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Essa versão que o Tame Impala fez para “Confide Me” é dessas que justifica artistas regravarem obras dos outros sem cair naquele nível de comparação que sempre conclui que o original é melhor. Kevin Parker escolheu um hit esquecido de Kylie Minogue cuja profundidade soul dance conversa diretamente com o momento em que vive a bordo de sua banda e de seu bissexto Currents – e revela nuances no original que provavelmente fugiu da maioria dos ouvintes à época. A banda mexe pouco no original, mas sobreposta à atual sonoridade do grupo e às texturas instrumentais características desta fase – tanto o entrelaçamento de teclados e guitarras, o vocal cantado apenas sobre a bateria e os agudos no refrão -, a versão é de chorar.

O cover foi feito para o programa australiano Like a Version, onde o grupo já havia regravado aquela música do Outkast.

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E esse disco novo do Deerhunter, Fading Frontier, saiu correndo em direção ao pódio de disco do ano, hein? É o álbum mais pop da banda mas isso não quer dizer que eles tenham abandonado seus instintos brutais e experimentalistas, como dá pra ver nessa apresentação que fizeram no Morning Becomes Eclectic, o clássico programa da rádio californiana KCRW no início do mês. Tocaram basicamente músicas do disco novo (à exceção de “Desire Lines”, que encaixou-se perfeitamente no clima de 2015 da banda) e esticaram a excelente “Snakeskin” num épico de minutos de microfonia e eletricidade – sem perder o groove.

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Em seu novo show, dirigido por Edgar Scandurra, a cantora Fafá de Belém resolveu encarar um repertório rock – e assim ela encarou um hit de Marina (“Fullgás”), uma desconhecida do Legião (“L’Avventura”), uma da Pitty, outra da Plebe Rude, Polnareff e Taiguara. Mas nenhum momento é tão arrebatador quanto a versão dela para o clássico prog “Hocus Pocus”, do grupo alemãoholandês Focus.

Além de Scandurra, a banda ainda conta com a cozinha dos irmãos Busic (Andria no baixo e Ivan na bateria), a mesma do Dr. Sin. Abaixo, mais versões do show que aconteceu no Teatro de Câmara da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, na terça passada:

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PJ Harvey ainda era uma estrela em ascensão quando tocou uma de suas músicas-chave – a irresistível “Rid of Me” – no metrô de Chicago, em 1993.

Que sonzeira.

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Depois de cancelar a perna de sua turnê que passaria pela América do Sul, o grupo inglês Foals volta à BBC com mais uma versão inusitada de uma música alheia. Mas se ao tocar o hit de Mark Ronson e Kevin Parker eles seguiram o original quase à risca, nesta versão para “What Kind of Man”, do grupo Florence + The Machine, eles trazem o hit para o início dos anos 80 e a transformam em uma pérola pós-punk.

E nem é a primeira vez que alguém salva essa música sem graça – o primeiro salvador foi o mago Nicolas Jaar, que a transformou em uma pedrada de mais de dez minutos de pista.

iggypopload

O show que Iggy Pop fez no festival do Lúcio já está inteirinho no YouTube, saca só:

Esse foi o setlist:

“No Fun”
“I Wanna Be Your Dog”
“The Passenger”
“Lust for Life”
“Skull Ring”
“Sixteen”
“Five Foot One”
“1969”
“Sister Midnight”
“Real Wild Child (Wild One)”
“Nightclubbing”
“Some Weird Sin”
“Mass Production”
“Search and Destroy”
“Raw Power”
“I’m Bored”
“Funtime”
“Neighborhood Threat”
“Down on the Street”
“Dum Dum Boys”

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Fui à minha terra natal no fim de agosto e pude ver mais um ótimo show da Céu, que me inspirou a escrever minha coluna do mês passado na revista Caros Amigos. Filmei parte do show também:

Céu em Brasília
O show da cantora na minha cidade natal abriu diversas intersecções entre o estado do Brasil e da música brasileira hoje

Visitei Brasília, minha cidade natal, no final do mês de agosto, e, mais de duas décadas distante, já me acostumei com os pequenos sustos que a transformação da cidade me causa. Era inevitável a ocupação dos intermináveis terrenos baldios por onde caminhava ou andava de bicicleta, sempre em bando, na adolescência. Mas no lugar do hoje quase extinto ecossistema do cerrado surgem prédios que parecem astronaves cubistas de concreto, arremedos caricatos da arquitetura simples e megalomaníaca de Niemeyer. Os pontos cardeais que serviam para separar as asas do Plano Piloto entre Norte e Sul e nomear as avenidas – que nem mesmo este nome tem – W3 e L2 hoje abrem-se em setores Sudoeste, Noroeste e afins ocupando o horizonte do belo mapa de avião idealizado por Lucio Costa, fazendo-o refém de um entorno de prédios que podem, aos poucos, engolir o horizonte 360 graus da cidade. O gigantismo de Águas Claras com suas dezenas prédios de 30 andares de uma cidade-satélite que simplesmente não existia no século passado numa capital famosa por só poder ter prédios de no máximo seis andares.

Há uma estranha leveza em Brasília que vem do simples fato de ela não ser uma cidade natural. Este ponto do planalto central nunca foi entreposto comercial, missão religiosa, abrigo contra intempéries – e sim uma estratégia para evitar levantes populares contra o governo de um país ainda rural e de levar a urbanização e industrialização para além das capitais em seu extenso litoral. Sua localização foi determinada num sonho de um padre católico que virou santo quando Mussolini comandava a Itália e a cidade foi erguida por um presidente mineiro que se via como uma reencarnação do faraó Akhenaton. Não é, de forma alguma, uma cidade normal.

E por ter sido imaginada e desenhada antes mesmo de existir, Brasília, como qualquer condomínio fechado, foi pensada para ser um lugar aprazível, bucólico, para se viver com qualidade de vida antes do termo virar prateleira de consumo. Mas ela não é um condomínio fechado, suas superquadras não têm grades nem muros, transita-se livremente por quase toda a cidade. Essa faceta foi se tornando mais plástica e artificial à medida em que atravessamos os anos 90 e os anos 00, quando a ostentação e o consumo passaram a ditar regras e determinar status. Mas, justamente por não ter muros, há uma vida que sobrevive longe da programação oficial e do funcionalismo público, especialmente a vida social e cultural da cidade.

Enquanto parte dos clubes à beira do Lago Paranoá (que, como a cidade, também não existia antes de 1960), das festas nas embaixadas e os restaurantes são habitados por políticos e empresários de todo o país e pelo colunismo social da cidade, há uma movimentação artística que passa longe dos clichês que definem a cidade como mera “ilha da fantasia”. Repito aqui um conselho que falo para todos que dizem querer conhecer a cidade: conheça algum amigo que seja residente para lhe dar as coordenadas do que fazer. Chegar em Brasília só com informações turísticas e guias de viagem vão lhe apresentar a uma cidade linda com um céu espetacular, mas aparentemente vazia e estéril.

E nem estou falando de circular pelo submundo estético ou urbano da cidade. Brasília sempre teve festas e bandas, festivais e shows, programas de rádio e sites, peças e saraus. Do Clube do Choro ao Cult 22, do blog Quadrado Brasília à PicniK, do Quinto à Balada em Tempos de Crise, do FestClown à Play, do falecido Gate’s Pub à Criolina, do Porão do Rock à Moranga – diferentes épocas tiveram diferentes ímãs de atração que reuniam todo mundo que não se encaixava no estereótipo do playboy funcionário público que parece ser a população média da cidade para quem não conhece ninguém em Brasília.

Pois cheguei na terrinha em plenas comemorações dos 20 anos do festival de teatro Cena Contemporânea, que também conta com uma faixa de shows gratuitos. Meu irmão me levou para a Esplanada dos Ministérios e a alguns metros da Catedral, ao lado do Museu da República (também conhecido pelo apelido de Estrela da Morte, pois seu formato circular lembra a terrível arma de Guerra nas Estrelas), estava acontecendo um show da Céu.

Quando me refiro à música brasileira do século 21 não estou falando em um movimento consciente ou a uma safra específica de músicos, intérpretes, compositores e instrumentistas que apareceu ao mesmo tempo. Me refiro a uma mudança de mentalidade que expande os horizontes da mutante música brasileira para além da caixinha restrita que a trancaram quando criaram o rótulo de MPB. E o marco zero desta mudança, na minha opinião, é Céu.

Uma cantora que não é apenas intérprete, mas também compõe, e que não veio da matriz básica da MPB atual, que é a bossa nova. Ela passa longe do clichê da cantora de barzinho ao requebrar sua musicalidade suavemente entre o samba, o dub, a soul music, a música africana e o reggae.

Seu trânsito por diferentes gêneros também acontece ao compor com diferentes parceiros – Lucas Santtana, Beto Villares, Siba, Gui Amabis, Thalma de Freitas, Fernando Catatau, Jorge Du Peixe, Anelis Assumpção são alguns dos nomes que já compuseram com ela – e ao selecionar as versões para seu repertório, que vão de Erasmo Carlos a Jimi Hendrix. No show que aconteceu num domingo à noite, ela passeou pela versão que Caetano Veloso fez no disco Transa para o samba de Monsueto “Mora na Filosofia”, o molejo original de “Visgo da Jaca” imortalizada por Martinho da Vila, no gingado da irresistível “Piel Canela” do Trio Los Panchos e na deliciosa visita a Pepeu Gomes em “Mil e Uma Noites de Amor”.

Com nova banda – formada por Vítor Gottardi na guitarra, o fiel escudeiro Lucas Martins no baixo e o mago do ritmo Pupilo, da Nação Zumbi -, Céu também mexeu bem com músicas já conhecidas. “Comadi” perdeu completamente seu sotaque reggae para ganhar um baixo pontiagudo de levada funk setentista. “Cangote” faz uma conexão caribenha com Belém e requebra na batida do carimbo. E pouco antes de cantar uma música do baterista Tony Allen, a usina de ritmo do nigeriano Fela Kuti (“Don’t take my kindness for weakness” – não ache que minha bondade é fraqueza), ela entregou-se à imortal “Concrete Jungle” de Bob Marley e entre versos que falavam de ilusão, corrupção e poluição, ela desabafou com o público.

“Vamos aproveitar que o Brasil está passando por uma limpeza e vamos pensar muito bem nos nossos atos, nossos votos e desconfiar de certas mídias e de coisas que aparecem, vamos analisar”, disse sem sair do ritmo. “Eu vejo isso como uma coisa muito positiva. A gente vai conseguir. Eu realmente acho difícil o que a gente tá passando agora, mas vamos pra frente, porque não tem nada igual ao Brasil, tamo junto”.

E vendo aquela pequena multidão em transe ao som dos doces vocais da paulistana, sob uma enorme Lua crescente e ao lado de imagens projetadas na parede abobadada do Museu, só conseguia pensar em uma onda de esperança que caminha sob as más notícias que pode finalmente mudar a cara de um país sempre em desenvolvimento. Não há nada igual ao Brasil – e estamos todos juntos nessa.

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Eis a íntegra do show que os Los Hermanos fizeram no Espaço das Américas no sábado passado.

O show teve duas horas de duração, “Anna Júlia” e o seguinte setlist:

“O Vencedor”
“Retrato pra Iaiá”
“Além do que se vê”
“Todo carnaval tem seu fim”
“O vento”
“Cadê teu suín-?”
“Do sétimo andar”
“Samba a dois”
“Condicional”
“Azedume”
“Pois é”
“Morena”
“Um par”
“O velho e o moço”
“A outra”
“Paquetá”
“Sentimental”
“Primeiro andar”
“Tenha dó”
“Descoberta”
“Deixa o verão”
“De onde vem a calma”
“Conversa de botas batidas”
“Último romance”
“A flor”
“Adeus você”
“Anna Júlia”
“Quem sabe”
“Pierrot”

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Tom Hiddleston – o Lóki dos filmes da Marvel – encarnou de vez o pai da country music ao interpretar clássicos da música caipira americana ao vivo em Nashville, a meca do gênero.

Não foi à toa: Hiddleston irá viver Hank no filme I Saw the Light, cuja estreia foi adiada para o ano que vem.

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Fui aos dois dias do Popload Festival, o festival do Lucio que aos poucos se estabelece no calendário brasileiro como um dos principais eventos de música em São Paulo, e a melhor constatação foi ver, na prática, que “festival de música” não é sinônimo para perrengue, pé na lama, chuva, som ruim, shows à luz do dia, dezenas de milhares de pessoas, quinze mil bandas e a grande maioria delas ruim, comida tosca, banheiros imundos, gente passando mal. Tudo funcionava – e isso é ponto não só para a organização como também para o Audio Club.

Cheguei no primeiro dia no meio do ótimo show do Sondre Lerche e não dá pra entender porque o francês não estava abrindo para o Belle & Sebastian, que tocaria no dia seguinte – era uma situação que todos iriam ganhar, inclusive o festival. Depois foi a vez do Emicida, que optou por fazer um show mais pesado e dando uma geral em toda sua carreira, em vez de tocar apenas o show do disco novo – embora o melhor momento tenha sido “Madume”, em que ele chamou os rappers Drika Barbosa, Raphael Alafin, Muzzique e Coruja para quase nove minutos de dedo na cara. A única concessão ao peso da noite foi a radiofônica “Passarinhos”, deixando claro que o artista sabia que a grande maioria do público nunca tinha visto um de seus shows.

E, como alguns, tive que fazer a escolha salomônica entre ver uma lenda viva do rock (ainda) em ação e um ás da atualidade em seu atual auge. Como aquela não era minha primeira vez com o velho Iggy e sabia que o show começava como uma memorável sequência “No Fun”, “I Wanna Be Your Dog”, “The Passenger” e “Lust for Life”, escolhi assistir ao início do show de roque para depois cair na pista do mago norueguês da disco music, Todd Terje, mas não sem antes assistir ao mosh que o quase centenário roqueiro deu sobre o público que nasceu depois que ele gravou “Candy”, nos anos 80. No clube do Audio, longe das guitarras, Terje determinava um transe rítmico em que timbres retrô pareciam ter nascido no século 20 – e até um velho hit da Whitney Houston não soava como mera citação, combinando perfeitamente com o repertório da noite, repleto de faixas de seu excelente It’s Album Time, do ano passado. O astral da apresentação do escandinavo estava tão bom que, mesmo com ele acabando antes do show do Iggy Pop terminar, bandeei pra casa.

No dia seguinte, consegui ver mais uma vez o Cidadão Instigado tocando seu tenso Fortaleza ao vivo e a banda de Fernando Catatau está imersa na alma pesada do disco – mesmo os momentos mais leves (como “Land of Light” ou “La La La La La La La”) soam bem mais intensos e elétricos do que gravados, mesmo sem sair de suas levadas originais. O Spoon fez um show quase às escuras e o intimismo dark da banda norte-americana não encontrou liga com o público do Belle & Sebastian. Foi um show preciso e empolgante, mas a grande parte do público apenas esperava a banda que encerraria o palco, como também aconteceu no show do Cidadão. Mas não era desânimo – o público estava atento e apreciou os dois shows, mas era uma abordagem muito cética perto do excesso de fofura do show Belle & Sebastian.

Não desgosto do Belle & Sebastian, mas estou longe de ser um fã. Contudo, é uma banda que pertence à minha geração e aquele era o quarto show do grupo escocês que assistia. O lado fofinho, sorridente e Hello Kitty da banda quase chega a me irritar – gosto deles quando esquecem o Nick Drake para revisitar o soul dos anos 80 via Inglaterra. O mais curioso, no entanto, foi a onda jovem que parece ter descoberto o grupo nos últimos anos. Quando assisti ao show que o grupo fez na saudosa Via Funchal há cinco anos, tive a clara sensação de que todos os presentes ali haviam assistido (ou queriam ter visto) o grupo em sua primeira passagem no Brasil, quando tocaram no também saudoso festival Free Jazz (o avô do igualmente saudoso Tim Festival). Eram os indies velhos (como eu), que voltavam para ver uma banda que foi importante para eles em suas juventudes. Mas no encerramento do festival do Lúcio havia muito gente no início dos 20 anos que com certeza não estava naquele show de 2010. A grande interrogação ficou pela forma como esse público descobriu a banda: foi trilha sonora de filme? Tocou na novela? Entrou em videogame? Descoberta semanal do Spotify?

O fato é que essa nova geração de fãs se entregou à fofura do Belle & Sebastian e o show foi muito mais passional que o de Iggy Pop, por incrível que pareça. A felicidade no ar era parecida com a do show que a banda fez em São Paulo no início do século, quase sem acreditar que não apenas tinham fãs no Brasil como eles sabiam cantar todas as músicas. Essa constatação guiou a apresentação da banda, que foi pouco a pouco hipnotizando o público em sua bolha de otimismo, o que também cativou os mais velhos presentes – tocaram até “Legal Man”, que é minha música favorita deles. Foi um show tão divertido quanto cativante e, ao contrário do Iggy Pop, não habita apenas o palco, como um deus do rock. O momento já clássico dos shows da banda é justamente quando trazem os fãs para o palco. Querem dizer que são pessoas como eles. Enquanto o mosh de Iggy Pop na galera é um elogio à saúde atual do roqueiro e uma honra para os pobres mortais que o seguraram antes que ele caísse no show, a subida ao palco do Belle & Sebastian é um abraço coletivo, um carinho de cena que funciona como um colo para pessoas que reconhecem mais as canções que os integrantes da banda.

E é essa dicotomia – entre o antigo rock clássico e o clássico indie rock – que precisa ser resolvida pelo Popload. Ao trazer Iggy Pop como uma das atrações em um festival essencialmente indie, ele abre a possibilidade de realizar shows de veteranos para poucos milhares de pessoas. Mesmo para uma banda como o Belle & Sebastian, o palco do Audio foi bem mais acolhedor e, na medida do possível, intimista do que os outros dois quando eles passaram por São Paulo (o clube da Água Branca deve ter menos que a metade do tamanho da Via Funchal). A escolha de Iggy Pop pode criar uma expectativa errada para o festival (o público da Kiss FM e do Café Piu Piu certamente iria em peso caso o show tivesse uma divulgação específica para canais não-indies, o que não aconteceu) ao mesmo tempo em que ele pode fugir da fórmula “o hype da vez” trazendo velhos de guerra e indies grandes para tocar num palco que os deixa quase em cima do público.

Abaixo, alguns vídeos que fiz no festival.