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Paranoia

No fim do ano passado, Henry Rollins mencionou que estava trabalhando com Ian McKaye e começaram as especulações que dois dos maiores nomes da cultura faça-você-mesmo do punk dos Estados Unidos estavam compondo ou gravando disco. Mas o vocalista do Black Flag e da Rollins Band e o cérebro por trás do Minor Threat e do Fugazi logo desmentiram que pudessem estar fazendo algo autoral e agora a verdade vem à tona: os dois estão começando a chafurdar no extenso arquivo dos Cramps, reativando a seminal gravadora do próprio grupo, a Vengeance Records, para mostrar joias enterradas no passado da banda que finalmente verão a luz do dia. Uma das bandas mais transgressoras da história da música gravada, o grupo liderado pelo casal Lux Interior e Poison Ivy é o monstro que o rock’n’roll deveria ter sido caso não fosse cooptado pela indústria fonográfica. Embora sejam mais reconhecidos por fundar o gênero chamado psychobilly, os Cramps eram viciados em música pop que gostavam de se enfiar até o pescoço no pântano do rock sujo, causando comoções por onde passavam. O primeiro lançamento desta nova fase vem dos estúdios da gravadora Ardent, quando o líder do Big Star resolveu, ainda em 1977, produzir o primeiro disco da banda, que só seria lançado em 1980 com o título de Songs the Lord Taught Us, E na primeira sessão que fizeram no clássico estúdio de Memphis, Chilton pediu pra banda gravar várias músicas para depois escolher as que lançariam como compactos antes do lançamento do disco. E, como Rollins detalha no texto de apresentação do disco (leia abaixo), eles fizeram essas gravações que não foram lançadas à época e quase viram a luz do dia no final dos anos 80, quando Lux e Poison voltaram àquelas gravações e fizeram novos mixes para a seleção de música, que seriam lançadas como um disco voltado para os fãs chamado de Gravest Gravy. Mas, por algum motivo, o projeto foi engavetado e só agora volta a surgir para o público, quando Rollins e MacKaye começam a mostrar o que conseguiram levantar nos arquivos da banda a partir deste primeiro registro dos Cramps em estúdio, que chega ao público dia 21 de agosto e já está em pré-venda. Ouça abaixo o primeiro single deste novo álbum, “TV Set”, bem como um texto de Rollns sobre a descoberta deste disco perdido e o nome das faixass: Continue

Acontecimento – título da temporada que o trio formado no Rio de Janeiro Crizin da Z.O. apresentou às segundas-feiras deste maio no Centro da Terra – também é uma boa forma de descrever a última noite dessa safra de apresentações ao vivo. Cris Onofre, Danilo Machado e Marcelo Fiedler acresceram à sua formação um segundo percussionista (Gênesis Chagas, baterista da banda carioca Cidade Partida) para receber Juçara Marçal, que ativou sua faceta Delta Estácio Blues, com aparelhos eletrônicos e afeita aos beats pesados e ao tambozão funk que movimenta a parede de ruído erguida pela banda. Foi demais vê-la entrando na zona oeste do Rio de Janeiro do som da banda, ela mesma nascida em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e deixando aflorar todo groove contagiante do funk com o peso e a distorção elétrica dos efeitos à disposição, ao mesmo tempo que fazia o grupo entrar no modo distopia que filtra seu segundo álbum, fundindo sonoridades e temáticas no mesmo clima apocalíptico, que ainda colocou os anfitriões da temporada para enveredar por “Sem Cais”, que Juçara compôs com Kiko Dinucci e Negro Léo, numa versão inacreditável. Chave de ouro.

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Quem deu o segundo passo de um novo disco nesta sexta-feira foi Olivia Rodrigo, que revelou sua “The Cure” como novo degrau – para baixo – de seu vindouro terceiro disco, You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love. E depois de filmar “Drop Dead” no Palácio de Versailles como uma princesa Disney – símbolo do pop perfeito -, ela começa a descida rumo à tristeza enunciada em seu título em uma ode folk emoldurada em um hospital dos anos 50 nos Estados Unidos, em que, fantasiada de enfermeira de publicidade, vai mostrando suas vísceras como um personagem de desenho animado num filme de terror. Ao batizar a faixa com o nome da banda de seu ídolo e agora camarada Robert Smith, ela sintoniza a melancolia agridoce do papa do gótico pop ao mesmo tempo em que acena para a geração seguinte à do Cure, imediatamente influenciada por eles, a quem ela vem tateando contato, do rock alternativo dos anos 90, soando como uma balada acústica de bandas tão diferentes quanto Smashing Pumpkins, Hole, Weezer e Foo Fighters. Resta saber se este será o disco em que ela, de uma vez, abraçará o rock, tornando-se um improvável ícone para o gênero. Mas ao final do clipe, ela revela que o hospital vintage que é o cenário do clipe é (como era o palácio do clipe anterior) uma ilusão, pisada por ela mesma ao mostrar-se sem fantasias numa casa encaixotada, como se tivesse acabado de chegar de uma mudança. Vamos ver o que ela nos mostrará a seguir…

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Camadas e camadas

Entre me levantar da poltrona em que vejo a apresentação até cumprimentar os artistas em seguida (algo que leva entre cinco e dez segundos), ouvi três vezes comentários que usavam a palavra “camadas” – sempre no plural – logo após a terceira noite da temporada Acontecimento que o trio Crizin da Z.O. vem fazendo no Centro da Terra, em que receberam o produtor de Guarulhos MNTH e o conterrâneo carioca Lcuas Pires. Só a configuração de palco já foi radicalmente diferente das noites anteriores, em que seus respectivos convidados (Kiko Dinucci e Deafkids) trouxeram guitarras e incitavam a percussão. Esta última até esteve presente na noite, embora tocada com apenas um atabaque e disparadores mecânicos de beats. Em sua terceira segunda-feira, a temporada Acontecimento mergulhou na eletrônica, distorcendo timbres, letras, sequências e até transmissões de rádio para criar justamente as tais camadas mencionadas em voz alta por vários dos presentes após a noite, criando uma trama ambient de noise que abriu uma outra dimensão na textura sonora do grupo. Hipnose de fim de mundo.

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“Esse sentimento de que o mundo tá indo pro buraco”, a sensação de desesperança transmitida pela segunda apresentação da temporada Acontecimento que o trio Crizin da Z.O. está fazendo no Centro da Terra poderia ser resumido a um questionamento ainda maior, posto logo já no primeiro movimento, quando o próprio Crizin arrematava: “Será que nesse buraco cabe o mundo?”. Recebendo a dupla Deafkids nesta segunda-feira, mais uma vez o grupo de funk apocalíptico transformou o palco do teatro em um alarme estridente sobre o fim do mundo iminente que toma conta do nosso dia-a-dia. Como na primeira apresentação da temporada (quando o grupo apresentou-se ao lado de Kiko Dinucci), esta nova noite viu o casamento das duas guitarras presentes criar uma parede de microfonia grossa que espremia o público contra a parede mental dos próprios cérebros, mas como tanto Douglas Leal quanto Mariano Sarine desdobram-se na percussão (elemento também crucial para o grupo do Rio de Janeiro), esta névoa elétrica sempre vinha aterrada de atabaques e tambores prontos para deixar todos em alerta. Pesado e aterrador como sempre, mas sem perder a seriedade ou o senso de emergência.

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“You don’t know me…” desafia Caetano Veloso logo ao início de seu segundo disco gravado em Londres em 1972, o mitológico Transa, que agora vai virar documentário produzido por Paula Lavigne e dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, como foi antecipado ao jornal O Globo. Os dois já dirigiram juntos outros dois capítulos diferentes da história do baiano, em dois documentários: Uma Noite em 67 (de 2010), em que dissecam o clássico festival da canção que revelou a geração-base que se tornou o que até hoje chamamos MPB, e Narciso em Férias (de 2020, também produzido por Paula), que conta o período em que o baiano foi preso, torturado e exilado do Brasil durante a ditadura militar. Agora os dois se debruçam sobre as sete músicas do disco como fios condutores para o período em que Caetano foi forçado a fugir para Londres, na Inglaterra, quando gravou dois discos, o primeiro homônimo em 1971 e Transa no ano seguinte, quando compôs o disco com uma banda formada por Jards Macalé, Moacyr Albuquerque, Áureo de Souza e Tutty Moreno, além de participações de Gal Costa e Angela Ro Ro. Não há previsão de lançamento por enquanto.

Enorme satisfação em receber mais uma vez no Centro da Terra o trio fluminense Crizin da Z.O., que ocupa as segundas-feiras de maio com temporada Acontecimento, em que utiliza o palco do teatro como um espaço-tempo imprevisível. E assim Cris Onofre, Marcelo Fiedler e Danilo Machado convidam diferentes artistas para criar nestes instantes e a cada segunda-feira recebem novos parceiros. A primeira,a dia 4, vem com Kiko Dinucci abrindo caminhos. Depois, dia 11, recebem a dupla Deaf Kids. No dia 18 é a vez de receberem os produtores MNTH, Lcuas Pires e Mbé e encerram estes acontecimentos com a presença de Juçara Marçal no dia 25, sempre misturando funk carioca com elementos de vanguarda, noise e eletrônica. As apresentações começam pontualmente a partir das 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra.

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A espera terminou. Depois de teasers e pôsteres, a dupla escocesa preferiu ir direto ao ponto antes de começar uma caça ao tesouro como a que fez em 2013 antes de anunciar seu Tomorrow’s Harvest. O novo disco chama-se Inferno e será lançado no próximo dia 29 de maio. Não sabemos se haverá algum single ou clipe antes do lançamento nem se a “faixa 05” que eles liberaram esses dias é a quinta música do disco, “Father and Son”. Aliás, isso é uma das poucas coisas que sabemos sobre o álbum, sua capa e o nome das 18 músicas.

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Quando Guilherme Held e Kiko Dinucci subiram ao palco do Centro da Terra apenas com seus instrumentos, todos os presentes sabiam que íamos, como nas segundas anteriores de sua temporada Abriu o Fuzz (quando recebeu Fernando Catatau e Lúcio Maia para duelos da mesma natureza), mergulhar no universo da guitarra elétrica sob os auspícios de dois magos das seis cordas. O encontro, porém, foi muito além dos timbres, solos e riffs característicos no manejo daquele instrumentos, quando os dois usaram suas guitarras para explorar os limites e possibilidades da eletricidade sonora, usando a guitarra mais como um cajado sobrenatural do que condutor de melodias e indutor de harmonias e ritmos. Enquanto Kiko enfiava objetos entre as cordas – tocando-a até com um arco de viola – e trabalhava com texturas fantasmagóricas e bordoadas rítmicas, Held repetia loops de notas sequenciais que acelerava ou desacelerava de acordo com as vibrações sísmicas no palco. Na maior parte do show as guitarras não soavam como guitarras, refletindo a reverberação elétrica dos efeitos e texturas manipulados pelos dois, mas em alguns momentos soava como uma conversa alienígena, uma linguagem robótica testando as fronteiras de possibilidades entre a música, a física e a matemática. A ausência do laser de Paulinho Fluxuz, que não pode participar desta única apresentação da temporada, deixou a iluminação mais estática e pensativa, reforçando a transposição sonora da dupla. Tá doido!

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Lançada dias após a prisão em Londres de um de seus líderes por protestar contra o genocídio na Palestina, “Boots on the Ground”, a nova canção do grupo Massive Attack coincide em ser a primeira canção inédita de Tom Waits em quinze anos. “Um dia, há muitos anos, aceitei o convite do Massive Attack para colaborar”, escreveu Waits sobre o lançamento do single. “O longo atraso no lançamento nunca me preocupou. Hoje, como em toda a história da humanidade, é garantido que esse tipo de música nunca sairá de moda e que a tolice humana de cometer fracassos é um banquete para as moscas”, explicou antecipando que o grupo inglês ainda lançará o single em vinil com outra música, chamada “The Fly”, como seu lado B. O clipe ainda traz uma série de imagens maravilhosas do fotógrafo estadunidense @thefinaleye, que vem cobrindo protestos em seu país desde o assassinato de George Floyd aos protestos contra a milícia de Trump contra os imigrantes daquele país, mostrando que, mesmo que as tensões políticas do mundo pareçam pairar sobre a Europa, a América Latina, os países árabes e a Ásia Central, o pau anda comendo nos Estados Unidos há muito tempo… Detalhe: a música não está no Spotify.

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