Fred Armisen, que faz dupla com a guitarrista do Sleater-Kinney Carrie Brownstein no seriado Portlandia junta-se à banda para celebrar o clássico “Rock Lobster”, dos B-52’s, no show que o trio fez em Nova York no domingo. Que incrível.
De outro ângulo.
Que banda. Que bandas!
E na minha coluna na revista Caros Amigos do mês passado eu falei sobre o reencontro de Baby Consuelo e Pepeu Gomes no palco do Rock in Rio deste ano – e deixo abaixo alguns vídeos que fiz durante esse mítico encontro.
Baby do Brasil puxou o ex-marido Pepeu Gomes de um lado e o filho Pedro Baby do outro, ambos com guitarras em punho. Haviam acabado de tocar “Mil e Uma Noites de Amor” no palco Sunset do Rock in Rio e Baby não se cabia em si: “Esse é um momento único na história da música brasileira. Talvez mais cem anos pra acontecer alguma coisa parecida”, disse a cantora, emocionada por estar fazendo música com o pai de seu filho e com o próprio filho. E realmente foi um momento tanto histórico quanto emocionante.
Ainda mais se levado em conta que ele aconteceu no imenso shopping a céu aberto que é o Rock in Rio, um parque temático sobre si mesmo em que os patrocinadores e a históriia do festival parecem ser mais importantes do que qualquer um dos artistas que venha subir em qualquer palco. No meio daquela bolha de plástico movida a dinheiro, um casal de ex-hippies reencontra sua energia vital ao se entregar a versões intermináveis de hits imortais que dominavam o rádio brasileiro e pavimentaram o caminho para o pop dos anos 80.
Porque Baby e Pepeu, mais do que integrantes de uma das principais bandas da história do rock brasileiro (os Novos Baianos), têm, juntos, uma carreira digna das melhores bandas de rock dos anos 80 – só que eles vieram antes. Pertencem a uma geração que começa a romper tanto com os valores da ditadura militar quanto os da resistência civil, brincando com o pop (antes visto como “alienante” ou “imperialista”), com instrumentos elétricos, com sexo, drogas e rock’n’roll de forma que afrontavam o status quo da MPB e o tradicional cancioneiro latino-brasileiro.
São bandas e músicos que pavimentaram o caminho para o chamado “pop rock” dos anos 80 na marra, forçando limites estéticos e comportamentais como se assumissem uma missão de retirar o Brasil de um atraso cultural imposto pela relação entre o governo militar e a cultura do protesto, questionando valores e criando polêmicas. Gente como Raul Seixas, Rita Lee (primeiro com o Tutti Frutti e depois com Roberto de Carvalho), Guilherme Arantes, Fagner, Ritchie, Secos e Molhados (e a carreira solo de Ney Matogrosso), Zé Ramalho, Eduardo Dusek, A Cor do Som, Marina Lima e até artistas de gosto duvidoso como Sidney Magal, Gretchen, Fabio Júnior, A Turma do Balão Mágico e até Xuxa – donos de hits que desafiaram a mesmice e a elitização da MPB e prepararam o território para as duas gerações de bandas que chamamos comumente de “rock brasileiro dos anos 80”: a carioca (formada por Lulu Santos, Kid Abelha, Blitz, João Penca, Lobão e os brasilienses Paralamas) e a paulista (formada por Ira!, Titãs, RPM, Ultraje a Rigor e os brasiliense Legião Urbana). A história desta geração é contada com minúcia no recente Pavões Misteriosos, que o jornalista André Barcinski lançou no ano passado pela editora Três Estrelas.
Baby e Pepeu, por terem sido um casal e por terem se divorciado, no entanto, não levaram sua carreira adiante ou se entregaram a um fácil revival. Diferente da maioria dos artistas que tiveram seu auge entre anos 70 e 80, a dupla não arriscou nenhum retorno de sua carreira como casal até o reencontro no Rock in Rio. Até voltaram a subir juntos num palco como Novos Baianos, mas aí era uma química de grupo, não apenas de casal. E os dois seguiram seus rumos: Baby mudando o sobrenome de Baby Consuelo para Baby do Brasil e convertendo-se à religião evangélica, exaltando Deus em todas as possibilidades. Pepeu seguiu sua carreira de guitar hero exibindo-se mais como músico instrumental do que como compositor pop.
O elemento-chave para a reconciliação – puramente artística, os dois nunca foram brigados fora do palco – foi a presença do filho Pedro Baby. Um dos inúmeros filhos do casal, coube a ele a tarefa de reunir pai e mãe novamente num mesmo palco, para celebrar uma carreira e uma parceria que permanece intacta no imaginário brasileiro. E parece que o filho apelou para Deus, desafiando a mãe sobre a naturalidade daquele reencontro. Foi o suficiente para que tudo começasse a funcionar. Para algo aquilo tinha de servir.
Não custa lembrar também que o reencontro foi encomendado pelo Rock in Rio justamente pela autocelebração do próprio festival, que completava 30 anos de vida e que usava isso como desculpa para apostar em atrações que lembrassem outras edições do festival. Baby e Pepeu estiveram na edição inaugural, em 1985, dois anos depois de terem sido barrados na Disneylândia acusados de quererem chamar mais atenção que as atrações daquele parque (sério, o que deu origem à música “Barrados na Disneylândia”). Se não fosse a presença dos dois em 1985, talvez não os veríamos juntos em 2015. Para algo aquilo tinha de servir.
Uma vez juntos no palco, a química musical era impressionante. Baby e Pepeu são praticamente a mesma pessoa em corpos diferentes, mesmo décadas sem tocarem juntos. O transe musical que entravam em todas as músicas – esticando hits de três minutos em versões que chegavam quase aos dez minutos – era contagiante e o público que tinha ido assistir aos Paralamas do Sucesso, Rod Stewart e Elton John (que também tocavam no festival no mesmo dia) logo estava sendo carregado pelos refrões e solos de músicas como “Mil e Uma Noites de Amor”, “Menino do Rio”, “Telúrica”, “Todo Dia Era Dia de Índio” e “Masculino e Feminino”, além de dois clássicos dos Novos Baianos, “Tinindo Trincando” e “A Menina Dança”.
Pepeu se emocionou e chorou logo que entrou no palco, deixando o show ainda mais intenso emocionalmente. Baby tinha que seguir sua pregação, citando o nome de seu salvador a cada intervalo entre as músicas, mas mesmo este exagero não diminuía a celebração musical. Entre os dois, Pedro Baby visivelmente emocionado e orgulhoso de ter realizado e participar daquele encontro, escorregava a bordo de sua guitarra em duelos quentes ao lado do pai, enquanto a mãe sacudia-se entre os dois. Foi um dos grandes momentos do Rock in Rio e da música brasileira em 2015. Tomara que eles repitam a dose em mais shows.
Conversei com a dupla pioneira do hip hop brasileiro Thaíde e DJ Hum lá no meu blog no UOL, que reatou os contatos para apenas um show – por enquanto.
A Terceira Terra, o disco que os Supercordas lançaram no início do ano, pertence a esta já clássica safra de discos brasileiros lançada em 2015 – e como outros discos desta geração, também revela uma mudança considerável em relação aos trabalhos anteriores. A banda deixa o bucolismo e o ar rural dos outros discos para pegar mais pesado e fazer este que é seu disco mais politizado, que finalmente será lançado nesta sexta-feira na Serralheria, com abertura dos Soundscapes (mais informações na página do evento no Facebook). Conversei com o guitarrista e vocalista Pedro Bonifrate sobre o novo trabalho e a nova safra de bandas psicodélicas no Brasil.
O que é a Terceira Terra?
O conceito do disco foi sendo interpretado conforme as canções ganhavam forma no estúdio, e acabamos chegando na ideia de Terceira Terra. É livremente inspirada num aspecto da mitologia guarani, que supõe que Nhanderu teria criado três mundos: o primeiro, habitado pelos deuses, que deu lugar ao segundo, que é esse em que vivemos, onde há geração e corrupção, e o terceiro, que seria a morada sem mal. Associamos essa busca pela terceira Terra à nossa ideia ocidental do que são as utopias.
É o disco mais político de vocês.
Nos tornamos pessoas mais políticas nos últimos anos, e não foi à toa. Habitamos um continente em que os povos nativos continuam sendo exterminados pelas demandas do poder econômico, em que o Estado cada vez mais atua como lacaio desses mesmos poderes, em todas as esferas, minando iniciativas de poder popular, liberdades civis conquistadas a duras penas, destruindo nossos recursos naturais em nome da lucratividade de grandes corporações, tratando estudantes como bandidos. Não se posicionar diante disso, a meu ver, é assinar embaixo. Longe de nós assinar embaixo.
E o que vocês acham sobre este interesse recente pela psicodelia que está acontecendo aqui no Brasil e no exterior? Quais são seus artistas favoritos deste nova cena?
Acho legal, se considerarmos a psicodelia como uma percepção musical que olha pra frente de forma inventiva, que propõe perspectivas musicais diferentes e que tem a transformação como horizonte. Dessa nova onda, gosto muito do My Magical Glowing Lens, de Vitória, e dos Boogarins e do Luziluzia, de Goiânia, que se tornaram grandes amigos e colaboradores dos Supercordas.
O velho compadre Chico Dub, mais um ex-OEsquema desgarrado no mundo, consolida firmemente o Novas Frequências como um dos principais festivais de música do Brasil – e não apenas de “música avançada”, como sugere seu tênue e subjetivo rótulo. O evento chega à quinta edição nadando contra a corrente – fazer um festival que música não-pop em pleno Rio de Janeiro – e misturando-se cada vez mais à mutante paisagem carioca, que vive uma década riquíssima como toda a música brasileira. E é apenas reflexo do trabalho do próprio Chico, que cada vez mais se firma como uma das sumidades brasileiras neste segmento. Conversei com ele sobre o evento, cuja quinta edição começa esta semana.
Mais uma edição do Novas Frequências: qual a expectativa para essa edição?
Bem alta! Conseguimos driblar a crise e criar uma programação com mais desdobramentos que a do ano passado. Inclusive, o número de artistas aumentou. Passou de 33 para 42. Em relação ao line-up, nomes como Mika Vainio, The Bug, Tyondai Braxton, Dawn of Midi, Phill Niblock e King Midas Sound são presença constante nos melhores festivais de música avançada do mundo.
Ao mesmo tempo, temos praticamente outro festival rolando dentro do Novas este ano. De 1 a 8 de dezembro, ou seja, durante toda a duração do Novas Frequências, vamos ocupar o galpão/atelier do Tunga com uma exposição de fotografias a cargo do Fabio Ghivelder que foram comissionadas para a criação da nossa identidade visual de 2015. Em paralelo, o Tunga estreia uma instalação sonora participativa chamada Delivered in Voices em que ao todo vai receber 14 artistas para uma série de intervenções.
Sei que isso é como pedir para um pai escolher um dos filhos, mas qual ou quais as atrações que você está mais feliz em trazer para essa edição?
É difícil escolher mesmo! Não vou falar dos nomes mais óbvios para poder destacar alguém como Phill Niblock, um artista ícone, incrivelmente importante, mas que pouca gente conhece aqui no Brasil. Lenda da vanguarda nova-iorquina, contemporâneo de toda aquela turma – Young, Glass, Reich, Riley -, amigo do povo do Fluxus, dos happenings… Ele compõe drones microtonais a partir do processamento de instrumentos acústicos. São blocos pesados de som que se movimentam em câmera – muito – lenta e que desafiam a noção de espaço-tempo. É cineasta também e faz filmes experimentais belíssimos como o Brazil 84, que inclusive iremos passar no festival.
Em termos de formato o que mudou no festival? Você se preocupa em inovar inclusive nisso?
Mantivemos a “massa base”, mas incrementamos o forrmato com diversos temperos e especiarias. Quero dizer que, como no ano passado, permanece o formato descentralizado – são ao todo 7 espaços da cidade, cada um recebendo um tipo diferente de programação. Em paralelo, também mantivemos a pegada de mostrar a música e o som no maior número de desdobramentos possíveis. O palco hoje não basta para a gente, sabe? Queremos, sim, o palco – vários!-, mas também o cinema, a galeria, a pista de dança, salas para discussões e oficinas, infra para conseguir realizar residências artísticas e desta forma realizar experiências inéditas e por aí vai. Quanto mais desdobramentos, maior a ampliação das escutas. As novidades portanto dizem respeito a novos espaços dentro do festival e também a novos desdobramentos: hacklab/cinema/exposição/instalação sonora. Pensar no formato é tão importante quanto pensar no line-up! Super importante inovar, inclusive. Experimental na curadoria; experimental no formato. Tem que ser assim. Só pode ser assim.
Nos últimos anos a cena de vanguarda do Rio de Janeiro está cada vez mais forte e produtiva. Como você observa esta cena como conterrâneo e idealizador do NF?
Na verdade, não é que eu observe a cena. Eu atuo nela. Eu vivo dela. Todo o meu trabalho está voltado para a vanguarda, o experimentalismo e as novas tendências. Então se a cena cresce, eu cresço, o Novas Frequências cresce…. Porque tudo faz parte do mesmo ecossistema, entende? As características podem até ser diferentes entre, por exemplo, NF, Quintavant e Wobble, mas tenho certeza que os objetivos são os mesmos. Precisamos aprender a trabalhar em rede.
De qualquer forma, só vamos crescer MESMO, no dia que conseguirmos mais espaço na mídia. Jornais impressos revistas mensais são fundamentais, claro. Mas precisamos criar nossos próprios veículos: mais estações de rádios, mais publicações, mais, mais, mais…
E no resto do Brasil, como anda a produção de música avançada no resto do país?
Muito bem, obrigado! Um reflexo disso está inclusive na programação do Novas Frequências, onde a cada ano cresce a participação de artistas brasileiros. Aliás, nunca tivemos tantos como em 2015: é a primeira vez que o número de brasileiros é superior ao de estrangeiros. Eu criei a série de coletâneas online e gratuitas Hy Brazil em 2013 para dar uma mapeada nessa cena. Já foram lançados 9 volumes – 126 faixas de 126 produtores diferentes – e quando uma publicação do porte da britânica The Wire me pede para compilar um “Especial Brasil” para uma de suas edições mensais – a de novembro de 2015 -, é sinal de que também há interesse internacional naquilo que estamos fazendo.
Os Chemical Brothers fazem um showzaço e fazem jus à sua reputação de clássico no Sónar São Paulo 2015 – falei sobre o show lá no meu blog no UOL. Filmei todo o show aí embaixo, saca só:
Os Chemical Brothers se apresentam mais uma vez em São Paulo, desta vez já com o status de clássico – escrevi sobre a importância deles pro UOL Entretenimento.
Os terroristas do atentado em Paris podem ter escolhido a dedo o show do Eagles of Heavy Metal como alvo – discorri sobre essa hipótese no meu blog no UOL.
Há um mês, a gravadora indie australiana Milk Recordings celebrou o quadragésimo aniversário de Horses, o mítico disco da Patti Smith que inaugura a segunda metade da história do rock, que começa com o punk. O foco do show, que aconteceu no Melbourne Town Hall em sessão dupla, era a nossa querida Courtney Barnett, principal estrela do selo, mas também enfileirou apresentações de outros nomes do catálogo deles, como Jen Cloher, Adalita e Gareth Liddiard, todos acompanhados da mesma banda, formada por Dan Luscombe na guitarra, Ben Bourke no baixo, Stevie Hesketh nos teclados e Jen Sholakis na bateria. A gravação do show finalmente apareceu em grande estilo online e vale cada minuto assistido – as apresentações de Adalina, os mais de dez minutos de Gareth Liddiard em “Birdland” ou Courtneyzinha mandando ver em “Break it Up” são especialmente tocantes:
Quem quiser assistir a algumas apresentações isoladas, elas vêm a seguir:
Gareth Liddiard – “Birdland”
Courtney Barnett – “Redondo Beach”
Adalita – “Free Money”
Jen Cloher – “Land”
O Pin Ups é um marco zero para uma geração inteira de bandas no Brasil e escolheu 2015 para encerrar oficialmente sua carreira com um último na choperia do Sesc Pompéia, neste sábado, 14 de novembro. A banda marcou a transição entre o rock brasileiro dos anos 80 – e especificamente a geração pós-punk paulistana, que lançava disco pela Wop Bop e Baratos Afins – e a geração Juntatribo, e durante este hiato foi a pioneira de uma safra de bandas brasileiras que cantavam em inglês que formariam a base do que ainda nos referimos, até hoje, como indie brasileiro. Atrás deles vieram Killing Chainsaw, Mickey Junkies, Second Come, Cigarrettes, PELVs, entre outros, que ajudaram a forjar a primeira fase de estruturação de um mercado independente no Brasil. A banda parou de gravar há quinze anos e tem feito shows tão esporadicamente que preferiu pendurar as guitarras num show com participações especiais e sem a presença do primeiro vocalista, Luiz Gustavo. Conversei com o Zé Antonio, que também foi diretor do mítico Lado B na fase áurea da MTV brasileira, sobre este desfecho e a influência da banda.
Por que terminar a banda? Qual foi o estalo que fez vocês pensarem num fim?
O Pin Ups não tem tocado com muita regularidade nos últimos anos, mas nunca havíamos declarado o fim. Neste ano até chegamos a pensar se voltaríamos ou não, muitas bandas da nossa geração estão voltando à ativa, ha dois documentários sobre aquela época que estão sendo finalizados e um livro, Rcknrll, do Yury Hermuche, terá uma capítulo inteiro dedicado à nossa história. Mas depois de muita reflexão achamos que só valeria a pena voltar se tivéssemos condições de nos dedicar integralmente à banda e isso não é possível.
Pensamos então que deveríamos fazer um show de despedida e agradecimento por toda esta lembrança e também para poder tocarpelo menos uma vez para pessoas das novas gerações que nunca nos viram ao vivo. Fechamos com o Sesc Pompeia onde fomos muito bem recebidos e temos a certeza de que encontraremos as condições necessárias pra fazer um bom show. E pra tornar tudo mais especial teremos alguns convidados especialíssimos, que fizeram parte da nossa história de alguma maneira: Adriano Cintra, Rodrigo Carneiro, do Mickey Junkies, Rodrigo Gozo do Killing Chainsaw, e o Mario Bross, do Wry. Vai ser uma festa boa.
Antes desse último show qual foram as últimas coisas que vocês fizeram?
Nosso último disco é o Bruce Lee, de 2000. Os últimos shows foram no Sesc Belenzinho e na Virada Cultural há mais ou menos uns três anos. A formação mais recente, e a que mais durou na história da banda, é quase a mesma que vai se apresentar no show do sábado, Eu, a Alê e o Flávio. Só a Eliane não participa porque está morando em Londres.
Dá para comparar a época em que vocês começaram com os dias de hoje?
Dá sim, hoje é bem melhor! Acho que a principal diferença é que naquela época não havia tantas possibilidades. Ninguém esperava nada de uma banda alternativa a não ser tocar e se divertir. Os lugares, na maioria das vezes, tinham uma estrutura sofrível, a divulgação era na raça com flyers e fanzines e a internet não existia e a comunicação era muito mais demorada. Tocar fora de sua cidade era um privilégio, fora do país impossível.
Hoje eu vejo que as novas bandas tem muito mais possibilidades e fico feliz com isso. Existem uns saudosistas que acham que hoje é tudo muito mais fácil, mas eu discordo. Se por um lado a divulgação é mais rápida, os instrumentos mais baratos, etc, também existe uma cobrança maior em relação à qualidade e profissionalismo. Não que isso não existisse em nossa época, mas hoje o alcance das bandas é muito maior.
Fala sobre o começo dos Pin Ups – como a banda nasceu, quais foram as referências originais, os trabalhos anteriores…?
Eu já havia tocado em algumas bandas mas nunca acontecia nada. Um dia eu estava em uma loja de discos, a extinta Bossa Nova, com o Luiz quando vi um anúncio de duas garotas querendo formar uma banda. Elas citavam várias bandas que eu gostava como referência e resolvi ligar pra elas. Marcamos um ensaio e como não tinha baterista o Luiz se ofereceu pra fazer algo tipo Velvet. Depois de duas tentativas vimos que não ia rolar nada. O Luiz lamentou dizendo que iria rolar um lançamento da revista Monga no (Madame) Satã e que podíamos tocar, já que ele era um dos desenhistas da revista. O Satã na época era um lugar muito bacana pra ser desprezado. Fiz uns riffs, uma linha de baixo que o Luiz decorou em uma semana e ele fez umas letras com colagens de frases da NME. Chamamos um baterista e um amigo pra cantar e lá fomos nós, tocar antes do Ratos de Porão. No final foi bom, algumas pessoas vieram falar com a gente e aí nasceu a banda… O resto é história! As referências naquela época eram principalmente Jesus and Mary Chain, Stooges, MC5 e Velvet Underground. Gostávamos de barulho.
Time Wil Burn é um dos marcos do que hoje chamamos de indie brasileiro, conta a história desse disco.
A história é que quando começamos a tocar, por algum motivo chamamos a atenção de algumas pessoas, entre elas o Thomas Pappon, que na época era diretor artístico da Stilletto, um selo que acabava de estrear no Brasil. Ele mostrou nossas demos ao Lawrence Brennan, um produtor inglês que era o dono do selo, ele se animou e resolveu lançar nosso disco. Mas a verdade é que gravamos umas poucas músicas, a maioria do que se ouve no disco são demos gravadas em um (gravador) Tascan de quatro canais, por isso o som é tão sujo. Éramos muito ingênuos em relação a estúdios de gravação, mas posso dizer que fizemos tudo aquilo com vontade.
O Pin Ups iniciou uma época em que as bandas começaram a cantar em inglês – até como uma forma de protesto. Como vocês encaravam isso na época? Quando que vocês acham que essa tendência mudou?
Pois é… na verdade nunca pensamos nas letras em inglês como forma de protesto, era mais uma questão de sonoridade. Mas sofremos com isso, pois o BRock ainda era forte e os produtores e as rádios só queriam quem cantasse em português. Um produtor famoso chegou a dizer que nos contrataria se mudássemos de idéia, mas nós recusamos. Eu não sei se consigo precisar em qual momento essa coisa do inglês surgiu, mas acho que de certa forma isso foi natural. Nossa geração veio logo depois daquela cena de bandas como Fellini, Akira S, Voluntários da pátria, etc, que era formada por jornalistas e intelectuais que escreviam muito bem, faziam boas letras e tinham muito mais a dizer do que nós, um bando de moleques influenciados por My Bloody Valentine e Jesus and Mary Chain cujos vocais eram sempre enterrados sob uma parede de som. A voz era só um instrumento, nossa voz era o barulho.
Quem são os filhotes diretos e indiretos do Pin Ups na cena hoje?
Olha, alguns músicos nos citam como influência, mas eu não saberia te responder isso de forma precisa. Vejo bandas que eu gosto como o Biggs, Twin Pines, Single Parents, Zefirina, etc, que tem uma atitude parecida com a nossa mas dizer que são nossos filhotes talvez seja muita pretensão. Os filhotes diretos na maioria nem existem mais, como o Lava, da Ale e Eliane, o Butcher’s Orchestra do Marquinhos, etc.
Se vocês estivessem começando uma banda hoje, o que iriam fazer?
Iria aproveitar todas as oportunidades. Hoje uma banda alternativa pode tocar em um grande festival,aqui e no exterior, disponibilizar suas músicas para o mundo todo,comprar bons instrumentos, etc. E hoje o cenário é muito mais colaborativo, as bandas se ajudam e isso é lindo. Com tudo isso os desafios são bem maiores e as apostas também. Nós sempre gostamos de desafios, então acho que a gente poderia se dar bem.
O Luiz não foi convidado para o show?
Convido o Luiz há anos pra fazermos músicas, mas nos últimos tempos ele sempre recusa por questões pessoais. Não insisti por uma questão de respeito, mas obviamente ele faz parte da nossa história e é sempre bem vindo. O Luiz – não consigo chamar ele de Luigi – é uma figura divertida, querido por todos nós da banda.
Há alguma novidade para o show? Alguma música que vocês não tocavam há muito tempo?
Tem uma música do primeiro álbum que nunca tocamos, Sonic Butterflies, que será apresentada com um arranjo um pouco diferente. Para esse show resolvemos fazer um setlist com músicas de todos os discos, então tem algumas como Loneliness, que não tocávamos há muito tempo. Está sendo interessante retomar tudo isso.
Pretendem lançar algo para fechar esse ciclo?
No início do ano que vem será lançado o documentário Guitar Days, do Caio Augusto, e ele pediu às bandas que cedessem uma faixa inédita. Vamos gravar uma música para esta trilha sonora ainda este ano, mas essa será nossa última música. Nada de disco.
Quem quer ouvir Pin Ups hoje encontra o que onde? Tem algo nos aplicativos de streaming? Videos no YouTube? Os vinis e os CDs já são raridades?
Estamos conversando com o Rodrigo Lariú, da Midsummer Madness, que está nos ajudando a colocar as músicas em várias plataformas digitais. Isso deve acontecer em breve. Por enquanto o único jeito é procurar os discos no YouTube ou em blogs musicais. Vários deles disponibilizaram nossos álbuns para download, e achei isso demais, pois permitiu que muita gente nova ouvisse os nossos discos. Nossa discografia é difícil de achar mesmo… Os vinis são bem raros. O primeiro, Time Will Burn, nem eu tenho. O Gash, nosso segundo álbum, sumiu mas sei que a Locomotiva Discos tem cópias novas, que eles acharam em algum estoque ou algo do gênero.
E se o show rolar superbem corre o risco de ter uma turnê de despedida?
Olha, em princípio esse é mesmo o último show da banda, mas já recebemos convites para shows em outras capitais e até para um festival. Em São Paulo certamente será o último. Não pretendemos tocar em outros lugares, mas sei lá… como diz a velha música…









