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Paranoia

Bob-Mould

O herói indie norte-americano Bob Mould anuncia seu décimo quarto álbum solo, Blue Hearts, que deve ser lançado em setembro e já está em pré-venda, com a pesada “American Crisis”, em que ele tem a proeza de rimar o título da canção com “evangelical ISIS”, para descrever o nível crítico de cisão política que seu país, como o nosso, atravessa:

Eis a capa do disco e o título das músicas:

Bob-Mould-Blue-Hearts

“Heart on My Sleeve”
“Next Generation”
“American Crisis”
“Fireball”
“Forecast of Rain”
“When You Left”
“Siberian Butterfly”
“Everyth!ng to You”
“Racing to the End”
“Baby Needs a Cookie”
“Little Pieces”
“Leather Dreams”
“Password to My Soul”
“The Ocean”

dark-3

A série alemã Dark anuncia sua terceira e última temporada para o final deste mês e a minha dica é reassistir as duas primeiras temporadas neste mês para que sua cabeça não funda de vez!

tenet

Christopher Nolan não vê a hora de lançar seu novo filme, Tenet, nos cinemas. O diretor de Inception estava com tudo programado para lançar seu novo filme no início deste ano e como em seu filme estrelado por Di Caprio, ele brincava mais uma vez com a noção da percepção da realidade, desta vez lidando com a linearidade do tempo. Mas com a pandemia, ele viu seus planos serem adiados indefinidamente, até os cinemas voltarem a abrir. Ele foi relutante até em lançar o novo trailer fora das salas de cinema, resignando-se a estreá-lo dentro de um videogame (e assim Fortnite vai estabelecendo um novo vínculo entre a indústria dos games e a do cinema, como também fez com a música, no show de lançamento do single novo do Travis Scott), ao mesmo tempo em que briga para que os cinemas voltem a abrir o quanto antes (idealmente, para ele, no dia 17 de julho, como havia anunciado no fim do ano passado).

youtube.com/watch?v=5uShcH_3NB4

O novo trailer aprofunda-se na ideia que a manipulação do tempo é o tema central do filme, mas há algo escondido até em seu título – o aspecto palindrômico, que pode ser lido de trás pra frente – que cogita que mais uma vez o diretor norte-americano trabalhe com camadas, desta vez, temporais. E há quem diga que o filme seria uma continuação secreta de Inception… Hmmm…

david_lynch

O mestre David Lynch, ativo nestes dias de quarentena mantendo seu próprio programa de meteorologia diário em seu canal no YouTube (falei disso lá no #CliMatias, não tá acompanhando não?) Nosso cineasta favorito publica online seu curta de animação de 2015, o esquisito e envolvente Fire (Pozar).

Escrito, desenhado e dirigido por nosso cineasta favorito, o filme cutuca uma série de elementos caros à sua filmografia, desde o título. Mas além do fogo, há o arco do topo do palco que ilustra seu canal e com o qual ele anunciou o curta num tweet, e que funciona como metáfora para o cinema como linguagem, unindo referências do lado sobrenatural de Twin Peaks ao Club Silencio de seu Cidade dos Sonhos. Neste palco, vemos a criação do fogo e sua influência em nosso imaginário, em que Lynch faz uma conexão abstrata e surrealista entre tecnologia e arte, como se reforçasse que a linguagem audiovisual – eis que surge apenas um olho e um ouvido – fosse o centro do legado humano, unindo estas duas pontas distintas.

É claro que isso é uma interpretação minha – como sempre na obra de Lynch, tudo está em aberto em Fire (Pozar) e é sua natureza experimental e abstrata que o torna tão específico. Com trilha composta pelo polonês Marek Zebrowski e animação feita pelo japonês Noriko Miyakawa, é uma versão artesanal e branda de sua mensagem, estranha e envolvente como sempre.

Há quarenta anos, uma banda new wave previu que o futuro da humanidade era a “de-evolução”, uma evolução às avessas que nos tornaria cada vez mais primitivos, nos comportando como manadas de bichos. Parte crucial da indumentária desse futuro antevisto pelo grupo Devo eram os domos de energia vermelhos, capacetes de plástico que reteriam a energia do indivíduo inspirado nas pirâmides astecas e no design Bauhaus e que funcionavam como forma de padronizar o grupo dos irmãos Mothersbaughs e Casales e, de quebra, a moda da humanidade do futuro.

devo2020-

Mal sabiam que aquela peça inusitada que muitos se referem como vaso de plantas, teria uma utilidade inusitada ao funcionar como um perfeito acessório para um futuro improvável de uma pandemia global em que o contágio de uma doença poderia ser feito através da respiração. E assim o grupo lança sua versão 2020 para seus domos de energia, com uma viseira de plástico que tapa todo o rosto, fazendo vezes de óculos e máscara para enfrentar o coronavírus. Elas já podem ser encomendadas no site da banda.

Dos tempos que a gente podia circular pela rua

Dos tempos que a gente podia circular pela rua

Bruno Torturra me chamou para conversar sobre as transformações que a pandemia está impondo à cultura no programa Tem Alguém em Casa?, que ele mantém no canal do YouTube de seu Estúdio Fluxo.

lovecraft_country

Sem avisar nada, a HBO lançou apenas um teaser do seriado Lovecraft Country, anunciando-o para agosto. A série junta nomes de peso na produção – nada menos que J.J. Abrams e Jordan Peele – para afundar-se na mitologia do mestre do horror H.P. Lovecraft, cujas histórias giravam em torno do mito Cthulhu, uma divindade maligna que se alimenta de dor e sofrimento humano. A série ganha um apelo extra – principalmente por incluir Peele, mais conhecido pelos atordoantes filmes Corra! e Nós – ao se inspirar no livro de mesmo nome do escritor norte-americano Matt Ruff, que traçava paralelos desconcertantes entre as metáforas de horror do autor e seu declarado racismo.

Pode ser uma jornada perturbadora – e ainda tem Michael K. Williams (o Omar de The Wire) no elenco.

iron-chic

Confia em mim e diga se esse mashup de “Good Times”, do Chic, com “Rime of the Ancient Mariner”, do Iron Maiden, feito pelo Bill McClintockn não ficou demais.

E ele curte umas misturas bem infames, se liga:

E o pior é que funciona… E tem muito mais no canal dele. Dica do Danilo.

snoop-dogg-alcione

Abatido, o rapper Snoop Dogg chorou o clima tenso nos EUA nesta terça-feira ouvindo o clássico “Você Me Vira a Cabeça (Me Tira do Sério)“, da nossa sambista Alcione, entre baforadas num post na sua conta no Instagram

I feel you.

Foto: Leo Longo (Divulgação)

Foto: Leo Longo (Divulgação)

“Acredito que essa pandemia trouxe um agravamento de várias questões que já enfrentávamos”, me explica por email a artista mineira Sara Não Tem Nome, que resolveu oficializar a versão caseira da composição “Agora”, que lançou no início do período da quarentena autoimposta. “Vários valores da humanidade estão sendo colocados em xeque e estamos nos deparando com mudanças estruturais na sociedade. As notícias têm sido muito imediatas, novas informações e acontecimentos são divulgados a todo instante. Fiz essa música refletindo também essa angústia de tentar entender o que está acontecendo e como lidar com tudo isso.” Ela lança a versão oficial da faixa, que terá clipe no mês que vem, aqui no Trabalho Sujo.

Pergunto sobre a relação da faixa com “Cidadão de Bens“, que ela lançou há menos de dois anos e que, como “Agora”, conversava com a situação política da época em que foi lançada. “‘Cidadão de bens’ é uma música que faz parte do álbum A Situação, que estava programado para ser lançado este ano. Com todos esses acontecimentos, não sei se ele sairá esse ano. ‘Agora’ será lançado apenas como single, mesmo tendo uma pegada bem próxima das composições que fazem parte do álbum novo.”

Ela fala mais sobre a transformação da música de demo na versão finalizada acima. “O processo de gravação foi todo caseiro. Gravei voz, guitarra, teclado e bateria em casa, no meu homestudio Quintal intergaláctico. Enviei o material para o Victor Galvão, que contribui em diversos projetos meus, e faz parte da banda Tarda, que também faço parte. Ele fez a mixagem, a arte da capa e os desenhos que fazem parte do lyric video. A masterização é da Lina Kruze. O lançamento é a minha primeira parceria com a Loop Discos. A sugestão de fazer um lyric video veio deles. Pensamos que ter a letra da música com fácil visibilidade, ajudaria a mensagem a ser recebida e propagada. O clipe surgiu de conversas com Pedro Veneroso, meu parceiro de vida e que já trabalha comigo há muitos anos. Será uma animação em 3D, com situações baseadas em notícias, memes e criações nossas pensando na situação atual do mundo.”

Aproveito para perguntar como anda a situação na quarentena: “Na parte prática, estou conseguindo ficar no isolamento sem muitos problemas. Já trabalhava grande parte do tempo em casa, então isso não mudou muito. Na parte emocional, me sinto bem flutuante, têm dias que estou mais disposta, mas em outros, tenho dificuldade em levantar da cama e trabalhar. Acho que é normal não se sentir bem numa situação dessas que estamos vivendo. Fico buscando formas de cuidar do corpo e da mente para não me deprimir e adoecer. Acho que tentar manter uma rotina tem me ajudado.” Ela conta também que está gravando mais músicas em casa e, além do clipe de “Agora”, também lançará outro clipe, da banda Tarda, chamado “Breath”.