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Num ano em que assisti a quase 300 shows (284, para ser mais exato), nenhum teve o impacto maior do que o Radiohead no estádio do Palmeiras. Não é apenas uma questão de gosto pessoal, do fato de estar entre amigos ou das décadas de experiência que o grupo inglês carrega. O Radiohead é um formato avesso ao show em estádio, embora tenha sido realizado em um e terminado com um dos hits mais próximos do formato rock de arena da carreira da banda (“Fake Plastic Trees”, embora utilizada com um efeito anticlimático). É o tratamento camerístico de a banda de rock, a substituição do conservatório do rock progressivo pelo laboratório de música eletrônica que envolve e impressiona, tanto pela complexidade quanto pelo lirismo. Diferente do show catártico que o Brasil assistiu há quase dez anos, quando o grupo passeava pelo mundo mostrando seu melhor disco, In Rainbows, este de 2018 apertou em outros pontos emotivos, principalmente à luz fria de seu disco mais recente, A Moon Shaped Pool. O entrosamento da banda torna mesmo momentos mais cerebrais como “Everything in Its Right Place”, “Pyramid Song”, “2 + 2 = 5” e “The Numbers” entregas intensas, fazendo números ainda mais emocionais (como “Daydreaming”, “All I Need”, “No Surprises”, “Nude”, “Bodysnatchers”, “There There” e, claro, “Paranoid Android”) transcenderem. Seguem sendo a melhor banda de rock do mundo e um dos espetáculos ao vivo mais fortes deste século, indo além do que se espera deste formato já ultrapassado. Infelizmente a acústica exata para o show só funcionou para quem esteve na infame área vip do evento, tornando um sofrimento assistir ao show da pista comum (ou na “classe econômica”, como disse o Lúcio). Precisamos superar este complexo, inclusive.

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A mensagem que apareceu no telão em todos os shows de Roger Waters no Brasil deixava tudo evidente. Foi ali que, para muitos, a ficha caiu. Não era uma paranoia ou uma teoria da conspiração: o neofascismo está aí. O ódio saiu do armário e está pronto para sair grunhindo suas maldades amplificadas por ferramentas que se embrenharam em nossas vidas. Redes sociais, sites de vídeo, smartphones e programas de troca de mensagem forjaram uma nova realidade digital distorcida cujo flerte intenso com a teocracia e o autoritarismo não é mais um alerta distante – é real e palpável. Uma das principais lições deste ano é lidar com esta inevitabilidade e simplesmente resistir. Erguer suas crenças e pensamentos ainda mais alto e manter foco no próprio trabalho, resistindo ao pânico, ao medo e à raiva, sentimentos mais próximos do reacionarismo do que a construção de um horizonte próximo, única meta possível nestes tempos sombrios. Só assim poderemos fazer uma política possível diferente desta orquestração de interesses que ocorre a cada quatro anos – e que está cada vez mais suscetível a influências sinistras.

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Num ano em que vi shows brasileiro às centenas, a apresentação ao vivo que mais me impressionou foi o show de lançamento que o Quartabê fez para seu disco Lição #2: Dorival no Auditório Ibirapuera. O grupo causa um certo estranhamento inicial por seu jazz heterodoxo de formação inusitada e pelo clima de piada interna que mistura desde o nome da banda (que brinca com o tipo de humor entre seus quatro integrantes) até a própria escolha deste formato de discos, em que mergulham na obra de um professor para fazer este inusitado fichamento musical. Por sua formação acadêmica, o grupo disseca seus autores favoritos num nível de ciência que vai além do improviso, do ritmo, do timbre, da orelhada, do feeling – sem nunca abandonar nada disso. Mas algo foi para um lado sobrenatural neste primeiro show. Claro que a sincronicidade interna ajudou – fui ao show com zero expectativa, principalmente após ser atordoado pela intensidade do lançamento da mixtape Comunista Rico de Diomedes Chinaski no CCSP -, mas a sinergia de Beraldo, Chicão, Joana e Mariá no palco – tanto musical quanto cênica – aliada à luz miraculosa de Olívia Munhoz fez a reinvenção de Dorival Caymmi alcançar uma estratosférica estética que poucos shows brasileiros conseguiram chegar perto. Que momento mágico!

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Minha maior aventura profissional de 2018 foi inventar um show. Uma dúvida já acompanhava o início do ano quando me perguntava sobre a execução do trabalho de curadoria para além de um espaço físico específico, como já vinha fazendo em 2017, quando consegui me explicar a separação entre programação e curadoria, sempre provocando artistas a fazer algo diferente ou único ao apresentar-se para onde estava o convidando, seja no CCSP ou no Centro da Terra. Mas vislumbrava em buscar outros espaços para mostrar obras em que eu poderia influenciar em sua criação, mais do que simplesmente abrir espaço para a criação alheia. Foi quando pensei no gancho dos 50 anos da Tropicália e como ir além da celebração da invasão baiana de São Paulo, da reverência aos Mutantes ou ao disco-manifesto que fundou o movimento. Foi quando me veio à lembrança a importância de Duprat.

Quase vinte anos antes, eu havia entrevistado o próprio Rogério Duprat pessoalmente em uma matéria sobre os Mutantes para a falecida revista Bizz. Na pesquisa para fazer a entrevista com aquele que então conhecia como um dos mentores acadêmicos do tropicalismo, descobri um maestro erudito rebelde, progressista que flertava com o cinema e a publicidade e que tinha assinado obras históricas da música brasileira que iam para além da ebulição tropicalista. Ao cogitar um espetáculo que celebrasse a importância de Duprat, eu também estava reverenciando um personagem pouco lembrando nas homenagens clássicas da música brasileira, que quase sempre comemoram o intérprete, o compositor ou o músico. Era a possibilidade de festejar um arranjador – e transformar esta festa em um reforço sobre a importância deste personagem.

Chamei o João Bagdadi, do selo Risco, com quem havia trabalhado no ano anterior no Centro da Terra, e ele colocou o produtor Charles Tixier e o músico Arthur Decloedt para pensar como fazer este projeto. Os dois assumiriam a bateria e o baixo de uma banda que recriaria as obras arranjadas por Duprat no palco e também assinariam os arranjos e a direção musical do espetáculo. Juntos, pensamos em uma obra que pudesse ser apresentada como uma composição erudita, sem espaço para apresentações ou palmas, enfileirando diferentes aspectos da produção de Duprat à medida em que os convidados entravam. Juntos, nós quatro e o produtor Gui Jesus, pensamos em outros aspectos da apresentação: quem seria a banda, os intérpretes, quem assinaria o figurino, a iluminação, a direção de palco, o som, qual seria o repertório e quem tocaria qual instrumento. Assim nascia o Professor Duprat – Maestro da Invenção.

O resultado foram duas apresentações memoráveis no Sesc Pompeia que reuniram alguns dos maiores nomes da atual música brasileira cantando clássicos de nosso cancioneiro devidamente reverenciados pelas referências de Duprat. O time que reunimos desenvolveu-se muito tranquilamente, sem nenhum atrito e em pouco tempo tínhamos uma senhora apresentação de pé. Foi minha primeira assinatura com diretor artístico, atividade que irei exercer mais nos próximos anos, e também o primeiro trabalho com novos amigos que certamente me ajudarão a criar mais coisas.

E o Professor Duprat não ficou apenas em 2018 não – devemos ter novidades no ano que vem.

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Doug Martsch nos devia uma visita desde os anos 90, quando as poucas dúzias que sabiam o que era Built to Spill no Brasil brigavam para saber qual era o melhor disco da banda, There’s Nothing Wrong with Love, Perfect from Now On ou Keep it Like a Secret (este último é o meu favorito) e quando as primeiras bandas norte-americanas começaram a vir para o Brasil graças a esforços de pequenos produtores brasileiros. Era um tempo em que comemorávamos a vinda do Seaweed ou do Man or Astroman? como se fosse a do Sonic Youth ou dos Pixies, numa época em que essas bandas nem em sonho cogitavam vir para o Brasil. O termo indie ainda designava um jeito de trabalhar e aos poucos se transformava em gênero musical, um rótulo tão difuso e pouco específico quanto “rock alternativo” ou “MPB” e as pessoas ainda discutiam por música de forma passional.

Vinte anos depois, a maioria das bandas gringas que podiam vir ao Brasil já vieram, os pequenos produtores se tornaram marcas estabelecidas e abriram caminhos para novos players que hoje realizam festivais anuais trazendo artistas que estão acontecendo agora no exterior, independentemente do tamanho comercial que tenham em seus países. O clichê do telejornal que dizia que “o Brasil entrou na rota dos shows internacionais” foi tão repetido que parou de ser dito – e isso também diz respeito ao mercado de médio porte. O termo indie tornou-se uma hashtag qualquer e está tão próximo da música quanto da publicidade e da moda – e a vinda do Built to Spill para o Brasil por algum motivo ainda parecia ser uma utopia distante.

Quando aconteceu, em 2018, lavou a alma dos poucos fãs que nos anos 90 esperavam por aquele momento. Ainda tive a felicidade de assistir à passagem do grupo por Belo Horizonte, cidade que pode ser considerada um marco zero deste movimento, uma vez que sediou o mítico BHRIF, trazendo o Fugazi pela primeira vez ao Brasil em 1994, e também era a cidade onde funcionava a produtora Motor Music, que trouxe vários indies no Brasil no final do século passado, de Jon Spencer Blues Explosion a Superchunk, passando por Stereolab, Yo La Tengo e Tortoise, semeando as sementes que germinaram este enorme pomar que é esta cena atualmente.

Assisti ao show ao lado do próprio Martsch, do lado do palco do impressionante casarão que é o Automóvel Clube da cidade, e do querido Marcos Boffa, que há vinte e cinco anos realizou o BHRIF para fundar pouco depois a própria Motor ao lado do Jeff e da Fernanda. Foi neste momento que várias fichas caíram: na bateria do Built to Spill estava Lê Almeida, da heróica Transfusão Noise Records e do Escritório, dois focos de resistência cariocas do faça-você-mesmo; o Built to Spill era o headliner do festival Música Quente, do Marcelo Salgado, que vi começando a carreira nos tempos em que a onda era ter um blog; o show estava vindo para o Brasil graças à produtora Powerline do Leandro “Emo” Carbonato, que também vi começando a trabalhar na Trama Virtual para depois aprender a trazer bandas gringas para o Brasil quando esteve no Clash – e por aí foi. Juntando aqueles vários elementos na cabeça enquanto ouvia um guitar hero indie debulhar seu instrumento em solos intermináveis me deu a sensação de que uma etapa havia sido cumprida e a música no Brasil já estava mesmo em outro patamar em relação ao resto do mundo. Mesmo quando estamos falando apenas em indie rock, que parece ser a descrição de um gênero frágil e arrogante ao mesmo tempo, mas que na verdade resume um jeito de fazer as coisas, mesmo em tempos de crise.

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O Guia da Folha me convidou para votar nos três melhores shows internacionais que fui este ano em São Paulo – votei no Radiohead, Nick Cave & The Bad Seeds e Roger Waters, nesta ordem -, mas no cômputo geral do júri escolhido (que ainda contava com a Fabiana Batistela, o Thiago Ney, o Rafael Gregório e o Thales de Menezes) deu Nick Cave.

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Na última coluna Tudo Tanto de 2018, conversei com a Roberta Martinelli, que realizou o espetáculo Acorda Amor junto com o baterista Décio 7 e reuniu Maria Gadú, Liniker, Luedji Luna, Letrux e Xênia França para interpretar canções da história da música brasileira que ecoam esta fase pesada que estamos vivendo nestes anos – e que deve virar disco (além de mais shows) em 2019. Leia a coluna lá no Reverb.

Radiohead de natal

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Thom Yorke começa “Reckoner” citando “Noite Feliz” no show que sua banda fez em Las Vegas neste sábado.

Boas festas. O Trabalho Sujo entra em modo retrospectiva 2018 a partir desta quarta-feira.

bk

A quarta edição do festival pernambucano Guaiamum Treloso Rural, que acontece no dia 9 de fevereiro do ano que vem, em Camaragibe (na região metropolitana do Recife) fechou sua escalação ao anunciar as presenças do rapper carioca BK (foto), da psicodelia capixaba do My Magical Glowing Lens, da novidade potiguar Luisa e Os Alquimistas e o músico pernambucano Escurinho, que se juntam aos artistas Cordel do Fogo Encantado, Jaloo, Carne Doce, MC Carol, Ana Frango Elétrico e Marrakesh – um bom apanhado na cena de midstream brasileira, já começando o ano temperando bem para todos os lados. O festival acontece na Fazenda Bem-Te-Vi e os ingressos já estão à venda (mais informações no site do festival).

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As musas cariocas Letrux e Mãeana unem suas forças no espetáculo Bruxas nesta sexta e cantam PJ Harvey, Rita Lee, Ângela Rô Rô e outras deusas esotéricas da música popular no último espetáculo da curadoria de música do Centro Cultural São Paulo em 2018, na Sala Adoniran Barbosa, a partir das 21h (mais informações aqui).