
Conversei com a Tulipa sobre seu terceiro disco, Dancê (que pode ser ouvido inteiro aqui), para uma matéria na Ilustrada de hoje.
Novo álbum de Tulipa Ruiz vai da disco dos 70 ao pop dos 80
João Donato e Lanny Gordin estão em Dancê, trabalho que a cantora lança hoje
Um disco dançante, com capa feita pelo lendário quadrinista americano Robert Crumb. Esses eram os horizontes que Tulipa Ruiz colocou para seu terceiro disco, “Dancê”, quando recebeu o sinal verde para começá-lo, no fim de 2014.
Enfiou-se no carro de Gustavo Ruiz, seu irmão, guitarrista, produtor e principal parceiro. Juntos, os dois desceram para a praia de Camburi, no litoral paulista. Foi o começo de um retiro musical que da praia foi para a cidade mineira de São Lourenço.
Passaram 15 dias enfurnados em pré-gravações no estúdio caseiro de Gustavo. Depois se encontraram com a banda num sítio perto de Campinas. Gravaram o disco no estúdio da Red Bull, no centro de São Paulo, onde a cantora recebeu a reportagem – “Dancê” será lançado nesta terça (5), em formatos físico e digital.
“Eu tinha duas certezas”, diz Tulipa. “Queria um disco dançante, mas no sentido que você quisesse celebrá-lo com o corpo, não necessariamente um disco de dance music. Sabe quando o impulso vem primeiro aqui antes de ir pra cá?”, aponta para o quadril e depois para a cabeça.
“E tinha entrado numa viagem de que a capa seria do Crumb”, gargalha, ao que o irmão sacode a cabeça, olhando pra baixo: “Pouco pretensiosa.” Ela própria ri da ingenuidade, lembrando da pergunta que fez à época: “‘Gente, e se a capa for do Crumb?”
“Cheguei falando que ele ia adorar, porque sou um desenho dele e não ia nem cobrar!” Ela conta que achou a assessora do pai da HQ underground. “E ela disse: ‘Linda, o Crumb não trabalha mais'”.
POP NA VEIA
Mas se a segunda certeza não se confirmou, a primeira é a espinha dorsal sinuosa de “Dancê”, que escorrega pela pista, puxando a transição da disco music dos anos 1970 rumo ao pop oitentista.
As referências vão do “Realce” de Gilberto Gil aos primeiros Marina Lima e Ney Matogrosso, passando por Rita Lee na fase Lincoln Olivetti, a banda Vitória Régia de Tim Maia, o “Lindo Lago do Amor” de Gonzaguinha, o “Cartaz” de Fagner e o Caetano new wave.
O disco é também o cavalo de Troia de um novo cânone musical brasileiro. À primeira audição, parece superfluamente pop, lembrando hits de mais de 30 anos atrás.
Mas “Tafetá” tem a ilustre presença de João Donato. “Expirou” convoca o “guitar hero” Lanny Gordin. O mestre da guitarrada Manoel Cordeiro e seu filho Felipe surgem em “Virou”. Contemporâneos como o trio Metá Metá (na densa “Algo Maior”) e o produtor Kassin (na fútil “Físico”, inspirada em Olivia Newton-John) ajudam a engrossar um Olimpo do nosso pop atual.
O novo disco também é análogo à própria carreira de Tulipa, que surgiu quase tímida com o singelo “Efêmera” (2010) e começou a botar suas garras de fora no intenso “Tudo Tanto” (2012), lançado dois anos depois. “Dancê” parece botar o ponto final na primeira etapa de sua carreira.
Dancê
Artista Tulipa Ruiz
Lançamento Ponmello/ Natura Musical
Quanto R$ 29,90
Na Web www.tuliparuiz.com.br
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Escrevi sobre o Dia de Guerra nas Estrelas pra edição online Ilustrada de hoje, saca só:
Em 2015, fãs têm motivos de sobra para comemorar o ‘Star Wars Day’
Fãs da saga “Guerra nas Estrelas”, criada por George Lucas nos anos 70, estão com motivos de sobra para comemorar 2015. Afinal, neste ano eles estão vendo a materialização de algo que nem os mais entusiasmados podiam cogitar no início deste século: o episódio 7 da saga chega aos cinemas do mundo todo em dezembro deste ano.
As comemorações devem se concentrar nesta segunda-feira: afinal, em 4 de maio já é oficialmente comemorado o Star Wars Day —que, como acontece há alguns anos, também é festejado no Brasil.
A escolha da data vem de um infame trocadilho em inglês, misturando a pronúncia de “4 de maio” (“May the fourth”) com a bênção que os guerreiros sagrados da série de filmes dão uns aos outros, “que a Força esteja com você” (“may the Force be with you”).
As origens da brincadeira linguística remetem à chegada de Margareth Thatcher ao poder em 1979. O partido conservador inglês saudou a Dama de Ferro com um anúncio no jornal “London Evening News” no dia de sua posse como primeira ministra inglesa, em 4 de maio. Eles publicaram uma saudação que fazia alusão ao filme de maior sucesso no final daquela década: “May the fourth be with you, Maggie”.
DISNEY + LUCASFILM
Apesar do trocadilho existir há tempos, só a partir desta década que o 4 de maio começou a ser comemorado efetivamente. A princípio, em um encontro realizado no Canadá em 2011, que tinha exibição dos filmes, concurso de cosplay, jogos de adivinhação e premiações para as melhores paródias e homenagens feitas na internet.
O evento foi um sucesso e passou a se repetir ano a ano. A data ganhou Força —com o perdão do trocadilho— após a Disney ter comprado a Lucasfilm, produtora da saga, em 2012. Assim, a partir de 4 de maio de 2013 o Dia de Guerra nas Estrelas deixou de ser uma comemoração feita somente por fãs para ganhar chancela oficial da indústria do entretenimento.
A incorporação da Lucasfilm à Disney também impulsionou esta nova fase da franquia ao ressuscitar algo que era encarado pelos fãs como lenda urbana: a última trilogia da saga original.
O sucesso do primeiro “Guerra nas Estrelas”, em 1977, redesenhou a indústria do cinema como a conhecíamos. A saga inaugurou novos parâmetros no mercado: uma data única para o lançamento nacional de um filme, o foco no entretenimento e no público infanto-juvenil, a importância dos efeitos especiais na tela grande e o início da popularização em massa da ficção científica (mesmo que, na prática, “Guerra nas Estrelas” não tenha nada de sci-fi).
George Lucas não tinha como prever isso, embora apostasse todas suas fichas nesse sucesso. Quando o primeiro “Guerra nas Estrelas” tornou-se o grande campeão de bilheterias da temporada, o diretor e produtor sacou uma carta de sua manga: não era apenas um filme, eram três trilogias e o filme de 1977 era o quarto volume de uma saga enorme.
Só quando “Guerra nas Estrelas” reestreou no cinema para começar a divulgação do segundo filme, o grande “O Império Contra-Ataca” (1980), que Lucas adicionou o número do episódio (4) e um novo subtítulo (“Uma Nova Esperança”) ao primeiro filme. O sexto volume e terceiro filme (“O Retorno de Jedi”) veio em 1983, e assim Lucas encerrou a trilogia clássica, fazendo os fãs especularem sobre que histórias seriam contadas nos episódios 1, 2, 3, 7, 8 e 9.
Os três primeiros capítulos ganharam vida na virada do milênio: “A Ameaça Fantasma” (1999), “O Ataque dos Clones” (2002) e “A Vingança do Sith” (2005) contavam como o jovem Anakin Skywalker se transformaria no vilão Darth Vader. Os fãs, porém, ficaram frustrados com filmes enfadonhos e infantilizados, ao mesmo tempo superproduzidos e politicamente corretos.
As produções faturaram muito dinheiro e renovaram a franquia para uma nova geração. Mas, logo após a segunda trilogia, George Lucas começou a dar entrevistas anunciando que não iria fazer os três últimos filmes que havia prometido. Repetia que a história era composta apenas por seis longas e choramingava dizendo não ter vontade de se envolver com a série por ter sido avacalhado pelos velhos fãs devido às decisões que tomou nos três filmes mais recentes, como a inclusão de Jar-Jar Binks.
DESPERTAR DA FORÇA
Até que a Disney comprou a Lucasfilm e começou a rever esta história —o resultado é este 2015 agitadíssimo. O anúncio dos três novos filmes veio quase que simultaneamente à compra da empresa de George Lucas pela gigante de Walt Disney por US$ 4 bilhões, em 2012.
O sétimo episódio da saga, “O Despertar da Força”, foi agendado para dezembro de 2015, sob a direção do criador da série “Lost”, J.J. Abrams, o responsável por reapresentar a saga “Star Trek” para uma nova geração com os dois últimos filmes da franquia, em 2009 e 2013.
O elenco do novo filme foi apresentado no fim de abril de 2014, e une os novatos John Boyega, Daisy Ridley, Adam Driver, Oscar Isaac, Andy Serkis e Lupita Nyong’o aos veteranos Harrison Ford, Carrie Fisher, Mark Hamill, Anthony Daniels, Peter Mayhew e Kenny Baker. Estes últimos vivem os clássicos personagens da trilogia original (Han Solo, Princesa Leia, Luke Skywalker, C3PO, Chewbacca e R2D2, respectivamente).
O aquecimento para o 2015 de “Guerra nas Estrelas” começou ainda em dezembro do ano passado, quando foi divulgado um trailer de 90 segundos que instigou os fãs com novos cenários, novos personagens, um sabre de luz em forma de cruz e um voo rasante da Falcão Milenar de Han Solo.
Outro trailer, este com dois minutos, foi lançado em 16 de abril, provocando choro em muito marmanjo ao reapresentar Han Solo e Chewbacca em sua última cena.
O novo trailer foi o início do fim de semana Star Wars Celebration, uma espécie de Comic Con temática de “Guerra nas Estrelas” em Anaheim, Califórnia. Uma série de novidades sobre o próximo filme foi apresentada, mas sem entregar muito sobre a história. A celebração terminou com um novo anúncio: a série de filmes “Star Wars Anthology”, que contará histórias da saga paralelas às três trilogias.
O primeiro filme, “Rogue One”, conta como os Rebeldes conseguiram os planos para destruir a Estrela da Morte no filme de 1977 —não deve ter nada de Jedis ou sobre a Força, já que nesta época os Jedis eram tidos como extintos. O filme foi anunciado para 2016 e é uma prova de que a nova encarnação de “Star Wars” quer alcançar as mesmas proporções épicas do Marvel Cinematic Universe, a cronologia única que une todos os filmes do estúdio Marvel, desde o primeiro Homem de Ferro (de 2008) até as produções agendadas para 2019.
Pouco se sabe sobre “Episódio 7 – O Despertar da Força”, mas há várias pistas indicadas no trailer. Talvez a personagem de Daisy Ridley (Rey) seja da nova geração Skywalker, e possa se envolver com Finn (John Boyega), um provável stormtrooper fugitivo. Outra: o Império dos filmes anteriores não sucumbiu, e o sabre que Luke Skywalker segurava quando teve sua mão decepada por Darth Vader reapareceu misteriosamente.
Na única cena que apareceram no segundo teaser, Han Solo e Chewbacca estavam apontando armas para alguém. Uma nova versão do robô R2D2, batizada de BB8 (e que gira sobre uma esfera, em vez de arrastar-se com rodas), foi apresentada, mas não vimos ainda o que aconteceu com o androide C3PO.
4 DE MAIO
O 4 de maio, portanto, aumenta as expectativas em relação a mais revelações sobre o próximo episódio da saga. O dia já começou com o anúncio que o oitavo longa da série será filmado na Inglaterra e dirigido pelo norte-americano Rian Johnson (que assinou três dos melhores episódios de “Breaking Bad” e o filme “Looper: Assassinos do Futuro”, de 2012). O longa estreia apenas em 2017.
Aproveitando as comemorações, a revista “Vanity Fair” estampou a nova dupla de protagonistas Rey e Finn ao lado dos velhos conhecidos Han Solo e Chewbacca, além do simpático robozinho BB8, na capa de sua edição de junho, fotografados por Annie Leibovitz, uma das maiores retratistas de sua geração.
A publicação promete ainda extras com o elenco de “Star Wars 7” em seu site. O primeiro deles, um vídeo dos bastidores do ensaio com Leibovitz, foi divulgado no domingo.
E não são apenas novidades oficiais: na Austrália, um grupo de fãs construiu uma réplica gigante da nave Falcão Milênio usando blocos de Lego. No Brasil, há ao menos dois grandes encontros de fãs da saga programados para o 4 de maio: em São Paulo, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, às 19h30, e no Rio de Janeiro (Livraria Cultura Cine Vitória, no centro, às 19h30). Nos dois eventos, haverá bate-papos sobre o novo filme com presença de especialistas. No shopping Villa-Lobos há uma exposição de capacetes dos soldados do Império (os stormtroopers) customizados por artistas brasileiros.
A data de lançamento do primeiro “Guerra nas Estrelas”, em 25 de maio, também é comemorada anualmente, mas devido ao fato de coincidir com o “dia da toalha” (instituído duas semanas após a morte do escritor inglês Douglas Adams, o criador da série de livros “O Mochileiro das Galáxias”) e com o “glorioso 25 de maio” (da série “Discworld”, do autor inglês Terry Pratchett, morto em março ), a data é comumente referida como “o dia do orgulho nerd”. Mas isso é outra história.
STAR WARS DAY NO BRASIL
Em São Paulo
Quando: seg. (4), às 19h30
Onde: Livraria Cultura do Conjunto Nacional, av. Paulista, 2.073, Cerqueira César, tel. (11) 3170-4033
Quanto: grátis
No Rio
Quando: seg. (4), às 19h30
Onde: Livraria Cultura – Cine Vitória, r. Senador Dantas, 45, centro, tel. (21) 3916-2600
Quanto: grátis
Eis que o primeiro subproduto do documentário Montage of Heck acaba de ser anunciado: um disco composto apenas por gravações caseiras de Kurt Cobain. Falei sobre isso no meu blog do UOL http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/05/03/gravacoes-caseiras-de-kurt-cobain-serao-lancadas-em-disco-postumo/

Uma das maiores cantoras do século passado não tem o reconhecimento merecido por ser considerada “difícil” e por se envolver com causas sociais e políticas. Mas um documentário produzido pelo Netflix pode mudar este cenário. Escrevi sobre isso no meu blog do UOL: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/05/01/nina-simone-e-a-a-profundidade-de-uma-das-maiores-cantoras-do-seculo-20/

Montage of Heck, que parece ser o documentário definitivo sobre Kurt Cobain, já tem data e locais de exibição nas salas de cinema do Brasil. Falei sobre isso lá no meu blog do UOL – além de incluir duas cenas do documentário em que o líder do Nirvana mostra que não era só um junkie depressivo avesso ao sucesso: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/04/29/documentario-mostra-kurt-cobain-engracadinho-e-sera-exibido-no-brasil/

Escrevi sobre o novo Vingadores e como a importância do filme está em encerrar a fórmula da fase 2 da Marvel ao mesmo tempo em que lança as sementes para a fase 3: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/04/28/o-novo-vingadores-da-varias-deixas-para-a-fase-3-da-marvel-no-cinema/

A Disney apresentou sua grade de lançamentos para os próximos dois anos em uma convenção em Las Vegas e ela é dona de tudo que a gente vai ver no cinema daqui em diante – comentei isso lá no meu blog no UOL http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/04/24/a-disney-e-dona-de-tudo-que-voce-vai-ver-no-cinema-nos-proximos-anos/

A minha coluna na revista Caros Amigos do mês passado foi sobre a renascença do vinil na era digital e o Clube do Vinil que a revista Noize inventou.
O clube do vinil
Sucateado no Brasil graças a uma conjunção de fatores econômicos e tecnológicos, o velho LP vive uma nova renascença e uma revista gaúcha lançou até um clube do disco
Das transformações que o meio digital provocou no mercado fonográfico sem dúvida a mais lamentável foi o sucateamento do vinil. Isso aconteceu com força aqui no Brasil e mesmo antes da popularização da banda larga – que permitiu a troca desenfreada e gratuita de arquivos digitais – na virada do milênio. Os velhos LPs pararam de ser fabricados no país porque o truque chamado CD chegou ao Brasil em um momento específico que fez a nova mídia tornar-se uma mina de ouro para as gravadoras multinacionais instaladas aqui.
O CD foi inventado nos anos 80 com a promessa de ser uma revolução audiófila. O som digital, dizia-se à época, era superior ao analógico em vinil. O disco prateado trazia outras vantagens: armazenava uma duração maior de músicas e barateava uma série de etapas do negócio, embora ninguém alardeasse isso. Menor, mais leve e mais barato de ser fabricado que o vinil, o CD permitia que custos logísticos (como transporte e armazenagem) caíssem bastante. Mas a desculpa “audiófila” foi suficiente para encarecer o preço do produto final, que, no Brasil, chegou a custar 150% – em média – a mais do que o preço do LP no início dos anos 90.
A novidade obrigou fãs – lentamente transformados em ouvintes e, depois, consumidores – a comprar novamente discografias inteiras em detrimento de uma subjetiva melhoria de qualidade. E com a substituição, a tragédia: coleções inteiras de vinis foram desfeitas em nome do avanço tecnológico sobre a fruição musical.
Historicamente fazia sentido: os discos de acetato foram substituídos pelos de vinil, que criou a era do álbum e trouxe o LP para o topo da cadeia do mercado, superpondo-se aos compactos. Depois veio a fita cassete que adicionou a portabilidade ao negócio – era possível escolher que música ouvir tanto em aparelhos de som portáteis e no carro (antes só dava para ouvir rádio). O Walkman (inventado pela Sony no iníco dos anos 1980) e as boomboxes (aparelhos de som portáteis com entrada para dois cassetes) mudaram hábitos e locais de audição de música. Era natural que outras tecnologias viessem mudar a nossa relação com a música. Aí veio o CD.
No Brasil, a popularização do CD aconteceu num momento específico: o auge do Plano Real inventado no governo Itamar Franco. A mudança econômica abriu uma onda desenfreada de consumo em que o CD player tornou-se um dos itens mais procurados por novos consumidores. Grandes gravadoras multinacionais, de olho em um público que em outras épocas nunca havia comprado disco, nem pestanejaram e colocaram todo o foco de seu negócio em artistas de rápido consumo, vendidos apenas em CD.
Foi a otimização de um processo iniciado nos anos 80, com o rock brasileiro e continuado com a lambada, quando testou-se mudanças de cenário a partir da massificação de novos artistas em torno de um novo gênero. O mesmo processo foi azeitado no início dos anos 90 com a triade sertanejo-axé-pagode veio que consolidou esse modus operandi, que fazia gravadoras mirar em artistas que vendiam muito rápido e traziam outros tantos artistas menores no vácuo. Eram discos que tinham uma ou duas músicas massificadas através do rádio como se fossem jingles (e eram, se você pensar que uma música, naquela época, era vista como um comercial para a venda de um produto, o disco), que vendiam CDs a rodo e sem a menor preocupação da criação de catálogo. Os executivos das gravadoras nos anos 90 só queriam saber de números e a qualidade musical da produção fonográfica da época cai ao mesmo tempo em que recordes de vendas de discos eram quebrados a cada ano.
Um dos efeitos colaterais disso foi o sucateamento das fábricas de vinil, que durante os anos 90 começaram a minguar e a ficar com os mercados de nicho que ainda lidavam com LPs, como o de música religiosa. O tocadiscos desapareceu dos lares brasileiros e junto com eles coleções inteiras foram parar em sebos de discos, muitas vezes vendidos a preço de banana quando não jogados fora.
Enquanto isso os vinis seguiam sendo vendido no exterior, embora numa proporção cada vez menor e, ironicamente, sendo comprados por um público cada vez mais interessado na qualidade sonora do LP, a mesma que, em tese, seria melhor no CD.
O LP começou o século 21 no Brasil literalmente no lixo. Coube primeiro a uma geração de novos fãs de música e velhos DJs a tarefa de manter o disco girando. A renascença do vinil começou a acontecer no exterior na metade da década passada, na medida em que a música digital ultrapassou o CD como formato. Velhos fãs sentiam a falta do elemento táctil no disco, novos fãs se encantavam com capas enormes e com o ritual de parar para ouvir música. A onda motivou a reabertura da última fábrica de vinis a fechar no Brasil, a Polysom, que começou a oferecer seus serviços para gravadoras que queriam reeditar clássicos e novos artistas que se ouvir em vinil.
Uma novidade específica pode alavancar ainda mais este cenário por aqui. A revista gaúcha Noize, que completa oito anos neste mês de março, deu uma guinada em sua linha editorial e criou um modelo de compra de discos chamado Noize Record Club. É isso mesmo: um clube do disco em que o assinante paga para receber discos de bandas brasileiras – em vinil – em casa.
“Há dois anos, já fazemos cada edição com um tema específico”, explica Rafael Rocha, um dos sócios da revista. “Com o clube, transferimos esses temas para o tema do disco do mês, que rege as matérias no editorial. Batemos muito em cima da reformulação da experiência de se escutar música. Com uma publicação inteira feita em cima do tema do disco, acreditamos que além de fazer o público parar para escutar música,estamos entregando uma nova forma de encarar o disco.”
O Clube foi lançado no fim do ano passado e já trouxe discos do grupo Apanhador Só e da Banda do Mar, de Marcelo Camelo e Mallu Magalhães. O processo de curadoria é interno e leva em conta “a exclusividade em cima dos títulos que serão lançados”, continua Rafael. Para saber mais informações, basta entrar no site do clube: http://www.noize.com.br/recordclub/

Falei sobre a renovação das séries Três é Demais e Demolidor no Netflix, que se tornou mais valioso do que a ABC e a Viacom neste início de 2015, em meu blog no UOL http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/04/22/netflix-ja-vale-mais-do-que-as-maiores-emissoras-de-tv-aberta-e-fechada-dos-eua/

Duas especulações que haviam sido cogitadas aqui neste blog foram confirmadas esta semana: além da confirmação da nova temporada do seriado Três é Demais, também foi anunciada a segunda temporada da série Demolidor. Os endossos têm a mesma fonte: o serviço de vídeo sob demanda Netflix, que irá produzir e exibir as duas novas temporadas, e chegam ao mesmo tempo em que a marca exibe seus músculos financeiros.
As ações do serviço dispararam no recém-fechado quadrimestre e a marca conseguiu crescer 14,7% nos últimos meses, segundo um relatório divulgado pelo site Deadline. Assim, o preço de mercado do Netflix sobe para US$ 32,9 bilhões, tornando o serviço mais valioso que o canal aberto mais caro dos Estados Unidos (a CBS, que avaliada em US$ 30,6 bilhões) e que a principal produtora de TV por assinatura do país (a Viacom, dona da MTV e do Nickelodeon, avaliada em US$ 28,8 bilhões).
O valor de mercado atingido pelo Netflix, óbvio, não diz respeito apenas às suas produções, que incluem hits como House of Cards e Orange is the New Black e as continuações de seriados que foram cancelados na TV a cabo, como The Killing e Arrested Development. O serviço cresce por oferecer um formato de consumo de conteúdo mais próprio da era digital do que o que é oferecido pelas TVs aberta e por assinatura.
As pessoas lentamente percebem que não precisam estar na frente da televisão num horário pré-estabelecido para assistir ao que querem. O formato sob demanda – que o espectador diz quando quer assistir o quê – ainda tem uma série de problemas para serem resolvidos (quem nunca perdeu vários minutos procurando o que assistir?), mas é irreversível. A TV tradicional só vai ter o monopólio da atenção em eventos ao vivo, sejam esportes ou notícias. E por enquanto.
A esperteza do Netflix, no entanto, está no fato de surfar essa boa onda financeira produzindo conteúdo. Podiam investir no serviço em si, em melhorias na interface, na navegação, em curadorias de filmes e em qualidade de transmissão. Preferem fidelizar seu público aproveitando os dados de audiência que conseguem levantar com mais precisão do que qualquer canal (afinal o espectador só assiste o que quer) e produzem seriados de acordo com o gosto que detectam a partir dos números de suas próprias exibições.
É um comportamento bem diferente de serviços similares em outras mídias. Ainda não ouvimos falar do Spotify bancando discos de artistas, por exemplo, embora a própria Amazon já tenha detectado essa tendência e começado ela mesma a produzir seus próprios seriados. E a colher frutos disso, como foi o caso da série Transparent, que ganhou dois Globos de Ouro (melhor série de comédia e melhor ator de série de comédia) no início deste ano.
E isso é só o começo de uma mudança ainda mais drástica que seguiremos acompanhando nos próximos anos…

Escrevi sobre uma estranha coincidência – proposital – entre os filmes da segunda fase da Marvel e Guerra nas Estrelas lá no meu blog do UOL: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/04/23/alguem-percebeu-a-referencia-a-guerra-nas-estrelas-na-fase-2-da-marvel/
