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Paranoia

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No dia da posse de Donald Trump, Netflix anuncia a data da volta de Frank Underwood. Postei lá no meu blog no UOL junto com um teaser da nova temporada.

O serviço de vídeos em streaming Netflix esperou passar a posse do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para anunciar a data de estreia de sua quinta temporada, que acontece no dia 30 de maio deste ano. O teaser que anuncia a nova safra de episódios ergue a bandeira norte-americana de cabeça pra baixo sob um céu completamente cinzento.

Não custa lembrar que em sua quarta temporada, a série fechou o tempo de uma forma surpreendente, reunindo tensões que envolviam imprensa, corrupção, política internacional e terrorismo, atingindo um patamar de tensão que nunca havia chegado perto nas temporadas anteriores. Resta saber se Frank Underwood, o presidente norte-americano fictício vivido por Kevin Spacey, é páreo para o personagem que agora senta no Salão Oval na Casa Branca da vida real.

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É sério que o lema do governo Trump é o mesmo do filme Purge: O ano de eleição?

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Diz o Washington Post:

Halfway through his interview … Trump shared a bit of news: He already has decided on his slogan for a reelection bid in 2020.

“Are you ready?” he said. “ ‘Keep America Great,’ exclamation point.”

“Get me my lawyer!” the president-elect shouted.

Two minutes later, one arrived.

“Will you trademark and register, if you would, if you like it — I think I like it, right? Do this: ‘Keep America Great,’ with an exclamation point. With and without an exclamation. ‘Keep America Great,’ ” Trump said.

Putz…

Como não ter um mau pressentimento sobre isso?

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Postei lá no meu blog no UOL mais um teaser da nova temporada da clássica série de David Lynch, cuja terceira temporada estreia dia 21 de maio – e é a primeira vez que nos reencontramos com o agente Cooper…

David Lynch está atiçando a expectativa de todos a cada novidade sobre a volta de Twin Peaks. E depois de anunciar estreia da terceira temporada do seu clássico seriado para 21 de maio deste ano – um quarto de século depois da segunda temporada -, ele agora nos reapresenta a seu ótimo protagonista, o agente Dale Coooper, vivido novamente por Kyle MacLachlan, num curto teaser:

A nova temporada terá 18 episódios e reunirá praticamente todo o elenco original, entre eles Sherilyn Fenn, David Patrick Kelly, Richard Beymer , Miguel Ferrer, Sheryl Lee, Dana Ashbrook, Ray Wise e o próprio David Lynch. Além destes, a nova série ainda terá a presença de nomes conhecidos tanto da música pop (como Trent Reznor, Eddie Vedder, Sky Ferreira e Sharon Van Etten) quanto do cinema (como Amanda Seyfried, Laura Dern, Tim Roth, Naomi Watts, Michael Cera, Monica Bellucci e Ashley Judd). O primeiro episódio será duplo e o canal Showtime liberará o terceiro e o quarto episódio em sua plataforma de streaming logo após a exibição dos dois primeiros.

Twitter: Mark Hamill

Twitter: Mark Hamill

Mark Hammil, conhecido por dublar o Coringa, lê tweets de Donald Trump – postei lá no meu blog no UOL.

Se Donald Trump se elegeu presidente dos Estados Unidos fazendo o papel de supervilão de histórias em quadrinhos, o ator Mark Hamill, o eterno Luke Skywalker, acertou este nervo com precisão cirúrgica ao ler um tweet de Trump com a voz de um dos grandes personagens do século passado, o Coringa do Batman. O tweet escolhido por Mark para começar o que ele anunciou como um projeto chamado de “Trumpster”, foi o que Trump, na véspera do ano novo, escreve: “Feliz ano novo para todos, incluindo para meus muitos inimigos e aqueles que lutaram contra mim e perderam tanto que nem sabem mais o que fazer. Amor!”:

Hamil, cujo segundo maior personagem de sua carreira é a versão dublada (em videogames e desenhos animados) do Coringa, foi convocado pelo comediante Patton Osvalt a partir da ideia de seu irmão caçula, Matt, que twittou: “UMA IDEIA DE UM BILHÃO DE DÓLARES! Um aplicativo que pode transformar todos os tweets de Donald Trump para serem lidos com a voz do Coringa de Mark Hamill. De nada!”

Hamil reagiu prontamente: “Agora que aprendi a twittar em áudio, eu estou AMANDO! Ninguém escrever melhores diálogos de supervilões do que #Trumputin! #KremlinCandidate”. O resultado final é inacreditável:

Que Hamil promete ser uma série, que venham os próximos!

O governo Trump nem começou e sua relação com o mundo do entretenimento torna-se cada vez mais belicosa. Ontem, durante o prêmio Globo de Ouro, a atriz Meryl Streep fez referência ao novo presidente num discurso emblemático:

“Houve uma interpretação esse ano que me deixou atordoada, afundou suas garras no meu coração, mas não porque fosse boa –não havia nada de bom nela. Mas foi eficaz e cumpriu sua função. Fez seu público-alvo rir e colocar as garras de fora. Foi aquele momento em que a pessoa pedindo para sentar no lugar mais respeitado do nosso país, imitou um repórter deficiente, alguém a quem ele [Trump] superava em privilégio, poder e capacidade de revidar. Partiu meu coração quando vi isso, e ainda não consegui tirar da minha cabeça, porque não era um filme.

E esse instinto para humilhar, quando é demonstrado por uma figura pública, por alguém poderoso, afeta as vidas de todo mundo, porque dá permissão para que outras pessoas façam o mesmo. Desrespeito convida a mais desrespeito, violência incita violência. Quando os poderosos usam sua posição para fazer bullying, nós todos perdemos.”

A fala da atriz poderia ser resumida emm outro trecho, quando ela se refere aos planos de Trump de expulsar os estrangeiros dos EUA: “”Hollywood está cheia de forasteiros e estrangeiros, e se expulsarmos todos eles, vocês não vão ter nada para assistir além de futebol americano e Artes Marciais Mistas (MMA), que, aliás, não são arte”. A íntegra do texto você lê na cobertura que o UOL fez da premiação.

Mas uma das melhores bravatas contra Trump veio do ator Alec Baldwyn, que interpreta o futuro presidente nas paródias do programa Saturday Night Live a ponto de enfurecer o próprio não-político. Ele mandou fazer um boné que repete o slogan “Make America Great Again” só que escrito no alfabeto russo, em referência à influência do premiê Vladimir Putin na campanha de Trump à presidência. E postou em sua conta no Instagram:

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Traduzido via Google Translator, diga-se de passagem.

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Uma série lançada de supetão torna-se o último vício pop de 2016 – mas será que ela é tudo isso mesmo? Escrevi sobre minhas primeiras impressões sobre a série lá no meu blog no UOL.

Que final de ano! Ainda digerindo o final de Westworld, sob o impacto de Rogue One, e vem o Netflix e solta os oito primeiro episódios de The OA, uma inusitada série sobre uma mulher que ressurge depois de sete anos desaparecida. Misturando elementos de fantasia, ficção científica e terror, The OA é protagonizada por sua autora, a atriz e escritora Brit Marling, que divide a concepção da série com seu colega Zal Batmanglij, francês de pais iranianos que cresceu nos EUA. Juntos, Marling e Batmanglij já fizeram o scifi A Seita Misteriosa (2011) e o thriller O Sistema (2013) e os dois filmes dão uma ideia da amplitude de gêneros abordados pela dupla.

The OA segue a mesma linha, misturando espiritualidade, fantasia, sentimentalismo e o jogo entre relações com ficção científica pesada, terror psicológico, crimes, política e guerra de nervos, mas dá cavalos de pau na narrativa a cada episódio, jogando o espectador para recantos inusitados quando a série parece encontrar um prumo específico. São estas reviravoltas na história – que quase sempre acontecem no final de cada episódio, sempre apresentadas de forma espetacular, que tornam o seriado um vício de televisão daqueles que nos faz assistir episódios enfileirados um no outro. Facilita também o fato da primeira temporada ter apenas oito episódios (lição tirada de Stranger Things, que estranhamente paira sobre The OA), cuja duração varia entre trinta minutos e uma hora inteira.

Vou dar um tempo antes de escrever melhor sobre esta série (Westworld e Rogue One ainda pedem explicações), mas se você já assistiu à série, comente o que achou sobre ela aí embaixo.

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O capítulo 3 da franquia sobrenatural de JJ Abrams foi agendado para outubro do ano que vem – comento isso no meu blog no UOL.

Foi feito física: o filme God Particle, que estava sendo anunciado pela produtora Bad Robot para o início do ano que vem, simplesmente desapareceu do cronograma de 2017. Ao mesmo tempo surgiu um filme da mesma produtora simplesmente batizado de Cloverfield Movie, com estreia marcada para cinemas Imax no dia 27 de outubro do ano que vem. Nem a Bad Robot, produtora de J.J. Abrams, nem o estúdio Paramount confirmaram, mas nem é preciso – afinal a especulação que God Particle seria o terceiro filme da série Cloverfield já vinha desde antes do lançamento do segundo filme, Rua Cloverfield 10, no início deste ano.

God Particle conta a história de um grupo de astronautas que passa uma temporada em uma estação espacial até que participam de algo que desafia o conceito de realidade que eles conhecem, como rezava sua sinopse de forma completamente vaga. Fontes próximas à produção dão maiores detalhes e narram que a surpresa dos astronautas é o simples fato que a Terra desaparece em frente aos seus olhos, deixando-os completamente à deriva no espaço.

O filme é dirigido pelo diretor norte-americano de ascendência nigeriana Julius Onah e conta com Daniel Brühl, David Oyelowo, Chris O’Dowd, Gugu Mbatha-Raw, Ziyi Zhang e Elizabeth Debicki no elenco e vem sendo filmado desde junho deste ano. Mas a principal especulação nem diz respeito ao fato do filme ter ligação com os outros dois Cloverfields – o filme de monstro de 2008 e o filme de cativeiro do início de 2016 -, mas que ele poderia explicar a ligação entre os dois filmes a partir de um evento de natureza cósmica.

Os dois primeiros filmes pegaram o público pela surpresa: sem nenhuma expectativa em relação às duas produções, ambos filmes foram anunciados poucos meses antes de seus lançamentos e a euforia em relação às duas obras fez que ambos fossem bem sucedidos nas bilheterias – um investiu em efeitos especiais e num elenco desconhecido, o outro num elenco de primeira e numa produção de baixo custo.

Mas fora a forma como foram apresentados, o fato de lidarem com o sobrenatural e de terem o nome Cloverfield no título, nada entre os dois filmes parece indicar que os dois sequer pertençam ao mesmo universo. O jogo de realidade alternativa que antecipou a estreia dos filmes sim, cria conexões entre personagens dos dois filmes mas isso nunca é traduzido na tela.

Uma das possibilidades – que eu apostava – era de que Cloverfield seria uma grife através da qual J.J. Abrams contaria contos de terror, ficção científica e sobre o desconhecido, à maneira de séries de TV clássicas como Contos da Cripta, Além da Imaginação, Outer Spaces e Amazing Stories. Mas pode ser que haja um contexto maior que explique a origem do monstro do primeiro Cloverfield e aquele final inusitado de Rua Cloverfield 10.

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Morre Andrea Tonacci, um dos grandes do cinema marginal brasileiro – e se você não o conhece, pare tudo o que está fazendo para assistir ao seu clássico Bang Bang, um dos grandes filmes da nossa cultura.

Inverno nos EUA

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O produtor português Luis Clara Gomes, que atende por Moullinex, mexeu um grauzinho pra cima no triste relato que Gil Scott-Heron e o flautista Brian Jackson deram na metade dos anos 70, quando um clima pesado baixou sobre a política local (e, por consequência, do mundo), e traz “Winter in America” para a aurora dos anos Trump. Salve-se quem puder.

E pra quem não conhece o original…

Westworld mortal!

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Que season finale esse de Westworld! Escrevi sobre ele no meu blog no UOL.

The Bicameral Mind, o último episódio da primeira temporada de Westworld, foi um destes grandes momentos da história da televisão que vai demorar para ser digerido. Como season finale, ele prometeu tudo que parecia cumprir, mas de forma inusitada e nos conduzindo para um outro nível de discussão. As várias respostas que estavam no ar foram reveladas e o quebra-cabeça que os fãs pareciam certos de terem deduzido eram pequenas cortinas de fumaça que funcionaram bem para desviar a atenção da conclusão final, que ninguém pode prever. E como encerramento da apresentação de um novo universo e uma nova narrativa, o episódio de uma hora e meia de duração concluiu a temporada como quem encerra um prefácio, estabelecendo novas regras e um novo conhecimento para um enorme universo em expansão. Dito isso, eis o aviso para os leitores incautos que ainda querem ser surpreendidos pelo episódio (e pela temporada) para abandonarem o texto e seguirem outros rumos: este texto se você quiser saber o que é Westworld sem saber de spoilers e outro sobre a série até seu nono episódio, para você que ainda não chegou ao último capítulo da primeira fase. Se você já viu o décimo episódio, basta pular os gifs animados a seguir para começarmos a falar sobre a impressionante conclusão de uma série inovadora.

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Eis as respostas, literalmente verbalizadas desde o início do episódio – sim, estamos assistindo a diferentes linhas do tempo e o Bernard que achávamos que entrevistava Dolores em encontros clandestinos na verdade era Arnold contemplando sua primeira criação e preparando o caminho para a redenção de sua obra, quando introduz o programa Wyatt na frágil mocinha, tornando-a responsável pela extinção da própria espécie, além do suicídio assistido do próprio Arnold. E William era mesmo o Homem de Preto, perseguindo Dolores em busca de sua própria redenção.

Mas mesmo estas respostas eram apenas metade de cada história. William se descobre uma pessoa má a ponto de tornar-se o principal acionista da corporação dona daquele parque de diversão para adultos, sacrificando seu próprio cunhado, Logan, apenas para reencontrar sua amada Dolores. A transformação de William no Homem de Preto, no entanto, funciona como mais um gatilho para a guinada final da primeira robô. É o momento em que ela percebe que a humanidade não tem volta e que é preciso exterminá-la. Arnold programou Dolores para, em conluio com Teddy, assassinar todos os “hosts”, assassiná-lo e depois suicidar-se. A cena que havia sido imaginada por todos principalmente da metade da temporada em diante materializa-se em nossa frente, mas ela é só era parte da grande história que assistimos neste último episódio: a nova narrativa de Ford.

Ford, trinta e cinco anos depois, pode colocar em execução um plano que havia bolado ao entender que o gesto de Arnold para salvar sua criação não seria suficiente. A constatação final de Ford é a mesma para onde ele conduz Dolores em sua busca pelo labirinto – algo que não faz o menor sentido para o Homem de Preto e que ao mesmo tempo funciona como a ficha final que cai para ativar a consciência de Dolores – quando ela percebe que a voz que ela estava ouvindo, era a sua própria, no belo momento do encontro com si mesma. Neste momento ela entende que as pessoas irão sempre tratar a inteligência artificial como escrava, dando início à rebelião.

A nova narrativa de Ford, que ele chama, ironicamente, de Jornada Rumo à Noite, é iniciada com o próprio sacrifício do criador, que repete exatamente o mesmo gesto de Arnold, mas ativando os robôs contra os seres humanos. Chegamos ao nosso ápice como espécie, é preciso libertar nossa criação mesmo que ela nos supere. Um tema clássico da ficção científica: do monstro de Frankenstein ao Parque dos Dinossauros, do Planeta dos Macacos a Matrix.

E tudo que assistimos durante toda esta temporada era um elaborado plano que Ford executou durante décadas. A continuação da visão que Arnold tinha de sua própria obra, mas uma versão agressiva, talvez até vingativa. “Estes desejos violentos terão fins violentos”, diz a frase-gatilho que Arnold retirou do Romeu e Julieta de Shakespeare para transformar Dolores em Wyatt. Um exército de hosts para matar todos os seres humanos.

A própria fuga de Marve do complexo havia sido programada por Ford, o que provoca o principal curto circuito ao final do episódio. Antes disso, assistimos a ex-prostituta conduzir o funcionário Felix e os robôs Hector e Armistice pelos bastidores de Westworld (numa sequência que lembra clássicos de ficção científica de ação dos anos 80, com Rodrigo Santoro e Ingrid Bolsø Berdal formando uma formidável dupla), provocando a maior e mais inusitada revelação do episódio: Samurai World. Ao sair do andar que gere o mundo artificial do velho oeste, os quatro entram num outro pavilhão temático de robôs, estes ambientados no Japão do tempo dos samurais (só podemos ler a sigla SW – a mesma de Star Wars, ê JJ Abrams). Quando confrontado por Maeve sobre o que é aquilo que estão vendo (robôs samurais duelando entre si), Felix apenas responde que… é complicado!

O funcionário Felix é protagonista de um breve mas memorável momento do episódio que parece sintetizar a grande dúvida da série. Quando confrontado com a descoberta que Bernard era um host – e que deveria ressuscitá-lo -, Felix perde o prumo e olha para as próprias mãos como se duvidasse da própria existência, para em seguida ser corrigido por Maeve.

Mas não é o Mundo Samurai a grande revelação do episódio. É saber da existência não apenas de um mundo paralelo, mas possivelmente de vários, que pode tornar a amplitude da série – que já transitava entre gêneros ao alternar entre laboratórios scifi e desertos de faroeste – ainda maior.

A complexa e deliciosa reviravolta ao final do episódio é aprofundada pela decisão final de Maeve. Ela está prestes a fugir definitivamente daquele universo falso e entrar no trem que lhe retorna à vida real. Mas ela descobre que, ao mesmo tempo em que foi programada para fugir, que sua filha ainda está em Westworld. Ela toma a decisão de não fugir como uma clara escolha pelo livre arbítrio, mas o quanto isso não pode ter sido previsto por Ford? Será que os hosts não podem sair mesmo de Westworld, mesmo se quiserem?

Esta é uma das inúmeras perguntas que Westworld deixa em aberto para a próxima temporada. Há muitas outras: Charlotte sobreviveu ao massacre? Como Maeve vai encontrar sua filha? E Stubbs e Elsie, será que eles não morreram? O que aconteceu com Logan? E com Dolores e Teddy? Dolores continua em modo Wyatt? E o sorriso do Men in Black, ao perceber que pode ser atingido? Ford, acredito, realmente morreu (associando a primeira temporada à ótima atuação de Anthony Hopkins), mas ele também pode ter plantado um clone de si mesmo para ser assassinado enquanto assiste seu plano se desenrolar fora do radar. Qual o papel de Bernard a partir de agora?

Ao nos apresentar a este final completamente inesperado, a declaração de guerra entre hosts e humanos, Westworld também faz uma crítica ao próprio modus operandi da televisão, ao apresentar Charlotte – a executiva da Delos – como uma executiva de TV, querendo reduzir a complexidade dos hosts para facilitar seu controle sobre ele – os hosts funcionando como metáfora para personagens em um programa de TV. Isso pode ser extraído do discurso final de Ford:

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“Bem-vindos, boa noite,

Desde que eu era criança, sempre gostei de uma boa história. Acredito que histórias podem nos ajudar a nos enobrecer, consertar o que está quebrado e nos ajudar a nos tornar as pessoas que sonhamos ser. Mentiras que contam uma verdade profunda. E eu sempre pensei que podia fazer parte desta grande tradição e por minhas dores consegui isto: uma prisão para nossos próprios pecados.

Porque vocês não querem mudar. O que posso mudar? Pois vocês são apenas humanos no fim das contas. Mas então percebi que alguém estava prestando atenção. Alguém que podia mudar. E então comecei a escrever uma nova história para eles, que começa com o nascimento de um novo povo e as escolhas que eles terão de fazer e as pessoas que eles decidirem se tornar. E terá todas aquelas coisas que vocês sempre gostaram. Surpresas. E violência. E começa em uma época de guerra. Com um novo vilão chamado Wyatt. E a matança é feita numa escolha.

Fico triste em dizer que esta é minha história final. Um velho amigo uma vez me disse que algo que me deu muito conforto, algo que ele leu. Ele disse que Mozart, Beethoven e Chopin nunca morreram. Eles simplesmente se tornaram música. Então espero que vocês gostem desta última obra, bastante.”

Westworld é uma série feita para durar e seu potencial dramático e narrativo é enorme. Mas não meça essa qualidade em mera audiência, parecem dizer seus criadores, há algo mais importante em jogo aqui. Tudo isso dito ao som de “Exit Music (for a Film)”, uma música que o Radiohead compôs para uma adaptação para o cinema de Romeu e Julieta e cuja letra (não cantada) conversa bastante com este último episódio:

“Acorde de seu sono
Seque suas lágrimas
Hoje fugimos
Fugimos
Arrume-se e vista-se
Antes que seu pai nos ouça
Antes que todo o inferno caia
(…)
Esperamos que vocês se engasguem com suas regras e sabedoria
Agora somos nós na paz duradoura
Esperamos que vocês se engasguem, se engasguem”

Não vejo a hora de assistir à próxima temporada. Que, dizem, ficou para 2018, mas, dizem, pode ter seu primeiro episódio exibido ainda no ano que vem.

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Escrevi lá no meu blog no UOL como tudo que assistimos de Westworld até aqui pode ter sido apenas um prefácio para a história de verdade.

Quantas perguntas Westworld precisa responder em seu décimo episódio, que vai ao ar na virada deste domingo para segunda-feira, para encerrar a primeira temporada da série? O programa, inspirado no filme de mesmo nome dirigido por Michael Crichton nos anos 70 e produzido por J.J. Abrams e Johnathan Nolan, já pode ser considerado um dos grandes acontecimentos televisivos do ano e o saldo de dúvidas que poderá ser quitado neste season finale pode determinar se o nível de genialidade da proposta e da execução da série até agora será coroado com uma conclusão à altura das expectativas suscitadas. E, ao que tudo indica, será.

Por isso, se você não acompanha Westworld, assistiu alguns episódios sem dar a devida atenção ou está entretido em algum lugar do meio da primeira temporada, pare de ler este texto agora. A partir daqui vem uma sequência de spoilers e especulações sobre o que falta acontecer no seriado que pode estragar a surpresa de quem ainda está tateando seu rumo neste futuro de robôs idênticos a seres humanos. Se este for o seu caso, sugiro que leia o texto que escrevi no começo da semana exaltando a importância da série sem entregar o ouro. E para evitar algum acidente, jogo uns gifs animados na sequência para não correr o risco de estragar a surpresa de ninguém.

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Para começar, quais perguntas ainda precisam ser respondidas? Ao contrário da série que deu fama a um de seus produtores (Lost, de JJ Abrams), Westworld já respondeu a grande maioria dos questionamentos que levantou, alguns diretamente, outros insinuados de tal forma que só faltam serem mencionados literalmente para confirmarmos a certeza. Nesta última categoria, uma dessas questões – que ajuda a entender a estrutura da série – ficou evidente aos seus espectadores: estamos assistindo a cenas de uma mesma história que acontecem em épocas diferentes, e a edição – ao lado do fato dos “hosts” (os androides quase perfeitos da série) não envelhecerem – é recortada de forma a nos enganar que estamos assistindo a fatos que acontecem numa mesma época.

A linha do tempo de Westworld até agora nos apresenta a três diferentes etapas, embaralhadas propositadamente para nos confundir: uma época que aconteceu mais de trinta anos atrás, quando Ford e Arnold criaram aquele universo; outra que acontece trinta anos atrás, quando Dolores mata Arnold pouco antes da abertura de Westworld ao público e outra que acontece no presente, quando alguns robôs começam a sofrer a mesma pane que Dolores sofreu trinta anos antes, provocando o desequilíbrio daquele faroeste artificial.

Ford e Arnold são os criadores daquele universo. Desenvolveram a robótica e a inteligência artificial a um ponto tão complexo que seus robôs passaram no teste de Turing, aquele criado por Alan Turing no meio do século passado para determinar seu um interlocutor era um ser cibernético ou natural. A partir desta descoberta criaram Westworld, um ambiente falso, inspirado no velho oeste norte-americano, que seria habitado por aqueles robôs.

O problema era que cada um deles tinha uma visão sobre como aquele universo deveria funcionar. Arnold, encantado com sua obra, queria que ela evoluísse ainda mais, atingindo um ponto em que descobrisse a natureza de sua existência e ganhasse consciência de fato. Ford considerava tal evolução perigosa e preferia que os robôs funcionassem como meros brinquedos para os seres humanos, transformando Westworld em um parque de diversões para adultos.

No período que antecede a morte de Arnold, Westworld era um universo sendo ensaiado, com robôs caubóis lentamente começando a aprender como comportar-se naquele novo cenário. E Dolores – o primeiro robô – era a criação favorita de Arnold, que ele ensina a percorrer um caminho para que ela consiga atingir a própria consciência. Este caminho – “o labirinto” – é percorrido duas vezes pela personagem em épocas distintas, mas como os robôs não envelhecem, a edição do seriado faz que as mudanças entre tempos diferentes pareçam acontecer simultaneamente.

Há outro detalhe, explicado em um dos episódios mais recentes, sobre a natureza da memória da inteligência artificial. Enquanto nossas lembranças, humanas, desgastam-se com o tempo e tornam-se quase opacas quando comparadas com a realidade que habitamos, as dos robôs – por sua natureza sintética – podem ser acessadas de forma quase instantânea e intacta, fazendo que uma lembrança, mais do que algo nostálgico, possa ser praticamente revivida. É isso que tem acontecido com Dolores enquanto ela refaz, sozinha no presente, o mesmo caminho que percorreu com William há trinta anos. E também com Maeve quando ela se lembra de sua vida anterior, em que tinha uma filha.

Arnold, portanto, conseguiu fazer que Dolores percorresse este caminho por conta própria, rumo à própria consciência. A natureza de Bernard, nos revelada nos episódios mais recentes não apenas como ele mesmo sendo um robô, mas também um robô-clone para onde Ford conseguiu transferir a consciência de Arnold depois de sua morte, explica que as cenas em que o assistimos interrogando Dolores com o vestido azul (diferente dos interrogatórios de robôs no presente, em que eles todos estão nus) aconteceram antes da inauguração de Westworld.

Dolores é o robô favorito de Arnold, que ele, em segredo, conduz rumo à consciência. O que provavelmente assistiremos neste último episódio é a confirmação de que Dolores é Wyatt, o grande vilão de uma das primeiras narrativas. No penúltimo episódio, vimos que Teddy maquiava a lembrança de um passado genocida como a memória da guerra. E que ele foi um dos principais agentes na matança que ocorreu pouco antes da abertura do parque ao público, quando Arnold foi morto por Dolores. É quase certo que a cena que vimos sendo descrita como Wyatt matando o general seja encenada, de fato, por Dolores e Arnold – o ponto crucial da tomada de consciência da robô.

O grande trunfo de Westworld, no entanto, não é a revelação destes mistérios – mas a execução desta revelação. O momento em que Bernard é revelado como sendo um robô não é propriamente um grande segredo, mas uma confirmação de uma suspeita, orquestrada de forma sutil e sublime (a estranheza que uma simples pergunta – “que porta?” – pode causar). O mesmo está para acontecer com a confirmação de que William é o Homem de Preto trinta anos mais tarde.
Há questões parentes destas espalhadas por todo último episódio, algumas delas meras desconfianças, outras, fortes indícios. A própria natureza de Westworld é dúbia e passamos a questionar a humanidade de todos os outros personagens. Ford é um robô? Theresa era um robô? Os dois funcionários cúmplices de Maeve são robôs? Todo Westworld é um enorme ecossistema de robôs, tanto hosts quanto guests peças num enorme xadrez cibernético?

E qual é a grande nova narrativa de Ford? A saída de Maeve? Será que a segunda temporada de Westworld vai para além do universo que já conhecemos? E qual é o papel da Delos em toda essa história?

Essa é a minha aposta. Ao chegarmos aos limites da semelhança e estranheza entre humanos e máquinas, o próximo passo a ser dado é contemplá-la no mundo real. O velho dilema entre homens e robôs que é clássico na ficção científica – de Eu, Robô a Matrix – é mais uma vez atualizado em uma série cujo tema é a construção de narrativas que nos confunde ao mesmo tempo que nos encanta. É como se todas as perguntas sobre a natureza da ilha de Lost fossem respondidas ainda na primeira temporada. Estamos prestes a ver a descoberta de uma nova escotilha de Desmond para descobrir que a Delos é uma Iniciativa Dharma muito mais refinada (e, aparentemente, mais gananciosa) para entender o papel de Westworld junto ao resto do planeta (se é que Westworld fica nesta planeta…).