Céu antecipa o show que fará ao lado do General Elektriks nesta quinta-feira em São Paulo (mais informações aqui) com o clipe lo-fi retropicalista de seu hit “Varanda Suspensa”
Zarpo neste sábado rumo a Salvador, onde vou conferir a segunda edição do festival Radioca, que desta vez reúne Carne Doce, Jards Macalé, Karina Buhr, Aláfia e Dona Onete aos locais Josyara, Retrofoguetes e Giovani Cidreira. Também participo de um bate-papo no domingo com a Roberta Martinelli, do Cultura Livre e do Som a Pino, e de Daniela Souza, da Educadora FM, sobre a relação da nova música brasileira com a mídia, com mediação do Luciano Matos, um dos organizadores do festival (mais informações aqui). Mando notícias, valeu!
Conheci Thiago Galletta na segunda edição do Fora da Casinha deste ano e ele havia acabado de lançar seu livro Cena Musical Paulistana dos Anos 2010, trabalho acadêmico sobre o impacto da internet na cena independente da cidade. Agora ele lança o livro de fato com uma festa na Fatiado Discos, com discotecagem do autor, João Lion e Nicolas Bahia, todos tocando música brasieira (mais informações aqui). Aproveitei o gancho da festa para conversar com o Thiago sobre o assunto de seu livro.
Como surgiu seu interesse pela cena independente brasileira?
Antes de tudo, acho que esse interesse tem a ver com meu contato com essa “cena independente”, como ouvinte, fã, desde uns 20 anos atrás. Um pouco depois, também meu interesse como radialista atuando por mais de uma década em rádios universitárias e comunitárias, o que se intensificou a partir de 2005 quando comecei a atuar como DJ profissional. Talvez a geração de bandas do final dos anos 1990 – época que emergiram festivais independentes importantes como o Juntatribo, Goiânia Noise, Abril Pro Rock entre outros – que incluiu, por exemplo, Planet Hemp e Chico Science e Nação Zumbi – grupos com trajetória inicial importante no meio independente e que em seguida assinaram com majors – tenha sido o último respiro de inovação e vitalidade criativa no universo das grandes gravadoras.
Falando como apreciador de música e DJ, a maior parte da música brasileira que me interessou nos últimos 15 anos tem sido feita fora da estrutura grandes multinacionais do disco. E enquanto pesquisador e sociólogo, a “cena independente” dos últimos anos me interessou muito nesse livro, também como um objeto de investigação excelente pra pensar o impacto das tecnologias digitais sobre a cultura brasileira contemporânea. Além disso, nas minhas pesquisas e leituras sobre a música brasileira, sentia um hiato, uma ausência significativa de obras que se aprofundassem e atribuíssem a devida importância a essa cena que se fortalece nos últimos 15 anos no Brasil, e que ao meu ver – entendo que já é possível dizer – tem uma importância e um papel muito significativos na história da música brasileira gravada desse mais de um século.
Foi e é essa “cena independente” a parcela da produção musical nacional que melhor tem expressado criativa e esteticamente esse novo momento, de acesso digital potencialmente ilimitado à produção musical gravada de todas as épocas e lugares, que se abre com a internet. Esse é um, entre vários outros divisores de água que essa cena expressa, tanto em seus potenciais como em suas contradições e desafios.
Por que resolveu focar na cena de SP em seu livro? O que ela tem de diferente das outras cenas?
Com a diminuição na última década e meia dos espaços disponíveis nas grandes gravadoras para a música de inovação e experimentação – aquela de algum modo mais preocupada com a forma e o conteúdo e menos exclusivamente com o sucesso comercial mais imediato – declinou a importância do Rio de Janeiro, onde se concentravam as majors, pra esse tipo de produção. As novas condições de produção e distribuição musical independente que acompanharam a expansão da internet, e que vem sendo exploradas no Brasil inteiro, encontraram na cidade de São Paulo a possibilidade de algo mais além. No caso, a formação, a partir de um conjunto de condições particulares da cidade – em que se destacam sua condição econômica, equipamentos culturais, nichos específicos de fruição cultura e arte, uma rede de canais de mídias e cobertura especializada em música, entre outros fatores que eu exploro no livro – de um mercado mínimo ou razoavalemente consistente para os artistas independentes com trabalhos autorais.
São Paulo se tornou talvez o principal pólo produtivo – um importante centro criativo – na cena independente brasileira, principalmente na medida em que começou a atrair cada vez mais, ao longo dos anos, músicos migrantes do Brasil inteiro em busca de melhores condições e oportunidades pra seus trabalhos. Uma das principais diferenças dessa cena para a de outras capitais, por exemplo, se refere à possibilidade que se concretizou aí de um número importante de artistas independentes “viverem de música” com trabalhos autorais, o que se refletiu progressivamente num caldo criativo bastante expressivo da cultura musical brasileira de uma forma mais ampla, na última década. Ainda que se mantenham certas dificuldades, precariedades e a batalha mês-a-mês de vários dos artistas com nível razoável de reconhecimento e prestígio nessa cena.
Por que não abordar toda a cena independente brasileira?
Quando comecei a pesquisa em 2010 a intenção era investigar alguns temas em torno produção independente brasileira em geral. Nos anos que se seguiram, São Paulo se tornou um “olho do furação’ cada vez mais expressivo de novos potenciais que a cena brasileira passava a expressar. Conforme cada vez mais artistas e bandas com trajetórias importantes em outros estados passaram a vir pra cidade, e foi se conformando mais claramente essa “cena paulistana” que passamos a conhecer nos primeiros anos da década de 2010, ficou claro pra mim a importância de investigar, registrar e analisar aquele momento de virada de condições que se expressava em São Paulo. Isso permitiu aprofundar questões importantes para além do caso paulistano, de uma maneira que talvez não fosse possível nos mesmos 4 anos de pesquisa a que me dediquei para a escrita desse livro, se quisesse abarcar com o devido detalhamento uma cena nacional são complexa e rica como a brasileira . Por outro lado, considerando esses anos em especial, de algum modo, falar da “cena paulistana” foi pra mim uma boa forma que encontrei de falar sobre o momento “cena independente brasileira” mais ampla. Inclusive, na verdade, o livro aborda ao longo de boa parte de suas páginas o pano de fundo nacional da “produção independente” – o tempo todo situo São Paulo diante do contexto brasileiro independente mais geral.
Qual a principal característica desta cena?
Como disse antes, pensando circuitos e cadeia produtiva, a principal característica dessa cena talvez seja a de expressar um conjunto importante de novos potenciais da produção e circulação musical independente pós-internet e redes sociais online, em condições mais favoráveis do que outras cenas no que se refere à sustentabilidade de trabalhos e à formação de um mercado independente.
Muito relacionado a isso também, a concentração de músicos do Brasil inteiro na cidade e o que isso traz pra criação musical da cena, na vivência urbana específica de São Paulo, é também um elemento central. Poderia falar outros, como o alto nível de interconexão e produção colaborativa entre seus artistas e bandas, o suporte da rede SESC –SP, a criação de “Bahias fantásticas” e “Áfricas fantásticas” em solo paulistano (a música do mundo e do Brasil sendo fundida com o caldo criativo da cultura brasileira reunido na cidade), uma certa “geografia da cena”, com uma rede de casas noturnas e equipamentos culturais importantes reunidos em um certo perímetro territorial da cidade, possibilitando encontro e associações na região de Pinheiros, Vila Madalena, Pompéia, Alto da Lapa, etc…
Qual a principal dificuldade em realizar seu livro?
Talvez a principal dificuldade tenha sido a complexidade, contemporaneidade, constante e acelerada mudança no campo, impactado por mudanças tecnológicas, econômicas e políticas de grande dimensão em muito pouco tempo. São desafios que acredito vão se colocar pra qualquer estudo e obra mais aprofundada que enfoque temas como este. O esforço de mapear, esquadrinhar, filtrar, distinguir importâncias, em um campo relativamente ainda pouco explorado pela bibliografia até então disponível – campo este debatido e tateado em tempo real por artistas, jornalistas e outros profissionais da música – talvez tenha sido outro ponto importante, ao mesmo tempo em que fonte de grande motivação e tesão de levar adiante o projeto.
Há uma lacuna enorme de produção acadêmica no que diz respeito à cultura independente. Você encontrou algum trabalho ou livro que detalha mais este meio em suas pesquisas?
De fato, há mais bibliografia sobre a realidade da produção musical e das cenas independentes fora do Brasil – recomendo, por exemplo, os trabalhos do Andrew Dubber. Por aqui há estudos importantes sobre momentos anteriores do independente, como os sobre a Vanguarda Paulista dos anos 1980 e, mais recentemente, com algumas pesquisas sobre o final dos anos 1990 e início dos anos 2000 – como, por exemplo, as do professor Eduardo Vicente da USP. Talvez a publicação deste livro, Cena Musical Paulistana dos Anos 2010, possa servir de estímulo, incentivo e subsídio para um aprofundamento urgente, necessário e cada vez maior sobre estas cenas, que tem importância vital para a música brasileira na atualidade – e tendo em vista o cenário político recente, mais do que nunca.
Como você define “cena independente” num cenário em que os grandes patrocinadores estão cada vez mais difusos e que não bancam apenas música?
Realmente, a expressão “independente” associado à música ou à produção musical – termo que estamos usando nessa entrevista, que está presente no meu livro e permanece hoje nas falas e textos de artistas, jornalistas, público – é um termo bastante controverso, inclusive historicamente, como mostro no primeiro capítulo do livro. Até que ponto ele se refere mais exclusivamente a um modo de operação técnico e econômico de produção fonográfica independente à estrutura das grandes gravadoras e em que ocasiões ou circunstâncias passa a incluir em si motivações estéticas ou políticas? A apresentadora Roberta Martinelli comentou, em certa ocasião, sobre a forma como a independência dos artistas dessa cena paulistana também acaba supondo “uma dependência enorme de um coletivo de artistas que ‘compra’ tua ideia”. Por outro lado também, a distinção clara, estanque, as fronteiras entre independente e mainstream vem sendo borradas na construção de relações mais horizontais e intrincadas entre esses dois universos, algo que acontece no caso destas empresas e grandes patrocinadores que citou, como a Natura Musical.
Qual o artista-símbolo da cena independente paulistana na sua visão?
O “artista-ícone”, que sempre menciono quando falo do livro pra quem se encontra em outras “bolhas de realidade” e conhece pouco da cena musical fora da grande mídia, é o Criolo – sendo, mesmo ele, por incrível que nos pareça, muitas vezes ainda desconhecido de muita gente. Mas nessa proposta de “artista-símbolo”, citaria talvez o Kiko Dinucci, pelas conexões colaborativas da produção dele, ligando várias pontas diferentes da cena, pelo discurso e atitude política, criativa, estética. Claro que essa “escolha” tem muito de aleatório ou pessoal. A cena é extremamente múltipla, diversa, composta de sub-cenas, que ainda que bastante conectadas e articuladas em suas pontas, teriam cada uma delas seus próprios “artistas-símbolo”.
Escrevi lá no meu blog no UOL sobre o lançamento do compacto com versões alternativas para “The Boy with the Thorn in His Side” e “Rubber Ring” que pode começar época de relançamentos do clássico grupo indie inglês.
Outro dia o guitarrista Johnny Marr comentou que o grupo que lhe deu fama, os Smiths, quase voltaram à ativa na década passada, quando o vocalista e líder do grupo, Morrissey, empolgou-se em uma conversa de bar sobre os bons tempos. O relato do encontro é parte da recém-lançada biografia de Marr e o interesse por este quase encontro, mesmo tendo sido revelado quase uma década depois, mostra como o grupo inglês ainda é influente e popular. Deve ter sido uma das motivações para a gravadora Warner anunciar o primeiro compacto do grupo em décadas, como antecipou o site True to You, conhecido por ter, entre suas fontes, o próprio Morrissey.
O single, que ainda não tem data prevista para ser lançado, reúne versões inéditas para faixas conhecidas pelos fãs do grupo: uma mixagem demo para o hit “The Boy With The Thorn In His Side” com uma versão inédita da faixa “Rubber Ring”, uma das favoritas dos fãs.
A capa do single foi feita pelo próprio Morrissey e segue o padrão das clássicas capas do grupo, desta vez com um retrato do ator Albert Finney, de filmes como Assassinato no Expresso Oriente (1974), Os Duelistas (1977) e À Sombra do Vulcão (1984).
Conforme prometido, eis aqui, em primeira mão no Trabalho Sujo, o filme que o mestre Eugênio Vieira fez das gravações do projeto Goma-Lama, concebido pelo Ronaldo Evangelista e a Biancamaria Binazzi em 2014. O projeto reúne artistas contemporâneo para resgatar músicas brasileiras que só foram registradas em acetatos de cera de carnaúba (ou goma-laca, daí o título). No documentário, vemos o maestro Letieres Leite conduzir os músicos Marcos Paiva, Hercules Gomes, Gabi Guedes e Sérgio Machado em uma viagem atemporal de uma conexão musical secular entre o Brasil e a África para receber vocais de Juçara Marçal, Russo Passapusso, Karina Buhr e Lucas Santtana. Saca só:
Conversei com o Carlos Marcelo sobre a nova versão de sua biografia do líder do Legião Urbana, Renato Russo – O Filho da Revolução. O papo tá todo lá no meu blog no UOL.
“Acho que, além da insatisfação com a manutenção das desigualdades sociais, certamente ele reagiria ao avanço da cultura do ódio, da escalada de violência – virtual e real”, me explica o jornalista Carlos Marcelo, autor da biografia Renato Russo – O Filho da Revolução (Ed. Planeta), quando pergunto o que o vocalista do Legião Urbana, que morreu há vinte anos, acharia do clima belicoso que tomou conta do Brasil em 2016. “Renato sempre fazia questão de condenar de forma veemente o fascismo, e acredito que estamos vivendo tempos de comportamentos que se aproximam desse ideário pernicioso. Em síntese: ele não precisaria atualizar a letra de ‘Perfeição’, tudo que está lá continua valendo.”
Realmente, a letra da canção de 1993, carro-chefe do disco O Descobrimento do Brasil, conversa bastante com os ânimos acirrados e a frustração com o status quo deste ano:
“Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade.Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã.Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
(A lágrima é verdadeira)
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão.Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso – com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção”
A nova edição da biografia, lançada originalmente em 2009 e reeditada com mais informações este semestre, conversa de forma bizarra com o país deste ano, especificamente ao revelar que Renato era colega de classe do ex-ministro Geddel Vieira, pivô da saída do ministro da cultura do governo Temer, Marcelo Calero. O livro conta que Geddel queria entrar para o grupo de estudos de Renato Russo para conseguir uma nota melhor, mas o futuro vocalista do Legião vetou o futuro político, na época conhecido pelos colegas pelo apelido de “Suíno”, no mesmo instante, reforçando que “ele é in-su-por-tá-vel!” (leia a íntegra deste trecho no final do post).
Pelo que o biógrafo lembra, era o único futuro político com quem Renato conviveu quando ainda morava em Brasíia. “Outras personalidades da música brasileira passaram por Brasília e, mesmo sem ter convivido diretamente com Renato quando moraram lá, também passaram por um processo de transformação na capital: caso de Sergio Britto, dos Titãs e, especialmente, de Ney Matogrosso e Paulo Ricardo. No livro, eu narro a passagem dos três por Brasília. Sem contar, claro, Herbert Vianna, Bi Ribeiro, toda a Turma da Colina”, como era referido o grupo que deu origem à primeira geração de bandas de rock da cidade.
A nova edição do livro aprofunda-se, principalmente, nos últimos anos de vida de Renato Russo, que morreu em 1996. “Me impressionou o processo de criação de seus dois discos solo, ambos meticulosamente planejados por Renato, a dificuldade para finalização do disco A Tempestade, quando Renato já estava bem doente, e também algumas canções que passaram meio batidas quando foram lançadas, a exemplo de “Celeste” – parceria com Marisa Monte, gravada pela Legião em A Tempestade como “Soul Parsifal” – e “La Maison Dieu”, uma das faixas do disco Uma Outra Estação, de letra fortíssima – ‘Eu sou a pátria que lhe esqueceu/ O carrasco que lhe torturou…’ – , cantada em cima de uma base de blues em mais uma interpretação antológica do Renato. A entrevista com Marisa Monte, na qual ela fala que adora o disco póstumo O Trovador Solitário e relembra passagens de sua amizade com Renato, me impressionou. E o depoimento da mãe dele, que entrevistei novamente e me narrou como soube da morte do único filho, me emocionou. Tentei passar essa emoção no último capítulo da nova edição.” Além disso, há vasta iconografia sobre o artista, como algumas das imagens neste post.
Carlos Marcelo concorda quando comento sobre a singularidade de Renato Russo na história de nossa cultura. “É uma figura ímpar na música pop brasileira – não consigo recordar de ninguém, com exceção de Roberto Carlos, que tenha permanecido no topo por tanto tempo. Mesmo os dois grandes roqueiros brasileiros – Raul Seixas e Rita Lee – e os grandes medalhões da MPB – Gil, Chico, Caetano, Milton – tiveram seus altos e baixos”, conta o jornalista. “Renato conseguiu algumas façanhas inigualáveis: emplacar uma canção – ‘Faroeste caboclo’ – de nove minutos no topo das paradas, fazer o Brasil redescobrir a música italiana depois do lançamento do disco Equilíbrio Distante, fazer de uma regravação do Menudo – ‘Hoje à Noite Não Tem Luar’ – mais um sucesso radiofônico, apresentar às novas gerações o 14 Bis com a música ‘Mais Uma Vez’… E isso aconteceu pela combinação única de lirismo e energia, performance e espontaneidade. Como ele cantava, ‘é sangue mesmo, não é mertiolate”‘.
Pergunto sobre o material do grupo que ainda não foi lançado oficialmente: entre músicas inéditas a íntegras de shows, ensaios e versões alternativas, é farto o material do grupo que circulava em fitas cassete desde os anos 80 até em sites de download atualmente. “Existem muitas gravações que circulam pela internet”, lembra Carlos Marcelo, Há, por exemplo, registros de jams durante ensaios no Rio para as turnês dos discos As Quatro Estações e V que são bem interessantes. Mas, mais do que os registros piratas, acho que seria interessante assistir a um documentário apenas com imagens de shows da Legião. Seria uma experiência muito forte.”

Renato e integrantes de outras bandas na Temporada de Rock na ABO, um show que foi um marco da geração dos anos 80
Renato Russo – O Filho da Revolução seria uma ótima base para este material, Carlos Marcelo inclusive foi consultor de roteiro do filme Somos Tão Jovens, sobre os anos de Renato Russo antes do surgimento da banda. “Acho que o meu livro não comporta uma versão audiovisual nos moldes de um longa-metragem – como disse o próprio Vladimir Carvalho, diretor do documentário Rock Brasília – A Era de Ouro, depois de ler a primeira edição: ‘Carlos, você não escreveu um livro, fez um documentário de seis horas de duração’. Mas ainda acho que falta um documentário exclusivamente sobre Renato e a Legião, com ênfase no resgate da visceralidade das performances ao vivo. Mostrar na tela a tensão do inesperado, pois nenhum show da Legião foi igual a outro. Quem viu um show da Legião passou por uma experiência única. E intensa, às vezes perturbadora. E as novas gerações de fãs, lamentavelmente, não tiveram essa chance.”
Abaixo, o trecho da biografia em que Renato Russo veta o futuro político Geddel Vieira de participar de um grupo de trabalho na escola:
“A turma do Marista tem que preparar apresentação relacionada à música. De imediato, Renato avisa:
— O tema do meu grupo vai ser a história do rock.
Rigoroso na hora de selecionar os colegas de grupo, ele convida Maria Inês Serra e mais dois ou três felizardos que se mostraram dispostos a executar a tarefa como ele planejaria. Tinha gostado de trabalhar com Inês em uma pesquisa sobre cantigas de roda — o esforço alheio representava fator decisivo para a escolha. Deixa claro (a ponto de despertar antipatia e criar fama de chato) que não carregaria ninguém nas costas. Apesar dos pedidos de colegas como Geddel Quadros Vieira Lima para entrar no seu grupo pela garantia de notas altas na avaliação final. Filho do político baiano Afrísio Vieira Lima, o gordinho Geddel era um dos palhaços da turma. Chegava no colégio dirigindo um Opala verde, o que despertava atenção das meninas e a inveja dos meninos — que davam o troco chamando-o de “Suíno”. Tinha sempre uma piada na ponta da língua; as matérias, nem sempre.
— Eu vou ser político!
O jeitão expansivo garantia popularidade entre os colegas, mas não unanimidade. “Ele é in-su-por-tá-vel!”, justifica Renato para Maria Inês, dividindo as sílabas de forma enfática, ao sentenciar a proibição da entrada de Geddel em seu grupo.
A preparação do trabalho consome semanas. A pesquisa, concentrada no acervo guardado por Renato em seu quarto, inclui o detalhamento de aspectos controversos da biografia de ídolos do rock. Ao estudar a trágica trajetória de Janis Joplin e Jimi Hendrix, Renato comenta com Inês:
— Como é que pode alguém se drogar para fazer música?
As tardes de pesquisa, porém, não resultam apenas em fonte de inquietação sobre os destinos erráticos das estrelas do rock. Na parte mais divertida da preparação do trabalho, Inês observa o amigo escolher um disco, colocá-lo na vitrola e iniciar o show particular. Renato canta junto, faz solos imaginários de guitarra, dedilha violão, imita os artistas que se revezam no toca-discos. Reproduz o falsete de Elton John. “And I think it’s gonna be a long, long time…”, dubla o refrão de “Rocket Man”, do cantor e pianista inglês. Também capricha no tom grave da voz para imitar Elvis Presley — sem êxito. A amiga achou que estava escutando Jerry Adriani.
Mesmo sem a parte da dublagem, estrategicamente esquecida na 303 Sul, Renato e Inês recebem nota máxima pelo trabalho. Mais: são convidados a bisar a apresentação, dessa vez no auditório do Marista, diante de alunos de outras turmas do segundo grau. Além da explanação verbal, proporcionam aos colegas uma experiência audiovisual. Coladas em cartolinas, fotografias de ídolos do rock (selecionadas do acervo particular do líder do grupo) são exibidas enquanto o auditório é sacudido por trechos de clássicos do gênero, cuidadosamente pinçados e gravados em fitas cassete. Para aumentar a dramaticidade, Renato faz questão de resumir em frases de efeito, pronunciadas em tom incisivo, os pontos-chave das ideias defendidas no trabalho. Terminada a apresentação, começa o debate. Uma das colegas critica o rock e defende a MPB como porta-voz dos anseios da juventude brasileira. Diante do auditório lotado, Renato rebate:
— O rock é um movimento musical que revolucionou a música popular porque é o único gênero feito por jovens e para os jovens. Por isso, se tornou sinônimo de rebeldia.
Aplausos dos colegas e dos professores. Graças à convicção e ao conhecimento de rock, Renato passa com louvor no primeiro teste de popularidade diante de uma audiência imprevisível. Nada mau para um aluno até então notado nos corredores apenas pelas espinhas e muletas. Com ajuda de Inês, Elvis, Janis e Hendrix, Renato não era apenas mais um entre as centenas de alunos do segundo grau do Marista. Tinha deixado de ser invisível.”
Estes foram os contemplados com os prêmios na categoria Música Popular escolhidos pela comissão julgadora da Associação Paulista de Críticos de Arte, da qual faço parte. A novidade este ano é que além dos sete prêmios que são dados tradicionalmente, ainda teremos uma homenagem póstuma a Fernando Faro, entidade que carregou o programa Ensaio por décadas, que morreu no primeiro semestre deste ano.
Grande Premio Da Crítica: Rita Lee
Artista: Céu
Álbum: Metá Metá – MM3
Produção e Direção Artística: Rica Amabis, Daniel “Ganjaman” Takara e Tejo Damasceno (“Sabotage”, Sabotage)
Revelação: Mahmundi
Projeto Especial: SIM São Paulo
Show: BaianaSystem
Homenagem: Fernando Faro (In Memorian)
Escrevi no meu blog no UOL sobre o porque do remake de Westworld, produção de JJ Abrams e Johnathan Nolan, já poder ser considerada a melhor série de 2016.
E a HBO conseguiu mais uma vez. Westworld vem superando todas as expectativas, episódio a episódio, e caminha para se tornar o grande evento da TV em 2016, fazendo a emissora recuperar-se do fiasco que foi a primeira temporada de Vinyl e a promissora mas fria The Night Of. Um enorme quebra-cabeças magistralmente montado em frente aos nossos olhos, intercalando a frieza de máquinas com o calor do velho oeste norte-americano, reinventando completamente uma premissa simples de um filme dos anos 70 para o século 21 e enfileirando monólogos magistrais, atuações impecáveis, cenas intensas, diálogos esclarecedores, teorias complexas e revelações sensacionais.
Para quem não está acompanhando, eis a breve premissa, sem spoilers: num futuro próximo existe um parque de diversões para adultos chamado Westword, em que você paga para viver como nos tempos mais selvagens do povo norte-americano, interagindo com robôs idênticos a seres humanos que ficam à disposição dos convidados. E esta disposição é degradante: os “anfitriões” (hosts, em inglês, como os androides são referidos na série) se tornam objetos para todo o tipo de humilhação que os convidados queiram praticar, e assim são tratados como meros objetos e quase sempre morrem mortes violentas – apenas para serem religados e voltar ao papel de escravo dos desejos alheios.
Mas algo acontece: os robôs aos poucos começam a entender sua própria condição. Acumulando memórias de suas vidas passadas, alguns dos protagonistas da série vão lentamente entendendo o que vivem e, cada um à sua maneira, vai despertando sua consciência e aprendendo a lidar com aquela nova realidade. Alguns simplesmente entram em parafuso e dão tilt – logo no primeiro episódio da série há um destes -, mas outros conseguem ir além. E poucos humanos conseguem perceber isso.
Isso é apenas a premissa inicial, o tabuleiro armado em que seus produtores desdobram cenas ousadas, violentas e emblemáticas, criando uma mitologia específica enquanto mostram personagens rasos lentamente sendo aprofundados. A partir disso, há um enorme e complexo jogo narrativo que faz o espectador perder-se em histórias que parecem acontecer simultanemente, mas que ocorrem em épocas diferentes – um truque genial que parte do princípio de que os robôs não envelhecem.
Sob esta premissa, há um duelo entre os criadores do parque, Arnold e Ford, que têm ideias distintas para aquele mundo robótico: enquanto o primeiro quer evoluir a inteligência artificial para a descoberta da consciência, o segundo considera isto perigoso e prefere apenas usar os seres sintéticos para “contar novas histórias”. Ford ganha a disputa e Westworld passa para as mãos de uma empresa chamada Delos, cujo interesse no parque vai muito além da gerência dos lucros gerados pelos visitantes e segue desconhecido. A série de dilemas éticos e morais abertos a partir desta disputa seria assunto para uma série apenas sobre isso, mas Westworld vai além.
Personagens como a cândida Dolores Abernathy vivida por Evan Rachel Wood, o assustador e admirável Robert Ford de Anthony Hopkins, o intrincado Bernard Lowe de Jeffrey Wright, a impressionante Maeve Millay da Thandie Newton e o Homem de Preto de Ed Harris humanizam e emocionam a história com atuações grandiosas e exigentes, Eval Rachel Wood e Thandie Newton especificamente brilham como poucas atuações na TV nesta década e até coadjuvantes como Hector Escanton do nosso Rodrigo Santoro, o William de Jimmi Simpson e a Clementine de Angela Sarafyan desequilibram bastante o seriado.
Tudo isso sendo orquestrado em cenas que transcendem gêneros e criam imagens impactantes para a cultura pop. Westworld consegue elevar o western para um patamar quase surreal, misturando orgias, canibalismo, religião e genocídios, aprofunda questões éticas tocadas apenas de forma superficial pela ficção científica moderna, atualiza os robôs para a era da impressão 3D e aposta na inteligência do espectador, proporcionando momentos de puro deleite narrativo (o final do oitavo episódio, por exemplo, já é um dos grandes momentos do ano na TV).
Os detalhes também são de tirar o fôlego: cenografia, direção de arte e trilha sonora mantém aquele padrão da emissora em que ela acerta mesmo quando as séries são ruins. A trilha especificamente é um achado: versões para músicas de Amy Winehouse, Radiohead, Rolling Stones, Animals, entre outros, tocadas naqueles pianos típicos de saloon (automatizados, como se fossem os primeiros robôs).
E por cima de tudo há um labirinto. Uma mapa literal que pode ser percorrido geograficamente mas também um jogo lógico que amplia o teste de Turing para uma realidade em que a inteligência artificial evolui como um fractal. Um desafio posto no coração da série tanto para seus protagonistas quanto para seus espectadores, que vai recompensando a cada novo episódio.
A primeira temporada da série termina no próximo domingo, quando seu décimo episódio vai ao ar (a HBO brasileira vem transmitindo os novos episódios exatamente à meia-noite entre o domingo e a segunda, com reprises na segunda às 21h) e tudo indica que teremos a conclusão de uma série de enigmas e mistérios abertos ao longo dos episódios anteriores – além de tantas outras perguntas que só serão respondidas na próxima temporada, já renovada para o ano que vem.
A esperteza da série vem do casamento de dois talentos: J.J. Abrams, o criador de Lost e Fringe, além de ter ressuscitado Jornada e Guerra nas Estrelas para o novo milênio, e Johnathan Nolan, responsável pelos roteiros dos filmes de seu irmão Christopher Nolan. O primeiro é mestre em instigar a curiosidade, provocar o espectador, abrir teorias e propor possibilidades. O segundo brinca com duplos sentidos, lineraridades temporais e sabe concluir bem as histórias. Os dois já haviam trabalhado juntos na ótima Person of Interest, uma série mais modesta em termos de produção e de narrativa, e agora podem ousar graças à liberdade dada pela HBO. Nolan chamou a esposa Lisa Joy (que já havia assinado as séries Pushing Dasies e Burn Notice) para ajudá-lo na criação daquele novo universo.
Até o fim da semana volto ao tema explicando ainda mais as teorias da série e mostrando como Westworld pode ser muito mais do que apenas a melhor série deste ano. Por enquanto recomendo que você que ainda não assistiu dê um jeito de ver os nove episódios antes do próximo domingo e você que está acompanhando comente a série abaixo. E já deixo de sobreaviso aos comentaristas incautos – por favor avisem sobre spoilers antes de fazer seus comentários sobre a série para não estragar a surpresa de quem não assistiu ainda.