em redes sociais, misturando-se naturalmente com minha produção jornalística. E além das novas festas (Sussa e Naites, além das Noites do Alberta, que voltam em breve, e das noites na Trackers), a maioridade traz novidades no horizonte.
Vamos nessa, pois está só começando… E você sabe o mantra: só melhora!
PS – E você, lembra-se de como conheceu o Trabalho Sujo?

Duas das principais atrações do Planeta Terra de 2013 vêm fazer shows que ficaram devendo nas primeiras vezes que vieram para o Brasil. O Blur passou pelo Rio e São Paulo em 1999, quando muita gente ainda se perguntava que diabos era indie rock e muito menos gente sabia o que era britpop. Vi o show da banda inglesa no então recém-inaugurado Credicard Hall com um quarto da capacidade do público e a sensação de show privê só não era melhor porque a banda não estava num bom momento – Damon Albarn chegou a comentar ao microfone que havia comido algo estragado no México e a dor de barriga do vocalista encurtou o setlist e algumas canções.
Blur – “Tender”
Já o Beck tocou no dia do meu aniversário em 2001, antecipando os shows dos Foo Fighters e do R.E.M. no festival carioca. Vi o show bem de perto, por isso não me decepcionei como a maior parte do público, que não conseguiu entender direito o impacto do baixinho devido às proporções do festival.
Beck – “Devil’s Haircut”
Tem mais trechos dos shows do Blur em São Paulo e do Beck no Rio de Janeiro logo abaixo:

Cheguei em cima da hora, peguei uma fila gigantesca (dava até a 23), entrei e o show já tinha começado, nem cogitei ficar embaixo e subi para o mezanino do Jóia. O som tava baixo, mas aumentou logo em seguida e a partir daí… Kevin Parker nos conduziu a um delírio sônico em technicolor que, ao mesmo tempo que apontava para o cânone clássico da psicodelia dos anos 60, abria novos horizontes para a lisergia sonora que conduzia a partir de sua guitarra.
Descalço e muito mais seguro de si do que quando apresentou-se no Brasil há um ano (quando Lonerism ainda nem havia sido lançado e só duas músicas do disco haviam aparecido online, “Apocalypse Dreams” e “Elephant”), Parker tem plena certeza dos rumos que quer levar e conta com músicos tinindo pra isso. Jay “Gumby” Watson (que tocava bateria e foi pra guitarra e sintetizadores) e Dominic Simper (baixista no início da banda e hoje nas guitarras e teclados) funcionam como sombras de Kevin, ecoando solos, riffs e texturas sonoras que o líder da banda joga no ar. Os dois novatos da cozinha, o baixista Cam Avery, que entrou no semestre passado, e o baterista Julien Barbagallo, que entrou no ano passado, fazem tudo funcionar com esmero, forçando os limites de seus instrumentos sem precisar apelar pro virtuosismo – Cam passeia pelas belas linhas de baixo compostas por Parker com tranquilidade enquanto Julien equilibra-se nas viradas lentas como um Ian Paice ou um Ginger Baker.
Mas todos trabalham por Kevin, que mesmo tento espasmos de deus do rock – erguendo a guitarra bem no alto, rodopiando, fazendo poses com o instrumentos – é um moleque que passeia feliz pelo céu de diamantes que resolveu habitar. Sem surpresas no repertório, ele esticou músicas em jam sessions memoráveis, intercalou fraseados com espasmos sonoros que fizeram o público no Jóia ficar de queixo caído. Ele adorou a audiência (que cantarolou riffs e solos), além de elogiar o fato da platéia saber a letra de todas as músicas. Um show memorável, mas que parece ser apenas o começo de uma carreira brilhante.
Fiz uns vídeos abaixo, saca só.

Começou hoje no MIS a exposição Stanley Kubrick, que já passou por cidades européias e norte-americanas reunindo parte considerável do acervo do maior diretor de todos os tempos. Conversei com a viúva de Stanley, Christiane Kubrick, na edição atual da Galileu.
Dentro da cabeça de Kubrick
Exposição definitiva sobre gênio autor de clássicos como 2001, O Iluminado e Dr. Fantástico chega ao Brasil

JÚPITER E ALÉM: Stanley Kubrick em um dos cenários da obra-prima 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968)
O excesso de detalhismo do diretor Stanley Kubrick (1929-1999) em suas produções é tão célebre quanto suas obras-primas. Ele experimentava novidades técnicas com a mesma obsessão que se aprofundava nos temas que queria abordar. Ele fez a atriz Shelley Duvall repetir a mesma cena 127 vezes nas gravações de O Iluminado (1980), para que ela atingisse o nível de desespero que havia imaginado na atuação. Estudou combinações de lentes e câmeras para filmar cenas apenas à luz de velas em Barry Lyndon (1975).
São feitos míticos e ousadias de produção que, ao lado de filmes que sempre entram nas listas de melhores de todos os tempos, o transformaram em uma das personalidades mais complexas da história do cinema. Seu acervo póstumo é uma coleção infindável de caixas que, em 2004, foram transformadas na exposição definitiva sobre o trabalho do diretor. Chamada apenas de Stanley Kubrick, ela já passou por várias cidades europeias e chega ao Brasil a partir de 11 de outubro, ficando em cartaz até o dia 12 de janeiro do ano que vem no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo.
A exposição foi organizada pelo alemão Hans-Peter Reichmann com o aval da viúva de Kubrick, Christiane, que conversou com GALILEU por e-mail. “Tive receio no início, mas Hans-Peter Reichmann, do Instituto de Cinema de Frankfurt, me convenceu que a enorme quantidade de material de Stanley foi guardada para um propósito”, explica a ex-atriz, que Kubrick conheceu nas gravações de Glória Feita de Sangue.
“A maior dificuldade foi decidir o que ficaria de fora”, continua a senhora Kubrick. “Seria ótimo mostrar a técnica de projeção de frente que foi usada na sequência A Aurora do Homem, em 2001 — Uma Odisseia no Espaço, em escala original, desenvolvida pelo próprio Stanley, mas isto exigiria muito espaço e dinheiro.” Além dos materiais dos filmes — que incluem o boneco-bebê usado em 2001, a maquete da sala de guerra de Dr. Fantástico e o figurino de Laranja Mecânica, entre outras joias —, a exposição ainda trará parte da pesquisa de Kubrick para filmes que não realizou, como Arian Papers, Napoleon e Artificial Intelligence. O MIS também planeja exibir os clássicos de Kubrick enquanto a exposição estiver em cartaz.
Abaixo, algumas fotos da abertura da exposição e o microvídeo que fiz quando pude ver a mostra em Paris.

Uma viagem… E como não seria? Afinal Fernando Catatau, Régis Damasceno, Dustan Gallás, Clayton Martin e Rian Batista pareciam ser os candidatos óbvios à tão árdua tarefa – tocar todo o principal disco do Pink Floyd pós-Syd Barrett ao vivo. Este trabalho já havia começado a existir quando o Instituto homenageou Gilmour, Waters, Mason e Wright num show há três anos – contando com os cidadãos Régis Damasceno e Fernando Catatau nas guitarras. E é famoso o apreço da banda cearense pelo grupo inglês, por isso não foi difícil para os Radiolas Urbanas pensarem no show que aconteceu sexta passada no Sesc Santana dentro do projeto 73 Rotações, idealizado pelo site de Ramiro e Filipe.
Mas uma coisa é falar da inevitabilidade (ou obviedade) da escolha, outra coisa é vê-la funcionando. Quem esteve presente no palco do pequeno teatro foi transportado para a dimensão emocional abordada por Roger Waters ao cogitar um disco conceitual sobre o sentido da vida. Tempo e dinheiro, vida e morte, loucura e sanidade – os temas abordados por Dark Side of the Moon eram amplificados pela atuação da banda – além do peso da melodia, dos riffs, dos versos e vocais, havia o fato da maioria do público presente ter assistido a ascensão do Cidadão Instigado na última década, que de banda retirante liderada por um barbudo com jeito de maluco tornou-se um dos principais nomes do pop brasileiro do século 21. Não parecia apenas inevitável (ou óbvio) que o Cidadão pudesse tocar seu disco mais influente e central do Pink Floyd, parecia natural. Uma herança que cruzou o Atlântico e o Equador para renascer nova na zona norte da cidade de São Paulo, tocada por um grupo do Ceará. Uma interseção de valores improváveis que mostrava aos novatos ao disco do prisma (se é que havia alguém ali) as principais referências musicais e conceituais reverenciadas pelo Cidadão Instigado. E o grupo foi feliz tanto ao escolher a cantora Nayra Costa para segurar os vocais de apoio do disco (que fez arrepiar ao assumir a épica “The Great Gig in the Sky”) quanto ao dividir os vocais principais entre as diferentes vozes do grupo. Em vários momentos a importância emocional do Dark Side of the Moon se misturava àquela relativa ao Cidadão Instigado e era possível perceber a união entre público e banda em torno de um sentimento puro – aquele que nos leva a gostar de música.
Foi pura emoção. Um disco cerebral tornado passional ao vivo, que ainda contou com “Have a Cigar”, do disco seguinte, Wish You Were Here, no bis. Esperamos outras aparições deste espetáculo – ou pelo menos outras versões (adoraria ver o grupo tocando o The Wall, “Shine On You Crazy Diamond” ou o subestimado Animals, entre outros).
Fiz uns vídeos e eles estão logo abaixo. A foto que ilustra o post é de Vinícius Nunes e eu peguei no site do Radiola.