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Goma-Laca, o filme, vem aí

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Nesta sexta-feira agora, Ronaldo e Eugênio lançam o filme Goma-Laca aqui no Trabalho Sujo. O filme registra o processo de arranjo e gravação do disco que o maestro Lettieres Leite gravou com Juçara Marçal, Russo Passapusso, Karina Buhr e Lucas Santtana em cima de músicas brasileiras que so foram registradas em discos de 78 rotações por minuto (falei do projeto em uma das minhas primeiras colunas na Caros Amigos). ” o filme é um olhar sobre o processo de criação e gravação do disco, Goma-Laca – Afrobrasilidades em 78 Rotações”, explica Eugênio. “A ideia de documentar foi do Ronaldo, que dizia que não poderíamos deixar de registrar o encontro do maestro Letieres Leite com os músicos Marcos Paiva, Hercules Gomes, Gabi Guedes, Sérgio Machado e cantores Lucas Santtana, Russo Passapusso, Juçara Marçal e Karina Buhr. E não deixamos. Quis registrar tudo que via, tudo que acontecia, mas sem atrapalhar o fluxo de criação da banda. Precisava em pouco tempo ganhar confiança dos músicos para que pudesse registra-los em momentos íntimos. Foram quatro dias testemunhando um encontro mágico e único.” Ronaldo também escreveu sobre o encontro no site do projeto.

O trailer está aí:

Filmei o show desse disco, que aconteceu no ano passado (Russo não pode vir e Duani o substituiu):

Honey Bomb pisa forte em São Paulo

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É bem interessante perceber que, nesta nova fase da música independente brasileira (autogerida, estruturada, sem preconceitos estéticos e ávida por conexões), o fluxo criativo começa a sair das capitais e aparecer em cidades menores que, mesmo sem a vida agitada dos grandes centros, consegue estar perfeitamente sintonizada com tudo que vem acontecendo no Brasil e no mundo – não apenas informada, mas agilizada. Um dos melhores exemplos desta etapa é a gravadora gaúcha Honey Bomb Records, que chega em São Paulo com seu primeiro minifestival nos dias 8 e 9 de de dezembro, trazendo duas bandas de seu elenco (Bike e Catavento) além de duas atrações internacionais (a norte-americana Winter e a dupla chilena Holydrug Couple) – mais informações aqui.

Com base em Caxias do Sul, a gravadora possui em seu elenco artistas locais (como a Catavento, a Cuscobayo, a Mingarden – todos de Caxias – e Supervão – de São Leopoldo), de outros estados (os capixabas My Magical Glowing Lens, os paulistanos Bike e os curitibanos do Marrakesh) e até uma banda norte-americana (Blank Tapes, da Califórnia) e aos poucos vem se especializando em rock psicodélico, além de mexer na cena local. Conversei com o Jonas Bender Bustince, um dos capos do selo, sobre o momento que a Honey Bomb tem passado.

Conte o começo da história do selo.
A ideia de se criar um selo na cidade já pairava no ar entre as bandas que criavam som autoral independente aqui em Caxias do Sul. Em 2012, eu participei do primeiro lançamento da minha vida como músico, baterista, e ao mesmo tempo produtor executivo. A banda se chamava Slow Bricker – pegamos o último suspiro da era Trama e organizamos nosso próprio show de lançamento convidando a Loomer de Porto Alegre. Isso já era um sinal de que podíamos movimentar a cena alternativa ali na cidade por nossa conta e esse lance da autogestão tava em todas as bandas! O que rolou foi que com a pausa na minha banda eu foquei todas as energias nas outras bandas que também seguiam acreditando no próprio som, como a Catavento, banda na qual meu irmão é baterista, uma geração mais nova que a minha. Eles começaram a ensaiar no quartinho dos fundos da onde eu morava com a minha família. Eu acompanhei a banda desde o início e a amizade com eles começou a aumentar e eu decidi seguir essa fagulha mais um pouco.
Aí em 2013 fizemos uma reunião em 3 bandas – Slow Bricker, Catavento e Descartes – e decidimos juntarmos tudo num mesmo guarda-chuva. Eu tava formado em Comunicação – morrendo numa agência de Publicidade atrasadíssima como redator – e o Leonardo Lucena – da Catavento e Descartes, com 24 anos – e Eduardo Panozzo – da Catavento, 24 anos – também trabalhavam em agências e são artistas visuais incríveis.
Aí vieram os lançamentos, as validações que vamos recebendo da mídia independente e do público apreciador desse nicho. Começamos a circular e conhecer membros de outras bandas em festivais, lançar e trazer artistas de fora da nossa cidade, do nosso estado, do nosso país graças à bendita rede mundial de computadores, fazemos conexões e um grande remix começa: viajamos e conhecemos gente que faz isso há muito mais tempo do que você e pessoas mais novas que se inspiram e começam a fazer isso e aí a vontade de largar os trampos fixos aumenta, todos se suicidam socialmente perante a estabilidade tão apreciada pelos seres industriais que aqui habitam Caxias do Sul e começamos a viver de freelas, com produção, criação, som, shows, festas, eventos e aí seguimos nesse fluxo até agora, aprendendo a cada instante nesse caos guiado pela vibração da música. Abrimos mão de muita coisa do ponto de vista “padrão da sociedade classe média de curso superior completo”, mas fazemos o que gostamos e temos vontade de seguir nesse fluxo por mais tempo. A música é o que nos move, sendo no palco ou na produção.

A Honey Bomb está se especializando em psicodelia?
A gente realmente se aprofundou na psicodelia desde o primeiro lançamento, mas foi de uma forma natural na criação estética e contemporânea. A ideia nunca foi delimitar, tanto que nesse ano lançamos Cuscobayo, uma banda que finca os pés nas raízes da região do Prata, te manda uma mensagem política forte, mas com a animação frenética tipicamente esperançosa do sulamericano. Não é lisérgico, mas te faz viajar! A curadoria segue num padrão muito espontaneamente também. Já passamos por folk, surf, garage, “grunge”, post-hardcore, trip hop, dream pop, indie pop, space, post-rock e por aí vai e acredito que a psicodelia pode estar presente em todos esses gêneros e sub-gêneros do rock alternativo. Ano que vem queremos apostar mais em gente que faz beats, mais rap, muito mais groove, muito mais minas, muito mais raízes e ao mesmo macro, mas que transporte para um pequeno universo singular que é o momento eterno de ouvir música em casa, numa festa ou num show ou em qualquer momento que ela te acompanhe e te envie pingos de esperança pra manter a chama viva no peito. Acho que a gente assistiu muito Cosmos, tomou muito banho de cachoeira e acabou soltando isso dessa forma mesmo.

Como você vê a atual fase do rock psicodélico no Brasil?
Acho que a cena independente do Brasil vem desde 2012 recebendo uma vibe lisérgica poderosa parecida com a de artistas clássicos da MPB dos anos 70 mais o fator globalização e acesso infinito a informação e muito mais referências fizeram surgir essa nova onda, mas acredito que é cíclico. Eu mesmo ouvi o Piper at the Gates of Dawn pela primeira vez com 12 anos, meu pai, também músico, tinha esse CD na sua coleção e desde então minha vida não mais a mesma. Acho que esses momentos que nos conectam com a música em cada fase da vida são ciclos. Eu ouço o Moon Safari hoje em dia de uma outro jeito, daí veio o Tame Impala e o Pond e renovaram isso e respigaram em bandas latinas também, o Flaming Lips sempre renovando essa vibe, enfim.
Aqui no sul temos o Júpiter Maçã que fez isso à sua maneira. Atualmente bandas como Catavento, Boogarins, Bike, Tagore, Supercordas, Frabin, Van der Vouz, Supervão tem psicodelia na sua música mas de um jeito único também, não existe uma cartilha, acho que é uma espécie de olhar contextual. Acredito que esse ciclo está sempre começando e terminando, vejo que os momentos atuais de ódio e transição para dentro do buraco negro da incerteza do mundo estão tomando conta das as cores e isso também faz parte do processo, vamos ver pra onde vai isso tudo dentro da criação desses artistas brasileiros que chamaram a atenção em inserir isso no som. Vai ficar mais sujo, mais limpo, mais eletrônico, mais grooveado, mais raíz, mais “pagão”? Não faço ideia. Aí vai de cada banda ou artista, mas que aquela camada de imprevisibilidade do som continue viva na alma.

O que é uma gravadora numa época em que quase ninguém mais compra discos? Como é o trabalho de vocês?
Nós criamos uma marca para validarmos e difundirmos nossa própria produção artística como um todo, como curadores, seja num show, numa festa, numa camiseta ou num pôster, num CD ou qualquer mídia física – que produzimos com cada vez menos frequência, porque as pessoas não precisam mais possuir isso, a música está na internet. As necessidades em tempos de crise fazem a diferença. Nós funcionamos atualmente mais como difusores e produtores de shows e lançamentos digitais e temos um braço forte com circulação. Tentamos cada vez mais colocar artistas em festivais e fazer a experiência rolar no ao vivo, nessa situação a venda de merchs se acentua mais, mas o selo não chega a ser algo sustentável a todos que se envolvem nele. Não nos limitamos a criar só em Caxias do Sul, somos móveis como abelhas, desculpe o trocadilho. Eu mesmo tenho que trabalhar em diferentes projetos para continuar fazendo ações com o selo. Mas ano que vem começaremos parcerias fortes com produtoras audiovisuais para que o fator “clipe” e a assinatura artística do selo siga impactando pela qualidade. Queremos ter um festival próprio na cidade também para recebermos todas as pessoas e artistas maravilhosos que conhecemos em cada viagem de uma forma mais confortável para sentirem a vibe daqui que acabou gerando algo legal pra fora daqui.

Se um artista quiser tentar entrar no selo o que ele precisa fazer?
Gostamos de ter relações próximas com os artistas que lançamos, nos engajamos e acreditamos no potencial. O artista tem que ter uma postura mais próxima do autoconhecimento constante e tem que controlar suas expectativas, além de saber autogerir sua carreira em conjunto com o selo. Um trabalho bilateral mesmo. Apostamos em artistas que se aprofundam na música de uma maneira autêntica e conceitual, mas muito bem referenciada e diversificada, tanto de passado, como de presente e de futuro. Tem que ser inquieto e surpreender, seja pela linguagem musical, visual, verbal ou pela vibe.

Como foi a aproximação com as bandas estrangeiras que vão tocar no festival? Vocês vão lançar os discos delas também?
Nós conhecemos a Samira Winter pela internet e em 2014 ela fez uma turnê aqui com seu trabalho solo, acompanhada por dois músicos americanos e um curitibano. Como ela tem essa ligação forte com Curitiba, uma cidade que também gostamos muito, fizemos três shows deles por três cidades do Rio Grande do Sul e aí quando ela voltou pros EUA a conexão seguiu. A gente distribuiu o primeiro LP deles no Brasil e também ajudamos na comunicação com a mídia local do lançamento aqui. Ela curtiu nossa vibe e indicou o selo pro The Blank Tapes, outra banda da Califórnia que lançamos dessa forma. Vamos lançar o próximo da Winter aqui sim. Essa turnê deles aqui aconteceu graças ao próprio investimento deles virem pra cá passar o fim de ano. Aí a gente começou a fechar muitos shows, incluindo esse nosso minifest em SP e o Picnik em Brasília, um festival que tem uma conexão já muito forte com o selo. Nos identificamos muito em vários aspectos com a curadoria artística desse festival.

Por que fazer um festival de um selo gaúcho em SP?
Foi algo que caiu de paraquedas e eu fui juntando as peças. Eu e a Catavento estamos indo para o Sim São Paulo, a Winter vai estar no Brasil, o Holydrug Couple é uma banda chilena que curtimos muito – e que com certeza pretendemos lançar no Brasil – que o Picnik em Brasília animou trazer, o Bike representa a psicodelia da cena local de Sampa. Surgiu a parceria com a Breve e a nova plataforma de venda de shows Mais Shows, uma iniciativa de dois amigões e parceiros nossos do estado, grandes fãs entusiastas, produtores, comunicadores e artistas visuais. Aproveitamos tudo isso e o momento e apostamos que a cidade tem muita gente que admira a música de uma forma mais curiosa, além de já ter uma pequena base de fãs que acompanham o trampo desses artistas pela internet. Somos gaúchos, da serra gaúcha, um frio do caralho, mas uma cidade emergente que se torna global a cada ano. Nós somos daqui, mas transitamos pela rede seja ela física ou virtual. Gostamos de passear pela babilônia sentir o cinza e depois voltar. Algo como um enxame barulhento que sai da colmeia para polinizar.

Os indicados para o prêmio APCA 2016

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Eis a lista com os indicados para o prêmio de música popular da Associação Paulista dos Críticos de Arte de 2016. Faço parte da comissão julgadora ao lado do Marcelo Costa e do José Norberto Flesch e juntos escolhemos vinte discos para concorrer à categoria de melhor disco do ano (como teve disco bom em 2016), cinco artistas para a categoria artista do ano, cinco shows na categoria de melhor show e mais cinco artistas na categoria revelação. Antecipamos para o blog do Pedro Antunes no Estadão (que linkou os vídeos com o áudio de todos os vinte discos) e agora pubico-os aqui:

Disco do ano
The Baggios – Brutown
BaianaSystem – Duas Cidades
Céu – Tropix
DeFalla – Monstro
Douglas Germano – Golpe de Vista
Ed Motta – Perpetual Gateways
Hurtmold e Paulo Santos – Curado
Iara Rennó – Arco e Flecha
João Donato – Donato Elétrico
Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz – A Saga da Travessia
Macaco Bong – Macaco Bong
Mahmundi – Mahmundi
Metá Metá – MM3
Rael – Coisas do Meu Imaginário
Sabotage – Sabotage
Serena Assumpção – Ascensão
Tatá Aeroplano – Step Psicodélico
O Terno – Melhor Que Parece
Vitor Araújo – Levaguiã Terê
Wado – Ivete

Artista do ano
BaianaSystem
Céu
Karol Conka
Liniker
Metá Meta

Show do ano
BaianaSystem
Céu
Metá Metá
Novos Baianos
Tulipa Ruiz + Marcelo Jeneci

Revelação
E a Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante
Joe Silhueta
Mahmundi
MC Carol
Paula Cavalciuk

O resultado será divulgado no fim da noite de quarta.

Radiola NZ

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Conversei com Jorge Du Peixe no Maranhão e ele me adiantou que o próximo disco da Nação Zumbi será de versões – dei mais detalhes do projeto que hoje chama-se Radiola NZ – mas pode mudar de nome – lá no meu blog no UOL.

Principal atração do primeiro dia do festival BR 135, que começou nesta quinta-feira, dia 24, em São Luís, no Maranhão, a banda pernambucana Nação Zumbi está encerrando o ciclo de comemoração dos 20 anos do disco Afrociberdelia, segundo álbum da banda, lançado em 1996, para começar um novo projeto, ainda com título provisório de Radiola NZ. O novo álbum trará versões para músicas favoritas do grupo, tanto brasileiras quanto internacionais, e o repertório poderá ter faixas de Amy Winehouse, Last Shadow Puppets, Mutantes, Velvet Underground, Clash, Erasmo Carlos, David Bowie, Roxy Music, entre outros. “Ainda estamos definindo tudo, mas já começamos a rascunhar algumas versões, como ‘Ashes to Ashes’ de David Bowie e ‘Love is the Drug’ do Roxy Music”, me contou o vocalista do grupo, Jorge Du Peixe.

O gatilho para este novo disco, que deve começar a ser gravado neste fim de semana, em Fortaleza, foi o show que o grupo fez no Festival da Cultura Inglesa deste ano, quando foram convidados a fazer versões de músicas em inglês. O grupo tocou versões para “Tomorrow Never Knows”, dos Beatles, “A Message To You Rudy”, dos Specials, “Time of the Season” dos Zombies e “China Girl”, de Iggy Pop e David Bowie. A partir daí a banda começou a cogitar novas versões e o projeto ganhou título e forma, embora ainda esteja em seu estágio inicial.

Versões não são novidades para a Nação. Além de ter dois de seus maiores hits escritos por outros artistas (“Maracatu Atômico” de Jorge Mautner e “Quando a Maré Encher” da banda olindense Eddie), o grupo já dividiu um disco com os conterrâneos e contemporâneos Mundo Livre S/A, quando um tocava músicas do outro, além de manter o projeto paralelo Los Sebosos Postizos, em que tocam músicas do período clássico de Jorge Ben. O novo álbum deve ser lançado no ano que vem, mas a banda não tem pressa. “Temos nosso tempo e precisamos respeitá-lo”, conclui Jorge.

O fim dos Supercordas

Foto: Beatriz Ribeiro de Sena

Foto: Beatriz Ribeiro de Sena

A notícia já estava meio no ar e os mais próximos da banda já sabiam o que os cariocas dos Supercordas oficializaram neste sábado em sua página no Facebook: o fim de suas atividades. A data escolhida foi a de de aniversário de lançamento de seu primeiro álbum, o já clássico Seres Verdes ao Redor, e a despedida não macula a amizade dos quatro integrantes, que seguem trabalhando com música, mas deixaram um senhor legado tanto para o rock independente brasileiro quanto para nosso cânone psicodélico. Abaixo, a íntegra da nota de adeus:

Hoje, dia 26 de novembro de 2016, faz exatamente dez anos que lançamos nosso primeiro LP com um concerto memorável no Centro Cultural São Paulo.

Desde então, nos mantivemos rodando o Brasil, fazendo shows, gravações, filmagens, experimentos, conhecendo novas bandas, fazendo novas amizades e nos apaixonando.

Todas as pessoas que acompanharam a banda neste tempo puderam ver o quanto fomos felizes fazendo tudo isso, e o quanto fomos transparentes e comprometidos com a cultura alternativa.

Nunca fomos o tipo de grupo que “estoura” e atinge grandes públicos em pouco tempo, construímos nossa historia com perseverança e em desencontro aos caminhos mais fáceis do mercado musical.

É complexo se manter como uma “entidade underground” por tantos anos. E é cada vez mais difícil estarmos abertos e disponíveis à experiência da viagem roqueira e da nossa criação musical em grupo, ainda que estejamos vivendo um ponto alto da nossa trajetória em muitos aspectos.

Acreditamos, então, ser um bom momento para anunciar que estamos encerrando nossas atividades como Supercordas.

Continuaremos tocando nossos demais projetos, e outros que ainda estão por vir.

Nunca deixaremos de existir através da música e militar em defesa de toda esta doideira que é sonhar.

Ficam aqui intensos raios de psicodelia e amor para todas e todos que nos acompanharam nesses 13 anos, pelo carinho e pela recepção. E para todos que pela banda passaram ou com ela trabalharam e contribuíram com música e dedicação, particularmente: Regis Argüelles, Eduardo Ps, Katia Abreu, Kauê Ravaneda, Sandro Rodrigues, Rodrigo Lariú,Pamela Leme, Francine Ramos, Ynaiã Benthroldo, Luccas Villela, Marcelo Callado, Caca Amaral, Wil Son, Giuliano Gerbasi, Gui Jesus Toledo e Bernardo Pacheco.

Abaixo, dois shows da banda que filmei, o da primeira edição do Fora da Casinha…

…e o show que fizeram ao lado dos Boogarins no início deste ano.

Grande banda.

Courtneyzinha entre nós

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Conversei com a Courtney Barnett antes de seu ótimo primeiro show no Brasil – o papo tá todo lá no meu blog no UOL.

“De repente, parece que tudo mudou”, me explica Courtney Barnett, que apresentou-se na semana passada em São Paulo, quando a pergunto sobre o pesado clima conservador que paira sobre 2016. “Acho que as pessoas jogam muito uma expectativa sobre o próprio futuro delas em outras pessoas e esquecem-se que elas mesmas têm de fazer algo”, conta a cantora e compositora australiana, autora de um dos melhores discos do ano passado, Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit.

O próprio título de seu disco de estreia (“às vezes eu sento e penso e às vezes eu só sento”) é uma crítica a esta expectativa sobre o papel político do artista. “Eu me sinto frustrada e desiludida com tudo que tem acontecido, mas eu sempre me sinto assim”, ela continua, “eu leio muito as pessoas comentando na internet coisas assim, que o artista tem de ser o farol dos tempos e eu tendo a concordar, mas acho que não pode ser só isso. Isso é uma forma de deixar as coisas nas mãos dos outros e fingir que aquilo não é problema seu.” Pergunto se isso tem relação com a desilusão atual com os políticos e a política e ela apenas ri, concordando com a cabeça e dando de ombros. “As coisas vão piorar, não adianta ficar só lamentando ou procurando culpados.”

29 anos recém-completos, gigantescos olhos claros (um mais esverdeado que o outro) e jeito de moleque, Courtney perde a candura ao subir no palco. O ar juvenil dá lugar a uma guitar hero que cresce no palco e suas crônicas malkmusianas sobre a vida não ser nem especial nem fútil viram pequenos manifestos elétricos, ditos sem rodeios. Acompanhada apenas de um baixista (Andrew “Bones” Sloane) e um baterista (Dave Mudie), ela canaliza a escola de Kurt Cobain, que ouviu tanto hardcore, noise, metal e pop para saber explorar os limites do instrumento. Mas como frontwoman, ela é do time de Chrissie Hynde, cuja segurança e firmeza se misturam com cinismo e ironia, provocando um apelo carismático oposto à aparente fragilidade que seu rosto infantil carrega. Veículo perfeito para suas canções, crônicas às vezes hilárias, às vezes pertubadoras, como “History Eraser”, “Avant Gardener”, “Depreston” e “Pedestrian at Best”.

O show em São Paulo foi um dos últimos da turnê do disco do ano passado, antes de uma pausa de fim de ano para começar a pensar no próximo disco, que ela quer gravar ainda no próximo semestre. “Tenho um monte de ideias, tanto de letras quanto de música, preciso parar para organizar tudo”, conta, explicando que deve voltar para sua casa em Melbourne para começar a compor o segundo álbum.

Rumo ao Maranhão

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Parto hoje para São Luís, participar da quinta edição do festival BR135, que conta com Liniker, DuSouto, Nação Zumbi, High Vibes Sound System, Lei Di Dai, Venga Venga e Strobo, entre outros (mais informações aqui). Depois eu conto como foi.

Entre os 3%

A atriz Bianca Comparato em 3%

A atriz Bianca Comparato em 3%

Conversei com o elenco e a produção da primeira série brasileira produzida pelo Netflix lá no meu blog no UOL.

“Tem um lado meu que acha uma pena, obviamente, tudo isso que está acontecendo no Brasil”, lamenta a atriz Bianca Comparato quando pergunto se ela acha que há algum paralelo entre 3%, a primeira série que o serviço de vídeos Netflix produz no Brasil, e o momento político brasieiro atual. “Mas tem um outro lado meu, que é mais otimista, que acha que é um processo de amadurecimento, que estamos podendo olhar para nós mesmos pela primeira vez, de verdade, sem ingenuidade. E esse embate faz parte. É uma pena o sofrimento que isso causa pra tanta gente. E a série fala muito disso, do sofrimento de quem não consegue. E quem disse quem é bom o suficiente? Quem definiu isso?”

A série, que estreia sua primeira temporada de uma vez só na próxima sexta-feira, dia 25, chega falando sério. O visual, a direção e as atuações instigam o espectador como qualquer outro seriado Netflix – e isso parece vir da fusão de experiências tanto da equipe quanto do elenco. A mistura veteranos como João Miguel, Zezé Motta e a própria Bianca Comparato com novatos desconhecidos (Michel Gomes, Vaneza Oliveira e Rodolfo Valente) foi dirigida pelo uruguaio César Charlone, ex-sócio de Fernando Meirelles e responsável pela fotografia de filmes como Cidade de Deus, O Jardineiro Fiel e Ensaio Sobre a Cegueira. Mas a premissa da série e sua narrativa foi desenvolvida e dirigida por seus criadores originais. “Sou um showrunner de uma ideia alheia”, brinca o diretor uruguaio, que envolveu-se com a produção do seriado anos depois que seu criador, Pedro Aguilera, o estreasse no YouTube (assista aos três primeiros episódios da versão original aqui). Charlone entrou mais como um coordenador e supervisor, ajudando Aguilera e os três diretores originais, Jotagá Crema, Daina Giannecchini e Dani Libardi, a encontrar o rumo que queriam para o seriado, cujos oito primeiros episódios chegam de uma só vez.

Falada em português, a série de ficção científica se passa em um futuro próximo em que o Brasil divide-se em duas castas: grande parte da população mora numa região referida como Continente e quando completam vinte anos de idade têm a oportunidade de passar para onde reside uma elite financeira num lugar conhecido como Mar Alto, que abriga os 3% da população que batiza o seriado. Acompanhamos, portanto, um grupo de jovens que passa justamente pelo processo de seleção, uma série de jogos, entrevistas e atividades que vão definir quem pode passar para o outro lado. É uma alegoria que funciona como uma crítica à ditadura econômica mundial – e um de seus principais critérios de seleção, a chamada “meritocracia”. “Este tema faz parte da nossa sociedade e a gente tem mais ferramentas pra falar sobre isso e pra entender isso agora. São boas pra série também”, explica Aguilera.

“Quando o Pedro (Aguilera, criador e roteirista de 3%) pensou nisso lá atrás, ele havia se inspirado no vestibular, embora ele não quisesse falar diretamente de vestibular”, continua Bianca. “A gente amadureceu muito essa ideia. Mantemos essa angústia juvenil, mas tem uma coisa mais política envolvida. Fala de uma sociedade onde, por mérito, você consegue as coisas e se você não for bom o suficiente acabou a vida pra você. Isso fala muito pra nossa sociedade, não só pra jovens. Se você for parar pra pensar, economicamente, não são nem 3% que detém a riqueza do Brasil – nem do mundo.”

“A ideia começou lá em 2009 e a inspiração vem de livros como Admirável Mundo Novo e 1984 – eu não conhecia Jogos Vorazes”, explica Pedro. Bianca já tinha assistido aos filmes: “Acho a Jennifer Lawrence ótima. Vi os filmes da série Divergente e fiquei muito feliz com a quantidade de ator bom fazendo esse tipo de filme.” Mas Charlone desconversa quando compara-se 3% com estes filmes recentes: “A gente não vai competir com um produto desses. A nossa riqueza é a brasilidade”, explica, sublinhando que quis refletir uma brasilidade diferente daquela que vendemos. “Gosto daquela coisa que, quando alguma coisa não funciona, vem alguém e dá uma porrada. Ou daquela sensação que sempre acontece em qualquer país do mundo quando você chega no aeroporto, mas quando chega no Brasil sempre tem alguém que fala ‘tinha que ser no Brasil…”‘, explica o diretor, às gargalhadas.

O diretor César Charlone

O diretor César Charlone

Essa brasilidade, marca visual das produções de Charlone, foi perseguida com um olho no futuro e outro no presente. “Gosto de dar muita ênfase em sotaques diferentes”, explica, enfatizando também que não quis entregar uma história de bandeja para o público. “O Brasil tem essa fissura dos produtores com a bilheteria, essa coisa com a comédia, que querer agradar o público”, continua o uruguaio, explicando que o tom pessimista da série o atraiu. “Isso abre um horizonte muito legal pra novas gerações contarem histórias”, continua.

Mas a frieza distópica da versão original ganhou pluralidade e cores no novo seriado. “O tom original era muito sério, frio, policialesco”, lembra Aguilera, ao comentar as mudanças sofridas na série durante estes anos, que ainda “tem elementos muito parecidos, mas outros muito diferentes. Mas a angústia dos jovens, que é a essência, ainda tá lá.” “É uma série essencialmente brasileira”, completa Bianca. “Tem uma sujeira, cores, elementos rústicos. É futuro e é Brasil.”

Estive no set de gravação de 3% e além dessa brasilidade era possível notar a clara naturalidade nas atuações, sem afetações no texto ou diálogos que pudessem deixá-la caricata, claro reflexo da forma como Charlone gosta de deixar os atores, filmando-os livremente, quase em tom documental. Ele anima-se com o formato das séries, que diz ser “o grande acontecimento audiovisual deste século.” “Eu sou assíduo frequentador da Santa Ifigênia e sempre vejo o pessoal vendendo DVDs piratas de filmes… Agora vendem séries”, conta, mencionando Sopranos e Mad Men como referências básicas inclusive para o cinema atual. Pedro também tem suas séries favoritas – House of Cards, The Wire, Breaking Bad -, que podem não se refletir na temática de 3% mas que estão presentes na forma como ele gostaria de segurar o espectador.

Bianca cita outro seriado do Netflix como referência. “Black Mirror é uma experiência forte pra gente no 3%”, continua a atriz. “É um futuro que é palpável, não é, sei lá… como o filme Prometheus… Black Mirror tem isso, tem uma coisa que tá mais pra frente, mas as primeiras cenas você nem entende em que época se passa…” Ela concorda quando menciono que a ficção científica tem esse papel de metáfora para entender a realidade atual. “Um dos motivos de eu topar fazer a série foi esse. A série é um alerta. Se a gente não parar, a gente vai chegar nisso. É uma catástrofe econômica. E não é só sobre o Brasil, é sobre um modelo econômico mundial, os poucos que têm, os muitos que não têm.”

Traduzindo Leonard Cohen

leonard-cohen

O publicitário paranaense Diego Zerwes dedicou um blog inteirinho à tradução da obra de Leonard Cohen, que faleceu no início deste mês. Além de todas as músicas de sua discografia traduzidas e organizadas por álbum, ele ainda reuniu – e traduziu – outros textos de Cohen que encontrou por aí. Um senhor trabalho. Como amostra, deixo sua tradução para uma de suas maiores canções, o hino “Anthem” (desculpem), de onde saiu um de seus versos mais fortes, que fecha a canção:

Anthem

The birds they sang
at the break of day
Start again
I heard them say
Don’t dwell on what
has passed away
or what is yet to be.

Ah the wars they will
be fought again
The holy dove
She will be caught again
bought and sold
and bought again
the dove is never free.

Ring the bells that still can ring
Forget your perfect offering
There is a crack in everything
That’s how the light gets in.

We asked for signs
the signs were sent:
the birth betrayed
the marriage spent
Yeah the widowhood
of every government —
signs for all to see.

I can’t run no more
with that lawless crowd
while the killers in high places
say their prayers out loud.
But they’ve summoned, they’ve summoned up
a thundercloud
and they’re going to hear from me.

Ring the bells that still can ring …

You can add up the parts
but you won’t have the sum
You can strike up the march,
there is no drum
Every heart, every heart
to love will come
but like a refugee.

Ring the bells that still can ring
Forget your perfect offering
There is a crack, a crack in everything
That’s how the light gets in.

Ring the bells that still can ring
Forget your perfect offering
There is a crack, a crack in everything
That’s how the light gets in.
That’s how the light gets in.
That’s how the light gets in.

Hino

Os pássaros cantam
no raiar do dia
Cantam de novo
e os ouço dizer
Não viva naquilo
que já passou
ou no porvir.

As guerras serão
lutadas de novo
A pomba sagrada
será enclausurada de novo
comprada e vendida
e comprada de novo
a pomba nunca está livre

Soem os sinos que ainda podem soar
Esqueça sua oferenda divina
Em tudo há uma fenda
e é por ela que a luz entra.

Solicitamos sinais
os sinais foram enviados:
o nascimento traído
o extenuado casamento
Sim, a viúva
de cada governo –
sinais para todos verem.

Não consigo mais correr
com essa multidão desregrada
enquanto assassinos, em posições privilegiadas
fazem suas orações em voz alta
Mas eles clamaram, clamaram
por uma nuvem tempestuosa
e eles ouvirão de mim.

Soem os sinos que ainda podem soar…

Você pode adicionar os pedaços
mas não terá a soma
Você pode iniciar a marcha,
não há a batida que guia
Cada coração, cada coração
ao amor irá chegar,
como um refúgio, porém.

Soem os sinos que ainda podem soar
Esqueça sua oferenda divina
Em tudo há uma fenda
e é por ela que a luz entra.

Soem os sinos que ainda podem soar
Esqueça sua oferenda divina
Em tudo há uma fenda
e é por ela que a luz entra.
e é por ela que a luz entra.
e é por ela que a luz entra.

Dica do André Marx (valeu!).