Trabalho Sujo - Home

Paranoia

negroleo-2020

Depois de mais de três anos maturando um disco que começou a surgir em 2013, Negro Leo finalmente dá a luz a seu Desejo de Lacrar, uma tese musical em movimento sobre a necessidade de se afirmar online e como isso se reflete na noção de identidade nos dias de hoje. O disco foi produzido pelo baterista Serginho Machado, que também toca na banda e que ainda conta com Chicão Montorfano nos teclados, Fábio Sá no baixo e o próprio Leo no violão, voz e assovios. O disco chega às plataformas digitais na virada da quinta para a sexta e Leo vai puxar uma sessão coletiva de Zoom para apresentar o disco em primeira mão a partir das 22h da quinta (o link para a audição é esse). Ele também antecipou o faixa a faixa do disco em primeira mão para o Trabalho Sujo.

“The Big One”
“Lacrar é agir de forma insolente e revoltada. Lacrar é não obstar limite entre si e o direito. É direito q se adquire no ato. Lacrar é encerrar assunto. Vencer, se não de fato, virtualmente de direito. Lacrar, na verdade, é o q nos resta. O lacre, no limite, como resultado do choque entre a comunicação em rede e o reconhecimento da impossibilidade de justiça. Época de parricídio. Inevitável q essa transformação sangre e exiba vitalidade. ‘Nem um terráqueo q trepa fode surdo à vontade de deus’? Será o nascimento de uma nova política?”

“Tudo Foi Feito Pra Gnt Lacrar”
“Foi a primeira música do disco a surgir. Eu tava pensando numa maneira de unir a instrumentalização de 2013 pela direita com o logos lacrador. Já havia ali um investimento na captura do discurso e da representação do lacre q acabou resultando numa mudança de mentalidade mais abrangente, q veio a dar no golpe e na ascensão do ultraliberalismo-escravocrata, q basicamente se comunica através do logos lacrador.

“Absolutíssimo Lacrador”
“É uma chave cósmica: cristo como unicórnio colorido, quimera: ‘não penses q vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua propria casa’ (Mt, 10, 34). O titulo da canção poderia ser #aceitaqdóimenos #aturaousurta, duas hashtags q dizem: a guerra é inevitável. Essa polarização, da capa ao título, organiza a economia verbal do lance.”

“Desejo de Lacrar”
“Voz sufocada pra enfatizar a atmosfera política, falsetes sedutores pra suportar o grave medonho desses tempos. A engasgada no verso ‘fluindo em volumes estacionários’ não foi proposital. A melodia em ‘#somostodos’ tem o sentimento certo de desolação e cerimônia pra carregar a confusão mental da hashtag.”

“Eu Lacrei”
“Quando a canção se transforma no açúcar das pequenas tragédias sentimentais do cotidiano, uma historia inspirada no noticiário policial de todos os tempos, com a nobreza envolvida, canavial das desumanidades humanas, várias camadas de sensibilidade sedimentadas.”

“Makes e Fakes”
“Tazio Zambi é o maior poeta da minha geração. Amigo de quase uma década. O cara q abriu caminho pra Gilgamesh e Jacinto Silva. Um mês depois de enviar o poema, num particular comigo, mudou ‘mimimi’, uma decisão q aproximou o poema da abordagem geral de lacre no disco.”

“Dança Erradassa”
“Eu tava fazendo uma canção. Quarto de hotel, Xangai, Peter Ivers, ‘terminal love’, Starbucks, Dirty Fingers, All Club, Brasil. Eu improvisei a imagem candente das ‘planícies do fim’, numa alusão à terra plana, saltando da melodia num vórtice. Tava pronta.

“Desvio pro Vermelho”, “Esplanada”, “Outra Cidade”
“Nova infância do mundo.”

negroleo-documento-1

negroleo-documento-2

negroleo-documento-3

dark-3

Pouco antes do lançamento desta terceira safra de episódios de Dark, havia feito um comentário sobre o que esperar do final da série alemã e prometi que falaria sobre seu encerramento em breve, portanto segue meu comentário sobre o final da série Dark, cuja última temporada foi lançada no fim do mês passado.

E você, o que achou do final de Dark?

ABCYÇWÖK

“Em 2005 a gente teve a idéia de fazer umas musicas com cada um mandando um canal, ou outro devolvia dois, daí o primeiro devolvia três. Quando já tinha som o suficiente, a gente mixava e passava pra outra. Isso usando a tecnologia disponível da época, que já era assombrosa na gravação e edição de áudio, mas com uma internet bem lenta”. John Ulhoa, o guitarrista do Pato Fu, puxa a memória para lembrar o início de seu projeto ao lado de André Abujamra, de impronunciável nome de ABCYÇWÖK, em um papo por email. O disco finalmente vê a luz do dia e a dupla mostra clipes para duas músicas de projeto aqui no Trabalho Sujo.

O resultado é um estranho disco de dance music com intervenções de ruído, que empilha timbres explicitamente retrô dos anos 80 e 90 com melodias hipnóticas, efeitos caseiros, sonoplastia eletrônica ou feita com a boca, cantos verborrágicos de André e gemidos distorcidos de John. Mas a esquisitice sempre soa familiar como se reconhecer num espelho distorcido. É um disco que brinca com a ideia de pop a partir da possibilidade de não soar pop – algo que os dois fingem que não conseguem.

“Fomos brincando disso, e nuns dois anos fizemos umas cinco músicas”, continua o guitarrista. “Aos poucos fomos parando, e só retomamos agora na quarentena. Daí em uma semana fizemos mais seis músicas! Por isso dizemos que o disco foi feito em 15 anos e uma semana.” A amizade dos dois começou em uma das premiações da MTV brasileira nos anos 90 – eles já se conheciam à distância, tanto pelas bandas de John (Sexo Explícito e Pato Fu) e pelas de André (Os Mulheres Negras e Karnak), mas o encontro nos bastidores fez seus caminhos se encontrarem. “Eu produzi o Tem Mas Acabou do Pato Fu e isso fez a amizade crescer e pensar sempre em fazer alguma coisa juntos”, lembra André. John compôs para o Karnak e as duas bandas até se apresentaram juntos. “Mas o mais importante mesmo foi termos formado um dos piores times de futebol da história do Rock Gol MTV. Tomamos goleadas de dois dígitos históricas”, lembra John sem remorso.

Não havia rumo definido para o novo trabalho. “Absolutamente nenhum”, reforça Abujamra, citando aleatoriamente o músico havaiano Israel Kamakawiwo’ole como referência, e assim seguiram após o início da quarentena. “A ideia começou fazendo com o John em BH e eu em São Paulo, já estávamos em quarentena há 15 anos”, brinca André, reforçando o tom caseiro do disco. “Nunca nos encontramos pra gravar nada”, lembra John. “Até a capa foi feita no mesmo esquema. Abrimos um projeto gráfico, cada um ia colocando um traço, um desenho, uma camada.”

O estranho nome tem duas versões, explica John: “Uma é que é um nome alienígena que uma mulher de quatro braços escreveu no banheiro químico de Chernobyl segundos antes do sétimo gol da Alemanha ou algo assim. E a outra versão é que criamos o nome igual ao disco: numa conversa no whatsapp, cada um foi mandando uma letra em sequência.” Eles não pretendem fazer shows do projeto, mesmo quando for possível. “Sinceramente, não sei se consigo tocar essa músicas ao vivo, elas são muito doidas”, continua o guitarrista mineiro. “Só se fizermos um show de dança, com playback. Acho que elas ficam legais com os videos que o Abu está fazendo, acho que é a melhor expressão delas.”

ABCYÇWÖK-capa

Além do recém-lançado projeto, os dois seguem tocando seus projetos pessoais. André nem começa a listar: “Preciso de 12 mil linhas, então não quero responder”, desconversa, lembrando que já está trabalhando na segunda parte de sua tetralogia elemental, que começou com o filme-show Omindá, sobre água, e que agora fala sobre fogo. Já John acabou de produzir o novo disco solo de sua parceira Fernanda Takai. “Fiz um gravação solo para uma homenagem ao Arnaldo Baptista pelos 72 anos, além de várias outras pequenas produções nessa demanda de lives e videos para conteúdo de canais. O Pato Fu tem feito umas versões de nossas músicas antigas, com cada um gravando de sua casa. Tô começando uma trilha de teatro também. Muita coisa, não posso reclamar de falta do que fazer…”, concorda John. Mas o ABCYÇWÖK não termina no disco. “Estamos pensando em clipes multimilionários, um Instagran e talvez um CD novo feito em uma semana.”

massiveattack-eutopia

massiveattack

Mesmo quarentenados, a dupla inglesa Massive Attack encontrou tempo para deschavar esse estranho momento que vivemos. “A quarentena expôs os melhores aspectos e as piores falhas da humanidade”, disseram ao lançar o novo EP, Eutopia, que toca precisamente nesses pontos. “Esse período de incerteza e ansiedade nos forçou a meditar sobre a necessidade óbvia de mudar os sistemas prejudiciais através dos quais vivemos”, explicaram.

O disco conta com três faixas, cada uma delas uma colaboração com outro artista e com outro pensador sobre três temas básicos. “Ao trabalhar com três especialistas, criamos um diálogo sonoro e visual em torno dessas questões estruturais globais: emergência climática, paraísos fiscais e renda básica universal” e assim parearam o grupo escocês Young Fathers com o economista inglês Guy Standing, o MC norte-americano Saul Williams com o professor francês Gabriel Zucman e o grupo norte-americano Algiers com a autora do acordo climático de Paris Christiana Figueres. Cada faixa é batizada com o nome dos colaboradores (“Guy – Young Fathers”, “Christiana – Algiers” e “Gabriel – Saul”) e foi ilustrada visualmente pelo colaborador do grupo Mario Klingemann.

“O espírito deste EP, seus elementos e idéias não têm nada a ver com noções ingênuas de um mundo ideal e perfeito, e tudo a ver com a necessidade urgente e prática de construir algo melhor”, encerram seu manifesto. “Nesse sentido, Eutopia é o oposto de um erro de ortografia.” Cada clipe encerra com uma frase do livro Utopia, de Thomas More: “Seria muito mais justo fornecer a todos meios de subsistência, para que ninguém tenha a terrível necessidade de se tornar primeiro um ladrão e depois um cadáver”, “nunca há escassez de criaturas horríveis que atacam seres humanos, arrancam sua comida ou devoram populações inteiras; mas exemplos de planejamento social sábio não são tão fáceis de encontrar” e “”Nenhuma criatura viva é naturalmente gananciosa, exceto pelo medo da falta – ou, no caso dos seres humanos, da vaidade, a noção de que você é melhor do que as pessoas se puder exibir mais propriedades supérfluas do que elas”. Isso é um livro publicado no ano MIL QUINHENTOS E DEZESSEIS…

rakta-meialuz

A dupla paulistana Rakta lança “Meia Luz e Meio Eu”, primeira música gravada por Paula Rebellato e Carla Boregas cada uma em sua casa, com bateria de Maurício Takara e com direito a um remix feito pela DJ Malka. A vibe fantasmagórica da nova faixa começa a desenrolar um novo caminho para além do ótimo Falha Comum do ano passado.

the-boys-2

Por mais que o tema e a abordagem não pareça apontar para este lado, a série The Boys, inspirada na HQ de Garth Ennis e Darick Robertson foi uma das melhores leituras sobre o estado da política em 2019, ano de lançamento da primeira temporada, batendo de frente em outras séries que estavam muito mais ligadas a este tema, como Chernobyl, Years and Years ou Handmaid’s Tale. É que a história do grupo de anti-super-heróis temperada com muita violência gráfica não precisa ser levada ao pé da letra para ser compreendida como crítica às transformações culturais desta virada de década. E a segunda temporada parece seguir na mesma toada, abrindo com os protagonistas da série sendo declarados procurados pela polícia no trailer da segunda temporada.

Antes do trailer, o elenco se reuniu em uma videoconferência para anunciar a data de lançamento da nova temporada (dia 4 de setembro) e aproveitou para antecipar os três primeiros minutos do primeiro episódio (que podem ser assistidos a partir de 47:30 no vídeo abaixo).

É só manter o ritmo da primeira temporada que o sucesso é garantido.

johncarpenter

O lendário diretor John Carpenter, conhecido por ter revolucionado o cinema de horror e pelas trilhas assustadoras que compõe para os próprios filmes, vêm estabelecendo sua carreira como músico para além das telas de cinema e depois de lançar o disco Lost Themes II, em 2016, quando mostrou pela primeira vez músicas que nunca tinham chegado à salas de cinema, mostra que está disposto a seguir sua carreira como músico ao lançar duas faixas inéditas, a tensa “Skeleton” – que poderia estar na trilha de qualquer distopia urbana de qualquer época, como Fuga de Nova York, Goodfellas ou Drive – e “Unclean Spirit” – que poderia ter saído dos filmes de Dario Argento.

Carpenter é filho de um professor de música e estudou música na Universidade do Sul da Califórnia, antes de dedicar-se ao cinema. Nos trabalhos mais recentes, ele tem tocado ao lado do filho Cody e do afilhado Daniel Davies. O novo single será lançado em vinil pela gravadora Sacred Bones e já está à venda.

jodorowsky-

O mago cineasta chileno Alejandro Jodorowsky volta ao cinema com o documentário Psychomagic, a Healing Art, seu primeiro filme em décadas. Nele, o autor dos clássicos psicodélicos El Topo (1970) e A Montanha Mágica (1973) conta sobre suas experiências com a cura espiritual e o cinema, e será exibido em primeira mão através do canal de streaming Alamo on Demand, no dia 7 de agosto. Na semana anterior, a partir do dia 1°, o canal começa uma retrospectiva sobre o diretor. Abaixo, Jodorowsky conta sobre o tema de seu filme, em entrevista ao canal Euronews.

Psychomagic também estará incluso na caixa The Alejandro Jodorowsky: 4K Restoration Collection, que incluirá seus clássicos, vários extras e chegará ao público no dia 21 de agosto – as pré-vendas já estão sendo feitas.

jodorowsky

Além dos três filmes mencionados, a caixa ainda trás o primeiro filme de Alejandro, Fando y Lis (1967), o curta Le Cravate (1957), as respectivas trilhas sonoras, entrevistas inéditas e um guia de A a Z para A Montanha Mágica.

dark3

Fiz um vídeo antecipando a terceira temporada da série alemã Dark e explicando porque a considero uma das melhores séries que já vi. Dark encerra sua saga no tempo neste sábado com o lançamento da última leva de episódios – e daqui uma semana volto para comentar o que achei do final.

Uma das melhores séries de todos os tempos, Sopranos teve um final abrupto e inusitado em 2007 que até hoje pode ser considerado um dos mais ousados da história da TV. Se você não assistiu à série, volte para fazer seu dever de casa ou só continue a leitura sabendo que após a foto do protagonista Tony, há a possibilidade de estragar a surpresa do final.

tonysoprano

Se você continuou lendo, agora é por sua conta e risco: em uma entrevista feita com o autor David Chase para o livro The Soprano Sessions, lançado no ano passado, o criador da série sem querer entregou o que todo mundo supunha – que a última cena marca a morte de Tony Soprano. A entrevista não foi parar no livro, mas vazou recentemente, segundo o jornal inglês Independent. Eis o trecho, conduzido pelos autores do livro Alan Sepinwall e Matt Zoller Seitz:

Sepinwall: Quando você disse que não havia um final, você não se referia ao Tony no Holsten’s (lanchonete onde se passa a cena final do seriado), você estava dizendo que talvez não tivesse material que valesse mais dois anos de histórias.
Chase: É, acho que pensei na cena da morte dois anos antes do final… Tony seria chamado para encontrar-se com Johnny Sack em Manhattan e ele pegava o túnel Lincoln para este encontro e a tela ficaria preta e você nunca mais o veria voltando, criando a teoria que algo ruim aconteceu no final do encontro. Mas não fizemos assim.
Seitz: Você percebeu, claro, que você acabou de se referir à cena como a cena da morte.

(Uma longa pausa em silêncio)

Chase: Ah, vão se fuder.

A bem da verdade., no próprio livro, os autores colocaram outra declaração de Chase sobre o acontecimento: “Ele poderia ter sido assassinado na lanchonete. Todos nós podemos ser assassinados em uma lanchonete. Este era o ponto daquela cena”. O fato é que a cena foi analisada à exaustão (eu mesmo falei dela há um tempão) e a morte de Tony é considerada o ponto final da série, mesmo que Chase nunca desse certeza disso. Até agora.