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25 anos de Loveless

loveless

A obra-prima atemporal do My Bloody Valentine completa um quarto de século e tive que falar sobre o disco lá no meu blog no UOL.

Em seu clássico visionário de 1977, Bruits: Essai Sur L’Economie Politique de la Musique (Barulho: Um Ensaio sobre a Economia Política da Música), o acadêmico e teórico francês Jacques Attali usa a música como metáfora para a evolução da humanidade da barbárie rumo à civilização. O que diferencia o barulho de música é nossa capacidade de abstração – e é justamente o que nos torna, mais que humanos, civilizados. A humanidade começa a evoluir a partir do momento em que, consciente de sua capacidade de fazer barulho, começa a organizá-lo em música. O barulho é o estágio animal do ser humano, violento, que ao tornar-se música mostra sua faceta requintada, elegante, educada. Attali também explica que este ato – fazer música – antecipa uma série de mudanças políticas e econômicas que ocorrem com a sociedade, cogitando a possibilidade de que a música funcione como uma atividade presciente dos acontecimentos que se desenvolvem nesta evolução.

Este momento – a cristalização do barulho em música – dificilmente é registrado em disco, devido à natureza desta transformação, que é mais própria de shows e ensaios do que estúdios de gravação. Mas é claro que vários artistas se dispuseram a explorar esta possibilidade, registrando a transformação de frequências sonoras brutas em uma musicalidade nova, para além dos conceitos clássicos de melodia. Eruditos do início do século 20 exploraram esta transição quase sempre de forma conceitual: a orquestra de ruído do futurista italiano Luigi Russolo, os experimentos com silêncio de Marcel Duchamp, as colagens sonoras de Edgard Varèse, as peças de John Cage, a musique concrète de Pierre Schaeffer, o pioneirismo eletrônico de Karlheinz Stockhausen.

Foi na música popular que as transições mais memoráveis destes experimentos aconteceram. Da produção wall-of-sound de Phil Spector, ao free jazz de Ornette Coleman, passando pelas aventuras dos Beatles e de Brian Wilson no estúdio até gestos mais artísticos como o primeiro disco do Velvet Underground ou do Frank Zappa com suas Mothers of Invention, a vontade de registrar o momento em que algo ruidoso torna-se melódico esteve na raiz laboral do pop, dando origem a gêneros inteiros (ambient, drone, noise, industrial, no wave, glitch), até que o advento do sampler nos anos 80 – que permitia disparar sons pré-gravados como bases musicais – trouxe o ruído para a base do pop atual. Mas nenhum disco registra tão bem este momento específico quanto o influente Loveless, a obra-prima que a banda irlandesa My Bloody Valentine lançou exatamente há 25 anos, no dia 4 de novembro de 1991.

É deixar o disco começar, esperar as quatro batidas iniciais que parecem elevar a expectativa, e deixar fluir um som… Que som é esse? Um riff circular de guitarra preenche o ambiente com ondas elétricas inusitadas, frequências sonoras que dissolvem-se logo que o entra doce vocal da faixa de abertura “Only Shallow”. São quantas guitarras? Que pedais são usados? Como essa gravação foi microfonada? E esse riff de abertura? Logo no início Loveless grita e sussurra, canta e berra, seduz e agride. É um meio-termo perfeito entre as grossas camadas de microfonia do Jesus & Mary Chain e a estratosfera onírica dos Cocteau Twins, criando uma sonoridade nova, completamente moderna e eterna. Vinte e cinco anos depois de seu lançamento, Loveless continua igualmente ímpar e alienígena – e, da mesma forma, envolvente e hipnóptico com há um quarto de século. Ele criou um universo musical que ninguém além do próprio My Bloody Valentine soube habitar, embora seja influência direta em algumas das principais bandas do rock alternativo nos anos seguintes (Smashing Pumpkins, Nine Inch Nails, Radiohead), além de ter sido festejado por músicos exigentes como Robert Smith e Brian Eno à época de seu lançamento.

Por toda sua extensão Loveless é um sonho tocado no último volume. O estranho assobio produzido pela forma de tocar guitarra de seu líder Kevin Shields é apenas um dos elementos únicos que definem a banda, como a onipresente parede elétrica de microfonia anestesiada, os doces vocais que sussurram no abismo, o acúmulo de instrumentos, a presença quase sutil de uma bateria montada na pós-produção, em loop eletrônico, o efeito entortado que o uso da alavanca de tremolo dá aos acordes secos e multiplicados, as eventuais ondas de ruído que parecem funcionar como abóbodas de catedrais. Músicas como a sequência final do lado A – “When You Sleep” e “I Only Said” -, a primeira música do lado B – “Come In Alone” – e a faixa que fecha o disco – “Soon” – são hinos celestiais em pele de banda de rock.

My Bloody Valentine: Kevin Shields, Bilinda Butcher, Debbie Googe e Colm Ó Cíosóig

My Bloody Valentine: Kevin Shields, Bilinda Butcher, Debbie Googe e Colm Ó Cíosóig

Loveless também é o fruto perfeito do trabalho mais obsessivo da história da música pop. Kevin Shields fundou a banda em 1983 com seu velho amigo Colm Ó Cíosóig na bateria, com quem já havia tocado em outras bandas desde o final dos anos 70. A baixista Debbie Googe entrou logo após a fundação da banda, que havia partido das guitarras açucaradas do Jesus & Mary Chain rumo à sua própria sonoridade. A entrada da vocalista Bilinda Butcher mudou radicalmente os rumos da banda, quando ela começou a tocar guitarra ao mesmo tempo em que Kevin Shields começava a dividir os vocais. Aos poucos a banda assume uma sonoridade repetitiva e cheia de microfonia que seria rotulada a partir da postura de seus integrantes no palco. Mais preocupados em fazer barulho para si mesmos do que em conquistar o público, passavam a maior parte do tempo olhando para baixo – shoegazing, olhando os próprios sapatos, em inglês -, o que deu origem ao termo que definiria aquele novo gênero musical – shoegaze. O marco zero deste foi justamente o primeiro disco do My Bloody Valentine, Isn’t Anything, lançado após alguns singles e EPs, em 1988. Um sucesso comercial na Inglaterra, o disco fez outras bandas inglesas como Slowdive, Chapterhouse, Swervedriver e Ride (influenciadas tanto pelo MBV quanto pelos Smiths, Jesus & Mary Chain, Cocteau Twins, Hüsker Dü, Sonic Youth, Bauhaus e Galaxie 500), se juntarem a esta nova cena, The Scene that Celebrates Itself, criada ao redor do novo gênero. O que fez Kevin Shields querer ir mais além.

E aí entra o épico parto que foi a gravação do disco. Gravado em quase vinte estúdios diferentes e com mais de uma dúzia de técnicos e engenheiros de som, Loveless gastou horas de estúdio como poucos discos na história e a lenda diz que seu preço chegou a 250 mil libras, provocando a falência de sua gravadora, a indie Creation. As histórias sobre a gravação do disco incluem vocais gravados às sete da manhã, Kevin cantando as partes agudas e Bilinda cantando as partes graves, camadas e mais camadas de guitarras superpostas e o fato de Colm não ter conseguido gravar as baterias devido a uma questão de saúde, o que fez Kevin picotar trechos de suas gravações e montar as bases rítmicas no estúdio. A gravação de Loveless também é conhecida por ter semanas gastas na gravação de um único riff, tornando constante as brigas entre Shields, os técnicos de som e os executivos da gravadora. O resultado foi um disco que transcende até mesmo o gênero criado no disco anterior, que, ao ser lançado no hoje mítico 1991, foi ofuscado pelo repentino sucesso do Nevermind do Nirvana, frustrando as expectativas de sucesso comercial da gravadora.

Isso é o de menos. A marca que o disco deixou na história da música é indiscutível. Um som que soa distante do presente mesmo 25 anos depois de gravado – e provavelmente continuará desta forma por pelo menos mais 25 anos. É um disco sem vínculos temporais nem estéticos, de uma natureza própria, que equilibra ruído e melodia de tal forma que evoca a escala geológica. Não é apenas uma banda de rock fazendo melodias doces soarem muito altas graças a experimentos no estúdio – é o som de geleiras se desfazendo, vulcões sopranos, baleias apaixonadas, do vento atravessando infinitas planícies ermas, um sentimento oceânico, bolhas de lava. O exato momento em que o ruído torna-se música, capturado. E que aponta o rumo do pop do futuro. Até hoje.

Traispotting 2 pra começar 2017 daquele jeito

trainspotting2

O primeiro trailer da continuação do clássico dos anos 90 também traz uma nova versão do monólogo de abertura – coloquei tudo lá no meu blog no UOL.

Prontos para acompanhar o que aconteceu com as vidas de Renton, Sick Boy, Begbie e Spud? Eis o primeiro trailer de fato do novo Trainspotting, que nos recepciona logo na entrada de 2017, previsto para estrear em janeiro. Nele vemos o que aconteceu com os personagens de Irvine Welsh vividos por Ewan McGregor, Jonny Lee Miller, Robert Carlyle e Ewen Bremner, além de reencontrarmos com Diane (vivida por Kelly McDonald, que também está na nova temporada de Black Mirror), par romântico de Renton no primeiro filme. O trailer também traz uma nova versão para o monólogo de abertura, em que parcelas na compra de imóveis, tocadores de CDs e ternos são substituidos pelas redes sociais, reality show e revenge porn:

Abaixo, em uma tradução livre:

“Escolha a vida
Escolha o Facebook, o Twitter, o Instagram e espere que alguém em algum lugar se importe
Escolha olhar para os velhos tempos, querendo ter feito tudo diferente
E escolha ver a história se repetir
Escolha seu futuro
Escolha programas de reality TV, humilhar mulheres, usar pornô como vingança,
Escolha um contrato de trabalho sem mínimo de horas, uma ida de duas horas para chegar ao trabalho
E escolha o mesmo para seus filhos, só que pior, e alivie a dor com uma dose desconhecida de uma droga desconhecida feita na cozinha de alguém
E então… Respire fundo
Você é um viciado, por isso se vicie
Vicie-se em outra coisa
Escolha o que você ama
Escolha seu futuro
Escolha a vida”

E você lembra do clássico monólogo de abertura, não?

“Escolha a vida.
Escolha um emprego.
Escolha uma carreira.
Escolha uma família.
Escolha uma porra de uma televisão grande.
Escolha máquinas de lavar, carros, tocadores de CD e abridores de lata elétricos.
Escolha boa saúde, colesterol baixo e plano dentário.
Escolha prestações fixas para pagar seu imóvel.
Escolha onde morar.
Escolha seus amigos.
Escolha roupas de lazer e uma bagagem que combine.
Escolha um terno para alugar feito com o melhor tecido de merda.
Escolha fazer as coisas você mesmo e pensar quem diabos você é em uma manhã de domingo.
Escolha sentar no sofá assistindo game shows que anestesiam a mente, entupindo a própria boca com comida-lixo.
Escolha apodrecer no fim de tudo, passando seus últimos dias numa casa miserável, nada mais que possa envergonhar os moleques egoístas que você gerou para te substituírem.
Escolha seu futuro.
Escolha a vida.
Mas por que eu iria querer algo assim?
Escolhi não escolher uma vida: eu escolhi outra coisa.
E a razão? Não há razões.
Quem precisa de motivos quando se tem heroína?”

E será que batizaram o novo filme de T2 (em vez de Trainspotting 2) pra que a geração crescida nos anos 90 confundisse com o segundo filme do Exterminador do Futuro?

David Bowie: “Wonder if he’ll ever know…”

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O diretor Mick Rock reeditou o clássico clipe de “Life On Mars” de David Bowie incluindo uma série de imagens em preto e branco que contrastam com a pesada maquiagem usada na versão original, dando um aspecto ainda mais dramático (além de revelar Ziggy Stardust de uma forma inconsciente) ao curta.

Eis a versão original, toda colorida (toca o Jorge Ben mental – “mas ela é toda…”):

Beatles Lego debaixo d’água

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Que tal essa versão de montar do Submarino Amarelo? Falei sobre ela no meu blog no UOL.

Ao criar a seção Ideas em seu site, a fábrica dinamarquesa Lego estreitou ainda mais sua relação com seus fãs, pedindo para que eles cogitassem temas e versões para serem montadas com seus tijolos de plástico. Os projetos ficam expostos no site e seus criadores fazem campanha para receber votos para que a fábrica transforme seu sonho em brinquedo. E um de seus projetos mais legais já está à venda – a versão Lego para o desenho animado Submarino Amarelo dos Beatles, que foi fabricada depois de receber 10 mil votos online. Olha como ficou massa:

Que viagem:

Since I Left You em vinil!

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Aproveitando a onda boa de sua inusitada volta, o coletivo de DJs australiano Avalanches prepara o lançamento em vinil de sua obra-prima de 2001 Since I Left You, a impressionante colagem de samples que colocou o grupo no mapa do pop mundial direto ao lado de clássicos da sampladelia como Paul’s Boutique e Into the Dragon. O vinil está previsto para ser lançado em janeiro de 2017 e a gravadora Astralwerks está cogitando uma versão limitada e colorida do disco, cuja cor pode ser escolhida em seu site até o final de novembro. E como assim você nunca ouviu esse disco…?

Mahmundi: “Pra ser bem melhor assim”

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Mahmundi lança o clipe do reggae eletrônico que abre seu disco de estreia, uma viagem pelos anos 80 que termina em um karaokê da Liberdade, em São Paulo, a nova casa da carioca.