A Fran me tagueou num post da Manô Miklos, que está divulgando a hashtag #AgoraÉQueSãoElas para pedir mais espaço para as mulheres em nossa sociedade, e eu entrei em contato com a própria para que ela explicasse, aqui no Trabalho Sujo, a essência desta campanha. Com a desculpa de desestabilizar o governo, uma corja de vilões, liderada pela escória da politica brasileira Eduardo Cunha, vem colocando em pauta uma série de desmandos absurdos em relação a diferentes questões da nossa realidade, mas o abuso contra os direitos das mulheres (em pleno 2015!) é dos golpes mais baixos da série de palhaçadas que essa escumalha vem propondo contra o país.
E isso pode ser o começo de sua derrocada – e o início de um levante popular que pode ganhar proporções ainda maiores caso tenha o apoio irrestrito e constante de quem está do lado delas. Esse é o primeiro post durante esta semana para discutir o retrocesso brasileiro frente à questão feminina, que foi iniciado por uma cambada de imbecis no congresso, mas está encalacrado em diferentes instâncias de nossa sociedade.
Esse texto é o primeiro da semana. Outros virão. Com a palavra, Manô:
Alô comunidade do Trabalho Sujo, alô todxs.
Esse é um momento importante: mulheres estão perdendo direitos adquiridos com muita dificuldade. É cruel. Mulheres vêm relatando o que é ser mulher no Brasil hoje. E ser mulher no Brasil é perigoso.
Contra essa crueldade e pra denunciar esse perigo, nós mulheres tomamos as ruas. E as redes.
Muitos homens que têm acesso a meios de comunicação e espaços de fala garantidos – verdadeiramente emocionados diante desse momento e solidários nesse movimento de empoderamento – têm vontade de escrever sobre o tema.
Do reconhecimento essa vontade em muitos homens, nasceu a provocação: e se esses homens, ao invés de publicar textos sobre a importância de escutar, de fato reconhecessem a importância de escutar e cedessem, nessa semana, seus espaços para mulheres falarem? Algo como: hoje, como o importante é ouvir, eu e você leitor ouviremos. Leremos. Com vocês, uma mulher.
Dessa provocação surgiu, com a ajuda de muitxs e bons, a iniciativa : uma semana de mulheres ocupando os espaços masculinos de fala. Homens convidam mulheres para escrever no seu lugar e se colocam nesse lugar do ouvinte. Dando voz e vez a uma mulher. Reconhecendo a urgência da luta feminista por igualdade de gênero e o protagonismo feminino nesta luta.
Pensemos juntxs em como adaptar isso para os muitos veículos: jornais, blogs, canais de Youtube, perfis, TV. Temos uma infinidade de meios para multiplicar informação. Todos eles podem ser, nessa semana, ocupados por mulheres.
Muitos homens toparam e já cederam seu espaço nessa semana que começa para uma mulher, para as mulheres. Gregorio Duvivier, Marcelo Freixo, Jean Wyllys, Leo Sakamoto, Bruno Torturra, Ronaldo Lemos, Marcelo Paiva, João Paulo Cuenca, José Eduardo Agualusa, Marcus Faustini, Fred Coelho, Antonio Prata, Renan Quinalha, Jorge Bastos Moreno, Alexandre Porto Vidal, Douglas Belchior e muitos, muitos outros. Meios como o Quebrando o Tabu toparam pensar em como se tornar, nessa semana, um espaço em que as mulheres sejam protagonistas. E o Matias, no Trabalho Sujo, também.
Queremos muitos mais com a gente. Queremos todxs juntos nessa onda. Pra que ela seja um tsunami.
As coordenadas pra você homem, são: a iniciativa #AgoraÉQueSãoElas começa segunda e dura uma semana. Você escolhe uma mulher e cede a ela o seu espaço de fala. Pode fazer uma breve introdução explicando o gesto de ouvir ao invés de falar, se for necessário. Use o hashtag.
Importantíssimo: ao convidar uma mulher para ocupar seu espaço de fala, pense na diversidade. Mulheres negras, de comunidades vulneráveis, mulheres trans, LGBTs – mulheres que têm ainda mais dificuldade de acesso aos meios de comunicação e muito, muito o que dizer. Vamos ouvir as mulheres. Todas. Compartilhem seu espaço de fala de modo democrático. Para que a gente possa escutar as vozes daquelas mulheres que o machismo, o racismo e a exclusão calam com mais frequência. Com mais violência.
Você escreve? Convide uma mulher pra escrever em seu lugar? Você têm seu perfil em redes sociais? Não escreva nada essa semana. Apenas compartilhe palavras femininas. Essa semana, #AgoraÉQueSãoElas.
É pela vida das mulheres.
Com doçura,
Manô Miklos
Rio de Janeiro
Domingo, 1 de Novembro de 2015
A foto que ilustra o post é da Lina Marinelli, dos Jornalistas Livres.
Fui à minha terra natal no fim de agosto e pude ver mais um ótimo show da Céu, que me inspirou a escrever minha coluna do mês passado na revista Caros Amigos. Filmei parte do show também:
Céu em Brasília
O show da cantora na minha cidade natal abriu diversas intersecções entre o estado do Brasil e da música brasileira hoje
Visitei Brasília, minha cidade natal, no final do mês de agosto, e, mais de duas décadas distante, já me acostumei com os pequenos sustos que a transformação da cidade me causa. Era inevitável a ocupação dos intermináveis terrenos baldios por onde caminhava ou andava de bicicleta, sempre em bando, na adolescência. Mas no lugar do hoje quase extinto ecossistema do cerrado surgem prédios que parecem astronaves cubistas de concreto, arremedos caricatos da arquitetura simples e megalomaníaca de Niemeyer. Os pontos cardeais que serviam para separar as asas do Plano Piloto entre Norte e Sul e nomear as avenidas – que nem mesmo este nome tem – W3 e L2 hoje abrem-se em setores Sudoeste, Noroeste e afins ocupando o horizonte do belo mapa de avião idealizado por Lucio Costa, fazendo-o refém de um entorno de prédios que podem, aos poucos, engolir o horizonte 360 graus da cidade. O gigantismo de Águas Claras com suas dezenas prédios de 30 andares de uma cidade-satélite que simplesmente não existia no século passado numa capital famosa por só poder ter prédios de no máximo seis andares.
Há uma estranha leveza em Brasília que vem do simples fato de ela não ser uma cidade natural. Este ponto do planalto central nunca foi entreposto comercial, missão religiosa, abrigo contra intempéries – e sim uma estratégia para evitar levantes populares contra o governo de um país ainda rural e de levar a urbanização e industrialização para além das capitais em seu extenso litoral. Sua localização foi determinada num sonho de um padre católico que virou santo quando Mussolini comandava a Itália e a cidade foi erguida por um presidente mineiro que se via como uma reencarnação do faraó Akhenaton. Não é, de forma alguma, uma cidade normal.
E por ter sido imaginada e desenhada antes mesmo de existir, Brasília, como qualquer condomínio fechado, foi pensada para ser um lugar aprazível, bucólico, para se viver com qualidade de vida antes do termo virar prateleira de consumo. Mas ela não é um condomínio fechado, suas superquadras não têm grades nem muros, transita-se livremente por quase toda a cidade. Essa faceta foi se tornando mais plástica e artificial à medida em que atravessamos os anos 90 e os anos 00, quando a ostentação e o consumo passaram a ditar regras e determinar status. Mas, justamente por não ter muros, há uma vida que sobrevive longe da programação oficial e do funcionalismo público, especialmente a vida social e cultural da cidade.
Enquanto parte dos clubes à beira do Lago Paranoá (que, como a cidade, também não existia antes de 1960), das festas nas embaixadas e os restaurantes são habitados por políticos e empresários de todo o país e pelo colunismo social da cidade, há uma movimentação artística que passa longe dos clichês que definem a cidade como mera “ilha da fantasia”. Repito aqui um conselho que falo para todos que dizem querer conhecer a cidade: conheça algum amigo que seja residente para lhe dar as coordenadas do que fazer. Chegar em Brasília só com informações turísticas e guias de viagem vão lhe apresentar a uma cidade linda com um céu espetacular, mas aparentemente vazia e estéril.
E nem estou falando de circular pelo submundo estético ou urbano da cidade. Brasília sempre teve festas e bandas, festivais e shows, programas de rádio e sites, peças e saraus. Do Clube do Choro ao Cult 22, do blog Quadrado Brasília à PicniK, do Quinto à Balada em Tempos de Crise, do FestClown à Play, do falecido Gate’s Pub à Criolina, do Porão do Rock à Moranga – diferentes épocas tiveram diferentes ímãs de atração que reuniam todo mundo que não se encaixava no estereótipo do playboy funcionário público que parece ser a população média da cidade para quem não conhece ninguém em Brasília.
Pois cheguei na terrinha em plenas comemorações dos 20 anos do festival de teatro Cena Contemporânea, que também conta com uma faixa de shows gratuitos. Meu irmão me levou para a Esplanada dos Ministérios e a alguns metros da Catedral, ao lado do Museu da República (também conhecido pelo apelido de Estrela da Morte, pois seu formato circular lembra a terrível arma de Guerra nas Estrelas), estava acontecendo um show da Céu.
Quando me refiro à música brasileira do século 21 não estou falando em um movimento consciente ou a uma safra específica de músicos, intérpretes, compositores e instrumentistas que apareceu ao mesmo tempo. Me refiro a uma mudança de mentalidade que expande os horizontes da mutante música brasileira para além da caixinha restrita que a trancaram quando criaram o rótulo de MPB. E o marco zero desta mudança, na minha opinião, é Céu.
Uma cantora que não é apenas intérprete, mas também compõe, e que não veio da matriz básica da MPB atual, que é a bossa nova. Ela passa longe do clichê da cantora de barzinho ao requebrar sua musicalidade suavemente entre o samba, o dub, a soul music, a música africana e o reggae.
Seu trânsito por diferentes gêneros também acontece ao compor com diferentes parceiros – Lucas Santtana, Beto Villares, Siba, Gui Amabis, Thalma de Freitas, Fernando Catatau, Jorge Du Peixe, Anelis Assumpção são alguns dos nomes que já compuseram com ela – e ao selecionar as versões para seu repertório, que vão de Erasmo Carlos a Jimi Hendrix. No show que aconteceu num domingo à noite, ela passeou pela versão que Caetano Veloso fez no disco Transa para o samba de Monsueto “Mora na Filosofia”, o molejo original de “Visgo da Jaca” imortalizada por Martinho da Vila, no gingado da irresistível “Piel Canela” do Trio Los Panchos e na deliciosa visita a Pepeu Gomes em “Mil e Uma Noites de Amor”.
Com nova banda – formada por Vítor Gottardi na guitarra, o fiel escudeiro Lucas Martins no baixo e o mago do ritmo Pupilo, da Nação Zumbi -, Céu também mexeu bem com músicas já conhecidas. “Comadi” perdeu completamente seu sotaque reggae para ganhar um baixo pontiagudo de levada funk setentista. “Cangote” faz uma conexão caribenha com Belém e requebra na batida do carimbo. E pouco antes de cantar uma música do baterista Tony Allen, a usina de ritmo do nigeriano Fela Kuti (“Don’t take my kindness for weakness” – não ache que minha bondade é fraqueza), ela entregou-se à imortal “Concrete Jungle” de Bob Marley e entre versos que falavam de ilusão, corrupção e poluição, ela desabafou com o público.
“Vamos aproveitar que o Brasil está passando por uma limpeza e vamos pensar muito bem nos nossos atos, nossos votos e desconfiar de certas mídias e de coisas que aparecem, vamos analisar”, disse sem sair do ritmo. “Eu vejo isso como uma coisa muito positiva. A gente vai conseguir. Eu realmente acho difícil o que a gente tá passando agora, mas vamos pra frente, porque não tem nada igual ao Brasil, tamo junto”.
E vendo aquela pequena multidão em transe ao som dos doces vocais da paulistana, sob uma enorme Lua crescente e ao lado de imagens projetadas na parede abobadada do Museu, só conseguia pensar em uma onda de esperança que caminha sob as más notícias que pode finalmente mudar a cara de um país sempre em desenvolvimento. Não há nada igual ao Brasil – e estamos todos juntos nessa.
Traduzi um livro sobre De Volta para o Futuro para a Darkside Books e separei 10 curiosidades que aprendi no processo lá pro meu blog no UOL, além de cogitar uma teoria bem deprê sobre o primeiro filme, que muitos deixam passar…
A morte do showman Luiz Carlos Miele vem nos lembrar de uma arte cada vez mais esquecida: a de espalhar boas vibrações aonde quer que você vá. Falei disso no réquiem que escrevi pra ele no meu blog no UOL.
Escrevi sobre o industrial magnata Elon Musk para o site da editora Intrínseca, que está lançando sua biografia,
Um futuro longe do online
Elon Musk quer colonizar Marte, popularizar os carros elétricos e a energia solar — independentemente do que aconteça com a internet
“As melhores mentes da minha geração estão pensando em como fazer as pessoas clicarem em anúncios.” A frase, dita por um dos primeiros programadores do Facebook, sintetiza o sentimento de frustração com o futuro trazido pelo Vale do Silício: em vez de viagens interplanetárias, teletransporte ou energia sustentável, o futuro que o século XXI nos apresentou foi o de pessoas grudadas em monitores de todos os tamanhos, inflando seus próprios egos em redes sociais.
A promessa de futuro vendida pelo Vale do Silício misturou-se com o mundo de fama e sucesso de Hollywood, e, em pouco tempo, CEOs atingiram status de popstar. Steve Jobs talvez seja o melhor exemplo desse domínio do mundo dos negócios como uma variação do show business. Mas não se engane, filmes sobre Bill Gates e Mark Zuckerberg já foram produzidos e currículos de executivos bem-sucedidos continuarão sendo vendidos como biografias de pessoas incríveis nos próximos anos.
De lá para cá, a internet mudou. Deixou de ser o reino aberto de trocas de links para se tornar um ambiente de feudos de marcas, clusters de usuários obstinados em reter todos os dados pessoais de seus clientes para vendê-los a outras marcas em forma de publicidade personalizada. Google, Facebook, Microsoft, Apple, Amazon e uma meia dúzia de empresas querem mantê-lo sob seu único guarda-chuva, silos de entretenimento que combinam redes sociais, aplicativos para celulares e tablets, games, serviços de streaming, sites de compras e de armazenamento digital. Todo mundo permanece cada vez mais grudado a uma matrix de distrações, e aquele futuro Jetsons que antevíamos em meados do século passado parece sumir enquanto migramos de uma tela para outra, de uma marca para outra.
Mas para o sul-africano Elon Musk um futuro de viagens interplanetárias e energia sustentável ainda permanece no horizonte. Alheio aos deslumbres do digital, ele preferiu investir seu dinheiro em desafios verdadeiramente transformadores. Ele pertence ao grupo de programadores e engenheiros que ficou conhecido mais tarde como “a Máfia do PayPal” por ter surgido em meio à criação do serviço de transferências financeiras — um grupo de empreendedores que criaram uma espécie de lado B do Vale do Silício mais pop, desenvolvendo aplicativos e redes sociais que orbitam de forma pacífica ao redor das principais, como LinkedIn, Yelp, Reddit e fundos de investimento.
Musk, no entanto, radicalizou. Preferiu investir em outras formas de conexões humanas ao entender que a internet havia se convertido em uma nova corrida do ouro, fazendo todos apostarem alto no ciberespaço como único futuro viável. Após ficar bilionário com a venda do PayPal, dedicou-se às próprias empresas para atingir suas metas futuristas, que incluem a exploração do espaço, viagens interplanetárias, terraformação de Marte, carros elétricos, transportes suspensos, energia solar… E tem dado certo.
Com sua SpaceX, Musk já realizou viagens tripuladas para fora da órbita da Terra e estuda como criar uma biosfera artificial em Marte que suporte a colonização do Planeta Vermelho — empreitada que ele pretende iniciar ainda em vida. Com a Tesla Motors está mostrando que o carro elétrico não apenas é viável como também pode ser criada uma malha de recarga gratuita para seus carros em três continentes. Sua SolarCity já é a segunda maior empresa em vendas de painéis solares nos Estados Unidos. E sua Hyperloop, que cogita o transporte suspenso entre cidades por tubos de ar comprimido, já começa a fazer testes com um tubo que liga Los Angeles a São Francisco.
A internet atual vive uma transição drástica que equilibra uma geração que viu a chegada da rede como tábua de salvação de um futuro em colapso (a popularização em massa da internet e o surgimento das redes sociais aconteceram logo após o atentado do 11 de Setembro de 2001) com outra que já nasceu on-line e não percebe a rede como novidade. Ambas se encontrarão quando a esperança reluzente do mundo digital se provar apenas uma forma de manipulação e vigilância das pessoas, quando o futuro brilhante da internet se reduzir apenas a uma rede de monitoramento de dados, seja para uso comercial ou governamental. Quando isso acontecer, Elon Musk estará nos esperando com seu futuro megalomaníaco já em andamento.
O ótimo Frou Frou, terceiro disco da banda, junta-se à excelente safra de discos brasileiros desta primavera de 2015 (que também inclui o disco novo da Elza Soares, o segundo disco do Ogi, o novo dos Supercordas e o terceiro da Karina Buhr). Dá pra baixar o disco de graça no site dela, onde ela também postou o release que ela me chamou pra escrever, que reproduzo a seguir.
2015 é um ano tenso, turbulento, agressivo. Polaridades disparam em radicais opostos para chocar-se de frente. Tudo está em xeque: comportamentos, ideologias, gêneros, classes sociais, estéticas, pontos de vista. O ano é uma catarse de emoções e elas vêm intensas, contraditórias, díspares, em bando.
Mas uma virada de bateria corta o horizonte sonoro, passeando pelas peças de seu instrumento numa lenta e didática virada que ao mesmo tempo em que testa a sonoridade de cada tambor e anuncia a suspensão da realidade para um anúncio importante, como um juiz da realidade que apita “tempo” para que possamos prestar atenção em um detalhe. Ao concluir no bumbo, a virada passa a contar o tempo num lento e hipnótico compasso bate-estaca em câmera lenta, perseguido por um baixo cúmplice e cordas dramáticas, que funcionam como base para um riff discreto e reverente, que reforçam o pedido de atenção exigido pelo ritmo com doses de elegância e reverência.
Bárbara Eugenia surge solene e séria, como se dispusesse a se tornar arauta deste ano turbulento. “Nesse tumulto de emoções”, canta quase conversando, antes de mudar drasticamente o ponto de vista do ouvinte, “que se chama ‘eu’, quero uma liteira que me carregue pra longe do meu coração para mantê-lo hermeticamente fechado, isolado da dor, imune. ”
A tensão começa a ser dissipada como uma manteiga cortada por uma faca quente – a guitarra que acaricia arabescos entre a surf music e o western spaghetti, pista de pouso para um teclado que repousa, a cada verso, acordes de sonho – baixo e bateria, seguem marcando o tempo e determinando o pulso marcial do início da canção que abre o terceiro disco de Bárbara.
“Acontece que não sei viver à margem. Prefiro ser assim – amando, sofrendo, gozando a vida de verdade”, Barbara segue implacável como se rogasse uma praga almodovariana sobre si mesma, aos poucos vai baixando a guarda, ao mesmo tempo em que o ritmo vai deixando a seriedade de lado para começar a instigar a dança – e ela mesma vai anuncia que cede à própria fragilidade: “Tentei fugir, fingir que nada se passava. Inevitável – essa amizade foi longe demais” – ela repete a última frase vocalizando as vogais e cedendo a um drama teatral que se entrega por inteiro quando o baixo se pronuncia em primeiro plano, como se acendesse luzes coloridas traduzidas em cordas de tom épico girando ao redor de um muquifo escuro que segundos antes era feio, forte e formal como um pub de filme policial.
“E quanto mais eu me aproximo, mais colada eu tô”, Barbara atira seu vocal à pista de dança e nos recebe em um delírio brasileiro de disco music, tecendo uma ponte entre a música pop e a música popular brasileira que foi abalada pelo surgimento da geração rock dos anos 80.
“Vidrada no teu sorriso com a cara de besta que sou” – ela canta o título da primeira canção – “Besta” – de forma quase jocosa, tirando toda a pseudosseriedade do início da faixa e exorcizando completamente as tensões do ano de seu lançamento. “Besta” é a melhor introdução a Frou Frou, um disco fútil e volúvel à primeira vista, que esconde exatamente essa necessidade de criar um hiato ou um aposto que consiga nos isolar da enxurrada de animosidade que convivemos diariamente. Bárbara Eugenia vem elegante como um trocadilho dadaísta, mas sua raiz é passional, quente, latina, novelesca. Ela abre uma fenda interdimensional para um universo minúsculo, um inferninho discothèque abrasileirado que daria continuidade à casa noturna carioca Noites Tropicais ao misturar as atmosferas de um Studio 54 à brasileira com todo o espectro emocional de programas de calouros e da Discoteca do Chacrinha nos anos 80. “Eu bem que sabia que isso era uma cilada”, ela confessa num momento de pausa da canção, “eu tinha certeza, mas adoro uma roubada” – e aí entra um sax rasgando tudo, tão clichê, autorreferente e eficaz quanto os “uh uhs” que fazem a canção retomar o tom solene inicial. Mas aí já era. Toda pose foi desfeita e o que parecia arrogância era só a própria insegurança esparramada em um comentário irônico e sério sobre este 2015. Com um risinho no canto da boca, piscando discretamente um dos olhos, ela nos pede um favor: “Menos, galera.”
A primeira metade do disco – e algumas faixas da segunda metade – traz outros exemplos desse campo de força criado ao redor de uma pseudofutilidade. “Vou Ficar Maluca” parece ecoar “Penny Lane” ironicamente, mas o groove puxado pelo piano como o de “Modern Love” nos devolve à pista de dança do início do disco. Prince e Debbie Harry se encontram num subúrbio brasileiro em “Pra Te Atazanar”, dobradinha com o arisco Rafael Castro (que também atravessa 2015 em fase dance) que nos dá uma explicação impossível de ser rebatida: “Por quê? Porque sim. Porque eu cismei com você. Por quê? Porque sim. Porque eu pirei, ” enquanto os dois nos levam madrugada adentro aos limites de uma relação afetada e paranoica. Mais adiante ela derrete-se blueseira cabaret no pé na buda de “Ai, Doeu!” que parafraseia Lulu Santos (“Tudo passa, tudo sempre passará”) bem temperada de órgãos elétricos, meio como os blues de Paul McCartney, que misturavam os sentimentos mistos das dores de cotovelo de Wanderléa com o andamento pesado da banda de Janis Joplin.
“Recomeçar”, composta pelo líder do Cidadão Instigado, o guitarrista Fernando Catatau, talvez seja um dos grandes momentos de Frou Frou. Bárbara já conhecia a canção desde antes do lançamento do disco Uhuuu, que a banda cearense lançou em 2009, e ao ver que ela não havia entrado nem naquele disco nem no Fortaleza, lançado este ano, chamou a responsabilidade para si e gravou uma canção romântica perfeita para ser tocada nas rádios brasileiras dos anos 70 e 80, uma música que Roberto Carlos, Fagner e Odair José provavelmente gostariam de tê-la escrito. Mesmo com seus “papapa” e “tchururu” próprios do pop brasileiro, “Recomeçar” também passeia pela pista de dança que aos poucos vai tomando conta do disco em um breque que aponta para os momentos disco music do disco The Wall do Pink Floyd. “Vamos parar algum momento pra recomeçar”, lamenta e confessa uma das músicas mais firmes de Fernando Catatau, “partir do princípio de quando nosso olhar se encontrou. ”
O ponto de meditação “Para Curar o Coração” reúne comadres – Andreia Dias, Blubell, Andrea Merkel, Claudia Dorei e Naná Rizzini – para repetir uma frase em português entreouvida por um acaso num mantra cantado em tibetano – e funciona como uma vinheta de transição para a segunda metade do disco, que deixa seu lado hedonista e porraloca em segundo plano para entrar numa internalização a respeito dos próprios sentimentos.
Como é o caso de outro ponto alto do disco, a delicada “Ouvi Dizer”, composta com o compositor Peri Pane – que faz um dueto com Bárbara na gravação – e o poeta arrudA, que contrapõe Pasárgada e Atlântida como ideais de utopias coletivas, refletindo sobre sua efemeridade num arranjo quase oriental. A versão para “Cama”, de Tatá Aeroplano, outro velho conhecido da cantora, assume outro holofote do disco, ao levar a canção de amor impulsivo e obsessivo naquele limite entre o hard rock e o rock progressivo, puxando a eletricidade no talo para amplificar ainda mais a birra original da música. Como na música de Catatau, Bárbara encarna o protagonista originalmente masculino da canção sem o menor estranhamento, trazendo completamente as músicas para o coração feminino.
“Doppelganger Love”, a primeira música composta em inglês do disco, retoma o tom dançante e aparentemente fútil do disco, chacoalhando-se retilínea entre a new wave e o pós-punk, a Gang 90 e o Gang of Four. A beatlesca “Tudo Aqui” equilibra as duas metades do disco à medida em que ele vai chegando perto do final. A faixa ecoa o trabalho anterior de Bárbara – o subestimado duo em inglês Aurora, que gravou ao lado de Fernando “Chankas” Cappi, do Hurtmold – e foi a primeira canção que ela compôs na guitarra, logo que começou a aprender a tocar o instrumento, uma mudança nas apresentações ao vivo.
A praiana “Só Quero Seu Amor” – com o cantor Pélico fazendo backing vocal ao lado dos outros integrantes de sua banda – aos poucos vai fazendo o sol do disco se pôr, depois de apresentar-se com um riff de guitarra glam rock. A sonhadora “Baby”, também em inglês e levada no ukulele, antecipa uma noite leve e tranquila, completamente diferente daquela em que começamos o disco. O disco termina com a música-tema, uma faixa instrumental que ela compôs em Lumiar para um pinheiro chamado Carvalhão (pois é). “Frou Frou” encerra o disco que batiza da forma mais sessão da tarde possível, liberando a banda que a acompanha para farrear à vontade, com vocais divididos com Tatá Aeroplano.
Esta é formada essencialmente pelo guitarrista Davi Bernardo, o baixista Jesus Sanchez e o baterista Clayton Martin, que coproduziu o disco ao lado de Bárbara, sugerindo instrumentos, virando músicas do avesso e compondo riffs. Ao redor dos três, um contingente de músicos de primeira desfila pelas faixas do disco – do piano de Dudu Tsuda ao minimoog do Astronauta Pinguim, passando pelos teclados de Pedro Pelotas, João Leão, André Whoong e Dustan Gallas, o violão de Regis Damasceno, o sax de Dharma Samu e o baixo de Diogo Valentino.
Um disco leve e alto astral, que funciona como um refúgio para o excesso de tensão deste ano.
Uma brecha aberta com gosto, que nos convida para a fuga. Siga aquela garota!
A Rocco me pediu que eu fizesse uma playlist baseada no livro da Kim Gordon que traduzi com minha mulher e aproveitei pra falar deste processo de tradução em casal. A playlist tá lá no site da editora.
Lembro quando me ofereceram a tradução de Girl in a Band, da Kim Gordon, no início deste ano, e imediatamente pensei em fazer junto com a minha esposa, Mariana. Já havíamos traduzido dois livros juntos e ela estava começando a pegar gosto pela atividade, imaginei perfeitamente o entusiasmo dela ao saber que poderia traduzir o livro. Kim, como o Sonic Youth, é desses primeiríssimos gostos em comum de casal e fora os dois primeiros shows que a banda fez no Brasil (no festival Free Jazz no ano 2000 e no festival Claro que é Rock em 2006), quando ainda não nos conhecíamos, assistimos a vários outros shows da banda juntos.
O grupo tocou na nossa “festa de casamento” quando agendamos o matrimônio para Las Vegas – no meio do Grand Canyon, para ser mais exato, nos Estados Unidos, para coincidir com o festival de 21 anos da gravadora Matador (que ainda teve Spoon, Pavement, Jon Spencer Blues Explosion, Yo La Tengo, Superchunk, Belle & Sebastian, Guided by Voices e muitos outros) e também vimos o grupo executar ao vivo (ao lado do John Paul Jones do Led Zeppelin!) a trilha sonora de uma das últimas apresentações do mestre da dança moderna Merce Cunningham, no austero teatro da Brooklyn Academy of Music, no subúrbio hipster de Nova York, além de ver, debaixo de chuva, dois de seus outros shows no Brasil, no festival Planeta Terra em 2009 (tocando quase todo o repertório do clássico Daydream Nation) e no festival SWU em 2011.
Quase perdemos essa última apresentação, num misto de soberba e início de velhice. Um festival fora de São Paulo, em Itu, em que era preciso pegar a estrada e encarar estacionamento de terra num dia que as nuvens pairavam a poucos centímetros do olhar, prenunciando uma chuva braba. Fora que as outras atrações do festival não animavam nem um pouco o espírito idoso que nos cutucava, ainda jovem casal. Havíamos acabado de ver a banda no ano anterior, por isso desistimos. Paciência. Perderíamos aquele show.
Eis que uma fada surgiu do nada e o céu se abriu. De repente, não apenas tínhamos dois ingressos de cortesia como poderíamos ir até Campinas e pegar uma van da produção até o festival. Lia chamou Mariana e perguntou, como quem não quisesse nada, só procurando uma companhia para um show que havia conseguido ingressos. Ganhou uma carona e nossa eterna satisfação. Estacionamos no Royal Palm Plaza e fomos levados para um portão próximo ao palco que queríamos assistir, todos já de capa de chuva, que deixava de ameaçar para começar a molhar o público. Paramos em um lugar distante, mas que permitia ver o palco e lá ficamos.
Assim que o Sonic Youth chegou, parou de chover. A banda fez um show furioso, misturando hits de todas as épocas com músicas de seu disco mais recente. A energia da banda no palco era contagiante, embora a maior parte do público apenas estivesse esperando a próxima banda, pois o festival nada tinha a ver com o grupo. De longe viam-se focos de rodinhas entusiasmadas no meio de gente passeando ou conversando, que só olhava para o palco quando o grupo ia para as músicas da época em que o grupo tocava na MTV, como “Teen Age Riot”, “Sugar Kane”, “Drunken Butterfly” e “Mote”. Mas a banda não parecia estar se preocupando com isso e se entregava à microfonia, em mais um daqueles espetáculos entre o punk e o experimentalismo que eu e minha mulher já havíamos nos acostumados a assistir. Lembro da sensação de certeza de saber que todo show do Sonic Youth era bom, daquelas sensações que eu não precisava falar para saber que ela também sentia isso. O show terminou, a chuva voltou, pegamos a van de volta pro hotel em Campinas e de lá de volta pra São Paulo, em uma hora estávamos sãos e salvos em casa longe da chuva, e no caminho viemos falando sobre como era bom ter uma certeza há tanto tempo quanto os shows do Sonic Youth.
Por isso a nossa surpresa – e de todo mundo que conhecia a banda, quando a separação de Kim e Thurston foi anunciada e a banda dissolvida. Uma certeza sólida que se desfazia no gesto mais mundano possível, Thurston estava tendo um caso e Kim havia descoberto. O senso de fofoca invadiu o universo indie e além das indiretas nas entrevistas ou nas entrelinhas de seus discos solo, muito se especulou, e descobriu, sobre quem era a amante do guitarrista, numa tentativa ridícula de vilanizá-la como aconteceu com Yoko Ono no fim dos Beatles. Parecia pior por não ser só uma banda, mas um casal que havia se tornado um parâmetro de como envelhecer juntos, e cool, para mais de uma geração.
Traduzir a autobiografia de Kim nos deu a oportunidade de mergulhar na vida da autora que também era nosso ídolo, não apenas vertendo o texto para o nosso idioma, mas buscando as referências da época para explicar todo o contexto histórico. Traduzir com a internet ao lado tem essa facilidade que permite que você visite lugares citados pelo Google Maps, compare modelos de instrumentos nos sites oficiais dos próprios fabricantes, além de poder ver clipes, shows, vídeos, filmes e músicas citados, inclusive os que não são do autor. Aliando isso ao fato da minha coleção de Sonic Youth ter tanto discos oficiais quanto piratas, além das caixas que o grupo relançou para seus discos clássicos, traduzir Girl in a Band, que preferíamos ter chamado de Garota na Banda, sem o artigo – foi um mergulho na Califórnia dos anos 70, na Nova York dos anos 80 e no mundo do rock alternativo das duas décadas passadas, quase sempre ouvindo Sonic Youth.
Por isso não foi muito complicado escolher as músicas para uma playlist em homenagem ao livro, que me convidaram para fazer. Uma lista de músicas que prefiro começar com um vídeo, já que o primeiro capítulo do livro narra aquele show no SWU em 2011 como o momento em que a ficha havia caído sobre seu casamento. E rever os vídeos daquele show me fez perceber que todo o entusiasmo da banda era masculino, Thurston estava sozinho em um canto do palco, o resto da banda (Steve Shelley na bateria, Lee Ranaldo e o ex-Pavement Mark Ibold nas guitarras) no outro canto e Kim, no meio, completamente alheia a tudo aquilo, como descreve no livro. Fui procurar um vídeo em que aparecia o tal globo azul que ela citava e, quando percebi, estava vendo um vídeo que eu mesmo havia filmado, sem perceber que registrava um momento bem específico: o fim do casamento de Kim e Thurston e do Sonic Youth. É com ele que eu abro essa playlist.
Encontrei o fã paraguaio que ganhou o baixo de Nikki Sixx, do Mötely Crüe, em pleno palco no festival e o relato de sua história está aqui.
O reencontro de Baby e Pepeu arquitetado por seu filho Pedro Baby foi um dos grandes momentos do festival e de 2015 – além de um dos destaques brasileiros que salvaram o terceiro dia do Rock in Rio da pasmaceira – como escrevi lá para o UOL.
A caçula do clã Caymmi surpreendeu em seu show no Rock in Rio, quando encontrou-se com o mestre arranjador Eumir Deodato. Escrevi mais sobre o show dela lá para o UOL.










