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Paranoia

Inverno nos EUA

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O produtor português Luis Clara Gomes, que atende por Moullinex, mexeu um grauzinho pra cima no triste relato que Gil Scott-Heron e o flautista Brian Jackson deram na metade dos anos 70, quando um clima pesado baixou sobre a política local (e, por consequência, do mundo), e traz “Winter in America” para a aurora dos anos Trump. Salve-se quem puder.

E pra quem não conhece o original…

Westworld mortal!

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Que season finale esse de Westworld! Escrevi sobre ele no meu blog no UOL.

The Bicameral Mind, o último episódio da primeira temporada de Westworld, foi um destes grandes momentos da história da televisão que vai demorar para ser digerido. Como season finale, ele prometeu tudo que parecia cumprir, mas de forma inusitada e nos conduzindo para um outro nível de discussão. As várias respostas que estavam no ar foram reveladas e o quebra-cabeça que os fãs pareciam certos de terem deduzido eram pequenas cortinas de fumaça que funcionaram bem para desviar a atenção da conclusão final, que ninguém pode prever. E como encerramento da apresentação de um novo universo e uma nova narrativa, o episódio de uma hora e meia de duração concluiu a temporada como quem encerra um prefácio, estabelecendo novas regras e um novo conhecimento para um enorme universo em expansão. Dito isso, eis o aviso para os leitores incautos que ainda querem ser surpreendidos pelo episódio (e pela temporada) para abandonarem o texto e seguirem outros rumos: este texto se você quiser saber o que é Westworld sem saber de spoilers e outro sobre a série até seu nono episódio, para você que ainda não chegou ao último capítulo da primeira fase. Se você já viu o décimo episódio, basta pular os gifs animados a seguir para começarmos a falar sobre a impressionante conclusão de uma série inovadora.

dolore

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Eis as respostas, literalmente verbalizadas desde o início do episódio – sim, estamos assistindo a diferentes linhas do tempo e o Bernard que achávamos que entrevistava Dolores em encontros clandestinos na verdade era Arnold contemplando sua primeira criação e preparando o caminho para a redenção de sua obra, quando introduz o programa Wyatt na frágil mocinha, tornando-a responsável pela extinção da própria espécie, além do suicídio assistido do próprio Arnold. E William era mesmo o Homem de Preto, perseguindo Dolores em busca de sua própria redenção.

Mas mesmo estas respostas eram apenas metade de cada história. William se descobre uma pessoa má a ponto de tornar-se o principal acionista da corporação dona daquele parque de diversão para adultos, sacrificando seu próprio cunhado, Logan, apenas para reencontrar sua amada Dolores. A transformação de William no Homem de Preto, no entanto, funciona como mais um gatilho para a guinada final da primeira robô. É o momento em que ela percebe que a humanidade não tem volta e que é preciso exterminá-la. Arnold programou Dolores para, em conluio com Teddy, assassinar todos os “hosts”, assassiná-lo e depois suicidar-se. A cena que havia sido imaginada por todos principalmente da metade da temporada em diante materializa-se em nossa frente, mas ela é só era parte da grande história que assistimos neste último episódio: a nova narrativa de Ford.

Ford, trinta e cinco anos depois, pode colocar em execução um plano que havia bolado ao entender que o gesto de Arnold para salvar sua criação não seria suficiente. A constatação final de Ford é a mesma para onde ele conduz Dolores em sua busca pelo labirinto – algo que não faz o menor sentido para o Homem de Preto e que ao mesmo tempo funciona como a ficha final que cai para ativar a consciência de Dolores – quando ela percebe que a voz que ela estava ouvindo, era a sua própria, no belo momento do encontro com si mesma. Neste momento ela entende que as pessoas irão sempre tratar a inteligência artificial como escrava, dando início à rebelião.

A nova narrativa de Ford, que ele chama, ironicamente, de Jornada Rumo à Noite, é iniciada com o próprio sacrifício do criador, que repete exatamente o mesmo gesto de Arnold, mas ativando os robôs contra os seres humanos. Chegamos ao nosso ápice como espécie, é preciso libertar nossa criação mesmo que ela nos supere. Um tema clássico da ficção científica: do monstro de Frankenstein ao Parque dos Dinossauros, do Planeta dos Macacos a Matrix.

E tudo que assistimos durante toda esta temporada era um elaborado plano que Ford executou durante décadas. A continuação da visão que Arnold tinha de sua própria obra, mas uma versão agressiva, talvez até vingativa. “Estes desejos violentos terão fins violentos”, diz a frase-gatilho que Arnold retirou do Romeu e Julieta de Shakespeare para transformar Dolores em Wyatt. Um exército de hosts para matar todos os seres humanos.

A própria fuga de Marve do complexo havia sido programada por Ford, o que provoca o principal curto circuito ao final do episódio. Antes disso, assistimos a ex-prostituta conduzir o funcionário Felix e os robôs Hector e Armistice pelos bastidores de Westworld (numa sequência que lembra clássicos de ficção científica de ação dos anos 80, com Rodrigo Santoro e Ingrid Bolsø Berdal formando uma formidável dupla), provocando a maior e mais inusitada revelação do episódio: Samurai World. Ao sair do andar que gere o mundo artificial do velho oeste, os quatro entram num outro pavilhão temático de robôs, estes ambientados no Japão do tempo dos samurais (só podemos ler a sigla SW – a mesma de Star Wars, ê JJ Abrams). Quando confrontado por Maeve sobre o que é aquilo que estão vendo (robôs samurais duelando entre si), Felix apenas responde que… é complicado!

O funcionário Felix é protagonista de um breve mas memorável momento do episódio que parece sintetizar a grande dúvida da série. Quando confrontado com a descoberta que Bernard era um host – e que deveria ressuscitá-lo -, Felix perde o prumo e olha para as próprias mãos como se duvidasse da própria existência, para em seguida ser corrigido por Maeve.

Mas não é o Mundo Samurai a grande revelação do episódio. É saber da existência não apenas de um mundo paralelo, mas possivelmente de vários, que pode tornar a amplitude da série – que já transitava entre gêneros ao alternar entre laboratórios scifi e desertos de faroeste – ainda maior.

A complexa e deliciosa reviravolta ao final do episódio é aprofundada pela decisão final de Maeve. Ela está prestes a fugir definitivamente daquele universo falso e entrar no trem que lhe retorna à vida real. Mas ela descobre que, ao mesmo tempo em que foi programada para fugir, que sua filha ainda está em Westworld. Ela toma a decisão de não fugir como uma clara escolha pelo livre arbítrio, mas o quanto isso não pode ter sido previsto por Ford? Será que os hosts não podem sair mesmo de Westworld, mesmo se quiserem?

Esta é uma das inúmeras perguntas que Westworld deixa em aberto para a próxima temporada. Há muitas outras: Charlotte sobreviveu ao massacre? Como Maeve vai encontrar sua filha? E Stubbs e Elsie, será que eles não morreram? O que aconteceu com Logan? E com Dolores e Teddy? Dolores continua em modo Wyatt? E o sorriso do Men in Black, ao perceber que pode ser atingido? Ford, acredito, realmente morreu (associando a primeira temporada à ótima atuação de Anthony Hopkins), mas ele também pode ter plantado um clone de si mesmo para ser assassinado enquanto assiste seu plano se desenrolar fora do radar. Qual o papel de Bernard a partir de agora?

Ao nos apresentar a este final completamente inesperado, a declaração de guerra entre hosts e humanos, Westworld também faz uma crítica ao próprio modus operandi da televisão, ao apresentar Charlotte – a executiva da Delos – como uma executiva de TV, querendo reduzir a complexidade dos hosts para facilitar seu controle sobre ele – os hosts funcionando como metáfora para personagens em um programa de TV. Isso pode ser extraído do discurso final de Ford:

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“Bem-vindos, boa noite,

Desde que eu era criança, sempre gostei de uma boa história. Acredito que histórias podem nos ajudar a nos enobrecer, consertar o que está quebrado e nos ajudar a nos tornar as pessoas que sonhamos ser. Mentiras que contam uma verdade profunda. E eu sempre pensei que podia fazer parte desta grande tradição e por minhas dores consegui isto: uma prisão para nossos próprios pecados.

Porque vocês não querem mudar. O que posso mudar? Pois vocês são apenas humanos no fim das contas. Mas então percebi que alguém estava prestando atenção. Alguém que podia mudar. E então comecei a escrever uma nova história para eles, que começa com o nascimento de um novo povo e as escolhas que eles terão de fazer e as pessoas que eles decidirem se tornar. E terá todas aquelas coisas que vocês sempre gostaram. Surpresas. E violência. E começa em uma época de guerra. Com um novo vilão chamado Wyatt. E a matança é feita numa escolha.

Fico triste em dizer que esta é minha história final. Um velho amigo uma vez me disse que algo que me deu muito conforto, algo que ele leu. Ele disse que Mozart, Beethoven e Chopin nunca morreram. Eles simplesmente se tornaram música. Então espero que vocês gostem desta última obra, bastante.”

Westworld é uma série feita para durar e seu potencial dramático e narrativo é enorme. Mas não meça essa qualidade em mera audiência, parecem dizer seus criadores, há algo mais importante em jogo aqui. Tudo isso dito ao som de “Exit Music (for a Film)”, uma música que o Radiohead compôs para uma adaptação para o cinema de Romeu e Julieta e cuja letra (não cantada) conversa bastante com este último episódio:

“Acorde de seu sono
Seque suas lágrimas
Hoje fugimos
Fugimos
Arrume-se e vista-se
Antes que seu pai nos ouça
Antes que todo o inferno caia
(…)
Esperamos que vocês se engasguem com suas regras e sabedoria
Agora somos nós na paz duradoura
Esperamos que vocês se engasguem, se engasguem”

Não vejo a hora de assistir à próxima temporada. Que, dizem, ficou para 2018, mas, dizem, pode ter seu primeiro episódio exibido ainda no ano que vem.

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Escrevi lá no meu blog no UOL como tudo que assistimos de Westworld até aqui pode ter sido apenas um prefácio para a história de verdade.

Quantas perguntas Westworld precisa responder em seu décimo episódio, que vai ao ar na virada deste domingo para segunda-feira, para encerrar a primeira temporada da série? O programa, inspirado no filme de mesmo nome dirigido por Michael Crichton nos anos 70 e produzido por J.J. Abrams e Johnathan Nolan, já pode ser considerado um dos grandes acontecimentos televisivos do ano e o saldo de dúvidas que poderá ser quitado neste season finale pode determinar se o nível de genialidade da proposta e da execução da série até agora será coroado com uma conclusão à altura das expectativas suscitadas. E, ao que tudo indica, será.

Por isso, se você não acompanha Westworld, assistiu alguns episódios sem dar a devida atenção ou está entretido em algum lugar do meio da primeira temporada, pare de ler este texto agora. A partir daqui vem uma sequência de spoilers e especulações sobre o que falta acontecer no seriado que pode estragar a surpresa de quem ainda está tateando seu rumo neste futuro de robôs idênticos a seres humanos. Se este for o seu caso, sugiro que leia o texto que escrevi no começo da semana exaltando a importância da série sem entregar o ouro. E para evitar algum acidente, jogo uns gifs animados na sequência para não correr o risco de estragar a surpresa de ninguém.

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Para começar, quais perguntas ainda precisam ser respondidas? Ao contrário da série que deu fama a um de seus produtores (Lost, de JJ Abrams), Westworld já respondeu a grande maioria dos questionamentos que levantou, alguns diretamente, outros insinuados de tal forma que só faltam serem mencionados literalmente para confirmarmos a certeza. Nesta última categoria, uma dessas questões – que ajuda a entender a estrutura da série – ficou evidente aos seus espectadores: estamos assistindo a cenas de uma mesma história que acontecem em épocas diferentes, e a edição – ao lado do fato dos “hosts” (os androides quase perfeitos da série) não envelhecerem – é recortada de forma a nos enganar que estamos assistindo a fatos que acontecem numa mesma época.

A linha do tempo de Westworld até agora nos apresenta a três diferentes etapas, embaralhadas propositadamente para nos confundir: uma época que aconteceu mais de trinta anos atrás, quando Ford e Arnold criaram aquele universo; outra que acontece trinta anos atrás, quando Dolores mata Arnold pouco antes da abertura de Westworld ao público e outra que acontece no presente, quando alguns robôs começam a sofrer a mesma pane que Dolores sofreu trinta anos antes, provocando o desequilíbrio daquele faroeste artificial.

Ford e Arnold são os criadores daquele universo. Desenvolveram a robótica e a inteligência artificial a um ponto tão complexo que seus robôs passaram no teste de Turing, aquele criado por Alan Turing no meio do século passado para determinar seu um interlocutor era um ser cibernético ou natural. A partir desta descoberta criaram Westworld, um ambiente falso, inspirado no velho oeste norte-americano, que seria habitado por aqueles robôs.

O problema era que cada um deles tinha uma visão sobre como aquele universo deveria funcionar. Arnold, encantado com sua obra, queria que ela evoluísse ainda mais, atingindo um ponto em que descobrisse a natureza de sua existência e ganhasse consciência de fato. Ford considerava tal evolução perigosa e preferia que os robôs funcionassem como meros brinquedos para os seres humanos, transformando Westworld em um parque de diversões para adultos.

No período que antecede a morte de Arnold, Westworld era um universo sendo ensaiado, com robôs caubóis lentamente começando a aprender como comportar-se naquele novo cenário. E Dolores – o primeiro robô – era a criação favorita de Arnold, que ele ensina a percorrer um caminho para que ela consiga atingir a própria consciência. Este caminho – “o labirinto” – é percorrido duas vezes pela personagem em épocas distintas, mas como os robôs não envelhecem, a edição do seriado faz que as mudanças entre tempos diferentes pareçam acontecer simultaneamente.

Há outro detalhe, explicado em um dos episódios mais recentes, sobre a natureza da memória da inteligência artificial. Enquanto nossas lembranças, humanas, desgastam-se com o tempo e tornam-se quase opacas quando comparadas com a realidade que habitamos, as dos robôs – por sua natureza sintética – podem ser acessadas de forma quase instantânea e intacta, fazendo que uma lembrança, mais do que algo nostálgico, possa ser praticamente revivida. É isso que tem acontecido com Dolores enquanto ela refaz, sozinha no presente, o mesmo caminho que percorreu com William há trinta anos. E também com Maeve quando ela se lembra de sua vida anterior, em que tinha uma filha.

Arnold, portanto, conseguiu fazer que Dolores percorresse este caminho por conta própria, rumo à própria consciência. A natureza de Bernard, nos revelada nos episódios mais recentes não apenas como ele mesmo sendo um robô, mas também um robô-clone para onde Ford conseguiu transferir a consciência de Arnold depois de sua morte, explica que as cenas em que o assistimos interrogando Dolores com o vestido azul (diferente dos interrogatórios de robôs no presente, em que eles todos estão nus) aconteceram antes da inauguração de Westworld.

Dolores é o robô favorito de Arnold, que ele, em segredo, conduz rumo à consciência. O que provavelmente assistiremos neste último episódio é a confirmação de que Dolores é Wyatt, o grande vilão de uma das primeiras narrativas. No penúltimo episódio, vimos que Teddy maquiava a lembrança de um passado genocida como a memória da guerra. E que ele foi um dos principais agentes na matança que ocorreu pouco antes da abertura do parque ao público, quando Arnold foi morto por Dolores. É quase certo que a cena que vimos sendo descrita como Wyatt matando o general seja encenada, de fato, por Dolores e Arnold – o ponto crucial da tomada de consciência da robô.

O grande trunfo de Westworld, no entanto, não é a revelação destes mistérios – mas a execução desta revelação. O momento em que Bernard é revelado como sendo um robô não é propriamente um grande segredo, mas uma confirmação de uma suspeita, orquestrada de forma sutil e sublime (a estranheza que uma simples pergunta – “que porta?” – pode causar). O mesmo está para acontecer com a confirmação de que William é o Homem de Preto trinta anos mais tarde.
Há questões parentes destas espalhadas por todo último episódio, algumas delas meras desconfianças, outras, fortes indícios. A própria natureza de Westworld é dúbia e passamos a questionar a humanidade de todos os outros personagens. Ford é um robô? Theresa era um robô? Os dois funcionários cúmplices de Maeve são robôs? Todo Westworld é um enorme ecossistema de robôs, tanto hosts quanto guests peças num enorme xadrez cibernético?

E qual é a grande nova narrativa de Ford? A saída de Maeve? Será que a segunda temporada de Westworld vai para além do universo que já conhecemos? E qual é o papel da Delos em toda essa história?

Essa é a minha aposta. Ao chegarmos aos limites da semelhança e estranheza entre humanos e máquinas, o próximo passo a ser dado é contemplá-la no mundo real. O velho dilema entre homens e robôs que é clássico na ficção científica – de Eu, Robô a Matrix – é mais uma vez atualizado em uma série cujo tema é a construção de narrativas que nos confunde ao mesmo tempo que nos encanta. É como se todas as perguntas sobre a natureza da ilha de Lost fossem respondidas ainda na primeira temporada. Estamos prestes a ver a descoberta de uma nova escotilha de Desmond para descobrir que a Delos é uma Iniciativa Dharma muito mais refinada (e, aparentemente, mais gananciosa) para entender o papel de Westworld junto ao resto do planeta (se é que Westworld fica nesta planeta…).

Uou, Westworld!

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Escrevi no meu blog no UOL sobre o porque do remake de Westworld, produção de JJ Abrams e Johnathan Nolan, já poder ser considerada a melhor série de 2016.

E a HBO conseguiu mais uma vez. Westworld vem superando todas as expectativas, episódio a episódio, e caminha para se tornar o grande evento da TV em 2016, fazendo a emissora recuperar-se do fiasco que foi a primeira temporada de Vinyl e a promissora mas fria The Night Of. Um enorme quebra-cabeças magistralmente montado em frente aos nossos olhos, intercalando a frieza de máquinas com o calor do velho oeste norte-americano, reinventando completamente uma premissa simples de um filme dos anos 70 para o século 21 e enfileirando monólogos magistrais, atuações impecáveis, cenas intensas, diálogos esclarecedores, teorias complexas e revelações sensacionais.

Para quem não está acompanhando, eis a breve premissa, sem spoilers: num futuro próximo existe um parque de diversões para adultos chamado Westword, em que você paga para viver como nos tempos mais selvagens do povo norte-americano, interagindo com robôs idênticos a seres humanos que ficam à disposição dos convidados. E esta disposição é degradante: os “anfitriões” (hosts, em inglês, como os androides são referidos na série) se tornam objetos para todo o tipo de humilhação que os convidados queiram praticar, e assim são tratados como meros objetos e quase sempre morrem mortes violentas – apenas para serem religados e voltar ao papel de escravo dos desejos alheios.

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Mas algo acontece: os robôs aos poucos começam a entender sua própria condição. Acumulando memórias de suas vidas passadas, alguns dos protagonistas da série vão lentamente entendendo o que vivem e, cada um à sua maneira, vai despertando sua consciência e aprendendo a lidar com aquela nova realidade. Alguns simplesmente entram em parafuso e dão tilt – logo no primeiro episódio da série há um destes -, mas outros conseguem ir além. E poucos humanos conseguem perceber isso.

Isso é apenas a premissa inicial, o tabuleiro armado em que seus produtores desdobram cenas ousadas, violentas e emblemáticas, criando uma mitologia específica enquanto mostram personagens rasos lentamente sendo aprofundados. A partir disso, há um enorme e complexo jogo narrativo que faz o espectador perder-se em histórias que parecem acontecer simultanemente, mas que ocorrem em épocas diferentes – um truque genial que parte do princípio de que os robôs não envelhecem.

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Sob esta premissa, há um duelo entre os criadores do parque, Arnold e Ford, que têm ideias distintas para aquele mundo robótico: enquanto o primeiro quer evoluir a inteligência artificial para a descoberta da consciência, o segundo considera isto perigoso e prefere apenas usar os seres sintéticos para “contar novas histórias”. Ford ganha a disputa e Westworld passa para as mãos de uma empresa chamada Delos, cujo interesse no parque vai muito além da gerência dos lucros gerados pelos visitantes e segue desconhecido. A série de dilemas éticos e morais abertos a partir desta disputa seria assunto para uma série apenas sobre isso, mas Westworld vai além.

Personagens como a cândida Dolores Abernathy vivida por Evan Rachel Wood, o assustador e admirável Robert Ford de Anthony Hopkins, o intrincado Bernard Lowe de Jeffrey Wright, a impressionante Maeve Millay da Thandie Newton e o Homem de Preto de Ed Harris humanizam e emocionam a história com atuações grandiosas e exigentes, Eval Rachel Wood e Thandie Newton especificamente brilham como poucas atuações na TV nesta década e até coadjuvantes como Hector Escanton do nosso Rodrigo Santoro, o William de Jimmi Simpson e a Clementine de Angela Sarafyan desequilibram bastante o seriado.

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Tudo isso sendo orquestrado em cenas que transcendem gêneros e criam imagens impactantes para a cultura pop. Westworld consegue elevar o western para um patamar quase surreal, misturando orgias, canibalismo, religião e genocídios, aprofunda questões éticas tocadas apenas de forma superficial pela ficção científica moderna, atualiza os robôs para a era da impressão 3D e aposta na inteligência do espectador, proporcionando momentos de puro deleite narrativo (o final do oitavo episódio, por exemplo, já é um dos grandes momentos do ano na TV).

Os detalhes também são de tirar o fôlego: cenografia, direção de arte e trilha sonora mantém aquele padrão da emissora em que ela acerta mesmo quando as séries são ruins. A trilha especificamente é um achado: versões para músicas de Amy Winehouse, Radiohead, Rolling Stones, Animals, entre outros, tocadas naqueles pianos típicos de saloon (automatizados, como se fossem os primeiros robôs).

E por cima de tudo há um labirinto. Uma mapa literal que pode ser percorrido geograficamente mas também um jogo lógico que amplia o teste de Turing para uma realidade em que a inteligência artificial evolui como um fractal. Um desafio posto no coração da série tanto para seus protagonistas quanto para seus espectadores, que vai recompensando a cada novo episódio.

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A primeira temporada da série termina no próximo domingo, quando seu décimo episódio vai ao ar (a HBO brasileira vem transmitindo os novos episódios exatamente à meia-noite entre o domingo e a segunda, com reprises na segunda às 21h) e tudo indica que teremos a conclusão de uma série de enigmas e mistérios abertos ao longo dos episódios anteriores – além de tantas outras perguntas que só serão respondidas na próxima temporada, já renovada para o ano que vem.

A esperteza da série vem do casamento de dois talentos: J.J. Abrams, o criador de Lost e Fringe, além de ter ressuscitado Jornada e Guerra nas Estrelas para o novo milênio, e Johnathan Nolan, responsável pelos roteiros dos filmes de seu irmão Christopher Nolan. O primeiro é mestre em instigar a curiosidade, provocar o espectador, abrir teorias e propor possibilidades. O segundo brinca com duplos sentidos, lineraridades temporais e sabe concluir bem as histórias. Os dois já haviam trabalhado juntos na ótima Person of Interest, uma série mais modesta em termos de produção e de narrativa, e agora podem ousar graças à liberdade dada pela HBO. Nolan chamou a esposa Lisa Joy (que já havia assinado as séries Pushing Dasies e Burn Notice) para ajudá-lo na criação daquele novo universo.

Até o fim da semana volto ao tema explicando ainda mais as teorias da série e mostrando como Westworld pode ser muito mais do que apenas a melhor série deste ano. Por enquanto recomendo que você que ainda não assistiu dê um jeito de ver os nove episódios antes do próximo domingo e você que está acompanhando comente a série abaixo. E já deixo de sobreaviso aos comentaristas incautos – por favor avisem sobre spoilers antes de fazer seus comentários sobre a série para não estragar a surpresa de quem não assistiu ainda.

Entre os 3%

A atriz Bianca Comparato em 3%

A atriz Bianca Comparato em 3%

Conversei com o elenco e a produção da primeira série brasileira produzida pelo Netflix lá no meu blog no UOL.

“Tem um lado meu que acha uma pena, obviamente, tudo isso que está acontecendo no Brasil”, lamenta a atriz Bianca Comparato quando pergunto se ela acha que há algum paralelo entre 3%, a primeira série que o serviço de vídeos Netflix produz no Brasil, e o momento político brasieiro atual. “Mas tem um outro lado meu, que é mais otimista, que acha que é um processo de amadurecimento, que estamos podendo olhar para nós mesmos pela primeira vez, de verdade, sem ingenuidade. E esse embate faz parte. É uma pena o sofrimento que isso causa pra tanta gente. E a série fala muito disso, do sofrimento de quem não consegue. E quem disse quem é bom o suficiente? Quem definiu isso?”

A série, que estreia sua primeira temporada de uma vez só na próxima sexta-feira, dia 25, chega falando sério. O visual, a direção e as atuações instigam o espectador como qualquer outro seriado Netflix – e isso parece vir da fusão de experiências tanto da equipe quanto do elenco. A mistura veteranos como João Miguel, Zezé Motta e a própria Bianca Comparato com novatos desconhecidos (Michel Gomes, Vaneza Oliveira e Rodolfo Valente) foi dirigida pelo uruguaio César Charlone, ex-sócio de Fernando Meirelles e responsável pela fotografia de filmes como Cidade de Deus, O Jardineiro Fiel e Ensaio Sobre a Cegueira. Mas a premissa da série e sua narrativa foi desenvolvida e dirigida por seus criadores originais. “Sou um showrunner de uma ideia alheia”, brinca o diretor uruguaio, que envolveu-se com a produção do seriado anos depois que seu criador, Pedro Aguilera, o estreasse no YouTube (assista aos três primeiros episódios da versão original aqui). Charlone entrou mais como um coordenador e supervisor, ajudando Aguilera e os três diretores originais, Jotagá Crema, Daina Giannecchini e Dani Libardi, a encontrar o rumo que queriam para o seriado, cujos oito primeiros episódios chegam de uma só vez.

Falada em português, a série de ficção científica se passa em um futuro próximo em que o Brasil divide-se em duas castas: grande parte da população mora numa região referida como Continente e quando completam vinte anos de idade têm a oportunidade de passar para onde reside uma elite financeira num lugar conhecido como Mar Alto, que abriga os 3% da população que batiza o seriado. Acompanhamos, portanto, um grupo de jovens que passa justamente pelo processo de seleção, uma série de jogos, entrevistas e atividades que vão definir quem pode passar para o outro lado. É uma alegoria que funciona como uma crítica à ditadura econômica mundial – e um de seus principais critérios de seleção, a chamada “meritocracia”. “Este tema faz parte da nossa sociedade e a gente tem mais ferramentas pra falar sobre isso e pra entender isso agora. São boas pra série também”, explica Aguilera.

“Quando o Pedro (Aguilera, criador e roteirista de 3%) pensou nisso lá atrás, ele havia se inspirado no vestibular, embora ele não quisesse falar diretamente de vestibular”, continua Bianca. “A gente amadureceu muito essa ideia. Mantemos essa angústia juvenil, mas tem uma coisa mais política envolvida. Fala de uma sociedade onde, por mérito, você consegue as coisas e se você não for bom o suficiente acabou a vida pra você. Isso fala muito pra nossa sociedade, não só pra jovens. Se você for parar pra pensar, economicamente, não são nem 3% que detém a riqueza do Brasil – nem do mundo.”

“A ideia começou lá em 2009 e a inspiração vem de livros como Admirável Mundo Novo e 1984 – eu não conhecia Jogos Vorazes”, explica Pedro. Bianca já tinha assistido aos filmes: “Acho a Jennifer Lawrence ótima. Vi os filmes da série Divergente e fiquei muito feliz com a quantidade de ator bom fazendo esse tipo de filme.” Mas Charlone desconversa quando compara-se 3% com estes filmes recentes: “A gente não vai competir com um produto desses. A nossa riqueza é a brasilidade”, explica, sublinhando que quis refletir uma brasilidade diferente daquela que vendemos. “Gosto daquela coisa que, quando alguma coisa não funciona, vem alguém e dá uma porrada. Ou daquela sensação que sempre acontece em qualquer país do mundo quando você chega no aeroporto, mas quando chega no Brasil sempre tem alguém que fala ‘tinha que ser no Brasil…”‘, explica o diretor, às gargalhadas.

O diretor César Charlone

O diretor César Charlone

Essa brasilidade, marca visual das produções de Charlone, foi perseguida com um olho no futuro e outro no presente. “Gosto de dar muita ênfase em sotaques diferentes”, explica, enfatizando também que não quis entregar uma história de bandeja para o público. “O Brasil tem essa fissura dos produtores com a bilheteria, essa coisa com a comédia, que querer agradar o público”, continua o uruguaio, explicando que o tom pessimista da série o atraiu. “Isso abre um horizonte muito legal pra novas gerações contarem histórias”, continua.

Mas a frieza distópica da versão original ganhou pluralidade e cores no novo seriado. “O tom original era muito sério, frio, policialesco”, lembra Aguilera, ao comentar as mudanças sofridas na série durante estes anos, que ainda “tem elementos muito parecidos, mas outros muito diferentes. Mas a angústia dos jovens, que é a essência, ainda tá lá.” “É uma série essencialmente brasileira”, completa Bianca. “Tem uma sujeira, cores, elementos rústicos. É futuro e é Brasil.”

Estive no set de gravação de 3% e além dessa brasilidade era possível notar a clara naturalidade nas atuações, sem afetações no texto ou diálogos que pudessem deixá-la caricata, claro reflexo da forma como Charlone gosta de deixar os atores, filmando-os livremente, quase em tom documental. Ele anima-se com o formato das séries, que diz ser “o grande acontecimento audiovisual deste século.” “Eu sou assíduo frequentador da Santa Ifigênia e sempre vejo o pessoal vendendo DVDs piratas de filmes… Agora vendem séries”, conta, mencionando Sopranos e Mad Men como referências básicas inclusive para o cinema atual. Pedro também tem suas séries favoritas – House of Cards, The Wire, Breaking Bad -, que podem não se refletir na temática de 3% mas que estão presentes na forma como ele gostaria de segurar o espectador.

Bianca cita outro seriado do Netflix como referência. “Black Mirror é uma experiência forte pra gente no 3%”, continua a atriz. “É um futuro que é palpável, não é, sei lá… como o filme Prometheus… Black Mirror tem isso, tem uma coisa que tá mais pra frente, mas as primeiras cenas você nem entende em que época se passa…” Ela concorda quando menciono que a ficção científica tem esse papel de metáfora para entender a realidade atual. “Um dos motivos de eu topar fazer a série foi esse. A série é um alerta. Se a gente não parar, a gente vai chegar nisso. É uma catástrofe econômica. E não é só sobre o Brasil, é sobre um modelo econômico mundial, os poucos que têm, os muitos que não têm.”

johh-paul

Em um carta recém-descoberta de John Lennon e Yoko Ono para Paul e Linda McCartney mostra como o clima logo após a separação dos Beatles era pesado – a tradução tá lá no meu blog do UOL.

Uma recém-descoberta carta de John Lennon e Yoko Ono para o casal Paul e Linda McCartney, que vai a leilão nesta quinta-feira, dia 17, mostra como o clima entre a dupla de compositores mais famosa do mundo estava tenso mesmo após a separação dos Beatles, grupo que lhes projetou para a fama. Sem data, a carta datilografada – com trechos escritos à mão pelo próprio John – deve ter sido escrita no início de 1971, à época em que o casal John e Yoko mudou-se de Londres para Nova York e é uma resposta pesada à outra correspondência, não especificada, de Paul para John, que Lennon rebate mirando em quem ele acredita ser a autora de parte das acusações: Linda McCartney.

“Estava lendo a carta de vocês e pensando que tipo de fã rabugento de meia idade dos Beatles a escreveu”, começa John, sem meios-termos. “Resisti a olhar na última página para descobrir – ficava pensando quem seria – Queenie (mãe do ex-empresário dos Beatles, Brian Epstein)? A mãe do Stuart (Sutcliffe, o primeiro baixista dos Beatles)? – A esposa de Clive Epstein (irmão de Brian, que assumiu o controle da empresa do irmão após sua morte)? – Alan Williams (o primeiro empresário dos Beatles, antes de Brian)? – Quem diabos – é Linda!” E continua: “Nós dois ‘passamos por cima disso’ uma porção de vezes – e perdoamos vocês dois – então é o mínimo que vocês podem fazer por nós – vocês tão nobres. Linda – se você não se importa que eu diga – cala a boca! – deixe que Paul escreva – ou como queira.”

“Você realmente pensa que a maioria da arte de hoje só existe por causa dos Beatles?”, segue pesado um exasperado John, “eu não acredito que você seja tão insano – Paul – você acredita nisso? Quando parar de acreditar talvez você acorde! Nós não dizíamos sempre que éramos parte de um movimento – não o todo dele? – Claro, nós mudamos o mundo – mas tente acompanhar – DESÇA DO SEU DISCO DE OURO E VOE! Não me venha com esse papo de tia velha de que ‘em cinco anos vou olhar para trás como uma pessoa diferente’ – você não percebe que isso está acontecendo AGORA! – Se eu soubesse ENTÃO o que eu sei AGORA – você parece ter perdido o ponto…”

A carta é uma amostra do clima pesado no final dos Beatles e mostra como a cisão entre seus fundadores e principais compositores continuou mesmo após a banda ter anunciado seu fim, em 1970. “Eu não me envergonho dos Beatles – eu comecei isso tudo – mas sim de algumas merdas que a gente engoliu para fazer deles tão grandes – eu pensava que todos nós sentíssemos assim em diferentes graus – obviamente não.” A carta deve ser leiloada através da internet pelo site RR Auction nesta quinta-feira, dia 17, e o lance inicial por ela é de 2 mil dólares, embora acredita-se que ela deve atingir um valor dez vezes mais alto.

Leia abaixo a íntegra da correspondência.

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LennonMcCartney-carta-2

“Caros Linda e Paul,

Estava lendo a carta de vocês e pensando que tipo de fã de meia idade e destemperado dos Beatles a escreveu. Resisti a olhar na última página para descobrir – ficava pensando quem seria – Queenie? A mãe do Stuart? – A esposa de Clive Epstein? – Alan Williams? – Quem diabos – é Linda!

Você realmente acha que a imprensa está por baixo de mim/vocês? Você acha isso? Quem vocês pensam que nós/vocês são? A parte sobre o “auto-indulgente não percebe quem está ferindo” – espero que vocês percebam o quanto de merda que vocês e o resto de meus amigos “bondosos e não egoístas” despejaram em mim e em Yoko, desde que estamos juntos. Algumas vezes pode ter sido um pouco sutil ou deveria dizer “classe média” – mas não com frequência. Nós dois “passamos por cima disso” uma porção de vezes – e perdoamos vocês dois – então é o mínimo que vocês podem fazer por nós – vocês tão nobres. Linda – se você não se importa que eu diga – cala a boca! – deixe que Paul escreva – ou como queira.

Quando perguntado sobre o que eu achava originalmente do MBE, etc. – eu disse a eles o melhor que eu conseguia me lembrar – e eu me lembro mesmo de certo embaraço – você não, Paul? – ou você – como eu suspeito – ainda acredita em tudo isso? Eu posso perdoar Paul por encorajar os Beatles – se ele me perdoar pelo mesmo – por ter sido – “honesto comigo e ter se preocupado demais”! Que diabos, Linda, você não escreve para o livro Beatle!!!

Eu não me envergonho dos Beatles – (eu comecei isso tudo) – mas sim de algumas merdas que a gente engoliu para fazer deles tão grandes – eu pensava que todos nós sentíssemos assim em diferentes graus – obviamente não.

Você realmente pensa que a maioria da arte de hoje só existe por causa dos Beatles? – Eu não acredito que você seja tão insano – Paul – você acredita nisso? Quando parar de acreditar talvez você acorde! Nós não dizíamos sempre que éramos parte de um movimento – não o todo dele? – Claro, nós mudamos o mundo – mas tente acompanhar – DESÇA DO SEU DISCO DE OURO E VOE!

Não me venha com esse papo de tia velha de que “em cinco anos vou olhar para trás como uma pessoa diferente” – você não percebe que isso está acontecendo AGORA! – Se eu soubesse ENTÃO o que eu sei AGORA – você parece ter perdido o ponto…

Me desculpem se eu usar “espaço dos Beatles” para falar sobre o que eu quiser – obviamente se eles continuarem a fazer questões de Beatles – eu vou respondê-las – e vou conseguir tanto espaço de John e Yoko quanto eu puder – se me perguntam sobre Paul eu respondo – eu sei que parte disso acaba indo para o pessoal – mas, acreditem vocês ou não, eu tento responder objetivamente – e as partes que eles usam são obviamente as mais saborosas – eu não tenho mágoas do seu marido – eu sinto por ele. Eu sei que os Beatles são “pessoas muito gente boa” – eu sou um deles – eles também são grandes bastardos como todo mundo é – então desça do seu cavalo alto! – a propósito – nós temos conquistado mais interesse inteligente em nossas novas atividades em um ano do que tivemos em toda a era Beatle.

Finalmente, sobre não contar a ninguém que eu deixei os Beatles – PAUL e Klein passaram o dia me convencendo que era melhor não falar nada – pedindo a mim para não dizer nada porque iria “ferir os Beatles” – e “vamos apenas deixar assentar” [let it petre out] – se lembra? Então coloque isso na sua pequenina mente pervertida, Sra. McCartney – os c**ões me pediram para manter silêncio sobre isso. Claro, o lado do dinheiro é importante – para todos nós – especialmente depois de toda a merda provocada por sua família/parentes insanos – e DEUS TE AJUDE A SAIR DESSA, PAUL – vejo você em dois anos – imagino que você terá saído até lá –

apesar de tudo,

com amor para vocês dois,

de nós dois

P.S. sobre endereçar a carta de vocês só para mim – AINDA…!!!”

trainspotting2

O primeiro trailer da continuação do clássico dos anos 90 também traz uma nova versão do monólogo de abertura – coloquei tudo lá no meu blog no UOL.

Prontos para acompanhar o que aconteceu com as vidas de Renton, Sick Boy, Begbie e Spud? Eis o primeiro trailer de fato do novo Trainspotting, que nos recepciona logo na entrada de 2017, previsto para estrear em janeiro. Nele vemos o que aconteceu com os personagens de Irvine Welsh vividos por Ewan McGregor, Jonny Lee Miller, Robert Carlyle e Ewen Bremner, além de reencontrarmos com Diane (vivida por Kelly McDonald, que também está na nova temporada de Black Mirror), par romântico de Renton no primeiro filme. O trailer também traz uma nova versão para o monólogo de abertura, em que parcelas na compra de imóveis, tocadores de CDs e ternos são substituidos pelas redes sociais, reality show e revenge porn:

Abaixo, em uma tradução livre:

“Escolha a vida
Escolha o Facebook, o Twitter, o Instagram e espere que alguém em algum lugar se importe
Escolha olhar para os velhos tempos, querendo ter feito tudo diferente
E escolha ver a história se repetir
Escolha seu futuro
Escolha programas de reality TV, humilhar mulheres, usar pornô como vingança,
Escolha um contrato de trabalho sem mínimo de horas, uma ida de duas horas para chegar ao trabalho
E escolha o mesmo para seus filhos, só que pior, e alivie a dor com uma dose desconhecida de uma droga desconhecida feita na cozinha de alguém
E então… Respire fundo
Você é um viciado, por isso se vicie
Vicie-se em outra coisa
Escolha o que você ama
Escolha seu futuro
Escolha a vida”

E você lembra do clássico monólogo de abertura, não?

“Escolha a vida.
Escolha um emprego.
Escolha uma carreira.
Escolha uma família.
Escolha uma porra de uma televisão grande.
Escolha máquinas de lavar, carros, tocadores de CD e abridores de lata elétricos.
Escolha boa saúde, colesterol baixo e plano dentário.
Escolha prestações fixas para pagar seu imóvel.
Escolha onde morar.
Escolha seus amigos.
Escolha roupas de lazer e uma bagagem que combine.
Escolha um terno para alugar feito com o melhor tecido de merda.
Escolha fazer as coisas você mesmo e pensar quem diabos você é em uma manhã de domingo.
Escolha sentar no sofá assistindo game shows que anestesiam a mente, entupindo a própria boca com comida-lixo.
Escolha apodrecer no fim de tudo, passando seus últimos dias numa casa miserável, nada mais que possa envergonhar os moleques egoístas que você gerou para te substituírem.
Escolha seu futuro.
Escolha a vida.
Mas por que eu iria querer algo assim?
Escolhi não escolher uma vida: eu escolhi outra coisa.
E a razão? Não há razões.
Quem precisa de motivos quando se tem heroína?”

E será que batizaram o novo filme de T2 (em vez de Trainspotting 2) pra que a geração crescida nos anos 90 confundisse com o segundo filme do Exterminador do Futuro?

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Eis o vídeo O Espelho, inspirado em um capítulo sem título do meu livro PC Siqueira Está Morto, que eu e o PC adaptamos para o formato 360° lá no YouTube Space de Los Angeles, com uma mãozinha do jovem Gus Lanzetta. O capítulo no livro é mais extenso e desenvolve-se de outra forma – enxugamos boa parte do texto e da lógica para adaptar-se ao formato proposto pelo YouTube, que aproveitou o dia das bruxas para fazer esta série de curtas em 360° chamada #Room301. O vídeo fica mais legal se for visto pelo celular.

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George Miller lança a versão em preto e branco para o quarto volume de sua saga pós-apocalíptica – comentei sobre a nova versão lá no meu blog no UOL.

“Witness!” Finalmente está entre nós a esplendorosa e visionária versão em preto e branco do western moderno Mad Max: Estrada da Fúria – e não feita por um fã em cima de um boato, mas por seu próprio diretor. Especulada como uma excentricidade do criador da série Mad Max, a versão “Black and White Chrome” de um dos melhores filmes da década era, na verdade, a primeira opção do diretor para retomar sua grife dos anos 80.

Ao receber a negativa do estúdio, Miller foi para o extremo oposto e torrou a intensidade das cores do filme para os tons de laranja e azul mais fortes que pode filmar, definindo, nas duas tonalidades, a essência do deserto (a areia, o céu e mais nada), além de ironizar a predileção dos filmes comerciais atuais por paletas de cores que forçam bastante a saturação. O filme foi um sucesso muito maior do que todos podiam esperar e o diretor pode então transformar sua versão original em realidade, que já pode ser assistida em streaming no site da Amazon e que chega à versão física no inicio de dezembro. O trailer abaixo compara as duas versões para mostrar que o trabalho não é como assistir um filme colorido em uma TV preto e branco.

tarantino

É uma proposta de um fã em um abaixo assinado, mas faz sentido – escrevi sobre a ideia lá no meu blog no UOL.

O hilário Deadpool é um dos melhores filmes de super-herói desta década e seu inusitado sucesso no início do ano fez sua continuação se transformar numa das grandes apostas do gênero. A expectativa sobre o novo filme acabou sacrificando o diretor da sequência, Tim Miller, que, na semana passada, abandonou o cargo possivelmente devido a problemas com o ator Ryan Renolds. Mas sua saída deu origem a uma ideia fabulosa: e se o diretor do próximo Deadpool for Quentin Tarantino?

A conjunção Deadpool/Tarantino começou na cabeça do fã norte-americano Carl Champion Jr., que criou um abaixo-assinado online para chamar atenção para sua ideia. “Se há alguma chance de ver Tarantino fazer um projeto que é quase garantido que fature um bilhão de dólares é esta”, explicou na página, que já conta com mais de treze mil assinaturas. “Tivemos um ótimo gosto do que pode vir a partir de Kil Bill, mas imagine um cara como Quentin Tarantino escrevendo diálogos para o mercenário tagarela! Seria glorioso!”

“Quentin Tarantino é o mestre de escrever diálgoos e Ryan Reynolds um mestre em dizê-los. Tarantino faz filmes ultraviolentos que faz você amar os personagens, com linguagem chula, mulheres gostosas e um vilão que NUNCA seria esquecido. Me diz se a Marvel não precisa de algo disso?”, continua Champion Jr.

A probabilidade disso acontecer, no entanto, é quase nula, mesmo porque Tarantino saiu falando mal da Disney (dona da Marvel) no ano passado pois o lançamento do episódio mais recente de Guerra nas Estrelas (que também é da Disney) atrapalhou o lançamento do filme mais recente do diretor, Os Oito Odiados. Mas além de compartilhar um humor histérico, cínico e violento como o do anti-herói da Marvel, Tarantino também é fã de quadrinhos desde a infância. E Ryan Reynolds é conhecido por ficar atento aos pedidos, sugestões e exigências dos fãs. Por isso se você gostou da ideia, assine o abaixo assinado (neste link aqui) e torça para que uma conjunção de improbabilidades aumente ainda mais a moral – já alta – do segundo Deadpool.