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Paranoia

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Triste saber da notícia da morte de José Mojica Marins, um dos maiores cineastas brasileiros, nesta quarta-feira. Um artista essencialmente popular que transcendeu barreiras geográficas e reinventou a linguagem cinematográfica num país que tinha uma rala tradição no assunto, ele se confundiu com o próprio personagem que inventou – o Zé do Caixão – e soube fazer entretenimento para as massas sem abrir mão de ousadias artísticas. Um artista único na história brasileira, um autor intransigente, showman, popstar, provocador e rebelde. Fará falta.

A terceira temporada da melhor série atual estreia daqui a um mês e pouco sabemos sobre ela até agora… A maior novidade recente foi o lançamento do belíssimo cartaz que tenta dar o tom de que esperar da nova safra de episódios, que começa a ser exibida a partir do dia 15 de março.

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O slogan que anuncia a temporada conta com um duplo sentido em inglês – “livre arbítrio não é livre” também pode ser lido como “livre arbítrio não é de graça” e isso pode conversar estranhamente com a era que vivemos atualmente, principalmente a partir da linha do tempo que a série mostrou no início do ano, finalmente a localizando num futuro próximo.

É interessante notar que após os incidentes catastróficos que mudariam a cara do século 21, há a criação de algo referido como “um sistema”, que controlaria a história. Se cogitamos que Westworld não seja um simples playground de bilionários, mas uma realidade virtual em que endinheirados podem fazer o que quiser, a conversa com o slogan do cartaz recém-lançado pode dizer que toda a humanidade que não tem tanto dinheiro, não tem também livre arbítrio – e talvez o tal sistema criado seja uma realidade virtual que abranja toda a população do planeta, encapsulando indivíduos em realidades alternativas – como bolhas de realidade virtual, embora num formato mais próximo de Matrix que dos desertos virtuais imaginados pelo falecido (?) Dr. Robert Ford.

O elenco principal permanece, felizmente. Os sensacionais Evan Rachel Wood, Thandie Newton, Ed Harris, Jeffrey Wright, Tessa Thompson, Luke Hemsworth, Simon Quarterman e Rodrigo Santoro estarão todos de volta, ao lado de novos nomes, como o Aaron Paul de Breaking Bad, o rapper Kid Cudi, Vincent Cassel, o jogador de futebol americano Marshawn Lynch, entre outros. O personagem de Aaron Paul, inclusive, parece mais próximo da realidade fora do parque temático e nos ajuda a entender o contexto maior do seriado.

A nova temporada terá menos episódios que as duas anteriores, com apenas oito em vez de dez, e deverá ser contada de forma mais linear, sem exigir tanto do espectador. “Essa temporada vai ser menos um jogo de adivinhação e mais uma experiência com os hospedeiros finalmente conhecendo seus criadores”, disse o criador da série Jonathan Nolan em entrevista à revista Entertainment Weekly.

Pois pode vir Westworld, estamos prontos!

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“Isso não é um mashup, isso é um manifesto!”, escreve Paulo Beto, o mentor do Anvil FX, na descrição do curto clipe “Bossa Morta (João Gilberto is Dead)”, que publicou nesta sexta-feira, ao sobrepor “Garota de Ipanema” na voz e violão de João Gilberto sobre a bateria, guitarra e efeitos que abrem o marco zero da estética gótica na música pop dos anos 80, a eterna “Bela Lugosi is Dead”, do Bauhaus. Não é uma coincidência, a bateria sincopada que dá o tom de toda a música e que transforma, naquele momento, a banda de Peter Murphy numa espécie de Joy Division com quadris, é nitidamente inspirada no andamento de uma das células rítmicas mais conhecidas da história de nossa música.

Isso é maravilhoso na música, sua influência inconsciente, que se esgueira e fica (tipo “Louie Louie”, que era um cha cha cha, mas isso é outro história).

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O primeiro trailer da quarta temporada de Stranger Things não se passa na cidade original da série, a fictícia Hawkins, e sim na União Soviética, juntando as pontas do final da última temporada ao também revelar que o xerife Jim Hopper está vivo – embora não propriamente bem. Preso do outro lado do planeta, ele teve seu cabelo e bigode raspados e agora trabalha como mão de obra escrava numa ferrovia guardada pelo exército russo.

Além do alívio pela certeza da sobrevivência do personagem vivido por David Harbour o teaser de menos de um minuto atiçou a curiosidade dos fãs para a certeza que aumentará no clima de paranoia da guerra fria durante os anos 80. E também e como tanto Eleven desenvolveu novos superpoderes quanto há um portal interdimensional que eventualmente poderia funcionar como veículo de teletransporte em nossa dimensão, cogita-se até que a nova temporada possa se passar na paisagem gelada da União Soviética e, com isso, permitir que os criadores da série, os irmãos Matt e Ross Duffer possam homenagear outro clássico do horror do período, O Enigma do Outro Mundo, clássico de John Carpenter lançado em 198, que se passa na Antártida. A temporada, no entanto, não tem data de estreia.

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“Delete Forever” é a quinta música do que Grimes do álbum Miss Anthropocene, que ela finalmente releva ao público no fim da semana que vem – mas essa mistura de balada ruim do Oasis e visual de anime de 20 anos atrás parece confirmar uma suspeita que seu disco será mais decepcionante que o disco novo da La Roux.

Tomara que não, mas ao que tudo indica…

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Pedra fundamental na discografia do Sonic Youth, “White Kross”, do clássico Sister, de 1987, ganha uma senhora releitura grindcore a cargo de um dos principais nomes do gênero, o grupo inglês Napalm Death, que ao lançar sua primeira música inédita em quatro anos no single Logic Ravaged By Brute Force colocou a música do grupo nova-iorquino no lado B.

Vocês lembram da original, claro…

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Os dois singles (um com Lydia Lunch e outro com FKA Twigs) foram só um teaser e o produtor chileno-americano Nicolas Jaar lança o álbum 2017-2019, tirando todo o tom pop que predominava na coletânea anterior de seu projeto Against All Logic (o excelente 2012-2017) transformando-o em uma arma de combate. A melhor explicação para a mudança vem logo na primeira faixa, quando picota vocais de Beyoncé sobre uma base bate-estaca que implode o ouvinte em uma pista de dança mental, febril e agressiva, consolidando-o como um dos melhores produtores em ação atualmente.

Detalhe: os dois singles anteriores não entraram no disco.

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Esbarrei nessa mixtape Samba Obscuro que o Kiko Dinucci fez em 2011 em seu blog de cinema e que foi ressuscitada no canal do YouTube do Garimpo Sound System. “Mas isso não é um blog de cinema? Sim, mas esse mixtape tem um Q de filme, seja nos climas, na montagem ou no poder narrativo dos sambas escolhidos”, explica o então futuro Metá Metá, listando Paulinho da Viola, Adauto Santos, Nelson Cavaquinho, Itamar Assumpção, João Bosco, Alaíde Costa e Milton Nascimento, Jards Macalé, entre outros e alguns diálogos de filmes nacionais. “Boa viagem aos porões da alma humana através da música popular brasileira”, anuncia o compositor.

Paulinho da Viola – “Roendo as Unhas”
Jards Macalé- “E Daí?”
Adauto Santos – “Cravo Branco”
Nelson Cavaquinho – “Pode Sorrir”
Itamar Assumpção e banda Isca de Policia – “Você Está Sumindo”
João Bosco – “Bodas de Prata”
Alaíde Costa e Milton Nascimento – “Me Deixa Em Paz”
Jards Macalé – “Rua Real Grandeza”
Paulo Vanzolini – “Alberto”
Paulinho da Viola – “Comprimido”

Foto: Leonardo Bicalho

Foto: Leonardo Bicalho

Edgar canta “Carro de Boy” – inspirada em fatos reais – desde antes do lançamento de seu Ultrassom, mas a música, na edição final, ficou de fora do disco – mas não dos shows. Com a participação de Rico Dalasam, a faixa equilibrava protesto e festa fazendo todo mundo dançar com sangue nos olhos. Descrevendo uma situação infelizmente corriqueira no Brasil (o playboy que mata alguém pobre atropelado e sai ileso porque não é pobre), a faixa finalmente é lançada com um clipe contundente que joga na cara o ponto-chave deste questionamento: o genocídio negro contínuo no país.

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Utilizando suas mídias sociais, o grupo Gang of Four anunciou a morte de seu fundador Andy Gill neste sábado, sem falar sobre a causa de sua morte. Um dos principais pilares do pós-punk inglês, ele ajudou a reinventar a guitarra elétrica na virada dos anos 70 para os anos 80 ao lado de nomes como Robert Smith, Bernard Sumner, The Edge e os caras do Wire, mas ao contrário de seus contemporâneos, baseava sua musicalidade no toque brusco, transformado a guitarra em um machado de ruído que antecipava os ataques de scratch dos DJs da década seguinte, misturando inovações sônicas contemporâneas com o minimalismo funky que caracterizava seu grupo. Também foi um dos principais nomes da época a usar a música pop como forma de contestação política e a forma como conseguia traduzir a desesperança daquele período em força artística o transformou um dos instrumentistas mais importantes das últimas décadas.

Pude assistir a quatro shows de sua banda: duas em 2006 (com a formação original, Andy, Jon King, Dave Allen e Hugo Burnham), uma vez em São Paulo e outra em Floripa, quando vieram dividir uma turnê com os Cardigans (!?), uma em 2011, quando trouxe a banda como curador do Festival da Cultura Inglesa (apenas com Jon e Andy da formação clássica), num show épico gratuito no Parque da Independência (vídeos acima), e finalmente quando fez o último show por aqui em 2018 (apenas com Andy dos fundadores da banda, vídeo abaixo) e quando pude conversar melhor com ele depois de anos trocando emails. Meu primeiro contato com ele foi justamente na primeira vinda ao país, quando fiz uma entrevista tornar-se um artigo sobre as relações entre música e política a partir da criação de sua banda, publicado em uma das reencarnações da revista Bizz. Adorei que quando nos vimos ele lembrou que eu havia rotulado o Gang of Four de “banda crítica”, “não é mesmo uma banda de protesto”:

Quando eu e o Jon (King, vocalista da banda) começamos, nos perguntávamos: ‘O que motiva as pessoas? O que as faz fazerem o que fazem?’. É claro que você pode resumir isso em apenas ‘economia’, mas não é só isso. As pessoas ainda estão fazendo as mesmas coisas que faziam no século passado, o marido ainda trazia o dinheiro para casa enquanto a mulher cuidava da comida e dos filhos. O mundo havia mudado, mas essas relações ainda não. Pelo contrário, elas haviam se tornado prisões: família, emprego, propriedade. As pessoas se prenderam nisso de uma forma que acham que isso é a vida delas.

Temos uma música chamada ‘Natural’s Not In It’ que fala exatamente sobre isso. Tudo aquilo que chamamos de “natural”, na verdade, é artificial, é criado pelo homem. Seja a sociedade, o conceito de justiça, de bom senso… Tudo isso é invenção humana, nada disso é natural. As idéias não são naturais. Qualquer uma delas, todas elas – são inventadas.

E não queríamos ser os portavozes da nova esquerda. Para isso, tiramos todas as referências de política de nossas letras e títulos – você vê os nomes das músicas e não diz que o conteúdo delas é política –, tudo que pudesse lembrar a política dos jornais tava fora. Não queríamos dizer ‘você está certo’, ‘você está errado’, ‘você é de esquerda’, ‘você é de direita’. Não queríamos nos separar das outras pessoas. Queríamos, sim, lembrar pra elas que, esquerda ou direita, estamos nesse barco juntos.

Mas a forma que você colocou é bem razoável. É isso: o Gang of Four não era uma banda de protesto, mas uma banda de crítica. Uma crítica à sociedade, à forma que vivemos, à música, ao rock, ao punk rock, às outras bandas, a nós mesmos. Era mais ou menos como o Situacionismo dos anos 60, não queríamos nos levar a sério, mas não queríamos só isso.

E aí tem o outro elemento que, pra nós é crucial, que foi o ritmo. Não queríamos soar como rock, não queríamos ser mais uma banda de rock. E tanto eu quanto Jon já vínhamos pensando em experimentar com ritmo, somos fãs de dub até hoje, de krautrock, do James Brown. Mas seria ridículo tentar recriar a atmosfera de qualquer um desses artistas na Inglaterra dos anos 70.

Por isso partimos do zero, da tela em branco, e fomos acrescentando as coisas à medida em que começamos a tocar. E as coisas foram se encaixando. O legal é que não pensamos nessas coisas, elas simplesmente foram entrando em seu lugar. Põe um prato aqui, um bumbo ali, um riff mais à frente. Começava com um baixo solto, entrava a bateria reta, a guitarra fazendo ruídos e o vocal – mesmo que a letra importasse – funcionava como um instrumento. As coisas iam entrando em sintonia sem que pensássemos nisso. Em vez de fazer canções de amor, fazíamos canções de antiamor – o que é diferente de uma canção de ódio, veja bem.

Foi quando começamos a por elementos de disco music na mistura. Primeiro porque adorávamos disco. A cena começou a ficar ruim devido à forma que a mídia explorou o tema, com filmes como ‘Os Embalos de Sábado à Noite’ e todo o tipo de banda gravando disco music. Mas antes de ficar massificado, era uma cena bem interessante e – como você colocou – política, por libertar a canção de um formato estagnado e deixar as pessoas mais soltas, em vários sentidos.

Um gigante que pude conhecer pessoalmente. Obrigado por tudo.