Madonna foi uma das principais atrações da premiação IHeartRadio, que aconteceu na semana passada em Los Angeles, nos EUA, mas quando ela revelou que a instrumentista que a acompanhava era Taylor Swift, aí não restou dúvidas que aquele foi o grande momento do evento.

Uma sensação de paz intensa tomou conta do pequeno teatro do Sesc Belenzinho, quando poucos puderam submeter-se ao volume sonoro do sexteto instrumental Ruído/mm, em mais uma apresentação de lançamento de seu ótimo Rasura, um dos grandes discos brasileiros do ano passado. Impassíveis no palco, os seis músicos curitibanos conduzem o público a um transe coletivo a partir de camadas de microfonia que vão superpondo-se e retraindo-se à medida em que oscilam entre o silêncio e o volume ensurdecedor, transitando entre estes em solos dedilhados, acordes expansivos, melodias ao teclado, gritos, galopes de baixo e bateria.
É o jardim elétrico cultivado pelo My Bloody Valentine e pelo Sonic Youth nos anos 80 que ergueu-se sem voz com o codinome de pós-rock na década seguinte, aglomerando influências vindas do free jazz, da música eletrônica, de trilhas sonoras de filmes, do pós-punk e da música erudita contemporânea. A massa viva de som habitada pelo Ruído/mm é uma densa floresta de improvisos musicais em que o grupo extrai recortes específicos de uma musicalidade que quase sempre recaem naquele universo instrumental de ruído branco do que preguiçosamente convencionamos chamar de indie rock: a psicodelia estática branca que une os devaneios instrumentais do Cure, o lado contemplativo do Low de David Bowie, as extensas incursões instrumentais do Yo La Tengo, os espasmos de guitarra do Radiohead e do Built to Spill, os longos caminhos percorridos pelo Spiritualized e pelo Galaxie 500.
No palco, o grupo encarna essas diferentes personalidades. Os três guitarristas quase que de forma didática dividem suas influências no vestuário casual, cada um levemente pendendo para um lado. À esquerda, André Ramiro de camisa xadrez e boné equilibra-se entre espasmos de eletricidade e solos cortantes que entregam influências do shoegaze, hardcore e do noise; ao centro, Ricardo Oliveira, de camisa e cabelos compridos, burila seu instrumento conduzindo-o para planetas musicais tão diferentes quanto National, Radiohead e Sigur Rós; à direita, o recém-regresso Felipe Aires, vestindo uma camiseta do Lost, vai da psicodelia tradicional dos solos de David Gilmour no Pink Floyd a climas de filmes de velho oeste. Os três na linha de frente quase sempre sentam-se no palco entre as canções para ajustar pedais e brincar com a microfonia. Na linha de trás, o tecladista Alexandre Liblik conversa com o baixista Rafael Panke e o baterista Giva Farina criando camas de timbres ou ritmos intensos propícios para cada diferente incursão. A formação mudou poucas vezes, apenas com Felipe assumindo um theremin digital para contrapor ao canto em falsete de Ricardo em “Penhascos, Desfiladeiros e Outros Sonhos de Fuga”, ou André e Alexandre tocando chocalhos ao final de “Bandon”.
Arquitetos conscientes de pequenas catedrais de som, eles poderiam esticar cada uma de suas músicas por mais de dez minutos, mas quando muito elas ultrapassavam os cinco (uma ou outra quase chegou nos dez). O grupo explora bem silêncios e estica temas instrumentais o suficiente para serem memorizados pelo público sem repeti-los à exaustão, como se enfatizassem a eficácia matemática explícita no “por mílimetro” de seu nome. Tocando a íntegra do novo disco e apenas uma canção de seus discos anteriores, o sexteto de Curitiba fez uma apresentação impecável que apenas reforça sua reputação, que já tem mais de uma década.
Filmei o show inteiro abaixo – ponha os fones e aperte o play.

Conversei com o Tricky, um dos papas do trip hop, que finalmente põe os pés no Brasil durante o festival paulistano Nublu, que acontece neste fim de semana no Sesc Pompéia. Confira a entrevista lá no meu blog do UOL: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/03/28/tricky-como-antidoto-ao-lollapalooza/
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Se você não tem pique nem paciência para encarar as dezenas de horas e artistas que desfilam pelo Lollapalooza Brasil neste fim de semana, uma alternativa de porte menos adolescente é o Nublu Jazz Festival, que chega a sua quinta edição neste fim de semana, com apresentações em unidades do Sesc em São Paulo (no Sesc Pompeia) e em São José dos Campos.
O Nublu é um pequeno clube de jazz em Nova York que realiza festivais itinerantes na cidade, em São Paulo e em Istambul na Turquia, cidade-natal de seu seu dono, o saxofonista Ilhan Ersahin. Ele é o idealizador do evento que reúne titãs do groove do passado e novos talentos da música brasileira. Em edições anteriores desfilaram, lado a lado, nomes como Headhunters, o DJ Nuts, a Sun Ra Arkestra, Tulipa Ruiz, o trio Marginals, o baterista Karriem Higgins, Kassin, Guizado, Roy Ayers e o Marcos Paiva Sexteto, além dos projetos de Ersahin, como Love Trio e Wax Poetics.
A grande atração deste ano, no entanto, não vem propriamente do jazz. Desconhecido pelo seu próprio nome, Adrian Thaws é um dos pioneiros da cena de música urbana negra que começou a despontar em Bristol, na Inglaterra, no final dos anos 80. Entre o início do jungle e um hip hop cada vez mais desacelerado, com acento no jazz e funk dos anos 70 e larga reverência à toda a música jamaicana, esta cena deu origem ao soundsystem Wild Bunch que, influenciado pela nova cena dance do segundo verão do amor londrino, virou o Massive Attack. Adrian começou a rimar e participou do primeiro disco do Massive Attack, o clássico Blue Lines, de 1991. À época ele já assinava seus trabalhos como Tricky.
No ano seguinte deixou o Massive Attack e em 1995 lançou seu primeiro disco, Maxinquaye, batizado a partir do nome de sua mãe, e atingiu o nível dos mestres, fechando, ao lado do Massive Attack e do Portishead, a santíssima trindade do trip hop. O gênero, que evolui da desaceleração da acid house dos anos 90 e da absorção de referências mais orgânicas serviu como contraponto à cada vez mais veloz música eletrônica daquela década.
Vinte anos depois de Maxinquaye, Tricky finalmente chega ao Brasil, um ano após lançar um disco batizado com seu próprio nome, o festejado Adrian Thaws. “Sempre quis ir para o Brasil e algumas vezes quase fui”, me conta em entrevista por email. “Eu tenho muitos amigos que estiveram aí e me dizem que é um lugar incrível, por isso estou realmente animado de conhecer e descobrir. Não tenho nenhuma expectativa, série, só quero eu mesmo ver, sabe.” Uma ponte já foi feita, pois o rapper regravou a canção “Something in the Way”, que havia gravado com Francesca Belmonte no ano passado, com a brasileira Mallu Magalhães. Ele comentou sobre a parceria e seu último disco, entre outros assuntos, na entrevista abaixo.
Seu último disco tem seu próprio nome.
Sabe, eu venho usando o nome Tricky por anos e meu primeiro disco foi lançado com o nome da minha mãe, então é como se eu fechasse um ciclo, voltasse ao começo. Tirei cinco anos de folga quando fui morar em Los Angeles, então estou de volta agora. É como se fosse o próximo capítulo. Maxinquaye me pariu e também pariu a minha carreira, porque foi a base de toda a minha carreira. Minha mãe me deu, Adrian Thaws, a luz, e com isso eu fecho o ciclo e começo o segundo capítulo.
Como serão seus shows no Brasil?
Todo tipo de música, velha, nova, um pouco de tudo. Sou eu, minha vocalista Kamila Bleax, um baterista e um guitarrista.
Você gravou uma música com a Mallu Magalhães. Vai gravar mais algo com ela?
Sim, eu adoraria. Ela tem uma voz incrível. É tão… delicada. Uma voz linda. Desta vez ela me mandou os vocais, mas eu adoraria ir para o estúdio com ela. Seria ótimo.
O que você gosta na música pop atual?
Sabe, tudo é muito comercial. Mas tem um cara, Sam Smith. Eu não curto essa música muito comercializada, mas Sam Smith está trazendo a música pop de volta, dando um nome ao pop. Ele não é um Sam Cooke, não me entenda mal, não é um Bob Marley, nada desse tipo, mas ele tem canções lindas. Ele é bom para o pop, acho. Prefiro ele que o Justin Timberlake.
Eu escuto muito hip hop velho, quase nada novo. Muito do hip hop atual é música pop e eu não curto isso. Sabe, quando escuto hip hop eu não quero ouvir pop. Eu não quero ouvir o 50 Cent. Eu ouço hip hop underground, ou mais hardcore. Nunca gostei de música pop.
E como você escuta música atualmente?
Eu escuto CDs ou ouço no YouTube, com fones de ouvido. Quando escuto música, tenho que ouvir muito alto – ou com fones. Não tem meio-termo. Música pra mim é como uma conversa, é uma coisa muito pessoal.
E o que você tem achado deste novo cenário da música digital?
É bom, mas também é ruim. Por exemplo, se as pessoas baixam música de graça. Sabe, tem gente que não entende, mas é assim que você tira seu sustento, como você consegue fazer sua música. As pessoas deviam ao menos apoiar isso. Sabe, podem até baixar músicas de graça, mas então apoia de alguma outra forma, compra algumas músicas no iTunes ou coisa do tipo, sei lá…
As pessoas deviam apoiar mais os artistas. Eles têm a ilusão que os artistas estão ganhando dinheiro o tempo todo. Quer dizer, se você é enorme, você ganha sim. Mas aí, pra começar, você tem que que tocar no rádio. Eu não toco no rádio, não sou milionário nem nada. Se quiser baixar de graça, baixa a Madonna. Não é um grande problema pra ela, ela tem tanto dinheiro que não precisa. Mas artistad como eu, que colocam tudo em seu próprio trabalho, acho que deveriam ser apoiados.

Seguindo a divulgação de seu ótimo disco de estreia, nossa querida Courtney Barnett cruzou o Atlântico para apresentar-se no programa da Annie Mac, que torna-se a principal apresentadora da BBC após a ida de Zane Lowe para a Apple. E ela sempre manda bem:

Eu nem vou no Lollapalooza deste ano, mas o pessoal do UOL pediu pra que eu desse algumas dicas sobre bandas que não são conhecidas do grande público e escolhi umas bandas que vão tocar bem cedo – o vídeo tá lá no meu blog no UOL: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/03/27/o-que-assistir-se-voce-chegar-cedo-ao-lollapalooza/
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Festival tem dessas: trocentas bandas tocando desde cedo e, entre dezenas de nomes de artistas, há muitos nomes desconhecidos, iniciantes e, em muitos casos, promissores. Escolhi cinco artistas que vão se apresentar no Lollapalooza Brasil deste fim de semana para comentar na TV UOL: O Terno (foto acima), Fatnotronic, Far from Alaska, Alt-J e Boogarins.

Enquanto To Pimp a Butterfly segue entortando expectativas para cima, seu autor, Kendrick Lamar, não para de surpreender. E na terça passada anunciou no Twitter ao seus fãs que iria estar em dois endereços de Los Angeles com apenas meia hora de diferença.
9pm. meet me here. 8950 Sunset Blvd. 930pm. meet me here. 8466 Melrose Ave.
— Kendrick Lamar (@kendricklamar) March 25, 2015
O que ele não contou é que estaria em trânsito – mais especificamente em um caminhão com um palco montado em cima. Sim: Kendrick Lamar desfilou com seu trio elétrico.
E a galera de Los Angeles percorreu os cinco quilômetros do percurso atrás do show móvel, que teve músicas dos dois discos mais recentes do rapper.
Postei lá no meu blog do UOL a íntegra do show que o Blur fez na sexta-feira para 300 fãs e que transmitiu ontem à tarde pelo YouTube: Blur pega o mundo de surpresa e lança online disco que “só” 300 ouviram.
Protagonista das guerras do Britpop nos anos 90, o Blur é uma das bandas inglesas mais importantes dos últimos 25 anos. Não só por engalfinhar-se na teatral briga com o Oasis durante a última década do século passado, mas também por fotografar como poucos as mudanças de comportamento e do inconsciente coletivo de seu país. Nascido em plena era indie dance (quando apareceu com o irresistível hino de pista “There’s No Other Way”), o Blur traduziu perfeitamente as alegrias e anseios ingleses dos anos Blair na tríade Modern Life is Rubbish, Parklife e The Great Escape, além de cantar sob à sombra americana em sua tríade final (Blur, 13 e Think Tank). Em 2004 seu guitarrista Graham Coxon abandonou a banda, que manteve-se apenas como pessoa jurídica, sem gravar ou fazer shows até 2009, quando Coxon voltou à formação e a banda voltou a excurisionar e até a gravar duas músicas inéditas.
Mas não havia sinal de discos novos, até agora. 2015 começou com a notícia que a banda já havia gravado um novo disco no ano passado – em Hong Kong! – e que o disco sairia no próximo mês de abril.
O anúncio surpresa não é mais novidade nesta segunda década do século 21. Cada vez mais artistas vêm preparando novos discos completamente na surdina para tomar o mundo de surpresa com sua nova aparição. Uma tendência que começou com o Radiohead em 2007 e continuou mais recentemente com lançamentos de pesos pesados como Daft Punk, David Bowie, My Bloody Valentine, Beyoncé e os Racionais MCs. Quando menos se espera, vem a notícia de que o disco novo de um grande artista não só está pronto como já pode ser ouvido e na íntegra. Foi uma alternativa que diferentes nomes estabelecidos no mercado de música encontraram para conseguir capitalizar a própria reputação em centro das atenções de uma paisagem cultural cada vez mais intensa. Em vez de dourar o título lentamente – anunciando as gravações, o fim das gravações, a masterização, o título, a capa, a data de lançamento, o primeiro single -, estes artistas preferiram juntar o impacto de todas essas informações ao mesmo tempo e pegar o público de surpresa.
Cada um utilizou um método. O Radiohead, com seu In Rainbows em 2007, anunciou que tinha acabado de gravar o disco uma semana antes de colocar o álbum pra download gratuito, lançando a lógica do “pague o quanto quiser” que o grupo abandonaria no disco seguinte. O Daft Punk usou um trecho instrumental da música “Get Lucky” em dois comerciais – um na TV e outro em um festival – para anunciar que estava voltando, revelando, aos poucos, e em menos de um mês, que o disco teria uma série de participações especiais ao mesmo tempo em que iam mostrando a totalidade da primeira música, que tornou-se um dos singles do ano graças a esse conta-gotas. David Bowie saiu da reclusão com um clipe e o anúncio de um novo disco em dois meses. O My Bloody Valentine, sem gravar desde 1991, anunciou o novo disco alguns dias antes de colocá-lo à venda pela internet. Beyoncé esperou listas de melhores do ano saírem no início de dezembro de 2013 para anunciar seu disco homônimo, que além das canções, ainda trazia um clipe para cada música.
No período em que desativou o Blur, seu líder Damon Albarn experimentou diferentes rumos na música. Montou bandas diferentes com músicos improváveis: com o baixista do Clash Paul Simonon, o guitarrista do Verve Simon Tong, o baterista do Fela Kuti Tony Allen criou o The Good the Bad and The Queen; com o mesmo Allen e o baixista do Red Hot Chili Peppers Flea montou o Rocket Juice and the Moon. Além disso gravou discos com músicos africanos, montou três óperas, lançou seu primeiro disco solo sem deixar de lado o projeto Gorillaz, a banda de desenho animado que inventou com o criador da Tank Girl Jamie Hewlett.
Os experimentos pop anteriores de seu líder e o anúncio-surpresa do novo disco indicam que o Blur está experimentando também com o lançamento de The Magic Whip. A gravação do disco em Hong Kong não é o único flerte com o público consumidor oriental – a capa do disco vem escrita em chinês. A banda também começou a liberar músicas aos poucos em vídeo pelo YouTube para o público (outra tendência atual, bem mais aceita entre artistas de menor porte) antes do lançamento oficial do disco, mas no fim de semana passado ousaram com uma novidade que será consagrada nesta quarta-feira, dia 25, quando o grupo mais uma vez usa o YouTube como plataforma de lançamento do disco, que será finalmente conhecido pelo grande público após ser apresentado a um pequeno séquito de fãs na sexta passada.
No último dia 20, o Blur reuniu 300 fãs para um show em que tocaram apenas a íntegra do novo disco. Imagine a felicidade deste fã: ver sua banda favorita tocando músicas que nunca ninguém fora do círculo interno da banda ouviu. Mais do que um teste de mercado é um teste de fidelidade – referendado pelo fato de nenhum vídeo da apresentação de sexta-feira passada ter aparecido online. Não sei se os fãs assinaram um contrato de confidencialidade ou apenas assentiram a um pacto de sigilo informal feito com a banda, mas o fato é que ninguém mais assistiu àquele show. Até amanhã.
Nesta quarta-feira, dia 25, o Blur exibe a íntegra de seu novo disco ao retransmitir o show de sexta-feira através do canal do YouTube do Beats By Dre (sim, aquela marca de headphones do Dr. Dre que foi comprada pela Apple). O show será transmitido às 8 da noite em Londres, cinco da tarde no horário de Brasília.
Quando terminar a quarta-feira, o Blur terá feito o mundo inteiro ouvir seu novo disco sem que ele tenha vazado anteriormente. E tocado ao vivo, em vez de ouvido apenas gravado. Tenho a impressão que é a primeira vez que isso acontece.
Muito esperto, esse Blur… E acho que isso é só o começo desta brincadeira.
Autores de um dos melhores discos nacionais de 2014 – o excepcional Rasura -, os curitibanos do Ruído/mm se apresentam nesta sexta em São Paulo no Sesc Belenzinho e me descolaram um par de ingressos pra quem quiser assisti-los no teatro da unidade. Basta responder nos comentários abaixo (sem esquecer de incluir o seu email) que outra banda brasileira faria um bom show ao lado do Ruído/mm? Quem ganhar a promoção retira os ingressos no próprio Sesc e ainda ganha uma das últimas cópias físicas do CD, que está quase esgotado. E pra quem não conhece a banda, eles descolaram uma versão inédita pra música “Pop”, que lançaram no EP Série Cinza, de 2004. A versão foi gravada no programa curitibano Último Volume, da Rádio Lúmen.
Falei do projeto do site Radiola Urbana de recriar ao vivo discos clássicos com bandas novas – que ano passado rendeu noites incríveis como o Emicida celebrando Cartola e O Terno reverenciando Arnaldo Baptista – na minha coluna Tudo Tanto na revista Caros Amigos do mês passado.
Clássicos revisitados
A iniciativa do site Radiola Urbana de reunir novos artistas para tocar discos históricos chega ao terceiro ano rendendo ótimos frutosHá três anos um site paulistano vem desenhando um panorama de discos clássicos reinterpretados por nomes da nova música brasileira que já pode ser considerado histórico. Um programa sem nome definido, pois o mesmo vai mudando de acordo com o ano celebrado. Desde 2012 o site Radiola Urbana, tocado pelos amigos Ramiro Zwetsch e Filipe Luna, volta 40 anos no tempo para homenagear álbuns históricos de artistas célebres, negociando repertório e arranjos com alguns dos maiores nomes da música brasileira deste século.
A ideia do Radiola Urbana começou em 2012 como uma consagração de uma tendência recente que vinha valorizando o ano de 1972 como um dos grandes anos da história do disco, pareando com outros anos clássicos como 1967, 1969, 1977 e 1991. Assim, o site propôs celebrar discos daquele ano no projeto 72 Rotações, que aconteceu no segundo semestre daquele ano, em shows gratuitos no no Centro Cultural da Juventude, na Vila Nova Cachoerinha. Entre os primeiros artistas estavam Bruno Morais (para cantar o mágico Sonhos e Memórias, do Erasmo Carlos), Romulo Fróes (que revisitou Transa de Caetano Veloso), Rodrigo Campos (que se arriscou no clássico funk Superfly, de Curtis Mayfield) e Curumin ao lado da banda Rockers Control (para recriar a trilha sonora de The Harder They Come, de Jimmy Cliff).
No ano seguinte o show foi transposto para o Sesc Santana e subiu um degrau no escalão dos artistas. Era a vez de Karina Buhr, Céu, Cidadão Instigado e Fred Zeroquatro (vocalista do grupo Mundo Livre S/A) homenagearem discos de 1973. Karina aventurou-se pelo primeiro disco do Secos & Molhados, o Cidadão Instigado se desafiou a tocar o Dark Side of the Moon do Pink Floyd, Céu foi convocada para homenagear o primeiro disco de sucesso de Bob Marley, Catch a Fire, e Fred celebrou o homônimo disco de estreia de Nelson Cavaquinho. A edição de 2013 teve um efeito colateral interessante na carreira de três dos artistas escolhidos: tanto Céu, quanto Cidadão Instigado e Karina Buhr passaram a oferecer os shows do evento como alternativa para tocar em lugares que nunca haviam tocado. Ao sair de uma semana na zona norte de São Paulo para várias apresentações espalhadas pelo Brasil, o projeto garantia seu principal intuito: fazer que o público dos novos artistas conhecessem os discos clássicos e os fãs dos álbuns homenageados descobrisse os novos nomes da cena brasileira deste século.
A edição do ano passado aconteceu no calar de dezembro, novamente no Sesc Santana, e mais uma vez surpreendeu. Os homenageados desta vez eram apenas discos brasileiros, todos clássicos absolutos de 1974: o primeiro disco solo do mutante Arnaldo Baptista (Lóki?), a estreia em disco de Cartola, o encontro de Elis Regina com Tom Jobim e o disco psicodélico de Jorge Ben, Tábua de Esmeralda. Para tomar conta de cada um desses discos, artistas de diferentes abordagens. Elis & Tom ficou a cargo do Marco Pereira Trio – um dos grandes conjuntos da nova cena de jazz de São Paulo – ao lado da cantora Luciana Alves e a Tábua de Jorge Ben ficou com o projeto paralelo da Nação Zumbi chamado Sebosos Postizos, que já há anos revisita diferentes músicas do repertório de Babulina nos anos 70.
Os dois shows que vi – dos melhores shows de 2014 – celebravam Cartola e Arnaldo Baptista. Foram shows que intimidaram seus intérpretes. O trio O Terno, liderado pelo filho de Maurício Pereira, Tim Bernardes, ficou responsável pelo mergulho emotivo na obra confessional do ex-Mutante e o rapper Emicida deixou de rimar pela primeira vez para cantar os versos imortais do sambista parnasiano.
O show de Emicida foi um atordoo. Não apenas por colocar o rapper num universo familiar ao seu (o samba) desafiando-o a cantar músicas que fazem parte do DNA do samba. Mas também pelo grupo musical que havia reunido. O desafio, na verdade, foi proposto pelo saxofonista Thiago França, uma das forças da natureza da nova cena musical paulistana. Ele tocou com Criolo e é um terço do Metá Metá, a melhor banda de São Paulo atualmente, além de ter inúmeros projetos paralelos, muitos deles com o compadre Kiko Dinucci, outra usina musical da nova São Paulo. França convocou pesos pesados pra compor o time: da banda de Emicida surrupiou o percussionista Carlos Café, o violonista Doni Jr. e o DJ Nyack. Depois convocou o ás baixista Fábio Sá, o grande Rodrigo Campos para o cavaquinho e guitarra e o próprio Thiago entre o sax, a flauta transversal e outras engenhocas e pedais de efeito.
O resultado foi um show que por vezes soava reverente, mas na maior parte do tempo era abertamente desafiador, levando a obra de Cartola para territórios completamente diferentes – o free jazz, o hip hop mais pesado, a gafieira, um samba mais quadrado e até para releitura quase literais. A curta duração do disco homenageado (pouco mais de meia hora) fez o conjunto estender a homenagem para Adoniran Barbosa (contrapondo “Saudosa Maloca” e “Despejo na Favela” com as desocupações feitas recentemente em São Paulo) e para Candeia (numa versão brutal para “Preciso Me Encontrar”), além do delicioso sambão “Hino Vira Lata”, do próprio Emicida. Um show daqueles de tirar o fôlego.
Dois dias depois era a vez do Terno, no mesmo palco do Sesc Santana, defender sua homenagem ao disco Lóki?, o tocante espasmo emocional traduzido através do piano rock de Arnaldo Baptista, logo que ele saiu dos Mutantes. Um disco de fossa devido ao fim de relacionamento com Rita Lee, mas também um disco de uma psicodelia introvertida, que às vezes sonha alto ou cogita possibilidades impensadas no meio de canções que cortam o coração ao mesmo tempo que provocam sorrisos.
A responsabilidade do Terno não era apenas etária – o guitarrista e vocalista Tim Bernardes deixou seu instrumento em segundo plano para assumir o teclado, mas manteve-se preciso e sem firulas, no mesmo nível de emoção que percorre pelos sulcos do vinil original. O desafio duplo foi vencido com alguma facilidade – mesmo nas músicas tocadas com guitarra, canções feitas originalmente para o piano ganhavam uma desenvoltura de parentesco psicodélico.
Agora é esperar 2015 para ver se (e quais) os artistas do ano passado levarão os shows de 2014 para novos palcos e o que o Radiola Urbana armará para a versão deste ano. “Pensamos em Fruto Proibido (Rita Lee & Tutti Frutti), Horses (Patti Smith), Expensive Shit (Fela Kuti & Afrika 70), Estudando o Samba (Tom Zé)…”, me disse Ramiro, que planeja uma novidade para este ano – voltar 50 anos no tempo em vez de 40. “Aí se virar 65, temos planos malignos e infalíveis para A Love Supreme (John Coltrane), Coisas (Moacir Santos), Highway 61 Revisted (Bob Dylan)…”. De qualquer forma, não tem erro.
Nossa querida novata australiana começa a divulgar seu disco de estreia em turnê pelos EUA – e inevitavelmente, vai passar por alguns programas de TV. Courtney Barnett commeçou sua peregrinação pelo programa da Ellen.





